Uma sinfonia de chumbo nos 100 anos do Pacheco. Em conversa com João Pedro George

EPISODE · May 7, 2025 · 4H 28M

Uma sinfonia de chumbo nos 100 anos do Pacheco. Em conversa com João Pedro George

from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho

Para se ser um homem deste tempo ou até de outros, e variar, cumular, não basta estar vivo, como estamos todos, mais ou menos, tantos sem grande proveito, para si mesmos ou para a época, não basta isso, ainda é preciso ter ouvido, escutar a música que faz cada um, que fazemos todos, os que sabem arrancar notas ao seu instrumento, seja este qual for, ouvir como tudo isso depois se eleva, que sinfonia ou caos se gera... Se não se consegue uma harmonia de jeito, mas anda tudo aos encontrões, a produzir ruído, e se, muitas vezes, desencorajados, caímos no silêncio, acabamos sufocados debaixo do que cospe a telefonia. Ser de algum tempo é ser capaz de escutar e, ainda melhor que acompanhar, é achar a sua diferença, esse a mais capaz de impor uma inflexão, até valores próprios, chegar a conduzir num movimento ou noutro, disputar a batuta, ou desmoralizar o maestro, criar a sua escola, mesmo que pela calada, clandestina, sem horários, sem burocracia, só de impulso, paixão. Regatear com a época, dar-lhe o golpe, isso, sim, é tomar posição, extrair um sentido da geral, e compor mais que uma rima, uma solução, ou devotar-se à querela, aos embates, não conter na raiva, não se deixar abafar, mas explicar a liberdade por extenso, nos gestos, em actos. Inventar o seu carácter, produzi-lo na relação com os demais, como uma resposta, tendo em atenção aquilo que falta, tudo quanto nos sonegam, anulam. E aqui faça-se notar que a maior violência de todas pode ser o silêncio, apagar os outros, fingir que não se viu, distribuir a morte antes de tempo, vir aí fazer a sua justiça que passa apenas por cultivar relações, chegar aos lugares, e decretar o vazio, ainda lhe pôr em cima uma gente decorativa para irritar mais. Substitui-se com isto a vida por um desenho animado desses que passam só nos lares da terceira tentando empurrar de vez os velhos, neste país que se quer um imenso lar-fossa onde atirar quem nunca viveu. Esses que, por isso, muitas vezes mesmo que quisessem ir-se, acabar com isto, não sabem para que lado fica a morte. O combate está dificultado, hoje, mesmo por aqueles que lêem. O afastamento paga-se, a falta de um convívio sincero, truculento, animador já por si deixa as almas aí a criarem musgo, em vez de lhes arrancar as teias de aranha, as intrigas alimentadas em estado de paranóia, reforça-se a tibieza do carácter, a infantilidade nas convições. Ora, se a história da Cultura nos ensina alguma coisa "é a resolução das antinomias numa luta sem tréguas, é o combate implacável entre credos opostos", vinca Luiz Pacheco. Estão mal as coisas para quem veio para a literatura em busca de sinais dessa refrega. Estão pessimamente aqueles que, como ele, escolheram a literatura como um modo mais empenhado de superar o estilo gago da existência, e pôr algum sentido na trama dos dias. "Porque a minha vida, o meu trabalho (chamem-lhe ou não assim, pouco me importa) é escrever. Ler, para escrever. Ver, para escrever. E o que não sair em letras, está-me escrito na pele. Vida dura? acho que se percebe, tenho a pele curtida e colada aos ossos, mordida, alegrias, dores, frios e miséria." Estamos sobre o centenário daquele que mais intensa e empenhadamente zurziu no enredo que veio falsificar esta relação entre a vida e a literatura, todos esses modos de aliciamento e convite ao imobilismo, as estratégias de inibição e que trocam uma condição dinâmica e aberta a "um espontâneo movimento de polémica, de antagonismos inconciliáveis em riste", por um quadro de acomodação amorfa. Vimos assinalar aqui esta data, a intervenção e a coragem daquele que, como reconheceu muitas vezes, foi um tipo bera, um sacana, tendo sido capaz do pior, mas alguém que fez o que fez por se querer um tipo livre, "livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português". Assim, em vez de cerimónias o que temos é um grande bolo onde afundar a tromba de uns quantos, e quisemos tomar de novo o pulso a um meio literário cujas imposturas ele não se cansou de expor e atacar. De resto, prova da condição moribunda deste são os silêncios falaciosos que permitiram que no ano passado viesse a lume uma obra inteiramente inédita e ninguém lhe pegasse, mesmo se os seus livros continuam a ser traficados a alto preço nos alfarrabistas, e se lhe vai sendo rendido um culto que não anda longe daquela forma de exploração sistemática póstuma do maldito, como pôde antecipar, falando no "aproveitamento do seu caso humano (deturpando-o) ou da obra por ele legada (amputando-a mesmo assim; colhendo nela apenas o que convém aos tempos que correm) manipulada por seres mesquinhos e gulosos que a serem contemporâneos do maldito, seriam (eram, está-se mesmo a ver, a perceber) os seus mais ferozes inimigos". Para discutir o seu exemplo e os textos que nos legou, chamámos o tipo (João Pedro George) que mais atenção lhe deu, que mais contribuiu para que à volta da sua obra se pudesse gerar um debate sério, não forçando a hagiografia, mas discutindo os elementos mais espinhosos, entre eles a forma como a sua lenda em muitos aspectos se tornou um adorno do próprio enredo que ele tanto combateu.  

NOW PLAYING

Uma sinfonia de chumbo nos 100 anos do Pacheco. Em conversa com João Pedro George

0:00 4:28:27

No transcript for this episode yet

We transcribe on demand. Request one and we'll notify you when it's ready — usually under 10 minutes.

Consellería do Ritmo Radio Galega Tito Lesende produce e conduce unha serie de capítulos monográficos ou temáticos arredor dunha charla repousada cun artista no ámbito rock ou pop galego. Os músicos e músicas terán un espazo preferente, e poderán compartir protagonismo con outros axentes da escena musical galega: axentes, promotoras, recintos senlleiros etc. The Last Outlaws Impact Studios at UTS In a History Lab season like no other, we're pulling on the threads of one of Australia's great misunderstood histories, moving beyond the myths to learn what the Aboriginal brothers Jimmy and Joe Governor faced in both life and death.Australia's budding Federation is the background setting to this remarkable story, that sees the Governor brothers tied to the inauguration of a 'new' nation and Australia's dark history of frontier violence, racial injustice and the global trade and defilement of Aboriginal ancestral remains. This Impact Studios production is a collaboration with the Governor family, UTS Faculty of Law and Jumbunna Institute for Indigenous Education and Research.The Last Outlaws teamKatherine Biber - UTS Law Professor and Chief InvestigatorAunty Loretta Parsley - Great-granddaughter of Jimmy Governor and the Governor Family Historian Leroy Parsons - Governor descendant, Narrator and Co-WriterKaitlyn Sawrey - Host, Writer and Senior ProducerFrank Lopez - Writer, Popup Chinese Popup Chinese Fresh from Beijing, PopupChinese teaches Chinese as it is actually spoken. Start with our basic Chinese lessons, and in no time you'll be speaking like a Beijinger. Our free daily podcasts, vibrant community, and love for the real China make us the most powerful and personal way to learn mandarin. Dj Paulo Moreno Dj 🇬🇧 Sound selections born from a knowledge of cause could be a way to describe Paulo Moreno.Always connected to the music and entertainment industries, the artist had a late awakening to djing, but no less dazzling for that. It was in London that he embraced the DJ impetus and performed regularly in renowned clubs and events such as Fabric London, Fire, Área, Heaven, Club No65, Union, Egg, Coronet and the Summer Rites festival, but he didn't stop there. The following years witnessed Paulo traveling all over the world to delight all those who listen to him with his sets full of depth, versatility, and energy. Portugal brought him a residency at Kremlin nightclub who gave him international recognition, regularly playing alongside names like Dennis Ferrer, Steve Lawler, Mendo, Prok and Fitch, and Hobo, Alan Fitzpatrick, Anja Schneider, Dennis Cruz, Goncalo, Anna, just to name a few.🇵🇹 Seleções sonoras nascidas de um conhecimento de causa poderia ser uma forma de descrever Paulo Moreno.D
URL copied to clipboard!