alarido

PODCAST · society

alarido

uma coleção mais ou menos desordenada de pensamentos, sugestões, divagações e criações.a partir das cartas disponíveis no substack de Miguel De. miguelde.substack.com

  1. 28

    da decisão.

    Não sou fã de mensagens de despedida. Na verdade, esta não é uma. É uma nota de intenções. Uma justificação, vá. Também não sou grande fã delas, mas penso que o motivo a permite. Confundidas às vezes com chamadas de atenção (e elas abundam), as mensagens de que “vou sair do insta!” são percebidas dessa forma, como se alguém quisesse saber verdadeiramente. Manifestam-se como cuidados com a saúde mental, ou necessidade de uma pausa higiénica, e nestes primeiros dias do ano deparei-me com algumas. Grandes declarações de despedidas… para uma semana depois voltarem sem alarido. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  2. 27

    da história.

    Rui sente com a palma da sua mão direita o asfalto do campo de futebol da escola, a rugosidade da pedra marcando o terreno da sua pele com minúsculos vales de dor. Empurra a mão contra o chão o mais que pode, quer ver até onde o solo consegue entrar no seu corpo. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  3. 26

    da separação.

    Tomás segura o seu copo de cerveja com a mão direita. Encosta-se a uma coluna na lateral do bar, a música gritando aos seus ouvidos. As luzes rasgam os rostos e os corpos dos fugitivos da noite, obrigando-os a uma dança ritmada imperturbável. Perscruta os olhares de quem passa, procurando alguma identificação, alguma correspondência ensopada em suor. Não há nada. O seu próprio rosto é indecifrável, não diz nada, e ele sabe-o porque de repente encontra-se num espelho e, olhando para si mesmo, permite-se sair do seu corpo e entrar num éter emanado pela cerveja, como se o si que olha a si mesmo fosse outro que olha outro. Percebendo-se de fora, é incapaz de se mover, remetendo-se a uma catadupa de pensamentos desconexos que culminam num refluxo de vómito. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  4. 25

    da falha.

    Falhar é fazer falta. Faz falta percorrer os caminhos outrora hipotéticos, outrora quotidianos. Faz falta introduzir conceitos alienígenas numa conversa aberrante ao sábado à noite. Ao sábado à noite bebe-se fuma-se conversa-se grita-se dança-se. Ao sábado à noite é domingo de manhã. Faz falta o espaço intermédio, límbico, entre a noite e a manhã, feito de tempo prenhe de possibilidades, antes da conclusão da expectativa, que se faz de um vazio que começa no âmago e termina no copo deixado num parapeito qualquer. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  5. 24

    do corpo.

    Para a carta de hoje, decidi recuperar o tema da minha dissertação de mestrado, no qual, a partir de um projecto fotográfico, escrevi sobre o conceito de masculinidade, a sua representação na arte e, sobretudo, a forma como os homens gay olham para os seus corpos e os dos outros. Todas as pessoas são afectadas por certas expectativas ou ideais construídos socialmente e replicados culturalmente, mas a sua proeminência insistente e esmagadora na comunidade homossexual masculina parecia-me especialmente opressiva, por ser um fenómeno autogerado e reproduzido: os homens gay desejam-se de uma forma e desejam os outros dessa forma. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  6. 23

    do toque.

    A pele é um terreno ardiloso. Existe numa suavidade incomparável, salpicada de interrupções que desencaminham os dedos deslizantes. Deslizam, porque a pele desce. Inicia-se num topo, um qualquer topo, e depois desce. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  7. 22

    do orgulho.

    Já falamos aqui na questão da ocupação de espaços. Ocupar é usar um espaço contra a vontade do seu dono (legítimo ou não). O espaço pode ser físico ou metafórico. Ou ambos. Um espaço metafórico é o ar que respiramos, a possibilidade da existência. Ser-se num ar hostil é ocupá-lo. A própria insistência no pensamento do opressor é também uma ocupação. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  8. 21

    do clarão.

    Estou sentado num chão desnivelado e desconfortável, descansando os ouvidos dos tremores apressados da música que ecoa dentro da sala negra, a conversar com o Pedro e a Francisca, calmamente, quando o cimento se ilumina. Olho para o céu e por cima de mim, por cima de nós, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  9. 20

    da não-ocupação.

    Ocupar um espaço implica conquistá-lo. Ocupar um espaço é, por definição, fazê-lo à revelia. Não se ocupa com permissão. Ocupar não é a mesma coisa que utilizar. Utilizar um espaço é passageiro, ocupar é permanente. Uma nova ocupação implica a expulsão da anterior, ainda que o seu espectro se mantenha. É um acto político disruptivo, no verdadeiro sentido da palavra, e não no jargão tecnocrata que achata e amaina qualquer efusividade. A disrupção é um golpe profundo e concreto que gera vítimas. As vítimas serão violentadas e violentas, procurarão interromper o processo de ocupação, usarão todos os meios ao seu dispor para sufocar a revolução e manter o status quo cristalizado e cristalizante. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  10. 19

    do que se faz.

    A possibilidade da acção anima o espírito. É o acto que materializa o pensamento. Esse, divorciado de qualquer acção, é essencialmente individual, hermético e introspectivo. Um pensamento que não implica uma acção não tem, nessa óptica, efeito no mundo. Pensar num copo de água não cria o copo de água: é necessário mover o corpo, alcançar o copo, enchê-lo de água. Pensar num texto não cria o texto: é necessário pegar numa folha de papel e numa caneta, ou num computador, e escrevê-lo. Pensar num beijo não cria o beijo: é necessário olhar nos olhos, tocar na mão, aproximar os lábios. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  11. 18

    do desequilíbrio.

    Há umas cartas atrás, falei sobre uma forma que vejo de olhos fechados. Preciso de retomar esse assunto, porque tenho de confessar que não fui totalmente honesto. Ou melhor, entretanto percebi mais umas coisas que tornam aquilo que escrevi não totalmente verídico. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  12. 17

    da liberdade.

    A liberdade é um conceito demasiado vasto para ser entendido com exactidão na mente humana. É tão vasta e tão invisível, que parece não existir; que é a mesma coisa que dizer que parece que, não existindo, não faz falta. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  13. 16

    do desejo.

    Rui desconhecia que a sua inquietação era fruto da falta. Era incapaz de compreender o que sentia, de adormecer o espírito na calada da noite. Do desejo, conhecia-lhe tudo, menos a consciência da sua existência. O seu desejo era fulminante, atirado a tudo o que não podia possuir. Olhava Tomás, que seguia à sua frente. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  14. 15

    do desaparecimento.

    Viajava de comboio e olhei pela janela quando passava junto à praia. O sol punha-se, como se põe todos os dias, formulando o clichê das stories do Instagram, do fotógrafo amador. Pensei em sacar do telemóvel e tirar uma fotografia. Não o fiz. Amanhã há outro pôr-do-sol. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  15. 14

    do desconhecido.

    Na carta sobre a inocência, disse que o medo do escuro é, na verdade, medo do desconhecido. Seria preciso, antes de falarmos sobre o desconhecido, percebermos o que é o desconhecido. Ou melhor, não o que ele é, mas o que significa. Se fosse o que ele é, deixava de sê-lo, certo? O que significa, portanto, o desconhecido: é isso que pretendo definir, antes de pensar sobre ele. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  16. 13

    do ritmo.

    Olhas para cima e é noite escura. De todo o lado ecoa o tremor do chão, os graves dos sons ritmados que surgem do palco. Luzes intermitentes e coloridas varrem as centenas, milhares, milhões de corpos que ali se espalham, movimentando-se ao mesmo tempo, na mesma cadência, num ritual de purificação da alma. Mas não é sobre os outros. É sobre ti e ele. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  17. 12

    da escrita.

    Este sábado o Paulo e o Ricardo perguntaram-se se escrever estas cartas me estavam a fazer bem. A resposta curta que dei foi que sim, que ajudavam a descarregar algumas das coisas que me vão pela cabeça. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  18. 11

    do desencanto.

    Tomás enterrou os pés na areia enquanto fitava o mar à sua frente, o sol iniciando a sua descida vertiginosa pelo horizonte. Os grãos afiados rasgavam-lhe suavemente a pele entre os dedos, mas não o detinham. Deixava-se imergir na areia, como que uma apatia se instalasse nas pernas, um sono benevolente e confortável que lhe servia de cama. As ondas do mar despedaçavam-se em espuma de um brilho incandescente, a água aproximando-se rapidamente das suas pernas, cada vez mais submersas. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  19. 10

    da distensão.

    A página em branco é um terror. Tocar uma única nota num piano, enquanto se pressiona o pedal da sustentação, para que o som se prolongue o mais possível, abafando-se lentamente na propagação que dita a sua morte. Tocar outra vez na mesma tecla, a mesma nota, o mesmo pedal, durante o mesmo tempo. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  20. 9

    da estética.

    Tem 33 anos, mas a pele seca do rosto e as duras feições dão ar de quarentas. O cabelo é preto e rapado nas laterais. Acompanha-lhe uma barba densa, escura e curta. Não é muito alto, mas os ombros ocupam espaço. O peito, volumoso, desenha-lhe a t-shirt larga, abraçando o ar que sobra por debaixo. A t-shirt é preta, pousa sobre os ombros. No verso estampam-se umas palavras quaisquer. O tecido está gasto, mas não é velho, é vintage. A t-shirt afunila-se na cinta estreita, desaparecendo para dentro das calças de ganga azul. As calças circundam o rabo redondo, hirto, e deixam-se levar pelo resto das pernas curtas, em bocas largas, desvendo botas de sola alta, escuras, de couro. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  21. 8

    da dúvida.

    A dúvida é uma assombração. Faz-se de pequenas interrupções do pensamento, furtos assertivos do eu contra si próprio, uma tentativa demasiadas vezes bem sucedida de plantar a vontade da desistência. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  22. 7

    do mal-estar.

    Contorcer-se sobre si mesmo e levar as mãos ao peito, um nó profundo, um punho fechado (é sempre um punho fechado) ocupa o ar do externo. É um objecto estranho, um parasita volumoso, está lá dentro a empurrar o peito para fora — levas as mãos ao peito e arredondas as costas, queres gritar mas não consegues, ou não podes. Não tens boca nem tens dedos. Só te contorces e aguentas o teu âmago. Fora de ti, nada muda, a vida continua, as pessoas andam, os carros correm, o dinheiro gasta-se, o lixo acumula-se, o dinheiro gasta-se, a humidade escorre, o dinheiro gasta-se. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  23. 6

    da casa.

    Mudei de casa. Aconteceu por força das circunstâncias, não porque tenha tomado a decisão consciente de fazê-lo. Os contratos renovam-se ou terminam e, no meu caso, ficou por renovar. Aconteceu no último mês do ano passado, como que me preparando para um ano de inquietude. Serviu talvez como o empurrão que precisava para resolver o impasse de uma casa onde vivia mas que não me representava e, principalmente, que começava a dar sinais da necessidade de uma manutenção algo complicada. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  24. 5

    do álbum de família.

    Um dia, a voltar para casa, deparei-me com um pedaço de negativo atirado ao chão, em frente à porta do meu prédio. Uma relíquia de outros tempos, sem qualquer pista de como terá ido parar ali. Decidi pegar nele e guardá-lo. Eram três fotografias, talvez dos anos 80 ou inícios dos 90. Uma delas chamou-me a atenção pela sua peculiaridade. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  25. 4

    da ocupação.

    Tenho uma relação de amor e ódio com as redes sociais. Acho que, em certa medida, todos temos. Pendo mais para o ódio: não apenas pelas redes, mas pela necessidade delas que me afronta o peito. Por várias vezes deixei-me delas, principalmente do Instagram, que tanto mal (e bem!) me fez. As redes são o que fazes delas, dizem-me. Talvez o que eu odeie nelas não seja mais do que uma projecção que faço nos outros da pessoa que gostava de ser e não sou. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  26. 3

    da forma.

    Acontece, de vez em quando, ao fechar os olhos, de ver uma sobreposição de volumes impossíveis que me inquietam. A descrição não é fácil de fazer, mas peço-te que me acompanhes. Geralmente são duas formas de ângulos rectos, brancas, suaves, sem qualquer textura ou rugosidade. Uma está perto de mim, a outra longe. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  27. 2

    da inocência.

    Na última semana vi alguns filmes e terminei um pequeno livro que, nas coincidências do quotidiano, têm um subtexto em comum que me deu vontade de escrever. A inocência. Os filmes: Close, de Lukas Dhont; May December, de Todd Haynes; Aftersun, de Charlotte Wells. O livro: O meu corpo, este desejo, esta lei, de Geoffroy de Lagasnerie. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

  28. 1

    dos começos.

    Um começo é um ritual. Prepara-se um espaço, uma pessoa, a si próprio, para receber, praticar, experimentar a novidade. A audição apura-se, o tacto parece mais sensível, os olhos prescrutam os espaços em volta. O novo tem o dom de nos colocar alerta e este estado de vigília aprofunda o conhecimento de si. É também como uma reza: ritualizo o começo para que dali venha a continuação, o estabelecimento, o hábito.Todos os anos começamos: não apenas o próprio ano, mas novos eus. Fazemos resoluções, acreditamos na possibilidade da renovação do corpo e da mente; e para quê? Penso que seja um estádio de luto: idealizamos um futuro melhor para aceitarmos o fim do ano que termina. Ao desenharmos promessas para o ano que se inicia, acreditamos na possibilidade de melhoria do eu, aproveitando a renovação artificial do tempo como motivação colectiva. Novo ano, novo eu.As ideias têm um efeito semelhante em mim. Quando me surge o esqueleto de um projecto ou ideia na cabeça, o peito e o pensamento atravessam-se à frente, comandando o espírito. As possibilidades são múltiplas, infinitas, pode-se tudo e podem ser tudo. Dá-se o início e o mais certo é perder-se o gás ali a meio e a coisa ficar por fazer, por completar. A ideia fica a meio e queria-se tanto no começo! É esse o alarido.Alarido dos Começos. Pesquisa no Google (com aspas) e vê o que aparece. Há quase catorze anos (tinha eu dezoito) ganhei um prémio com um conto que assinei com esse pseudónimo. Pediam sempre um pseudónimo para assinar os textos com que se concorriam para concursos e prémios, e eu nunca soube bem o que colocar. Na verdade, nunca percebi muito bem o que queriam dizer por pseudónimo e, mesmo que soubesse que era um nome que não fosse o meu nome verdadeiro, por alguma razão, achava que tinha de ser um nome que fosse obviamente falso. Fiz como fazia com muitos dos textos que escrevia, coloquei algo que me soou bem, sem pensar muito no sentido. Alarido dos Começos tinha o seu quê de português dos velhos, como se fosse um senhor nos seus setenta e tal anos. Há a Maria das Dores, o Olímpio dos Santos e o Alarido dos Começos.Quando recebi a notícia que tinha ganho o prémio, vi os pseudónimos dos vencedores de outros prémios do mesmo festival e corei. Eram nomes normais e o meu era parvo. Quando me chamaram para receber o prémio e disseram o nome ao microfone, ouvi risos abafados dos senhores escritores que estavam presentes enquanto me dirigia ao palco e fiquei envergonhado. Podia ter sido o Jorge Pires, ou o António Soares, ou o Pedro Filipe. Mas não — fui ao palco ser o Alarido dos Começos. A certa altura reflecti sobre esse nome. Um Jorge Pires ou outro qualquer não dizem nada sobre mim. O pseudónimo que escolhi sem pensar muito diz. Era a suma perfeita das dezenas de documentos com duas ou três páginas que ficaram por terminar, espalhadas em pastas no meu computador, dos cinco ou seis blogs que nunca passaram de cinco ou seis posts, dos cadernos que só conheceram tinta nas primeiras folhas. O alarido da minha cabeça sempre que começava algo e que ficava por terminar.Daquela vez, o Alarido dos Começos tinha terminado a história. Foi o primeiro e único texto que assinou (e também fez um alarido com o prémio, diga-se). Nunca me esqueci desse nome, e, na tentativa de dar um a esta “newsletter”, surgiu-me novamente no pensamento. Novos começos, novos alaridos. Mesmo no início do ano.O que é isto, então? Tecnicamente, o alarido é uma newsletter. Na prática, não vou dar notícias nenhumas, por isso não acho muito correcto estar a dizer isso. Por outro lado, gosto da terminação dessa palavra: letter. Vamos então assumir que o alarido é uma série de cartas. Não é propriamente uma correspondência, porque não corresponde a um sujeito fechado, nem pressupõe resposta. Cartas abertas. Abertas ao mundo.Vou escrever aqui sobre muita coisa e coisa nenhuma. Não existe um planeamento, nem periodicidade definida. Na minha cabeça, defini que não quero que passe demasiado tempo entre cartas para não instilar um certo terror de que nunca mais irás ouvir de mim (na verdade, o terror é meu e sobretudo sobre a minha incapacidade de criar hábitos e ter disciplina — quando era miúdo pintava sempre fora das linhas, por isso nunca fui rapaz de disciplina; o Foucault fala disso e talvez seja útil voltar a ele) onde é que eu ia? digamos que, pelo menos, uma publicação por mês acontecerá.Não me vou apresentar, porque provavelmente conheces-me. Se não me conheces, prefiro que vás percebendo quem sou através destas cartas. Sabes o meu nome e, por agora, é suficiente. Vou aproveitar esta correspondência para também escrever sobre os livros que ando a ler, os filmes que ando a ver, as coisas que aprendi ou descobri. Poderei falar dos meus gatos, da minha vida ou dos objectos que criei.Com esta carta ficaste a saber que, uma vez, ganhei um prémio. Que humilde da minha parte! Gastei parte dele num iPod nano laranja, no qual pedi para gravar, no verso, we’ll go to the hidden place, um verso da música da Björk pela qual andava apaixonado. O nós dessa frase não relatava a ninguém em específico para além de mim, o que também demonstra a minha capacidade de fazer filmes na minha cabeça e do arrebatador poder do sonho do príncipe encantado. Ah, a adolescência! Não deixas saudades.Um abraço.Miguelmúsica da leitura desta carta: closing — machinefabriek & gareth davis This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access to bonus episodes, visit miguelde.substack.com

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