As musas obscenas. Uma conversa com Pê Feijó

EPISODE · May 24, 2024 · 2H 49M

As musas obscenas. Uma conversa com Pê Feijó

from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho

Diante deste regime cultural dos que sempre se recomendam (a si mesmos e uns aos outros), dos que em todas as situações encontram forma de capturar-nos apenas para se mostrarem infinitamente virtuosos, desses que, assim, se servem da sua virtude para masturbar os seus vícios (Michaux), somos levados a pensar no que Flaubert respondia quando lhe perguntavam que espécie de glória ambicionava mais: “A de um desmoralizador.” É um problema de inspiração, das matérias e exemplos para os quais nos voltamos, procurando sempre o teor edificante nas nossas manifestações e comportamentos. Todos se querem subversivos, mas não se livram do ranço dos valores de sempre, e rejeitam tudo o que é mais baixo, tudo isso que, por assim ser, “não pode servir em hipótese alguma para macaquear uma autoridade qualquer”. Como refere Bataille, “a matéria baixa é exterior e estranha às aspirações ideais humanas e recusa-se a deixar-se reduzir às grandes máquinas ontológicas que resultam dessas aspirações”. Os elementos degenerados ainda são apenas tolerados e mantidos sob uma apertada vigilância ou condenados à inexpressão. Todas as ficções depravadas circulam como exemplo de um excesso que se vê aproveitado pelos cursos de catequese das artes, como enunciados a serem replicados em série de forma a derrotar qualquer efeito de choque. Hoje a hipocrisia é o preço que todo o vício se vê obrigado a pagar à virtude. Como nota Claudio Magris, as formas de profanação ostensiva, tão gratas a tantas expressões artísticas, revelam-se amiúde cheias de boas intenções, e os escritores que se tomam por iconoclastas celebram o eros frente à repressão, as posturas rebeldes frente ao autoritarismo dogmático, a revolta dos marginais frente aos tutores das hierarquias sociais, e tudo isto não passa de mais outra profissão de moralidade e de bons sentimentos. Quão raros são aqueles que verdadeiramente mostram um interesse sério pelas catástrofes, por essas depressões tumultuosas e crises de angústia. Falamos tanto do inferno, mas, na verdade, muito poucos são aqueles que realmente se atrevem a fazer mais do que molhar os pés nas suas águas. Bataille nutria o maior desprezo por este tipo de artistas, e não poucas vezes exprimiu o ódio diante de um mundo que, até em presença da morte, impunha a sua pata de funcionário”, reconhecendo nos seus contemporâneos “os seres mais degradantes que jamais existiram”. Hoje o conteúdo da vida em sociedade representa uma perda constante de si, uma degradação do desejo, esse pudor diante dos próprios sonhos. “Talvez um olhar desapiedado seja hoje mais necessário do que nunca, num momento em que se foram desmoronando uma a uma as ilusões das grandes filosofias da história, persuadidas como estavam de que as contradições da realidade permitiriam a sua superação e conduziriam a um progresso ulterior”, refere Magris. E acrescenta que o devir do mundo parece agora à mercê de uma caótica e imprevisível ebulição, indiferente aos grandes projectos e perspectivas. Devemos mergulhar de novo no abismo dos nossos próprios sonhos, recuperar essa condição que ali reside em estado de cativeiro, essas criaturas humilhadas, os condenados dessa outra raça que não nos permitimos mais encarnar, essas peles que escondemos no armário. À vida para a qual nos seduzem, com os seus confortos e luxos ordinários, é preferível esta dolorosa odisseia nas trevas, onde não há repouso, mas através da qual é possível escavar esses túneis e recuperar essa lucidez escabrosa e a fraternidade sórdida entre aqueles que precisaram de se dedicar ao crime e à maldade para chegarem a reconhecer os seus rostos no espelho. Neste episódio, e para nos acompanhar nesta descida e busca desse efeito de monstruosidade e plenitude transgressiva, buscámos a companhia de Pê Feijó, alguém que para falar de si começa pela vulnerabilidade, que encara esse gozo de trabalhar com os géneros como uma forma de ventriloquismo, o qual lhe permite identificar-se não com essas composições genéricas e acomodáveis, mas com o carácter insurrecional do desconhecido.

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Consellería do Ritmo Radio Galega Tito Lesende produce e conduce unha serie de capítulos monográficos ou temáticos arredor dunha charla repousada cun artista no ámbito rock ou pop galego. Os músicos e músicas terán un espazo preferente, e poderán compartir protagonismo con outros axentes da escena musical galega: axentes, promotoras, recintos senlleiros etc. The Last Outlaws Impact Studios at UTS In a History Lab season like no other, we're pulling on the threads of one of Australia's great misunderstood histories, moving beyond the myths to learn what the Aboriginal brothers Jimmy and Joe Governor faced in both life and death.Australia's budding Federation is the background setting to this remarkable story, that sees the Governor brothers tied to the inauguration of a 'new' nation and Australia's dark history of frontier violence, racial injustice and the global trade and defilement of Aboriginal ancestral remains. This Impact Studios production is a collaboration with the Governor family, UTS Faculty of Law and Jumbunna Institute for Indigenous Education and Research.The Last Outlaws teamKatherine Biber - UTS Law Professor and Chief InvestigatorAunty Loretta Parsley - Great-granddaughter of Jimmy Governor and the Governor Family Historian Leroy Parsons - Governor descendant, Narrator and Co-WriterKaitlyn Sawrey - Host, Writer and Senior ProducerFrank Lopez - Writer, Popup Chinese Popup Chinese Fresh from Beijing, PopupChinese teaches Chinese as it is actually spoken. Start with our basic Chinese lessons, and in no time you'll be speaking like a Beijinger. Our free daily podcasts, vibrant community, and love for the real China make us the most powerful and personal way to learn mandarin. Dj Paulo Moreno Dj 🇬🇧 Sound selections born from a knowledge of cause could be a way to describe Paulo Moreno.Always connected to the music and entertainment industries, the artist had a late awakening to djing, but no less dazzling for that. It was in London that he embraced the DJ impetus and performed regularly in renowned clubs and events such as Fabric London, Fire, Área, Heaven, Club No65, Union, Egg, Coronet and the Summer Rites festival, but he didn't stop there. The following years witnessed Paulo traveling all over the world to delight all those who listen to him with his sets full of depth, versatility, and energy. Portugal brought him a residency at Kremlin nightclub who gave him international recognition, regularly playing alongside names like Dennis Ferrer, Steve Lawler, Mendo, Prok and Fitch, and Hobo, Alan Fitzpatrick, Anja Schneider, Dennis Cruz, Goncalo, Anna, just to name a few.🇵🇹 Seleções sonoras nascidas de um conhecimento de causa poderia ser uma forma de descrever Paulo Moreno.D
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