EPISODE · Apr 24, 2026 · 2H 56M
A inteligência de ficar para último. Outra conversa com Patrícia Câmara
from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
Exaustos de seres virados do avesso, sem interior, protagonistas incapazes de se despirem no escuro, trabalhando essa luz desesperada que vai de escândalo em escândalo, tínhamo-nos procurado retirar entre aquilo que nos restava, gestos roubados dos longos filmes, como os víramos em miúdos, a clareza que nos diz que a violência é como a poesia, pois não se corrige, antes aceita o desastre, capaz de ir até ao fim. Andávamos à procura disso a que antes chamavam realidade, e que parecia fixar a fronteira para o que é exterior e não se deixa comover facilmente. Mas o mais difícil de suportar era a companhia de uma gente que participava por meio de charadas inconsequentes e de ausências cada vez mais prolongadas. Éramos à vez as personagens castigadas uns dos outros, amolecidas ou rudes, um pouco ridículas, irritantes, a duas dimensões, consoante a perspectiva, respirando um ar demasiado artificial, numas macaqueações patéticas, sempre um tanto presunçosos, estéreis, vagamente cultos, empertigados, meio delirantes, e tão cansativos, parecia que faltava aquela genialidade generosa de quem é capaz de escutar dos outros o que não traz já em si, previsto, devastado, alguém que desse as graças a deus nenhum senão esse que nos serve algo além da frivolidade, um abandono propício. Nesse ambiente, como era de esperar, triunfavam o género de narradores medianos, voluntariosos, que nos vinham com as variações degradadas do que em tempos nos causara um espanto geral. Com essa mediania voluntariosa, diluíam tudo, até perdermos o sabor daquilo que tínhamos vivido. Só a experiência poderia ensinar àquele que nos habituávamos a perder, abdicando dele a favor de fantasias miseráveis, um movimento decisivo na imensa matéria anónima incapaz de remediar toda a desordem que já não responde por nenhum plano. Estávamos sufocados ao ponto de não sabermos o que restara depois de destruirmos os nossos hábitos (e em nome do quê?), até aqueles simples cuidados de tradução, de decifração, alguns costumes de inteligência, que justificam o empenho em não perder inteiramente o contacto com a maldosa existência dos adultos. Basta pensar no breve ritual diário em que tantos homens com uma posição a defender fazem o nó da gravata, muitas vezes ao espelho, ensaiando a expressão com que se recomendam ao mundo. Além de uma possibilidade de introspecção, com aqueles gestos parecem dar-se a possibilidade de reconhecer esse módico de risco e sacrifício, um sinal que os aparenta aos enforcados, ou o vestígio de uma trela que se ostenta entre o pescoço e a cintura, como se toda a ambição os fizesse incorrer nessa espécie de redil, nesse sufoco comum de quem aceita todos esses rigores, obrigando-se a flutuar num mar de prescrições, de códigos e de maquinações religiosas, se pensarmos como cada um rezava intimamente ao deus das vinganças, a um desejo de uma ordem ainda mais sórdida, da qual pudéssemos sair a ganhar. Parecia que todo o talento se havia concentrado de forma obsessiva e mesquinha, e, desse modo, tantos passavam o seu tempo a inventar subdivisões, escalões nos quais uns e outros pudessem subir e descer. Tínhamo-nos imposto um jogo inextricável de distâncias sociais em que toda a gente se introduzia e se reconhecia com uma destreza maravilhosa, degraus hierárquicos, competências infinitamente cruéis, rituais absorventes, que dissipavam toda a nossa capacidade de suspensão, de nos destacarmos face a nós mesmos e àquela trama. Mas uma vez por outra, alargando-se num gesto até ele perder qualquer propósito imediato, havia alguns que se conseguiam lembrar daquela ambição de nos tornarmos anacrónicos, sermos como que desviados por acasos, e víamo-nos a inscrever frases tão soltas, nas quais nada era prescrito, nada parecia proibido, nem a modéstia ou o deboche. Perante a ausência de deuses e de anjos, de categorias menos quantificáveis, achávamo-nos de súbito tão pobres, despojados dos símbolos da piedade e das leis, dos catecismos, dos cultos, das palavras de ordem. Tinha sido para isso que havíamos começado a inscrever aqueles signos, sinais de uma pobreza que ansiava por se livrar do excesso de palavras, recolhendo a cada momento só aquelas que pareciam ter uma capacidade de suspender, não presumir mais nada. As mesas podiam não estar dispostas ao mesmo tempo num mesmo espaço, mas criavam um ambiente, uma zona intermédia, onde as máquinas de escrever iam inscrevendo sem descanso esses sinais negros, com a existência daquelas pessoas a consistir num esforço de combiná-los, desfazê-los, recombiná-los, tentando resgatar algo, uma experiência, fazer valer a sua teimosia, sendo raros aqueles que podiam desgastar-se e entorpecer as suas ânsias, dando-se liberdade para registar essas necessidades estranhas à sua vontade, aos seus desejos, tudo aquilo que nos outros chega a parecer calamitoso, a forma como nos assaltam com as suas projecções, constrangendo esse itinerário tão certo no qual parecíamos investidos, ao desenhar percursos enleados não esperando outra coisa, mais nada senão essas desgraças comuns com que nos servimos a pior justificação dos nossos fracassos. Assim, testemunhamos a uma distância fria, tão cruenta e pouco clarividente, apagando a própria vertigem à qual cada um se entrega. Ao mesmo tempo era esse encadeamento implausível que nos permitia imaginar que pudesse chegar-se a outra coisa. Vínhamos à superfície não se sabe bem do quê, para respirar um outro ar… Em vez desses questionários e folhas de controlo de estrangeiros, alguém teria inscrito na margem de um formulário a frase: “Poemas são novos temas.” (Wallace Stevens). Contra a fadiga, a demanda do inexplicável, explorávamos outros processos de habituação. A ignorância poderia então ser resgatada como uma fonte, não para uma violência de qualquer ordem contra o outro, mas uma zona na qual todos pudessem tomar, à sua maneira, partido na mudança social desde que essa fosse suficientemente profunda de modo a não nos ser tão castigador andarmos ali sem saber ao certo que diabo andamos a perseguir. O pior é quando eles querem falar de revolução como se se pudesse saber à partida onde esse percurso tão arriscado nos pode levar. Tornam-se, cada um à sua maneira, agiotas de qualquer processo de transformação, ou os seus executores impiedosos, com cada vez menos margem para contemplações, para castelos e pássaros de uma outra imaginação, aquilo que ainda não tem forma e que, ainda assim, persiste por aí pela capacidade que tem de nos proteger. Desde logo uns dos outros. Se não for possível coagirmo-nos a explicar exactamente os termos daquilo em que estamos empenhados, então a busca continua em aberto. O pior são estes que se dizem radicais e o são, mas apenas na medida em que forçam tudo à confissão mais degrada de si mesmo, e logo nos garantem que não valia a pena tanto esforço, que estávamos só a querer complicar as coisas. Percebe-se que estudaram em esquadras da polícia, e mostram-nos os seus galardões odiosos, os diplomas, os níveis que foram alcançando com a sua veterania da peste e da lepra, no grau zero da fidelidade, que é não se guiar por ideais, nem objectivos, mas pela inscrição numa hierarquia torcionária qualquer. A poesia é um modo de andar junto às portas, a coleccionar sinais dessa dor no silêncio das vidas perdidas, aqueles sinais que denunciam uma realidade cada vez mais difícil de se abrir para fora. “Que a porta do meu quarto se feche/ para sempre, e ainda que sejas/ tu que ela não se abra”, segundo a tradução sensível de Bolaño a partir dos versos de Sá-Carneiro. Fora destes eixos omissos, a cada dia, a verdade apenas emerge como um cadáver. Nada chega a acordar-nos completamente, como se só a nós mesmos pudéssemos ter por flashes, raros momentos em que alguma coisa nos fazia vir à tona… “como os guinchos longínquos de um bando de pássaros, sinal inequívoco de que uma parte da minha consciência ainda sonhava ou voluntariamente não queria sair do labirinto dos sonhos, esse campo de Marte onde se esconde o jovem envelhecido e onde se escondem os poetas mortos que então viviam e que da iminência certa do seu esquecimento erguiam no interior da abóbada craniana a miserável cripta dos seus nomes, das suas silhuetas recortadas em cartão negro, das suas obras demolidas”… (Nocturno Chileno). Na véspera de uma data memorável, mas em que nos parece cada vez mais difícil chegarmos a um pacto, a algum acerto quanto aos motivos principais, damo-nos conta de como todos os bens do mundo depressa se vão da memória. A realidade tornou‑se uma espécie de luz cansada, um brilho que já não ilumina nada, apenas denuncia a própria exaustão. Vivemos rodeados de objectos que nos dizem “aqui está o mundo”, mas o mundo já não está aí – apenas o seu reflexo tardio, replicado até à vertigem. A crise epistémica não é um acidente: é o efeito natural de um universo onde a verdade perdeu a gravidade e começou a flutuar como lixo espacial, orbitando sem destino, colidindo ocasionalmente com as nossas percepções fatigadas. Já não há o peso de um real partilhado, mas apenas uma coreografia digitalmente coreografada, onde cada gesto é eco de outro eco, e o sujeito dança sem saber se o ritmo vem de dentro ou de um algoritmo qualquer capaz de operar até cada um de nós se desfazer do pássaro rouco da sua consciência. Neste episódio, e para voltarmos a operar a partir de termos com alguma força de persistência, uma gravidade que, por si mesma, afine as nossas percepções, prepare a cerimónia de um pacto, quisemos ter uma vez mais connosco Patrícia Câmara, psicoterapeuta e psicanalista, ouvidora em profundidade, alguém que se habituou a essa infinita e generosa paciência de esperar pelos outros, de manchar com um resíduo de presença cada esquina que ficará depois a nosso favor, para as cruzarmos pela ordem que nos venha a ser mais favorável, como esses vagabundos em que nos tornamos assim que se torna preciosa para nós a nossa queda irremissível.
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