EPISODE · Jul 28, 2020 · 2 MIN
Bem me quer? Mal me quer?
from Prosas e Poesias Proletarias · host Fábio Francisco de Souza
1 Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas os dedos despedaçados um a um extraio assim tira a sorte enquanto no ar de maio caem as pétalas das margaridas Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e que a prata dos anos tinja seu perdão penso e espero que eu jamais alcance a impudente idade do bom senso 2 Passa da uma você deve estar na cama Você talvez sinta o mesmo no seu quarto Não tenho pressa Para que acordar-te com o relâmpago de mais um telegrama 3 O mar se vai o mar de sono se esvai Como se diz: o caso está enterrado a canoa do amor se quebrou no quotidiano Estamos quites Inútil o apanhado da mútua dor mútua quota de dano 4 Passa de uma você deve estar na cama À noite a Via Láctea é um Oka de prata Não tenho pressa para que acordar-te com relâmpago de mais um telegrama como se diz o caso está enterrado a canoa do amor se quebrou no quotidiano Estamos quites inútil o apanhado da mútua do mútua quota de dano Vê como tudo agora emudeceu Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu em horas como esta eu me ergo e converso com os séculos a história do universo 5 Sei o puldo das palavras a sirene das palavras Não as que se aplaudem do alto dos teatros Mas as que arrancam caixões da treva e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro Às vezes as relegam inauditas inéditas Mas a palavra galopa com a cilha tensa ressoa os séculos e os trens rastejam para lamber as mãos calosas da poesia Sei o pulso das palavras parecem fumaça Pétalas caídas sob o calcanhar da dança Mas o homem com lábios alma carcaça. (Poema de Vladimir Mayakovsky - tradução: Augusto de Campos)
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