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02_Locução_Aqui–lá_Texto Curatorial
Se os lugares importam, deslocar-se é se transformar – sem, no entanto, apagar os rastros do que já se foi. A arte, nesse contexto, é um campo privilegiado para apreender as camadas de tradução, opacidade, atrito e reinvenção que marcam o movimento de pessoas, formas e histórias. Foi com esse olhar que se iniciou a colaboração entre o Instituto Tomie Ohtake e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo), num momento em que a coleção do museu paulista se coloca em circulação pela cidade e enquanto o Instituto Tomie Ohtake preparava uma exposição dedicada à obra de Édouard Glissant. Logo começamos a conversar sobre o quanto a coleção do MAM São Paulo carrega marcas da demografia heterogênea do país e de sua maior metrópole; sobre como a história de nossas instituições é definida por trânsitos e mutações; e sobre como tanto modernidade quanto contemporaneidade estão imbuídas de legados de trocas e disputas entre territórios, linguagens e pessoas.Glissant usava a expressão aqui-lá para sublinhar que “aqueles que estão aqui vêm sempre de um ‘lá’, da vastidão do mundo”. Seu foco era afirmar que cada pessoa e comunidade carregam rastros de outras paisagens, línguas e culturas, e que por isso nenhum lugar é homogêneo ou pode ser compreendido como uma unidade coerente. Para o poeta, ao contrário do que alguns afirmam, a diversidade resultante dos movimentos entre territórios enriquece a experiência dos lugares, colocando-os em relação com todas as línguas e lugares do mundo. Partindo dessa premissa, a exposição propõe um exercício de escuta e aproximação, em que as obras da coleção do MAM são reunidas a partir do cruzamento de rastros – ora em ressonância, ora em desvio. Mais do que ilustrar deslocamentos, as obras os incorporam como matéria, gesto e pensamento.A exposição se estrutura em dois núcleos, distribuídos em salas distintas, cada qual tensionando, à sua maneira, os modos de estar no mundo a partir da experiência do deslocamento e da relação com o outro. As obras presentes no espaço entre as salas introduzem algumas formas fundamentais dessa tensão: o texto, o mapa, e o isolamento.A primeira sala reúne obras marcadas por travessias físicas e simbólicas – migrações, diásporas, exílios, deslocamentos voluntários ou forçados, externos ou internos. Essas obras não apenas tematizam o movimento, mas o incorporam em suas matérias, gestos e construções formais. Elas apontam para as dinâmicas geopolíticas, afetivas e institucionais que moldam quem pode ou não circular, permanecer ou retornar. Aqui, o deslocar-se é compreendido como experiência complexa, feita de perdas, reinvenções e resistências.A segunda sala se volta para as tensões entre corpo, território e identidade. Reúne obras que elaboram, por meio de imagens, superfícies e símbolos, processos de afirmação individual e coletiva – modos de inscrever a presença em contextos marcados por silenciamento, normatividade ou violência. Essas obras não se pretendem fixas ou ilustrativas: tratam de negociações sempre em curso, onde o corpo se torna lugar de disputa e de criação de sentido.Cada uma dessas salas é orientada por uma obra que, em sua forma, já enuncia a instabilidade das fronteiras. Em uma, a multiplicidade de bandeiras de diferentes cidades brasileiras, de um mesmo estado, revela o caráter fragmentado e imaginativo dos signos cívicos que organizam o espaço nacional. Em outra, os retratos de pessoas em condição migrante – vendedores ambulantes que falam outras línguas, portam outros gestos, e vivem a precariedade de quem não pôde permanecer onde pertencia – tornam visível uma face cotidiana e estrutural da exclusão.Essas duas entradas não apenas introduzem os núcleos da exposição, mas também operam como dispositivos de leitura que colocam em relação o que se verá a seguir: deslocamentos e afirmações, mapas e corpos, simetrias e tensões, ausências e resistências. Ao caminhar entre as salas, o visitante é convidado a perceber como a arte – e as coleções – podem se tornar campos sensíveis, em que ecos do “lá” se inscrevem no “aqui”, e onde o entre-lugar se faz espaço de sentido.Ana Roman, Cauê Alves, Gabriela Gotoda e Paulo MiyadaCuradores
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01_MAM São Paulo encontra Instituto Tomie Ohtake
O programa MAM São Paulo encontra Instituto Tomie Ohtake nasce da colaboração entre duas instituições comprometidas com o fortalecimento da dimensão pública da arte e da cultura. Mais do que uma contingência devido à reforma da Marquise do Parque Ibirapuera – que ocasionou o fechamento temporário da sede do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM São Paulo) –, a iniciativa dá continuidade a um ciclo de cooperação que propõe a circulação de acervos, o intercâmbio de saberes e a construção conjunta de experiências curatoriais e educativas.Nesse gesto mútuo de encontro, ambas as instituições reafirmam sua vocação para o diálogo, a escuta e a criação de projetos diversos de fruição e reflexão sobre arte. A colaboração se insere em um momento de intensificação dos vínculos entre organizações e de expansão para além dos edifícios que tradicionalmente habitam.A parceria é composta por duas exposições. Aqui-lá, concebida a partir da coleção do MAM São Paulo, reflete sobre deslocamentos, relações e pertencimentos, tomando como referência o pensamento do poeta Édouard Glissant. A curadoria, realizada em diálogo pelas equipes das duas organizações, apresenta obras que evocam travessias, rastros e identidades em movimento. Em paralelo, Limiar, instalação inédita de Tarik Kiswanson, aborda as experiências de migração e transformação, conectando-as à história de São Paulo e aos processos de enraizamento e mudança.Esses projetos se inscrevem em uma trajetória mais ampla de circulação do MAM São Paulo, com ações no MAC USP, na Fundação Bienal, no Sesc Vila Mariana, na Cinemateca Brasileira, na Biblioteca Mário de Andrade e em espaços em outras cidades. Ao mesmo tempo, reafirma o compromisso do Instituto Tomie Ohtake com práticas de colaboração institucional e de ampliação do acesso à arte.Unir forças é, tanto para o MAM São Paulo quanto para o Instituto Tomie Ohtake, uma forma de renovar os modos de atuação, potencializar o encontro entre públicos e fortalecer redes. Estar aqui e lá é estar em movimento – e seguir construindo, em conjunto, espaços de arte, pensamento e imaginação.Instituto Tomie Ohtake e Museu de Arte Moderna de São Paulo
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