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EPISODE · Apr 7, 2007 · 3 MIN

Ao Mar!

from Viravolta · host Viravolta

"minh'alma vibra de se elançar" Ao mar! Meu desejo sempre foi navegar Desde o Tejo ao mais distante lugar Por esse mundo de Deus Não há Terra aonde a nossa esquadra não vá Não há nada nesta Terra, quiçá Longe dos domínios meus Se mais mundo houvera, lá chegara Tanta coisa encara a minha nau Especiarias há E o mundo há de ser Um redondo e vasto Portugal Ao mar! Meu desejo sempre foi navegar Desde o Tejo ao mais distante lugar Por esse mundo de Deus Não há Terra aonde a nossa esquadra não vá Não há nada nesta Terra, quiçá Longe dos domínios meus Que haja esperança na tormenta Nossa frota enfrenta o que surgir Se orienta pela Cruz E o mundo há de ser O que a esquadra lusa descobrir Teclado [piano, cordas e baixo]: Newton Carneiro / Violino: Ana Maria Oliveira Bandolim: Roberto Araújo / Arranjo: Newton Carneiro, Rubens Nogueira e Irajá Menezes SE MAIS MUNDO HOUVERA, LÁ CHEGARA Num possível próximo disco de canções de Fran Papaterra eu daria mais ênfase às palavras e à maneira peculiar que ele tem de pronunciá-las. Neste não foi o que eu fiz. O que já de início me atraiu em suas composições foi um apurado senso formal. A inteligência de cálculos e a intuição bem treinada que vinham de seus temas ágeis e sem amarras puxavam toda minha atenção para a arrumação das partes e para a maneira de explorar os campos harmônicos. Até hoje a cada primeira escuta de qualquer canção sua me repito desse jeito. Naquela época ele estava entregue a compor músicas brasileiras: valsas, choros, sambas. Em todas elas, um indefectível acento blue evidenciava seu modo de ser harmônico, todo ele advindo da sintaxe pop de língua inglesa. Curiosamente, não havia bossa nova na música do Fran (o que não podia deixar de me causar estranheza). Seus baiões são acompanhados por acordes maiores que se movimentam paralelos como no Jimi Hendrix e seus choros têm cadências que podem lembrar The Mamas and Papas (!). É óbvio que nada do que ele compõe soa samba funk ou rock rural. A miscigenação já se deu e habita um nível mais profundo onde estruturas análogas podem se encontrar e produzir os sintomas que bem se entender. São as tríades e principalmente um tempo dilatado para as mudanças de acordes (sua maneira de compreender o tonalismo à brasileira pelo viés da balada anglo-americana) que, somados, produzem a secura harmônica que ele arma só para subverter com aquelas melodias indisciplinadas ditas num português castiço fustigado por gírias. Para quem quer entender, ele sempre conta que começou a gostar de Chico Buarque porque as letras pareciam as do Bob Dylan (!!!). Outra coisa que eu fui aprender com o curso do trabalho foi o uso que ele faz das rimas. Isso se explica por ele ser um letrista que não lê poesia. Toda sua formação de escritor vem da escuta de canções e da poesia declamada do "seu" Francisco Papaterra, pai dele. Como a canção nunca assumiu o verso livre da literatura, eu, todo acostumado às rimas brancas dos livros modernistas, me sentia meio mouco na hora de aprender as letras, desatento às nuances, inamovível na minha fissura de analisar... harmonias. Acontece que é justamente nas rimas, esse recurso da língua que nos oferece aos pares os objetos mais disparatados, que reside o aspecto mais evidente e mais profundo da obra do Fran. Sua ferramenta de trabalho por excelência, a rima revela ao mesmo tempo o controle técnico que ele exerce sobre a composição e uma maneira particular de experimentar um desejo de ordenação do caos. A heterogeneidade de elementos na música desse paulistano de Jaú traduz fielmente sua capacidade pessoal de viver as experiências mais variadas. Essa maneira generosa de transitar pela biodiversidade social está toda, acessível, de maneira clara, nas letras de suas mais de duzentas canções. Exacerbando contrastes e realçando as referências do que ele ouviu e usou na hora de compor eu quis traduzir isso musicalmente, como se misturando de maneira crua Thelonious Monk e Robert Johnson eu pudesse compartilhar da utopia de convivência dos contrários que ele não cansa de perseguir. Uma utopia lúdica, lúcida e que eu poderia chamar de quase cínica, porque trabalha por justaposição e não por síntese e que chega a me agredir, tamanha a sem-cerimônia com que ele às vezes desmonta expectativas ou faz uso premeditado de elementos que o bom senso estético refutaria de imediato. Se num próximo disco eu pudesse, daria mais ênfase às palavras e à maneira peculiar que Fran Papaterra encontrou para pronunciá-las. Neste eu me entreguei à oportunidade de me embrenhar na riqueza musical contida na composição e no imaginário de um letrista sabidamente brilhante. Como tradutor, muitas vezes fiz papel de traidor, outras tantas me expressei por idiomas que não falo, todas elas na expectativa de me expor, identicamente, através do outro, ao inverso, como nos espelhos... a voz do outro e o outro na voz. Irajá Menezes

Episode metadata supplied by the publisher feed · Published Apr 7, 2007

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