O poder formador da imagem. episode artwork

EPISODE · Mar 5, 2024 · 16 MIN

O poder formador da imagem.

from Psicanálise em Ato · host Adelmo Marcos Rossi

Agora proponho abandonar o tema obscuro e sombrio da neurose traumática e estudar o modo de trabalho do aparelho psíquico em uma de suas mais precoces atividades normais. Refiro-me à brincadeira infantil. As diferentes teorias sobre a brincadeira infantil foram reunidas e apreciadas analiticamente apenas há pouco por S. Pfeifer na revista Imago(V/4); posso indicar aqui esse trabalho. Essas teorias se empenham em descobrir os motivos da brincadeira das crianças sem colocar em primeiro plano o ponto de vista econômico, a consideração pelo ganho de prazer. Aproveitei, sem querer abranger o todo desses fenômenos, uma oportunidade que me foi oferecida para esclarecer a primeira brincadeira de um menino de um ano e meio de idade, uma brincadeira que ele mesmo inventou. Foi mais do que uma observação fugaz, pois passei algumas semanas vivendo sob o mesmo teto que a criança e seus pais, e levou relativamente bastante tempo até que a ação enigmática e constantemente repetida me revelasse seu sentido. Essa criança não estava de maneira alguma adiantada em seu desenvolvimento intelectual; com um ano e meio, falava apenas umas poucas palavras inteligíveis, dispondo além disso de vários sons significativos que eram compreendidos pelo entorno. Mas ela tinha boas relações com os pais e a única empregada, sendo elogiada por causa de seucaráter “comportado”. Não perturbava os pais durante a noite, obedecia conscienciosamente às proibições de tocar vários objetos e entrar em certos cômodos, e, sobretudo, nunca chorava quando a mãe a deixava por horas, embora estivesse ternamente ligada a essa mãe, que não só a alimentou por conta própria, mas também cuidou e tomou conta dela sem qualquer ajuda alheia. Só que essa criança bem-comportada tinha o hábito, às vezes incômodo, de jogar para bem longe de si – num canto, debaixo de uma cama etc. – todos os pequenos objetos que pegava, de modo que encontrar seus brinquedos muitas vezes não era um trabalho fácil. Ao fazê-lo, emitia, com expressão de interesse e satisfação, um alto e longo ó-ó-ó-ó, que, segundo o juízo unânime da mãe e deste observador, não era uma interjeição, mas significava “fort” [foi embora]. Finalmente percebi que aquilo era uma brincadeira e que a criança usava todos os seus brinquedos apenas para brincar de “foi embora” com eles. Um dia, então, fiz a observação que confirmou minha concepção. A criança tinha um carretel de madeira com um fio enrolado nele. Jamais lhe ocorria, por exemplo, arrastá-lo atrás de si pelo chão, ou seja, brincar de carrinho com ele, mas jogava o carretel com grande habilidade, segurando-o pelo fio, sobre a borda de sua caminha com dossel, de maneira que ele desaparecia dentro dela; enquanto isso, pronunciava o seu significativo ó-ó-ó-ó e então puxava o carretel pelo fio para fora da cama, agora saudando seu aparecimento com um alegre “da” [aí está]. Essa era, portanto, a brincadeira completa, desaparecimento e retorno, da qual na maioria das vezes víamos apenas o primeiro ato, e este foi repetido incansavelmente como brincadeira isolada, embora o prazer maior sem dúvida estivesse ligado ao segundo ato.

Agora proponho abandonar o tema obscuro e sombrio da neurose traumática e estudar o modo de trabalho do aparelho psíquico em uma de suas mais precoces atividades normais. Refiro-me à brincadeira infantil. As diferentes teorias sobre a brincadeira infantil foram reunidas e apreciadas analiticamente apenas há pouco por S. Pfeifer na revista Imago(V/4); posso indicar aqui esse trabalho. Essas teorias se empenham em descobrir os motivos da brincadeira das crianças sem colocar em primeiro plano o ponto de vista econômico, a consideração pelo ganho de prazer. Aproveitei, sem querer abranger o todo desses fenômenos, uma oportunidade que me foi oferecida para esclarecer a primeira brincadeira de um menino de um ano e meio de idade, uma brincadeira que ele mesmo inventou. Foi mais do que uma observação fugaz, pois passei algumas semanas vivendo sob o mesmo teto que a criança e seus pais, e levou relativamente bastante tempo até que a ação enigmática e constantemente repetida me revelasse seu sentido. Essa criança não estava de maneira alguma adiantada em seu desenvolvimento intelectual; com um ano e meio, falava apenas umas poucas palavras inteligíveis, dispondo além disso de vários sons significativos que eram compreendidos pelo entorno. Mas ela tinha boas relações com os pais e a única empregada, sendo elogiada por causa de seucaráter “comportado”. Não perturbava os pais durante a noite, obedecia conscienciosamente às proibições de tocar vários objetos e entrar em certos cômodos, e, sobretudo, nunca chorava quando a mãe a deixava por horas, embora estivesse ternamente ligada a essa mãe, que não só a alimentou por conta própria, mas também cuidou e tomou conta dela sem qualquer ajuda alheia. Só que essa criança bem-comportada tinha o hábito, às vezes incômodo, de jogar para bem longe de si – num canto, debaixo de uma cama etc. – todos os pequenos objetos que pegava, de modo que encontrar seus brinquedos muitas vezes não era um trabalho fácil. Ao fazê-lo, emitia, com expressão de interesse e satisfação, um alto e longo ó-ó-ó-ó, que, segundo o juízo unânime da mãe e deste observador, não era uma interjeição, mas significava “fort” [foi embora]. Finalmente percebi que aquilo era uma brincadeira e que a criança usava todos os seus brinquedos apenas para brincar de “foi embora” com eles. Um dia, então, fiz a observação que confirmou minha concepção. A criança tinha um carretel de madeira com um fio enrolado nele. Jamais lhe ocorria, por exemplo, arrastá-lo atrás de si pelo chão, ou seja, brincar de carrinho com ele, mas jogava o carretel com grande habilidade, segurando-o pelo fio, sobre a borda de sua caminha com dossel, de maneira que ele desaparecia dentro dela; enquanto isso, pronunciava o seu significativo ó-ó-ó-ó e então puxava o carretel pelo fio para fora da cama, agora saudando seu aparecimento com um alegre “da” [aí está]. Essa era, portanto, a brincadeira completa, desaparecimento e retorno, da qual na maioria das vezes víamos apenas o primeiro ato, e este foi repetido incansavelmente como brincadeira isolada, embora o prazer maior sem dúvida estivesse ligado ao segundo ato.

NOW PLAYING

O poder formador da imagem.

0:00 16:28

No transcript for this episode yet

We transcribe on demand. Request one and we'll notify you when it's ready — usually under 10 minutes.

No similar episodes found.

No similar podcasts found.

Frequently Asked Questions

How long is this episode of Psicanálise em Ato?

This episode is 16 minutes long.

When was this Psicanálise em Ato episode published?

This episode was published on March 5, 2024.

What is this episode about?

Agora proponho abandonar o tema obscuro e sombrio da neurose traumática e estudar o modo de trabalho do aparelho psíquico em uma de suas mais precoces atividades normais. Refiro-me à brincadeira infantil. As diferentes teorias sobre a brincadeira...

Can I download this Psicanálise em Ato episode?

Yes, you can download this episode by clicking the download button on the episode player, or subscribe to the podcast in your preferred podcast app for automatic downloads.
URL copied to clipboard!