PODCAST · arts
Prelo
by Tiago Novaes
Prelo apresenta os recursos e reflexões para que escritores possam construir uma disciplina autoral, escrever o seu livro e publicar da melhor maneira possível. Se você nutre o desejo de escrever uma obra de ficção ou não-ficção: um romance, um livro de contos, uma peça de jornalismo literário, um ensaio, uma saga distópica, a narrativa de uma viagem, uma obra infantojuvenil ou um projeto autoficcional – ou se já publicou uma obra e gostaria de sanar as lacunas de sua formação –, você está no lugar certo. Prelo é um podcast quinzenal com o escritor e professor de criação literária Tiago Novaes, autor de uma variedade de livros, finalista dos maiores prêmios literários e vencedor de uma série de bolsas de criação. Combinando entrevistas com grandes escritores, editores e críticos, reflexões pessoais, leituras e experiências concretas na literatura, Prelo oferece os caminhos para que você possa vencer as bolhas do mercado editorial, compreender os segredos da Escrita Criativa e construir
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O Caos Criativo
#139 – Muitas vezes, a nossa miséria nasce de não podermos corresponder a ideais muito elevados que estipulamos para nós mesmos. Do que a vida deveria ser, de como os outros precisam se portar, de uma aura impossível que o nosso ofício dos sonhos precisa carregar. Nesses últimos tempos, tenho trabalhado ativamente em um livro, que – espero – deve ficar pronto no início do segundo semestre. O momento de costura da escrita é o de um sentimento oceânico. Sinto muito prazer em dialogar internamente com as experiências e leituras de que trato no livro. A escrita é uma terapia, para mim, uma meditação. E por isso mesmo, nesse momento, tenho me permitido prescindir tanto de meditação quanto de terapia.Mas as condições da escrita não poderiam ser menos ideais. O percurso tampouco é o de uma linha reta. Não seria a primeira vez que descobrimos que o caos pode ser produtivo, e que algumas restrições podem oferecer um ótimo enquadre para a criação.Toda história guarda uma segunda – a de como a primeira foi contada. O making off. A produção. O processo. A cozinha da escrita.No novo episódio de Prelo, procuro desconstruir os ideais que podem estar no caminho de um encontro feliz com o próprio projeto literário.
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Como estruturar o seu livro
Clique aqui para preencher o formulário e se candidatar a uma conversa sobre a Mentoria Ciclos: https://form.typeform.com/to/xynEAKmm#138 – Pouca coisa no trabalho da escrita é mais mal compreendida do que a estruturação de um livro. Muita gente confunde estrutura com supressão de liberdade criativa. Toda arte tem o seu enquadre. Teatro, dança, pintura. A escrita não é diferente.Mesmo que um ator deseje levar o seu teatro para as ruas, dificilmente irá considerar o palco um constrangimento a sua arte.A estrutura de um livro é o palco do escritor. É a sua tela em branco. É como a cidade para o arquiteto. Muita gente se perde na escrita do próprio livro porque desperta todo dia sem saber o que vai escrever. O livro vai para qualquer lado e perde a forma quando não sabemos distinguir a flauta do capricho da música do destino. E é a estrutura preliminar que irá apontar o caminho.Se você…🛎️ Tem dificuldade para estruturar o seu livro;🛎️ Costuma se perder na hora de escrever;🛎️ Retoma o projeto indefinidamente; 🛎️ Sente que não sabe como desenvolver um projeto autoral;... recomendo que assista a este novo episódio de Prelo.
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O que fazer com os clássicos?
#136 – Você não leu Guimarães Rosa nem Proust. Perdeu a aula de Homero. Não ouviu falar em Tucídides. Talvez tenha lido é um ensaio de Schopenhauer afirmando que o escritor, se é de verdade, mesmo, precisa ser afiado em latim. Os livros pendem sobre a sua cabeça. Os clássicos. Obras vultuosas, de autores categóricos, peremptórios, aparentemente tão certos de si. Agora um tanto calcificados pela poeira que acumulam. Eis que chega a vida adulta, e as lembranças desencontradas dessa memória de leituras sem método (Drummond se repreendia por ter lido sem método; mas que método, Carlos?). E você quer escrever. Palmilhar a vereda das palavras. Voltar a cantar a língua materna. Dar nome a experiências anônimas. Mas avança em marcha insegura; carregado, com medo da picada de aranha, de cobra, do erro, do clichê, do "não saber que não sabe". A pergunta: se quero escrever, devo ler os clássicos? Quais? De que maneira? Esse constrangimento diante da literatura será infundado? Que a leitura é a base da escrita, já sabemos. Mas de que modo? Como ler os clássicos? O que fazer com eles? Esse é o tema do novo episódio do Prelo.
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Como Transformar uma Tese em um Livro – Os Três Maiores Equívocos
#135 – Como transformar um projeto que está guardado na gaveta — uma tese, uma dissertação, um ensaio acadêmico ou mesmo anos de prática profissional — em um livro capaz de alcançar leitores fora da universidade?O que precisa mudar quando um texto deixa de falar apenas para especialistas e passa a dialogar com o público amplo?E por que tantos autores altamente qualificados tropeçam justamente nesse momento de transição — quando tentam transformar conhecimento sólido em um livro vivo, curioso, capaz de ampliar horizontes e despertar perguntas no leitor?Neste episódio, vamos falar sobre os equívocos mais comuns que aparecem nesse processo: erros de forma, de estrutura, de tom. Erros derivados de anos de escrita acadêmica. Se você quer se libertar de uma linguagem acadêmica, do formato impessoal e reiterativo da validação institucional, e quer entender a lógica das publicações de não ficção – biografias, ensaios, divulgação científica – não perca esse papo. :)
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Como a I.A. pode contribuir para a produção literária?
Neste episódio de Prelo, vamos falar sobre os princípios da I.A. Muita coisa mudou nesse últimos anos e ela tem parecido, cada vez mais, uma ferramenta incontornável. Você abre o seu e-mail, o seu processador de texto e você se depara com a mensagem: "Você não quer que eu escreva para você?" ou "Você não quer que esse recurso seja ativado?". Parece que, da troca de mensagens à escrita de e-mails e elaboração de redações e trabalhos, a inteligência artificial tem sido insidiosamente presente. Em que medida isso é positivo? Em que medida isso não é nada positivo e um elemento muito deletério para a produção textual?Eu passei os últimos seis meses usando a inteligência artificial para gravar esse episódio e te mostrar como esse recurso pode te ajudar a escrever o seu livro.
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A Psicologia da Criação
Neste episódio de Prelo, você vai aprender a entender e superar bloqueios criativos e resistências internas.Estes medos enraizados: o que são? Do que se alimentam? Como aprender a ignorá-los? Como NÃO revisar os seus originais com as lentes da autodepreciação?Na primeira aula desta semana, conversamos sobre o trabalho criativo e o percurso autoral. Afinal, um romance é um meio de denunciar, de mergulhar num mundo próprio, de fomentar a própria voz e estimular a riqueza da linguagem.Para forjar um livro é preciso acreditar que ele vai existir um dia. É preciso confiar neste poder de materialização do que ainda não tem forma.Os livros, afinal, nascem de algo tão impalpável quanto um anseio. De um lugar impreciso, vago, do que os psicanalistas chamam de "umbigo do sonho". Houve uma vez em que Ulisses não existia. Ou Crime e Castigo. Hoje, não concebemos o mundo sem eles, e nem imaginamos que algum dia eram apenas anotações num caderno, um modo de sobrevivência.Estas escritoras, estes escritores tiveram a generosidade de perceber que as ideias não bastam (a biblioteca dos livros inexistentes está cheia de boas ideias assim como o inferno está repleto de boas intenções).E mais: entendendo a psicologia da criação e as necessidades que a leitura de um livro satisfaz, você aprenderá recursos para construir uma obra irresistível e como capturar a atenção dos seus leitores.Já te aconteceu de não conseguir largar um filme ou um livro, mesmo que não esteja gostando tanto dele?Nesta conversa, vamos superar a dicotomia existente entre improvisar o livro ou estruturá-lo. O que significa estruturar um romance, e qual é o espaço que deve ser deixado para o acidente feliz da criação.E HOJE, quinta-feira, 15 de janeiro, temos a terceira aula da Semana do Romance! Não perca!
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Projeto: Um Romance em 2026
#132 – No novo episódio de Prelo, tenho um exercício para você. É a primeira aula para a escrita do seu romance em 2026. São 12 perguntas reflexivas que você deve se fazer para se preparar para escrever o seu melhor livro no ano que começa. É um tempo para sonhar. Se você escrevesse ou seu livro, o seu romance, nos próximos meses, como será que a vida seria para você? Como você imagina este cenário?Quão motivada, quão motivado você está para aprontar isso?O que isso faria para a sua vida? O que está no caminho? Qual é o obstáculo?
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Melhores Leituras de 2025
#131 – Já reparou que o tempo se dilata quando lemos? Por aqui, 2025 teve cinquenta meses, e resolvi dividir com você algumas das leituras mais intensas e absorventes que fiz desde o remoto mês de janeiro. Indico as melhores porque sei que, para escrever bem, precisamos da companhia de bons livros. E para seguirmos motivados, nada como leituras que orientem caminhos. Foram histórias em quadrinhos, ensaios, romances. Clássicos e contemporâneos. Não me pautei muito em categorias, nacionalidades prévias. Eu me servi do que gostava. Segui o apetite.Se quiser, preparei aqui uma pequena aula onde me debruço sobre algumas dessas leituras.E você? Quais foram as suas melhores leituras de 2025?
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As Etapas da Publicação de um Livro
#130 – Publicar não é uma ciência exata. Mas suas variáveis são mais ou menos previsíveis. Cada livro que escrevi cumpriu um caminho distinto no mundo das editoras, percorreu algumas etapas específicas. Publicar por uma casa editorial pequena não é o mesmo que lançar o seu livro por uma editora grande, ou ter a sua obra divulgada pelo Sesc ou pela Funarte. Nesses mais de 20 anos publicando, percorri diversos caminhos. E posso dizer que, apesar das especificidades, existem algumas etapas necessárias – e outras altamente recomendadas – pelas quais você deverá passar. Antecipar essas etapas e saber o que esperar pode te ajudar muito na hora de fazer boas escolhas e garantir que seu livro seja bem conduzido e bem editado. No novíssimo episódio de Prelo, conto para você as etapas da publicação.
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Biomas Afetivos: Leituras de Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Augusto de Campos – uma conversa com Reynaldo Damazio
#129 – “É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor da separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é a loucura do raciocínio – mas agora quero o plasma – quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena.”Essa é a abertura de Água Viva, da Clarice Lispector, um dos poucos livros da autora que felizmente ainda não li. Ia copiar só um trechinho, mas deu vontade de percorrer o parágrafo todo. Imagine o que foi ler algo assim na adolescência, o abalo tectônico que representou na formação da personalidade, ainda uma argila úmida. Clarice, toda grande literatura formalmente disruptiva, abre em nós uma fissura no tecido discursivo, na viscosidade dos lugares comuns, nos discursos motivacionais e técnicos, na arenga ameaçadora das escolas, no sussurro neurótico das novelas domésticas, no esforço sempre vão dos adultos de domesticar a perturbação selvagem daqueles anos perigosos. Foi o meu caso, quando li “Amor”, quando li “Perto do Coração Selvagem”, que Clarice escreveu quando tinha apenas 17 anos. E foi também o que aconteceu com o meu amigo Reynaldo Damazio. A palavra nunca mais seria a mesma. O Reynaldo – poeta, editor, jornalista, coordenador de literatura na Casa das Rosas, em São Paulo, e colaborador das formações do nosso canal, Escrita Criativa – foi iniciado por Clarice Lispector. E por Carolina Maria de Jesus. E por Augusto de Campos. E desde então uma verdade profunda sobre a poesia acompanhou a sua vida e a sua própria escrita. O Reynaldo é também uma das minhas amizades mais antigas na literatura. É o grande amigo na viagem a Alto Paraíso que retratei em “Divã: jangada”, terceiro ensaio de “Baleias no Deserto”. É dele o ensaio no fim de "Documentário", que a Funarte publicou. São vinte anos de prosa, leituras e colaborações. E nesta semana, quero convidar você a sentar-se comigo e com o Rey em um papo sobre como os anos inaugurais da adolescência ajudaram a compor o sujeito que lê e que escreve.Reynaldo Damazio nasceu em São Paulo. Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela USP, com especialização em publicidade e gestão cultural; é editor, crítico literário, tradutor, curador de eventos literários, mediador de oficinas de criação e supervisor de conteúdo e formação nos museus Casa das Rosas, Mário de Andrade e Guilherme de Almeida. Autor de O que é criança (Editora Brasiliense), Nu entre nuvens (Ciência do Acidente), Horas perplexas (Editora 34), Trilhas, notas & outras tramas (Dobradura Editorial), Crítica de trincheira: resenhas (Giostri Editora) e Movimentos portáteis (Kotter Editorial), entre outros. Criou em 2012 o programa formativo Clipe (Curso Livre de Preparação de Escritores), na Casa das Rosas, que coordena até hoje, e foi co-curador das exposições “Um corpo estanho: Centenário de publicação de A metamorfose”, em 2015, “As ideias concretas: Poesia 60 anos adiante”, em 2016, e “Barroco em trânsito”, em 2017, todas na Casa das Rosas.
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O que tem funcionado no mundo da publicação?
#128 – Muita coisa mudou no mundo editorial nos últimos vinte anos.Por conta de um certo saudosismo ou de uma certa romantização, temos dificuldades em enxergar isso.Práticas de divulgação, debate e publicação praticamente se extinguiram. O papel do jornal e da livraria diminuiu, as editoras se multiplicaram. Aquilo que funcionava há vinte anos não funciona mais.Ao mesmo tempo, muitas possibilidades surgiram no universo da publicação, incluindo aí a autopublicação, o financiamento coletivo, o print-on-demand, a criação de uma plataforma autoral. Autor e leitor têm a chance de manter um diálogo regular que, há vinte anos, seria impensável.Se é verdade que os nossos esforços devem se concentrar na própria obra — na criação, na prática regular da escrita — tampouco podemos ignorar o mundo em que estaremos lançando esse livro e os meios pelos quais isso é feito.É esse o tema do novo episódio de Prelo: o que tem funcionado no mundo da publicação.Vamos conversar sobre:√ Os recursos e possibilidades da publicação tradicional e da autopublicação, e por onde devo seguir com o meu próximo livro;√ Por que a autoria — estilo, subjetividade, histórias particulares — será cada vez mais valorizada no mundo da IA;√ Os recursos que utilizei em Baleias no Deserto para vender centenas de exemplares na pré-venda;√ Como as nossas primeiras leituras pautaram o nosso caminho na literatura e no modo como enxergamos a escrita hoje.Um excelente episódio!
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O escritor fora: crônica da mudança e lembrança de Roberto Bolaño
#127 – Eles estão por fora. Não participam. Fazem questão de não saber. Estão envolvidos com suas próprias coisas. Absorvidos por sua militância particular. São indiferentes à polêmica mais circunstancial, ao sobe e desce dos palanques, dos congressos do ofício. “Você viu?” “Soube do que disse ele, do que disse ela?” Não, não sabem. Você vai ter de contar. As colunas do jornal? O lançamento blockbuster, aquele debate em que todo mundo irá se envolver por vinte e cinco dias corridos? Ele ouviu falar qualquer coisa, sim. Você lhe conta, ele opina. Segue, e é isso.E esquece do assunto, assim como você se esquece dele. Uns constroem devagar sua biblioteca. Veem os pais envelhecer. Participam dos aniversários. E há esses outros, dos quais temos poucas notícias.Foi sua escolha, afinal. Ele partiu. Pode voltar uma, outra, uma infinidade de vezes. Mas nosso amigo, nossa amiga, parecem não se contentar com a novela cotidiana dos conhecidos e familiaridades. É uma escolha difícil: afinal, a trama social é o que nos sustenta. É o outro que nos oferece os parâmetros. O espaço-tempo, são os outros que ancoram. Eles talvez vivam em um tempo sem tempo, em um lugar sem lugar. Quem sabe?De quem estamos falando? Ora.É do fotógrafo que passa as noites fumando, resmungando em mandarim, jogando mahjong e tirando fotos dos becos escuros de Xangai. É a bióloga que investiga o comportamento dos fungos que nascem depois dos incêndios em Oaxaca. É o músico do cruzeiro transatlântico, que aprende a viver sobre as águas, e que se sente só apenas quando volta para casa. Estamos falando das escritoras e dos escritores que não participam do meio. Que estão em outro lugar, fazendo um bolo e tomando um café em um sítio, cuidando da sua horta. Vão começar agora a leitura de um livro que descobriram em uma livraria de bairro e do qual quase ninguém ouviu falar. Estou falando de escrita, de viagem, de algo maior que a literatura.
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Como se Faz um Podcast: Jornalismo Narrativo & Pesquisa – Uma Conversa com Fábio Corrêa
#126 – Pouca gente sabe que, ao longo de dois meses neste ano de 2025, contei com a ajuda de um excelente jornalista para a preparação deste Prelo. E digo que já estava ficando mal-acostumado quando Fábio Corrêa disse que seu projeto pessoal de podcast tinha sido selecionado para financiamento e subsequente apresentação em nenhum outro lugar senão na Deutsche Welle (DW), emissora internacional de rádio, TV e internet da Alemanha, com foco em jornalismo independente e programação multicultural.O Fábio foi para a Alemanha e a gente não se falou mais, até que chegou ao meu conhecimento a notícia do lançamento do primeiro episódio de O Pulo de Miguel. Semana passada, saí para correr em um parque aqui perto, baixei o episódio e, trinta minutos mais tarde, ainda meio sem fôlego por conta da corrida, estava deixando uma mensagem para o Fábio, convidando-o para uma conversa. Para a minha – para a nossa – alegria, o Fábio topou conversar sobre a história do programa, sobre como se monta um podcast narrativo, os meandros do trabalho de pesquisa e as várias surpresas que encontrou pelo caminho.O Pulo de Miguel é um programa de seis episódios, no formato jornalístico, mas também muito autoral. Porque o Fábio, além de jornalista, é escritor, músico, criador de HQs. E a história que ele encontrou – a desse jovem brasileiro que saltou o Muro de Berlim, foi espionado pela Stasi e morreu na Índia aos 30 anos, em condições jamais inteiramente esclarecidas – é desses achados brilhantes que viram um tesouro nas mãos de um bom narrador.Clique aqui para escutar O Pulo de Miguel – DW Revista Fábio Corrêa é jornalista, nascido em 1985 em Belo Horizonte. Formou-se em jornalismo pela PUC Minas, em 2007. Viveu em Berlim entre 2008 e 2013, onde concluiu o mestrado em Antropologia pela Freie Universität. Desde 2015, é colaborador da DW Brasil, com sede em Bonn. Trabalhou nos jornais Estado de Minas e O Tempo, ambos de BH, e já publicou reportagens em diversos veículos, como piauí, BBC Brasil, Repórter Brasil, Folha e O Globo, no Brasil, e nos berlinenses Der Tagesspiegel e taz. É também fellow das fundações alemãs IJP e Heinz-Kühn, onde foi bolsista e jornalista convidado.Esteve à frente do podcast O Tempo Hábil, do jornal O Tempo, e colaborou em 2025 com O Prelo, do Tiago Novaes. Acaba de lançar a série de podcasts "O Pulo de Miguel", em seis episódios, pela DW Brasil, sobre a história do brasileiro que pulou o Muro de Berlim ao contrário. Mas Fábio Corrêa também se aventura paralelamente no mundo artístico. É músico, compositor e produtor. Em 2021, produziu e lançou o álbum 'Dilúvio/Deserto', de suas composições, pela banda Dada Hotel, na qual assume os vocais, guitarras e teclados. Já com escritor, publicou, em 2022, pela editora Pantagruel (independente) e em parceria com o artista gráfico Fabiano Azevedo, o HQ "O Último Táxi", cujo roteiro escreveu. "O Último Táxi" é uma ficção distópica passada em uma Belo Horizonte do futuro, na qual vive o protagonista, que se depara com um rádio que toca músicas - e notícias - do passado.Clique aqui para escutar O Pulo de Miguel – DW Revista
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Impulsos Limitantes: Entendendo os Padrões que Destróem o que Estamos Tentando Construir
#125 – Pensar não é fácil. Muitas coisas entram no caminho. Nosso ego. Nossa bile. A convenção social. A inércia. Tudo entra no caminho.Pensar não é fácil. Obedecer é fácil. Dizer sim quando todos estão dizendo sim. E no entanto, para sermos autores, precisamos responder pelo que dizemos.Não é à toa que muitos autores reagiram de formas que pareceram incompreensíveis aos seus pares em determinado tempo. Quem se lembra dos silêncios desconfortáveis de Clarice numa entrevista? Quem se lembra da reação de Doris Lessing quando a imprensa a aguardava na frente de casa, para anunciar a ela que ela havia recebido o Prêmio Nobel? Autores não podem evitar. Porque os bons, os verdadeiramente bons, pensam mais, e por mais tempo, nas coisas que os outros só reproduzem. E quanto mais tempo você olha o verde, mais ele irá parecer com o vermelho.Quanto mais tempo você come o doce, mais demarcadas as notas salgadas. O que faz um bom livro é o pensamento que o engendrou. E para pensar, precisamos sobrelevar os padrões às vezes viscerais que nos arrastam, que desfazem o que estamos tentando fazer, que nos boicotam impulsivamente.
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Massa Crítica: A Escrita Inevitável
#124 – Há um momento em que a escrita se torna inevitável.Em que o esforço para escrever se dissipa no hábito.Não é que o processo se torne automático. Enquanto gesto, ele será sempre ativo. Ele preservará sempre a sofisticação, o cuidado necessário para se desenvolver. Ele continuará dinâmico, animado por suas próprias metamorfoses.Mas algo se dá, e é quase como se o autor, a autora, fossem interlocutores da obra — não donos, mestres ou proprietários.Dirigimo-nos à nossa criação com uma pergunta, uma sentença. E a obra nos responde.Há um momento em que a escrita não se torna apenas possível.Ela se torna inevitável.No novo episódio do Prelo, refletimos sobre o instante em que a escrita abandona o estágio de mera possibilidade. Como reconhecer esse ponto de virada? E o que ele revela sobre o processo criativo?
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Realidade Psíquica: O Inconsciente Criador e as Viagens no Tempo do Escritor de Ficção Científica Philip K. Dick
#123 – Você encontra nas redes sociais a referência a um livro do qual nunca ouviu falar. O título, Como construir um universo que não se desfaça dois dias depois, te deixa completamente encantado. De algum modo, ele conversa com aquilo que você tem estudado, pensado, elaborado dentro e fora de sua prosa. Dois dias depois da chegada do livro à sua casa, você tem um sonho. Nesse sonho, você está construindo uma montanha-russa, que é parte integrante de uma formação sua sobre escrita. Embora publicado na década de 1970, o livro fala com uma clareza assombrosa do mundo que você e eu estamos vivendo. O que é a realidade? O que é um ser humano autêntico? São as perguntas do autor, que escreveu também Ubik, Minority Report, O Homem do Castelo Alto, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (que virou “Blade Runner” no cinema). Você lê o pequeno ensaio, o livrinho que cabe na palma da sua mão. Você o relê alguns dias depois. E à medida que o tempo passa, tudo o que está no livro começa a ganhar vida.No novo episódio de Prelo, converso sobre a realidade psíquica e ficcional, a lucrativa fábrica de realidades falsas do nosso tempo, e de como a ficção guarda segredos que fariam inveja a qualquer Tirésias de plantão.
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Acolher a Mudança
#122 – Convenhamos. Mudar não é fácil. As dúvidas irão certamente nos tomar de assalto. Tem certeza? E se isso, e se aquilo? Medo de não dar certo. De não ser bom o suficiente. Medo de decepcionar a si mesmo. Consciência de um risco, das feridas narcísicas. De confirmar os piores temores. É muito mais fácil ficar parado. Na posição vantajosa em que tudo é possível, mas nada foi feito. No ponto zero, em que tudo é apenas virtual. Em que o devaneio toma o lugar da materialidade das coisas. Se você tem pensado em mudar de cidade ou de país; se quer mudar de carreira; passar a morar sozinha ou a uma vida a dois, deve estar lidando com os efeitos colaterais da mudança. E se essa transformação, esta mudança, envolve assumir para si a escrita de seu livro, o frio na barriga não é incomum. E apesar da hesitação, a mudança é a semente da maturidade, da realização. Acolher a mudança não significa necessariamente a submissão à lógica liberal de adaptabilidade irrestrita. Ela pode ser o modo de entender a idade em que estamos. A passagem do tempo, e a transformação das pessoas à nossa volta. Escrever um livro tem tudo a ver com isso. E por isso, dediquei um episódio a este tema: como acolher a mudança. Por estranho que pareça, a fluência de um texto depende desta elaboração. Desta bonita coragem.
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Habitar o Hábito: o método gradual e radical para fazer da escrita uma prática regular
#121 – É possível escrever com regularidade e não perder a mão do desejo original da escrita? É possível transformar a escrita em um ofício, e inventar com a liberdade do tempo livre? Como fazer isso?Neste episódio, Tiago Novaes propõe uma reflexão sobre como transformar a escrita num hábito prazeroso, consciente e enraizado.A partir de experiências pessoais e conceitos da psicologia e da psicanálise, ele compartilha caminhos para construir um sistema criativo sustentável — sem culpa, sem metas inalcançáveis, mas com presença e profundidade.🌱 Ideal para quem quer retomar (ou finalmente começar) o romance que vive dentro de si.🎧 Dê o play e venha habitar o hábito.
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Começar a Escrever: Como (não) falar de si mesmo
#120 – Recentemente, numa visita à biblioteca da minha nova cidade, topei com uma edição d'As aventuras de Tom Sawyer, um clássico de Mark Twain. Logo no prefácio, o autor esclarece: Tom Sawyer existiu. Mais que isso – foram muitos os colegas de infância que inspiraram a criação do personagem.O protagonista e suas peripécias são o resultado da combinação de lembranças pessoais e impressões dos amigos de escola. O pulo do gato: além de testemunho, o clássico é também invenção. O vivido, nas páginas de um livro, é uma argila que pode tomar outras formas. Ao falar de si mesmo, de si mesma, temos um problema. Somos nós mesmos o tempo todo. Seja escolhendo o próximo filme a assistir no serviço de streaming ou amarrando um cadarço, não conseguimos deixar-nos de lado. Sou eu ali, escrevendo, mesmo quando para me libertar de mim mesmo. Sou ali ao falar de um terceiro, projetando meus desejos e receios. E nesta insistência, posso despejar no papel a minha própria compulsão e banalidade.Byung Chul-Han diria que vivemos em um tempo de transparência e exposição. Como se o individualismo e o ensimesmamento, valores de uma sociedade de consumo, colocassem em risco a nossa própria materialidade. Para existir, precisamos mostrar que estamos vivos. "Compartilhar" impressões, opiniões, credenciais. Há quem diga que a autoficção, como novo gênero romanesco, surgiu nesse contexto. Em contrapartida, não há como refutar que a nossa voz e presença são o sal do nosso texto. Sem o autor, a obra empalidece, torna-se inexpressiva. Se você exagera no sal, a tal "voz narrativa" pode soar a um locutor esportivo, tentando colocar palavras na boca do texto. Sem ela, uma inteligência artificial qualquer poderia substituí-lo. No novo episódio do Prelo, falamos das armadilhas da autoficção. Mas também de como a escrita, como ato revolucionário, nos abre uma possibilidade fascinante – se os limites do nosso mundo são os limites da linguagem que temos à disposição, escrever é a melhor maneira de ampliar o horizonte e o entendimento. Produção e edição de áudio: Fábio Corrêa
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Imitação, Homenagem, Inspiração: brevíssimo anedotário de plágios – uma conversa com Juca Novaes
#119 – Tem coisas de que sinto falta em morar em São Paulo. Uma delas é sem dúvida o encontro regular com um primo muito querido em um restaurante japonês, a poucos metros da estação Liberdade do metrô. Advogado, o Juca sempre chega de terno aos nossos almoços. Pedimos os dois o mesmo prato: o tradicional teishoku com missô, acepipes, anchova grelhada e arroz japonês. Além de advogado, o Juca é músico e escritor. Ilustrado, progressista, lúcido, meu primo é o único parente com quem tenho esses longos papos sobre tudo – das nossas apreensões sobre a política às aventuras do processo criativo. Já tem uns anos que meu primo falava deste livro que vinha escrevendo com um colega de profissão. O tema: plágios. O Juca é especialista internacionalmente renomado em direitos autorais, e sempre teve muitas histórias interessantes a contar sobre o tema. E curioso onívoro que sou, não me canso de continuar perguntando.Uma delas é a de um compositor famoso que despertou com uma canção linda na cabeça, uma sequência de notas simples, mas absolutamente cativantes. Aquilo soava tão bem que lhe deixara com uma pulga atrás da orelha: será que a ouvira em algum lugar? Para tirar a dúvida, resolveu mostrá-la a vários amigos. Mas ninguém reconheceu. Foi apenas mais tarde que o músico, Paul McCartney, escreveu a letra e deu a ela o nome de Yesterday.Os caminhos para a criação artística são enigmáticos. O que chamamos inspiração é uma fagulha que brota de qualquer parte, de um inescrutável sonho, um acontecimento que nos mobiliza ou do diálogo com a composição de outro artista. Em todos esses casos, há um risco, o plágio. É um fantasma que ronda todos criadores, inclusive os mais bem-sucedidos. O novo episódio de edição do Prelo traz uma conversa com o compositor, escritor e advogado Juca Novaes sobre o seu mais recente livro, Você diz que meu samba é plágio: histórias de plágio (ou não) na música popular brasileira (Edufba), em coautoria com Rodrigo Moraes. O papo cobriu muitos temas sobre o assunto, todos muito curiosos e elucidativos:✅ Plágios conscientes & inconscientes: o que caracteriza o plágio e como se proteger dos plagiadores;✅ A história de uma bestseller, autora de livros em saúde mental, apanhada em flagrante delito;✅ Plágios clássicos na música e na literatura: Carolina Nabuco & Daphne du Maurier; Moacyr Scliar & Yann Martel; Jorge Ben & Rod Stewart. ✅ A ascensão de um plagiador serial: a Inteligência Artificial, as leis de proteção, e o insubstituível material humano nas artes.Espero que se divirta tanto quanto eu!Clique aqui para adquirir o livro Você diz que meu samba é plágio: histórias de plágio (ou não) na música popular brasileira (Edufba) Clique aqui para adquirir o romance do Juca Novaes, Meio Almodóvar, Meio Fellini (Contracorrente) Conheça mais o trabalho do Juca Novaes:https://www.instagram.com/jucanovaes/https://www.facebook.com/JucaNovaesOficial/https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2pb7POxZardOYAkXBxVGRcProdução e edição de áudio: Fábio Corrêa
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Terapia do livro: como a leitura pode transformar o mundo e a si mesmo
#118 – Não: a leitura não pode ser mais vista como um hábito elitista. Houve um tempo em que a interpretação de texto, da mensagem, do diálogo, era uma arte tão consumada e habitual que sequer possuía nome. As convulsões da democracia hoje comprovam que saber ler – um livro, o mundo –, não é capricho, mas necessidade. Não há sociedade nem autonomia sem a leitura. Mas além disso, a ciência comprova o que leitores já intuem há séculos: os livros são um bálsamo. O hábito de mergulhar em uma ficção gera benefícios para a nossa saúde mental e física, combate a depressão, nos ajuda a elaborar nossas angústias e desenvolve nossa empatia. Amplia nosso repertório e expande nossa compreensão do mundo. Embalados pelo enredo, pela voz do texto ou pelas experiências de um personagem, partimos em uma viagem da qual dificilmente saímos intactos. Sentados no sofá ou num banco de praça, vivemos outros destinos. De golpe, estamos em Marte. Na Inglaterra vitoriana. Voamos, submergimos. Afeto e cognição se fazem um só e todo sentido.Nas últimas décadas, a sistematização da leitura para o bem-estar ganhou uma prática específica, chamada de biblioterapia. Neste episódio do Prelo, investigamos como a literatura é capaz de nos proporcionar modos mais saudáveis de existência. Isso, é claro, sem perder a sua função primordial, a de ser uma prática intrinsecamente inútil em seu sentido mais profundamente subversivo.Referências“The Novel Cure: An A-Z of Literary Remedies”, de Ella Berthoud e Susan Elderkin “When Literature Comes to Our Aid”, de Kelda Green Entrevistas sobre hábitos de leitura em 1976: https://www.instagram.com/reel/DGbQx-SxrAV/?igsh=NXFidGV6aWIwdmE2A biblioteca de Michel de Montaigne: https://www.bvh.univ-tours.fr//MONLOE/3D/montaigne_01/librairie.htmlProdução e edição de áudio: Fábio Corrêa
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Clareza de Pensamento: boas (e pequenas) escolhas que transformam a escrita
#117 – Embora nem sempre um ato de urgência, a escrita – ao menos para as pessoas entretidas no ofício – é uma prioridade. Escrevemos para saber onde estamos, e para onde vamos. Escrevemos para dar corpo ao nosso corpo. Para abrir os olhos. E para fechá-los.E para isso, será preciso conceber um lugar sereno a partir do qual nos assentamos. Um jardim, um pequeno templo. Um tatame. A terra úmida onde enterrar a semente. Um lugar predominantemente psíquico.O problema é que as condições para a criação quase nunca serão perfeitas. Você sabe disso. A figura do escritor monástico no alto de um penhasco, olhando tudo do alto com bravura, ousadia, solidão subjetivante, ferramentas à mão, é uma redonda miragem. Herança, talvez, de um narcisismo primário, de uma primeira infância na qual bastava sonhar e o sonho se realizava.Viver é escorregar. E equilibrar a saúde mental às escolhas inerentes à escrita – tema, estofos dos personagens, estilo e complexidade narrativa – tampouco são fáceis. O que nos falta, muitas vezes, é clareza de pensamento. Mas o que se sabe sobre isso? Como construi-la? Onde encontrá-la? Como identificá-la?Neste episódio do Prelo, converso sobre a importância das boas escolhas que nos permitem assenhorar-se, ainda que de modo provisório, das circunstâncias para que a viagem da criação artística seja concreta.
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Inspiração e Devaneio na Prática Regular da Escrita
#116 – É um caminho comum. O desejo da escrita se torna projeto. Tornando-se projeto, vira tarefa. E como tarefa, aliena-se. É algo a mais a cumprir. Perde o sentido.Se o ofício requer prática, recorrência, assiduidade, torna-se fundamental aprender uma prática dentro da prática: aquela que impede a escrita de se converter em exercício: repetição mecânica, protocolar, que busque o caminho mais curto, o caminho do lugar comum, do discursivo, do mero pertencimento a um grupo, a um corpo de expectativas. Escrever pode ser prazeroso. O que nunca poderá se tornar é conveniente. Algumas condições subjetivas tornam a escrita possível. E mais que possível – fluida, feliz, estimulante. Deixar os pensamentos flutuarem, os olhos descansarem sobre as coisas. Deixar-se impregnar. Deixar-se levar pelos rios, afluentes, regatos associativos. Estancar em uma preocupação, em um constrangimento da infância. Descer por esta toca de coelho. Tatear às escuras.Neste novo episódio de Prelo, falo da inspiração e do devaneio na prática regular da Escrita.Se você quiser receber as minhas crônicas – reflexões sobre cultura, história viagem, cultura & gastronomia, experiências de caminhada e meditação, não deixe de se inscrever! Basta clicar aqui: https://escritacriativa.net.br/dez-anos-dez-dias
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No princípio era a estrada: as caminhadas de Rimbaud, os sentidos da peregrinação, a jornada como transformação pessoal
#115 – Quando era muito jovem, Rimbaud escreveu: “Sou um pedestre, nada mais.”Caminhar é despedir-se. É acolher o novo que se torna antigo, e que parte. Toda vez é a última vez. Toda vez é a primeira vez. Nas palavras de Frédéric Gros, "quem caminha por geleiras sem nome, céus sem amanhã e pradarias sem história dispersa lascas cortantes de seu olhar, que se cravarão nas coisas. Se caminha, é para fazer uma incisão na opacidade do mundo. [...] O peregrino é uma metáfora da condição humana." Caminhar é fazer do dia uma obra de arte. E, como em certas culturas africanas, a obra de arte é uma espécie de segredo fugidio. Não é vista antes que o espectador esteja preparado para vê-la. É como aquele conselho que não significa nada até estarmos suficientemente maduros para escutá-lo. E aí ele significa tanta coisa! No novo episódio de Prelo, percorremos os passos de Rimbaud e de outros caminhantes. E compreendemos por que a caminhada é uma companhia para o pensamento e a literatura.
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Campo de Estrelas: talento e processo, as projeções na criação, a participação do inconsciente na escrita
#114 – Quando era criança, era minha tia que contava as histórias. E foi o meu irmão, três anos e meio mais velho do que eu, que tinha originalmente o sonho de ser escritor. Ele preenchia seu caderno com ideias e títulos para histórias aventurescas, e criava fanzines, ilustrava essas histórias e partia para a aventura seguinte. Nada me fascinava mais do que isso. O ato de contar e de escutar histórias é sempre criativo. Olhamos para o céu, em torno da fogueira, e lá encontramos os nossos personagens, o nosso destino, a projeção dos nossos desejos. Neste episódio de Prelo, conversamos sobre a participação do inconsciente no processo. Da importância de sempre começar, de descobrir a inocência do movimento. E de como frequentemente superestimamos a ideia de talento nas artes.
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Voltar a escrever com as mãos: o resgate do caderno e da caneta
#113 – Com tantas distrações e chamarizes, com tanto preparo que antecede a prática, o ato artístico, com tanto ruído e falsas necessidades, o caderno e a caneta podem ser os melhores amigos da escritora, do escritor.Certos livros pedem um retorno às origens, ao prazer primordial em deitar as palavras num caderno, ao tempo dos diários, ao tempo do livre devaneio. Certos livros pedem que você faça isso – lançar-se às palavras. Deixar a revisão excessiva para um segundo momento. Não voltar atrás. Neste episódio de Prelo, falamos da escrita orgânica e analógica do caderno & caneta. Apresentamos um cronograma, um procedimento e em que medida a sua prática pode se beneficiar com o manuscrito.
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Da escrita, um ofício: uma conversa com Juliana Feliz
#112 – Uma das coisas mais bonitas de escrever é a oportunidade de fazer bons amigos.As amizades na vida adulta levam anos para se formar. A que tenho com a Juliana Feliz começou nas redes sociais. Ela acompanhava o canal e era bastante ativa por lá. Em 2021, inscreveu-se na formação para romancistas, ocasião em que conheci a sua produção literária, sua história como jornalista e o princípio de sua trilogia.Dois anos mais tarde, nos encontramos ao vivo na cidade do Porto, em Portugal, onde ela vive desde 2019 com toda a família – marido, filhas e os pais. Com o tempo, minha admiração por ela só cresceu. Naquela época, a Juliana dava aula de Escrita Criativa para adolescentes. Publicara As Cinzas de Altivez, um romance fantástico para o público jovem-adulto e que se tornara um bestseller na Amazon. O romance levou o The Wattys Awards em 2018, e foi indicado ao Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica. Ano passado, acompanhei o lançamento de seu Peripécia Deck, um baralho narrativo projetado para ajudar escritores e roteiristas a estruturarem histórias de ficção, um ferramenta que também auxilia professores a desenvolverem atividades de Escrita Criativa, Língua Portuguesa, Literatura e Redação.Neste mês, a Juliana publica a terceira parte de sua trilogia fantástica. Achei que era hora de conversarmos.O novo episódio Prelo é esta conversa sobre um percurso notável e singular, e um vislumbre das possibilidades da escrita.Sobre a Juliana Feliz:Instagram: https://www.instagram.com/julianafelizescritora/Youtube: https://youtube.com/@JulianaFelizEscritoraTrilogia Aventurada: https://www.amazon.com.br/dp/B0BZDZN4V9Peripécia Deck: https://julianafelizescritora.hotmart.host/peripeciadeckContato: [email protected]: www.julianafeliz.com
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Imaginar: Sonhar o Livro, Testar Limites, Encontrar Energia, Negociar Desejos
#111 – Nas aulas de psicanálise da faculdade de psicologia que cursei, havia uma máxima que os colegas costumavam achar muito misteriosa. Levava anos para que viéssemos de fato a compreendê-la. Era mais ou menos assim: para se relacionar com algo, o bebê precisa primeiro aluciná-lo. Sem linguagem, sem palavras, a realidade está mais para o informe que para a forma. A realidade seria uma torrente – ou várias – de estímulos sem origem, tempo ou lugar, se não chegássemos a construir a permanência das coisas dentro de nós. Há uma sabedoria do bebê de não presumir o que brota de dentro e o que chega de fora, do que faz parte de si, e do que não. As próprias fronteiras do eu são algo que foi criado, desenvolvido com o tempo.Se os filhos são nomeados, imaginados, desejados antes de nascer, não seria de se estranhar que os livros que escrevemos possam e devam passar pelo mesmo processo de simbolização. Para que o livro venha a existir, é preciso primeiro sonhá-lo – uma assertiva que borra os contornos da realidade, mas que não é menos verdadeira do que uma gestação. No novo episódio de Prelo, converso sobre a importância de inventar o livro antes que ele exista. Falaremos também sobre experimentar como modo de testar os limites da prosa, da ruptura da homeostase que toda mudança benéfica produz, e de como encontrar a energia e a disposição para as coisas mais importantes da vida.Neste episódio, faço referência ao livro Mastery, de George Leonard. Clique aqui para saber mais sobre o livro.
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Maestria: o caminho da orientação, da prática e da entrega à literatura
#110 – Existe faixa preta em literatura? Quando alcançamos a maestria na escrita, e o que isso significa? Nesse episódio de Prelo, a escrita é vista como uma arte marcial. E como em toda prática, algumas chaves vão te orientar neste caminho.
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Projeto: um romance em 2025
#109 – Começamos o ano! Neste episódio, tenho um exercício para você. É a primeira aula para a escrita do seu romance em 2025. São 12 perguntas reflexivas que você deve se fazer para se preparar para escrever o seu melhor livro no ano que começa. É um tempo para sonhar. Se você escrevesse ou seu livro, o seu romance, nos próximos meses, como será que a vida seria para você? Como você imagina este cenário?Quão motivada, quão motivado você está para aprontar isso?O que isso faria para a sua vida? O que está no caminho? Qual é o obstáculo?
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Amar o Processo: Como aprender a conviver com as coisas difíceis e crescer de verdade em qualquer coisa que você quiser
#108 – Um artigo recente da revista “The Atlantic” joga luz sobre um dado alarmante: alunos de universidades de ponta não conseguem mais terminar um livro. Cinco anos atrás, um professor podia indicar cinco obras ou mais a seus alunos em um semestre. Hoje, eles não conseguem terminar um.No Brasil não é diferente.As telas estão comendo o nosso cérebro. Faculdades básicas de compreensão, riqueza de vocabulário e interpretação de texto estão sendo minados. Ironia, empatia, ambiguidade, tudo está indo pelo ralo. Mas há algo mais grave que subjaz a essa tendência.As pessoas querem aprender sem passar pela leitura de um livro porque se difunde em toda parte uma cultura da conveniência total. A promessa dos ganhos fáceis. A expectativa de uma vida feita apenas de euforia e clímax. Um tempo que valoriza a relação passiva com as coisas, onde tudo deveria estar pronto e à nossa disposição. É onde se encontram as criptomoedas, os sites de apostas, o frenesi especulativo dos mercados e a recusa ao envelhecimento. E é por isso, também, que estamos deprimidos, distraídos e ansiosos. As pessoas não suportam mais o processo. Não deveria nos espantar. Em nenhum lugar você vai encontrar repertórios simbólicos do prazer profundo, calmo e dilatado do aprendizado. As pessoas se condicionaram às recompensas como motivação única do esforço. Desde criança, estudamos para passar na prova. Passamos na prova para entrar na universidade. Nos graduamos para comprar um carro, uma casa. Conquistamos o mundo para sermos amados e invejados.Mas como é dominar a fundo uma habilidade?Na escrita, como em qualquer outro caminho de maestria, a curva do aprendizado não é uma curva ascendente e uniforme. Depois de um processo de aprendizado profundo, é comum que enfrentemos um platô, um momento de prática prolongada sem recompensas aparentes. É aí que reside o segredo do crescimento verdadeiro. Precisamos aprender a superar os platôs. E para superá-los, precisamos saber permanecer neles. Se você quer dominar algum ofício, saber mais sobre no que consiste uma curva real de aprendizado, escute o novo episódio do Prelo para continuar aprendendo
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Promessas de Ano Velho: O que fazemos com os nossos desejos?
#107 – De novo nos encontramos a menos de um mês de mais um ano novo. Gosto dos meses de dezembro, daquela promessa de silêncio e maresia que prenuncia. Gosto de lembrar. De olhar para fotos, de acenar para aquela versão que entrava em 2024 quando o ano era novo. E janeiro chega para refazer o plano maior. É um teste olfativo, um check up literário. Uma nostalgia do futuro. Como estou escrevendo? O que pude fazer? Como as minhas leituras orientaram o meu caminho? Quais os contratempos, os sobressaltos? O que deu pra fazer? Em um post de janeiro no Instagram, publiquei como pretendia organizar a minha rotina. No novo episódio de Prelo, analiso aquela mensagem numa garrafa à luz do que de fato aconteceu. Acho isso muito importante. Não são só palavras. São os trilhos. O que me protege da deriva completa. Do capricho e da resistência. Referências: Lina Meruane, "Contra os Filhos". Ibsen, "Casa de Bonecas". Virginia Woolf, "Um teto todo seu". Charlotte Brönte, "Jane Eyre".
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Uma inteligência insuficiente
#106 – Me chamou a atenção, desde que estudei para escrever o meu livro mais recente, Baleias no Deserto: o corpo, o clima, a cura pela terra, a discrepância enorme entre a sofisticação do nosso conhecimento filosófico, científico e social sobre a era de extinção em massa em que vivemos e o modo como um grande público, o eleitor e o político tratam desse assunto.Isso diz respeito a tudo, e é um grande desafio no ensino e na literatura.Me parece que estamos falando de espaços afetivos e discursivos completamente diferentes e que se comunicam muito pouco.Se o mundo fosse uma escola, é como se estivessem tocando fogo nas carteiras enquanto estamos discutindo a ordem dos parágrafos de um panfleto sobre a cultura de paz.Não estamos à altura desse desafio. Não estamos à altura do nosso tempo.Não é à toa que estejamos pensando tanto a ideia de inteligência. Vieses cognitivos, inteligência das espécies e inteligência artificial.Você já reparou como estamos falando em inteligência na última década?Ao que parece, estamos buscando fora a inteligência que supostamente falta à nossa espécie.O que está acontecendo que, na era da comunicação, nunca estivemos tão embotados e tão divididos?
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A crônica: por uma literatura sem posteridade
#105 – Filha do deus Cronos, a crônica é a mais despojada das expressões literárias. É aquela que abriu mão da posteridade em nome da proximidade. Fiel ao tempo presente, a crônica pode ser considerada um tanto "zen-budista", mas de um budismo sem sabedoria, disposta a gastar saliva. Entre a ficção e a não-ficção, a prosa encontra na crônica um gênero privilegiado. Breve e ambulante, ela assume muitas formas, como a do ensaio ágil, o diálogo textual, a observação singular. Por vezes crítica, por outras, lírica; ora ideia, ora causo, este vislumbre de uma singularidade em movimento entranhado no tecido social será o objeto de reflexão e experimento dos nossos encontros.Clique aqui para participar do curso Introdução à Escrita Criativa – Contos & Crônicas
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Saber não-chegar: uma conversa entre Miró e João Cabral
#104 – O poeta e diplomata pernambucano João Cabral de Melo Neto não tinha trinta anos quando foi enviado para trabalhar no consulado brasileiro em Barcelona. Foram quatro anos férteis de sua carreira, não no sentido literário – afinal, Cabral sentia dificuldade de escrever poesia – mas em relação às amizades que cultivou, ao que aprendeu naquele tempo. Uma das amizades decisivas foi com o pintor catalão Joan Miró. Entre 1947 e 1950, os artistas se encontraram de modo regular. Franco havia vencido, e a pintura de Miró era mais conhecida fora da Espanha do que entre seus conterrâneos. Mas Cabral tinha contato direto com ela. Encontravam-se semanalmente durante longos períodos. E foi naquele momento, tendo acesso direto à sua produção, que o poeta resolveu escrever um ensaio sobre a pintura selvagem do amigo. O processo não foi nada fácil. Cabral sofreu naquele ensaio. Abandonou e retomou o projeto algumas vezes. Escreveria a Lêdo Ivo em 1948:"Ando nervoso, paulificado. Estou escrevendo um pequeno ensaio de 100 páginas sobre o pintor Miró e isso me tem trazido na ponta dos nervos. Como é pesado escrever!"O ensaio, enfim, terminou. E o que se veria ali era nada menos do que um programa poético, em defesa da liberdade da criação, e de uma "atitude de vigilância e lucidez no fazer", avesso ao "espontâneo e ao acadêmico". A lição de Miró – a lição de Cabral – é essencial, e é sobre ela que me debruço no novo episódio de Prelo.
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Escrever sem tempo: a psicologia da escassez e a abundância
#103 – Este episódio se dedica a discutir as noções de escassez e abundância no cuidado do tempo, em suas relações com a capacidade cognitiva e planejamento necessários à escrita de um livro. O debate se origina do livro Escassez: uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir.
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A Conversa entre os Livros
#102 – Em julho passado, durante o recesso de Prelo, viajei em lua-de-mel.Foi um livro que escolheu o destino da nossa viagem. O que vivemos, dentre muitas outras coisas, foram as entrelinhas deste livro. A viagem foi uma experiência literária.O livro remeteu a outro, e a outro. E este fio entre leituras, esta conversa entre os livros, foi conduzida pela batuta da leitura, movida por um pathos específico deste leitor.Podemos ler livros ditados por interesses acadêmicos/profissionais.Podemos deixar que a pauta do mercado, das promoções, da internet nos leve de um lado a outro.Ou podemos fazer da leitura uma pesquisa para a escrita.Podemos fazer do diálogo com os livros uma espécie de autoanálise.É o que eu chamo de biobibliosofia. Ou de bibliobiografia. Conceitos-jogos de uma filosofia da proximidade, um diálogo com o mundo mediado pelas páginas, um tensionamento da vida para uma curiosidade íntima.Neste novo episódio de Prelo, desenvolvo esta descrição, e trago um estudo de caso que liga leituras de estilos tão díspares como Fitzgerald, Annie Ernaux, Édouard Louis e Didier Eribon.Obras mencionadas:Suave é a noite, de F. Scott FitzgeraldA Viagem dos Livros com Richard E. Grant (série documental)O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald A casa de barcos, de John FosseAs primas, de Aurora VenturiniForo de Teresina, da revista piauí (podcast)Mudar: método, de Édouard LouisLutas e metamorfoses de uma mulher, de Édouard LouisQuem matou meu pai, de Édouard LouisOs anos, de Annie ErnauxRetorno a Reims, de Didier EribonInscreva-se no canal:https://escritacriativa.net.br/
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Jogar com as expectativas – Uma conversa com Bia Nunes de Sousa
#101 – No episódio de hoje, converso com a Bia Nunes de Sousa, editora da Vestígio, que publica grandes obras como Nação Dopamina, Talvez Você Deva Conversar com Alguém e Foco Roubado, dentro tantas outras.Nesta conversa, falamos sobre uma publicação recente da casa, O lado bom das expectativas, do jornalista da BBC David Robson, um livro que conversa muito com o ofício da escrita, porque investiga o efeito que nossas expectativas exercem sobre o resultado de um trabalho. Vamos discorrer sobre:a. O que é efeito placebo e nocebo na alimentação, controle de stress e força de vontade, e como você pode fazer para operar segundo estes conhecimentos para escrever mais e melhor; b. Os efeitos fisiológicos – mensuráveis, portanto –, causados pela ideia que fazemos das coisas. De como doenças imaginárias podem ser tão mortíferas quanto as verdadeiras;c. Dicas e orientações para você que pretende enveredar pela não-ficção e escrever uma obra de divulgação científica. O que há em comum entre as obras bem sucedidas do gênero, e o que você pode aprender com elas. Bia Nunes de Sousa é editora, tradutora e produtora de conteúdo com mais de 20 anos de experiência. Atualmente trabalha na Editora Vestígio, do Grupo Autêntica, onde é responsável pela prospecção e produção dos livros de autoconhecimento e divulgação científica. É formada em Direito pela PUC-SP, com especializações em Língua Portuguesa e Literatura pela Unip e Gastronomia, História e Cultura pelo Senac-SP.Instagram da Bia: @bianunesdesousaE para adquirir o livro O lado bom das expectativas, CLIQUE AQUI.Editora Vestígio é editora de não ficção e ficção do Grupo Autêntica. Instagram: @editoravestigioCatálogo no site, CLICANDO AQUI. Livros citados:Talvez você deva conversar com alguém, de Lori GottliebA fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças, de Michel DesmurgetNação dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar, de Dra. Anna LembkeFoco roubado: os ladrões de atenção da vida moderna, de Johann Hari (ouça o Prelo #083, A atenção em risco)A chave de vidro, de Dashiell HammettFaça-os ler!: Para não criar cretinos digitais, de Michel DesmurgetUm teto todo seu, de Virgínia Woolf (e traduzido por Bia Nunes de Sousa na edição da editora Tordesilhas)
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EPISÓDIO ESPECIAL! – Prelo #100 🔥🔊🫣 – O que aprendi em 20 anos de livros publicados
#100 – Muita coisa acontece em vinte anos. A juventude chega aos quarenta. O mundo vira do avesso. O colateral ganha destaque. O que foi promessa já não assombra ninguém.Nesses vinte anos e oito livros publicados, tendo coordenado oficinas para milhares de escritores, cheguei a aprender algumas coisinhas. Não estou falando de macetes de escrita, mas de relações humanas, de ethos autoral, de como podemos fazer melhor ou pior uso das oportunidades que nos chegam – a depender de como encaramos as situações. Tem a ver com a confusão muito nefasta entre autoaceitação e autocomplacência; com a arte de habitar certas indefinições, e muito mais. Nesta semana, chegamos ao episódio 100 do Prelo, podcast de escrita e processos de criação. O Prelo surgiu em maio de 2020, em plena pandemia, como um modo de estreitar o meu diálogo com você, de apresentar leituras e debates que demandavam uma conversa mais longa. Neste episódio de número #100, provei algo distinto: fiz um episódio filmado! Você tem a opção de assistir à conversa no YouTube, como num programa de tevê. Ou pode optar pelo formato tradicional no seu tocador preferido. :) Ao fim do encontro, faço uma pergunta, e adoraria que você me dissesse o que pensa. Caso queira assistir à versão em video, clique abaixo!PRELO #100 – O que aprendi – e o que estou aprendendo – YouTube – Episódio Filmado 🔥🔊🫣
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O capítulo final: prazeres da desistência e do ressentimento
#099 – Cá entre nós: por que você não desiste de escrever? De publicar? De ser reconhecido? Reconhecido pelo quê, afinal?Por que você quer tanto assim esse reconhecimento? Quem foi que disse – além de você para si mesmo – que você merece isso ou aquilo? Não seria muito mais fácil não fazer mais nada? Permanecer onde está?Por que tanto esforço? Não seria a desistência um sinal de coragem, de lucidez? Por que o mero fato de falar de desistência representa uma ameaça, um tabu social? Como o alcoólatra que precisa que todos bebam, por que estamos sempre rodeados de mensagens de otimismo e persistência? E por que apesar de não falarmos disso diretamente, estamos sempre indiretamente nos referindo à tentação de desistir?Quando reclamamos do trabalho. Quando reclamamos dos colegas. Quando reclamamos da família. Por que não assumir a tentação da desistência? E por que não assumir esse desejo do não-desejo como um dos nossos prazeres? Será que a insistência, afinal, não é uma forma de masoquismo? E os nossos desejos, por que não seriam eles os nossos tiranos?
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Nagomi: a filosofia do equilíbrio, dentro e fora da literatura
#098 – Você já pensou em morar dentro de um livro que está lendo? Em fazer amizade com os seus personagens, em incorporar certos aspectos de seu estilo de vida?Alguns livros asiáticos têm um poder de fascínio por meio do cotidiano. Neles, algo acontece, mas por trás da rotina. São livros que sabem combinar – e justamente por isso, ultrapassam – as dicotomias forma e conteúdo, reflexão e narrativa, tensão e distensão, desafio e leveza, prosa e poesia. Com base no conceito de Nagomi, discutimos neste episódio de Prelo alguns elementos e princípios que poderiam inspirar a nossa prosa e a nossa poesia.
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Os 3 Princípios da Escrita Lenta: a construção da frase, a curadoria das leituras, estruturar um livro
#097 – O episódio de hoje dá sequência à conversa sobre a Escrita Lenta. Por que você deve escrever num ritmo próprio, fazer menos e priorizar a qualidade na sua produção literária.
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A Lentidão como Método: por que você deve começar a escrever devagar
#096 – Durante bastante tempo – tempo demais, acredito –, fomos seduzidos por filmes, youtubers e livros de desenvolvimento pessoal a uma cultura da produtividade como sinônimo de felicidade. A ideia central desta cultura consistia na crença de que é possível e necessário desenvolver métodos de comprimir atividades e dilatar o tempo para fazer caber mais – mais trabalho, mais faturamento, mais ambições. A obsessão dos “high achievers” era derivada de uma versão corrompida do já tresloucado fordismo, transferido para os trabalhadores do conhecimento e funcionários de escritório. Na literatura e nos seus irmãos mais mundanos, como o jornalismo e a produção de conteúdo, a moda pegou. A ideia era a de que deveríamos nos forçar a produzir a partir de “sprints” de escrita, de que dava para inventar de modo sequencial e uniforme, de que certos sistemas de organização aumentariam o nosso leitorado. 5000 palavras por hora. Opiniões sobre tudo. Um livro por semestre. Um conteúdo por dia. Nos acostumamos aos reels, aos nuggets, aos drops como modos de transmissão. Tanto o fazer quanto o consumir se atomizaram. É assombroso como essa tendência foi antevista ainda mais cedo, por um outro filósofo, Walter Benjamin, que vai escrever em um dos seus textos clássicos: “Hoje, nada se faz que não possa ser abreviado.”A reação não tardou a chegar e foi generalizada. Crises de burnout e depressão em todas as esferas da sociedade, o abuso de álcool e de opioides, e uma espécie de confirmação pela experiência de que uma quantidade maior de horas trabalhadas não correspondia a um aumento da produtividade. Passamos a estudar as aparências, mais do que as coisas: como “se sair bem” numa entrevista, como criar um perfil. O filme foi substituído pelo trailer. A paixão pelas teorias motivacionais. O livro pelo autor. Já desde antes da pandemia, assistimos a um outro movimento, uma reação ao primeiro. Ele vai afirmar o contrário do que se dizia. Quer mais? Faça menos. Faça melhor. Seja mais inteligente. Pense grande. Ganhe fôlego. Esvazie-se para que algo novo possa surgir. As 50 horas de trabalho semanais são uma armadilha de subserviência e domesticação. Elas nos tornam repetitivos e apáticos. Se as pessoas tivessem mais tempo livre, elas renderiam mais. O único modo de saber para onde estamos indo é parar. Obras como “A única coisa”, de Gary Keller e Jay Papasan, “Essencialismo”, de Greg McKeown ou “Não Faça Nada: a batalha pela economia da atenção”, de Jenny Odell, defendem isso. O fazer, pura e simplesmente, é uma forma de alienação. Fazer por fazer é uma tolice. Escolha aquilo que merece a sua atenção. Aquilo que você sabe fazer, que é reconhecido e que encontra aí a sua paixão. Há muita coisa interessante a depreender destes livros. Nada melhor que limpar a agenda: eliminar o supérfluo; automatizar (pelo hábito ou pela tecnologia) o recorrente; delegar o que não é seu e que outros fazem melhor do que você. Aplicando certa filosofia e orientação, vai caindo a ficha de que a maioria de nós nunca nos ensinou de fato a trabalhar (planejar, pensar atividades, combiná-las de modo integrado aos nossos ritmos internos).Na escrita, a equivalência é a da escrita lenta. Nas redes, da produção lenta de conteúdo. Ao invés de pílulas, fragmentos, versões repetidas do que se viu por aí, concentre-se na singularidade. Tome o seu tempo. Não tenha pressa. Abandone de vez a comida processada e o conteúdo ultraprocessados das redes. No episódio desta semana de Prelo, falo sobre “A lentidão como método” e a Escrita Lenta. É uma proposta de revisão do modo como estamos escrevendo, e de como você pode aplicá-lo na sua rotina. Está mais que na hora de escrevermos no nosso tempo. De aceitarmos a oscilação dos ritmos próprios. Como disparador da conversa, valemo-nos da obra "Slow Productivity", de Cal Newport. O livro que citamos é "Dionisio em Berlim", da Quelônio.
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Autoconfiança e Comunidades Literárias
#095 – Os dias não nascem iguais. Alguns começam bem e terminam mal. Uns são de festa, outros de ressaca. Tem vezes que a gente acha que conquistou o equilíbrio, até que um pensamento ruim vem roubar o sono, e você passa duas horas para se acalmar e convencer-se de que está tudo bem de novo.O budismo chama isso de doença do pensamento: raiva, desejo, insegurança estão sempre agitando as águas da nossa consciência.É o amanhã que promete algo. É o amanhã que nos ameaça. É a dor na perna. É a mágoa e o remorso. Remordimento, remoer, morder, estas palavras compartilham a mesma origem: como se dentro de nós um roedor estivesse nos comendo vivos. Na era do isolamento digital, perdemos recursos para lidar com estas ondas de humor. Ao que parece, a sociabilidade, por empatia e mímese, nos ensina a lidar com os nossos escrúpulos e neuroses. A alegria do amigo pode atenuar a nossa melancolia. A tristeza do outro ajuda a enxergar as próprias misérias com mais distanciamento. Cultivar a paciência e a curiosidade perante a “outridade” do outro, com suas manias e particularidades, faz de nós criaturas melhores.No episódio desta semana de Prelo, falo da influência sobre o ato criativo de duas forças aparentemente antagônicas: a autonomia e a sociabilidade. Nesses pouco mais de quarenta minutos, vou te mostrar, a partir de experiências e investigações científicas, como que fazer parte de alguma comunidade de autores pode te ajudar a emancipar a sua atividade das oscilações cotidianas. E como cuidar disso que parece exercer tanto efeito sobre como nos apresentamos para o mundo: a confiança em si e no que se faz.
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Escrita e Humor: formas de jogar; o efeito do bem-estar na escrita; estudos de psicologia positiva; memória e associações livres na criação
#094 – Existe uma mitologia do intelectual, do criador, do inventor, certamente derivada do deus monoteísta, fundador do céu e da terra, um homem enorme, de barbas brancas, onipotente e onipresente, que pressupõe um sujeito sério, sisudo, mal humorado. É curioso contrapor esta imagem a das pesquisas que têm saído nos últimos anos, e que afirmam: o bom humor estimula a nossa criatividade, o impulso de fazer, a riqueza associativa. Com ânimo (com alma), as palavras se sentem convidadas a participar do jogo, e temos mais disponibilidade de experiências e repertório simbólico.Este episódio discute isso: como fazer frente a esta força inercial do desânimo, da confusão, do sentimento de "para quê", de que nada vale a pena. E quais os recursos temos à disposição para estimular este humor, para tornarmo-nos dispostos e despertos para inventar e sonhar?Inscreva-se no Prelo e no canal! Abaixo, listo as referências bibliográficas utilizadas no livro:Isen, A. M., Daubman, K. A. and Nowicki, G. P. (1987). Positive affect facilitates creative problem solving. Journal of Personality and Social Psychology, 52(6), 1122-1131.Fredrickson, B. L. and Branigan, C. (2005). Positive emotions broaden the scope of attention and thought-action repertoires. Cognition & Emotion, 19(3), 313-332.Lyubomirsky, S., King, L. and Diener, E. (2005). The benefits of frequent positive affect: does happiness lead to success? Psychological Bulletin, 131(6), 803-855.Tegano, D. W., Sawyers, J. K. and Moran, J. D. (1989). Problem-finding and solving in play: the teacher's role. Childhood Education, 66(2), 92-97. Ali Abdaal. Feel Good Productivity: How to Do More of What Matters to You
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Psicologia do Tempo Livre: como achar o seu ritmo na hora de escrever
#093 – Qual é a relação entre uma ordem monástica grega, seu modo de relacionar-se com a sociedade e a psicologia das emoções positivas para a criação literária? Como negociar e encontrar um tempo livre para a escrita de seu livro? Como transformar um obstáculo para a escrita em um ponto de reflexão e inflexão do trabalho?Obras mencionadas: Roland Barthes. Como Viver Junto. Editora Martins Fontes.Barbara L. Fredrickson. The Role of Positive Emotions in Positive Psychology. Am Psychology. 2001 Mar: 56(3); 218-226.Edgar Cabanas e Eva Illouz. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. Editora Ubu.Alex Soojung-Kim Pang. Rest: why you get more done when you work less. Basic Books.
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A escrita no cotidiano, a escrita do cotidiano
#092 – Certa vez, durante uma entrevista para a televisão, perguntaram ao consagrado diretor de filmes de suspense Alfred Hitchcock qual era a sua definição de felicidade."Um horizonte cristalino", foi o que respondeu. Nada costuma ser mais desimpedido e cristalino do que um ambiente apaziguado, tranquilo, onde você possa realizar aquilo que te estimula, que te desafia. Aquilo a que se propôs. Em uma rotina criativa, o sono, a comida, a sociabilidade, a escrita, a música, conversam e colaboram entre si. Uma rotina criativa é aquela que encontra caminhos para a calma e o cuidado, incorporando, inclusive, ansiedades e frustrações que podem desestabilizar ou até mesmo interromper a recorrência necessária da escrita. No novo episódio de Prelo, converso sobre a rotina ideal e a possível, e como escrever para si uma que seja adequada para você.
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O Trabalho Criativo
#091 – Vamos conversar sobre O Trabalho Criativo do Romance.1) Em primeiro lugar, vamos discutir a razão pela qual o romance, desde suas origens, têm fascinado o leitor moderno; o que caracteriza o romance, os seus atributos singulares e por que você deve considerar tornar-se romancista;2) Em seguida, vou analisar o percurso autoral para compreender o que nos ajuda a crescer dentro deste percurso, quais os saltos que um autor pode dar e o que você deve fazer para realizar-se neste caminho;3) Como encontrar tempo e disciplina – nesta primeira aula, vamos começar a discutir a ideia de disponibilidade e paixão, como você pode fazer para mobilizar o seu desejo sem interrupções ou titubeios.4) Por onde começar: se você está à procura de ideias e quer começar agora a escrever, como encontrar o caminho e o que você precisa saber para que o medo e a resistência não dominem o processo.
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Os 7 Pontos Cegos Mais Comuns ao Começar um Livro – E Como Superá-los
#090 – O cérebro humano é um verdadeiro milagre. Tessitura de fibras orgânicas, circuito elétrico por onde passam imagens, ideias, pensamentos, memórias visíveis e invisíveis, ele tem também o incrível poder de acobertar aquilo que não podemos ver. Um exemplo fascinante é o do nervo ótico: temos dois pontinhos nos olhos a partir dos quais não conseguimos enxergar, que é por onde passam os nervos óticos. Mas não vemos esses pontinhos! Por quê? O cérebro "edita" a visão, e substitui a mancha, que poderia nos distrair, por uma ilusão de visibilidade. É por isso que o chamamos pontos cegos. Dentre as instâncias psíquicas, o ego faz a mesma coisa. O ego é um dos responsáveis pela nossa autoimagem constante, por sentirmos que somos o tempo todo a mesma pessoa. É também o ego que cuida de nós, que busca a preservação de uma integridade identitária. O ego quer nos ver bem. Ele acolhe um conceito sempre particular de dignidade, de preservação. Ele quer o melhor para nós.O problema é que para isso, ele incorre em alguns lapsos. É por conta do ego que temos – eu, você, todo mundo – dificuldade de reconhecermos um equívoco. O ego não admite erros, porque isso fere a integridade subjetiva que construímos com tanto cuidado, e que nos parece tão frágil de vez em quando. Em alguns momentos, isso se torna uma complicação. Na hora de fazer ciência, por exemplo, ou de participar de um debate, ou de lidar com frustrações na vida amorosa. E também quando decidimos escrever um livro.Neste episódio de Prelo, falo sobre os pontos cegos mais comuns de escritores iniciantes – e como superá-los.
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ABOUT THIS SHOW
Prelo apresenta os recursos e reflexões para que escritores possam construir uma disciplina autoral, escrever o seu livro e publicar da melhor maneira possível. Se você nutre o desejo de escrever uma obra de ficção ou não-ficção: um romance, um livro de contos, uma peça de jornalismo literário, um ensaio, uma saga distópica, a narrativa de uma viagem, uma obra infantojuvenil ou um projeto autoficcional – ou se já publicou uma obra e gostaria de sanar as lacunas de sua formação –, você está no lugar certo. Prelo é um podcast quinzenal com o escritor e professor de criação literária Tiago Novaes, autor de uma variedade de livros, finalista dos maiores prêmios literários e vencedor de uma série de bolsas de criação. Combinando entrevistas com grandes escritores, editores e críticos, reflexões pessoais, leituras e experiências concretas na literatura, Prelo oferece os caminhos para que você possa vencer as bolhas do mercado editorial, compreender os segredos da Escrita Criativa e construir
HOSTED BY
Tiago Novaes
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