EPISODE · Aug 7, 2023 · 3H 29M
Laboratório de extinção. Uma conversa com Manuel Bivar
from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
Nos jornais diários e nos espaços de comentário onde todos os dias a realidade desaparece, enquanto o prestidigitador anda às voltas com ar atarefado a cozinhar uma sopa da pedra na cartola, lá vem a telenovela da anestesia com as catástrofes já habituais: juros da dívida em crescimento, novo corte de salários e pensões, aumento do desemprego, e o administrador de um hospital público que faz contas sobre o que fica mais barato – amputar pernas ou colocar próteses. À margem, num canto discreto, houve ainda espaço para uma pequena notícia. O Instituto Nacional de Estatística anunciou projecções demográficas: em 2060 os actuais 10,5 milhões de habitantes de Portugal serão 6,3 milhões, o país perderá 40% da população em 46 anos, o actual índice de 131 idosos por cada 100 jovens será de 464 por 100, a população activa, com idades entre os 15 e os 64 anos, passará de 6,9 para 3 milhões, os 1,5 milhões de jovens com menos de 15 anos serão apenas 587 mil. Boas notícias, portanto. Estamos quase a conseguir desratizar o país para finalizar a sua adaptação a resort para turistas e lar de idosos para estrangeiros com reformas em condições. Entretanto, e para ajudar no desbaste, caiu por aí Manuel Bivar como um cometa a tocar pandeireta e deixou o meio literário português de pantanas, tendo levado a que os grandes engenheiros do "comércio" de papelinhos sujos de tinta se rendessem, com Carlos Vaz Marketing a exclamar: "Se eu não morresse nunca, e eternamente gramasse estes pastelões que vos impinjo, mesmo assim não tiraria do corpo o cheiro deste livro". Por sua vez, Raquel Marinheiros deixou de se atirar ao chão a fingir a falta para a fotografia no Insta do poema ensina a cair, e admitiu: "O meu Tinder para puetas nunca rendeu tanto. Que se lixem os versinhos, estou farta de punheteiros". Também o ex-director da Vida Soviética e editor de folhetos informativos de tudo o que para aí vai de literatura afrodisíaca, Manuel Alberto Valete não se conteve e a respeito de "A Charca" disse: "É o que eu chamo viagra para defuntos. Transforma um cemitério num prado cheio de cogumelos". Por seu lado, Afonso Reis Cabroxa conseguiu por fim assumir-se: "Dava o cu e os três tostões que sobraram do prémio leya para escrever assim". Também Matilde Campina interrompeu a gravação de um anúncio e fez saber isto: "Nem no Tibete, quando fui lá soprar o pavio do Dalai Lama, me senti tão iluminada". Na zona das chegadas do aeroporto, pudemos também recolher uma declaração da Isabel Lélélucas: "Li [A Charca] num avião que estava a aterrar vindo de New York. Tive vontade de apontar o garfo de plástico à hospedeira, entrar no cockpit e mandar aquela merda contra os Jerónimos". Ainda na secção dos decapitados da crítica, José Mário Salsa andava por ali a murmurar: "Já não há estrelas no céu depois de eu e o Pinto Santos termos torrado tudo com escribas inconsequentes e de que ninguém se lembra. Mais valia ter gasto com freiras. Depois de tanta crítica encomendada, desta vez vou pôr um anúncio no jornal: eu vi a luz em uma casa de banho perdida. Li este livro de uma assentada, na retrete. Não limpei o cu, não vou fingir mais". Por fim, à saída dos estúdios de Carnaxide, à espera de ser levado para dentro e lhe apontarem uma câmara à fuça mal fosse anunciada outra greve de professores, António Carlos Cortesias sentenciou: "Cada um carrega a sua cruz. Depois do Gastão, a ver se me restam forças e desta vez me lanço numa carreira de cantor pimpa. Quanto ao livro do Bivar, fiz-lhe a maior homenagem de que sou capaz: não li."
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