EPISODE · Aug 17, 2007 · 1 MIN
A MÚSICA DE SÃO PAULO (UMA MEMÓRIA PESSOAL) 1 - Zé Rodrix
from Trem de doido · host H B
Só posso falar do que vi e ouvi: o contrário disso seria impor a quem me lê uma idéia falsa do que pretendo dizer. Meninos, eu vi, mas apenas o que vi, e não falo do que não vi nem relato o que não experimentei. Se existe alguma verdade sobre a música de São Paulo, esta verdade só pode ser a sua escandalosa diversidade, tão imensa que seria impossível tentar abarcá-la, e por isso devo narrar exclusivamente os acontecimentos e as experiências musicais que assisti com meus próprios olhos, das quais participei como artista ou platéia, dando noticias de seus resultados. Aquilo que essas experiências causaram em meu caminho por esta Paulicéia desvairada, desvirada e devorada, foi-se insinuando vagarosamente em meu coração a ela avesso, tomando-o permanentemente quando eu menos esperava e tornando-se parte de mim mais do que qualquer outro lugar desse mundo. São Paulo era menos que um retrato na parede, no início da década de 60. Em minha casa carioca no bairro de Botafogo era mencionada apenas como “a cidade para onde seu pai queria ir quando saiu da Bahia”, marcando a partir dessa súbita mudança de planos, a minha naturalidade tão distante da Bahia original quanto da metrópole pujante que nunca fora alcançada. Tinha notícias vagas da existência de parentes nessa cidade, primos paulistas, como eu também fruto de uma viagem da Bahia para o sul, só que sem a desistência causada pelo encantamento da Cidade Maravilhosa que acometera meu pai à primeira visão da Praia de Copacabana. Meu tio Cantídio, quando vinha do sertão baiano para renovar o estoque de seu bazar em Brumado, sempre visitava nossa família, tão pequena aos moldes do clã dos Trindade, em que ninguém alguma vez teve menos que 11 filhos. Em casa éramos apenas três, e quando meu tio chegava com noticias dos inúmeros primos do sertão, essas noticias só tinham contraponto nas narrativas sobre os primos de São Paulo, também muitos, e da mesma forma fora de meu alcance, pela distância. Em 1961 vim a São Paulo pela primeira vez, para um Campeonato Nacional de Judô, esporte que tanto eu quanto meu pai praticávamos: minha mãe nos fez companhia nessa vigem de ônibus, por uma Dutra bem diferente da de hoje, atravessando cidades estranhas e subitamente chegando a um lugar gigantescamente avassalador. A impressão que me deu, à época, só a explico hoje: se soubesse disso, teria certamente dito estar em uma cidade só centro, sem periferia nem bairros. A temperatura, a luz invernal, as pessoas vestidas de maneira tão diversa da que eu conhecia, me puseram imediatamente em um país estrangeiro, que eu sequer tentei compreender, mas do qual me admirei muito. Meus primos moravam numa transversal da rua da Cantareira, Pedro Álvares Cabral, perto do Mercado Central, e quando lá cheguei descobri um fato alucinante: O mais velho deles, Jurandir, mais um dos inúmeros tipos meio-malucos em que a família Trindade é próspera, revelou inesperadamente ser o baterista de um conjunto de rock’n’roll chamado Jet Blacks. Foi, à moda de Manoel Bandeira, o meu primeiro alumbramento: eu era fã do grupo, um conjunto instrumental de guitarras tipo Ventures, do qual eu possuía um LP denominado TWIST COM OS JET BLACK’S, que ouvia sem parar na vitrola de casa. Jurandir se tornou, imediatamente, meu ídolo, contando histórias de artistas, shows e gravações, relatando tal intimidade com gente famosa que eu nem piscava. O mais terrível é que tudo era verdade: no meio da conversa bateram à porta e era Tony Campelo, o irmão da Cely, querendo falar com ele sobre a gravação de um disco nos dias seguintes. As roupas, os cabelos, as botas dos paulistas, eram inacreditavelmente mais fascinantes que o sotaque carregado, só antes ouvido na voz de Isaurinha Garcia, e o Campeonato de Judô se desvanesceu de minha mente como que por encanto. Não me recordo de nenhum detalhe das lutas, nem mesmo de como eu e meu pai conseguimos as medalhas que trouxemos para casa: a música que se fazia em São Paulo, a vida que vibrava em torno dessa música, passou a ser tudo que me interessava. No dia seguinte, uma sexta-feira, saímos pela tarde para “dar uma banda”, como meus primos diziam, me ensinando uma expressão nova que eu raras vezes tive coragem de usar, por considerá-la possível apenas em São Paulo. Entrei pela primeira vez na vida em um estúdio de gravação, o da antiga RGE, se não me engano, na Rua Dna. Veridiana, onde Cely Campello gravava mais um disco, lá encontrando os Titulares do Ritmo, seis cegos musicalíssimos que faziam os vocais de apoio, o saxofonista Bolão, e pude ver meu primo Jurandir abafando a caixa da bateria com a gravata que usava, para que o som ficasse mais surdo, como o Tony queria. Na saída de lá, ainda tonto, comi o primeiro hambúrguer de minha vida, numa lanchonete americanizada da Av. Angélica chamada Gonçalito. No sábado experimentei as delícias da culinária paulistana: mais um hambúrguer no Burdog, uma lanchonete do lado do cemitério do Araçá, que meu primo Biguá fez questão de afirmar ser a fonte da carne do hambúrguer que eu estava comendo. Pelo sim, pelo não, não pedi o segundo. No domingo, nosso último dia, enfrentamos uma inesquecível comida italiana em um restaurante chamado Jardim di Napoli, do qual sou freguês até hoje, acompanhando-o desde essa sede original no Viaduto Maria Paula até o lugar que hoje ocupa, em Higienópolis. Jurandir não nos acompanhou: tinha que estar na televisão, no programa do Roberto Carlos, e eu só fiquei pensando amargamente porque não tínhamos ido com ele. Nessa época nem tudo era possível, como hoje. Zé Rodrix *********** Publicado no site CAFÉ BRASIL, do Luciano Pires, onde o Zé Rodrix é um dos colaboradores. http://www.lucianopires.com.br/idealbb/view.asp?topicID=5828
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