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PODCAST · arts

Antes de Morrer

Podcast sobre livros para ler... antes de morrer.

Publisher-supplied feed metadata · PodParley refreshed Aug 28, 2026 · Source feed

  1. 26

    Amor de Perdição

    No último episódio da segunda temporada, Francisco Mota Saraiva e João Dinis enfrentam a maior tragédia da literatura portuguesa e unem os vértices da relação proibida entre Simão Botelho e Teresa Albuquerque e a que se junta a pobre Mariana, trazendo-nos um livro que exalta e que faz exaltar. Há de tudo: drama, sátira, tragédia, violência, crime, paixão… nada lhe falta; tem tudo o que faz falta à vida… antes de morrer.Apesar dos «bastantes aleijões líricos», “Amor de Perdição”, escrito durante os quinze dias mais atormentados da vida de Camilo Castelo Branco, assim mesmo descritos pelo próprio, durante a sua prisão nas cadeias da Relação do Porto na sequência da sua detenção no caso de adultério com Ana Plácido, é um dos maiores exemplos do (ultra)romantismo português. É caso para dizer – «de que céu tão lindo caímos» ao ler este livro.Para aliviar a tragédia e comprovar que a vida não tem de ser um desastre completo, os nossos anfitriões servem um Lemos, rosé, da Quinta de Lemos, e despedem-se até à próxima temporada que será mais um convite à morte, aos vinhos e, claro, aos livros. Até lá, como diz o outro, se puderem, evitem a trágica consequência de perderem a vida.

  2. 25

    Os Maias (AO VIVO)

    Mesmo sendo sabido que o País está todo entre a Arcada e São Bento, e a capital entre o Grémio e a Havaneza, Francisco Mota Saraiva e João Dinis, dois rapazes que abarrotam por aí de catitas, é na ancestral Livraria Buchholz, a convite de Joana Stichini Vilela, que fazem programa e gravam mais um episódio da sua vida romântica, desta vez com Os Maias, de Eça de Queiroz, escândalo com o qual o mais tímido e empedernido coração se há de comover. E haja gente para ouvir! É que a desgraça de Portugal é a falta de gente! Quer-se quem faça um bom podcast sobre livros para ler antes de morrer? Não há quem faça um bom podcast sobre livros para ler antes de morrer. Mas há incontestavelmente bons livros e bons vinhos; e prova disso é a pomadinha deste episódio queiroziano: um Muxagat, branco, com um final de boca muito acutilante e bem aprumadinho. Esqueça-se a bancarrota, a invasão, a pátria… Este é um episódio chique a valer!

  3. 24

    Para Sempre

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis dão a volta à casa, percorrem os corredores, sobem e descem as escadas, abrem e fecham as portas e as janelas, e tropeçam na «acumulação de trastes pelo chão», como quem dá a volta à vida toda, à vida inteira, para dizerem uma palavra, uma só palavra, e que esta fique “Para Sempre”, como assim a obra de Vergílio Ferreira.Publicado em 1983, em estilo de poema em prosa com laivos ensaísticos e de pendor fortemente biográfico, este é um livro comovente e que nos murmura a passagem do tempo num exercício compulsivo, circular e persistente, quase catártico, em que um violino numa peça de Schubert toca ao fundo, e Paulo, um homem velho e só, abandonado por todos menos pela sua memória, redescobre a casa, a si mesmo talvez.E à mesa da «casa grande e deserta», serve-se um Pedra e Cal, arinto, branco, de 2023, do projecto Lés a Lés, que nos guia pela viagem do tempo, comprovando que nós somos senão as voltas efémeras do mundo e que aqui estamos para sempre ou, pelo menos, antes de morrer.

  4. 23

    A Selva

    À procura das raízes do mal, Francisco Mota Saraiva e João Dinis aventuram-se no imenso «inferno verde» de “A Selva”, de Ferreira de Castro, em que o meio natural amazónico é uma «personagem de primeiro plano, viva e contraditória, ao mesmo tempo admirável e temível, como são as de carne, sangue e osso».Ferreira de Castro, proposto por duas vezes ao Prémio Nobel da Literatura, neste livro, considerado pela UNESCO um dos dez mais lidos em todo o mundo, revela o caso particular de escravatura dos trabalhadores sertanejos deslocados nos fundos da impossível e impiedosa Amazónia para a exploração dos seringais, base do comércio da borracha, e onde há sede de justiça e um desejo imenso de fugir. Porém, um mistério ameaçador atrás de cada árvore, de cada brenha, até nas margens quietas dos rios, e onde «um silêncio sinfónico» parece deixar toda a «selva em êxtase», não permite qualquer fuga ou tão-pouco a salvação.Para este episódio, escolheram um clássico, um Soalheiro, de 2025, um alvarinho da região dos vinhos verdes, que é um brinde à frescura dos dias e que nos deixa amolecer «sob uma funda sensação de vida irrecuperável».

  5. 22

    A Casa Grande de Romarigães

    Sem pedirem licença a Mestre Aquilino, Francisco Mota Saraiva e João Dinis demolem «paredes de côvado e meio de bitola em que há um século lavrava a ruína» e entram na “Casa Grande de Romarigães” para se sentarem à mesa dos Meneses e Montenegros, outrora Cunhas e Dantas, e fazerem contas ao somatório das virtudes e vícios dos seus antepassados.Entre afogados, suicidas, mulheres colhidas por vacas, filhos ilegítimos, sobrinhos mal intencionados, e outras personagens tantas e tantas, ditadas ora pela ventura ora pela desgraça, os nossos convivas marcam o compasso do tempo e da natureza para desvendarem o lugar da História Privada de Portugal.A acompanhar três séculos de história e oito gerações, serve-se um Contacto, de AnselmoMendes, de 2025, um alvarinho da região dos vinhos verdes, que nos aproxima do único caminho certo da «triste planta humana» – a morte. Coriácea é a vida e aganados são os tempos... Valha-nos Nossa Senhora do Amparo e Mestre Aquilino Ribeiro que escreveu sem «malbaratar louçanias, vidrilhos ou esmaltes de estilo».

  6. 21

    Geografia (com Madalena Sá Fernandes)

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis, a partir dos seus conhecimentos de “Geografia”, desenham o mapa da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, desde a violência das ondas das Praia da Granja até à luminosidade transparente do Algarve, enquanto anotam as sílabas do Brasil, erigem o nu das estátuas gregas, percorrem as cidades de pedra e cal, e descansam sob o túmulo de Llorca e escutam o mundo nomeado, descobrindo as ilhas, o poema, ali, então, ao ritmo das Ménades que dançam. Madalena Sá Fernandes, autora dos livros Leme, Deriva e do mais recente Sótão, e obcecada pela arquitectura da palavra de Sophia, é a convidada do episódio de hoje em que ficámos a conhecer um belíssimo romance de cavalaria, da autoria da sua família, chamado Palmeirim D’Inglaterra, um branco, de 2021, de ataque cremoso e de uma acidez fresca. Como escreveu Maria Andresen Sousa Tavares, «Há poetas mais peritos, mais cultistas, mais destros e liricamente sofisticados, mais modernos, antimodernos e pós-modernos. Mas aqui há uma força. Uma força muito rara. Há um excesso, não muito cauteloso, umas vezes iluminado, outras vezes rouco». Para os nossos convivas, há vinho, há poesia, há Sophia, e isso basta.

  7. 20

    Mau Tempo no Canal

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis mergulham nas águas do arquipélago dos Açores à procura da suposta ilha de Fernão Dulmo, ao largo da Terceira, lugar de salvação sebastiânico e nostálgico de uma certa portugalidade que se anuncia desde sempre como o sonho por cumprir.“Mau Tempo no Canal”, de Vitorino Nemésio, é mais que a história do amor impossível de Margarida Clark Dulmo e de João Garcia; é uma estética bordada miudamente, e que com grande finura revela as variantes específicas do falar ilhéu, a gravidade do clima, da geografia e dos fenómenos geológicos, a angústia da condição insular, a contemplação da condição e da fragilidade humana, a existência ritualizada das gentes tomadas pelo capricho do conformismo, assim expondo não apenas um certo conceito de açorianidade, mas sobretudo um desejo de fuga impossível de alcançar.Enquanto isso, celebram o melhor da Costa Norte, um vinho da ilha Terceira, de 2023, da Adega Dimas, e preparam um arroz de marisco em que cabe todo o sabor e saber de ser português para um jantar que felizmente não serve de ceia.

  8. 19

    Páscoa Feliz

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis ressuscitam José Rodrigues Miguéis, escritor de escritores, e um dos maiores da literatura portuguesa. Celebração maior, de contornos quase bíblicos, assim é a paixão dos nossos anfitriões por este livro, Páscoa Feliz, uma espécie de delírio, de alucinação, como lhe chamou Pedro Mexia; e que, publicado em 1932, dez anos antes de O Estrangeiro, de Albert Camus, cheira (para não sermos de intrigas) a plágio do último ou a evidente precocidade do primeiro. Envolto por uma atmosfera de pesadelo, este é um romance sobre a existência banal de Renato Lima, personagem de uma certa tradição dostoievskiana, que rompe com sociedade, com o seu “eu”, e que, por via da alienação e do crime, procura alcançar o verdadeiro sentido do ser e do viver. À mesa, sem lugar para filosofias, servem-se umas enguias dignas de um qualquer restaurante de nome Onésimo. Para acompanhar, Monte da Bica, um tinto, de 2019. E amêndoas, claro está.

  9. 18

    Estar em Casa (com Márcia)

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis arriscam-se, pela primeira vez neste programa, nas fronteiras da poesia, percorrendo o espaço da casa de Adília Lopes, das suas sombras, dos seus objectos, das suas subtilezas. Como lhe chamaria a Autora, uma poesia feita de romances em miniatura, como assim é, dizemos nós, a beleza do óbvio (ou, como outro alguém diria, das pequenas coisas). Para partilharem o espaço da casa, convidaram a Márcia. Cantora, letrista, escritora, pintora, cronista, que, entre outras coisas mais, esta mulher do Renascimento, é também – espante--se! – fazedora de vinho. Bom destino, um vinho verde, de 2024, e título de uma canção sua, é o seu vinho e uma luminosa, fresca e intensa companhia. É bom “Estar em Casa”, acompanhados pela Adília Lopes, pela Márcia e por todas essas vozes que saem dos fundos dos nossos sofás, debaixo das nossas mesas e tapetes, do interior dos armários e dos louceiros, dos brinquedos antigos, ou dos copos que ainda tilintam. São as coisas que sempre conhecemos, de que sempre ouvimos falar, mas que nunca ousámos dizer. É, por assim dizer, a sombra do bule.

  10. 17

    Balada da Praia dos Cães

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis avistam «ao fundo duma cova uma conspiração de cães à volta do cadáver dum homem». O seu nome é Dantas Castro, major Dantas C.. Identificam-se os respectivos cúmplices: Cabo Barroca, Arquitecto Fontenova e Mena. Investiga Elias Chefe, o Covas. O lagarto Lizardo repousa na sua campânula de vidro. Lisboa, Portugal, adormece debaixo do retrato fechado do tiranete Oliveira Salazar. Porém, «quando o sangue cheira a política até as moscas largam a asa». Ou assim escreveu José Cardoso Pires, no seu romance Balada da Praia dos Cães, Prémio APE, em 1982, e que retrata este país de brandos e bons costumes tomado pelo medo e pelas falsas moralidades. «Ora agora mentes tu, ora agora minto eu, mentia tudo, minha gente», som de uma balada triste, como uma zarzuela, de uma Carmen (de Bizet!), e que se serve, sem mentir!, e a fim de abrilhantar os decíduos de um país, nessa melancolia de um copo de Lagar De Darei, um branco, reserva, de 2022. É para ler e para beber antes que os cães tomem conta da morte e que descubram que não há crime maior do que ser português.

  11. 16

    A Sibila

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis, incapazes de preverem o futuro, propõem-se, contudo, a mostrar que A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, é o tal «milagre» que Eduardo Lourenço afirmou ter deslocado «o centro da atenção literária em Portugal».Este é um romance sobre o velho patriarcado, obsoleto, frágil e despesista, porém, gerido à distância pela força, saber e imaginação das mulheres. É também um livro sobre vencer a vida e sobre ser vencido, tal como a morte, no que está antes e depois dela. A Sibila revela as características autênticas de uma época e de uma região, numa linguagem de rara riqueza de substantivos, adjectivos, aforismos e expressões populares; tudo emanado a partir do espaço da casa, da educação, da herança e dos costumes, e sempre com a ironia conhecida da Autora que dizia, na sua gloriosa modéstia, que era como um produto da região nortenha e minhota, «como o vinho verde, que não embriaga, mas alegra», e que assim o comprova este Quinta de Amares, o alvarinho que acompanhou este episódio em memória de Agustina, a nossa «voerinha», sibila da literatura portuguesa e universal.

  12. 15

    Memória de Elefante (AO VIVO)

    Neste episódio especial ao vivo, a convite da livraria Utopia111 (apelo de Luís Gonçalo e Júlia Oliveira), Francisco Mota Saraiva e João Dinis emaranham-se no labirinto da memória e da deriva de António Lobo Antunes, sondando e remexendo à procura da existência humana. Como diria o nosso querido Autor, «Não se desce vivo de uma cruz»; e, do mesmo modo, dizemos nós, que não se sobe ao altar de Lobo Antunes e se regressa dele igual. Nem vivo, nem morto. Tão-pouco ressuscitado. Regressa-se outra coisa qualquer, como só ele o saberia escrever. Entre longas frases, verbalizações delirantes, exercícios metaficcionais, repetições, montagens e colagens, os nossos apresentadores procuram o silêncio do texto entre a polifonia de quem dizia que «Um escritor não é para ser compreendido nem para ser analisado, é para ser apanhado como uma febre». Pois bem, para curar qualquer maleita literária, bebe-se um Lobo Mau, tinto, reserva 2020. Mas há que dizê-lo: nem vinho nem Autor casam com o adjectivo dado ao canino. Há quem escreva para os que estão antes de morrer. António Lobo Antunes escreveu para os que estão antes e para os que estão depois. Ide ler!

  13. 14

    Ensaio sobre a Cegueira (com Rafael Gallo)

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis, contrariando as orientações gerais da cegueira, recusam fechar os olhos e fazem de José Saramago leitura obrigatória do seu programa. Rafael Gallo, autor de Dor Fantasma, Prémio Literário José Saramago em 2022 – e que não usa Paez! –, é o convidado especial deste episódio que é, a bem da verdade, um Ensaio sobre a Cegueira pelos olhos dos nossos três convivas. Nas palavras do Nobel português, «Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso». Em todo o caso, para sossegar os espíritos mais pessimistas, sugere-se um tinto, Bridão, Private Collection, de 2020. Chico Buarque (julgamos nós) assina por baixo. Está no ar a segunda temporada de “Antes de Morrer”, o podcast sobre livros para ler… está visto!... antes de morrer.

  14. 13

    A Metamorfose

    No último episódio da primeira temporada, Francisco Mota Saraiva e João Dinis (de pantufas Paez) enveredam pelo labirinto existencial kafkiano à procura de respostas para o sentido da vida, antes que seja tarde demais e acabem por morrer ou, pior!, se vejam transformados numa espécie monstruosa de insetos.Gregor Samsa, o protagonista de “A Metamorfose” (1915), de Franz Kafka, é a representação de um mundo alienado e mecânico, debruçado sobre a sua violência inane, expressão do Homem abandonado na sociedade moderna, dependente da sua vileza, indiferença e crueldade. E, também assim, os nossos anfitriões, tal como todos nós…Esta é uma obra sobre a reflexão do absurdo que permeia a nossa existência, mas que pode ganhar mais sentido com um Aleixo, um vinho branco, da Bairrada, de 2022, um autêntico bouquet aromático que, a fechar o programa, despertou uma conversa, digamos, muito floral.“Antes de Morrer” volta em breve com uma nova temporada que será mais um convite à morte e aos bons livros e aos bons vinhos. Até lá, se puderem, evitem a trágica consequência de perderem a vida.

  15. 12

    O Amante

    Entre os esconsos das gavetas, Francisco Mota Saraiva e João Dinis descobrem um velho álbum de fotografias que contém nele os cheiros, as cores e os sons de um afluente do Mékong que transborda o relato de um desejo clandestino e que comporta em si um amor impossível e transgressor que ficou por cumprir.De cariz marcadamente autobiográfico, “O Amante”, de Marguerite Duras, publicado em 1984 e Prémio Goncourt, é a expressão de um “rosto destruído”. Este exercício de memória e de beleza, entre a ficção e factos nunca revelados, abre-se como uma passagem, como um abismo que nos seduz em que cada palavra, em cada parágrafo; um convite a descobrimos todos os rasgos que percorrem as nossas vidas como feridas insaráveis.Para celebrarem o aniversário do João Dinis, os anfitreões deste podcast decidiram abrir um PGA, da Bairrada, tinto, de 2022. Não sabemos se pelo livro ou se pelo vinho, ficaram de rastos e entregaram-se à morte misteriosa dos amantes das artes literárias e vinícolas.

  16. 11

    O Monte dos Vendavais

    Neste episódio, imbuídos pelo espírito do Romantismo, Francisco Mota Saraiva e João Dinis, abanados por vendavais capazes de torcer a mais insuspeita árvore genealógica, vagueiam pela paisagem desoladora e agreste das charnecas do Yorkshire, e acabam a celebrar a vida e o amor com uma música no coração e debaixo de uma chuva de estrelas.Publicado em 1847, um ano antes da morte da sua autora, Emily Brontë, “O Monte dos Vendavais” recria o perfeito paraíso dos misantropos e oferece-nos a antítese dos contos de fadas imortalizados pela Disney, aqui destruídos pela vingança de Heathcliff e pelo seu amor impossível por Catherine. A escritora Charlotte Brontë terá dito que Emily, sua irmã, não saberia o que estava a fazer ao criar tais criaturas, sequer se esse género de “coisas” seriam certas ou aconselháveis. Pois bem que o fez.À mesa da bisbilhoteira Mrs. Nelly Dean, a vingança é um prato que se serve frio, tal como este Hugo Mendes, rosé, de 2022, que tem nele o mesmo “poder e fogo secreto” de um livro que é, claro está!, um vendaval.

  17. 10

    Mataram a Cotovia

    Partindo da máxima que diz que é pecado matar uma cotovia, Francisco Mota Saraiva e João Dinis põem de lado as armas e a sua genial pontaria, propondo-se, contudo, a serem precisos a derrubar o preconceito e a salvarem todas essas aves que têm apenas por propósito cantarem-nos belas melodias.Narrado com a singularidade da voz de uma criança, “Mataram a Cotovia” (1960), de Harper Lee, livro frequentemente alvo de censura, seja pela sua abordagem ao racismo e aos direitos civis, à violência sexual, à desigualdades sociais, ou pelo uso de calão e expressões cruéis, faz-nos regressar ao tempo anterior à formação do conceito – à infância, à inocência, à pureza; ao que está precisamente no início do caminho percorrido desde o conceito até ao preconceito.Infelizmente, quando a injustiça acontece – quando essas coisas más acontecem! – parece que só as crianças é que choram e que os adjectivos não são suficientes para amenizar a dureza dos substantivos.De chorar por mais é também o pipiar inadjectivável do espumante servido neste episódio: um Murganheira, Grande Reserva, bruto, de 2006, impossível de qualquer juízo de censura.

  18. 9

    O Retrato de Dorian Gray

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis, quais Narciso diante do espelho, vendem a sua alma ao diabo para nos falarem novamente sobre o que mais gostam: livros, vinho e morte; e “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, publicado em 1891, dá o mote neste dia de nevoeiro em que ficamos a conhecer o extraordinário e belo jovem Dorian Gray que, influenciado por um homem mais velho e imoral, Lord Henry Wotton, se predispõe a uma ideia de arte e sensualidade. Num esconso quarto de sótão, um quadro envelhece, revelando cada um dos pecados de Dorian enquanto este se mantém jovem e bonito. Até quando? Os nossos anfitriões não estão para censuras e julgamentos e servem-nos um belíssimo Lupucinus, do Douro, de 2021, e que entra muito bem com um cozido à portuguesa. Como disse Oscar Wilde, no leito da sua morte, estamos a «viver acima das nossas possibilidades».

  19. 8

    A Fera na Selva

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis (irritado!) são assaltados, numa tarde de chuva, com sabor a castanhas, pela fera na selva.Publicada em 1903, “A Fera na Selva”, do escritor norte-americano Henry James, é a história de um segredo, de uma fatalidade, o prodigioso relato de um homem a quem nada neste mundo havia de acontecer embora toda a vida se tenha preparado para isso. Um livro em que nada de relevante sucede até sermos finalmente tomados pelo fechar da última página e nos darmos conta que já não somos iguais e que a literatura fez algo de extraordinário connosco quando menos esperávamos. Isso ou um belíssimo Pontual – Grande Reserva, do Alentejo, de 2021(um Alicante Bouschet que, devemos dizer, é tanto para homens como para mulheres).

  20. 7

    O Deus das Moscas

    Bom Ano! Francisco Mota Saraiva e João Dinis, perante a ausência completa de adultos, entram em 2026 ligeiramente tocados pela soturnidade e pela melancolia do regresso à infância, à procura de um Deus qualquer que lhes cale o medo e lhe acalente a esperança, não apenas para o novo ano, mas também para Humanidade.Depois da recusa de mais de 20 editoras, William Golding, veterano da II Guerra Mundial e pessimista assumido, publicou, em 1954, “O Deus das Moscas” – um retrato fortíssimo, inteligente e acutilante sobre a ordem e o poder e a decadência das sociedades modernas.Uma parábola construída a partir de um conjunto de crianças rapazes que se encontram sozinhos numa ilha e que lutam pela sua sobrevivência e sentido de existência.Para este episódio, convidaram Hitler, John Locke e um rapazinho chamado Piggy, à roda de um clássico vinícola, um Esporão, branco, reserva, de 2024, e servido nuns copos magníficos oferecidos pela sua amiga Sofia.

  21. 6

    Admirável Mundo Novo

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis preparam-se, antes de morrer, para a distopia “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, obra maior do autor inglês, originalmente publicada em 1932, e visão quase profética. Partindo de uma passagem de “A Tempestade”, de William Shakespeare, esta é uma das grandes parábolas do nosso tempo sobre a desumanização em que o progresso da biologia, da fisiologia e da psicologia tomam conta do Homem, subjugando-O. Qual o preço a pagar? Soma, sucedâneos de paixão violenta, ácidos, LSD e um Eddies Blend, tinto, do Douro, de 2021, cuja escolha ficou a cargo de Eurico (não confundir com Euriolando). Ah! Substituíram-se as Paez por botas Timberland.

  22. 5

    Um Cântico de Natal

    Neste episódio especial de Natal, Francisco Mota Saraiva e João Dinis trazem-nos um livro de contornos musicais, de poema, de canção em prosa – “A Christams Carol. In prose. A Ghost Story of Christmas.”, obra maior do escritor inglês Charles Dickens, escrito em 1843, em pouco menos de seis semanas, e que se espera que «assombre as casas dos leitores de forma agradável, e que ninguém deseje apaziguá-lo».Ebenezer Scrooge é «um velho pecador, extorsionista, falso, ganancioso, avaro, somítico, invejoso» e que odeia o Natal. Será possível a redenção? Quantas são as badaladas que tocam? Scrooge será visitado pelo seu antigo sócio, Jacob Marley, e três abençoados espíritos.Consta que aquando da morte de Dickens, uma vendedora de rua, incrédula e arrasada, terá perguntado na sua pura ingenuidade: «Morreu Dickens?... Mas… então… o Pai Natal também morrerá?». Para conheceremos a resposta, deixemo-nos levar por este episódio, servido com um Freixo, reserva, tinto, de 2021, à mesa destes dois amigos que prometem honrar o Natal para todo o sempre.«Bah! Humbug!»

  23. 4

    O Nariz

    Se o mundo acabasse à narigada, certamente que Francisco Mota Saraiva e João Dinis não teriam como derrotar Nikolai Gogol, o autor de “O Nariz”, pois, também este, era muito cioso do seu.Publicado em 1835, “O Nariz” é um conto satírico em que um assessor de colégio, o major Kovaliov, desperta uma manhã sem nariz e descobre, para espanto seu, que ele desenvolveu uma vida própria, passeando pela cidade de São Petersburgo, até se tornar Conselheiro de Estado. Impossível? Nascido no dia 1 de Abril, Nikolai Gogol terá dito: «Acreditem nas minhas palavras. Eu próprio não me atrevo a duvidar delas».Entre lógicas invertidas, cambalhotas mentais e bananas de Basquiat, os nossos anfitriões dançam ao som da valsa de Shostakovitch e servem-nos um tinto Beta, da Bairrada, de 2021. Como manda o figurino, antes de provar, há que cheirar!

  24. 3

    O Coração das Trevas

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis descem ao “Coração das Trevas” no seu barco a vapor carregado de livros, vinhos e horror à morte. Publicado em 1899 (1902?), “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, escritor ucraniano de pose inglesa, é um livro sobre o indizível, sobre o que não pode ser contado ao outro porque não é sobre dizer, é sobre sentir. Nas palavras de António Lobo Antunes, Conrad «limitou-se a escrever o que devia», num livro «cheio portas por onde entrar e nenhuma por onde sair». No fim das trevas, está Kurtz, a figura de Marlon Brando, no filme “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola. Porque é que devemos ler isto livro antes de morrer? Porque cai muito bem com Pupa, um branco, do Alentejo, de 2023, e, convenhamos, não é caso para dizer «O horror! O horror!»

  25. 2

    O Estrangeiro

    No segundo episódio de “Antes de Morrer”, Francisco Mota Saraiva e João Dinis voltam a piscar o olho à morte, aos livrose ao vinho. O protagonista de hoje é “O Estrangeiro”, de Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura em 1957. Publicado em 1942, e classificado por Jean-Paul Sartre como ele próprio um «estrangeiro» no panorama literário de então, este livro é a história de um jovem vulgar, Mersault, perante a ideia de absurdo, talvez em busca do sentido da existência. Mais do que um livro (muito!) bem escrito, é sobretudo sobre o que está detrás das palavras, antes de nós e diante do nosso pensamento inexprimível. Traz à estampa palavras inusitadas como «palmar», o assassínio de um árabe pelos The Cure e acompanha muito bem com um Somnium, tinto, do Douro, de 2020.

  26. 1

    O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr Hyde

    Francisco Mota Saraiva e João Dinis estreiam o seu podcast “Antes de Morrer”, um convite à morte, aos livros e ao vinho. Tudo coisas para fazer antes de morrer (até a própria morte!). Neste primeiro episódio, trazem-nos “O Estranho Caso de Dr. Jekyll e de Mr. Hyde”, do escritor escocês Robert Louis Stevenson. Publicado em 1886, este livro é a história do benévolo Dr. Jekyll que, com a ajuda de uma poção, se transforma no perverso e hediondo Mr. Hyde, na pele do qual leva uma vida errática e marginal. R. L. Stevenson considerava o ofício de escrever «this childish task», uma tarefa infantil. Também estes dois anfitriões nos provam que assim pode ser o ofício próximo de ler. Para celebrarem trazem mexilhões, galinhas, Paez (alpergatas, se bem dito) e um espumante da Bairrada, Quinta do Poço do Lobo, branco (bruto!), de 2023.

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