Mário Tomé – uma tertúlia de verão em Riachos
Episode 3 of the Riachar por aí podcast, hosted by Riachar por aí, titled "Mário Tomé – uma tertúlia de verão em Riachos" was published on November 22, 2020 and runs 111 minutes.
November 22, 2020 ·111m · Riachar por aí
Summary
O Podcast “Riachar por aí” resulta de uma colaboração entre Marta Tomé e Rui Matoso com o Jornal O Riachense. Periodicamente serão convidados algumas personalidades da vida local e nacional para debaterem problemáticas da sociedade contemporânea. Mário Tomé, militar de Abril e dirigente político, mais conhecido entre nós por Major Tomé, visitou-nos em Riachos para uma tertúlia ao ar livre entre amigos e camaradas. À sombra do calor ribatejano do mês de julho, entre o tilintar dos copos na mesa, o chilrear dos pássaros e outros barulhos em redor, falou-se com entusiasmo de muitas coisas que afetam a vida colectiva e a sociedade portuguesa. O activismo político de Mário Tomé começou bem antes do 25 de Abril. Mário Tomé foi eleito deputado à Assembleia da República nas eleições legislativas realizadas a 2 de dezembro de 1979, como deputado independente nas listas da UDP. Em 1972, assinou um documento, dirigido ao general Spínola, então Governador militar da Guiné- Bissau, criticando a guerra colonial. Durante o 25 de Novembro, Mário Tomé foi preso, assim como mais de 200 militares de esquerda, tendo estado na prisão de Custóias até janeiro de 76 e depois no presídio de Santarém. Começou então a longa luta de resistência, durante a qual o militar de Abril veio a tornar-se dirigente político e deputado. A conversa em Riachos decorreu em torno de diversos temas da actualidade política, com especial enfoque nos efeitos políticos da pandemia e do desconfinamento. Para além da situação portuguesa, a conversa avançou para a análise dos problemas inerentes a esta fase do capitalismo tardio (capitalismo de catástrofe), designadamente da continuada exploração da natureza e dos impactos nefastos nas alterações climáticas. Uma parte importante da tertúlia incidiu nas ideias marxistas de revolução e utopia. Parafraseando Karl Marx, Mário Tomé defendeu que estas duas coordenadas do movimento socialista não têm tanto a ver com a crença revolucionária, mas antes na criação concreta das condições para o seu surgimento. Como não poderia deixar de ser, o início da tertúlia incidiu numa análise dos efeitos políticos e sociais da pandemia Covid-19, desde a estratégia de confinamento à declaração do estado de emergência e das suas consequência nas restrições à democracia, e das suas repercussões na economia e nos direitos laborais. Para Mário Tomé, a imposição, concertada ao nível europeu, do estado de emergência, teve como objectivo principal diminuir os direitos dos trabalhadores. Neste sentido, como pudemos observar, os impactos negativos na saúde humana tiveram um «carácter de classe», atingindo principalmente os operários forçados a trabalhar sem garantias das condições de proteção sanitária. O carácter de classe é fundamental para se observar que igualmente no período de confinamento esta medida draconiana gerou ainda mais desigualdade no acesso à habitação condigna, uma vez que as pessoas que já viviam em condições degradantes e mesmo pessoas sem habitação, não tiveram uma resposta aos seus problemas e consequentemente estiveram mais expostos ao risco de contágio. Em geral, os trabalhadores que nem sequer podiam usufruir do layoff, ficaram sujeitos a usar transportes públicos em condições de risco de transmissão da doença. As alterações climáticas como resultado da continuada exploração capitalista, o legado do 25 de Abril no poder local foram outra das facetas desta conversa, designadamente no reconhecimento da ausência da democracia local participativa. Como diz Mário Tomé, o movimento contra as alterações climáticas tem de ser uma luta contra o capital e contra a exploração da natureza: “O capital não resolve nada, só resolve uma coisa que é aumentar o seu lucro. E se não aumentar, o Estado desaparece. É a exploração infinita das pessoas e da natureza”.
Episode Description
O Podcast “Riachar por aí” resulta de uma colaboração entre Marta Tomé e Rui Matoso com o Jornal O Riachense. Periodicamente serão convidados algumas personalidades da vida local e nacional para debaterem problemáticas da sociedade contemporânea.
Mário Tomé, militar de Abril e dirigente político, mais conhecido entre nós por Major Tomé, visitou-nos em Riachos para uma tertúlia ao ar livre entre amigos e camaradas. À sombra do calor ribatejano do mês de julho, entre o tilintar dos copos na mesa, o chilrear dos pássaros e outros barulhos em redor, falou-se com entusiasmo de muitas coisas que afetam a vida colectiva e a sociedade portuguesa.
O activismo político de Mário Tomé começou bem antes do 25 de Abril. Mário Tomé foi eleito deputado à Assembleia da República nas eleições legislativas realizadas a 2 de dezembro de 1979, como deputado independente nas listas da UDP. Em 1972, assinou um documento, dirigido ao general Spínola, então Governador militar da Guiné- Bissau, criticando a guerra colonial. Durante o 25 de Novembro, Mário Tomé foi preso, assim como mais de 200 militares de esquerda, tendo estado na prisão de Custóias até janeiro de 76 e depois no presídio de Santarém. Começou então a longa luta de resistência, durante a qual o militar de Abril veio a tornar-se dirigente político e deputado.
A conversa em Riachos decorreu em torno de diversos temas da actualidade política, com especial enfoque nos efeitos políticos da pandemia e do desconfinamento. Para além da situação portuguesa, a conversa avançou para a análise dos problemas inerentes a esta fase do capitalismo tardio (capitalismo de catástrofe), designadamente da continuada exploração da natureza e dos impactos nefastos nas alterações climáticas.
Uma parte importante da tertúlia incidiu nas ideias marxistas de revolução e utopia. Parafraseando Karl Marx, Mário Tomé defendeu que estas duas coordenadas do movimento socialista não têm tanto a ver com a crença revolucionária, mas antes na criação concreta das condições para o seu surgimento.
Como não poderia deixar de ser, o início da tertúlia incidiu numa análise dos efeitos políticos e sociais da pandemia Covid-19, desde a estratégia de confinamento à declaração do estado de emergência e das suas consequência nas restrições à democracia, e das suas repercussões na economia e nos direitos laborais.
Para Mário Tomé, a imposição, concertada ao nível europeu, do estado de emergência, teve como objectivo principal diminuir os direitos dos trabalhadores. Neste sentido, como pudemos observar, os impactos negativos na saúde humana tiveram um «carácter de classe», atingindo principalmente os operários forçados a trabalhar sem garantias das condições de proteção sanitária. O carácter de classe é fundamental para se observar que igualmente no período de confinamento esta medida draconiana gerou ainda mais desigualdade no acesso à habitação condigna, uma vez que as pessoas que já viviam em condições degradantes e mesmo pessoas sem habitação, não tiveram uma resposta aos seus problemas e consequentemente estiveram mais expostos ao risco de contágio. Em geral, os trabalhadores que nem sequer podiam usufruir do layoff, ficaram sujeitos a usar transportes públicos em condições de risco de transmissão da doença.
As alterações climáticas como resultado da continuada exploração capitalista, o legado do 25 de Abril no poder local foram outra das facetas desta conversa, designadamente no reconhecimento da ausência da democracia local participativa. Como diz Mário Tomé, o movimento contra as alterações climáticas tem de ser uma luta contra o capital e contra a exploração da natureza: “O capital não resolve nada, só resolve uma coisa que é aumentar o seu lucro. E se não aumentar, o Estado desaparece. É a exploração infinita das pessoas e da natureza”.
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