EPISODE · Dec 27, 2025 · 10 MIN
Bombardino e Serelepe - choros de João Reis dos Santos - Epsódio 2 - temporada 2 - Flavia Prando
from Histórias dos Violões na Velha São Paulo · host Flavia Prando
Olá, pessoal, sejam muito bem-vindos.No episódio de hoje, seguimos acompanhando o violão na São Paulo das décadas de 1920 e 1930 para conhecer dois choros curtos de João Reis dos Santos: Bombardino e Serelepe.São peças breves em duração, mas densas em significado. Elas revelam um compositor em trânsito — entre o Rio de Janeiro e São Paulo, entre diferentes modos de escrever choro — que encontrou no ambiente paulista um terreno fértil para sua atividade musical.Embora João dos Santos tenha nascido no Rio de Janeiro, em 1886, foi em São Paulo que sua obra circulou com força, ganhou público e se misturou à prática local do violão, a ponto de Hermínio Bello de Carvalho citá-lo como músico paulista. Essa “adoção” diz muito: João atuou intensamente no circuito musical da capital, tocando, ensinando, organizando programas e participando de conjuntos que animavam a vida cultural da cidade, além de manter presença constante em Campinas e Santos.Na imprensa da época, ele aparece como um músico ativo, requisitado e com repertório próprio — alguém que circulava com desenvoltura entre o rádio, as salas de concerto, o ensino e a publicação de partituras. Também integrava redes coletivas, tocando em formações conjuntas e participando de concursos e audições públicas.Essa vida em movimento se reflete na escrita musical. João compôs tanto choros mais longos, em forma rondó, associados à tradição carioca, quanto choros curtos, em forma ABA — mais concisos e geralmente mais lentos. Esse segundo modelo é identificado por Manoel Corrêa do Lago como uma marca do choro paulistano.É justamente nesse universo que se situam Bombardino e Serelepe.Bombardino, publicado no Volume 3 da coleção Violões na Velha São Paulo, é um choro em duas partes, de escrita econômica e precisa. Alternando registros do instrumento, a peça constrói um balanço discreto, com pequenos arpejos e diálogos entre baixo e agudo.Serelepe, presente no Volume 1 da coleção, também é um choro curto, mas com outra energia. Leve, ágil e cheio de movimento, explora saltos de posição e contrastes rápidos, como se traduzisse a vivacidade de uma cidade em aceleração. Há ali também uma ponta do humor musical de João, conhecido por surpreender colegas com soluções inesperadas.Curiosamente, “Serelepe” era também o apelido de um violonista atuante no mesmo período, figura hoje quase anônima, mas registrada na imprensa. A coincidência revela como esses ambientes se cruzavam e como certos nomes e apelidos circulavam entre os músicos da época.No conjunto, Bombardino e Serelepe formam um pequeno díptico sonoro da São Paulo dos anos 1920: dois choros curtos, contrastantes e cheios de personalidade. Eles carregam a marca de um compositor carioca que foi plenamente incorporado à estética paulistana — e que também ajudou a moldá-la.Seguimos, assim, reativando um repertório que permaneceu silencioso por décadas, mas que hoje volta a ser ouvido e estudado.Ouçam Bombardino e Serelepe. As gravações estão disponíveis no Spotify e nas demais plataformas digitais.Eu sou Flavia Prando e agradeço a companhia em mais um episódio. Até a próxima.O podcast, narrado e produzido por Flavia Prando, conta com dramatizações de Artur Mattar, voice-over de Biancamaria Binazzi e trilhas cuidadosamente selecionadas para acompanhar a narrativa, proporcionando uma experiência sonora rica e contextualizada da história musical paulista.
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Olá, pessoal, sejam muito bem-vindos.No episódio de hoje, seguimos acompanhando o violão na São Paulo das décadas de 1920 e 1930 para conhecer dois choros curtos de João Reis dos Santos: Bombardino e Serelepe.São peças breves em duração, mas densas em significado. Elas revelam um compositor em trânsito — entre o Rio de Janeiro e São Paulo, entre diferentes modos de escrever choro — que encontrou no ambiente paulista um terreno fértil para sua atividade musical.Embora João dos Santos tenha nascido no Rio de Janeiro, em 1886, foi em São Paulo que sua obra circulou com força, ganhou público e se misturou à prática local do violão, a ponto de Hermínio Bello de Carvalho citá-lo como músico paulista. Essa “adoção” diz muito: João atuou intensamente no circuito musical da capital, tocando, ensinando, organizando programas e participando de conjuntos que animavam a vida cultural da cidade, além de manter presença constante em Campinas e Santos.Na imprensa da época, ele aparece como um músico ativo, requisitado e com repertório próprio — alguém que circulava com desenvoltura entre o rádio, as salas de concerto, o ensino e a publicação de partituras. Também integrava redes coletivas, tocando em formações conjuntas e participando de concursos e audições públicas.Essa vida em movimento se reflete na escrita musical. João compôs tanto choros mais longos, em forma rondó, associados à tradição carioca, quanto choros curtos, em forma ABA — mais concisos e geralmente mais lentos. Esse segundo modelo é identificado por Manoel Corrêa do Lago como uma marca do choro paulistano.É justamente nesse universo que se situam Bombardino e Serelepe.Bombardino, publicado no Volume 3 da coleção Violões na Velha São Paulo, é um choro em duas partes, de escrita econômica e precisa. Alternando registros do instrumento, a peça constrói um balanço discreto, com pequenos arpejos e diálogos entre baixo e agudo.Serelepe, presente no Volume 1 da coleção, também é um choro curto, mas com outra energia. Leve, ágil e cheio de movimento, explora saltos de posição e contrastes rápidos, como se traduzisse a vivacidade de uma cidade em aceleração. Há ali também uma ponta do humor musical de João, conhecido por surpreender colegas com soluções inesperadas.Curiosamente, “Serelepe” era também o apelido de um violonista atuante no mesmo período, figura hoje quase anônima, mas registrada na imprensa. A coincidência revela como esses ambientes se cruzavam e como certos nomes e apelidos circulavam entre os músicos da época.No conjunto, Bombardino e Serelepe formam um pequeno díptico sonoro da São Paulo dos anos 1920: dois choros curtos, contrastantes e cheios de personalidade. Eles carregam a marca de um compositor carioca que foi plenamente incorporado à estética paulistana — e que também ajudou a moldá-la.Seguimos, assim, reativando um repertório que permaneceu silencioso por décadas, mas que hoje volta a ser ouvido e estudado.Ouçam Bombardino e Serelepe. As gravações estão disponíveis no Spotify e nas demais plataformas digitais.Eu sou Flavia Prando e agradeço a companhia em mais um episódio. Até a próxima.O podcast, narrado e produzido por Flavia Prando, conta com dramatizações de Artur Mattar, voice-over de Biancamaria Binazzi e trilhas cuidadosamente selecionadas para acompanhar a narrativa, proporcionando uma experiência sonora rica e contextualizada da história musical paulista.
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