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a estação da história

  1. 10

    La vie en rose, 80 anos: quando o amor ousou cantar entre as ruínas

    FacebookLinkedinWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) Em 1946, a Europa reaprendia a respirar. As cidades estavam feridas, os mapas haviam sido rasgados e reescritos à força, e a contabilidade do horror ainda era feita a lápis – milhões de mortos, deslocados e órfãos. A guerra havia acabado, diziam os grandes acordos diplomáticos; o século, porém, ainda sangrava. Os “Três Grandes” na Conferência de Yalta, fevereiro de 1945. Sentados, da esquerda para a direita: Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e Joseph Stalin. Ali se decretou o fim formal da Segunda Guerra e se redesenhou o mapa da Europa. O século, porém, ainda sangraria. A França, recém-libertada, oscilava entre a exaustão e o desejo de recomeçar. Foi nesse intervalo frágil, entre o luto e a esperança, que uma canção escolheu não falar de tanques, tratados ou bandeiras. Escolheu falar de amor. La vie en rose nasceu assim: não como fuga, mas como insistência (ou resistência). Uma afirmação íntima num mundo devastado. A voz que carrega a época A autora da letra era Édith Piaf – pequena no corpo, imensa na voz; marcada pela miséria desde a infância, pela perda, pelo excesso e pela dor. Piaf não cantava para ornamentar salões. Cantava para sobreviver. E talvez por isso sua interpretação jamais tenha soado ingênua. Havia nela um timbre de quem sabe exatamente o que custa acreditar. A letra foi escrita em 1945; a melodia, composta por Louiguy; o lançamento, em 1946. Datas importam. O ano não é detalhe: é o chão sobre o qual a canção pisa. La vie en rose não promete redenção histórica. Promete algo mais modesto – e, por isso mesmo, mais radical: o amor como abrigo. O rosa contra o cinza A expressão francesa voir la vie en rose já existia. Significava ver o mundo com otimismo. Piaf a tomou emprestada e a transformou em declaração: quando ele me toma nos braços, o mundo muda de cor. Não porque a realidade tenha se tornado suave, mas porque a experiência humana se reorganiza. Essa é a chave da canção. Não há ali negação do trauma. Há um deslocamento de foco. Enquanto Estados-nação refazem fronteiras e tribunais contam crimes, dois indivíduos – anônimos, vulneráveis – reivindicam o direito de sentir. É um gesto político por outras vias. Um gesto mínimo que desafia o cinza dominante. A simplicidade que quase não passou Curiosamente, La vie en rose enfrentou resistência antes de nascer oficialmente. Alguns produtores a acharam simples demais, direta demais, pouco ambiciosa para o mercado. Piaf insistiu. Insistiu porque reconhecia ali uma verdade. A História cultural é pródiga em ironias: o que parece simples costuma ser o mais durável. A canção venceu. Tornou-se o primeiro grande sucesso internacional de Piaf e um símbolo da França do pós-guerra. Não a França triunfalista, mas a França íntima – a que sussurra em vez de discursar. Um país, uma memória Ao longo das décadas, La vie en rose foi regravada, citada, apropriada, recontextualizada. Passou pelo jazz, pelo cinema, pela publicidade, pela nostalgia. Tornou-se um atalho afetivo para “França” no imaginário global. Mas seu poder não está na repetição; está na origem. Ela carrega o momento em que foi preciso reaprender a amar sem garantias. É por isso que a canção atravessa gerações sem perder densidade. O amor que ela descreve não é eufórico; é reparador. Não promete eternidade; promete presença. Em tempos de ruína, isso basta. Lirismo como documento histórico Historiadores costumam buscar a época nos arquivos oficiais. Mas há documentos de outra ordem – canções, poemas, cartas – que dizem o que os decretos não dizem. La vie en rose é um desses documentos. Ela registra o instante em que a História, cansada de si mesma, permitiu-se um intervalo de ternura. Nada nela é grandioso. E, ainda assim, tudo é essencial. O beijo, o sussurro, a mão que segura outra mão. A canção afirma, sem proclamar: a reconstrução começa no corpo. O que 80 anos nos dizem Oitenta anos depois, vivemos novamente um tempo áspero. Outras guerras, outros medos, outras ruínas – algumas tangíveis, outras morais. Revisitar La vie en rose não é nostalgia. É escuta. É lembrar que a História não se move apenas por choques de poder, mas também por escolhas afetivas. Piaf não escreveu um hino. Escreveu um refúgio. E talvez seja por isso que sua canção tenha sobrevivido a ideologias, modas e ruídos. Porque ela nos lembra de algo essencial e esquecido: há momentos em que amar é um ato de coragem histórica. A escolha Em 1946, quando tudo convidava ao cinza, uma voz escolheu o rosa. Não para maquiar o mundo – mas para torná-lo novamente habitável. Oitenta anos depois, La vie en rose continua nos dizendo que, mesmo entre escombros, o ser humano insiste. E insiste cantando. A imagem Édith Piaf em apresentação ao vivo, anos 1940.Corpo quase imóvel, rosto concentrado, voz projetada no silêncio. A imagem sintetiza a estética austera de Piaf e a atmosfera emocional da França do pós-guerra. A fotografia que acompanha este texto não é um retrato promocional. É um instante de verdade. Édith Piaf aparece quase imóvel diante do microfone, com a mão junto ao rosto e os olhos semicerrados. Não há cenário, não há ornamento. Apenas a voz, o corpo e o silêncio ao redor. Essa estética contida marcou as apresentações de Piaf nos anos do pós-guerra. Vestida de escuro, iluminada por um único foco de luz, ela concentrava toda a tensão dramática no rosto e nas mãos. O gesto mínimo substituía o excesso. O sussurro vencia o ruído. O fundo negro funciona como metáfora involuntária de uma época: um mundo ainda marcado pela ausência, pela perda, pela necessidade de reconstrução emocional. A imagem não celebra vitórias. Ela sustenta a memória. E, como La vie en rose, transforma o silêncio em forma de resistência íntima. (*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História. 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  2. 9

    O homem do ônibus 203: Eichmann, a caçada e o julgamento do século

    FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads TRANSCRIÇÃO DO PODCAST SAMARA: Quando aquele operário de uniforme azul da Mercedes Benz desceu do ônibus da linha 203, às 20h05 de 11 de maio de 1960, em um subúrbio modesto de Buenos Aires, não fazia ideia de que estava dando seus últimos passos como homem livre. Muito menos que quase um ano depois seria o centro de um dos julgamentos mais importantes do século. DJALBA: O homem de passos curtos, cabeça baixa e olhar cansado chamava-se, nos documentos, Ricardo Klement. SAMARA: Mas por trás desse nome escondia-se um dos arquitetos da Solução Final: o tenente-coronel da SS Adolf Eichmann – um homem cruel que colocou em movimento as ferrovias da morte na Europa ocupada. DJALBA: Exatamente – as “ferrovias da morte” foram sistematicamente utilizadas pela Alemanha Nazista no transporte de milhões de pessoas, a maioria judeus, para guetos, campos de concentração e, crucialmente, campos de extermínio durante o Holocausto. SAMARA: Adolf Eichmann foi uma figura central nessa logística macabra: ele coordenava pessoalmente o embarque das pessoas que eram despachadas para os campos de extermínio. Era o responsável pela logística da morte. DJALBA: Mas é bom contar alguns detalhes antes de prosseguir. Por anos, acreditou-se que Eichmann estivesse morto. A virada se deu em 1957, quando Lothar Hermann, um judeu alemão, cego, que vivia nos arredores de Buenos Aires, percebeu que o namorado de sua filha se gabava de que o pai “fora um grande oficial alemão”. Hermann “ligou os pontos”, investigou discretamente e enviou uma carta às autoridades alemãs. O nome “Klement” começou a circular. A informação chegou ao Mossad. Levaram dois anos para checar cada detalhe. SAMARA: Fiquei na dúvida: Hermann enviou a carta com suas suspeitas às autoridades alemãs? Por que não diretamente ao Mossad? DJALBA: Boa pergunta. Quando Lothar Hermann desconfiou da identidade de Ricardo Klement, em 1957, ele enviou uma carta ao promotor alemão Fritz Bauer, em Hessen, na então Alemanha Ocidental. Por quê? Naquele momento, Lothar Hermann não tinha contato direto com o serviço secreto israelense, o Mossad, e acreditava que a Alemanha teria interesse em capturar ex-oficiais nazistas.Quem era Fritz Bauer? Um sobrevivente do nazismo, jurista judeu, profundamente comprometido em levar criminosos de guerra à Justiça. Foi Bauer quem levou a denúncia a sério, investigou discretamente, e entrou em contato com o Mossad depois que as autoridades alemãs demonstraram relutância. SAMARA: Como Eichmann chegou à Argentina? DJALBA: Após a queda do Reich, muitos criminosos nazistas escaparam pela Europa usando as chamadas ratlines — redes clandestinas de fuga que os levaram a portos italianos e, de lá, à América do Sul. SAMARA: Literalmente, “trilhas de ratos” — rotas de fugas clandestinas. Como operavam? DJALBA: Essas rotas de fugas clandestinas operavam da seguinte forma: documentos falsos (muitas vezes emitidos pela Cruz Vermelha Internacional); redes de apoio em portos italianos (especialmente Gênova e Roma); simpatizantes nazistas, ex-militares e intermediários civis; alguns membros do clero católico. Além de Eichmann, outros nazistas famosos usaram as “trilhas de ratos” para escapar, como Josef Mengele, Klaus Barbie e Walter Rauff. SAMARA: No próximo bloco, vamos dar mais detalhes da operação de captura de Eichmann em Buenos Aires. Fique ligado! SAMARA: Em março de 1960, uma equipe de elite do Mossad desembarcou clandestinamente na Argentina. Rafi Eitan comandava a operação em campo. Zvi Aharoni cuidava da identificação. Peter Malkin faria a captura. Tudo sob a supervisão direta de Isser Harel, então diretor do Mossad. DJALBA: Por semanas, observaram Ricardo Klement (ou Adolf Eichmann): seus hábitos, suas rotinas, seus gestos. Aharoni teve certeza quando viu o homem ajustar os óculos atrás das orelhas, exatamente como nas fotos da SS. SAMARA: A confirmação veio num sussurro: “É ele.” DJALBA: 11 de maio de 1960. Eichmann desce do ônibus e caminha. Um carro preto se aproxima. SAMARA: Peter Malkin salta e diz:— “Momentito, señor!” DJALBA: Eichmann hesita, mas reage e parte para a luta com Malkin.A briga dura apenas alguns segundos. SAMARA: Imobilizado, Eichmann é colocado no carro. DJALBA: Dentro do veículo, a pergunta decisiva:– Seu nome?Ele não escondeu a identidade real:– Eu sou Adolf Eichmann. SAMARA: Antes de prosseguir, um pequeno parêntese. Para muitos agentes, aquela era mais uma missão. Para Rafi Eitan, não. DJALBA: Ele carregava uma dor que poucos conheciam. Vários de seus parentes foram exterminados em campos de concentração. Família inteira desfeita pelo sistema que Eichmann ajudou a montar. DJALBA: Há relatos – transmitidos por colegas e confirmado por Eitan em conversas posteriores – de que uma parente muito próxima, tratada como irmã, foi morta com o filho pequeno que chorava num campo de concentração. SAMARA: Mesmo assim, diante de Eichmann, Eitan sabia que não podia agir movido por ódio. Ele dizia: “Se a vingança guiar minhas mãos, a missão fracassará”.. DJALBA: Por isso, durante toda a operação, Eitan evitou olhar para Eichmann por muito tempo. Respiração controlada. Movimentos calculados. Nada de excessos. SAMARA: O objetivo não era um assassinato clandestino. Nem vingança, e sim justiça – diante do mundo. DJALBA: Eichmann foi levado para uma casa segura, mantido sob vigilância constante. Ali, foi cuidadosamente barbeado e teve o visual discretamente alterado – raspado, como diziam os agentes – para perder qualquer resquício da aparência rígida dos tempos da SS. SAMARA: Depois disso, vestiram-no com o uniforme civil da companhia aérea El Al. O plano era fazê-lo passar por um funcionário israelense que sofrera um acidente e precisava ser repatriado sedado. Crachá, documentos médicos falsos, cadeira de rodas — tudo preparado com precisão milimétrica. DJALBA: Na noite de 20 de maio de 1960, ele embarca. O avião decola. Cruza as águas internacionais. SAMARA: O piloto diz: “Estamos fora do território argentino.” DJALBA: E Isser Harel responde: “Agora ele é nosso.” SAMARA: Abril de 1961, Jerusalém. DJALBA: No centro da sala do tribunal, um cubo de vidro à prova de balas. Dentro dele, um homem magro, de cabelos ralos, quase careca, sentado em silêncio. Uma aparência discreta que escondia a dimensão de seus crimes. SAMARA: Adolf Eichmann, o arquiteto da deportação em massa. O funcionário-modelo da máquina da morte. DJALBA: Agora exposto como nunca esteve. Agora visível para o mundo inteiro. SAMARA: Jornais, rádios e televisões transmitem cada gesto, cada palavra, cada silêncio. Milhões de pessoas acompanham. Sobreviventes seguram o ar. Governos observam. Historiadores testemunham. DJALBA: E, pela primeira vez desde o fim da guerra, a História entra na sala – inteira, dolorosa, inevitável. O Holocausto, antes sussurrado, agora fala em voz alta. SAMARA: No tribunal, levanta-se Gideon Hausner, procurador-geral de Israel, advogado de voz firme, mente afiada e herdeiro moral das vítimas da Europa massacrada. Ele respira fundo e inaugura a sessão com uma frase que atravessaria décadas: “Não estou aqui sozinho. Comigo estão seis milhões de acusadores”. DJALBA: Sobreviventes falaram. Documentos foram exibidos. A máquina da morte foi exposta à luz. SAMARA: Entre os observadores estava Hannah Arendt, enviada pelo The New Yorker. Ela esperava um monstro. DJALBA: Mas encontrou algo mais perturbador: um funcionário medíocre, incapaz de pensar e preso a frases feitas e clichês burocráticos. SAMARA: Foi daí que surgiu o conceito de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal. DJALBA: O mal cometido não por fanáticos demoníacos, mas por pessoas comuns que suspendem o pensamento moral e obedecem cegamente ao sistema. SAMARA: O julgamento não foi breve. Ele se estendeu por oito meses. DJALBA: Começou em 11 de abril de 1961 e só chegaria ao veredicto final em 15 de dezembro do mesmo ano. Foram mais de cem sessões, centenas de documentos analisados, dezenas de testemunhos – uma exposição meticulosa da engrenagem da morte. SAMARA: Durante todo esse tempo, Adolf Eichmann permaneceu ali, sentado dentro da cabine de vidro, quase imóvel, repetindo a mesma defesa: “Eu apenas cumpri ordens.” DJALBA: Mas, ao final de oito meses de julgamento, o tribunal foi categórico. Em 15 de dezembro de 1961, o Tribunal Distrital de Jerusalém anunciou sua decisão: culpado em todas as acusações.Crimes contra o povo judeu. Crimes contra a humanidade. Crimes de guerra. A pena: morte por enforcamento. SAMARA: Eichmann recorreu. O pedido foi analisado pela Suprema Corte de Israel. Negado. DJALBA: O presidente de Israel também recusou o pedido de clemência. Na noite de 31 de maio de 1962, pouco antes da meia-noite, Adolf Eichmann foi levado à forca na prisão de Ramla. SAMARA Segundo os registros oficiais, manteve-se calmo. Recusou assistência religiosa judaica. Suas últimas palavras foram uma reafirmação de lealdade à Alemanha nazista. DJALBA: Poucos minutos depois, estava morto. SAMARA: O corpo foi cremado. DJALBA: As cinzas foram lançadas ao mar Mediterrâneo, fora das águas territoriais de Israel. Uma decisão simbólica: Eichmann não teria túmulo. Não teria lugar. Não teria solo para ser lembrado. SAMARA: O mundo não assistiu apenas à condenação de um homem. Assistiu à exposição de um sistema. De uma lógica. De uma burocracia que transformou assassinato em rotina, em ato trivial. DJALBA: Você está em Relatos – A Estação da História. SAMARA: Se tiver gostado, compartilhe com os amigos. Se quiser comentar, deixe sua opinião em relatos.blog.br DJALBA: Efeitos sonoros: FreeSFX.co.uk SAMARA: Texto e roteiro: Djalba Lima O post O homem do ônibus 203: Eichmann, a caçada e o julgamento do século apareceu primeiro em relatos.blog.br.

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    AI-5: o dia em que a ditadura tirou a máscara

    FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Em 13 de dezembro de 1968, o Brasil atravessou uma fronteira sem retorno imediato. Naquela noite, o governo do general Artur da Costa e Silva editou o Ato Institucional nº 5, o AI-5 — o instrumento que suspendeu direitos, silenciou vozes e institucionalizou o arbítrio. Não foi apenas mais um decreto autoritário: foi a certidão oficial da ditadura em sua forma mais dura. Cinquenta e sete anos depois, compreender o AI-5 é compreender o que é uma ditadura, como ela se constrói juridicamente e por que a memória desse período é essencial para a democracia. O Brasil antes do AI-5: tensão, crítica e medo do dissenso Quatro anos após o golpe de 1964, o regime militar ainda buscava uma aparência de normalidade institucional. Havia Congresso, eleições controladas, imprensa parcialmente livre. Mas essa fachada começou a ruir em 1968. O país vivia: • Mobilizações estudantis em várias capitais • Greves operárias em Contagem e Osasco • Produção cultural crítica (teatro, música, cinema, imprensa) • Discursos cada vez mais duros no Parlamento Para o regime, crítica passou a ser sinônimo de ameaça. O discurso do deputado Márcio Moreira Alves, que denunciou abusos das Forças Armadas, foi o estopim político. O AI-5 foi a resposta: não ao discurso específico, mas à ideia de oposição. O que é uma ditadura? O AI-5 responde Uma ditadura não se define apenas pela presença de militares no poder. Ela se caracteriza por alguns elementos centrais, todos reunidos no AI-5: • Concentração absoluta de poder no Executivo • Supressão de direitos individuais • Eliminação dos freios e contrapesos institucionais • Criminalização da oposição • Subordinação da Justiça ao governo O AI-5 reuniu tudo isso em um único texto. Congresso fechado, democracia suspensa O ato autorizou o presidente a fechar o Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. Quando isso ocorresse, o Executivo passaria a legislar sozinho, por decretos. Na prática, a representação popular foi suspensa. O país deixou de ser governado por leis debatidas e passou a ser comandado por ordens. Intervenção irrestrita e fim do federalismo Governadores e prefeitos passaram a poder ser substituídos por interventores nomeados diretamente pelo presidente, sem limites constitucionais. O pacto federativo virou uma formalidade. Estados e municípios tornaram-se extensões administrativas do poder central. Cassações, perseguições e silêncio forçado O AI-5 permitiu: • Cassação de mandatos eletivos • Suspensão de direitos políticos por até 10 anos • Proibição de manifestações políticas Sem direito de defesa. Sem julgamento. Sem prazo para acabar. Intelectuais, professores, jornalistas, parlamentares e lideranças sindicais foram afastados, presos, exilados ou silenciados. O ataque às instituições e ao pensamento crítico Garantias como estabilidade, vitaliciedade e inamovibilidade foram suspensas. Isso abriu caminho para expurgos em: • Universidades • Judiciário • Serviço público • Forças Armadas Foi uma operação de limpeza ideológica. Pensar diferente tornou-se perigoso. Habeas corpus suspenso Talvez o ponto mais grave do AI-5 tenha sido a suspensão do habeas corpus para crimes políticos. A partir daí: • Prisões arbitrárias tornaram-se rotina •A tortura passou a ser prática sistemática • Desaparecimentos forçados foram encobertos pelo Estado Sem habeas corpus, o cidadão deixou de ter proteção contra o poder. Quando a Justiça é proibida de julgar O AI-5 determinou que nenhum ato praticado com base nele poderia ser questionado no Judiciário. O governo tornou-se juiz de si mesmo. Esse dispositivo consagra o núcleo de toda ditadura: o poder que não responde a ninguém. Os “anos de chumbo” O AI-5 permaneceu em vigor até 1978. Nesse período, o Brasil viveu: • Censura prévia à imprensa, à música e ao teatro •Prisões ilegais e centros de tortura •Assassinatos políticos e ocultação de cadáveres • Exílio de centenas de brasileiros Tudo isso amparado por um texto “legal”. Por que lembrar, 57 anos depois? O AI-5 não é apenas um capítulo encerrado da História. Ele é um alerta permanente. Ditaduras não começam com tanques nas ruas. Começam com discursos sobre “ordem”, “moral”, “inimigos internos” e “necessidade de medidas excepcionais”. O AI-5 mostra como o autoritarismo se constrói passo a passo – e como, quando percebido, já costuma ser tarde. Lembrar o AI-5 não é revanchismo.É defesa da democracia.É memória contra o esquecimento.É história contra a repetição. O post AI-5: o dia em que a ditadura tirou a máscara apareceu primeiro em relatos.blog.br.

  4. 7

    João Goulart: o homem, o mito e a verdade (49 anos sem Jango)

    FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) João Goulart deixou o Brasil na madrugada silenciosa de 2 de abril de 1964, não por escolha, mas por fidelidade a um princípio: evitar que o país escorregasse para a guerra civil. Cruzou a fronteira rumo ao Uruguai escoltado por soldados que até horas antes lhe deviam obediência. Foi recebido não como presidente deposto, mas como um homem inquieto, preocupado com o destino de um país que lhe virara as costas. No exílio, primeiro em Montevidéu e depois na pequena Mercedes, na Argentina, Jango viveu cercado de vigilância, espionagem e suspeitas – mas também de melancolia, saudade e uma sensação que jamais o abandonou: a de que sua queda abriu feridas profundas na democracia brasileira. A casa simples de Mercedes, onde morreu em 6 de dezembro de 1976, tornou-se símbolo dessa travessia. Ali, distante das multidões que o aclamaram no comício da Central do Brasil e dos palácios que um dia habitou, Jango enfrentou o vazio político e humano do exílio. Morreu longe da pátria que tentou reformar, cercado de dúvidas que atravessaram décadas – e cuja sombra ainda paira sobre a memória nacional. É impossível compreender o Brasil sem compreender Jango. É impossível compreender Jango sem enfrentar os mitos que distorcem sua história. A seguir, os 10 mitos que ainda moldam – e desfiguram – a trajetória de João Goulart. E a verdade histórica sobre cada um deles. 1. “Jango era comunista” – mito que confunde reforma com revolução Relatórios da CIA e de setores das Forças Armadas classificaram Jango como “simpatizante do comunismo”. Mas esse rótulo refletia a lente deformada da Guerra Fria, que via conspiração em qualquer avanço social. Jango era um reformista democrático. Acreditava que o capitalismo brasileiro só se tornaria forte se mais brasileiros participassem dele. Ao contrário da propaganda da época, as Reformas de Base tinham como objetivo **fortalecer o capitalismo brasileiro**, não substituí-lo. A lógica das reformas era profundamente capitalista: • Reforma agrária → ampliar produtividade e criar milhões de novos consumidores. • Reforma bancária → reduzir juros, democratizar crédito e modernizar investimentos. • Reforma urbana → organizar expansão de cidades e criar segurança jurídica para o mercado imobiliário. • Reforma fiscal → tornar o Estado mais eficiente e reduzir desigualdades extremas que travavam o consumo interno. • Reforma educacional → criar mão de obra moderna para uma economia industrial competitiva. Essas políticas se pareciam muito mais com: • New Deal americano, • Plano Marshall europeu, • e as reformas capitalistas do pós-guerra no Japão e na Itália, do que com qualquer agenda socialista. O problema é que, no Brasil da década de 1960, qualquer redistribuição de poder ou renda era vista como ameaça existencial pelas elites. Por isso, chamaram de “socialista” aquilo que era, na verdade, uma tentativa de fazer o capitalismo funcionar para mais gente. 2. “Era apenas herdeiro do getulismo” – redução que apaga sua originalidade política Jango se formou sob Vargas, mas não foi extensão mecânica do getulismo.Enquanto o trabalhismo varguista buscava equilíbrio entre forças, Jango propôs reformas estruturantes, adaptadas a um Brasil mais urbano e industrial. Ele modernizou o trabalhismo e ampliou sua ambição. Era herdeiro, mas também inovador. 3. “Era emocional, indeciso, fraco” – caricatura usada para justificar o golpe O Jango real era outro: articulador paciente, negociador habilíssimo e avesso ao aventureirismo. Costurou soluções institucionais delicadas – como o parlamentarismo em 1961 – e conduziu debates intensos com firmeza. A narrativa da “fraqueza” foi um instrumento político. Sua prudência diante do risco de guerra civil foi usada, injustamente, como sinônimo de indecisão. 4. “Era inimigo das Forças Armadas” — falso: o conflito não nasceu dele Jango tinha relações consolidadas com oficiais e era um legalista. O atrito não foi pessoal, mas ideológico. Parte das Forças Armadas — doutrinada pela lógica de guerra interna, pela Escola Superior de Guerra e por interesses geopolíticos americanos — passou a ver qualquer redistribuição de poder como ameaça subversiva. Jango não provocou o conflito; foi engolido por ele. 5, “O país estava à beira do caos econômico por culpa de Jango” – mito que oculta o boicote externo deliberado A crise existia – inflação crescente, greves, queda da renda per capita. Mas apresentar esse quadro como resultado exclusivo da “incompetência” de Jango falseia a história. O que os discursos da época escondiam: a) Os Estados Unidos impuseram um boicote econômico ao Brasil A partir de 1962–63, após a aproximação de Jango com reformas estruturais e nacionalizações, Washington passou a bloquear o acesso do Brasil a linhas de crédito: FMI: travou negociações e condicionou empréstimos à adoção de um programa ortodoxo que inviabilizaria as Reformas de Base. Banco Mundial (Bird): suspendeu projetos e novos financiamentos. BID: reduziu drasticamente concessão de crédito e exigiu contrapartidas incompatíveis com o programa social do governo. Esse boicote enfraqueceu a capacidade do Estado de investir, agravou a crise cambial e pressionou a inflação. b) Empresas multinacionais e setores empresariais internos reduziram investimentos Movimento sincronizado com a expectativa de queda do governo, como mostram relatórios da época. c) O cenário era grave, mas amplificado politicamente A inflação era alta, sim, mas setores conservadores e a mídia construíram uma narrativa de “colapso total” para justificar a ruptura institucional. Na prática, a economia brasileira enfrentava uma combinação de: • choques externos, • sabotagem interna, • bloqueio financeiro internacional, • e resistência das elites às reformas. Ou seja: era um caos político que se apresentava como caos econômico. 6. “Jango governava pressionado apenas pela esquerda” – mito que ignora a verdadeira armadilha histórica A imagem de que Jango era “refém dos comunistas” ou “dominado pelo CGT” simplifica um quadro muito mais complexo. Jango estava espremido entre dois radicalismos, e ambos o pressionavam intensamente: a) Pressão pela esquerda • CGT, UNE, sindicatos, PCB e movimentos populares exigiam reformas imediatas; • queriam decretos, desapropriações, aceleradores políticos; • criticavam Jango por ser “lento” ou “conciliador demais”. b) Pressão pela direita • UDN, IPES/IBAD, imprensa conservadora e parte das Forças Armadas demonizavam qualquer avanço social; • atacavam o governo como “caótico” e “subversivo”; • sabotavam negociações e alimentavam clima de ruptura. A armadilha: Jango governava num país dividido: se cedesse à esquerda, seria visto como revolucionário; se cedesse à direita, seria acusado de traição por sua base. Não havia centro, nem moderação possível. Era um Brasil em convulsão, que acabaria implodindo qualquer governo. Jango não caiu por estar “preso à esquerda”, mas por tentar governar entre forças inconciliáveis. 7. “Jango tolerava corrupção” – afirmação sem base factual Não houve escândalos de corrupção relevantes ligados ao presidente. Com fortuna própria e sob vigilância permanente dos seus adversários, qualquer deslize seria explorado. Nunca foi. A acusação de “leniência” é um rótulo vazio, criado para desgaste político. 8. “Caiu porque não soube negociar” – meia verdade que ignora a assimetria do jogo político Jango negociou – e muito – com Congresso, governadores, militares, movimentos sociais e embaixadas. Mas negociava num sistema já capturado pelo golpismo, com pressões internas e externas tornando qualquer acordo insustentável. Não foi falta de habilidade. Foi ingovernabilidade estrutural. 9. “Não resistir ao golpe foi covardia” – um dos mitos mais cruéis Jango recusou a resistência armada porque sabia o que estava por vir: tanques, bombardeios, ruptura nas tropas e a Operação Brother Sam, prontinha para apoiar os golpistas com combustível, munição e logística. Resistir significaria mortos nas ruas. Sua decisão foi um ato de sacrifício patriótico, não de medo. 10, “Sua morte foi natural e ponto final” — enigma que permanece aberto Jango morreu em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, oficialmente de infarto.Mas vivia sob vigilância da Operação Condor, e opositores latino-americanos estavam sendo eliminados por regimes militares coordenados. A exumação de 2013 não encontrou veneno, mas também não dissipou as suspeitas.Sua morte continua sendo um capítulo inconcluso da história brasileira. Para refletir: João Goulart não foi o presidente fraco, o comunista infiltrado ou o desorganizador do país – foi, antes, o líder que ousou tentar modernizar um Brasil preso a si mesmo. E pagou um preço altíssimo por propor que o capitalismo funcionasse para mais do que meia dúzia de famílias. Décadas depois, ainda não compreendemos plenamente o tamanho das forças que o derrubaram – nem o tamanho do homem que tentaram calar. (*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História. Você pode gostar também de Brother Sam: o dia em que os EUA planejaram invadir o Brasil e Caçada humana sem fronteiras: como agia a Operação Condor O post João Goulart: o homem, o mito e a verdade (49 anos sem Jango) apareceu primeiro em relatos.blog.br.

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    Hannah, a mulher que enfrentou o autoritarismo e rejeitou rótulos

    FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Cinco décadas após sua morte, em 4 de dezembro de 1975, Hannah Arendt permanece uma figura que provoca amor, irritação, fascínio e desconforto — não necessariamente nessa ordem. Mais do que uma filósofa, ela foi uma testemunha privilegiada e ferida das convulsões do século XX. Nada em sua vida foi simples. Nada foi linear. Nada foi cômodo. Talvez por isso sua obra continue tão viva. Arendt nunca pertenceu totalmente a lugar algum — e, mesmo quando pertencia, escapava. Uma juventude brilhante – e um amor proibido com Heidegger Nascida em Linden, no então Império Alemão, em 1906, Arendt era ainda uma jovem universitária quando se envolveu com Martin Heidegger, seu professor em Marburg – um dos filósofos mais influentes (e mais controversos) do século XX. Ele, 17 anos mais velho, casado, intelectual em ascensão. Ela, uma estudante judia de 18 anos, talentosa e ardente. A relação, marcada pela intensidade e por longos silêncios, moldou profundamente Arendt – intelectualmente, afetivamente e até moralmente. Décadas depois, seu perdão público a Heidegger, que aderiu ao nazismo em 1933 e se tornou reitor do regime hitlerista, continuou sendo um dos aspectos mais criticados de sua trajetória. Muitos nunca lhe perdoaram esse ponto cego. Outros veem aí justamente a chave de sua humanidade trágica: a incapacidade de reduzir uma vida às suas escolhas políticas, mesmo as escolhas mais sombrias. Arendt nunca foi indiferente à fragilidade humana – nem à sua própria. A primeira fuga: Berlim, 1933 Em 1933, aos 27 anos, Arendt experimenta o poder esmagador dos regimes totalitários de forma direta. Detida pela Gestapo por “atividades suspeitas” – ela coletava material sobre propaganda antissemita –. passou dias sendo interrogada. Liberada por circunstâncias nunca totalmente esclarecidas, entendeu que não teria uma segunda chance. Com a mãe, Marta, atravessou clandestinamente a fronteira para a Tchecoslováquia e dali para Paris. Foi a primeira de suas fugas, mas não a última. Paris: o exílio, a militância e a condição de apátrida Durante oito anos na França, Arendt viveu uma vida dupla: de um lado, a rotina árdua dos refugiados judeus; de outro, uma militância profunda em organizações sionistas, especialmente a Youth Aliyah, que ajudava adolescentes a emigrar para a Palestina. Em 1937, por decisão do governo nazista, Arendt teve sua cidadania alemã cassada. Tornou-se o que mais tarde descreveria como “pária por destino” – uma condição que marcaria toda sua reflexão sobre direitos, pertencimento e cidadania. 1940: o campo de Gurs – e a segunda fuga Com a invasão alemã, a França classificou todos os alemães como “estrangeiros inimigos”. Judia, Arendt foi enviada ao campo de internamento de Gurs, com milhares de mulheres, muitas delas intelectuais, artistas, militantes. Um mês depois, aproveitando a desorganização administrativa do campo, fugiu. Era sua segunda evasão de um regime que se pretendia total. Reencontrou o marido Heinrich Blücher na zona não ocupada, em Montauban. A vida dos dois dependia agora de algo que não podiam controlar: documentos, vistos, milagres burocráticos. A travessia pela Espanha – e a sombra de Walter Benjamin Graças à rede de resgate organizada por Varian Fry, o “Schindler americano dos intelectuais”, Arendt e Blücher conseguiram vistos e seguiram para a Espanha franquista. Depois, alcançaram Portugal. Lisboa era o último porto da esperança europeia. Em maio de 1941, embarcaram para Nova York. O que Arendt talvez nunca superou foi a perda do amigo querido e alma intelectual próxima, Walter Benjamin. Ele tentou seguir a mesma rota clandestina pelos Pireneus. Impedido de entrar na Espanha pelos guardas franquistas e acreditando que seria entregue aos nazistas, suicidou-se em Portbou, em setembro de 1940. Esse trauma ecoa em toda a obra de Arendt. Benjamin era mais do que um amigo: era a voz que nunca se acomodava. O exilado por excelência. A ferida aberta da Europa sem chão. Arendt carregou essa ausência pelo resto da vida. Nova York: renascimento e controvérsias Chegando aos Estados Unidos como apátrida – estatuto que manteve até 1951 –, Arendt reinventou sua vida e sua língua. Ali nasceram seus grandes livros, em especial: As Origens do Totalitarismo (1951): uma obra monumental, analisando nazismo e stalinismo como fenômenos inéditos, marcados pelo terror, pela atomização social e pela destruição do espaço político. A Condição Humana (1958): um relato histórico, antropológico e filosófico da existência humana em sociedade, desde a Grécia Antiga até a Europa moderna. Eichmann em Jerusalém (1963): o livro que a faria odiada e incompreendida por parte da comunidade judaica, devido ao conceito de “banalidade do mal”. Mas Arendt não escrevia para agradar. Escrevia porque precisava compreender. A mulher que recusava rótulos Hannah Arendt nunca aceitou ser chamada de filósofa. Dizia que só filosofava quando precisava. Preferia ser chamada de teórica política — ou, na falta de um termo melhor, simplesmente de observadora do mundo. Era espirituosa, feroz, irônica, apaixonada, e incapaz de ser domesticada.Intelectual sem pátria, mas profundamente fiel às pessoas que amava.Crítica do sionismo estatal, mas defensora intransigente do direito dos judeus à sobrevivência.Crítica do comunismo soviético, mas fervorosa defensora da participação política e da liberdade. Arendt era feita de paradoxos — mas paradoxos vivos. Cinquenta anos depois Cinco décadas após sua morte, Hannah Arendt continua sendo uma das vozes mais necessárias para pensar o presente: as derivas autoritárias, o avanço dos populismos, o culto da mentira, a erosão da verdade e a perda do espaço político. Sua vida – partida, reconstruída, marcada por fugas e renascimentos – é inseparável de sua obra.Seus amores, suas perdas, sua teimosia, sua lucidez dolorosa – tudo isso ainda ressoa. Hannah Arendt viveu exatamente como pensava: recusando a servidão, mesmo a servidão às ideias. Por isso, talvez, continue tão atual. Porque sua vida nos obriga a encarar a pergunta mais inquietante de todas: Como permanecer humano quando o mundo inteiro parece conspirar contra a humanidade? O post Hannah, a mulher que enfrentou o autoritarismo e rejeitou rótulos apareceu primeiro em relatos.blog.br.

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    Caçada humana sem fronteiras: como agia a Operação Condor

    FacebookLinkedinRedditWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) Novembro de 2025 marca meio século de um dos episódios mais sombrios — e ainda insuficientemente conhecidos — da história latino-americana: a Operação Condor, a rede clandestina de perseguição internacional montada por ditaduras do Cone Sul para vigiar, capturar, torturar e eliminar opositores políticos além das fronteiras nacionais. Historiadores e jornalistas conheciam fragmentos dessa história desde os anos 1980. Mas a combinação de arquivos latino-americanos, documentos norte-americanos desclassificados, testemunhos de vítimas e trabalho sistemático de iniciativas como o Plan Cóndor e o National Security Archive permitiu, nos últimos anos, reconstruir o funcionamento interno da máquina do terror. E ao reconstruí-la, um fato se impõe com força: o Brasil esteve mais dentro dessa engrenagem do que o discurso oficial admitiu por décadas. Os 50 anos de Condor são, portanto, um convite para revisitar o passado – e para retirar máscaras ainda usadas no presente. Antes do Condor já havia o voo: o terreno fértil da “segurança nacional” A reunião de 25 a 28 de novembro de 1975 no Chile, liderada pela Dirección de Inteligencia Nacional (Dina) de Augusto Pinochet, não surgiu do nada. Desde o fim dos anos 1960, as ditaduras do Cone Sul já se articulavam numa teia informal: troca de listas de militantes, vigilância de exilados e captura coordenada de opositores que cruzavam fronteiras. Essa cooperação se apoiava no mesmo dogma: a Doutrina de Segurança Nacional, que definia como “inimigo interno” toda oposição real ou potencial — sindicalistas, estudantes, ativistas de direitos humanos, religiosos progressistas, professores, jornalistas. Ainda antes da formalização da Operação Condor, essa cooperação resultou em muitos assassinatos de dissidentes políticos que cruzavam as fronteiras em busca de refúgio e segurança. Foi o caso, por exemplo, do general Carlos Prats, ex-comandante do Exército chileno que, com a queda do presidente Salvador Allende, em 13 de setembro de 1973, refugiou-se em Buenos Aires, Um ano depois, em 30 de setembro de 1974, uma bomba com alto poder explosivo, colocada por agentes da Dina no carro de Prats, matou o general e sua esposa Sofía Cuthbert. Novembro de 1975: nasce o “Sistema Condor” Naquele fim de novembro de 1975, em Santiago, delegações de Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai assinaram a criação de um “sistema de colaboração” de inteligência e operações clandestinas. Os documentos internos descreviam três objetivos centrais: • Troca de informações em larga escala; • Operações conjuntas para captura e interrogatório de opositores no exterior; e • Formação de equipes especiais para assassinatos seletivos em território estrangeiro O Uruguai propôs o nome: “Operação Condor”. “Criar-se-á um sistema de colaboração permanente para neutralizar elementos subversivos que atuem além de nossas fronteiras.” – Ata da Reunião de Santiago (1975) Como a máquina funcionava: fronteiras deixavam de existir A engrenagem Condor transformou a América do Sul numa zona de caça continental. Fase 1: banco de dados comum Listas de exilados, fichas pessoais, fotos, rotinas, endereços, vínculos familiares. O Brasil – graças ao SNI e ao CIEx – foi um dos principais fornecedores de informação. Fase 2: operações conjuntas Agentes de um país atuavam no território de outro. Se um chileno buscava refúgio em Buenos Aires, poderia ser sequestrado ou assassinado por agentes da Dina com apoio argentino.Se um uruguaio vivia em Porto Alegre, poderia ser capturado com anuência policial brasileira. Fase 3: assassinatos seletivos no exterior A fase mais sinistra da operação. O caso mais conhecido: Orlando Letelier, ex-chanceler de Salvador Allende, morto por um carro-bomba em Washington, em 1976 – portanto, fora da jurisdição da Condor. Foi uma ação ousada, mostrando que o terrorismo de Estado patrocinado por Pinochet e por seu braço-direito, o general Manuel Contreras, chefe da Dina, alçava voos mais altos. Cinquenta dias antes da formalização da Operação Condor, um agente da Dina, o norte-americano Michael Townley, e o dissidente cubano Virgilio Paz Romero entraram em contato com neofascistas italianos associados a Stefano delle Chiaie e planejaram o assassinato de Bernardo Leighton, ex-vice-presidente chileno filiado à Democracia Cristã, e sua esposa Anita Fresno. O ataque na noite de 6 de outubro de 1975 não matou o casal, mas Bernardo e Anita sofreram danos permanentes à saúde. O ex-vice-presidente foi submetido a uma cirurgia para evitar a perda da fala, mas sua função cerebral ficou irreversivelmente comprometida, e ele não conseguiu realizar o trabalho que havia idealizado: unir moderados e esquerdistas no exílio numa frente ampla contra a ditadura chilena. Resultado • A repressão deixou de ser nacional.• O medo tornou-se mundial.• O exílio deixou de ser proteção. “O Condor permitirá a eliminação de inimigos fora do território nacional, reduzindo riscos internos e legais.” – Documento da DINA (Chile) Voos da morte: vítimas eram jogadas vivas no mar Embora tenham se tornado tristemente famosos pela atuação da Força Aérea e da Marinha da Argentina, os voos da morte não eram um fenômeno isolado. Eles se encaixavam perfeitamente na filosofia operacional da Operação Condor: matar o inimigo e eliminar qualquer vestígio. Os voos da morte seguiam uma cadeia de eventos: • Prisão ilegal (muitas vezes em outro país, via Operação Condor); • Transferência clandestina para centros de tortura na Argentina. • Interrogatórios extensos e torturas. • Finalmente, “despacho aéreo”: vítimas eram dopadas, despidas e lançadas ao Rio da Prata ou ao Atlântico, vivas, durante voos militares. Os voos eram usados para: • eliminar grandes grupos de presos sem deixar rastros; • ocultar evidências de tortura; • “higienizar” centros clandestinos para novas levas de prisioneiros. A Argentina transformou o sistema em rotina. Estima-se que centenas, talvez milhares, tenham sido mortos dessa forma. “Traslado especial: 12 indivíduos. Administração de Pentothal concluída. Decolagem: 23h45.” – Registro da ESMA (Escola de Mecânica da Armada). Trata-se de uma das formas mais brutais e burocraticamente frias de descrever aquilo que ficou conhecido como os “voos da morte” durante a ditadura argentina. As vítimas: 805 identificadas – e muitas ainda sem nome O National Security Archive estima ao menos 805 vítimas diretas da repressão transnacional, entre sequestrados, torturados, desaparecidos e assassinados. Mas o número real é maior. Muito maior. Militantes, estudantes, sindicalistas, religiosos, familiares de desaparecidos – muitos nunca foram oficialmente registrados como vítimas do Condor, especialmente fora da Argentina e do Chile. O Brasil é o país que menos investigou sua participação. E, talvez por isso, o número de vítimas brasileiras e de vítimas de operações conduzidas com o Brasil segue subestimado. A participação brasileira: do mito da “moderação” ao fato Por décadas, sustentou-se no Brasil a narrativa de que a ditadura de 1964 teria sido “mais amena” e “menos sangrenta” que suas vizinhas. Essa autoimagem serviu para blindar militares e diplomatas – e para esconder fatos desconfortáveis. Hoje sabemos que: 1) O Brasil aderiu à Operação Condor e forneceu tecnologia Documentos do Cone Sul e telegramas dos EUA mostram participação ativa desde 1976. Naquele ano, o Brasil concordou em fornecer equipamentos para a “Condortel”, a rede de comunicações utilizada pelas agências de inteligência dos países envolvidos. Essa rede usava tanto voz quanto teletipo para as comunicações entre os membros. O equipamento fornecido pelo Brasil incluía máquinas de cifra CX-52, de origem suíça, fabricadas pela empresa Crypto AG. Essas máquinas eram semelhantes a antigas caixas registradoras, com teclas, alavancas deslizantes e um disco manual operado após cada entrada. O fornecimento desses dispositivos permitiu que os países membros da Operação Condor compartilhassem informações de forma segura e coordenassem ações de repressão contra opositores políticos. Um aspecto intrigante dessa colaboração é que a Crypto AG era secretamente controlada pela CIA e pela agência de inteligência alemã BND. Isso significava que, ao fornecer os equipamentos de criptografia para a Condortel, o Brasil permitiu, inadvertidamente, que os Estados Unidos e a Alemanha tivessem acesso às comunicações internas da Operação Condor. Essa operação de espionagem, conhecida como “Minerva” ou “Rubicon”, permitiu que a CIA monitorasse as atividades repressivas dos regimes militares sul-americanos. Além disso, o Serviço Nacional de Informações (SNI) era visto como o mais eficiente serviço de informações da região. Isso deu ao Brasil um papel estratégico no fluxo de dados do Condor. “A colaboração com governos amigos deve permanecer confidencial para evitar desgaste internacional.” – Memorando interno do Ministério da Justiça do Brasil 2) Diplomatas brasileiros colaboraram Embaixadas e consulados brasileiros monitoraram exilados sul-americanos e repassaram informações sensíveis a serviços secretos estrangeiros. O caso de sete pessoas com cidadania brasileira desaparecidas após captura na Argentina é o exemplo mais doloroso. Poucos brasileiros conhecem essa história — e ela é crucial para compreender o papel do país na Condor. Entre 1977 e 1978, sete militantes do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), brasileiros natos e uruguaios naturalizados brasileiros, foram presos clandestinamente na Argentina. Seu destino: o mesmo de centenas de outros opositores do Cone Sul: desaparecimento forçado. Esses nomes foram descobertos anos depois graças ao trabalho da embaixada do Brasil em Buenos Aires, que registrou internamente informações sobre os desaparecimentos — mas não alertou as famílias, nem denunciou às instâncias internacionais. O PVP era uma organização de esquerda uruguaia que enfrentava duríssima repressão. Como muitos exilados, parte do grupo buscou refúgio na Argentina — e acabou capturado pelo esquema da Condor. “Confirmada a detenção dos uruguaios-brasileiros. Recomendamos silêncio até orientação superior.” – Telegrama do Itamaraty A Comissão da Verdade classificou a conduta do governo brasileiro como “omissão dolosa que contribuiu para o desaparecimento definitivo dos cidadãos brasileiros”. Ou seja, o Brasil sabia, não agiu e ainda ocultou informações. Esse caso simboliza a participação ativa e a cumplicidade diplomática brasileira no sistema Condor. 3) O caso Celiberti–Díaz é Condor puro Em 1978, em Porto Alegre, uma equipe conjunta Brasil–Uruguai sequestrou Lilian Celiberti e Universindo Díaz, cidadãos uruguaios que buscaram refúgio no Brasil na tentativa de levar uma vida longe da repressão no país vizinho. A operação teve todas as características da Fase 2 da Condor. Foi um dos raros casos denunciados ainda na época. 4) João Goulart era alvo prioritário O ex-presidente deposto em 1964 foi monitorado por Brasil, Uruguai e Argentina. A informação oficial é de que Jango morreu em decorrência de um infarto enquanto estava exilado na Argentina, em 6 de dezembro de 1976. Contudo, há fortes suspeitas de que a morte tenha sido causada por envenenamento como parte da Operação Condor, e essa hipótese levou à exumação de seu corpo em 2013 para investigação. Não foi possível determinar a causa da morte devido à decomposição e a outros fatores, mas a investigação prosseguiu. Um arquivo do CIEx sobre Jango, referente ao período de 1975 a 1976, afirma que sua “atividade política permanece potencialmente desestabilizadora”. A sigla CIEx refere-se ao Centro de Informações do Exterior, um órgão de inteligência e repressão criado pelo governo brasileiro durante a ditadura militar. Tinha como finalidade vigiar, monitorar e seguir os exilados políticos brasileiros que viviam no exterior. Atuava em estreita colaboração com ditaduras do Cone Sul, no âmbito da Operação Condor. “A coordenação repressiva entre Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil parece agora sistemática e institucionalizada.” – Telegrama do Departamento de Estado (EUA), 1976 Os Estados Unidos: o aliado que sabia – e deixou acontecer Os EUA acompanharam a formação da Condor desde o início. Relatórios da CIA e do Departamento de Estado mostram que Washington: • sabia das torturas, sequestros e assassinatos; • treinou parte dos agentes envolvidos; • forneceu capacidade de escuta, vigilância e comunicação; • só recuou quando o assassinato de Letelier em Washington tornou impossível manter a cumplicidade. A doutrina era clara: derrubar o comunismo justificava tudo, inclusive transformar a América do Sul numa zona onde refugiados eram caçados como animais. O legado e a ferida: a impunidade brasileira Enquanto Argentina, Chile e Uruguai julgaram militares da Condor, o Brasil permaneceu preso à sua Lei de Anistia de 1979 — interpretada pelo Supremo, em 2010, como blindagem absoluta aos envolvidos com a repressão política. A Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, em São Paulo, solicitou formalmente que o Brasil pedisse desculpas aos países vítimas da cooperação repressiva. Até agora, silêncio. Os arquivos seguem incompletos. Muitos continuam fechados. E a memória permanece ignorada. Por que falar de Condor hoje? Porque o passado não passou. A repressão transnacional — sequestrar opositores políticos no exterior, pressionar familiares, monitorar exilados — voltou a acontecer no mundo contemporâneo (Rússia, Irã, China, Arábia Saudita). E porque setores políticos brasileiros ainda tentam: • reescrever a história da ditadura; • relativizar crimes de Estado; • usar instituições para perseguir adversários. Estudar o Condor, 50 anos depois, não é uma opção – é um dever democrático. Condor é espelho e alerta A Operação Condor revela o que regimes autoritários são capazes de fazer quando compartilham o mesmo inimigo. Mostra como o exílio deixa de ser proteção quando Estados decidem que fronteiras não valem mais. E expõe, sem anestesia, a participação brasileira — real, ativa, documentada — numa rede internacional de terrorismo de Estado. Cinquenta anos depois, o que Condor nos diz é simples: sem verdade e sem justiça, os fantasmas da repressão continuam à espreita. E a História mostra — sempre mostra — que fantasmas, quando não enfrentados, voltam. (*) DJALBA LIMA é jornalista e editor de Relatos – A Estação da História Você pode gostar também: Agente da morte: as confissões secretas de Michael Townley e Documentos secretos da CIA – o império age na sombra O post Caçada humana sem fronteiras: como agia a Operação Condor apareceu primeiro em relatos.blog.br.

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    Boogie woogie na favela, silêncio no Catete: o Brasil que dançava enquanto o regime caía

    FacebookLinkedinWhatsAppThreads A queda de Getúlio Vargas, 80 anos atrás, inaugurou o padrão brasileiro de ruptura: pactos de elites decidindo o destino do país enquanto o povo dançava ao som da modernidade que chegava do rádio. TRANSCRIÇÃO DO PODCAST DJALBA: 29 de outubro de 1945 – oitenta anos atrás. A ditadura do Estado Novo chega ao fim.E o Brasil assiste à queda de Getúlio Vargas, Mas não como nas deposições épicas dos filmes, nas barricadas, ou nos levantes de massas espontâneos. Aqui, o fim sempre acontece em silêncio. Nos subterrâneos ou nos corredores fechados do poder. Hoje vamos entender por que essa queda não foi apenas o fim de Vargas, mas o início de um padrão que regeria a política brasileira ao longo do século 20. SAMARA: Vargas governava o Brasil havia 15 anos. Era o Estado Novo, um regime autoritário, centralizador, que suspendeu eleições, fechou o Congresso, censurou a imprensa e perseguiu adversários. Mas o mundo mudou durante a Segunda Guerra Mundial. DJALBA: O Brasil estava mandando soldados para lutar contra o nazifascismo na Europa ao lado das grandes democracias. E internamente, aqui dentro, vivíamos sob uma ditadura. Essa contradição explodiu. SAMARA: O cenário não era marcado apenas pela oposição de intelectuais, estudantes, políticos liberais ou militares insatisfeitos. Havia nesse cenário também o outro lado, o reverso da moeda: o Queremismo! Era um movimento híbrido – que vinha tanto das bases populares, sindicatos urbanos, quanto de setores mobilizados por dentro do próprio Estado Novo – e cujo slogan era direto: “Queremos Getúlio!” Era um movimento pela continuidade da ditadura, porque Getúlio era visto por amplas camadas como o “pai dos pobres”. DJALBA: E tem um ponto que explica por que Getúlio tinha essa força popular real. Não era só propaganda. Não era apenas mito construído. Ele se tornou, para milhões de brasileiros, o “pai dos pobres” porque foi no governo dele que os direitos trabalhistas foram consolidados. Em 1º de maio de 1943, Vargas assina a CLT — a Consolidação das Leis do Trabalho — reunindo direitos como jornada de 8 horas, férias, descanso remunerado, proteção do trabalho do menor e da mulher. Muitos desses direitos já vinham sendo reivindicados nas décadas anteriores… mas foi Getúlio quem transformou tudo isso em lei. Para o trabalhador urbano brasileiro, aquilo teve impacto imediato e concreto.E essa memória social não se desfaz fácil. Ou seja: Vargas não caiu sozinho.• Ele tinha rua.• Ele tinha base.• Ele tinha massas. E isso torna o episódio ainda mais singular. SAMARA: Mas, mesmo com apoio popular, o desgaste era insustentável. A cúpula militar, setores civis da elite política e econômica decidiram que o ciclo Vargas tinha terminado. E então chega a cena mais tensa desse capítulo: o aviso final. DJALBA: O general Cordeiro de Farias é encarregado de ir pessoalmente ao Palácio do Catete. Ele leva junto o ministro da Justiça, Agamenon Magalhães. Chegam ao Catete. Entram. Vargas está acompanhado do seu irmão, o coronel Benjamin Vargas. E então, Cordeiro de Farias dá o recado final, como relataria mais tarde no livro “História Vivida” (*). “Presidente, o senhor precisa enviar uma pessoa ao Ministério da Guerra para dizer para onde deseja ir. Não há necessidade de que saia amanhã, nem depois de amanhã. Mas a guarda do Palácio já não é a mesma. E as pessoas que estão aqui, ao saírem, não poderão mais voltar.” Um Getúlio “frio” pergunta: “Então, é uma deposição sem sangue?” E Cordeiro responde: “Sem sangue. A não ser que seus partidários resolvam defendê-lo. Nesse caso, vamos lutar contra eles. Mas a sua pessoa é intangível.” DJALBA: Sem alternativa, Getúlio aceita. O presidente do Supremo Tribunal Federal assume interinamente. E o general Eurico Gaspar Dutra seria eleito depois, em 1946. Mas a história não fecha aqui. Porque Getúlio volta. SAMARA: Ele retorna pelo voto direto em 1951.E enfrenta um ambiente político ainda mais inflamado, dividido, ideológico, hostil e cheio de pressões – internas, externas, empresariais, militares, midiáticas. O segundo governo de Vargas caminha sobre carvão em brasa. DJALBA: Até que em 24 de agosto de 1954 — no auge da crise — Vargas se mata no Catete. O suicídio vira ato político. E muitos historiadores defendem que esse gesto retardou o golpe militar em cerca de 10 anos. SAMARA: E há uma evidência histórica que reforça essa tese: a Novembrada de 1955. Foi quando o marechal Henrique Teixeira Lott agiu para abortar uma nova ruptura institucional com objetivo de impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito democraticamente em 3 de outubro de 1955. Isso foi chamado de “contragolpe preventivo”! Ou seja: O golpe que tentaram fazer em 1954… só se materializaria em 1964. DJALBA: Por que isso importa hoje? Porque a queda de Vargas não é apenas uma página distante do passado. Ela inaugura um modelo de como o poder muda no Brasil. Aqui, não é a insurreição popular que derruba governos.Não é o enfrentamento ideológico cara a cara na rua.Não é o povo que decide o fim de um regime. É o pacto de elites. • 1945 foi pacto de elites.• 1954 foi tentativa de pacto de elites interrompida pelo suicídio.• 1955 foi disputa interna dentro das elites.• 1964, pacto de elites consolidado. E se a gente olha com cuidado…esse padrão não sumiu. Ele só mudou de linguagem.Mudou de “estética”.Mudou de justificativa moral. O Brasil muda de ciclo quando grupos restritos – militares, políticos, empresariais, juristas estratégicos – decidem que o ciclo acabou. E o povo… só é chamado depois para legitimar o que já foi resolvido. No Brasil, a história não costuma mudar no palanque. Ela muda antes:• Na “sombra”.• No subterrâneo.• Onde poucos decidem… e todos pagam a conta. DJALBA: Eu sou Djalba Lima, editor de Relatos – A Estação da História. SAMARA: Eu sou Samara. Você ouviu Relatos – A Estação da História. Se tiver gostado, compartilhe este episódio com amigos. Se quiser comentar, deixe sua opinião em relatos.blog.br SAMARA: Antes de encerrar definitivamente, vale uma última “palavra” para o ouvinte guardar na memória: • 1945 não é só política.• 1945 também é música. O Brasil daquela época era o Brasil do rádio como força dominante.E um ritmo estrangeiro, vindo dos Estados Unidos, invade o país pela porta sonora da Segunda Guerra: o boogie woogie. A canção Boogie Woogie na Favela, sucesso de 1945, mistura essa batida americana com o samba carioca.Naquele mesmo ano em que cai o Estado Novo… o país estava descobrindo um novo ritmo.E dançando — mesmo sem perceber — dentro de um mundo que mudava lá fora. Por isso escolhemos essa música como tema.Porque ela é o retrato sensível de uma transição silenciosa:o Brasil mudava de tempo — e também mudava de som. [Segue trecho da música Boogie woogie na favela.] DJALBA: O autor da música Boogie woogie na favela é Denis Brean. A gravação original mais conhecida é a de Cyro Monteiro, lançada em 1945. {Segue trecho da música] (*) A História Vivida (I) – Lourenço Dantas Mota (coordenador) – Ed. O Estado de S. Paulo O post Boogie woogie na favela, silêncio no Catete: o Brasil que dançava enquanto o regime caía apareceu primeiro em relatos.blog.br.

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    Che Guevara e a Cia: documentos secretos revelam a verdade sobre a execução

    FacebookLinkedinWhatsAppThreads Em 9 de outubro de 1967, Ernesto “Che” Guevara foi executado nas montanhas da Bolívia. A versão oficial inicial falava em “morte em combate”. Era uma mentira conveniente para evitar o escândalo de uma execução sumária. Mas, décadas depois, documentos desclassificados da CIA, memorandos do governo dos Estados Unidos e registros diplomáticos escancaram aquilo que foi cuidadosamente ocultado: sua morte foi um ato político deliberado disfarçado em narrativa militar. Neste post, percorremos alguns desses documentos – disponibilizados por meio de solicitações de transparência e pelo trabalho de arquivos como o National Security Archive – para reconstruir os bastidores e refletir sobre seu significado real para a história latino-americana. Che Guevara (ao centro), ferido e algemado, antes da execução em 9 de outubro de 1967 O diário que se tornou arma política Um dos documentos mais impactantes é o “The Che Guevara Diary”, liberado pela CIA. Ele revela o planejamento, as incertezas e os dilemas da campanha guerrilheira em Ñancahuazú – inclusive tensões com grupos bolivianos, dificuldades de suprimento e escolhas estratégicas arriscadas. Em complemento, o memorando “Highlights of ‘Che’ Guevara’s Diary”, enviado ao presidente Lyndon Johnson via Walt Rostow, sintetiza as partes que a Casa Branca considerou mais úteis à narrativa política da época. Esse tipo de documento mostra como o poder filtra versões: o que entra no arquivo presidencial raramente é tudo – e aquilo que sobra molda a memória oficial. O relatório Helms: execução e encobrimento Nos memorandos desclassificados, há um documento assinado por Richard Helms, então diretor da CIA: Capture and Execution of ‘Che’ Guevara. Ele confirma que Guevara não morreu em combate, mas foi executado “às 13h15, com uma rajada de metralhadora M-2”. Quem acionou a M-2 naquele 9 de outubro de 1967 foi o então jovem sargento Mario Terán, que se ofereceu como voluntário para a missão. Um dia antes, em 8 de outubro de 1967, na Quebrada del Yuro, Che e seus companheiros foram cercados. Ferido nas pernas e sem munição, ele se rendeu. Che teria então dito a seus captores: “Não atire. Sou Che Guevara e valho mais vivo do que morto”. Durante 24 horas, ele permaneceu preso numa pequena escola de adobe, na vila de La Higuera. No dia seguinte, às 11h50, o comando militar boliviano recebeu ordens diretas de La Paz: “Proceder à execução.” Após a execução, o cubano Félix Rodríguez, que trabalhava como agente da CIA e auxiliava os militares bolivianos na caçada ao líder guerrilheiro, confirmou a morte por uma mensagem codificada a Washington: “Che Guevara está morto. Missão cumprida.” É uma afirmação direta que corrige o discurso do governo boliviano da época, que alegava ferimentos de batalha como causa da morte. Outro documento, Circumstances Surrounding Death of Che Guevara, também da CIA, oferece uma breve avaliação do evento com linguagem sigilosa, mas suficiente para apontar que a execução foi uma decisão deliberada. Diz o documento: “O prisioneiro foi eliminado conforme decisão do Alto Comando. A execução visou evitar repercussões internacionais.” Documento escrito por Walt Rostow, assessor da Casa Branca, informa ao presidente Lyndon Johnson: “A eliminação de Che Guevara é uma vitória para o mundo livre.” Esses documentos mudam radicalmente a natureza da narrativa: Che não teria sido “abatido em confronto”, mas eliminado sob ordens de comando militar – uma morte programada mascarada como fatalidade de guerra. Comunicações diplomática: o silêncio planejado Nos registros do Departamento de Estado dos EUA, encontramos telegramas e notas que comentam a versão boliviana da morte de Che. Um desses documentos reconhece que o governo boliviano divulgou a versão de “morte em combate” com base em sua conferência de imprensa de 10 de outubro, mas alertou que essa narrativa “carece de verificação”. Além disso, no volume Foreign Relations of the United States (FRUS), há referência a um telegrama diplomático de 12 de outubro informando que “foi impossível mantê-lo vivo” no local da captura – uma expressão vaga usada para encobrir a ordem de execução. Esses registros diplomáticos compõem a sombra silenciosa nos bastidores do poder: a versão escrita que contraria a versão pública. A presença de Che rastreada pela CIA Antes mesmo da captura, os documentos da CIA registravam com cautela a presença de Che na Bolívia. Um relatório de meados de 1967 classifica a guerrilha boliviana como “inspirada por Cuba” e afirma que Guevara estava “pessoalmente dirigindo” a operação local. Outro telegrama, de campo, informa que em 8 de outubro uma ação militar no leste da Bolívia resultou em “vários guerrilheiros mortos e dois capturados; um deles possivelmente Ernesto ‘Che’ Guevara, ferido e a ponto de morrer.” Esses registros mostram que os serviços de inteligência já o monitoravam de perto e que sua presença não era apenas rumor, mas fato confirmado por diversas fontes. Em abril de 1967, Washington e La Paz firmaram um acordo para treinar um batalhão especial — o Segundo Batalhão Ranger — sob orientação direta da CIA e do Exército norte-americano. A lição amarga para a esquerda latino-americana No interior dos próprios movimentos de esquerda, a morte de Che Guevara provocou um debate profundo e, por vezes, doloroso. Afinal, até que ponto sua estratégia de guerrilha – baseada na chamada “teoria do foco revolucionário” (foquismo) – era realmente viável na América Latina? Essa teoria sustentava que um pequeno grupo armado, instalado em áreas rurais, poderia acender o pavio da revolução e inspirar o povo a se levantar. Mas, na prática, o modelo se mostrou frágil diante das realidades locais: desconfiança e falta de apoio das populações camponesas; fragmentação das esquerdas; e eficiência militar dos governos apoiados por Washington. Com o tempo, estudiosos e antigos militantes reconheceram que Che subestimou a importância das condições políticas e sociais de cada país. Sua ousadia estratégica era admirável, mas o excesso de voluntarismo – a crença de que a vontade revolucionária bastava para mover a história – revelou-se fatal. Em certo sentido, Che foi derrotado não apenas por seus inimigos, mas também pela própria fé na ação heroica como motor absoluto da mudança. O post Che Guevara e a Cia: documentos secretos revelam a verdade sobre a execução apareceu primeiro em relatos.blog.br.

  9. 2

    A anistia que abriu a porta para a democracia. E a que pode fechá-la

    Em 1979, a Lei da Anistia ajudou a abrir caminho para a redemocratização do Brasil, ainda que tenha perdoado até torturadores. Agora, em 2025, surge no Congresso uma proposta para anistiar os envolvidos na tentativa de golpe contra a democracia. As duas anistias não são comparáveis: • uma foi parte de um pacto de transição; • a outra é um projeto de regressão.

  10. 1

    Agente da morte: as confissões secretas de Michael Townley

    FacebookLinkedinWhatsAppThreads Por DJALBA LIMA (*) Documento falso usado por Michael Townley para entrar nos Estados Unidos e matar Orlando Letelier De Buenos Aires a Washington, passando por Roma e Santiago: as confissões do homem que levou o terror da ditadura Pinochet além das fronteiras. Há 52 anos, em 11 de setembro de 1973, o médico e político Salvador Allende pagou com a vida a ousadia de tentar algo raro: construir o socialismo por via democrática. Ao ser eleito presidente do Chile, em 1970, com uma plataforma reformista, Allende despertou a ira de Washington. O então presidente Richard Nixon e o conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger consideraram sua vitória “inaceitável”. A ordem de Nixon ao diretor da CIA, registrada em memorandos oficiais, foi clara: “Façam-no cair. Ainda que custe 10 milhões de dólares. E que o Congresso nunca saiba.” A CIA financiou e estimulou uma série de iniciativas contra o governo Allende: • Greves e sabotagens no transporte e nas minas de cobre (espinha dorsal da economia chilena na época); • Campanhas de terror psicológico, com rumores e manipulação midiática; • Compra de parlamentares, para tentar bloquear projetos do governo; • E, por fim, apoio à conspiração que culminou no golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet. Na manhã de 11 de setembro de 1973, os tanques cercaram o Palácio de La Moneda. Encurralado e com uma metralhadora, Allende resistiu até o fim. A democracia chilena foi destruída e substituída por uma ditadura que transformou o país em vitrine das políticas neoliberais de Milton Friedman — com uma economia aberta ao mercado, mas um povo aprisionado pelo medo. As últimas palavras de Allende, transmitidas pela Radio Magallanes, ecoam até hoje: “Trabalhadores de minha pátria, tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens superarão este momento cinzento e amargo em que a traição pretende se impor. Sigam sabendo que muito mais cedo do que se espera, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores!” Porões abertos Cinco décadas depois, Relatos – A Estação da História entra em parte dos porões da ditadura de Pinochet. Não por especulação, mas pelas próprias palavras de um de seus personagens principais: Michael Townley.   Em 1978, temendo ser eliminado por seus próprios chefes – ou ser extraditado –, Townley escreveu uma série de documentos. Eles ficaram guardados por décadas. Só em 2023, o National Security Archive, nos Estados Unidos, os revelou ao público (veja mais detalhes no tópico Os documentos de Townley). São documentos explosivos, como foi a ação de seu autornos locais por onde deixou o rastro da morte. O ex-agente da DINA escreveu: “É óbvio que eles pretendem usar o fato de eu ser estrangeiro para tentar desviar a responsabilidade do governo chileno e também para me impedir de falar sobre as outras coisas que fiz pela DINA seguindo ordens do general Contreras”. Norte-americano radicado no Chile, Townley trabalhou para a DINA (Dirección de Inteligencia Nacional), a polícia secreta criada em 1974 e comandada pelo general Manuel Contreras. A DINA foi responsável por milhares de prisões ilegais, torturas, desaparecimentos e assassinatos. A história de Townley ultrapassa fronteiras: bombas em Buenos Aires e em Washington, veneno no Chile e no Uruguai, atentado na Itália… É o retrato cru de como o terrorismo de Estado se tornou política oficial. Explosão e morte em Buenos Aires Em 30 de setembro de 1974, o general Carlos Prats, ex-comandante do Exército chileno e ex-ministro de Allende, foi assassinado junto de sua esposa, Sofía Cuthbert, em Buenos Aires. Uma bomba de controle remoto explodiu seu carro quando saíam de casa. O estrondo foi tão poderoso que alguns destroços atingiram o nono andar de um prédio vizinho. Carlos e Sofía morreram – ela, carbonizada. O atentado foi planejado por Pedro Espinoza e Raúl Iturriaga, sob ordens de Contreras e com aval de Pinochet. Townley confessaria, anos depois, ter sido o responsável por montar e instalar a bomba. Esse episódio marcou o primeiro grande atentado internacional da ditadura chilena e inaugurou a estratégia de exportar o terror. O atentado contra Bernardo Leighton Em 6 de outubro de 1975, em Roma, Itália, ocorreu uma tentativa de assassinato contra o democrata-cristão Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e um dos mais respeitados opositores de Pinochet. Leighton, então exilado, foi alvejado junto com sua esposa, Anita Fresno, em um ataque armado. Ambos ficaram gravemente feridos. Anita sofreu sequelas permanentes, perdendo parte de suas capacidades motoras e cognitivas. A operação foi organizada pela DINA, em coordenação com grupos de extrema-direita europeus, dentro da lógica da repressão sem fronteiras. O episódio demonstrou que o braço de Pinochet se estendia não apenas à América Latina e aos Estados Unidos, mas também à Europa.Um tribunal italiano condenou Townley à revelia por esse crime, mas ele não cumpriu a pena. Terrorismo de Estado em Washington Em 21 de setembro de 1976, outro ataque abalou o mundo. Uma explosão no centro de Washington, D.C. matou o ex-chanceler chileno Orlando Letelier e sua colega norte-americana Ronni Karpen Moffitt. Letelier havia sido preso após o golpe, libertado graças à pressão internacional, e exilado nos EUA, onde se tornara um dos principais opositores da ditadura. Às 9h35 daquela manhã de 21 de setembro, uma bomba acionada por controle remoto explodiu sob o carro que conduzia o ex-ministro e seus auxiliares . Letelier morreu a caminho do hospital. Ronni Moffitt, de 25 anos, morreu sufocada pelo próprio sangue após ter a carótida seccionada. Seu marido, sentado no banco traseiro, sobreviveu. Foi Michael Townley quem montou a bomba e a instalou, seguindo ordens diretas de Manuel Contreras. Townley também articulou o apoio de exilados cubanos anticastristas, usados como milicianos terceirizados. Antes de se decidir pela utilização da bomba, Townley considerou usar o gás sarin para assassinar Letelier. A arma química chegou a ser enviada a Washington escondida em um dispensador de perfume Chanel nº 5. Para não chamar a atenção, Townley entrou nos Estados Unidos com documentos falsos em nome de “Hans Petersen”. O atentado é lembrado como o maior ato de terrorismo de Estado já cometido em solo norte-americano. O caso Pablo Neruda Em 2011, a morte do poeta Pablo Neruda, ocorrida em 23 de setembro de 1973, voltou ao centro das atenções. Seu motorista declarou que, na clínica onde o poeta estava internado, um homem identificado como “Dr. Price” teria aplicado uma injeção letal. A descrição física do misterioso “Dr. Price” coincidiu com a de Michael Townley. Exumações posteriores confirmaram que Neruda tinha câncer de próstata avançado, mas análises detectaram também a presença da bactéria Clostridium botulinum, associada a armas biológicas. O caso permanece em aberto, alimentando a suspeita de que Neruda pode ter sido vítima de envenenamento. Gás: o terror invisível Townley também confessou ter ajudado a instalar um laboratório secreto em sua casa em Lo Curro, em Santiago. Ali, junto ao químico Eugenio Berríos, produziu gás sarin, classificado pela ONU como arma de destruição em massa. Esse projeto, conhecido como “Andrea”, foi usado em assassinatos quase imperceptíveis. Entre as vítimas estão: • Renato León Zenteno (1976), advogado conservador crítico ao regime; • Manuel Leyton (1977), cabo do Exército e agente da própria DINA; • Carlos Guillermo Osorio, diplomata ligado à emissão de passaportes falsos; • Carmelo Soria, diplomata espanhol que trabalhava na CEPAL: capturado, torturado, envenenado e abandonado num carro. Vítima do próprio veneno Décadas depois, descobriu-se que o próprio Eugenio Berríos foi vítima de uma “queima de arquivo”: levado clandestinamente ao Uruguai em 1991, ele conseguiu fugir e chegar a uma delegacia de Parque del Plata em 15 de novembro de 1992 para denunciar que estava sendo mantido em cárcere por militares chilenos e uruguaios. Mas foi devolvido aos seus sequestradores e assassinado pouco depois. Seu corpo só seria encontrado em abril de 1995, semienterrado na praia de El Pinar, perto de Montevidéu. Em decisões de 2010 confirmadas pela Suprema Corte do Chile em 2015, 14 militares chilenos e uruguaios foram condenados por associação ilícita, sequestro e homicídio, em um episódio reconhecido como um dos últimos atos da Operação Condor. Além de ter conduzido o Projeto Andrea (produção de gás sarin para a DINA), há alegações – reportadas em 2006 e não comprovadas pela Justiça – de que Berríos teria produzido ‘cocaína negra’ para exportação, em esquema com o envolvimento de altas figuras do regime de Pinochet. Contreras, Townley e a sombra da impunidade Esses episódios – bombas, venenos e atentados transnacionais – revelam a face mais sombria da ditadura Pinochet: o terrorismo de Estado transformado em política oficial. Manuel Contreras, chefe da DINA, foi condenado a mais de 500 anos de prisão por crimes contra a humanidade. Morreu em 2015, aos 86 anos, cumprindo pena em Punta Peuco, prisão militar construída durante seu comando. Foi mantido com a patente de general até a morte. Michael Townley, por sua vez, nunca cumpriu pena no Chile. Após colaborar com a justiça norte-americana, vive até hoje sob proteção nos EUA, no programa de testemunhas. Os documentos de Townley Em março de 1978, acuado pela possibilidade de ser silenciado por seus próprios chefes, Michael Townley redigiu um documento intitulado “Confissão e Acusação”. Nele, deixou uma mensagem inequívoca: “Se houve razão suficiente para abrir este envelope, acuso o governo do Chile pela minha morte.” Townley sabia que, cercado pelo FBI por seu papel no assassinato de Orlando Letelier e Ronni Karpen Moffitt, em setembro de 1976, era também alvo de desconfiança dentro da própria ditadura a que servira. Se fosse encontrado morto, escreveu, a responsabilidade deveria recair sobre o general Manuel Contreras, comandante da DINA. Mais do que isso: nomeou colegas da própria agência como prováveis executores do “crime de seu assassinato”. O documento fazia parte de uma série de relatórios dramáticos que Townley produziu em um gesto calculado: dissuadir seus superiores de matá-lo e, ao mesmo tempo, oferecer às autoridades norte-americanas um mapa detalhado da criminalidade da polícia secreta de Pinochet. Um segundo manuscrito, intitulado “Histórico das Atividades na DINA”, registra sua carreira de quatro anos como assassino a serviço da ditadura. Nele, Townley descreve como foi recrutado em 1974, instalado em uma mansão no bairro nobre de Lo Curro, em Santiago, e incumbido de montar um laboratório de guerra química em seu porão. Também revela que foi nomeado para liderar a Agrupación Avispa (Grupo Vespa), unidade especial subordinada à Brigada Mulchén, “dedicada à eliminação” de opositores do regime. Nesse histórico, cita o uso do gás sarin, produzido artesanalmente em sua casa, para assassinar chilenos. Em um terceiro texto manuscrito, “Relato dos Eventos da Morte de Orlando Letelier em 21 de setembro de 1976”, Townley detalha passo a passo a missão secreta de Washington. O atentado, segundo ele, contou com apoio do Condor Vermelho, a rede da Operação Condor que articulava serviços de inteligência das ditaduras do Cone Sul. As ordens, escreveu Townley, eram explícitas: “Encontrar a casa e o local de trabalho de Letelier e contatar o grupo cubano [de exilados violentos que trabalhavam para a DINA] para eliminá-lo, ou usar gás sarin, ou orquestrar um acidente, ou, no final, por qualquer método – mas o governo do Chile queria Letelier morto.” Esses documentos, mantidos em segredo por décadas, vieram a público somente em 2023, publicados pelo National Security Archive em Washington. Suas páginas confirmam, com a frieza da confissão, que a ditadura de Pinochet transformou o assassinato político em política de Estado, levando bombas e venenos muito além das fronteiras chilenas. A prisão de Pinochet em Londres Em outubro de 1998, enquanto se recuperava de uma cirurgia em Londres, Augusto Pinochet foi surpreendido por um mandado internacional de prisão expedido pelo juiz espanhol Baltasar Garzón. O pedido baseava-se em acusações de tortura, sequestro e crimes contra a humanidade, praticados durante sua ditadura. Pinochet ficou detido em uma residência vigiada por mais de 500 dias, em meio a uma batalha judicial que mobilizou governos, diplomatas e advogados em todo o mundo. Embora tenha sido libertado em 2000 por razões médicas e autorizado a regressar ao Chile, o episódio foi histórico: pela primeira vez, um ex-chefe de Estado foi preso em aplicação do princípio da jurisdição universal para crimes de lesa-humanidade. A prisão em Londres abriu caminho para novos processos contra ditadores e marcou simbolicamente a erosão da impunidade internacional. Pinochet morreu em 2006, aos 91 anos, em Santiago do Chile. Em 2004, uma reportagem do Washington Post revelou que as investigações do Senado dos Estados Unidos nas fontes financiamento ao terrorismo descobriu milhões de dólares mantidos secretamente por Pinochet no Riggs Bank, conhecido como “o banco dos presidentes” e envolvido em uma série de escândalos de lavagem de dinheiro. Lição da História: o preço é alto As confissões de Michael Townley não são apenas ecos do passado. Elas são advertências vivas – advertências sobre o que acontece quando uma nação aceita de olhos fechados a intervenção estrangeira como algo positivo. No Chile, a democracia foi sufocada com apoio explícito dos Estados Unidos. E, no lugar dela, ergueu-se um dos regimes mais brutais do mundo, marcado por torturas, desaparecimentos e exílios. E. traço comum em regimes autoritários, envolvido em escândalos de corrupção. A lição do Chile é clara: quando a soberania nacional é rifada em nome de um projeto de poder, quem perde não são apenas os governantes depostos. Quem perde é o povo inteiro. Perde a liberdade, perde a voz, perde o direito de decidir o próprio destino. Que a história de Salvador Allende e das vítimas do terrorismo de Estado sirva como alerta.O preço de aceitar tutelas externas e líderes messiânicos é sempre alto demais. (*) DJALBA LIMA é jornalista; O post Agente da morte: as confissões secretas de Michael Townley apareceu primeiro em relatos.blog.br.

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