Salmo 762 (Calibre) episode artwork

EPISODE · Apr 4, 2026 · 5 MIN

Salmo 762 (Calibre)

from Aborto Vicário · host Jorge Guerra Pires

(Intro – narração, voz seca, estilo literatura antiga)“— Acuda, mamãe… que o homem me quer matar…”O grito não morreu… só mudou de endereço.O corpo cai pesado, furado de chumbo,ontem no sertão… hoje no asfalto.Mudou o nome da guerra…mas não mudou o resultado.(Transição – rádio antigo, chiado forte)(voz distante, como rádio AM dos anos 80)“E sobe o morro… sobe o pau… sobe o diabo…”(interferência)“Corre pra cima e pra baixo… se esconde no buraco…”(chiado falhando)“— a gente temo que corrê…”(Narração por cima, fria)Década de oitenta… chamavam de exagero.Música de playboy… dizendo que era roteiro.Hoje ninguém canta —porque virou procedimento.(Beat entra seco)(Verso 1)Olha o morro… luz piscando na caixa d’água,não é milagre — é neon ligado na tomada errada.Zona norte… onde a fé sobe de escada,e o medo desce correndo, sem olhar pra nada.Cidade Alta, Vigário, Parada de Lucas — concreto ferido,parede fala: versículo pintado, sangue escondido.“Deus é fiel” no muro, mas quem escreveu tava armado,fuzil pendurado no peito, salmo decorado.Trocaram guia por Bíblia, mas não largaram o aço,agora o culto começa depois do traço.Na laje tem louvor, mas também tem vigia,quem canta “aleluia” sabe quem manda na via.Não é igreja — é fronteira com outro nome,onde o dízimo às vezes vem com cheiro de fome.E o respeito? É imposto — não é escolha divina,ou ajoelha na fé… ou some da esquina.(Refrão)Entre o dízimo e o tiro, quem decide é o medo.Fé virou senha… pra sobreviver no enredo.Não é céu nem inferno — é território marcado,onde Deus vira escudo… e o povo fica no meio, encurralado.(Verso 2)Dona Marta acendeu vela, depois virou crente,perdeu o filho cedo — bala perdida, “foi Deus”, dizem.Mas quem puxou o gatilho tava no culto domingo,mão pro alto na oração… e na segunda, no gatilho.Porta arrombada, terreiro quebrado na surdina,quartinha no chão… fé pisada na esquina.Escreveram na parede quem agora “é dono”,mas o silêncio grita mais alto que qualquer trono.Não é fé — é recado, domínio travestido,quem não dobra o joelho vira alvo escondido.Tem louvor na quadra, som alto, luz acesa,mas ninguém canta alto se não tiver certeza.Que a letra agrada quem manda, que o coro não afronta,porque aqui até o “amém” tem dono e tem conta.Entre promessa de paz e controle velado,o sagrado virou código… no território armado.(Verso 3)O sistema falhou — isso não é novidade,mas alguém ocupou o vácuo com outra autoridade.Não veio com escola, nem saúde, nem pão,veio com regra, discurso… e controle da região.Nas trancas, a fé cresce onde o desespero reina,promessa de redenção… mas também de cadeia.Conversão ou proteção? Às vezes é a mesma moeda,o cara muda de vida — ou só muda de regra.Ontem medalha de santo fechando o corpo no peito,hoje é versículo colado no ferro do mesmo jeito.Mudou a oração, mas não mudou a lógica:fé como escudo… numa guerra ideológica.Mapa mudou, discurso também, estratégia refinada,não é só boca de fumo — é narrativa armada.Quem conta a história agora decide o final,e chama de “guerra santa” o que sempre foi desigual.(Ponte – voz baixa, tensa)E se Deus não tá nisso?E se tão usando o nome pra legitimar o vício?Quem questiona, some… quem aceita, fica.Mas até quando a fé vai ser moeda nessa briga?(Refrão)Entre o dízimo e o tiro, quem decide é o medo.Fé virou senha… pra sobreviver no enredo.Não é céu nem inferno — é território marcado,onde Deus vira escudo… e o povo fica no meio, encurralado.(Outro – instrumental vazio, helicóptero ao fundo)Redenção… ou controle?Libertação… ou outro tipo de molde?<Transformando grandes ideias em torno do ateísmo em forma de música. Estamos em um número grande de plataformas de podcast, procure na sua favorita. No Spotify, por motivos que não sei, não aparece, mas aparece em outras plataformas. Lista, não excludente, sendo atualizada: Podcast AddictPodcasts AppleTrueFansGoodpods

(Intro – narração, voz seca, estilo literatura antiga) “— Acuda, mamãe… que o homem me quer matar…” O grito não morreu… só mudou de endereço. O corpo cai pesado, furado de chumbo, ontem no sertão… hoje no asfalto. Mudou o nome da guerra… mas não mudou o resultado. (Transição – rádio antigo, chiado forte) (voz distante, como rádio AM dos anos 80) “E sobe o morro… sobe o pau… sobe o diabo…” (interferência) “Corre pra cima e pra baixo… se esconde no buraco…” (chiado falhando) “— a gente...

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(Intro – narração, voz seca, estilo literatura antiga)“— Acuda, mamãe… que o homem me quer matar…”O grito não morreu… só mudou de endereço.O corpo cai pesado, furado de chumbo,ontem no sertão… hoje no asfalto.Mudou o nome da guerra…mas não mudou o...

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