EPISODE · Apr 24, 2026 · 59 MIN
A Memória em Tempos de Cerco - Uma Conversa com Miguel Cardina
from Germinal · host Germinal
A peça Catarina e a beleza de matar fascistas, de Tiago Rodrigues, tem como premissa uma tensão entre o passado e um presente ameaçador que anuncia uma ideia de retorno, e depois evidentemente como reagir a isso. O ponto relevante aqui, é que tudo isto está instalado numa memória muito específica, comprometida com a revolução de abril e o antifascismo. Embora esta memória nunca tenha sido partilhada por todos os setores da sociedade, é visível nos últimos anos um confronto direto à valorização do nosso processo revolucionário e aos ideais em que este é edificado. Na peça, Catarina mãe diz à Catarina filha que tudo começou com a “opiniãozinha”, mas isso não é bem verdade. Esta ideia tem como subjacente uma certa naturalidade na ascensão da extrema-direita, como se se tratasse de um movimento autónomo que tinha como garantido o seu sucesso. A verdade é que tem ficado claro, em Portugal e no mundo, uma interveniência ativa de uma série de setores da sociedade e organizações mediáticas, que simpatizam ou vêem utilidade na convergência com a extrema-direita (quando não são elas próprias constituintes da mesma). Nesse sentido, temos visto uma afirmação rápida da extrema-direita e do seu projecto de sociedade, e com isso uma necessidade de interferir nas políticas de memória. Além de uma dominação discursiva e da narrativa que cada vez inverte mais o paradigma, temos observado no últimos tempos uma tentativa institucional de produzir uma memória alternativa - Sendo os exemplos mais paradigmáticos disso as cerimónias de comemoração do 25 de Novembro, a desvalorização do 25 de Abril como data de Estado e o afastamento da Rita Rato da direcção do Museu do Aljube, com tudo o que isso acarreta. Assim, achámos pertinente dedicar o mês de Abril a uma discussão que centraliza a memória e os usos do passado, tendo em conta a mudança de paradigma que enfrentamos. É importante realizarmos uma discussão, analisar a realidade e construir uma resposta. Para esta reflexão temos Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Coordenou o projeto de investigação «CROME – Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times», financiado pelo ERC (European Research Council). É autor ou coautor de vários livros, capítulos e artigos sobre colonialismo, anticolonialismo e guerra colonial; história das ideologias políticas nas décadas de 1960 e 1970; e dinâmicas entre história e memória.
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A peça Catarina e a beleza de matar fascistas, de Tiago Rodrigues, tem como premissa uma tensão entre o passado e um presente ameaçador que anuncia uma ideia de retorno, e depois evidentemente como reagir a isso. O ponto relevante aqui, é que tudo isto está instalado numa memória muito específica, comprometida com a revolução de abril e o antifascismo. Embora esta memória nunca tenha sido partilhada por todos os setores da sociedade, é visível nos últimos anos um confronto direto à valorização do nosso processo revolucionário e aos ideais em que este é edificado. Na peça, Catarina mãe diz à Catarina filha que tudo começou com a “opiniãozinha”, mas isso não é bem verdade. Esta ideia tem como subjacente uma certa naturalidade na ascensão da extrema-direita, como se se tratasse de um movimento autónomo que tinha como garantido o seu sucesso. A verdade é que tem ficado claro, em Portugal e no mundo, uma interveniência ativa de uma série de setores da sociedade e organizações mediáticas, que simpatizam ou vêem utilidade na convergência com a extrema-direita (quando não são elas próprias constituintes da mesma). Nesse sentido, temos visto uma afirmação rápida da extrema-direita e do seu projecto de sociedade, e com isso uma necessidade de interferir nas políticas de memória. Além de uma dominação discursiva e da narrativa que cada vez inverte mais o paradigma, temos observado no últimos tempos uma tentativa institucional de produzir uma memória alternativa - Sendo os exemplos mais paradigmáticos disso as cerimónias de comemoração do 25 de Novembro, a desvalorização do 25 de Abril como data de Estado e o afastamento da Rita Rato da direcção do Museu do Aljube, com tudo o que isso acarreta. Assim, achámos pertinente dedicar o mês de Abril a uma discussão que centraliza a memória e os usos do passado, tendo em conta a mudança de paradigma que enfrentamos. É importante realizarmos uma discussão, analisar a realidade e construir uma resposta. Para esta reflexão temos Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Coordenou o projeto de investigação «CROME – Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times», financiado pelo ERC (European Research Council). É autor ou coautor de vários livros, capítulos e artigos sobre colonialismo, anticolonialismo e guerra colonial; história das ideologias políticas nas décadas de 1960 e 1970; e dinâmicas entre história e memória.
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