EPISODE · Sep 23, 2023 · 11 MIN
Ser capaz de usar o Eu que recebeu.
from Psicanálise em Ato · host Adelmo Marcos Rossi
Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para “embasbacar o indígena”; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura. Há trechos bons, mas mesmo assim inferiores aos dos autores ingleses que lhe serviram de modelo. Quanto às ideias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma do egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes. Bem, basta; chega de Machado de Assis. Hamburgo, 15 de agosto de 1939 *O espelho* Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando "Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo" A origem do Eu na infância é uma nota forçada de originalidade. "O egoísmo dos introvertidos inteligentes" Ah, o tempo é o mágico de todas as traições… Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse… Sim, são para se ter medo, os espelhos. Satisfazer-me com fantásticas não-explicações? Sendo talvez meu medo a revivescência de impressões atávicas? A alma do espelho — anote-a — esplêndida metáfora. Se, além de os utilizarem nos manejos da magia, imitativa ou simpática, videntes serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade? Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe: dois espelhos — um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. *Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. * E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação? Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio.
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Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para “embasbacar o indígena”; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura. Há trechos bons, mas mesmo assim inferiores aos dos autores ingleses que lhe serviram de modelo. Quanto às ideias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma do egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes. Bem, basta; chega de Machado de Assis. Hamburgo, 15 de agosto de 1939 *O espelho* Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando "Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo" A origem do Eu na infância é uma nota forçada de originalidade. "O egoísmo dos introvertidos inteligentes" Ah, o tempo é o mágico de todas as traições… Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse… Sim, são para se ter medo, os espelhos. Satisfazer-me com fantásticas não-explicações? Sendo talvez meu medo a revivescência de impressões atávicas? A alma do espelho — anote-a — esplêndida metáfora. Se, além de os utilizarem nos manejos da magia, imitativa ou simpática, videntes serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade? Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe: dois espelhos — um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. *Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. * E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação? Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio.
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