O devir meloso da arte portuguesa. Outra conversa com Miguel Faria Ferreira

EPISODE · Jan 31, 2026 · 4H 17M

O devir meloso da arte portuguesa. Outra conversa com Miguel Faria Ferreira

from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho

Considerando o adiantado da hora, seria bom ouvir alguém dizer-nos que as horas passadas e presentes partiram dum mal-entendido. Se fosse ainda importante fazermo-nos entender, deveríamos virar-nos de costas a esta contemporaneidade lorpa, em que um tipo se vê forçado a tamanhos desvios, que se torna estranho até para si mesmo. A pestilência do tempo e do lugar é o que nos leva a tanto. Corpos solteiros, devolvidos a contragosto uma e outra vez a dias e circunstâncias apontadas à destruição dos homens. A criação exerce-se, por isso, como uma defesa contra aquilo que nos esmaga, um modo de se ir subtraindo a esta pesada tempestade triste. Sublinhamos frases, produzimos instante a instante um filme dessas camaradagens aventurosas que nos faltam. Há um filme íntimo que cada um vai montando… “Criar é estar vivo, é demonstrar a si próprio e a tudo o que o ameaça um inesgotável recomeço, uma vitória que não finda”. Esta surge escrita com a letra de César Monteiro, atribuída a Vergílio Ferreira. O canhenho era essa cobra infindável, de tanto palmilhar longas extensões para se encontrar como ser, como outra razão que não essa miragem que alguns vão vomitando. Se lhe pedissem as horas, o que diria ele? Que estão a dar corda aos loucos. Que estamos por aí numa hora suspensa de revólveres indecisos, hora terrível de luas amarelas… nesta hora proposta pela angústia dos relógios, nesta mesma hora aniquiladora das consciências burguesas. Porque contrariamente ao que se diz, a loucura não vem de dentro, ela existe como um peso para nos fazer desistir. Deitar a toalha ao chão. Ela “existe quotidianamente na desagregação do homem de hoje”. Mas como não nos falamos, estas coisas são cada vez menos claras. Se não pedimos as horas também não assistimos quando alguns se põem a ordenar ao sol que vá pelos subterrâneos e pelos caixotes do lixo, que nos poupe à experiência do ódio. Antes tínhamos esses intervalos semeados, esses alívios, subterfúgios ou fugas. Caíamos em pleno olho da rua, batíamos aqueles suspeitos cafés tristes a ver quem mais. Mas isso das ruas, dos cafés onde é que isso já vai? Ou antes: não vai. Não há hipóteses. E o que é feito daquela condição ontológica de vadio e pedinte que Vitor Silva Tavares identificou no amigo? E aquilo do amor, aquele mais louco, que começava sempre por ser gratuito, mas, hoje, ou se paga à cabeça ou então sai mesmo caro. Estamos realmente sem saídas, e, perante uma geração que só pensa a sua arte como entradas, como modo de vir nas listas, de serem contados, as melhores esperanças parecem goradas à partida. Que é desses que eram vistos a apodrecer eternamente nos bancos da Avenida, cabeça a ferver? Como era isso de ter cábulas, o destino todo anotado, leituras de tantos ângulos. E o que é dos filmes que fazíamos contados, o cinema oral, essas ondulações do espírito de tal modo ritmadas, em que um se punha a fazer todos os papéis, revirando tudo, em busca dos tais, desses almejados instantes de graça? E se tínhamos uma boca e um corpo isso não era já aquele pedaço de fita, e não era um modo de celebrar uma separação face a nós mesmos, aplicar cortes, um modo de sermos capazes no decorrer ordinário das nossas vidas de irmos dando frutos, emprestarmos órgãos ao tempo? Um apuro, alguma lei ou razão a partir desse movimento oscilatório ou de viagem deambulante entre tradições? Mas se temos receio de “pagar o preço da fealdade, da ruína e da decrepitude, dos desastres e da maldição da esperança” (Manuel Gusmão), então que criações se esperar de nós, de uma geração tão submetida aos cálculos impiedosos, a esta sovinice das almas. Querem-nos ainda às gerações. Mas vamos ficando cansados de lhes explicar que já não dá para tanto. Nem aquelas audácias de se trazer a si mesmo à frente, como obra impura e misturada, como registo exaltado, como critério e, nalguns casos, até como uma furiosa síntese. Não se tinha mais nada senão essa disponibilidade assombrosa. Um artista começava por aí, por não se poupar tanto como os demais, por defender que a voracidade deve ser absoluta. “Filmar implica a consciência de uma transgressão. Filmas é uma violência do olhar, uma profanação do real que tem por objectivo a restituição de uma imagem do sagrado”… Mas ao dizer isto, ele sabia como estava difícil para a espécie defender esse talento de atracção-repulsão: “Sou capaz de ser o último dos crentes…” Sabia também da importância que é manter um discurso capaz de “avivar todos esses jazigos esparsos, ignorados e flutuantes” (Mallarmé). De resto, a pior forma de se referir ao tempo, é achar que não nos falta, que o melhor é guardarmos as nossas energias.” Amanhã estou morto e, com um cigarro na beiça, não devo nada a ninguém. Para além do honrado sorriso, dito de parvo, onde é que já se encontrou o espólio de um espoliado? É pedir muito que não me doem nada? Poderá parecer absurdo, mas de facto não me dói nada. Nunca há-de doer nada o nada de ninguém. Amanhã estou morto.” Ficamos assim, com meias palavras, que é o que ainda vai restando depois de as limparmos do bolor. E isto foi um tomar balanço ou ir bebendo o resto dos copos e captando alguns desabafos. Neste episódio quisemos tentar reaver um mapa das artes por cá a partir do contorno a giz dessas ausências que conseguem fazer deste um país extremamente assombrado. Puxamos pelo cinema, numa altura em que entre nós este se tomou de uma mania, e não faltam acólitos para esse culto. Mas, e para nos ajudar a sentir que tínhamos algum chão sob os pés, recorremos aos préstimos do Miguel Faria Ferreira que é um compulsivo do cinema, que vive de ouvido encostado ao chão, e compõe um atlas que cruza distâncias e essas expansões da intimidade através do olhar, do hábito que têm uns tantos de ir dando forma a fantasmas de uma visão eterna.

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