P

EPISODE · Nov 17, 2024

LATE NIGHT JUNCTION

from Postcards.from.Bodyland · host www.terracorpo.pt

 by Jorge Vicente00:00:01 Surma | Uppruni00:02:51 Jorge Vicente | Violet – Parte I (Ema Alba Lobo)00:04:20 Ala dos Namorados| Rosa Negra 00:07:53 Novos Baianos | Acabou Chorare00:11:59 Martin and Blane | That's How I Love the Blues 00:15:58 Jorge Vicente | Violet – Parte II (Ema Alba Lobo)00:16:26 Red Norvo & His Orchestra | Remember 00:19:34 The Chantels | My Memories of You00:21:43 The Marvelettes | Happy Days 00:23:42 Derek & The Dominos | I Am Yours 00:27:10 The Charts | Why Do You Cry 00:29:30 Johnny Ace | Pledging My Love 00:31:53 The Aquatones | You 00:33:49 Jorge Vicente | Violet – Parte III (Ema Alba Lobo)00:34:36 The Nutmegs | My Sweet Dream 00:36:43 The Jesters | The Wind 00:39:58 Little Caesar & The Romans | Adorable 00:42:18 The Shirelles | Lonely Teardrops 00:44:54 Jorge Vicente | Violet – Parte IV (Ema Alba Lobo)00:45:59 The Ronettes | Walking In The Rain00:49:02 Angel Olsen | Who's Sorry Now 00:51:17 Jorge Vicente | Violet – Parte V (Ema Alba Lobo)00:52:42 Tarnation | Two Wrongs Won't Make Things RightVIOLETesqueço-me de abrir as portas do carro. elas estão presas ao pó que circunda o pátio da casa. vou sair. ligo o ar condicionado e espero que a rádio transmita aquelas palavras que, muitas vezes, repetem ao longo da manhã. bom dia. o trânsito está encerrado na estrada 43 e não é bom dia para passear. melhor seria ficar em casa e comemorar a solidão, olhando as pequenas folhas que teimam em se movimentar em pequenos círculos, como se puxadas por um cordel imaginário. lá fora, vivem as pessoas e o seu estranho círculo de relações. ligo o carro e aperto o cadafalso à pedra. muita distância separa o teu corpo das inúmeras sensações que o prazer provoca, mesmo que este seja uma forma nada subtil de enganar a solidão. aperto-me ainda mais na sensação de ter de me movimentar estrada fora e admirar as mulheres que me pedem para adormecer num diner triste e decadente. é lá que vivem as mulheres que querem partir para a estrada 43 sem, ao menos, se importarem se estão despidas ou se são apenas aquilo que a rádio espera que elas sejam: as futuras estrelas do conglomerado urbano.páro o carro. meto gasolina e vou embora. não. me apetece levar alguém comigo, mesmo que seja inocente e não se possa deter na estranha forma das pessoas viverem o corpo. nesta cidade, não existe dimensão nenhuma que seja de fácil percepção. tudo se resume ao modo como as pessoas fogem. a estrada é apenas o meio. e não o fim.chama-se violet e tem nome de flor. e também o nome do chakra de ligação com deus, mas talvez não seja isso porque deus não tem corpo e as flores não têm mais nenhum cheiro do que aquele que movimenta o ecossistema das plantas. apetece-me fodê-la. não a flor, mas a rapariga que tudo abarca e que tem o corpo junto à porta do carro. para onde partes. para a califórnia. procurar ouro. não. não procuro ouro nem viagens xamânicas ao deserto. entra. ela entrou. escusado será dizer que não falámos nada. os meus pensamentos falaram tudo. nunca me dirigi a alguém com estrelas nos olhos, mas a quem não tinha nada a perder, como eu.levei-a a casa. fez as malas rapidamente, apenas com o essencial. e partimos. nunca prometas nada que não possa ser cumprido, se quiseres podes cortar o mundo às postas e transformar o meu pequeno mundo numa selva de esperma e de calos. não falo nada. apenas penso. mas penso com o lado iluminado do meu rosto. olho a paisagem que se desenrola como um filme. ela adormece. a rádio ilumina as árvores que se estendem no limiar das casas. who's sorry now. angel olsen. uma pauta no silêncio numinoso da paisagem americana. nunca é demasiado discreto pedir o amor quando ele só pode dar a solidão. aproximo a mão da pele e os olhos fecham-se e abrem-se. o olhar é uma flor desgastada que se abre quando pressionada pelo toque da pele. tudo se resume ao fogo do prazer e ao movimento da estrada.páro o carro e saio para fora. o corpo e mais a pele. já é noite acendida e os carros movimentam-se como faróis no meio do mar e dos peixes. os peixes somos nós. que abrem a boca quando querem ejacular o líquido amniótico que se esquecem de escrever enquanto crianças. tiro as calças e deixo que ela engula o que restou de mim enquanto estive na casa. e o que sair será para ela uma forma encantatória de enganar a solidão. porque provavelmente o amor será apenas isso, quando engolimos e deixamos sair. e vomitamos. e voltamos ao estado do leite virginal. e deixamos que o corpo se relembre disso. até cairmos e termos a sensação de que acabámos com a inocência de quem queria apenas partir e não jogar o seu futuro nas estradas e nos corpos alheios. o corpo é só nosso quando perdoamos as nossas faltas. e se a solidão e o amor são o lamaçal da pele, nunca deixamos de ser cadáveres. e fodemos pelos nossos mortos como fodemos pelo nosso sabor metálico. mas lá estou eu a pensar. provavelmente, é mesmo amor, mas com uma diferente intensidade. a partilha da pele e do esperma. só a nossa inocência é que sabe.Jorge VicenteFotografia de Robby Müller, "Santa Fe, Mexico", 1985.MP3www.terracorpo.pt

by Jorge Vicente 00:00:01 Surma | Uppruni 00:02:51 Jorge Vicente | Violet – Parte I (Ema Alba Lobo) 00:04:20 Ala dos Namorados| Rosa Negra  00:07:53 Novos Baianos | Acabou Chorare 00:11:59 Martin and Blane | That's How I Love the Blues  00:15:58 Jorge Vicente | Violet – Parte II (Ema Alba Lobo) 00:16:26 Red Norvo & His Orchestra | Remember  00:19:34 The Chantels | My Memories of You 00:21:43 The Marvelettes | Happy Days  00:23:42 Derek & The Dominos | I Am Yours  00:27:10 The Charts | Why Do You Cry  00:29:30 Johnny Ace | Pledging My Love  00:31:53 The Aquatones | You  00:33:49 Jorge Vicente | Violet – Parte III (Ema Alba Lobo) 00:34:36 The Nutmegs | My Sweet Dream  00:36:43 The Jesters | The Wind  00:39:58 Little Caesar & The Romans | Adorable  00:42:18 The Shirelles | Lonely Teardrops  00:44:54 Jorge Vicente | Violet – Parte IV (Ema Alba Lobo) 00:45:59 The Ronettes | Walking In The Rain 00:49:02 Angel Olsen | Who's Sorry Now  00:51:17 Jorge Vicente | Violet – Parte V (Ema Alba Lobo) 00:52:42 Tarnation | Two Wrongs Won't Make Things Right VIOLET esqueço-me de abrir as portas do carro. elas estão presas ao pó que circunda o pátio da casa. vou sair. ligo o ar condicionado e espero que a rádio transmita aquelas palavras que, muitas vezes, repetem ao longo da manhã. bom dia. o trânsito está encerrado na estrada 43 e não é bom dia para passear. melhor seria ficar em casa e comemorar a solidão, olhando as pequenas folhas que teimam em se movimentar em pequenos círculos, como se puxadas por um cordel imaginário. lá fora, vivem as pessoas e o seu estranho círculo de relações. ligo o carro e aperto o cadafalso à pedra. muita distância separa o teu corpo das inúmeras sensações que o prazer provoca, mesmo que este seja uma forma nada subtil de enganar a solidão. aperto-me ainda mais na sensação de ter de me movimentar estrada fora e admirar as mulheres que me pedem para adormecer num diner triste e decadente. é lá que vivem as mulheres que querem partir para a estrada 43 sem, ao menos, se importarem se estão despidas ou se são apenas aquilo que a rádio espera que elas sejam: as futuras estrelas do conglomerado urbano. páro o carro. meto gasolina e vou embora. não. me apetece levar alguém comigo, mesmo que seja inocente e não se possa deter na estranha forma das pessoas viverem o corpo. nesta cidade, não existe dimensão nenhuma que seja de fácil percepção. tudo se resume ao modo como as pessoas fogem. a estrada é apenas o meio. e não o fim. chama-se violet e tem nome de flor. e também o nome do chakra de ligação com deus, mas talvez não seja isso porque deus não tem corpo e as flores não têm mais nenhum cheiro do que aquele que movimenta o ecossistema das plantas. apetece-me fodê-la. não a flor, mas a rapariga que tudo abarca e que tem o corpo junto à porta do carro. para onde partes. para a califórnia. procurar ouro. não. não procuro ouro nem viagens xamânicas ao deserto. entra. ela entrou. escusado será dizer que não falámos nada. os meus pensamentos falaram tudo. nunca me dirigi a alguém com estrelas nos olhos, mas a quem não tinha nada a perder, como eu. levei-a a casa. fez as malas rapidamente, apenas com o essencial. e partimos. nunca prometas nada que não possa ser cumprido, se quiseres podes cortar o mundo às postas e transformar o meu pequeno mundo numa selva de esperma e de calos. não falo nada. apenas penso. mas penso com o lado iluminado do meu rosto. olho a paisagem que se desenrola como um filme. ela adormece. a rádio ilumina as árvores que se estendem no limiar das casas. who's sorry now. angel olsen. uma pauta no silêncio numinoso da paisagem americana. nunca é demasiado discreto pedir o amor quando ele só pode dar a solidão. aproximo a mão da pele e os olhos fecham-se e abrem-se. o olhar é uma flor desgastada que se abre quando pressionada pelo toque da pele. tudo se resume ao fogo do prazer e ao movimento da estrada. páro o carro e saio para fora. o corpo e mais a pele. já é noite acendida e os carros movimentam-se como faróis no meio do mar e dos peixes. os peixes somos nós. que abrem a boca quando querem ejacular o líquido amniótico que se esquecem de escrever enquanto crianças. tiro as calças e deixo que ela engula o que restou de mim enquanto estive na casa. e o que sair será para ela uma forma encantatória de enganar a solidão. porque provavelmente o amor será apenas isso, quando engolimos e deixamos sair. e vomitamos. e voltamos ao estado do leite virginal. e deixamos que o corpo se relembre disso. até cairmos e termos a sensação de que acabámos com a inocência de quem queria apenas partir e não jogar o seu futuro nas estradas e nos corpos alheios. o corpo é só nosso quando perdoamos as nossas faltas. e se a solidão e o amor são o lamaçal da pele, nunca deixamos de ser cadáveres. e fodemos pelos nossos mortos como fodemos pelo nosso sabor metálico. mas lá estou eu a pensar. provavelmente, é mesmo amor, mas com uma diferente intensidade. a partilha da pele e do esperma. só a nossa inocência é que sabe. Jorge Vicente Fotografia de Robby Müller, "Santa Fe, Mexico", 1985. MP3 www.terracorpo.pt

NOW PLAYING

LATE NIGHT JUNCTION

0:00 0:00

No transcript for this episode yet

We transcribe on demand. Request one and we'll notify you when it's ready — usually under 10 minutes.

Breaking News Show | eTurboNews Juergen Thomas Steinmetz News is relevant to the global travel and tourism industry, human rights and global issues.Breaking news when it happens and only from the source. French Your Way Jessica: Native French teacher founder of French Your Way Boost your French listening skills and test your comprehension with this one of a kind series of podcasts. Get the chance to listen to a real conversation between native speakers talking at normal speed AND customise your learning experience through carefully designed sets of questions (2 levels of difficulty) available for download at www.frenchvoicespodcast.com. All interviews also come with the transcript. French teacher Jessica interviews native speakers of French from around the world who share a bit of their life and passion. Where else would you meet in one same place a French yoga teacher based in Melbourne, a soap manufacturer from Provence, or a couple cycling around the world? HOMELAND HOMELAND The Church is a body not a building. It's the bride of Jesus Christ! Jesus is coming back for a mature bride. That means it's time for the church of Jesus Christ to move from milk to meat. This is the hour of maturity!HOMELAND is an announcement that the church is being set free. Only the church has the ability to transform the world. The kingdom's of this world will become the kingdoms of our Lord and Savior!All of creation has been waiting for this moment! Sons and daughters of God are rising up and taking their seat! PodQuesting Dwight J Randolph- WolfShield Media PodQuesting: -By WolfShield Media and Dwight J RandolphJoin us on an exciting journey to master the world of fiction podcasting! At PodQuesting, we document our quest to improve and innovate, sharing valuable insights, strategies, and behind-the-scenes tips along the way. Whether you're an experienced podcaster or just starting your first show, our podcast is your go-to resource for everything podcasting.Discover practical advice, creative techniques, and lessons from our own experiences as we explore the ever-evolving podcasting landscape. Ready to level up your skills and embark on this adventure with us? Tune in and join the quest!Have questions or feedback? Reach out to us at [email protected] and visit our website:WolfShield.Media

Frequently Asked Questions

How long is this episode of Postcards.from.Bodyland?

Episode duration information is not available.

When was this Postcards.from.Bodyland episode published?

This episode was published on November 17, 2024.

What is this episode about?

 by Jorge Vicente00:00:01 Surma | Uppruni00:02:51 Jorge Vicente | Violet – Parte I (Ema Alba Lobo)00:04:20 Ala dos Namorados| Rosa Negra 00:07:53 Novos Baianos | Acabou Chorare00:11:59 Martin and Blane | That's How I Love the Blues 00:15:58 Jorge...

Can I download this Postcards.from.Bodyland episode?

Yes, you can download this episode by clicking the download button on the episode player, or subscribe to the podcast in your preferred podcast app for automatic downloads.
URL copied to clipboard!