PODCAST · society
José Luiz Alquéres - Artigos
by Cedro Rosa Podcast
Artigos do escritor, editor e pensador José Luiz Alquéres publicados pela Cedro Rosa no Portal CRIATIVOS! www.criativos.blog.br
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O Social como Elixir
O lançamento do livro sobre Marcílio Marques Moreira, no dia 21 de novembro na Livraria Travessa Leblon, nos traz a memória um momento extremamente delicado da vida econômica nacional, quando ele foi convocado pelo Presidente da República para colocar em ordem uma economia fragilizada por sucessivos planos de estabilização miraculosos. A receita de Marcílio, bem-sucedida, foi “o feijão com arroz” bem feito – ou seja: corrigir distorções, recompor instituições e governar com os bons. Marcílio já possuía um invejável currículo, primeiro como estudante na sua infância na Áustria, como primeiro aluno do Instituto Rio Branco, como notável membro da equipe de San Tiago Dantas, de quem passou a ser o mais fiel discípulo, como diretor do Unibanco, e depois como embaixador brasileiro em Washington. Poucas pessoas no Brasil têm carreiras semelhantes, com passagens tanto na área privada quando pública, tão bem conduzidas. Naquele tumultuado período, que culminou com o impeachment do Presidente Collor, Marcílio elevou o conceito que a economia, ciência humana e comportamental, deve ser entendida na sua clássica concepção de Economia Política, como os velhos tratadistas franceses a denominavam. A sua atuação criou os fundamentos e trouxe para o governo importantes artífices do plano Real, como Pedro Malan, Arminio Fraga, Roberto Macedo, Gelson Fonseca, Eduardo Guimarães e outros. O livro não se limita, porém, a narrar os fatos desse período. Ele traz de suma importância toda a história da formação humanística de Marcílio; os exemplos éticos vindos de sua educação familiar; a exemplar convivência, companheirismo e amor com Maria Luiza e filhas; e a estimulante fraternidade com renomados colegas como José Guilherme Merquior, Sérgio Paulo Rouanet, Octavio Dias Carneiro, sob a liderança intelectual de Francisco San Tiago Dantas, vulto proeminente da inteligência brasileira. Fora do governo, Marcílio mantem-se até hoje extremamente ativo, tendo colaborado com algumas grandes empresas nacionais e internacionais, presidido a Associação Comercial do Rio de Janeiro e desenvolvido um inovador trabalho de pesquisa da história econômica nacional e em especial do estado do Rio de Janeiro. Os norte-americanos costumam denominar as universidades que estudam de Alma Mater, que no caso de Marcílio além do Instituto Rio Branco, foi Georgetown University, universidade jesuíta mais antiga daquele país. Sua concepção de vida lá se reforçou e ficou registrada no magnifico prefácio que fez a obra: Dom Quixote, um apólogo da alma ocidental, de San Tiago Dantas, onde a universalidade do amor cristão, feito do dom de si mesmo fica registrada como uma marca de Marcílio. Livros anteriores já haviam mergulhado na vida diplomática e de ministro da Economia de Marcílio, dois aspectos, porém, da sua rica vivência são destacados neste livro. Edmar Bacha realça o peso da preocupação social que já havia merecido de Marcílio um tratamento inovador quando presidiu a Codesco, que realizou um sensacional trabalho, ainda hoje referência, na favela de Brás de Pina. Celso Lafer confirma que as 40 horas de depoimento de Marcílio que Luiz Cesar Faro, João Pedro Faro e Mônica Sinelli, transformaram neste belo livro, mostram a vigorosa estrutura intelectual deste pensador, jurista, economista, diplomata, sociólogo, e homem público, cujo legado deve ser conhecido e cultivado pelas presentes e futuras gerações.
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AINDA ESTOU AQUI, artigo de José Luiz Alquéres
Minhas filhas mais moças e também as netas mais velhas perguntaram a mim e minha mulher nossa opinião sobre o admirável filme novo de Walter Salles sobre Eunice Paiva. Elas sabiam que éramos ambos jovens na época e que, alguns anos depois do momento retratado no filme, tivemos alguma convivência com Eunice Paiva. Estas pessoas de minha família, todas nascidas a partir de 1980, haviam se emocionado muito durante o filme, e nos perguntaram: “Era assim mesmo ??” Eu respondi lembrando que na reunião ministerial em que foi promulgado o Ato Institucional número 5, ato que suspendeu as garantias do Estado de direito, a única voz discordante foi do vice-presidente Pedro Aleixo. Os militares presentes o questionaram se eles não seriam de confiança, afinal eram todos seus colegas de ministério. Diante da pergunta, o vice Pedro Aleixo, um civil, respondeu apenas que: “... não é de vocês que eu temo as ações, mas sim do guarda de esquina”. Estava certo. Ele quis dizer que o Ato Institucional número 5, criaria, como realmente criou, uma cadeia de arbitrariedades e de arrogância por parte das autoridades que, saindo do mais alto escalão de Brasília, atingiria e empoderaria o mais ínfimo representante da ordem pública, conferindo-lhe poderes discricionários. Ao fato acima, eu acrescento ainda a patética visão do Ministro do Exército, em uma exaltação infame do corporativismo, carregar o caixão no enterro de um dos militares recrutados para forjar um atentado em um festival de música. O plano deu errado e as forças militares acabaram ainda mais mal vistas na ocasião, precipitando a pressão por mais abertura no regime. Quando a exacerbação de fatores polarizadores se combina com o espírito de corpo e litigância em um ambiente onde carece o Estado de direito, o que se pode esperar é o que vivemos naqueles anos de chumbo: um ambiente permanente de medo, de revolta interna e desestímulo à formação de novas lideranças, mas, também, de atos de heroísmo, às vezes não compensadores, para alterar a marcha dos acontecimentos. O ato de Rubens Paiva, ao se expor como um elo entre grupos clandestinos e seus parentes ou amores na legalidade foi nobre e generoso. O impacto do filme que o relembra combinado com o sofrimento e sublimação familiar pode estar produzindo um efeito de alerta da maior importância em nossos dias. A barbárie cometida pelo Estado é algo repugnante. Fernanda Torres está perfeita como a Eunice que conheci, mas a expressão do olhar de Fernanda Montenegro em sua curta aparição vale o filme. Eunice não pegou em armas e nem imolou a sua vida em causa perdida. Ela fez de sua vida um exemplo de dignidade, de como se conduzir como mãe, cidadã participante e defensora dos direitos dos indígenas. Rubens Paiva eu conheci como engenheiro e sócio de Mauro Sá Motta, primo de um grande amigo meu. Duas décadas depois, ao criar o CCMA, Comitê Consultivo de Meio Ambiente da Eletrobras, para orientar ações mitigadoras de impactos de grandes barragens sobre populações ribeirinhas, tive a honra de poder contar com a Eunice entre seus membros. Poucos anos depois, em 1996, com a sanção da Lei dos Desaparecidos pelo presidente FHC, ela recebeu finalmente a certidão de óbito de Rubens Paiva e o reconhecimento da culpa do Estado em sua morte. Como o filme relata, foi uma vitória da persistência contra tudo, contra todos e contra até o abstrato, como o esquecimento daquilo que nos incomoda. Eunice em grego é uma palavra que deriva etimologicamente de “Nike”, que significa Vitória. A vitória desta mulher é a vitória da decência, da dignidade de uma mãe, do amor e companheirismo de uma mulher por seu marido, mas também da importância da memória nacional se fazer presente em momentos delicados de nossa História e mesmo da História Mundial, como aqueles em que estamos vivendo.
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SENSAÇÕES
Este é um texto que trata de lembranças. Lembranças que, em seu devido tempo, provocaram sensações marcantes e indeléveis. Uma marcante sensação de perigo em minha infância originou-se de uma brincadeira comum entre os alunos de natação da professora Maria Lenk, na piscina do Hotel Copacabana Palace. Maria Lenk foi uma grande atleta olímpica brasileira. Era referência na natação e cujo nome é, ainda hoje, lembrado em diversos parques olímpicos. Eu tinha uns 4 ou 5 anos na ocasião e uma vez sofri um “caldo” de um menino mais velho. Aquela sensação de afogamento, beber água e não conseguir respirar ficou para sempre presente em minha mente, embora depois eu tenha até sido um razoável nadador. Sensação de morte. Outra sensação dos tempos antigos era passar sob a marquise do Cinema Metro Copacabana em dias de calor. Por algum artifício de marketing, o Cinema resolveu, além de refrescar seus salões, fazer o mesmo com a calçada em frente à porta principal – e era um bálsamo nos dias de verão passar por ali. Não há pessoa de minha geração que não se lembre disso. Sensação de alívio. A campainha que tocava às 16:50 marcando o fim da quinta aula do período da tarde do Colégio Santo Inácio era um enorme sinal de alegria em uma rotina que havia começado bem cedo pela manhã. Rotina pesada na qual se sucediam inúmeras atividades, sempre corridas, e algumas até muito tensas em dias de prova ou outros eventos especiais. A partir da campainha, a expectativa de retorno para casa e de descanso ou distrações aleatórias representavam uma verdadeira sensação de reconquista de liberdade. Anos depois, fui viajante frequente na velha ponte-aérea Rio – São Paulo, com seus aviões Viscount ou Electra. Desembarcar no Santos Dumont e entrar naquele impressionante salão, onde um enorme painel retratava a história da aviação, tinha também este duplo efeito calmante: o de estar em terra firme e, ao mesmo tempo, reencontrar aquela destacada obra de arte popular, educativa e marcante da conquista científica e tecnológica do homem. Sensação de segurança. A primeira vez que viajei ao exterior foi quando ganhei uma bolsa de estudos para um estágio de 3 meses nos Estados Unidos. Pousei em Nova Iorque e fui direto para um hotel – Sheraton, na sexta ou sétima avenida. Depois de tomar um banho, desci para a cafeteria. Isso foi em 1967. A atendente me passou um daqueles menus plastificados com imagens de monumentais ícones de junk foods americanos: sundaes, pilhas de panquecas, mega sanduíches, ice cream sodas, travessas de danish pastries e de french toasts. Olhei para aquilo maravilhado e senti-me intimidado. Só consegui pedir um “coffee and milk”. A atendente me olhou com cara inquisidora e retrucou: “coffee and cream”? Eu, ignorante, respondi: “No, coffee and milk, please”. Naturalmente, ela me trouxe uma xícara daquele café americano e meio litro de leite gelado. Sorri amarelo e agradeci “Thank you!”. Ao que ela respondeu “You´re welcome”. Fiquei desvanecido por ser considerado bem-vindo. E assim repetimos o “Thank you” e o “You´re welcome” umas 3 vezes. Até que um amigo me cutucou e falou que ela estava apenas respondendo o meu agradecimento – e não me dando boas vindas. Sensação da dificuldade de de ser compreendido no estrangeiro. Devo ter voltado aos EUA umas 40 vezes em minha vida – e nunca deixei de me lembrar como aprendi a responder a um “Thank you”, coisa que nenhum cursinho ou aula haviam me ensinado. As mais importantes sensações da vida, porém, são aquelas ligadas às relações humanas: encontro com o amor, a paternidade ou a maternidade, aquele abraço apertado em um bom amigo ou amiga, a perda de pessoas queridas, ou a enorme satisfação de um dever cumprido. Uma ação caritativa bem sucedida ou a possibilidade de expressar um fervoroso agradecimento a quem tenha merecido.
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PERDEDORES OU VENCEDORES?
A análise dos resultados das recentes eleições municipais dividiu os analistas políticos que vicejam nos meios de comunicação. Segundo alguns, o grande perdedor é Lula, cujo partido apenas venceu em uma capital do nordeste. Outros, porém, apontam que o número de prefeituras onde o PT venceu, ainda que muito menor que outros partidos, foi bastante superior ao ocorrido em 2020, caracterizando assim um progresso do partido. Outro caso que divide os referidos analistas é o de Bolsonaro, que, para alguns, caso consiga revogar a inelegibilidade que lhe foi presenteada pelo STE seria o maior beneficiário da guinada para a direita, com a vitória em grande quantidade de municípios brasileiros com suas esdrúxulas composições partidárias. Segundo outros, porém, Bolsonaro, dentro dessas referidas composições, apoiou candidatos de partidos que na maioria das grandes cidades onde se encontra o eleitorado ficaram alijados do poder. Ele teria apenas um pequeno número de vitórias. Duas ou três prefeituras de maior expressão onde o núcleo da chamada ultradireita elegeu seus candidatos. Kassab, presidente do PSD, aparece como um gênio estrategista, uma vez que o partido que preside foi aquele que elegeu o maior número de prefeitos - embora em muitos casos estas vitórias se devam também a importantes contribuições de partidos coligados. Assim como o PSD de Kassab, o MDB de Baleia Rossi venceu em um número quase igual de municípios, embora o PSD tenha amealhado um maior número de cidades importantes. No frigir dos ovos, parecem surgir como possíveis candidatos para as eleições presidenciais, se considerados apenas os resultados dessas eleições, pelo lado da centro direita, nomes como Kassab, Tarcísio, Eduardo Paes e Caiado. Pelo lado da centro-esquerda, João Campos, de Recife, que alia uma boa administração ao carisma herdado de seu pai e bisavô, de um forte clã político em Pernambuco. Em território ideologicamente diluído, como possivelmente se dará a próxima eleição presidencial, não há como se ignorar o potencial de Lula da Silva, que estará dois anos mais velho e muito mais comprometido com práticas políticas do passado, como as emendas parlamentares secretas, o toma-lá-dá-cá, a indicação de incompetentes para cargos políticos e outros fatores que lamentavelmente podem explicar uma grande parte dos resultados da atual eleição municipal. Embora deva se ressaltar que a recondução de muitos prefeitos possa significar não o uso abusivo da máquina do governo, mas o mérito mesmo de uma gestão competente, paira sobre o eleitorado nacional uma grande dúvida: estarão os brasileiros aprendendo a votar ou ainda se aplica a famosa frase de Pelé "o brasileiro, se quisesse reivindicar os seus direitos, tinha que tentar votar direito, não em cacareco". [*]? Vale destacar que os analistas políticos e os institutos de pesquisa parecem que aprenderam a trabalhar os dados sobre as intenções de voto mergulhando no comportamento diferenciado de um maior número de segmentos: jovens, mulheres, evangélicos, católicos, eleitores influenciáveis por líderes nacionais, eleitores que votam em protesto, e as razões de abstenção ou anulação do voto. Em suma, as eleições mostraram em sua tranquilidade, na rapidez do processamento dos resultados e na aceitação da voz das urnas que o eleitor foi o grande vencedor, pois o processo democrático se fez presente e as inúmeras distorções, agressões verbais, fake news, constrangimento de boca de urna e outras práticas não se mostraram eficazes. Resta agora manter o clima de participação cidadã no processo político durante o intervalo entre as eleições! [*] - https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/12/29/frase-pele-brasileiro-nao-sabe-votar.htm?cmpid=copiaecola
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Mudanças Climáticas e Eleicões
O ano de 2024 ficará marcado pela relevância das questões ambientais no debate político-eleitoral, especialmente as relacionadas às mudanças climáticas. No passado, as agressões ao meio ambiente eram majoritariamente vistas como poluição de rios, mares, perda de biodiversidade e despejos industriais tóxicos localizados, cujas consequências para os seres humanos não eram imediatamente perceptíveis. Dessa forma, a preocupação com suas causas e efeitos permanecia restrita a círculos técnicos ou órgãos de fiscalização. Hoje, esse cenário mudou. Todos esses eventos estão interconectados por uma causa comum: o modelo predatório de exploração dos recursos naturais que caracteriza nossa civilização. Não é surpreendente que, nas eleições americanas, Trump e Kamala troquem acusações sobre a responsabilidade pelas medidas de mitigação dos efeitos do furacão Milton. No Brasil, as inundações em Porto Alegre tornaram-se o tema central da campanha para prefeito, enquanto em São Paulo, a disputa pelo segundo turno entre Guilherme Boulos e Ricardo Nunes concentrou-se na resposta da prefeitura ao apagão de energia que se seguiu a uma tempestade extrema. Como é comum entre os brasileiros, mesmo em meio a temas sérios, as piadas surgem. Em alusão ao passado de Boulos como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), já se diz que "com Nunes, sua casa pode ficar sem luz, mas com Boulos, você pode ficar sem casa". Brincadeiras à parte, o impacto final desses acontecimentos no resultado eleitoral ainda não pode ser medido, mas é um avanço ver o tema ambiental sendo incluído de forma proeminente no debate político. Neste, como vemos, a discussão ainda se concentra nos efeitos, mas logo deverá se estender para as causas. Infelizmente, o foco das propostas políticas tem sido os efeitos dessas disfunções, cuja origem está muito além da responsabilidade dos governos locais. Contudo, é essencial que a discussão avance para questionar as causas desses fenômenos naturais, que são resultado das ações humanas, das empresas e das atividades produtivas. Desde 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta o mundo sobre os riscos crescentes que nosso modelo de vida representa para a sustentabilidade do planeta. Em 1988, a ONU apoiou a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um organismo que reúne cientistas de mais de 99 países para monitorar a progressão das mudanças climáticas. Desde 2015, ano do Acordo de Paris, o IPCC vem promovendo esforços para zerar as emissões de carbono causadas pelo uso inadequado da terra, a devastação das florestas e o uso de combustíveis fósseis. Embora os alertas do IPCC não tenham sido suficientes para alterar o comportamento humano de forma ampla, é alentador ver que os eventos climáticos recentes, que se multiplicam pelo mundo, começam a influenciar o comportamento dos eleitores. As grandes transformações na economia e na sociedade só serão alcançadas com forte apoio popular, que tende a crescer à medida que os desastres climáticos causem mais sofrimento e perdas. Os alertas da ciência não bastaram, mas talvez a dor e as perdas finalmente despertem a humanidade para a necessidade de um novo modo de vida.
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REFLEXÕES APÓS A TRAGÉDIA PAULISTANA
Estamos assistindo após grandes tragédias ambientais a tendência de criminalizar supostos culpados e esquecer de implantar soluções que previnam a ocorrência de novas desgraças. O primeiro exemplo são as enchentes no estado do Rio Grande do Sul. Vimos 95% dos seus municípios afetados por inundações decorrentes da incidência de chuvas torrenciais nunca registradas anteriormente. Os efeitos negativos desse fenômeno natural logo foram atribuídos ao desleixo da prefeitura de Porto Alegre, dada a dimensão dos estragos locais. Passadas algumas semanas, quando o Sul se recuperava dos piores efeitos das chuvas, o brasileiro tomou conhecimento incidência inédita de queimadas ao final do período sazonal de secas, especialmente no Planalto Central do Brasil. Da mesma forma, a tendência inicial foi a busca imediata de culpados e a criminalização de alguns. Prendeu-se talvez uma centena de acusados, embora os focos de incêndio fossem muitos milhares e distribuídos por um território de área superior à da Europa inteira. Na última semana viu-se a passagem do furacão Milton pela Flórida. Durante 24 horas inundou não apenas algumas cidades daquele estado norte-americano, mas, com intensidade extrema, os meios de comunicação do Brasil. Talvez por ter um nome próprio, o Milton, a culpa recaiu mais sobre ele - e menos sobre Biden, Trump ou o governador da Flórida. Mais recentemente, há poucos dias, tivemos chuva intensa e fortes ventos em São Paulo. Não há registro histórico de algo semelhante no passado. Fica claro que chegamos ao ponto em que devemos nos preparar para eventos extremos onde quer que a ciência aponte que eles possam acontecer. As evidências disso vem se repetindo com intensidade e frequência maiores. Ao invés disso, porém, vemos o “jogo de empurra” para apontar culpados atuais para situação que resulta de múltiplos fatores que vêm ocorrendo há décadas. Com relação ao caso de São Paulo, vale lembrar que até os anos 1960 esta cidade possuía a mesma população que o Rio de Janeiro. Hoje possui o dobro. Bairros inteiros projetados para terrenos com ocupações unifamiliares foram sucessivamente tendo as casas originais demolidas para construção de pequenos edifícios de dois andares. Depois, estes foram demolidos para construção de blocos de apartamentos de quatro andares, que acabaram sendo substituídos anos depois por espigões. A rua, no entanto, continuou sendo a mesma. A vegetação plantada quatro ou cinco décadas antes cresceu e deu origem a frondosas espécimes totalmente inapropriados para arborização urbana e as redes de infraestrutura de esgotos, águas pluviais, comunicação por fio e eletricidade tornam-se obsoletas a cada mudança de densidade de ocupação dos bairros. Tudo isso, em período de eventos extremos, se agrava pela incapacidade de circulação pela rede viária, tomada por milhões de automóveis. Não adianta culpar a ANEEL, a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, as concessionárias dos diferentes serviços públicos. Não adianta culpar o político A ou B por mazelas decorrentes da falta de planejamento urbano e territorial, da má alocação de recursos públicos e privados ao longo de décadas, da ignorância e falta de preparo generalizados dentre as autoridades públicas municipais, estaduais e mesmo dentre os gestores dessas concessionárias. Todos têm a sua parcela de culpa, assim como a população que elege os políticos e se acomoda aos maus gestores públicos e privados. O mais importante nesse momento é acabar com o amadorismo na gestão, priorizar a contratação de gente competente no lado público e privado e refazer completamente as estratégias de gestão. Estas devem se focar em um mundo substancialmente diferente daquele do passado. As comunicações, os deslocamentos físicos, a essencialidade da energia, as novas formas de trabalho e lazer e a proteção contra eventos climáticos extremos vão exigir um redesenho profundo da cidade moderna. A solução demandará mais ciência e melhor engenharia, evidentemente sem que se descuide das conquistas do Estado de Direito e da responsabilização de indivíduos e entidades quando desleixos e omissões fiquem caracterizados. Tão importante quanto isto será a participação mais efetiva da sociedade civil, seja através do voto consciente e do voluntariado cívico, para que se apliquem as soluções adequadas aos problemas urbanos e territoriais.
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UMA LEITURA ALTERNATIVA DO RESULTADO DAS ELEIÇÕES
Domingo, dia 6 de outubro de 2024, o Brasil foi dormir com uma sensação diferente. As eleições para prefeito e vereadores nos quase 6 mil municípios nacionais haviam se realizado com tranquilidade e foram processadas e publicadas, tendo seus resultados sido aceitos pelos candidatos concorrentes. Pode parecer pouca coisa, mas não é, haja visto exemplos recentes dos Estados Unidos da América e também na Venezuela de Maduro, este tiranossauro que resiste à extinção da sua espécie. Os resultados surpreenderam também pela mudança do perfil dos eleitos, se comparado com o das eleições precedentes. Se em 2022 a eleição apontava para uma grande esperança em que um modelo diferente de gestão da coisa pública poderia resolver ou mitigar algum dos principais problemas brasileiros, na eleição de 2024 o que se viu foi um deslocamento da esperança quanto a mudança da ação de governo para ação das pessoas. Eu explico: uma recente pesquisa realizada em São Paulo ouviu algumas centenas de pessoas, homens e mulheres, que haviam progredido economicamente e socialmente na última década. A pergunta básica era à que atribuíam o seu sucesso. As respostas se concentraram, em primeiro lugar, no esforço próprio em superar dificuldades de diferentes tipos. Em segundo lugar, foi apontado o apoio da família. Em terceiro lugar, o apoio de amigos e associações de proximidade, como de vizinhos, colegas profissionais e outros grupos de adesão voluntária. O recebimento de apoio do Estado, em suas diferentes formas, ficou relegado a um sexto ou sétimo lugar. Vamos imaginar, à luz dos resultados da pesquisa acima, que tipo de candidato ou de programa de partido político estas pessoas votariam: a conclusão que parece bastante clara é que candidatos com promessas mirabolantes de criação de programas assistenciais que contemplem todas as necessidades de alimentação, transportes e saúde de seus eleitores não estão encontrando mais a recepção que tinham no passado. Pode ser que esta eleição de 2024 comece a marcar o fim de uma confiança ilimitada que o estado e seus melífluos políticos, doutores em “conversinha mole”, resolverão a vida de 200 milhões de habitantes. Parece, felizmente, que a população começou a se convencer que a superação de suas dificuldades repousa em seu trabalho e em sua maior participação na vida política, escolhendo propostas mais realistas e menos milagrosas. Um ponto de destaque foi a reeleição ou ida com vantagem para o segundo turno de administradores que se mostraram razoavelmente capazes de gerir as enormes máquinas municipais, em vez do povo eleger críticos de problemas ou arrivistas milagreiros com bons diagnósticos, mas sem experiência alguma na gestão de entidades complexas. O futuro da democracia brasileira exige não apenas a melhoria do padrão dos candidatos como também o melhor exercício da capacidade de votar. Quem vota precisa perguntar mais, se informar melhor, debater as opções e abandonar vínculos de simpatia, sedução de promessas irrealizáveis e escapismo no duro enfrentamento das dificuldades inevitáveis que a construção de um futuro melhor impõe. Que cada um entenda que o seu futuro é uma construção individual e não uma dádiva do estado ou do céu.
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A SALVAÇÃO ESTÁ NOS OCEANOS
A vida na Terra segundo a ciência teve origem nos oceanos. Neles reside nossa esperança de regeneração de condições sustentáveis para que ela possa continuar a florescer. “No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.” As frases que abrem o livro do Genesis se casam, metaforicamente, com a visão da ciência, ao dizer que a Terra era vazia. Na realidade, uma intensa vida bacteriana havia se desenvolvido em ambiente anaeróbico, sem a presença de oxigênio nas profundezas dos oceanos. As águas apresentavam em sua profundeza uma intensa vida bacteriana que ao longo de 3,5 bilhões de anos evoluiu para organismos complexos que vieram emergir dos mares e povoar a crosta terrestre. Estes organismos se diferenciaram entre aqueles que criaram raízes e evoluíram para o mundo vegetal e os que se tornaram móveis e evoluíram para uma enorme diversidade de espécies animais. Ambos os tipos dependeram da energia solar para sobrevivência. A energia solar, através do processo da fotossíntese, que captura o carbono do ar e o transforma em caules e folhas das árvores é fonte de energia para o crescimento da vida marinha das algas, corais, plâncton e outros minúsculos seres dos oceanos. A fotossíntese aumentou a proporção do oxigênio na atmosfera terrestre tornando-a respirável e propícia à vida. De tempos em tempos, processos sísmicos produziam a extinção em massa de espécies vegetais e animais, que assim foram constituindo as camadas de carvão mineral, petróleo e gás natural, que compõem o subsolo da crosta terrestre e do fundo dos oceanos. São destas jazidas de carbono que hoje extraímos intensamente os combustíveis que movem a economia mundial, poluem os ares, provocam a extinção de espécies e as mudanças climáticas que afligem todo o planeta. Em outras palavras, devolvemos para a atmosfera aquilo que processos geológicos levaram milhões de anos para dela retirar. É fato consensual, destacado na última assembleia da ONU realizada na semana passada, que a continuidade desse modo de viver destruirá a vida na Terra em poucas décadas. Até mesmo o nosso presidente Lula, em seu discurso inaugural, defendeu a prioridade a ser dada a esta questão, embora o nosso país venha demonstrando descaso, especialmente no tocante ao uso da terra e à abertura de exploração de novas áreas petrolíferas em flagrante contradição ao discurso. Há, ainda, na visão mundial, um aparente desvio de foco ao se menosprezar o papel dos oceanos na restauração de condições de vida e de clima mais sustentáveis para o planeta. Como bem diz José Eli da Veiga, o futuro da sustentabilidade é predominantemente azul turquesa e não apenas verde, como hoje é constantemente apontado. É necessário recuperar a capacidade de absorção do carbono pelos oceanos, de modo que eles, que cobrem ¾ da superfície da Terra, voltem a ser o grande agente de captação de carbono da atmosfera e, assim, propiciar o florescimento da vida. Nós estamos matando a vida nos oceanos, que viraram a cloaca universal. São resíduos de petróleo, despejos de produtos químicos, bilhões de toneladas de plásticos, que se degradam em micro plásticos, hoje praticamente presentes nos tecidos de todos os animais do planeta. Alguns estudos apontam que a presença de micro plásticos nas placentas das mulheres é um dos fatores responsáveis pela redução de 50% da concentração de espermatozoides da atual geração de homens quando comparada a de seus avós. Além disso, é quase impossível saborear qualquer peixe sem estar se ingerindo uma certa quantidade de mercúrio e de outros metais tóxicos. Promover a sustentabilidade é não apenas uma prioridade a ser dada na orientação da pesquisa científica, mas também na evolução da mentalidade dos políticos e das populações, conforme a cada dia as evidências da degradação do nosso planeta se tornam mais perceptíveis para todos.
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Sugestão para a Ministra
A Ministra Marina Silva em entrevista ao jornal O Valor Econômico de segunda-feira, 23 de setembro de 2024, ao ser perguntada se era otimista ou pessimista a respeito do futuro do planeta, respondeu apenas que era “persistente”, deixando a nós, leitores, a impressão que se referia à luta que empreende contra incendiários de florestas, que chama de “criminosos ambientais” e de outros integrantes do governo do qual faz parte que advogam a exploração do petróleo na Amazônia. A estes segundos poupa a designação de “criminosos”, embora em outro trecho da reportagem aponte que lhe parece essencial o fim da utilização de combustíveis fósseis, posição que seria enfatizada pelo presidente Luís Inácio no discurso recente efetuado na ONU. Tanto as declarações da Ministra quanto a do Presidente da República são suficientemente escorregadias para acomodarem fatos como a exploração do petróleo na margem equatorial, o financiamento do BNDES ao grupo JBS, o maior produtor de carne bovina do mundo, e a vista grossa à turbinagem da exploração de minérios em áreas protegidas, o que até já provocou uma inusitada manifestação do STF. Para ser eficaz na sua persistência, a ministra poderia se inspirar em exemplos como a operação “follow the money”, adotada na repressão ao tráfico ou no singelo fechamento dos ferros-velhos do Centro do Rio que se alimentavam do roubo de cabos das concessionárias ou de pedaços das estátuas de bronze que ornamentavam os parques públicos. No caso de se adotar este tipo de ação contra os lucram com os malfeitos, além de corretamente prender os tais “criminosos ambientais”, no tocante às queimadas, duas medidas parecem essenciais: 1 - desestimular por todos os meios possíveis a pecuária bovina, responsável diretamente pela expansão das pastagens, desmatamentos e incêndios. O boi é um péssimo conversor de proteína vegetal em proteína animal e o uso da terra no Brasil é responsável por cerca de 60% das emissões de gases do efeito estufa. Há que se focar nos frigoríficos, nos transportadores de gado em pé, na limitação progressiva das exportações de gado bovino e outras medidas que, “no atacado”, combatam estas causas que enfrentar “no varejo” não têm mostrado sucesso; 2 - Há um enorme trabalho de pesquisa, informação e divulgação para substituir o grande desperdício de energia e degradação do solo causado pelas queimadas, o que pode ser feito pela restauração das florestas nativas, reflorestamento e incentivo à produção do biometano e dos combustíveis da biomassa. O Brasil oferece oportunidades excepcionais para o uso destes combustíveis renováveis e poderia promover maior uso de veículos híbridos, movidos a tais combustíveis, o que dispensaria a mineração em grande escala de terras raras e outros escassos minerais. O que chama a atenção no discurso oficial é o primarismo das ações sugeridas em contraposição aos nobres objetivos e metas anunciados. O governo trombeteia grandes ações, mas não adota medidas inteligentes que possam vir a produzir os efeitos desejados. Infelizmente, esta enganação do público, que pode possuir um componente de autoengano, evita o progresso das medidas necessárias que, aqui e ali, são levantadas por alguma empresa ou universidade.
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REPENSANDO A DEMOCRACIA
Declarações recentes de políticos na América do Sul, na América do Norte e Europa mostram uma grande decepção com as conquistas e os rumos da democracia em seus respectivos continentes e mesmo no mundo. Apesar de ser o regime predominante em 75% do total de países existentes, ela parece estar desapontando um número cada vez maior de seguidores. Quando os “founding fathers” dos EUA já aposentados de suas funções governamentais se reuniram para discutir o futuro do regime que haviam criado para seu país, naquela época a única república do mundo, admitiam que ela dificilmente ultrapassaria os 150 anos de duração. Isto na visão de Jefferson, Madison, Monroe e outros experientes políticos. Eles consideravam que ocupadas as terras dos 13 estados originais, a estabilidade da nação repousaria inicialmente na expulsão e colonização das terras dos indígenas até as montanhas rochosas e, depois, no retalhamento das grandes propriedades escravistas do sul do país. A partir do momento que não houvesse mais como acomodar o crescimento demográfico, a dissolução da república lhes parecia inevitável. O que ocorreu foi que, com o fim da escravidão, o país sofreu uma forte industrialização e urbanização em conjunto com o aumento da produtividade agrícola, o que proporcionou uma sobrevida do seu modelo político até os anos 30 do século XX. Naquele momento implementou-se um novo pacto social, o “New Deal” de Franklin Roosevelt, que reestruturou o sistema financeiro, a gestão territorial e das Instituições e, com o sucesso da participação americana na Segunda Guerra Mundial, abriu os mercados do mundo para a grande indústria militar e de bens de consumo dos EUA. O modelo democrático caminhou junto a esta expansão do poder da América do Norte. O sucesso econômico tem a virtude de dar estabilidade aos governos, seja eles democráticos ou não. Temos visto na História a longa existência de regimes autoritários sustentados por economias que produzem o básico para seus habitantes. No século XXI, no entanto, as condições de estabilidade institucional já requerem, além de um desempenho político razoável, uma abertura no acesso à informações do que se passa no mundo e a satisfação de uma crescente e inadiável pauta de direitos humanos. Oitenta por cento da população mundial vive sob regimes políticos marcados por ideologias ou concepções religiosas que fortemente mantém suas populações submetidas a desigualdades sociais, étnicas e repressoras, dentre outras múltiplas restrições de direitos das mulheres, ainda que nominalmente se autoproclamem democracias. As novas bases tecnológicas sobre as quais se assentará a economia do futuro, desde setores primários como produção de alimentos e extração de minerais até as mais sofisticadas formas de provisão de serviços, vão inexoravelmente sacudir as estruturas institucionais que regem a convivência dos homens e mulheres em sociedade. A democracia hoje criticada pela lentidão com que enfrenta os problemas corriqueiros da gestão pública, da resolução de disputas, da criação de leis e regulamentos consensuais que sejam respeitados por todos necessita um ajuste compatível com os processos de automação e utilização da inteligência artificial em amplos domínios e mesmo de prevenção da crescente degradação ambiental, cujos reflexos ameaçam a sobrevivência da nossa espécie. A humanização de todas as nossas atividades conjugadas a uma nova ética no tocante às relações entre pessoas, instituições e o ambiente físico natural é a prioridade do mundo para que o autoritarismo e as soluções monocráticas não venham a se impor sobre as conquistas fantásticas da democracia nos últimos dois séculos e meio.
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O Rolls Royce de Lula
No final de sua vida, o grande psiquiatra alemão Carl Gustav Jung escreveu um livro bem ilustrado popularizando alguns dos conceitos que diligentemente havia desenvolvido durante mais de meio século de prática psicanalítica. O livro, “O Homem E Seus Símbolos”, apontava a grande importância que os símbolos adquirem na configuração de certos ideais pessoais ou coletivos Quarenta anos após a queda do Império, Getúlio Vargas, tornou-se ditador do Brasil. Um país jovem, que ainda tinha na figura do Imperador Pedro II a imagem de um poder central mais forte do que a federação dos estados criada pela república. Em 1932, apenas dois anos depois, São Paulo fez a sua revolução constitucionalista, negando os princípios unitários que Getúlio Vargas trazia do Rio Grande do Sul. Getúlio, porém, não ficou só na letra. Ele adquiriu o palácio imperial de Petrópolis, adotou a cidade como sua moradia de verão e criou uma verdadeira corte de apaniguados ao seu redor. Os empresários do jogo do bicho ou contraventores como outrora eram conhecidos, detêm hoje em dia um expressivo poder em diferentes comunidades, verdadeiros feudos. No Carnaval, desfilam com todas as pompas e circunstâncias sob os olhos embevecidos da população, polícia e governadores – onde podem publicamente ostentar o seu exército de sambistas e diversos batalhões uniformizados, disciplinados e, felizmente para nós, não querendo nada além de uma noite de glória. Neste dia mostram para a cidade que são cidadãos de bem e benfeitores públicos, dignos do mais alto reconhecimento, pois atraem turistas e divisas. Na Roma antiga, os comandantes de exércitos, cônsules que se saiam vitoriosos em grandes batalhas contra os bárbaros, eram merecedores de um “Triunfo”, um grande desfile pela cidade mostrando os prisioneiros, os tesouros conquistados, os escravos subjugados - o que era meio caminho andado para sua eleição para o consulado ou mesmo para o Império. Os três exemplos citados são de clara interpretação das finalidades buscadas através dos símbolos utilizados. Eles têm o poder de mostrar sem discursos e sem palavras o que o protagonista está querendo passar. Nos três casos, ser detentor de um poder muito superior a qualquer rival. Com isso, se habilitando às benesses e a permanência do que seria uma condição efêmera. No último 7 de setembro, o vetusto Rolls Royce presidencial do Brasil, que mais caberia em um museu, foi retirado da garagem para que Lula desfilasse qual a Rainha da Inglaterra ou algum tiranete do antigo império colonial inglês. O desfile, aliás, foi eclético, mostrando um enorme Zé Gotinha, bem mais impressionante que o digno calhambeque presidencial. O que dá margem a inúmeras perguntas é: O que Lula quis simbolizar? Talvez um poder autoritário, absolutista, como o dos chefes tribais. Não deixa de ser estranho adotar esta imagem quando o poder do Executivo se dilui frente aos do Legislativo e do Judiciário. Conteúdo Cedro Rosa Digital. Siga nossas redes sociais.
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Reflexões sobre a Engenharia Nacional
Na última semana, o Clube de Engenharia, centenária instituição que reúne os engenheiros brasileiros, elegeu Francis Boghossian como seu presidente, por significativos 76% dos votos. É um justo reconhecimento para um grande engenheiro civil, professor da UFRJ e líder de diversas associações profissionais. O Clube atravessa uma difícil situação financeira, a exemplo de muitas empresas de engenharia vitimadas por um sistemático desmonte que essa importante atividade para o desenvolvimento nacional vem sofrendo desde os anos 90. Entre 1940 e 1990, a engenharia brasileira cresceu ao ponto de projetar-se no cenário internacional, com nossas empresas atuando nos cinco continentes e com uma brilhante geração de engenheiros formados no Brasil e pós-graduados no exterior implantando cursos de mestrado, doutorado e pós-graduação nos mais variados campos da engenharia. Desde então, assistiu-se a um progressivo declínio dessa atividade, provocado por políticas equivocadas e, mais tarde, por uma desastrada forma de reprimir a corrupção, que, não vitimando os corruptos, acabou por quase eliminar as nossas empresas e muito do nosso saber tecnológico acumulado. Deve-se repensar o novo ciclo de desenvolvimento da engenharia a partir de condicionantes diferentes daqueles do ciclo anterior. Comentamos, a seguir, alguns desses novos condicionantes. Primeiro, o novo grande cliente é o planeta, ou seja, toda a engenharia deve se direcionar para soluções sustentáveis, tanto nos seus processos específicos, construtivos ou industriais, quanto no judicioso emprego de materiais. Segundo, a engenharia deve reivindicar um papel mais ativo na concepção das estratégias de desenvolvimento nacional e melhoria das condições de vida das populações, especialmente as urbanas, passando a priorizar tanto as suas obras, quanto o impacto que elas devem produzir na redução de desigualdades sociais. Terceiro, a automação, a digitalização e o uso generalizado da IA são novos domínios em que o nosso atraso tecnológico está se mostrando evidente, o que resulta não apenas na falta de competitividade na nossa produção voltada ao mercado interno, como o pouco valor agregado que os produtos da nossa pauta de exportação vêm apresentando. Desenvolver a engenharia do agronegócio, da mineração, da indústria de bens de capital e de transformação, do campo dos serviços em geral e dos equipamentos para o progresso da medicina, é algo que tem que ser feito concomitantemente, olhando-se os aspectos econômicos e sociais da nossa população. Quarto, o investimento nos setores de inovação, criatividade, pesquisa e desenvolvimento, além da melhoria da educação, desde o ciclo fundamental até os níveis de graduação e pós-graduação, é um aspecto vital nesse esforço coletivo, ainda que os seus resultados possam levar um período de duas décadas para maturação. Quinto, o Estado tem um papel fundamental no sucesso de um novo ciclo virtuoso de desenvolvimento, cabendo começar pela meritocracia no serviço público, banindo o fisiologismo que tem imperado nos últimos tempos e voltando-se a uma competência nas abordagens de longo prazo que acabem com o desperdício de dinheiro em sucessivas improvisações, como hoje vemos na área de energia e em vários segmentos das obras públicas. Evidentemente, não pretendo esgotar no artigo o tratamento para um problema tão grave e urgente quanto esse. Apenas lembrar à sociedade e, em particular, aos engenheiros, nesse momento que se abre com a eleição de Francis Boghossian, importantes pontos de atenção para que o Brasil retome a sua trajetória de avanços tecnológicos.
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Um Tema Muito Doloroso
É com profunda dor, compaixão e preocupação que a sociedade tem observado o crescente número de suicídios de jovens. Na semana passada, um caso ocorrido em um colégio de elite de uma grande cidade brasileira tomou conta dos meios de comunicação e, como era de se esperar, suscitou as mais diversas e contraditórias reações. Não se deve procurar nestes casos uma causa única ou um grande culpado, uma vez que concorrem para situações desse tipo fatores da própria constituição do indivíduo, do seu relacionamento familiar, do peso das circunstâncias presentes e futuras a que o jovem está exposto e o ambiente intolerante – se for o caso – ao que estiver inserido. Comentando exclusivamente o ambiente escolar, é uma situação não de hoje, mas de sempre, a tendência a que alguns alunos sejam perversamente assediados por seus colegas por alguma característica que possua. Às vezes, esta é uma deficiência física, um precoce sinal de orientação sexual, fazer parte de um grupo étnico minoritário em relação ao resto da turma ou ser de uma família com uma condição socioeconômica inferior, que se traduza em uma vida extraescolar completamente diferente dos colegas. São inúmeros os possíveis fatores que expressam no microcosmo sala de aula o festival de desafios vigentes na sociedade e que não encontram nem no ambiente familiar, nem na escola as condições que gerem no jovem a força e as ferramentas para enfrenta-los. Nesse sentido, raciocinando pelo absurdo, como seria a experiência de inserir cinco alunos privilegiados acadêmica e economicamente em uma escola pública regular? Qual seria o efeito para eles – no sentido de estarem expostos a uma maior diversidade - e para o resto da turma? Por que se pensa que o inverso funciona como modo de estimular o crescimento pessoal, como parece ser o caso de alguns desses infortúnios? O que me parece bem mais razoável é incentivar que escolas particulares de elite e as diversas fundações e institutos que buscam incentivar uma melhoria da educação incentivem a colaboração, por parte dos segmentos mais afluentes da sociedade, de escolas públicas, levando de forma generalizada os benefícios que podem vir de uma melhor educação para todos os jovens, sem dissocia-los das realidades de suas famílias e das comunidades que vivem. Em outras palavras, o que é imperativo é a elevação do padrão da escola pública brasileira, que tem performado de modo muito inferior, salvo exceções, das escolas privadas e que retrata a incapacidade do Estado brasileiro, em qualquer dos seus níveis - federal, estadual ou municipal – ser minimamente eficaz. Na educação, o Estado também deveria contar com o apoio do setor privado e mais do que isso, com a conscientização por parte das elites que uma escola pública de qualidade é primordial para a melhoria da qualidade de vida e bem estar de toda a sociedade. O ente privado que se dispusesse a colaborar deveria receber alívios tributários compatíveis, uma vez que estaria assumindo responsabilidades financeiras do governo. Por que não criar leis como a Rouanet de incentivo à cultura, para a Educação? A situação de inequidade entre a educação pública para a privada só acentua a desigualdade social que vem das demais condições de vida e que compromete irremediavelmente o futuro da sociedade brasileira em um século onde a qualidade da educação irá significar, mais do que nunca, a possibilidade de uma vida mais digna para todos. Você escutou Um Tema Muito Doloroso, artigo de José Luiz Alquéres, para o portal CRIATIVOS! Siga nossas redes sociais!
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Investimento em Saúde
A ciência, ou seja, o conhecimento, desde o passado longínquo, vem evoluindo incessantemente, ora mais lentamente ora dando saltos. Especular sobre o futuro da ciência, portanto, não é um exercício determinístico. O futuro pode acontecer de maneiras muito diferentes. Hoje em dia, pode-se afirmar que, mais do que em qualquer época anterior da história, o futuro está na mão da humanidade, das decisões que ela venha a tomar sobre os fatores condicionantes do seu desenvolvimento. Os fatores condicionantes ou drivers do futuro da humanidade dependem de como ela orientará os rumos do desenvolvimento científico, pois, na atual era do antropoceno, é o homem empoderado pela ciência que está definindo, com suas ações, o destino do planeta. Podemos simplificar em meia dúzia de drivers as linhas de ampliação do conhecimento atual: 1º - Um impulso pelo conhecimento do que é o universo e do nosso papel nele. Isto já foi matéria da mitologia, da religião, da física clássica e, atualmente, da física teórica quântica. Permanece, todavia, neste estudo, uma dimensão metafísica, que na expressão mais simples tem origem no axioma: “do nada, nada se faz”. 2º - Produção de alimentos em escala suficiente. Desde os primitivos caçadores e coletores até as formas mais sofisticadas de agricultura e pecuária, essa preocupação requer investimentos, dá origem a guerras e destruição de ambientes naturais. Centros de pesquisa como a EMBRAPA, hoje parcialmente desmontada, contribuíram para fazer do Brasil um líder mundial nesse campo. 3º - Habitação e infraestrutura. A necessidade de abrigo, comodidade nos deslocamentos, usufruto de climatização adequada, comunicações e outros confortos, não só gerou a maior parafernália de aplicações científicas, como criou uma sociedade mundial de consumo que altera a cada dia o equilíbrio dos sistemas e biomas naturais. 4º - A concentração de pessoas em grandes cidades, vivendo em condições de compartilhamento obrigatório de espaços e facilidades, vem impondo, há mais de três milênios, estudos e proposições sobre os homens, a sua cultura, os seus comportamentos e suas formas de organização política e de seus sistemas produtivos, o que, desde meados do século XVIII, resultou na qualificação dessas iniciativas ,como o desenvolvimento de ciências sociais que buscam entender como e porquê indivíduos e seus agrupamentos, em pequena ou grande escala, agem. 5º - As guerras e as disputas entre aldeias, nações e civilizações, tem sido uma constante na humanidade por razões de sobrevivência, conquista de riquezas ou do poder, por conflitos religiosos ou de ideologias. Ainda hoje, a maior alocação de recursos da pesquisa científica se dá para se desenvolver formas de matar os nossos semelhantes ou nos defendermos dos seus ataques. ... segue 6º - Saúde e qualidade de vida. Sempre houve a preocupação dos homens e mulheres desenvolverem meios de curar doenças, ferimentos, aliviar sofrimentos, viver melhor e estender a sua expectativa de vida. Em algum grau, todos os drivers anteriores contribuíram para algum tipo de progresso nesta área, embora, só muito recentemente na história da humanidade, nos últimos 250 anos talvez, se tenha alocado recursos mais significativos com este propósito específico. No ambiente que imaginamos o futuro da ciência, os cinco primeiros drivers tendem a gerar recursos suficientes para sua adequação às futuras demandas do mundo. Eles resultam na necessidade de produtos para os quais existem mercados estruturados de consumo presente e perspectivas de uma certa estabilidade no futuro, mesmo que sujeitos às enormes mudanças impostas por uma transição energética e nos usos da terra, além da necessidade de restauração de ambientes naturais e oceanos. O sexto driver, da saúde, acaba imputando à geração atual o início de enormes investimentos em prevenção de pandemias, desenvolvimento de vacinas e transição de uma medicina curativa para uma administração do corpo humano voltada para a longevidade com qualidade de vida. Isso requer investimentos significativos que, em grande parte, necessitam ser cobertos pela sociedade civil. Um exemplo patético da descontinuidade desses investimentos quando eles deixam de interessar a financiadores de curto prazo está na desmobilização e encerramento de atividades do maior hospital de doenças tropicais, que era o de Londres, quando a Inglaterra extinguiu o seu império colonial. As populações daqueles países de baixa renda não eram mercados que justificassem investir na prevenção de doenças inexistentes na Grã-Bretanha. O ponto mais importante, em minha visão, no tocante ao futuro da ciência, é a alocação de recursos para a pesquisa científica e tecnológica no campo da saúde e qualidade de vida, que, no caso brasileiro, apoiado por um pequeno número de mecenas privados, requer mobilização mais ampla de pessoas e de empresas e, mesmo, uma disposição pública em conhecer, avaliar e valorizar o conhecimento nessa área. As recentes pandemias de HIV e COVID-19 mostram, além da demora de respostas efetivas, a enorme ignorância quanto as causas e meios de prevenção. Por isso, no Brasil especialmente, com suas especificidades climáticas, sociais e grau de instrução da população, a importância do mecenato não só de pessoas físicas, mas, também, de empresas privadas, no apoio a pesquisas e desenvolvimento nessa área, as vezes com resultados alcançados décadas depois de seu início, deve se tornar a preocupação fundamental dos segmentos mais cultos e mais ricos da sociedade, enquanto se processam em paralelo as iniciativas de conscientização das instituições governamentais.
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EM MEMÓRIA DE ANTÔNIO DELFIM NETO
Os mais conhecidos e influentes ministros da fazenda dos últimos 60 anos foram Pedro Malan, no chamado período da redemocratização, e Delfim Netto, nos anos de governo militar. Bastante polêmico, Delfim Netto, ao deixar o ministério, se candidatou e foi eleito para cinco mandatos como Deputado Federal por São Paulo. A memória dos anos do milagre brasileiro, ainda que machucada por taxas de inflação crescentes, permaneceu viva no fiel eleitorado de base que possuía naquele estado – o que lhe conferiu uma grande independência de posições, nem sempre bem compreendidas quando exerceu estas funções no legislativo. Eu tive o privilégio de algumas interlocuções pessoais com Delfim e registro aqui às que me vem na memória agora: Ele gostava de brincar com os nossos sobrenomes, pois o dele, na origem italiana, era “Delfini” - e o meu “Alchieri”. Dizia ele que pelo menos éramos mais alfabetizados do que nossos respectivos avós, “mas talvez não tão sábios”, enfatizava. Em outra ocasião, manifestou sua vontade de ler textos originais de grandes economistas utilitaristas e fisiocratas franceses do século XIX e início do século XX. Eu consegui, com apoio inestimável de Renée Vergne, que obteve as autorizações especiais necessárias do governo francês, cópias dos referidos textos. Mandamos encaderná-las e a ele oferecemos em nome das Câmaras de Comércio França-Brasil. Delfim as saboreou e, anos depois, as doou com sua biblioteca para a Universidade de São Paulo, onde foi professor catedrático de economia política. Quando fui morar em São Paulo almoçávamos uma ou duas vezes por ano, em geral, conversando sobre as relações Brasil e França e o futuro da indústria brasileira. Delfim era um economista com grande percepção de funcionamento do mundo real, o mundo das empresas, dos empregados, dos exportadores e dos interesses coletivos. Eu havia sido apresentado a ele pelo Prof. Antonio Dias Leite, meu mestre no setor de energia elétrica e um desenvolvimentista. Desenvolvimentista, aliás, é uma palavra que virou uma “praga”, pois passou a ser associada àqueles que defendem uma total complacência com desequilíbrios fiscais e exagerados gastos públicos. Na realidade, em sua origem, que cito como idealistas do conceito estão Roberto Simonsen, Francisco San Tiago Dantas e o próprio Antonio Dias Leite, autor do célebre livro “Caminhos do Desenvolvimento”. Desenvolvimentistas eram economistas focados no aumento da produção, da produtividade e da competitividade do setor produtivo nacional. Infelizmente, o adjetivo acabou colando em uma escola de economistas irresponsáveis no tocante a equilíbrio fiscal, o que é uma distorção da visão destes grandes pensadores. Lembro em particular de um almoço agradabilíssimo quando havia sido publicado uma pesquisa do Valor sobre quem teria sido o maior economista brasileiro – e que havia resultado em um quase empate entre Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen. Delfim, que aparecia como o único votante em José Bonifácio, me fez uma apaixonada defesa de seu voto, calcada no fato deste ter sido dentre os ministros então já falecidos, aquele que tinha focado suas propostas de ação em um plano abrangente de desenvolvimento suportado pela modernização da agricultura. Anos depois, quando eu abri a minha editora Edições de Janeiro o convidei para escrever um ensaio sobre José Bonifácio, o que ele não pode aceitar e me indicou o “Cafu”, apelido do Jorge Caldeira, que infelizmente também estava concentrado em outros projetos e não pode executá-lo. Algum tempo depois, eu editei o livro “Meu Século”, com reflexões do meu amigo Prof. Dias Leite, originalmente dirigidas aos netos, mas, na realidade, estendidas como uma forma de legado para as futuras gerações de brasileiros. Delfim Netto fez uma bela crônica em sua coluna na Folha de São Paulo sobre o livro, publicada na edição de 27 de abril de 2017. ( cortamos por falta de espaço )
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Quando a Natureza se Impunha
A ignorância, o desconhecimento das coisas, uma atitude anticientífica, podem gerar uma enorme sensação de medo nas pessoas. É verdade que às vezes o conhecimento da ciência e, especialmente, o poder destrutivo de algumas de suas conquistas pode também proporcionar a mesma sensação. Até meados do século XVI a natureza oferecia enormes enigmas para a humanidade. O pensamento predominante é que espíritos superiores, irados com as atitudes humanas, se vingavam através dos mais variados fenômenos naturais descontrolados. Terremotos, inundações, secas, pragas de insetos, pandemias e muitos outros exemplos locais ou globais eram enfrentados pelo hipotético valor de sacrifícios, algumas vezes humanos, orações e rituais variados. Pode-se dizer que, a partir da publicação do livro “Principia Mathematica”, de Isasc Newton, que apresentava uma explicação racional e demonstrável por repetição das razões do comportamento dos astros e dos corpos em movimento, propondo a lei da gravitação universal, uma nova etapa se descortinou. Era uma etapa já prenunciada havia séculos por estudiosos como Jean de Buridan, Roger Bacon e Guilherme de Ockham, cujos fundamentos filosóficos haviam sido consolidados no início daquele século por Francis Bacon. Desde então, a ciência começou a tratar a Natureza com o olhar científico, ou seja, investigar as causas que produziam aqueles até então enigmáticos fenômenos. A humanidade passou a ter a preocupação de compreender a natureza e não a ver como uma inimiga sempre prestes a tentar destruí-la. É verdade que os homens entre si, por meio de suas guerras e seus meios de vida, acabavam produzindo destruições tão significativas quanto aqueles fenômenos naturais Embora esse sentimento da natureza ser uma inimiga tenha, desde então, se alterado e, com o auxilio da ciência, a humanidade tenha conseguido mudar o conceito de inimiga para apenas uma “atrapalhadora” dos seus propósitos, ou seja, uma promotora de eventos que exigia obras de grande porte para mitigar as suas consequências ou anos de caras pesquisas para desenvolver remédios e outros produtos químicos para enfrentar pragas e doenças, perdurou o sentimento dos homens estarem do lado contrário ao da natureza. Em outras palavras, longe de ser a mãe-natureza ela era a perversa madrasta dos contos de fada. O desfio atual da humanidade é enfrentar a degradação do nosso planeta provocada pelas atividades humanas que ampliaram os muitos prejuízos a ele causados por fenômenos naturais, especialmente quando focados no que convém à nossa espécie humana. Muito se fala de projetos, acordos, investimentos e outras medidas objetivas para dar concretude a este enfrentamento, mas o maior dos desafios está na mudança de uma mentalidade que predominou durante todo este passado que é a de que seres humanos e natureza não fazem parte do mesmo sistema. Na realidade, os seres humanos se incluem no sistema maior da natureza terrestre e, por isso, seus projetos devem se iniciar pela compreensão que a natureza deve ser respeitada a qualquer custo, evitando-se agressões adicionais sobre um sistema que já dá mostras de estar profundamente afetado em seu funcionamento normal. Hoje, apesar de suas reações espasmódicas, a natureza clama por piedade – e isso resultará em benefício do futuro da espécie humana.
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A Natureza, o Homem e a Ciência
Podemos associar o termo “Natureza” à vida na Terra, algo que remonta a cerca de 4 bilhões de anos. Nessa mesma Terra, após várias eras geológicas, surgem, há 4 milhões de anos, aqueles mamíferos de cuja linhagem vai originar o Homo Sapiens cerca de 400 mil anos atrás. Dele descende o nosso antepassado Homo Sapiens Sapiens que, há 40 mil anos, passa a predominar sobre outras espécies humanas e que há 10 mil anos começa a se tornar sedentário em vilas situadas nos vales dos grandes rios do Egito, da Mesopotâmia e da China. Podemos afirmar que a Ciência como a entendemos hoje em dia nasce nesta fixação do homem à terra, o que lhe possibilita viver em comunidade e ter mais tempo para pensar além da sobrevivência diária. Em tal momento 2 tipos de preocupação estavam presentes na vida do homem: sobreviver às condições mutáveis dos fenômenos da Natureza e sobreviver aos ataques de outros membros de sua espécie. Estou incluindo em fenômenos da Natureza enchentes, deslizamentos de terra, secas, pragas, pandemias e outras tragédias semelhantes que aqueles homens primitivos consideravam obras de espíritos cuja complacência procuravam obter através dos mais variados sacrifícios. A Natureza era algo vivo e que intencionalmente atacava os homens. Abstraindo-nos de tratar das relações ora belicosas, ora amigáveis dos homens com outros homens, podemos dizer que este alvorecer da vida urbana até o final do século XVII, quando se inicia o Iluminismo e a Revolução Industrial, a percepção do homem era que vivia em guerra com a natureza – e esta estava ganhando. Em outras palavras, as pestes, pandemias, terremotos, fenômenos naturais, a maioria oriundos de causas para o homem inexplicáveis, ganhavam sempre nos confrontos que iam surgindo. É sintomático que o grande terremoto que destruiu Lisboa em 1750 foi considerado pela Igreja local uma reação de Deus a uma cidade pecaminosa, a exemplo do episódio bíblico da destruição de Sodoma e Gomorra. A partir do Iluminismo, a Ciência e a Razão passam a explicar os fenômenos naturais e, com isso, criam a possibilidade do homem deles se defender. A guerra se inverte. O homem passa a atacar a Natureza. Drena pântanos, desenvolve remédios, extermina pragas, extrai energia do subsolo, devasta e conquista florestas e pântanos e vai assim alterando a Natureza de forma a adquirir maior conforto, bem-estar e vida mais longa. Este processo de condicionar a Natureza às conveniências das gerações presentes, todavia, levou a profundas modificações nos sistemas naturais que saíram do controle dos agentes que as provocam. Existe um aquecimento da temperatura da Terra que já ameaça homens em várias regiões do planeta. Regiões estas que não são aquelas que provocaram as ditas alterações. Da mesma forma, há uma contaminação da atmosfera, uma acidificação dos oceanos, um enorme prejuízo para várias espécies marinhas e para o equilíbrio da captura de carbono pelas algas que se distribuem na superfície dos oceanos. Exemplos como os acima mostram que, se na primeira etapa do confronto homem versus Natureza, esta saiu ganhando, na segunda etapa a situação se inverteu e o homem destrói o funcionamento de vários sistemas naturais. O grande problema então que surge – e que somente é enfrentado a partir da década de 80 do século XX é a necessidade dos homens e a Natureza se darem as mãos, pararem de mutuamente se destruírem e criarem, enquanto ainda é tempo, um modo harmonioso de vida em comum. Essa preocupação foi consensada no chamado Acordo de Paris em 2015, onde 195 países, reunidos pela ONU, admitiram com base nas melhores análises científicas que o mundo estava realmente em crise e que só a ação conjunta de todos os países e suas populações poderia restabelecer um modo sustentável de relações com a Natureza. (limitado por excesso de caracteres)
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A História se Repete?
A república romana durou cerca de 5 séculos, sendo, portanto, no gênero a mais duradoura dessas formas de governo – com exceção de Veneza, que durou o dobro, mas, por suas pequenas dimensões e característica insular, não pode ser considerada um exemplo replicável em outras partes do mundo. Quando os fundadores da república americana elegeram esta mesma forma de governo, admitiam em conversas entre si que dificilmente uma república sobreviveria por mais de 150 anos. Estavam enganados. A república americana já existe há 237 anos e, embora esteja passando por mais uma disputada campanha presidencial, continua dando mostras de grande vitalidade. Na república romana a instituição mais forte do ponto de vista político era o Senado, que, no final, possuía cerca de 600 senadores. Dentre eles, dois grupos se destacavam: O primeiro deles eram os Optimates, defensores das tradições e da aristocracia, que tinham sido as forças presentes na fundação da república romana, então inspirada nos modelos das democracias gregas. Contrariamente a este modelo, calcado na força da aristocracia, o Senado romano evoluiu ao longo do tempo abrindo-se à participação popular. Ele passou a incorporar pessoas de origem comum que houvessem se destacado em cargos públicos, em geral ligados à magistratura, ao exército ou à coleta de impostos. Com isso, a república ganhou uma sobrevida, embora nos últimos cem anos seu funcionamento estivesse altamente desvirtuado. Exacerbaram-se as lutas entre os Optimates e o grupo dos Populares. Disputavam o voto dos romanos por meio de medidas descaradamente demagógicas, como distribuição de alimentos, de dinheiro, organização de grandes eventos com entrada franca, distribuição gratuita de trigo e grãos e outras. Entre estes dois grupos muito ativos havia uma maioria de senadores de origem diversificada que funcionavam, mutatis mutandi, como o nosso conhecido “centrão”. Neste panorama, os romanos não consideravam o voto dos senadores como algo intrinsicamente ligado à isenção de vantagens ou interesses pessoais. Diz-se que Júlio Cesar comentando o funcionamento do Senado romano afirmou que a honra do senado não se compra, mas os votos dos senadores sim. Esse modo de funcionar levou a um grande desvirtuamento da instituição e a palavra “democracia” foi caindo em desuso em benefício da palavra de “liberdade” com conotação de supremacia militar sobre todas as nações, ou seja, mesmo que em sua organização interna o regime fosse adotando comportamentos crescentemente autoritários e ditatoriais, isso era feito em nome da defesa da liberdade e do estilo de vida dos romanos frente à ataques externos ou temor de inimigos potenciais. Como o estado subsidiava a comida e o divertimento, o panis et circenses, o poder dos governadores das províncias mais ricas do império, como o Egito, Ásia, Gália e Espanha, era enorme, pois de lá se originavam os tributos e os alimentos enviados para Roma. O segmento popular, fora esse sustento básico, era cooptado, em geral, através da distribuição de terras nessas provÍncias uma vez que as da Itália, distribuídas nos 3 primeiros séculos da república, haviam se concentrado na mão de aristocratas detentores de latifúndios – já que a comida era distribuída de graça vinda do Egito, Sicília ou Mar Negro – e a mão de obra era ocupada pelo exército em permanente convocação. O serviço militar era obrigatório por 30 anos. Dentre os fatores que minaram a vitalidade da república, podemos listar: a exacerbação da luta pelo poder, a vulnerabilidade do senado e do povo à corrupção, a troca de participação cidadã pela dependência de benesses do poder. Texto limitado por quantidade de caracteres do Spotify.
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COMO DESTRUIR A AMAZÔNIA
Em 1964, fui pela primeira vez a Manaus. Era uma cidade isolada. Fiquei hospedado no Hotel Amazonas, que conhecia de anúncios pitorescos na revista Reader's Digest. Lá, ele aparecia como algo no meio da floresta, ao lado de uma arara, sugerindo um ambiente exótico e primitivo. Era um anúncio tão convincente que o pessoal do hotel costumava dizer que era comum turistas desembarcarem com aquela indumentária de ingleses a caminho de um safári. A realidade era diferente: o hotel ficava numa rua central de Manaus, tipicamente um edifício urbano. O que ainda era primitivo era o interior do estado, como pude comprovar viajando numa "gaiola", visitando comunidades ribeirinhas. Logo depois, começou aquela febre de Brasil grande. O asfaltamento da Belém-Brasília, rodovia Transamazônica, Perimetral Norte, Suframa, Basa, Zona Franca de Manaus, Sudam, agrovilas e um festival de iniciativas e alocação de subsídios que, desde então, vêm incessantemente destruindo os ambientes naturais. Como era de se esperar, o subsídio, ao injetar dinheiro barato em uma economia frágil, atrai contingentes populacionais com custos de produção gravosos e alto potencial de destruição de ambientes naturais para a região que recebe tais subsídios. Em 1970, seis anos após aquela primeira visita, lembro de ter constatado uma degradação perceptível nos ambientes urbanos, naturais e na própria população. No censo daquele ano, a região Norte já respondia por cerca de cinco por cento da população nacional. Nos 50 anos subsequentes, o processo de degradação se acelerou, pois a sanha de direcionar subsídios para aquela região, cristalizada na Constituição de 88 e recentemente expandida, hoje já faz detectar mais de 25 milhões de habitantes na Amazônia legal, conforme tem apregoado o presidente da república e os políticos locais, muito animados em atrair, com a realização da COP 30 da ONU, recursos para "salvar a Amazônia". A Amazônia que receberá a conferência da ONU é, portanto, o mostruário de tudo que não se deve fazer em matéria de desenvolvimento ambiental. Certamente é a maior destruição já vista em uma época que, supostamente, a consciência ecológica deveria prevenir tal tipo de desastre. Hoje, vivem na região cerca de 12,5% da população brasileira, um ganho estrutural muito significativo nos últimos 50 anos, mostrando que para lá se dirigem correntes migratórias internas do país. Por outro lado, isso em nada auxilia na inviolabilidade das nossas fronteiras, pois por essa região flui contrabando de toda sorte. As Forças Armadas, que nos últimos séculos haviam garantido nosso território, têm sido profundamente penalizadas por cortes de verbas. O grande fotógrafo Sebastião Salgado, um dos maiores conhecedores da Amazônia e autor de um incomparável acervo fotográfico da natureza e das populações indígenas, costuma apontar em suas palestras que o mais importante trabalho de assistência às populações e controle de fronteiras é efetuado pelas Forças Armadas. É lamentável, por fim, constatar que esses males aos quais se somam o garimpo ilegal, a poluição dos rios, a escandalosa exportação de madeiras e tantos outros são consequências diretas ou indiretas de políticas públicas. Essas políticas continuam vigentes, enriquecendo políticos locais e outros atores que concentram essa renda transferida através de subsídios, dos quais o mais recente capítulo é a sucessão de “coincidências”: Eletrobras vendendo térmicas para empresa Âmbar, medida provisória três dias após concedendo subsídios para a energia produzida por estas usinas e, na semana seguinte, a Âmbar compra a Amazonas Energia, destino final de mais de 10 bilhões de subsídios para indenizar energia e combustíveis pagos à Petrobras. Essa conta recairá em todos nós, consumidores de energia do resto do país. Como vemos, em matéria de "greenwashing", podemos ser campeões mundiais. Portal CRIATIVOS! www.criativos.blog.br Cedro Rosa https://cedrorosamusica.online/musicas
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Indignai-vos
A convivência continuada com o horror vai tornando-o menos pavoroso, às vezes até aceitável. Com o tempo, porém, o acúmulo de sensações que ele provoca alcança um limite. Parafraseando Chico Buarque de Holanda, um fato menor pode ser a gota d'água que transborda um caldeirão de ressentimentos. Um ditado comum na época de Luís XV, monarca francês, dizia: “Après nous, le déluge“. Traduzindo-se por “Depois de nós, o dilúvio”, anunciando tempos difíceis após a partida de alguém. Ele faz analogia ao dilúvio bíblico mandado por Deus para castigar os homens, dentre os quais havia apenas um justo e digno de salvação, Noé. Temos assistido aqui no Brasil um festival contínuo de horrores na política que ocorre enquanto uma situação terrível de injustiça social se mantém. O estouro do orçamento para este ano, no montante de 226 bilhões de reais, equivale à construção e urbanização com plenas condições de saneamento de cerca de 1 milhão e meio de residências. Assim, um direcionamento inteligente de recursos públicos poderia em menos de 10 anos eliminar a situação de habitações sub-humanas no Brasil. Na esteira deste processo, naturalmente seriam resolvidos muitos problemas de saúde, saneamento, educação e segurança pública. Isto deve ser feito sob a forma de pagamento de uma dívida social gerada pelo modelo econômico que criou esse desumano câncer em nossa sociedade. Entre a independência dos Estados Unidos da América e a Guerra Civil que ele enfrentou 8 décadas depois, as tensões sociais foram controladas pelo direcionamento do crescimento populacional e da imigração para o Oeste, onde se distribuíam terras às custas dos habitantes originais. Quando esse processo se esgotou, a Guerra Civil se tornou inevitável naquela sociedade que havia traído os ideais de igualdade e liberdade registrados em sua declaração de independência. Em outras palavras, a indignação transbordou. Em 2010, um grande intelectual francês Stephen Hessel, judeu, ex-prisioneiro de campos de concentração, amigo de André Malraux e co-autor da declaração universal dos direitos humanos da Organização das Nações Unidas, inconformado com o estado das coisas na Europa – palco de duas grandes guerras mundiais e cenário onde persiste a ausência da paz e solidariedade entre as pessoas, além de desigualdades sociais – escreveu um pequeno livro. Este livro, Indignez-vous, lançado quando o autor já possuía 93 anos, é, ao mesmo tempo, um libelo contra injustiças e um alerta para motivar ações que previnam enormes conflitos sociais. A aristocracia francesa do fim do século XVIII não assistiu a um novo dilúvio, mas foram muitos enviados para a guilhotina pela Revolução Francesa. Existem inúmeros exemplos ao longo da História em que explosões sociais ocorrem com violência inaudita após décadas de aparente convivência com coisas intoleráveis. É aceitável assistir ao corrupto jogo político que se desenvolve entre o Congresso, o Executivo e o Judiciário, enquanto os problemas sociais do Brasil mofam nas prateleiras governamentais? É admissível assistir ao espetáculo de acusações mútuas entre pessoas igualmente desprovidas de um comportamento ético mínimo que as qualifique para funções públicas? É suportável saber que 70% dos candidatos com chance de vitória às prefeituras das grandes cidades pertencem a clãs políticos tradicionais responsáveis pela deprimente situação urbana e da segurança que elas vivem? Está na hora da nossa indignação se transformar em ação. Ação política, democrática, mas implacável na correção deste estado de coisas para o que o voto consciente seja o instrumento para fazer prevalecer a razão e a justiça antes que, no desespero, as soluções radicais e as promessas ilusórias passem a predominar.
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ANTES E DEPOIS DO PLANO REAL
As recentes comemorações dos 30 anos do Plano Real têm merecido uma série de seminários técnicos, entrevistas com os principais economistas da época e outras justas celebrações. Sem desmerecer as homenagens atuais, ressalto que o sucesso do plano veio do amadurecimento de um processo cuja origem deve ser buscada alguns anos antes, quando a preocupação com a inflação já havia se tornado o maior problema nacional, atingindo seu ápice em janeiro de 1990, quase ao final do governo Sarney, com incríveis 89% ao mês. Naquela ocasião, eu era Diretor de Planejamento e Engenharia, mas estava respondendo interinamente pela presidência da Eletrobras, o que me obrigava a frequentes contatos com o alto escalão ministerial em Brasília. Lá, os órgãos institucionais funcionavam de forma muito precária e, na contingência de reajustar as tarifas de energia elétrica quatro vezes por mês, meu único interlocutor confiável era o Ministro General Ivan de Souza Mendes, que se articulava com o Ministro Maílson da Nóbrega. Havia uma pressão para que Sarney, seguindo o exemplo de Raúl Alfonsín, na Argentina, entregasse o governo ao seu sucessor antes do fim do seu mandato. Quando o Presidente Collor tomou posse e anunciou o Plano Cruzado, divulgou o conceito da “bala de prata”, a tacada com a qual esperava matar o dragão de uma só vez, menosprezando o caráter que a inflação já havia adquirido de doença crônica a ser combatida ao longo do tempo até ser extirpada do organismo econômico e social. Com o radical confisco das poupanças dos brasileiros, o que não começou bem, acabou pior ainda. Com Marcílio Marques Moreira e sua equipe, em grande parte participante da implantação do Plano Real, a abordagem correta veio, então, a ser empregada, conforme se viu na redução dos índices inflacionários do período. O Presidente Itamar Franco, engenheiro de formação, ao designar Elizeu Rezende, comprou a tese de ajustes nos preços relativos dos bens e serviços, altamente distorcidos face os diferentes calendários dos respectivos reajustes. Este ajuste teve início pelos preços de derivados do petróleo e da energia elétrica. preocupação em reestabelecer o equilíbrio entre os preços relativos dos produtos essenciais, inclusive petróleo e energia elétrica, foi conseguida, e Fernando Henrique Cardoso, com a brilhante equipe que reuniu, deu continuidade ao processo de equilíbrio orçamentário, reformas econômicas e instalação de agências regulatórias para controle técnico dos preços públicos, basicamente estruturando o tríplice controle de metas de inflação, câmbio flutuante e equilíbrio fiscal, ao lado da redução de gastos públicos e impulso às privatizações. Cabe registrar, dentre os esquecidos nesta hora de comemorações, Rubens Ricúpero e Ciro Gomes, que deram continuidade às medidas preconizadas pelos seus antecessores. Armínio, Malan e Gustavo Franco ressaltam em suas entrevistas publicadas em O Globo nesta semana que a importância do equilíbrio fiscal ainda não foi absorvida, seja pela sociedade, seja pelo governo, influenciado pela classe política inescrupulosa. Esses fatos fazem com que a inflação, embora não mais o dragão do passado, tenha se transformado em uma repulsiva lagartixa que se recusa a morrer, pois o desequilíbrio fiscal que leva a juros elevadíssimos inibe os investidores, que preferem aguardar melhores momentos concentrando seus capitais em aplicações financeiras e em ambientes com menores riscos futuros. O Presidente Itamar Franco, em um momento extremamente complexo, sem maioria no Congresso, deu o seu apoio a Fernando Henrique Cardoso como Ministro da Fazenda e este soube, magistralmente, conduzir, não sendo economista, o processo que levou o Brasil a se livrar de quase cinco décadas da doença crônica. Há urgência para que o governo restaure a melhor ordem econômica sem a qual não conseguiremos a maior geração de bons empregos, correção de desigualdades sociais e o progresso econômico do Brasil.
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Disfuncionalidades Sociais
A prefeitura do Rio de Janeiro anunciou com grandes pompas a publicação de um edital para a desapropriação do terreno da Caixa onde se localizava o Gasômetro, em São Cristóvão, para construção de um novo estádio e centro de convenções. De forma que não deixa de ser surpreendente, apregoa que é uma licitação direcionada ao Clube de Regatas do Flamengo. Deve se destacar que em um círculo de 2 km de raio, esse será o quarto estádio de grande porte de futebol, ao lado do Maracanã, São Januário e Nilton Santos. Alguns desses estádios ainda demandam obras que facilitem o acesso e serviços públicos de segurança. Esse novo estádio e os altíssimos investimentos que demandará terão efeito redutor nas receitas dos três outros e contribuirá para o agravamento das situações de disfuncionalidade urbana nas redondezas dos mesmos. Seria bem melhor se a prefeitura incentivasse, como está fazendo nesse caso, a construção de complexos esportivos e sociais, geridos pelos grandes clubes cariocas, melhor distribuídos pelo espaço urbano e voltados não só para acolher grandes eventos, como para ter seu uso ao longo da semana compartilhado por escolas públicas, atividades sociais, convenções, cursos, academias de ginástica e para atividades pela terceira idade e incentivo a prática de esportes olímpicos. Isso poderia gerar milhares de empregos para profissionais de educação física e assistentes sociais, e assim, também, trazer benefícios para saúde pública em geral e redução dos custos da provisão de serviços médicos. O que parece que está sendo ignorado é que devemos preparar a cidade para uma população mais idosa, de renda per capta mais baixa, com problemas de logística de transporte agravados e com uma enorme carência de equipamento social, não apenas para sua atual situação como para aquela do futuro próximo. O Maracanã, por exemplo, tem mais de 70 anos e tem ainda utilidade, ainda que comprometida por gestões claudicantes. Na Roma antiga, a manutenção da ordem pública era conseguida pela ação de milícias e guardas pretorianas reunidas em torno de algumas lideranças políticas, que se revezavam na promoção de grandes eventos no Coliseu e desfiles denominados “triunfos” ou “ovações”, segundo os respectivos portes. O Rio de Janeiro parece ir pelo mesmo caminho, com seus megaeventos em locais inapropriados, como as suas praias, ou desfiles de escola de samba organizados pelos empresários do jogo do bicho, alguns dos quais associados ao crime organizado. Enquanto isso ocorre, moradores das 60 mil residências de Ipanema, Leblon e Gávea convivem insensivelmente com os habitantes das 30 mil residências da Rocinha, muitas em condições sub humanas, cuja população em grande parte vive da prestação de serviços para seus vizinhos da “cidade partida”. Por que não organizar um programa em que o lado mais rico e abonado dos bairros da planície contribua financeiramente e de forma direcionada para urbanização da Rocinha, com o Estado, prefeitura e concessionárias criando uma parceria público-privada para esse propósito? Por que não se foca na chaga aberta e se supera essa terrível injustiça social que prospera sob os nossos olhos? A situação na Roma antiga tornou-se, com o tempo, insustentável e não houve repressão e força bruta que evitasse o caos urbano e o declínio da cidade de seus 1 milhão de habitantes para cerca de 50 mil. Nós precisamos aprender com a história e por um basta imediato a situações de enorme injustiça social, antes que a este problema premente venha se somar as profundas adaptações na infraestrutura demandadas pelas mudanças climáticas que o planeta está sofrendo.
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Três Incertezas e uma Solução
Na literatura de administração de negócios quando se analisa futuros possíveis para as empresas, aparecem com frequência situações de dois tipos: de risco ou de incertezas. Situações de risco são aquelas em que alguma coisa pode não dar certo, mas cuja incidência pode ser mensurada. Por exemplo, quando se diz “Há 10 por cento de probabilidade de o veículo da empresa sofrer um acidente ou ser roubado”. As situações de risco podem ser mitigadas no caso fazendo-se um seguro que cubra os eventuais prejuízos que decorram daquela situação. Em suma, o risco tem um preço. As situações de incerteza não permitem este tipo de mitigação, pois são atos da natureza, guerras e outros eventos realmente imprevisíveis para os quais não existem maneiras de mitigá-los, salvo o próprio atingido tomar medidas que possam colocá-lo ao abrigo dos efeitos negativos. Em suma, contrariamente aos riscos, as incertezas não são precificáveis. O mundo enfrentará nas próximas décadas uma elevação de incertezas decorrentes de três causas que já se fazem presentes: as mudanças climáticas, a complexidade e aumento de guerras regionalizadas e a escala das mudanças causadas pela generalização da Inteligência Artificial. No tocante às mudanças climáticas, não é necessário que o assunto seja estendido neste artigo. As companhias de seguro já têm incluído cláusulas em que se desobrigam de pagar reparos no caso de eventos extremos, como aqueles ocorridos no Rio Grande do Sul, por exemplo. Esta também é a situação no que se refere as guerras regionais cujos efeitos acabam se fazendo sentir em locais muito distantes, como ocorre na guerra entre Rússia e Ucrânia afetando preços e disponibilidade de petróleo e fertilizantes em todo mundo. Ainda é uma grande incógnita a extensão dos impactos da generalização do uso da Inteligência Artificial, mas tudo indica que ela vai gerar um enorme desemprego em alguns segmentos de trabalho. Haverá seguro que cubra o desemprego e a realocação de milhões, talvez bilhões, de pessoas afetadas? A única solução que parece haver para estas situações de incerteza, ou seja, algo que não pode ser compensado pelos atuais instrumentos disponíveis do mercado segurador é uma mudança conceitual nas empresas, nas pessoas e, portanto, no modelo de sociedade que hoje vivemos. A sociedade que emergirá com a disseminação da Inteligência Artificial liberará da área produtiva milhões de trabalhadores, que deverão buscar ocupação em atividades ligadas à produção intelectual, à vida comunitária e ao bem-estar de crianças e idosos, onde as remunerações financeiras não serão as mais expressivas. Um enorme contingente da população mundial precisará encontrar compensações psicológicas e um tipo de ócio criativo que dê significado às suas vidas, face o estreitamento dos mercados de trabalho como hoje o entendemos. A mecanização e automação da produção potencializadas pela IA vão provocar tal mudança e o desafio será fazer de cada escola, de cada empresa e mesmo de cada coletividade um núcleo de difusão de uma cultura humanizada, onde as manifestações artísticas, de trabalho voluntário e outras similares sejam tão respeitadas quanto as atividades produtivas. A humanização, portanto, é forma de prevenir os dois primeiros tipos de incerteza e de mitigar as consequências do terceiro tipo. Estimam os pesquisadores que em algumas décadas o efeito conjunto dessas incertezas contribuirá para a redução da população do planeta, mas isto ainda é pura especulação. Nossos filhos e netos viverão tais situações e temos a obrigação de prepará-los e preparar o mundo para que elas ocorram da maneira mais suave possível. Você ouviu Três Incertezas e uma Solução, artigo de José Luiz Alquéres, para o portal CRIATIVOS! www.criativos.blog.br
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UM OLHAR DISTANTE
Un regard eloignée é o título de um belo livro do antropólogo Claude Levi-Strauss, que sugere a leitura dos fatos a partir de um distanciamento físico e temporal. O livro se baseia na sua rica experiência de vida, que incluiu uma passagem pelo Brasil como professor da Universidade de São Paulo, na época em que os nazistas tornaram a vida de intelectuais judeus impossível na Europa. Seguindo esse exemplo, passo a comentar alguns episódios transcorridos na época da II Guerra Mundial e como a adoção de comportamentos desprovidos da preocupação com o julgamento dos tempos e da história pode ser prejudicial a memória dos homens públicos. Não resta dúvida que Winston Churchill, Primeiro Ministro da Inglaterra entre 1940 e 1945, encarnou a inaceitabilidade do regime nazista ao qual dedicou em uma etapa já adiantada da sua vida um grande esforço de trabalho e mobilização. Neste afã começou cortejando a Itália e a Turquia para aderirem ao apoio que estava dando à França. Quando esta se rendeu e os demais países ou aderiram ou foram conquistados pela Alemanha conduziu sozinho a resistência a Hitler, apontando que ela não decorria de interesses econômicos, mas sim de um repúdio aos princípios e valores do nazismo, intoleráveis para a civilização ocidental. A situação da Inglaterra somente melhorou e passou a ter expectativas de vitória com a entrada dos Estados Unidos na guerra, após este ser atacado pelo Japão. Pouco antes, a Alemanha havia rompido seu tratado com a antiga aliada Rússia e invadido aquele país. Quem estuda história ficará impressionado com as atitudes dos comunistas franceses, de início apoiando a Rússia e, por conseguinte, a Alemanha, que havia invadido o seu país e, mais tarde, mudando de lado. Na Itália houve algo semelhante quando, após quatro anos de guerra, o rei Vitório Emanuelle demitiu seu ministro Mussolini e mudou-se para o lado dos aliados, já no final dos conflitos, tentando com isso salvar seu trono, o que não conseguiu. O Brasil, no início da II Guerra, demonstrou grandes simpatias com a Alemanha, tendo o general Góis Monteiro advogado forte apoio aquele país, além de termos negado passaportes a inúmeros judeus que para aqui queriam emigrar. Talvez, o episódio mais dramático, mas também mais esquecido da nossa história, seja o patético telegrama de congratulações que Getúlio Vargas enviou para Hitler após a tomada de Paris pela Alemanha, onde exalta o promissor futuro que aquele acontecimento traria para a humanidade. A transcrição do telegrama consta das memórias de Getúlio editadas pelo CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. Felizmente, com o desenrolar dos acontecimentos, o nosso país se alinhou com o Ocidente. A situação atual no Oriente Médio, onde uma guerra entre judeus e palestinos provoca comoção mundial e ocorre, simultaneamente, a invasão da Ucrânia pela Rússia demonstra que estamos longe de uma paz duradoura mundial. Posicionamento do Brasil em matérias internacionais têm uma longa tradição de se basear em fundamentos éticos e morais e não em eventuais vantagens econômicas no curto prazo que o País possa retirar da situação. Existe, portanto, no caso dessas duas guerras recentes enormes preocupações pois a linha histórica da diplomacia brasileira não está sendo respeitada.
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STEFAN ZWEIG E A VISÃO DA REALIDADE
O grande escritor de best sellers, Stefan Zweig, foi também um notável crítico literário. Três ensaios de sua autoria sobre o Romance no século XIX são particularmente importantes, os que tratam de Honoré de Balzac, Charles Dickens e Fiódor Dostoiévsky. Segundo ele, estes três autores são os únicos escritores do século XIX que merecem verdadeiramente o título de "Romancistas", porque as suas obras compreendem uma visão global das sociedades, uma abordagem onde todos os personagens e seu contexto são representados através de suas milhares de ligações com todos os aspectos da vida. Os outros, e dentre eles sabemos que existem grandes escritores, são, para Zweig, grandes "autores de romances". Para ele, a denominação "romancista" é diferente e vai um pouco além. Não devemos estranhar tal colocação, justificada por Zweig no livro que reúne esses três artigos com abundantes exemplos de alta pertinência. Balzac seria o verdadeiro descritor da sociedade em que vivia. Uma sociedade em que o ideal napoleônico, um herói que transborda o entusiasmo das fronteiras da França por toda a Europa e sonha um domínio global na forma de um país continental amparado nos direitos do homem estabelecidos na Revolução Francesa seria o seu ideal. Napoleão, porém, se deixou levar por conveniências próprias e acabou nomeando irmãos e cunhados reis de países sob seu domínio de então Itália, Holanda, Espanha, deixando-se, enfim, seduzir pelos aspectos mais discricionários de um governo autoritário - em tudo diferentes dos ideais e das importantíssimas contribuições da revolução, como seu Código Civil, o respeito às minorias, aos direitos humanos, à igualdade entre homem e mulher e tantos outros. Já Charles Dickens, que mereceu e merece, desde então, uma grande admiração por descrever em seus romances a vida como ela era na Inglaterra, transparecendo através de uma visão algo cândida a enorme hipocrisia daquela sociedade e, ao mesmo tempo, os seus ideais pequeno burgueses, é o segundo tipo de romancista que Zweig louva. Para ele, ninguém jamais teria atingido tamanha afinidade entre a percepção da sua genialidade na época em que vivia, sendo venerado na Inglaterra como aquele que melhor descrevia o s seus sentimentos . Na realidade, tal admiração veio de todo o mundo que teve acesso à sua obra, incluindo os Estados Unidos. Ainda hoje é um autor extremamente cultivado. Seus heróis são pessoas comuns da sociedade, com pequenos ideais: ter uma casa, um jardim, um círculo de amizades, algo que a Inglaterra vitoriana, onde Dickens viveu, procurou celebrar internamente - enquanto impunha ao resto do mundo que estava sob seu domínio, regimes autoritários e não respeitadores de direitos humanos, como se viu na Índia, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e outros. O terceiro romancista - e, quanto a este, eu creio que há uma unanimidade até hoje - é Dostoiévski, um autor onde seus personagens encontram o mundo e este os é revelado na face de seus interlocutores por meio de um processo de descobrimento mútuo, do verdadeiro eu do personagem e das diferentes personalidade que os diferentes contextos representam: nobres, operários, trabalhadores, burocratas, agentes do governo, militares, críticos, prostitutas, mulheres da sociedade, jovens, velhos, príncipes, enfim toda a diversidade que ele pode observar e, eu diria, como ninguém identificar traços de caráter. A leitura deste magnífico livro de Zweig é uma aula de psicologia e filosofia da mais alta qualidade e nos permite abordar a obra desses três autores como uma grande lição de vida. Todos que trabalham nas empresas, no comércio, na indústria, no governo, toda pessoa enfim, deveria se debruçar sobre a obra de tais romancistas, pois a literatura traz em sua riqueza toda a descrição das emoções que norteiam as atitudes humanas e, com isso, nos permite conviver melhor com nossos semelhantes ou, para os mais pretensiosos, mudá-los no sentido de terem ambições maiores e mais dignas para suas vidas.
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Respeito à Vida
José Luiz Alquéres Juliana Trindade Os primeiros sinais de vida civilizada, como entendemos hoje em dia, ocorreram quando homens que até então levavam uma vida nômade passaram a se fixar em aldeamentos nas margens dos grandes rios, como o Nilo, o Yangtzé e Tigre e Eufrates na Mesopotâmia. Isto se deu há cerca de dez mil anos e, concomitantemente, à domesticação dos animais e o cultivo agrícola. O primeiro animal a ser domesticado foi o cachorro, que desde então constituiu um companheiro fiel do homem, um parceiro em suas noites de vigília e ajudante no manejo do gado. A parceria homens animais e plantas, portanto, tem uma dimensão histórica além de justificar um motivo a mais para respeitarmos a natureza em sua plenitude. Todas as formas de vida tiveram a mesma origem. Elas devem ser encaradas com a mesma dignidade e desta coexistência e serviço que umas prestam às outras, inclusive às custas da própria vida, emergiu o nosso modo de vida atual. A tragédia do Rio Grande do Sul mostrou a fragilidade que os animais encontram quando este tipo de evento extremo ocorre. Estima-se que cerca de vinte e cinco mil animais domésticos foram separados de seus ambientes e tutores e, ainda hoje, um mês após as primeiras enchentes, se encontram em condições super precárias de vida. É importante destacar, no Brasil, o trabalho de uma entidade, o GRAD, Grupo de Resposta aos Animais em Desastres, atuante desde a tragédia de 2011 em Petrópolis e constituído formalmente há seis anos. O GRAD congrega o trabalho voluntário de pessoas dedicadas a causa animal de diversas áreas, muitos dos quais veterinários e resgatistas. Ao longo deste período o trabalho do GRAD ganhou reconhecimento privado e público, abriu-se para o recebimento de doações em dinheiro e multiplicou o seu corpo de voluntários que tem estado presente em todas as tragédias que envolvem animais no território nacional. Na semana passada um grande marco na vida da sociedade civil ocorreu quando o GRAD assinou um termo de cooperação técnica com o governo do Rio Grande do Sul, onde foi instituído um Gabinete de Crise para a Fauna. O objetivo é que todas as ações sigam um protocolo que compreenda etapas como identificação de animais em risco, seu resgate, acolhimento, tratamento, busca por tutores antigos ou novos de forma a reintegrá-los a uma vida digna. O GRAD não apenas aportou uma significativa contribuição financeira aos esforços do Estado como atuará na coordenação de inúmeras ações de outras entidades e indivíduos que nesta hora procuram ajudar, mas que sem uma atuação disciplinada não conseguem o melhor resultado. Tal cooperação entre uma entidade privada e o governo se dá no clima de conscientização generalizada da dignidade dos animais, como se viu no destaque dado pela mídia ao resgate do cavalo Caramelo e de inúmeras imagens de animais em sofrimento. Manifesta-se também dessa forma aquela parceria histórica dos primórdios da civilização e mesmo aquela imagem mítica dos tempos em que “os bichos falavam” e se comunicavam com os homens como nas velhas fábulas. Longe está a preocupação de substituirmos os sentimentos de ajuda que nesta hora todos devem se dedicar, na medida das suas possibilidades, às vítimas, sejam elas humanas, animais ou mesmo dos ambientes naturais devastados. É importante ressaltar o olhar holístico, com respeito a todas as manifestações de vida em nosso planeta em que os humanos, nesta era do antropoceno, são os maiores responsáveis em cuidar.
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O RISCO DE DESMORALIZAR A DEMOCRACIA
Estudos recentes de sociologia e política apontam que a decadência da democracia se dá com o enfraquecimento das instituições. Instituições são, em geral, aquelas entidades governamentais, em especial, as que tratam do sistema judiciário, da ordem pública, da economia, e da defesa nacional. Não há duvida que a decadência da democracia é simultânea ao eventual enfraquecimento de todas estas instituições, mas isto não é uma condição suficiente. A democracia entra em decadência quando não consegue dar resposta aos problemas do dia a dia – da habitação, da alimentação e da segurança. Quando tais necessidades básicas não são atendidas, não há desenho institucional que sustente um regime político, como se viu na emergência do fascismo na Europa. Além disso, a democracia requer um extremo cuidado no tocante à sensação de seguridade das populações, hoje preocupadas com a enorme incerteza a respeito do futuro. Não existe solução simples para produzir confiança na democracia, mas um dos vetores principais é a existência de um projeto nacional de desenvolvimento realista e inclusivo, ou seja, que não deixe marginalizados enormes segmentos da população, como o foram projetos autoritários realizados em muitos países no século passado. Este fato realça a importância de se associar a democracia à engenharia. Engenharia para os efeitos deste artigo compreende todas as atividades ligadas ao desenvolvimento de infraestruturas habitacionais, de saneamento, de logística e de mobilidade, de provisão de serviços públicos de eletricidade e de comunicações, bem como tudo que se refira à implantação de indústrias, estaleiros, parques industriais e outras obras que assegurem qualidade de vida e emprego às populações de um país. Enchentes e inundações não são compatíveis com a democracia. Racionamentos de água ou de energia não são compatíveis com a democracia. Habitações sub-humanas não são compatíveis com a democracia. Quando estes fenômenos ocorrem, eles apontam que o regime de governo já deixou de ser uma verdadeira democracia, pois não está proporcionando aos cidadãos condições mínimas niveladas às suas necessidades. No Brasil, impõe-se a criação de um projeto nacional que volte a integrar todos esses aspectos essenciais à provisão de uma vida digna para sua população. Já possuímos projetos razoáveis no passado, mas perdemos completamente a capacidade de oferecer um plano que dê esperanças gerais de melhoria de vida. Para isso, não é suficiente se falar apenas em equilíbrio das contas, instituições sólidas, STF prestigiado e coisas deste jaez. É essencial um projeto nacional que explicite os avanços nos setores produtivos, quantificando metas pelas quais os governantes sejam responsabilizados em viabilizar. A boa engenharia precisa estar de volta. Um esforço que deve nascer na busca da excelência das universidades, na pesquisa, na preocupação com a sustentabilidade, nas políticas de desenvolvimento de pessoal e na atração de investimentos. Existe uma enorme impaciência na sociedade que se depara diariamente com o deletério espetáculo de discussões, barganhas, prisões, relaxamento de prisões, envolvendo sempre os mais altos escalões dos poderes executivo, legislativo e judiciário do país. Os ministérios afetos às políticas de desenvolvimento têm demonstrado sua total incapacidade de trabalhar em conjunto e formular planos viáveis que conversem com as metas financeiras estabelecidas pelo ministério da economia. O descontrole inibe, além do próprio governo, todo o setor produtivo nacional e a proximidade de eleições municipais irá transferir a pauta das preocupações nacionais para uma miríade de questões paroquiais dos nossos 5.571 municípios. É, pois, uma situação preocupante em que, mais do que nunca, o tradicional cartesianismo dos engenheiros está fazendo muita falta no estabelecimento da abordagem para superação dos problemas nacionais.
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Criatividade nas Futuras Relações de Trabalho
Como serão as futuras relações de trabalho. Veja o que pensa o intelectual e empresario Jose Luiz Alquéres. Conheça o portal CRIATIVOS! www.criativos.blog.br
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