O que ler agora?

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O que ler agora?

"O que ler agora?" é o podcast de livros do Plural, feito com apoio das editoras Aleph, Antofágica, Arte e Letra, Companhia das Letras, Fósforo, Luna Parque, Mundaréu, Roça Nova, Rua do Sabão, Tabla e Todavia.A apresentação é dos jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto.Com sede em Curitiba (PR), o Plural é o maior jornal nativo digital do sul do Brasil. Por ser uma publicação independente, é financiado sobretudo por seus leitores (e ouvintes).Assine o Plural e ganhe livros da Arte e Letra:https://www.plural.jor.br/assine-o-plural/

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    Episódio 2.8: Luci Collin descarta fórmulas prontas nos contos de "A peça intocada"

    No último episódio da segunda temporada de "O que ler agora?", a escritora Luci Collin e o editor Thiago Tizzot conversam com o jornalista Irinêo Netto sobre o livro de contos "A peça intocada", um coletânea de 15 narrativas curtas que exploram as possibilidades da literatura, sejam elas formais ou de conteúdo. O livro de Luci Collin, "A peça intocada", faz parte da campanha do Plural com a Arte e Letra: você assina o jornal e ganha livros da editora curitibana. Saiba mais sobre a campanha, aqui.Collin abre o livro com a história "Matiz das armadilhas", uma história que é dedicada "ao senhor Lewis C. e sua garotinha", numa referência a Lewis Carroll e ao clássico "Alice no país das maravilhas". Nesse conto, e também em outros pontos do livro, a escritora mostra um talento espetacular para criar vozes, com seus modos de falar, gírias e musicalidade.Não por acaso, Luci Collin estudou música (é pianista) e também é tradutora (seu trabalho mais recente foi verter para o português "O bebê de Rosemary"). Além, é claro, de escrever poesia."Eu escrevo em voz alta. Vou escrevendo e fazendo as vozes", diz Collin no podcast, e emenda brincando que seus vizinhos devem pensar que ela aluga quartos dada a variedade de pessoas que circulam pela casa.Se existe um tema que amarra os contos de "A peça intocada", ele é o jogo. A escritora propõe ao leitor jogos literários diferentes. "Eu sou uma experimentalista", diz ela. "Acredito muito que o artista existe na sociedade para suscitar a reflexão."Luci Collin foi professora da Universidade Federal do Paraná por duas décadas e, como escritora, publicou 24 livros entre prosa e poesia. Ela estreou em 1984 com os poemas de "Estarrecer" e recebeu elogios de ninguém menos que Paulo Leminski. Por fim, venceu prêmios como Jabuti e o da Biblioteca Nacional. Ela publicou três livros pela Arte e Letra e um quarto, "Lição invisível", também de contos, deve sair até o fim do ano.

  2. 84

    Episódio 2.7: Caetano W. Galindo e as estratégias para ler e entender poesia

    Muitos sabem que Caetano W. Galindo é tradutor de "Ulysses", de James Joyce (pelo qual recebeu prêmios como o Jabuti). Além disso, ele é hoje best-seller com o livro "Latim em pó", um ensaio sobre a história da língua portuguesa, publicado pela Companhia das Letras. Mais recentemente, assinou a dramaturgia de peças teatrais para Felipe Hirsch e Bete Coelho. Mas poucos sabem que Galindo também é poeta."Para mim, poesia é uma coisa meio privada", diz Galindo, neste episódio de "O que ler agora?", o podcast de livros do Plural. "Poesia é uma coisa que me dá uma satisfação de relojoeiro, de ficar fazendo e refazendo." Tanto assim que ele passou anos escrevendo "Onze poemas". Um dia, reuniu os trabalhos e propôs a ideia do livro para o editor Thiago Tizzot, que topou na mesma hora.O livro "Onze Poemas" faz parte da campanha do Plural com a editora Arte e Letra: você assina o jornal e ganha livros de autores curitibanos (são oito títulos disponíveis). Saiba mais sobre a campanha, que vai até o dia 10 de setembro de 2023, aqui. Com design de Sandro Valdrighi, "Onze poemas" é lindo como objeto: um livro pequeno, de capa dura e guardas azuis, que podem ser interpretadas como uma referência à obra do pintor Cy Twombly (1928–2011), que inspirou alguns dos versos de Galindo.Na conversa com o jornalista Irinêo Netto, o escritor fala sobre as pessoas que dizem não ler poesia porque não entendem de poesia. "Só que você não precisa entender de prosódia poética e formas complexas para ler um poema e achar bonito."E ele explica que há uma diferença entre quem não domina os mecanismos da poesia e as pessoas que dizem, simplesmente, que não entendem poesia (nesse caso, sem o "de"). "Tem uma coisa que é realmente contraintuitiva na poesia", diz Galindo. "Essas coisas não foram feitas para serem entendidas no sentido simples em que a gente entende um bilhete, ou um conto ou uma série de tevê."Ouça a conversa com Caetano W. Galindo neste episódio de "O que ler agora?".

  3. 83

    Episódio 2.6: O humor revolucionário de Jamil Snege em "Viver é prejudicial à saúde"

    O escritor Jamil Snege (1939–2003), tema do podcast "O que ler agora?", tinha um senso de humor radical. Tanto que ele conseguiu escrever, há mais de 20 anos, um romance sobre um homem branco em crise de meia-idade, insatisfeito com o trabalho e infeliz na vida pessoal, e que envelheceu bem. O livro, não o personagem. No mundo de hoje, trata-se de um feito espetacular. O segredo para fazer isso? Senso de humor. E Snege conseguiu fazer isso com um talento incomum para rir de si mesmo – o que tornou o escritor muito bom em criar personagens que também conseguem rir de si mesmos. O romance se chama "Viver é prejudicial à saúde" e começa com o narrador-protagonista analisando o próprio reflexo. "Estou aqui, diante do espelho, examinando as mamas", começa ele. Esse narrador é, entre várias coisas, um hipocondríaco com a certeza de que vai desenvolver câncer de mama (um problema que pode, sim, ocorrer em homens, mas os casos são relativamente raros). Porém, ao longo do livro, você vê que ele tem muitos outros problemas. Problemas de verdade. O livro "Viver é prejudicial à saúde", de Jamil Snege, faz parte da campanha do Plural com a Arte e Letra. Você assina o jornal curitibano e ganha livros da editora, também curitibana. Saiba mais sobre a campanha, aqui. Nesse episódio, o podcast recebe dois convidados: Jean Snege, filho do escritor, e Thiago Tizzot, editor do livro. Na conversa, Jean fala sobre como ele acabou descobrindo o pai na leitura dos livros que ele deixou – sobretudo no romance autobiográfico "Como eu se fiz por si mesmo" – e lembra de como ele podia ser engraçado, inclusive ao falar dos próprios livros. Uma espécie de revolucionário e inconformista, Jamil Snege se recusava a publicar por grandes editoras – embora tenha recebido convites para isso. E preferia editar os próprios livros, controlando todas as etapas do processo, inclusive a ilustração da capa.Também na conversa com o jornalista Irinêo Netto, Jean e Thiago falam sobre a influência de Snege nas novas gerações de escritores. Além de tudo, falam sobre o humor de Snege, característica que era um de seus superpoderes.

  4. 82

    Episódio 2.5: Lark exorciza fantasmas e conquista meio mundo com seus quadrinhos

    "Olá, mundo", diz Lark na abertura deste episódio de "O que ler agora?", que marca a primeira experiência da cartunista com podcasts. Embora tenha uma presença marcante nas redes sociais – são mais de 80 mil seguidores só no Instagram e não tenha escapado de gravar uma live durante a pandemia, essa é a primeira vez que ela participa de uma entrevista em podcast. Com o livro "Como abraçar um fantasma", Lark está participando da campanha de assinaturas do Plural com o apoio da editora e livraria Arte e Letra. Nessa campanha, você assina o Plural nas opções trimestral, semestral ou anual, e ganha livros da Arte e Letra (um, dois ou três livros, respectivamente). Saiba mais sobre a campanha e assine o Plural, aqui.Na conversa com o jornalista Irinêo Netto, Lark fala sobre sua relação com as redes sociais, com leitoras e leitores, e sobre uma campanha extraordinária no Catarse. A meta da campanha era levantar R$ 32 mil para publicar "O livro dos pássaros", contando o desfecho de uma história em quadrinhos que começou nas redes sociais (aqui). No fim, Lark conseguiu levantar mais de R$ 500 mil (para ser exato: 528.765 reais), um sucesso estrondoso.Ao longo do episódio, Lark fala sobre as ideias e experiências que inspiraram seus livros, com destaque para "Como abraçar um fantasma" (aqui), em que ela parte das próprias experiências para contar a história de uma artista que decide largar seu emprego estável como designer para se dedicar aos quadrinhos.

  5. 81

    Episódio 2.4: Sobre um romance genial de Manoel Carlos Karam

    O tema deste episódio é o livro "Algum tempo depois", de Manoel Carlos Karam (1947–2007). Publicado pela Arte e Letra em 2014, esse romance póstumo é um exemplo notável da literatura de Karam, um catarinense que viveu quatro décadas em Curitiba. (Ele dizia que saiu de Rio do Sul rumo a Paris e parou para pernoitar em Curitiba.)Leitor e admirador de Samuel Beckett, Karam escreveu pelo menos 20 peças teatrais – uma delas, "Ovos não têm janela", foi recentemente montada em Curitiba – e 13 livros. Esse interesse pelo autor irlandês de "Esperando Godot" é evidente não só nos textos para o palco, mas também no romance "Algum tempo depois".No livro, habitamos a cabeça de um homem que trabalha num escritório de atividades suspeitas, com uma esposa que viaja para cidades europeias e volta carregada de vinhos (e ele sente saudades dela). É sobre a rotina desse homem que fala o livro, das pequenas coisas que acontecem ou deixam de acontecer ao longo da vida.Nas palavras de Bruno Karam, filho do escritor, se Paulo Leminski é rock and roll, Manoel Carlos Karam é jazz. Gênero musical que, aliás, ele ouvia enquanto escrevia (Karam era fã de Miles Davis, entre vários outros músicos).Assim como outros autores de Curitiba, Karam também foi descoberto e cultuado por figuras de destaque da literatura brasileira – gente como Joca Reiners Terron, escritor por trás da editora Ciência do Acidente, e Marçal Aquino. Karam é um escritor ousado na simplicidade (aparente) do texto. Nas palavras do editor Thiago Tizzot: "Quando você vê o trabalho que tem por trás [do texto], para construir essa aparente simplicidade, é genial".Na conversa, Bruno Karam fala sobre virar o curador da obra do pai, sobre a experiência de ler o pai e também sobre as influências musicais do autor. "Algum tempo depois", de Manoel Carlos Karam, faz parte da campanha do Plural com a Arte e Letra. Você assina o jornal e ganha livros de escritoras e escritores curitibanos (saiba mais sobre a campanha aqui)."Algum tempo depois", de Manoel Carlos Karam. Arte & Letra, 176 páginas, R$ 40. Romance. Outras informações sobre o livro, aqui.

  6. 80

    Episódio 2.3: Marcos Pamplona conversa sobre crônicas, Lisboa e a vida

    Este episódio de "O que ler agora?" faz parte de uma série sobre escritoras e escritores que participam da campanha de assinaturas do Plural com a editora Arte & Letra. Você assina o jornal e ganha livros da editora curitibana.Saiba mais sobre a campanha, aqui. Ela vai até o dia 31 de agosto de 2023.Desta vez, a conversa é com o escritor Marcos Pamplona, que fala sobre o livro "O anjo da incerteza", uma seleção de crônicas publicadas no Plural. Recém-lançado pela Arte e Letra, o livro reúne três dezenas de textos, todos ilustrados pelo artista gráfico Frede Tizzot. Para Pamplona, a crônica – o mais brasileiro dos gêneros literários – é uma forma de revolução (ele fala mais sobre isso aqui).Poeta e editor, quatro anos atrás Pamplona estava lidando com o fim de um casamento e com uma situação política angustiante no Brasil. Depois do trauma de uma ditadura militar – ele chegou a ser preso pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) nos anos 1980 –, Pamplona resolveu ir embora para Lisboa. Nessa nova vida, ele se descobriu cronista. "Comecei a escrever crônicas sobre os personagens que conheci no bairro em que eu morava, o Bairro Alto", diz. Um desses personagens é a dona Napoleontina, uma senhora de 90 anos que morava há 70 no mesmo apartamento. Um vazamento no prédio acabou aproximando os dois – e eles se tornaram amigos.Situações como essa animam os textos de Pamplona, que tem um olhar afetuoso e atencioso sobre as coisas triviais (à primeira vista) da vida. Sobre a experiência de escrever, Pamplona diz: "A felicidade não pede que a gente escreva. A felicidade pede que a gente viva".Quando a felicidade dá um tempo, ele escreve sobre memórias de infância, sobre personagens pitorescos, sobre a importância de publicar e ler livros mesmo quando você tem dificuldade de ver o quão importante isso pode ser.Na conversa com o jornalista Irinêo Netto, Pamplona fala ainda sobre as diferenças entre Brasil e Portugal, sobre as impressões que teve ao passar por Curitiba e Florianópolis depois de quatro anos fora do país. "Eu me sinto muito feliz aqui", diz ele, sobre Lisboa.

  7. 79

    Episódio 2.2: Thiago Tizzot encara os desafios de ser editor, escritor e livreiro

    Este episódio é o segundo de uma série de oito em que o podcast de livros do jornal Plural fala sobre obras publicadas pela editora independente Arte & Letra, de Curitiba. Os oito títulos fazem parte de uma campanha em que você assina o Plural e ganha livros da Arte e Letra. Saiba mais, aqui.Thiago Tizzot se define como um "fazedor de livros". Além de escrever, ele também é o editor por trás da Arte & Letra e o dono da livraria homônima, que fica num endereço charmoso de Curitiba.Como autor, Tizzot é mais conhecido por escrever livros de fantasia, apesar de ter publicado uma bela coletânea de contos chamada "Esqueletos que dançam". Mais recentemente, ele lançou o romance "A sombra da torre", um dos temas deste episódio de "O que ler agora?". A história de "A sombra da torre" se passa na terra de Breasal, um universo fictício em que Tizzot ambienta todos os seus livros fantásticos desde "O segredo da guerra" e passando por "Ira dos dragões" e "Três viajantes". Na conversa com o jornalista Irinêo Netto, Tizzot fala (de um lado) sobre a vida de editor e (de outro) sobre os desafios de escrever várias histórias que se passam em um mesmo mundo que tem uma lógica própria e é dominado pela magia. "A sombra da torre", de Thiago Tizzot, foi publicado pela Arte & Letra. Outras informações sobre o livro, aqui.

  8. 78

    Episódio 2.1: Benett fala sobre cartum, humor e os percalços de fazer um jornal

    Este episódio é o primeiro de uma série de oito em que o podcast de livros do jornal Plural fala sobre obras publicadas pela editora independente Arte & Letra, de Curitiba. Os oito títulos fazem parte de uma campanha em que você assina o Plural e ganha livros da Arte e Letra. Saiba mais, aqui."Anedonia", do cartunista Benett, é uma antologia de cartuns sobre o amor. Ou melhor, sobre a impossibilidade do amor.De acordo com o dicionário, anedonia é a “perda da capacidade de sentir prazer”. O que é um paradoxo porque a leitura de "Anedonia" é, sem dúvida, prazerosa.No programa, o jornalista Irinêo Netto conversa com Benett (os dois são amigos de longa data) sobre o livro e sobre como o cartunista cria as suas tirinhas. Durante o bate-papo, Benett admite que não gosta de desenhar. O que ele gosta mesmo é de pensar nas piadas."Anedonia" foi publicado pela Arte & Letra. Outras informações sobre o livro, aqui.

  9. 77

    Episódio 63: "Bartleby, o escrivão", de Herman Melville

    "O que ler agora?" encara um clássico no episódio 63: "Bartleby, o escrivão", de Herman Melville. Mais conhecido por sua obra-prima "Moby Dick", que também foi tema do podcast de livros de Plural (no Episódio 35), Melville publicou a novela "Bartleby" em 1853. Sem entregar muito do enredo, caso você não conheça: numa época em que documentos importantes tinham de ser copiados à mão, com pena e inteiro, lá em meados do século 19, há escritórios que existem para cumprir esse papel.O narrador do livro, cujo nome não é revelado, é o dono de um desses escritórios. E é ele que contrata Bartleby para o seu time de escrivães, que conta também com Turkey ("peru", em inglês), Nippers ("pinças") e Ginger Nut ("bolinho de gengibre").Bartleby começa bem, mas logo adota uma atitude bizarra. Diante de um pedido trivial do chefe, ele responde: "Prefiro não". Essa recusa de fazer o que lhe pedem é a marca do personagem, a ponto da bela edição da Antofágica, com design gráfico de Letícia Lopes, destacar essa frase na quarta capa do livro.Aos poucos, a recusa de Bartleby vai tomando conta de tudo. Enquanto seu chefe (o narrador) não sabe exatamente como reagir à situação.No podcast, os jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre como Melville era incrível para criar personagens e sobre como "Bartleby, o escrivão" tem algo que remete às sitcoms americanas em geral e à série "The Office" em particular.

  10. 76

    Episódio 62: "O que é meu", de José Henrique Bortoluci

    No Episódio 62 de "O que ler agora?", que vai ao ar nesta segunda-feira (24), o podcast de livros do Plural fala sobre "O que é meu", de José Henrique Bortoluci.Os jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam, entre outros temas, sobre a dificuldade de se classificar uma obra que consegue costurar vários gêneros literários: biografia, ensaio, memórias… e acaba sendo classificada como autoficção."O que é meu" foi comparado aos livros de Annie Ernaux, a Nobel de Literatura que escreveu "O lugar" e "Os anos", entre vários outros títulos. De certa forma, assim como Ernaux, Bortoluci procura olhar para a própria história e extrair dela elementos que permitam entender um contexto maior. Nesse caso: o do Brasil dos últimos 50 anos.Doutor em Sociologia, professor da Fundação Getúlio Vargas e, agora, um autor reconhecido, Bortoluci viu os direitos de seu livro serem vendidos para dez países diferentes antes mesmo de "O que é meu" ser lançado no Brasil.

  11. 75

    Episódio 61: "Páradais", de Fernanda Melchor

    No episódio 61 de "O que ler agora?", os jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre o romance "Páradais", da escritora mexicana Fernanda Melchor.O livro, publicado no Brasil pela Mundaréu, foi selecionado para o Booker Prize International 2023, na Inglaterra, o prêmio literário mais importante do mundo para literaturas que, originalmente, não foram escritas em inglês, e são traduzidas e publicadas no mercado anglófono. Numa entrevista para a Rádio Nacional da Argentina, a escritora Fernanda Melchor diz que o estilo cinematográfico de "Páradais" é proposital. Por estilo cinematográfico, pode-se considerar o ritmo da narrativa, dividida em três atos e centrada nos dois personagens principais: Franco e Polo, um branco e um negro. Um rico e outro pobre. Ambos adolescentes.De uma espécie de convivência desesperada (chamar os dois de amigos seria um exagero), e por motivos diferentes, eles começam a arquitetar um crime: entrar na casa de uma das famílias ricas que vivem no mesmo condomínio de Franco. O mesmo condomínio onde Polo trabalha como jardineiro. Polo porque precisa de dinheiro. Franco porque quer violentar a mãe da família. (Ou, para o usar o verbo que os personagens usam no livro: porque ele quer "comer" a mãe de família.)

  12. 74

    Episódio 60: Quadrinhos de Marcelo D'Salete e Marcello Quintanilha

    No Episódio 60, Mitie e Tami Taketani conversam com Rogerio Galindo sobre HQs e sobre a importância de obras que partem de fatos históricos para abordar o passado do Brasil – que é sobretudo o passado dos povos negros e escravizados. Mais especificamente, Mitie e Tami (mãe e filha) falam sobre "Mukanda Tiodora", HQ inspirada na personagem histórica que dá título à obra, uma mulher negra que viveu no Brasil do século 19 e que produziu uma série de cartas que inspiraram o trabalho de D'Salete.As cartas foram descobertas pela historiadora Maria Cristina Cortez Wissenbach, junto de outros documentos da época. Mitie Taketani é proprietária da Itiban Comic Shop, uma livraria especializada em quadrinhos e um dos pontos culturais mais importantes de Curitiba. A livraria faz 34 anos em 2023. Tami Taketani, filha de Mitie, trabalhou ao lado da mãe e do pai, mas hoje é fotógrafa e videomaker do Plural.Na segunda parte do programa, as Taketanis falam sobre a HQ "Escuta, Formosa Márcia", de Marcello Quintanilha.

  13. 73

    Episódio 59: "98 segundos sem sombra", de Giovanna Rivero

    Em uma cidadezinha no interior da Bolívia no fim da década de 1980, a adolescente de 16 anos Genoveva Bravo Genovés sobrevive à escola de freiras, aos conflitos com as colegas de classe e à família disfuncional.Enquanto sonha em fugir desse lugar que não vê futuro nem felicidade, Genoveva atravessa situações que envolvem o misticismo popular boliviano, os ensinamentos do catolicismo, o narcotráfico e os ideais neoliberais que dominam a cidade.O romance “98 segundos sem sombra”, da escritora boliviana Giovanna Rivero, chegou ao Brasil no final de 2022 e é o destaque desta semana do podcast de livros “O que ler agora?”. O episódio conta com a participação da jornalista Cecília Zarpelon.

  14. 72

    Episódio 58: "Frio o bastante para nevar", de Jessica Au

    A australiana Jessica Au chega ao Brasil com esse romance curto sobre uma viagem de mãe e filha para o Japão. Um livro intimista, bonito, que explora as relações entre duas mulheres que têm muita coisa diferente, apesar da proximidade. A jornalista Luciana Mello é a convidada do episódio.

  15. 71

    Episódio 57: Mauri König, um repórter que virou contista

    Um dos mais premiados jornalistas do país, que sempre contou histórias de dramasd causados pela pobreza e pela exploração sexual de crianças, chega agora à literatura. Mauri König estreia na ficção com "Ensaio sobre o que nós somos", publicado pela Kotter. Neste episódio, Rogerio Galindo e Aline Reis falam sobre o livro.

  16. 70

    Episódio 56: "Felizes os felizes", de Yasmina Reza

    No episódio 56 de "O que ler agora?', Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre o romance "Felizes os felizes", de Yasmina Reza. Publicado pela editora Âyiné e com tradução Mariana Delfini, o romance é dividido em capítulos que abordam um personagem cada um (e são 18 personagens retratados no livro).Três desses personagens ganham um segundo capítulo e, à medida que a narrativa avança, as peças que pareciam avulsas vão se unindo umas às outras, criando um panorama divertido e inteligente da França contemporânea (ou de uma parte da França contemporânea).Sem nenhum receio, dá para afirmar que Yasmina Reza é uma das duas melhores escritoras francesas vivas – a outra atende pelo nome de Annie Ernaux.

  17. 69

    Bônus 14: Por que o escritor Itamar Vieira Junior faz tanto sucesso?

    Por que o escritor Itamar Vieira Junior faz tanto sucesso?Escrito por Rogerio Galindo e publicado pelo PluralAlguma coisa aconteceu com “Torto arado”. Não faz muito tempo, Itamar Vieira Junior era um desconhecido na literatura nacional. Tinha lançado dois livros de contos e só. Em 2018, seu primeiro romance venceu o prêmio LeYa em Portugal e, em seguida, foi comprado pela Todavia para lançamento no Brasil. Em 2019, quando o livro foi publicado ainda não estava claro o barulho que ia fazer. Mas fez.Do final de 2020 para cá, livro e autor entraram numa maré impressionante. “Torto arado” venceu o Jabuti de melhor romance e o Oceanos, um dos mais importantes prêmios para literatura de língua portuguesa. Itamar Vieira Junior foi convidado para ser colunista do jornal “Folha de S.Paulo” e para uma entrevista no programa “Roda Viva”. Numa matéria do UOL, ele foi chamado de “maior autor brasileiro”.Uau. Fazia tempo que nada do gênero acontecia no Brasil. Portanto, é justo analisar a obra de Itamar Vieira Junior para tentar entender, afinal de contas, o que é que está acontecendo. O que explica o sucesso de “Torto arado” e por que, de repente, ele aparece na mesinha de cabeceira de Lula ao mesmo tempo que é eleito o “hit do verão” pelo site “Glamurama”?O centro da trama de “Torto arado” tem duas irmãs pobres e negras na Chapada Diamantina, interior da Bahia. Crianças, elas encontram um facão com uma aura meio sagrada na mala da avó – e num acidente terrível, uma das meninas decepa a própria língua, ficando impossibilitada de falar pelo resto da vida.Durante dois terços do livro, são elas as narradoras da história, que acontece numa fazenda em que os trabalhadores não têm direito a quase nada. Eles trabalham não em troca de dinheiro, mas apenas para poder morar ali. Eles não podem construir casas de alvenaria, para que não sejam duradouras. Há limites para a roça que podem plantar e, evidentemente, o patrão (que mal aparece por lá, governando por meio de um capataz) pode tudo, quase como um rei absolutista.Embora as meninas Bibiana e Belonísia sejam o centro da história, a intenção claramente é de um panorama da vida agrária da região. Itamar Vieira Junior é funcionário do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e parece conhecer bem as fazendas do interior profundo. Mais do que isso, Vieira Junior é defensor ferrenho da reforma agrária, e vê na história uma oportunidade de mostrar os contrastes que o incomodam entre a pobreza e a riqueza no Brasil rural, entre os que mandam e os que sobrevivem.Contam-se histórias de líderes de religiões afro (o que se pratica na região é o jarê, uma espécie de variante do candomblé); de mulheres vítimas de maridos violentos, sem ter para onde correr; de gente que mal tem o que comer; de mulheres fortes sobrevivendo à seca, ao infortúnio e a desmandos de todo tipo; e dos jovens que mal chegam à vida adulta e já estão casados, com filhos e com seu destino escrito.Com o tempo o leitor percebe, porém, que Itamar Vieira Junior prepara uma virada. Que um personagem com ideias e leituras inusitadas começa a politizar os trabalhadores e a levá-los para um caminho de luta contra a sujeição. Embora não seja o caso de contar mais do que isso, fica evidente que “Torto arado” não é apenas a história da pobreza centenária, mas também o relato de uma tentativa de subverter essa situação – com traços de martírio em nome do desenvolvimento social.Talvez não seja tão difícil assim entender por que “Torto arado” fez tanto sucesso. O livro foi lançado em um momento de extrema desilusão da esquerda brasileira – um momento em que avanços sociais foram perdidos e em que os piores temores de quem saiu de uma ditadura nem tanto tempo atrás voltaram a assombrar os leitores mais afinados com a pauta progressista.“Torto arado” é um romance, evidente, mas tem ares de manifesto. Nenhuma das escolhas do autor parece ter sido feita à toa.O livro é narrado por mulheres e tem mulheres como personagens mais fortes (num momento em que o feminismo e a luta contra a sujeição da mulher são assuntos mais caros aos leitores progressistas.O livro se passa no Brasil rural, tentando discutir as raízes históricas de nossa desigualdade e recuperar a ideia do sertanejo forte, virtuoso, que se opõe em caráter ao patrão, o arquétipo do oligarca visto como mal maior da nação na narrativa de esquerda.A trama recupera práticas que têm sido objeto de estudo e resgate nas universidades e na comunidade negra, como as religiões de origem africana (a terceira parte, inclusive, é narrada por uma entidade sobrenatural do jarê).Etnicamente, o livro fala de negros que sentiam vergonha de se ver como negros mas que, com o incentivo de um personagem mais instruído, passam a se enxergar como quilombolas, cidadãos de direitos históricos que devem ser recuperados.Itamar Vieira Junior é um romancista que parece acreditar piamente que sua literatura deve tomar partido, deve ser socialmente engajada – e em nenhum momento parece ter pudores de falar disso desabridamente. Em certos momentos, o tom de homilia se deixa sentir como uma mão pesada que chega a incomodar (como deixou clara a polêmica entre o autor e a jornalista Fabiana Moraes).Embora em certos momentos Vieira Junior pareça ser um herdeiro de Gabriel García Márquez, ele acaba se aproximando muito mais de um novo Graciliano Ramos, mas com tons ainda mais políticos, mas claramente militantes. O que para muita gente é um alívio, mas para muitos outros é um incômodo.Em todo caso, o fenômeno é interessante, não importa a opinião que se tenha sobre o livro. Há muito um romance nacional não ganhava tanto espaço na mídia e não mexia com tanta gente. Se é em função de méritos literários ou de posturas políticas, o futuro dirá.“Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, foi publicado no Brasil pela editora Todavia.(Texto lido por Luciana Nogueira Melo.)

  18. 68

    Bônus 13: "A Fronteira", de Erika Fatland

    Erika Fatland escreve sobre os 60 mil km de fronteira da RússiaDa Redação do PluralA antropóloga Erika Fatland percorreu os 60.932 quilômetros de fronteira da Rússia, o maior país do mundo, e falou sobre a experiência no livro “A fronteira – Uma viagem em torno da Rússia”, a ser lançado pela editora Âyiné no dia 23 de fevereiro (de 2023).ara se ter uma ideia das dimensões da Rússia e do trabalho de Erika Fatland em “A fronteira”, a circunferência da Terra tem “meros” 40.075 quilômetros. Em seu esforço de pesquisa, a antropóloga procurou analisar a influência russa sobre seus vizinhos (aqui vai a lista completa) Azerbaijão, Belarus (ou Bielorrússia), Cazaquistão, China, Coreia do Norte, Estônia, Finlândia, Geórgia, Letônia, Lituânia, Mongólia, Noruega, Polônia e Ucrânia. Sem contar a Passagem do Nordeste, que embora não seja um país e sim uma via marítima, também é analisada no livro.E Erika Fatland percorreu esses lugares lançando mão de vários meios de transporte – ela andou a cavalo, voou de avião turboélice, além de ter apelado até para renas e caiaques.A pesquisa na origem de "A fronteira" ocorreu entre 2015 e 2017 (ano em que o livro saiu na Noruega). Em um prefácio à edição brasileira, Fatland destaca as mudanças constantes nesses territórios de fronteira, em parte por causa das invasões orquestradas pelo governo russo. Por isso, a antropóloga trata o livro como “um instantâneo” da fronteira da Rússia no período abordado pela autora.“A fronteira” é então um livro sobre a Rússia e sobre a história russa, com um detalhe peculiar: Erika Fatland não chegou a entrar em território russo. Entre as proezas da autora, está a descrição de culturas, indivíduos e paisagens que ela encontrou ao longo da pequisa."A fronteira – Uma viagem em torno da Rússia", de Erika Fatland. Tradução de Leonardo Pinto Silva. Âyiné, 692 páginas, R$ 159,90.(Texto lido por Irinêo Netto.)

  19. 67

    Episódio 55: "Friday Black", de Nana Kwane Adjei-Brenyah

    Neste episódio, Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre "Friday Black", o livro de contos de Nana Kwame Adjei-Brenyah, publicado pela editora Fósforo. O autor americano de família ganesa é um dos nomes mais badalados da literatura americana contemporânea. Discípulo de George Saunders ("Lincoln no limbo"), Adjei-Brenyah desponta com contos quase impossíveis de classificar, que falam de raça e violência, pais e mães, vida e morte.

  20. 66

    Bônus 12: "A história invisível", de Sofia Nestrovski

    “A história invisível”, de Sofia Nestrovski, é um retorno à infânciaEscrito (e lido) por Cecília Zarpelon, publicado pelo Plural.Admito que comecei a ler “A história invisível”, de Sofia Nestrovski, sem muitas expectativas. A sinopse, de uma garotinha que em seu aniversário de sete anos deseja ficar invisível (e consegue) na busca de combater o tédio, não havia chamado minha atenção.Mas creio que, dentre muitos outros, esse foi um dos motivos que me fez apreciar o modo como Sofia Nestrovski conduz a história da personagem principal. Iniciei a leitura acreditando que seria uma obra infantil e não podia estar mais errada. De cara, o leitor é apresentado à personagem que vai acompanhá-lo no livro: Sofia, de sete anos, que “passa os dias conversando com as próprias ideias” e buscando aventuras para se livrar do tédio que a assombra.Após se tornar “invisível, órfã e livre”, como queria, Sofia passa a perambular por um mundo mágico onde tem a chance de visitar o interior de uma grande árvore, conversar com animais e aprender a enxergar tudo aquilo que normalmente não é visível: os pensamentos de um peixe e os diálogos que podem existir entre as pedras, por exemplo.Com uma escrita errática, parece que o leitor está dentro da cabeça de uma criança, neste caso de Sofia, escutando seus pensamentos frenéticos e questionamentos perspicazes.O que surpreende na obra é justamente o fato de Nestrovski escrever como se fosse Sofia narrando seu próprio mundo, sonhos, desejos e medos, e o sentimento nostálgico que traz de volta ao leitor experiências da infância.Não sei se perdemos ou aprendemos a esquecer esse jeito de pensar de criança, mas o livro é uma ótima forma de relembrar que, na infância, tudo é indefinido e um mistério. E, nas palavras de Nestrovski, se nada é definido, então tudo é possível. “A história invisível”, de Sofia Nestrovski (2022). Fósforo, 104 páginas, R$ 64,90 ou R$ 44,90 (e-book). Com ilustrações de Danilo Zamboni.

  21. 65

    Episódio 54: Coisas boas de ler em 2023

    Para abrir a nova temporada de “O que ler agora?”, o podcast de livros do Plural, os jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conversam sobre uma dúzia de lançamentos literários previstos para 2023.O episódio se inspira na lista de lançamentos do ano compilada pelo tradutor Daniel Dago para o Plural, com mais de 400 títulos.Porém, no podcast, Galindo e Netto fazem uma seleção destacando os livros mais legais (na opinião deles) que editoras independentes planejam lançar no ano que começa (ou que começou, há mais de um mês já).A lista dos dois inclui Anne Carson, Jon Lee Anderson, Projeto Querino, Annie Ernaux, Mohamed Mbougar Sarr, uma série de contos policiais que se passa em cidades como Bagdá e Teerã, Herman Melville e “Stoner”, de John Williams.

  22. 64

    Bônus 11: "A vida real", de Adeline Dieudonné

    Livro de Adeline Dieudonné tem sangue, suspense e sustosEscrito por Irinêo Netto, publicado pelo Plural.“A vida real”, da belga Adeline Dieudonné, tem uma narrativa que você lê rápido, virando as páginas uma depois da outra, completamente envolvido pela história.Publicado pela editora Nós e com tradução de Letícia Mei, a história conta com todos os elementos de um bom thriller e também com algo mais. Há sangue, suspense e sustos. E o algo mais fica por conta do talento de Adeline Dieudonné, que consegue criar uma atmosfera meio sobrenatural mesmo com os dois pés fincados num mundo que parece muito a realidade que existe fora do livro.A narradora é uma menina que tem dez anos no começo da história. Ela tem um irmão quatro anos mais novo, uma mãe omissa e submissa, e um pai violento. Tudo que diz respeito aos sentimentos e ao modo como as pessoas se comportam são tratados pela jovem narradora como algo estranho, com vida própria, como uma fera que toma posse dos seres humanos.Até mesmo o que ela sente é explicado dessa forma. Numa cena terrível, no meio da floresta, acuada, ela pensa: “Foi então que ela eclodiu. No fundo do meu ventre. Não era nas vísceras, era mais profundo do que isso. Muito além de tudo. Brotou uma criatura muito maior do que eu. No meu ventre. (…) Eu não era uma presa. Nem um predador. Eu era eu, e eu era indestrutível”.Da dificuldade de explicar a maldade do pai que, aos poucos, vai tomando conta também do irmão, ela acaba atribuindo esse ódio a uma hiena empalhada que o pai –um caçador orgulhoso dos seus troféus – mantém em casa. “Mesmo empalhada, ela estava viva – eu tinha certeza –, e se deliciava com o terror provocado em cada olhar que cruzasse o seu.”Logo, fica claro que a história é sobre a luta da narradora – que descobre ter uma inteligência muito acima da média – contra os monstros ao seu redor. E o maior deles é o próprio pai e a vida sufocante que ele impõe à família: sem nenhum afeto, ignorante e violenta. O pai é uma figura horrorosa. Um canalha ressentido que personifica tudo que pode haver de ruim num homem.Esse duelo entre a narradora e o pai chega a um clímax que não convém revelar aqui. Trata-se de um livro que se baseia muito nas revelações que faz ao longo do caminho. Lembra um Stephen King, tem boas cenas e daria uma boa série da Netflix.A maior engenhosidade do livro de Adeline Dieudonné é contar a história pelos olhos de uma criança. Vem daí a sensação de que algumas coisas são sobrenaturais, difíceis de ser explicadas, ou mesmo incompreensíveis. O mundo pode ser assim para uma criança, ainda mais um mundo agressivo como o da “Vida real”.Mas parece haver uma falha. Porque a narradora não é mais criança – ela está contando tudo o que aconteceu no passado. E às vezes a diferença entre a pessoa que a narradora é enquanto narra e aquela que ela foi na história que está narrando gera uns curtos-circuitos. Porque, em alguns momentos, ela se entrega à ingenuidade da criança que foi sem nenhuma mediação. É como se ela tivesse de novo dez anos de idade e falasse com a voz dessa criança e não com a voz da pessoa que ela se tornou ao fim dessa história. Mesmo que não faça sentido, ainda é possível. Mas aí o livro não ajuda a entender por que isso acontece.Ou a história é de fato narrada pela criança de dez anos que cresce ao longo da ação. Mas, nesse caso, é estranho que ela seja inteligente a ponto de sacar o mundo e as pessoas com uma profundidade impressionante para alguém da sua idade e, ao mesmo tempo, ser ingênua para acreditar em viagens no tempo e bruxarias, exatamente como uma criança de dez anos.

  23. 63

    Bônus 10: "Onze astros", de Mahmud Darwich

    Se você tem interesse pela causa palestina, procure ler Mahmud DarwichEscrito por Benedito Costa, publicado pelo Plural.A primeira observação que preciso fazer sobre “Onze astros”, de Mahmud Darwich (1941–2008), é sobre sua estrutura de escrita. São seis poemas longos, os quais no original são versificados de acordo com certa tradição do árabe. Explico: tanto pela escrita (mesmo no árabe) quanto pela tradução que infelizmente precisa deixar de lado a metrificação e as possíveis rimas, quanto pela própria junção desses seis poemas longos, o livro de Darwich pode ser lido como uma grande narrativa.Tenho como base aqui outros textos estranhos a toda sorte de classificação, a qual procuro deixar de lado nesta coluna: “Os cantos”, de Ezra Pound, por exemplo; os recentes “Autobiografia do vermelho”, de Anne Carson, “Viagem à Índia”, de Gonçalo Tavares, e tantos outros. Sei que a problemática entre “poema em prosa”, “prosa poética”, “narrativa com (alto) teor poético” é uma questão sem solução – e por vezes nosso desejo é de ler um Todorov qualquer que possa explicar o que cada coisa é sem imaginar que surgirá algo depois que não é nem uma coisa nem outra.Uma segunda observação importante é que Darwich é um autor altamente intertextual/interdiscursivo. Evidentemente, para escritores assim, caberá ao leitor fazer o levantamento do possível: se ele cita um mito bíblico ou corânico ou se ele cita um sábio judeu ou muçulmano, se ele cita um sultão do século 9º, talvez isso, por mais erudito que possa ser, ainda será mais “fácil” do que o diálogo que ele faz com uma longa tradição da escrita árabe e, em particular, com o universo cultural de uma região que ele diz estar entre “o Egito, a Ásia e o Norte”.Ele se refere à região que engloba a Palestina, a Síria, parte do Iraque e a Jordânia. Embora um entrave histórico e geográfico, aparentemente pequeno, frente à vastidão do que já foi o império árabe (ou turco, ou mongol), é bastante coisa. Ele mesmo lembra que a região já foi invadida por faraós, césares, líderes mongóis… E hoje é caminho de um sem número de outros povos que passaram por ali: ingleses, franceses, americanos, israelenses…Do mesmo modo, a escrita de Anne Carson, que faz profundas referências à tradição da escrita grega, também traz esse desafio. Talvez seja fácil encontrar ali a presença de Hércules, mas identificar o tipo de versificação utilizada por Estersícoro, intraduzível, é algo para especialistas muito capacitados. (O tipo de versificação é o dátilo-epitrito, em tríades.)Há muito em que prestar atenção, mas eu fecharia com uma terceira e importante observação: a origem da expressão “onze astros”. Ela vem do sonho de José, que, no Gênesis está em 37:9. O sonho de José ofende a seu pai e a seus irmãos, que perguntam se ele, José, deseja que o pai e os irmãos se ajoelhem perante ele. Não é o caso, claro. No livro de Darwich, o desejo igualmente não é o da subserviência e sim o da libertação.Ao longo dos poemas, Darwich falará das “duas quedas após o Paraíso” adâmico. Ele lida com paralelos: invasões antigas anteriores ao surgimento do Islamismo, a expulsão dos mouros da Península Ibérica, a instituição de Israel na Palestina em 1948.Como bem observa o tradutor Michel Sleiman, os poemas partem do coletivo para o individual. No entanto, como muito bem observa Adônis da Síria em “A time between ashes and roses” [Um tempo entre as cinzas e as rosas], “toda morte é uma morte árabe”. Não porque toda morte seja triste mas porque toda morte é terrivelmente triste. Então, o individual e o coletivo se misturam, sem separação.A leitura de Darwich é quase uma obrigação para quem tem um mínimo de interesse pela causa palestina. Ele é considerado o poeta por excelência do povo palestino – e muitos palestinos não apenas conhecem seus poemas, mas também cantam seus versos.Possivelmente, o poema mais famoso dele no Ocidente seja “Entre Rita e mim há um fuzil”. Nesse “Onze astros”, ele retoma esse poema, como se continuasse a narrativa de um amor impossível, que serve perfeitamente de metáfora para povos de mesmas origens, mas inconciliáveis.Sobre as obras citadas, “Onze astros” tem tradução e introdução de Michel Sleiman, pela excelente editora Tabla. “Autobiografia do vermelho”, da Editora 34, tem tradução de Ismar Tirelli Neto. “A time between ashes and roses”, infelizmente, não tem tradução para o português, mas você pode ler “Poemas”, de Adônis, também com tradução de Michel Sleiman, pela Companhia das Letras.Já “Uma viagem à Índia” tem edição pela Leya. “Os cantos”, de Ezra Pound, tem tradução de José Lino Grünewald e está em catálogo pela Nova Fronteira (que também coeditou uma versão do livro dentro da “Coleção Cultura”).

  24. 62

    Bônus 09: "Dostoiévski-Trip", de Vladímir Sorókin

    Vladímir Sorókin transforma escritores em drogas na peça “Dostoiévski-Trip”Escrito por Benedito Costa, publicado pelo Plural.Então temos sete personagens a procura de algo: no caso, uma droga e daí o “trip” do título “Dostoiévski-Trip”, de Vladímir Sorókin. A peça, de um ato só, pode ser dividida em três partes. Num primeiro momento, as personagens contam que tipo de drogas usam ou que já teriam usado. Cada droga tem o nome de um escritor.Difícil estabelecer se cada escritor citado (cada droga citada) revela algo sobre cada um dos personagens, ou se o próprio Sorókin (ou a voz que ele criou para essa peça) faz uma seleção do que seria apropriado e do que não seria apropriado no caminho que cada leitor pavimenta para sua leitura. Os escritores são vários: Kafka, Thomas Mann, Joyce, Tolstói, Dickens, Beauvoir, Nabokov etc.Pela descrição que cada personagem faz de cada droga, é possível estabelecer “leituras” a partir de cada escritor-droga citado, mas as menções são tão rápidas que isso deve se diluir na encenação, de modo que impossibilita inferências rápidas e precisas. De todo modo, o leitor (talvez diferentemente do espectador) tem tempo de fazer pausas e avaliar cada caso. Não busquei esse caminho de análise porque achei inútil.Num segundo momento, quando os personagens conseguem uma droga em particular, eles são deslocados para o universo das personagens de Dostoiévski. A droga que ingeriram leva o nome do escritor russo. As personagens não apenas “assumem”, então, papéis das obras de Dostoiévski como levam ao extremo características particulares de cada personagem citada.Num terceiro momento (quando os efeitos da droga começam a arrefecer?), as personagens de Sorókin caminham de volta ao cenário original e aí começam grande monólogos em que cada um conta sua vida. O gatilho para cada narrativa é um comentário feito pela personagem precedente. Certamente, é o auge da peça – e sua maior força.A conclusão a que chegam (e que conto aqui porque não é surpresa para ninguém) é a de que “Dostoiévski em estado puro mata”. O químico que vende a droga admite que é necessário diluir “Dostoiévski” muito provavelmente porque o público atual não o suporta mais, ou melhor, não “aguenta” Dostoiévski em estado puro. Então, ele sugere que tomem Stephen King.Narrada dessa forma, ela parece óbvia. Mas não é. Há muitos caminhos que podem ser percorridos ao analisar essa peça e a produção escrita de Vladímir Sorókin, um dos expoentes da literatura russa contemporânea.Embora a tendência seja a de apontar Dostoiévski como o auge da produção literária russa, Sorókin não é um autor para leituras fechadas e óbvias. Isso pode muito bem ser o contrário: uma crítica severa à necessidade de construirmos cânones. Isso não quer dizer que haja uma crítica negativa ao castelo de escrita deixado por Dostoiévski e que foi (e continua sendo) base de leitura para escritores do mundo todo.Se em outro grande escritor russo moderno, Dovlátov, a ironia é mais sutil, mas não menos ardente e iconoclasta, principalmente em “Parque Górki”, aqui a ironia é rasgada e nada comedida, indo às raias da loucura. Evidentemente, loucura e efeito de drogas são algo muito próximo nessa peça e na mirabolante escrita dela (e que não se perca de vista que ela foi escrita para encenação).O detalhe interessante é que em outros autores russos, como o próprio Dovlátov, é o álcool – grave problema de saúde pública na Rússia – que serve de mote para o desvelamento de determinadas verdades (de um crime ao sentido hediondo da vida), mas aqui é a droga, cada vez mais comum entre jovens russos notadamente pós-perestroika.Há outras situações curiosas, como o mercado cultural – e como ele destrói tudo ou abarca tudo e transforma tudo em produto, justamente num país que foi o centro do comunismo soviético, discussão também presente em Dovlátov –, o vazio da vida pós-moderna, ou pós-perestroika, ou do capitalismo tardio, a busca pelas soluções rápidas, como a droga etc.De todo modo, não se pode perder de vista que o autor usou nomes de outros autores para nomear as drogas e não nomes de empresas, por exemplo, como a Sony e o McDonald’s. De todo modo, uma peça – e notadamente os textos de Sorókin – tem múltiplas camadas. Trocar Dostoiévski por King pode remeter à troca de um escritor por outro, ou à troca de todo um sistema político por outro.Sim, o leitor ou o espectador lembrará de Pirandello (“Seis personagens em busca de um autor”). Não é muito clara a relação entre Sorókin e Pirandello, numa primeira vista, mas eu não descartaria essa investigação. Há muito de nonsense e absurdo nessa peça e, claro, fica complicado analisá-la sozinha, principalmente porque o teatro contemporâneo abriu os tentáculos para todas as direções, como a dança, o vídeo, os efeitos visuais etc. Ou seja, para os mais variados discursos e possibilidades. Interessante notar, também, a nudez do palco: não há grandes elementos que ajudem a traduzir a peça, sendo ela bem centrada na voz dos atores. Claro, isso dependerá de cada diretor, até mesmo porque não há exigências severas de montagem indicadas por Sorókin.A tradução da Editora 34 é de Arlete Cavaliere, que escreveu uma das melhores análises sobre a literatura russa contemporânea que li em muitos anos. Lendo a peça, você pode se deliciar com a análise precisa e erudita da tradutora.Sorókin é leitura obrigatória para quem deseja conhecer literatura russa contemporânea.

  25. 61

    Bônus 08: "No canto dos ladinos", de Quito Ribeiro

    “No canto dos ladinos”, livro de estreia de Quito Ribeiro, faz análise do Brasil de hojeEscrito por Aline Reis, publicado pelo Plural.A primeira coisa que fiz quando comecei a ler “No canto dos ladinos” foi pesquisar sobre a palavra. Achei peculiar a escolha dela e encontrei uma entrevista de Quito Ribeiro para a Todavia, que publicou o romance, explicando o contexto.A ressignificação da palavra foi um dos muitos acertos de “No canto dos ladinos”. A princípio, podemos entender ladino como alguém malandro. Ribeiro, na entrevista, vai além e conta que a palavra ladinos, na realidade, era designada para identificar escravizados africanos que aprendiam a falar português no Brasil. Os que não sabiam eram chamados de boçais.Negros que conseguem usar a “malandragem” e sair do lugar de pobreza, portanto, são ladinos. Os personagens apresentados por Quito Ribeiro em sua obra de estreia são todos negros de classe média. Um deslocamento que incomoda e marca toda trama.O romance é ambientado em Salvador, no Brasil, e tem passagens também por países europeus (imagine você, negros brasileiros na Europa).Há três personagens principais: Cristiane, que é escritora e está numa conferência em Lyon, na França, falando do seu livro. É irmã de Mariana, outra personagem importante no romance, que por sua vez é esposa de Érico.Personagens do livro de Cristiane também ganham capítulos para si. Um livro dentro do livro, uma técnica interessante que deixa a leitura bastante instigante.A história dessas pessoas é costurada a partir de percepções próprias. Eles vivem em bairros ricos e têm hábitos que não são comuns – ou não são vistos como comuns – para pessoas negras no Brasil.Entender o passado para compreender as consequências para as pessoas negras nem sempre é uma tarefa fácil – e às vezes pode soar complicada. Quito Ribeiro, por meio de histórias que se entrelaçam de maneira envolvente – consegue levantar essas questões sem pesar a mão e faz uma análise importante da sociedade brasileira.“Foi bem ridícula a primeira vez que apanhei de alguém com autoridade para bater. Andava por uma área residencial exclusiva para militares. Era acostumado a andar por ali porque a filha de um milico frequentava a minha área e eu já tinha passado pela zona militar várias vezes por causa dessa amizade. Nunca tinha chamado atenção, mesmo achando ousado passar por ali. Dessa vez, contudo, estava sozinho, andando para ir à casa de um amigo que morava num prédio bem ao lado desse cercadinho residencial-militar. Resolvi cruzar a rua fechada para cortar caminho. Quando já estava perto da saída, um soldado de guarda naquele quarteirão me falou que não podia passar ali. Reagi amedrontado e disse que já estava saindo. Veio andando em minha direção e, como eu ainda estava saindo quando ele chegou, me deu uma pancada com o cassetete nas costas, na altura do rim e disse: “Sai pra lá, neguinho”. Não foi para doer muito, mas a agressão ficou. A primeira vez que apanhei de alguém com autorização para agredir”.O trecho narrado pelo personagem Érico demonstra como o estilo da escrita de Quito deixa a leitura fluída e também dá o tom do que é discutido. Situações cotidianas para pessoas negras que dificilmente acontecem com pessoas brancas. Dois Brasis.Quito Ribeiro é compositor e montador de produções para cinema e TV. As habilidades usadas nessas atividades fazem com que a escrita seja bastante objetiva. O livro tem pouco mais de cem páginas para contar uma história engenhosa de afirmação da negritude.Outro ponto positivo são referências atuais. Baco Exu do Blues, Olodum e até mesmo o Facebook. Isso reforça a ideia de ser uma análise do agora. Tudo o que escreve Quito Ribeiro está acontecendo neste momento, com alguém, em Salvador ou Curitiba.O livro une a consciência das personagens acerca das consequências terríveis da escravidão ao passo que os coloca num lugar privilegiado, longe da pobreza, vivendo de um jeito branco.“No canto dos ladinos” usa a união das histórias para traçar um panorama preciso e pertinente sobre a sociedade brasileira e a falsa democracia racial.

  26. 60

    Bônus 07: "Eva", de Nara Vidal

    “Eva”, de Nara Vidal, discute o peso do passado sobre o presenteAline ReisEva carrega o peso do pecado original desde criança e o estigma do nome dá norte ao romance homônimo, de Nara Vidal, publicado pela Todavia.Nas 112 páginas entramos na vida caótica de Eva, uma mulher solitária, que sofre pela ausência da mãe e que tenta se afastar do filho.Vidal deixa bem marcados na narrativa em primeira pessoa os dois temas importantes para a trama: a relação de Eva com a mãe e o envolvimento afetivo com o namorado que abusa dela.“Quando meu marido me tirou de casa, tinha razão”, diz a narradora, que desde a infância atrai para si todo tipo de maldade, mesmo após anos de benzimentos e rezas por causa do nome.Depois de sair de casa, o sofrimento de Eva não remete ao afastamento da família, e sim ocorre pela falta da mãe, que morreu, mas vive assombrando as memórias da protagonista.Vidal é feliz em desromantizar a relação materna. Mães não são perfeitas e as relações com as filhas podem ser conflituosas e cheias de manipulação travestida de amor.O marrom da capa do livro, que não é exatamente uma cor muito atraente, dialoga com a cortina de tule da mesma tonalidade na sala da personagem, que, pela janela, assiste à vida passar e faz suas reflexões.Eva, embora hipoteticamente possuída pelo demônio, é uma mulher vulnerável que vive com ajuda financeira do filho – com quem não tem nenhuma relação de afeto – e tenta dar aulas de língua portuguesa, apesar de não ter alunos.O pouco dinheiro faz com que ela passe por privações e reflita sobre como chegou a esse ponto. A escritora usa bem passado e presente para demonstrar a angústia da personagem que tem uma vida bastante incerta até conhecer outra mulher que também perdeu a mãe.Do meio para o fim, o livro traz algum mistério acerca da relação das personagens com suas mães e retoma os relacionamentos abusivos de Eva.Dito assim, parece uma bagunça, mas Vidal é habilidosa em tecer esta colcha de retalhos para estruturar uma narrativa interessante.O mergulho na vida de Eva é dividido em três partes: Superfície, Profundo e Fundo. Os títulos indicam nuances de um texto que brinca com a loucura e provoca sentimentos antagônicos em relação à personagem.Outro mérito tremendo de Vidal é saber usar o delírio como um pedido de ajuda e, ao mesmo tempo, trazer lampejos de lucidez que fazem de Eva menos pecadora e mais humana.Eva é um livro que usa perda, violência e liberdade para discutir de maneira muito sutil o peso que o passado tem sobre o presente.“Eva”, de Nara Vidal. Editora Todavia, 112 páginas, R$ 54,90 e R$ 36,90 (e-book).

  27. 59

    Bônus 06: "Inverno em Sokcho", de Elisa Shua Dusapin

    Elisa Shua Dusapin olha para os pequenos eventos da vidaO livro “Inverno em Sokcho” tem um clima – e não é só no título. Esse livro discreto e pequeno, escrito por uma autora jovem chamada Elisa Shua Dusapin, fala sobre o interesse de uma garota coreana por um quadrinista francês mais velho. Ela narra a história e trabalha numa pousada de Sokcho que, com o frio, está quase vazia. Ele se hospeda na pousada para trabalhar por algumas semanas com tranquilidade.Faz frio em Sokcho. E por um tempo você tem chance de acompanhar a rotina da narradora. Ela tem uma mãe que mora na mesma cidade e que trabalha com pesca, além de ser uma das poucas no ramo com habilidade para preparar baiacus. Quando você não sabe como abrir e limpar um baiacu, o veneno do peixe pode contaminar a carne toda.Neva em Sokcho. E chove também. “Ele jamais conheceria Sokcho como eu”, diz a narradora-personagem, referindo-se ao desenhista francês. “Não era possível querer conhecê-la sem ter nascido nela, sem ter vivido seu inverno, seus odores, seu polvo. Sua solidão.”Talvez seja por causa dessa solidão que a jovem fica intrigada pelo francês soturno e algo excêntrico. Um sujeito com um gosto peculiar por tintas e papéis (que ele chega a comer, de verdade, enquanto desenha, numa espécie de cacoete).Assim como a narradora do livro, a escritora Elisa Shua Dusapin também é filha de mãe coreana e pai francês. Mas parece que as semelhanças, ao menos as mais evidentes, acabam por aí.Dusapin tem hoje 30 anos e escreve em francês. Quando publicou “Inverno em Sokcho” na França, tinha apenas 23 anos e esse foi seu romance de estreia. Depois de vencer alguns prêmios literários, publicou mais dois livros.A narradora-personagem de “Inverno em Sokcho” tem interesse por literatura. Gosta de ler e cita Maupassant, mas diz que antes lia com o coração e agora lê com o cérebro. Ela diz isso numa conversa com o francês enquanto o acompanhava até uma papelaria da região, um dos poucos momentos em que os dois não têm ninguém por perto.Entretanto, é um erro pensar que “Inverno em Sokcho” tem algo a ver com uma história de amor. Nada ali fica tão claro assim. Há uma tensão óbvia entre os dois, ou melhor, há uma tensão óbvia da parte da narradora, que se apega a pequenas coisas, como quando a mão dela que encosta sem querer na mão dele. Da sua parte, o francês parece ocupado demais com seus desenhos e trata a jovem coreana com uma mistura de educação e desinteresse.Para entender o clima de “Inverno em Sokcho”, uma comparação possível é com os filmes do coreano Hong Sang-soo (quando dizem “coreano”, quase sempre querem dizer “sul-coreano”, uma vez que a Coreia do Norte é fechada para o resto do mundo).Hong Sang-soo faz filmes de pequenos eventos e com muito bate-papo. “O filme da romancista” (2022), por exemplo, fala de uma escritora que visita uma conhecida que deixou de escrever para trabalhar numa livraria. Durante a conversa, ela descobre que a outra vendedora da loja estuda a língua dos sinais e pede para ela dizer, usando as mãos, algo como “o dia acaba rápido, então vamos aproveitá-lo”. E a cena dura muitos minutos com a garota ensinando a escritora os gestos para dizer essa frase específica.Curiosamente, existe algo de francês no cinema de Hong Sang-soo. Essa paciência com detalhes, esse interesse por pessoas e pelos pequenos eventos da vida – existe um mundo de filmes franceses que são assim. Sendo franco-coreana e escritora, faz sentido que Elisa Shua Dusapin combine bem essas características num estilo de escrever que é ao mesmo tempo delicado e fino.“Inverno em Sokcho”, de Elisa Shua Dusapin. Tradução de Priscila Catão. Âyiné, 150 páginas, R$ 59,90. Romance.

  28. 58

    Episódio 53: Especial de fim de ano

    No último episódio de 2022, o podcast “O que ler agora?” dá dicas de livros que podem render bons presentes de natal (ainda mais se você deixou para resolver isso em cima da hora, assim como nós) ou boas leituras num período do ano que você pode ter intervalos de descanso (se não estiver lidando com a família e todo o resto). Ou ainda para quem consegue emendar umas férias com o fim do ano.O que ler agora? Para tornar a lista de sugestões maior e mais diversa, o programa apresentado pelos jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto conta com participações especiais: Mell Ferraz, do blog “Literature-se”; a escritora Livia Piccolo; a jornalista Gabriela Mayer, do podcast “Põe na Estante”; a escritora Giovana Madalosso; a tradutora Sandra Stroparo; o tradutor Caetano Galindo; e a jornalista Aline Reis, do Plural.

  29. 57

    Bônus 05: Lucas Mota, o escritor punk de Curitiba que venceu o Jabuti 2022

    Ex-missionário apaixonado pelo mundo geek, Lucas Mota conquistou o prêmio mais tradicional da literatura brasileira na categoria romance de entretenimento com o romance "Olhos de Pixel" (Plutão Livros). Neste perfil, a jornalista Luciana Nogueira Melo conta como esse filho de pastor e fã de Jorge Amado enveredou para a ficção científica e acabou conquistando fama com uma distopia curitibana.

  30. 56

    Episódio 52: "O guardião de nomes", de Leonardo Garzaro

    No episódio desta semana, o podcast “O que ler agora?” fala do livro “O guardião de nomes”, de Leonardo Garzaro, publicado pela Rua do Sabão.Para produzir o romance, o escritor, que é também colunista do Plural e editor da Rua do Sabão, seguiu uma dica clássica do meio literário: escrever sobre suas obsessões. E uma das obsessões Garzaro tem a ver com nomes, ou melhor, com o ato de nomear coisas, pessoas… tudo. Dar nome é talvez um dos atos mais humanos que existem.

  31. 55

    Bônus 04: "Outros jeitos de pensar a tecnologia", de Rodrigo Ghedin

    O jornalista Rodrigo Ghedin, do site “Manual do Usuário”, é um homem com uma missão: escrever sobre tecnologia com coragem e honestidade. Versão em áudio da resenha sobre o livro "Outros jeitos de pensar a tecnologia", de Rodrigo Ghedin, publicado pela Casatrês Editora.

  32. 54

    Episódio 51: Uma viagem com "O astronauta", de Jaroslav Kalfar

    Uma espécie de nuvem púrpura está se formando no céu e ninguém sabe o que é. Para tentar coletar material de pesquisa, e entender o que está acontecendo no sistema solar, o mundo enfrenta uma espécie de nova corrida espacial. Mas Rússia, China, União Europeia e Estados Unidos não conseguem realizar missões para executar essa tarefa. Quem consegue, para surpresa de todo mundo, é a República Tcheca. Esse é o ponto de partida do livro “O astronauta”, publicado pela editora Aleph, que serve de tema para o episódio desta semana de “O que ler agora”, o podcast de livros do Plural, apresentado pelos jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto.

  33. 53

    Episódio 50: Sobre a literatura da Coreia do Sul

    O episódio desta semana de “O que ler agora?” embarca numa das literaturas mais fascinantes do momento – a que vem da Coreia do Sul.Com apresentação dos jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto, o podcast de livros do Plural fala do romance “Sobre minha filha”, de Kim Hye-jin. Publicado pela Fósforo, o livro trata da relação entre uma mãe de meia-idade e a filha adulta. A mãe é quem narra a história e, a partir dessa decisão, a autora Kim Hye-jin consegue sondar os pensamentos e sentimentos de uma mãe que, mesmo amando a filha, tem uma dificuldade tremenda de aceitar sua homossexualidade.

  34. 52

    Episódio 49: O mundo assombrado pela tecnologia

    O episódio desta semana de “O que ler agora?” fala sobre dois livros de não ficção, ambos voltados à tecnologia: “O inimigo conhece o sistema”, de Marta Peirano; e “Outros jeitos de pensar a tecnologia”, de Rodrigo Ghedin. Os dois jornalistas têm o mérito de traduzir um conhecimento profundo sobre tecnologia em textos acessíveis para qualquer pessoa interessada em saber mais sobre os métodos das empresas de tecnologia e sobre as engenhocas que dominam uma parte considerável do mundo hoje.

  35. 51

    Bônus 03: "Um tambor diferente", de William Melvin Kelley

    O escritor William Melvin Kelley (1937–2017) narra êxodo pela liberdade no romance "Um tambor diferente", publicado pela Todavia. Texto escrito por Aline Reis e lido por Irinêo Netto.

  36. 50

    Episódio 48: Jonas Hassen Khemiri + Marilene Felinto

    Romance do sueco Jonas Khemiri que fala de relações familiares e livro de contos de Marilene Felinto são os temas do novo episódio do podcast de livros do Plural.

  37. 49

    Bônus 02: "Escute as feras", de Nastassja Martin

    Resenha fala do livro em que antropóloga francesa descreve sua luta contra um urso na Sibéria, quando teve parte do rosto estraçalhada pelo animal. Isso tudo aconteceu de verdade. Nastassja Martin, a autora de "Escute as feras" (Editora 34), participa da Flip 2022, a Festa Literária Internacional de Paraty.

  38. 48

    Episódio 47: "O passageiro", de Ulrich Alexander Boschwitz

    O episódio desta semana de “O que ler agora?” fala sobre o romance “O passageiro”, de Ulrich Alexander Boschwitz (1915–1942). Escrito em 1938 e publicado pela primeira vez apenas em 2017, o livro havia sido arquivado com outros documentos do autor em uma instituição de Frankfurt. Até que uma sobrinha de Boschwitz falou sobre o manuscrito para o editor alemão Peter Graf. O livro fala sobre como o comerciante judeu Otto Silbermann tenta escapar da perseguição nazista na Alemanha de 1938.

  39. 47

    Bônus 01: "Quarto de despejo", de Carolina Maria de Jesus

    “O que ler agora?” estreia episódios bônus que oferecem versões em áudio dos melhores textos publicados Plural sobre livros e literatura. Agora, você ouve o podcast às segundas-feiras e tem acesso a um episódio bônus por semana, com críticas, resenhas e ensaios. Para começar, o crítico Benedito Costa escreve sobre “Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus.

  40. 46

    Episódio 46: "A Vergonha", de Annie Ernaux

    Editora Fósforo lança quarto livro da "coleção" de Annie Ernaux que está saindo no Brasil. Francesa é uma das favoritas ao Nobel

  41. 45

    Episódio 45: A nova vida da editora Tinta-da-China Brasil

    Conheça a Tinta da China, editora portuguesa que vai passar a publicar livros em parceria com a revista 451. Os quatro primeiros já foram lançados, e vem mais coisa boa por aí

  42. 44

    Episódio 44: Três escritores negros que você precisa conhecer

    Aline Reis e Rogerio Galindo falam sobre livros de autores negros que estão chegando ao Brasil e que você devia conhecer. São escritores e escritoras dos EUA, do Haiti e de vários outros países agora traduzidos para o português.

  43. 43

    Episódio 43: Dicas de livros para crianças

    O tema da semana no podcast são livros para crianças. Os apresentadores Irinêo Neto e Rogerio Galindo falam sobre quais livros leem com seus filhos e como isso influencia a formação de novos leitores.

  44. 42

    Episódio 42: Uma conversa com Benett, autor de "Anedonia"

    O novo episódio do podcast "O que ler agora?" fala da coletânea Anedonia, que o cartunista Benett lança pela editora Arte e Letra

  45. 41

    Episódio 41: "O amigo" e "O que você está enfrentando", de Sigrid Nunez

    Escritora americana de talento absurdo tem dois livros publicados no Brasil: "O Amigo" e "O que você está enfrentando", ambos pela editora Instante. O editor Irinêo Netto conta por que esses livros deviam estar na sua lista. E mais: um livro que acaba de sair no Brasil discute as drogas sem tabus.

  46. 40

    Episódio 40: "O jardim de Reinhardt", de Mark Haber

    "O Jardim de Reinhardt", de Mark Haber, é um belo romance que chega ao Brasil. O livro sai pela DBA e conta uma história a um só tempo inteligente e divertida. Saiba mais no episódio de "O que leu agora?" desta semana.

  47. 39

    Episódio 39: "A inteligência das aves", de Jennifer Ackerman

    "A Inteligência das Aves",. de Jenniffer Ackerman, está saindo no Brasil pela editora Fósforo. A tradução é de Reinaldo Lopes e Tânia Lopes. Saiba mais sobre o livro na conversa do podcast desta semana.

  48. 38

    Episódio 38: "A vida curta de um fato", de John D'Agata e Jim Fingal

    Conheça "A Vida Curta de um Fato", de John D' Agata e Jim Fingal, que chega agora ao Brasil em coedição da Arte e Letra e da PucPress. O podcast entrevista o tradutor Irinêo Netto e explica a história originalíssima desse livro a quatro mãos.

  49. 37

    Episódio 37: "O Tumor" e a vida no Oriente

    Livro de Ibrahim Al-Koni, publicado pela editora Tabla, conta a vida dos tuaregues. Metáfora política, o romance fala de uma túnica que é o símbolo do poder e que acaba grudando na pele de um líder local.

  50. 36

    Episódio 36: Bons livros só geram filmes ruins?

    Dizem que nenhum livro bom gera um filme tão legal quanto o livro. Mas não é bem assim. A gente fala aqui de alguns casos recentes de filmes bons que são baseados em livros excelentes.

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ABOUT THIS SHOW

"O que ler agora?" é o podcast de livros do Plural, feito com apoio das editoras Aleph, Antofágica, Arte e Letra, Companhia das Letras, Fósforo, Luna Parque, Mundaréu, Roça Nova, Rua do Sabão, Tabla e Todavia.A apresentação é dos jornalistas Rogerio Galindo e Irinêo Netto.Com sede em Curitiba (PR), o Plural é o maior jornal nativo digital do sul do Brasil. Por ser uma publicação independente, é financiado sobretudo por seus leitores (e ouvintes).Assine o Plural e ganhe livros da Arte e Letra:https://www.plural.jor.br/assine-o-plural/

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