EPISODE · Dec 21, 2023 · 15 MIN
7. Saïd Merabti: “A minha mãe, quando eu saía para brincar, dizia-me sempre, colocando o dedo na boca, 'nunca digas que somos harkis'”
from Em Memória da Memória · host MAPS - Pós-Memórias Europeias: Uma Cartografia Pós-Colonial
Em memória da memória, sentamo-nos com Saïd Merabti. A voz de Saïd Merabti é pausada e serena, seja quando evoca a sua infância na Argélia, onde nasceu em 1955, seja quando recorda a mudança para França, o país onde o seu pai se refugiou com a família em 1962, depois de proclamada a independência. O seu pai era harki. O termo, Saïd explica-lo-á, refere-se a uma pessoa, frequentemente de origem argelina, que colaborou com o exército francês durante a guerra da independência da Argélia. As vivências dos anos da juventude nos bairros do norte de Marselha e aquelas que experienciou já na idade adulta fizeram-no um defensor da cultura berbere, um ativista antirracista e um cidadão ativo na criação, em França, de associações de harkis ou de familiares de harkis. Estima-se que perto de 60 mil harkis tenham ido para França depois da independência da Argélia. Aí, as suas condições de vida foram muito precárias, originando o sentimento de que eram desprezados, esquecidos e maltratados. Esta questão, que pode ser encarada como uma ferida ainda aberta, levou a que em 2021 o chefe de Estado francês pedisse publicamente desculpa a harkis e seus descendentes, a quem prometeu reconhecimento, reparações e reconciliação, embora sem adiantar grandes detalhes sobre como se iria desenrolar esse processo. A respeito destas e de outras difíceis heranças, ouçamos Saïd Merabti. A realização é de Inês Nascimento Rodrigues, a edição de som de José Gomes e a imagem gráfica de Márcio de Carvalho. A voz de Saïd Merabti é dobrada por Júlio Gomes. Indicativo: voz de Rui Cruzeiro e música original da autoria de XEXA. Algumas sugestões de leitura: Ribeiro, Margarida Calafate; Cruz Rodrigues, Fátima (2022), Des-Cobrir a Europa - Filhos de Impérios e Pós-memórias Europeias. Porto: Afrontamento. Ribeiro, Margarida Calafate (2021), “Colonialismo, Descolonização, Pós-colonialismo - De Patrice Lumumba a Rhodes Must Fall”, in António Sousa Ribeiro (org.), A cena da pós-memória. O presente do passado na Europa pós-colonial. Porto: Afrontamento, 29-52. Rodrigues, Fátima da Cruz (2021), “Filhos de memórias encobertas”, in António Sousa Ribeiro (org.), A cena da pós-memória. O presente do passado na Europa pós-colonial. Porto: Afrontamento, 147-166. Vilar, Fernanda (2020), “Documentos falsos. Documentos salvos”, Memoirs newsletter, 86.
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Em memória da memória, sentamo-nos com Saïd Merabti. A voz de Saïd Merabti é pausada e serena, seja quando evoca a sua infância na Argélia, onde nasceu em 1955, seja quando recorda a mudança para França, o país onde o seu pai se refugiou com a família em 1962, depois de proclamada a independência. O seu pai era harki. O termo, Saïd explica-lo-á, refere-se a uma pessoa, frequentemente de origem argelina, que colaborou com o exército francês durante a guerra da independência da Argélia. As vivências dos anos da juventude nos bairros do norte de Marselha e aquelas que experienciou já na idade adulta fizeram-no um defensor da cultura berbere, um ativista antirracista e um cidadão ativo na criação, em França, de associações de harkis ou de familiares de harkis. Estima-se que perto de 60 mil harkis tenham ido para França depois da independência da Argélia. Aí, as suas condições de vida foram muito precárias, originando o sentimento de que eram desprezados, esquecidos e maltratados. Esta questão, que pode ser encarada como uma ferida ainda aberta, levou a que em 2021 o chefe de Estado francês pedisse publicamente desculpa a harkis e seus descendentes, a quem prometeu reconhecimento, reparações e reconciliação, embora sem adiantar grandes detalhes sobre como se iria desenrolar esse processo. A respeito destas e de outras difíceis heranças, ouçamos Saïd Merabti. A realização é de Inês Nascimento Rodrigues, a edição de som de José Gomes e a imagem gráfica de Márcio de Carvalho. A voz de Saïd Merabti é dobrada por Júlio Gomes. Indicativo: voz de Rui Cruzeiro e música original da autoria de XEXA. Algumas sugestões de leitura: Ribeiro, Margarida Calafate; Cruz Rodrigues, Fátima (2022), Des-Cobrir a Europa - Filhos de Impérios e Pós-memórias Europeias. Porto: Afrontamento. Ribeiro, Margarida Calafate (2021), “Colonialismo, Descolonização, Pós-colonialismo - De Patrice Lumumba a Rhodes Must Fall”, in António Sousa Ribeiro (org.), A cena da pós-memória. O presente do passado na Europa pós-colonial. Porto: Afrontamento, 29-52. Rodrigues, Fátima da Cruz (2021), “Filhos de memórias encobertas”, in António Sousa Ribeiro (org.), A cena da pós-memória. O presente do passado na Europa pós-colonial. Porto: Afrontamento, 147-166. Vilar, Fernanda (2020), “Documentos falsos. Documentos salvos”, Memoirs newsletter, 86.
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7. Saïd Merabti: “A minha mãe, quando eu saía para brincar, dizia-me sempre, colocando o dedo na boca, 'nunca digas que somos harkis'”
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