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EPISODE · Nov 14, 2022 · 5 MIN

Canto da Poesia #11: Para vencer no Catar

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O Canto da Poesia Nós Na Fita é um programa destinado a leitura de poemas, textos e letras de músicas com o objetivo de transmitir, através das palavras e da musicalidade, uma mensagem para o nosso ouvinte, através da curadoria dos nossos jornalistas.   Nesta semana, em clima de Copa do Mundo, Leonardo Sá relembra o testemunho do grande jogador brasileiro na era amadora: Arthur Friedenreich. Na ocasião, no dia 22 de janeiro de 1966, para o jornal "O Globo", o craque escreveu sobre os rumos do futebol e também sobre as expectativas que tinha sobre o desempenho da Seleção Brasileira no Mundial daquele ano, disputado na Inglaterra. A seleção, comandada por Pelé, buscava o tricampeonato. Confira: "Quando tive a honra de defender as cores do Brasil, o futebol era simples e sem mistérios. Obedecia-se à clássica formação das três 'fatias', ou seja, defesa, meio de campo e ataque. A tarefa de cada um desses grupos era bem definida: a defesa 'limpava a área', sem se preocupar com passes. Cumpria ao meio de campo apoderar-se da bola e entregá-la ao ataque; este, avançando frontalmente, isto é, paralelamente à linha de fundo, tratava de vazar o gol do adversário. Em síntese, esse era o mecanismo da partida. Havia 'técnicos', mas sua influência na partida era relativa: os jogadores não o julgavam indispensáveis. Um dêles, que fez época - Platero - nada inventava, apenas fazia-nos correr, mas, no final das contas, nós jogadores também não estávamos muito interessados em aprender coisa alguma. Depois de 30, se não me falha a memória, apareceram novidades: as 'fatias' (defesa, meio de campo e ataque) não mais deveriam ser definidas; o ataque, por sua vez, ao invés de se desdobrar paralelamente ao fundo de campo, deveria progredir enviesado. Ainda apanhei essa fase e pude comprovar sua vantagem. Daí em diante, cada ano novos sistemas surgiram. Hoje, o futebol é coisa complicada. É comum, no segundo tempo uma equipe se comportar de maneira inteiramente diversa do primeiro tempo, devido às instruções recebidas pelos jogadores no vestiário. Tudo isso ia muito bem até um fato veio subverter o que parecia definitivo. Esse fato foi o advento dos super-jogadores. Estes, são raros, mas existem, e porque existem é o suficiente para pôr abaixo tudo quanto se havia edificado em matéria de tática de jogo. Para mim quem venceu na Suécia foi o mecanismo Garrincha–Pelé, em 1962 no Chile, mesmo sistema, sendo Amarildo a segunda peça do engenho. É preciso, portanto, montar em campo, este ano, o mesmo dispositivo, se quisermos vencer. Segundo se espera, Pelé estará à posto. Talvez nos falte a catapulta. Trataremos de encontrá-la. Estou certo, no entanto, que se Pelé entrar em todos os jogos, seremos campeões para sempre. O segredo dessa minha segurança é simples: todas as seleções tem seus ases. Mas o coringa é um só. E está com o Brasil."

O Canto da Poesia Nós Na Fita é um programa destinado a leitura de poemas, textos e letras de músicas com o objetivo de transmitir, através das palavras e da musicalidade, uma mensagem para o nosso ouvinte, através da curadoria dos nossos jornalistas.   Nesta semana, em clima de Copa do Mundo, Leonardo Sá relembra o testemunho do grande jogador brasileiro na era amadora: Arthur Friedenreich. Na ocasião, no dia 22 de janeiro de 1966, para o jornal "O Globo", o craque escreveu sobre os rumos do futebol e também sobre as expectativas que tinha sobre o desempenho da Seleção Brasileira no Mundial daquele ano, disputado na Inglaterra. A seleção, comandada por Pelé, buscava o tricampeonato. Confira: "Quando tive a honra de defender as cores do Brasil, o futebol era simples e sem mistérios. Obedecia-se à clássica formação das três 'fatias', ou seja, defesa, meio de campo e ataque. A tarefa de cada um desses grupos era bem definida: a defesa 'limpava a área', sem se preocupar com passes. Cumpria ao meio de campo apoderar-se da bola e entregá-la ao ataque; este, avançando frontalmente, isto é, paralelamente à linha de fundo, tratava de vazar o gol do adversário. Em síntese, esse era o mecanismo da partida. Havia 'técnicos', mas sua influência na partida era relativa: os jogadores não o julgavam indispensáveis. Um dêles, que fez época - Platero - nada inventava, apenas fazia-nos correr, mas, no final das contas, nós jogadores também não estávamos muito interessados em aprender coisa alguma. Depois de 30, se não me falha a memória, apareceram novidades: as 'fatias' (defesa, meio de campo e ataque) não mais deveriam ser definidas; o ataque, por sua vez, ao invés de se desdobrar paralelamente ao fundo de campo, deveria progredir enviesado. Ainda apanhei essa fase e pude comprovar sua vantagem. Daí em diante, cada ano novos sistemas surgiram. Hoje, o futebol é coisa complicada. É comum, no segundo tempo uma equipe se comportar de maneira inteiramente diversa do primeiro tempo, devido às instruções recebidas pelos jogadores no vestiário. Tudo isso ia muito bem até um fato veio subverter o que parecia definitivo. Esse fato foi o advento dos super-jogadores. Estes, são raros, mas existem, e porque existem é o suficiente para pôr abaixo tudo quanto se havia edificado em matéria de tática de jogo. Para mim quem venceu na Suécia foi o mecanismo Garrincha–Pelé, em 1962 no Chile, mesmo sistema, sendo Amarildo a segunda peça do engenho. É preciso, portanto, montar em campo, este ano, o mesmo dispositivo, se quisermos vencer. Segundo se espera, Pelé estará à posto. Talvez nos falte a catapulta. Trataremos de encontrá-la. Estou certo, no entanto, que se Pelé entrar em todos os jogos, seremos campeões para sempre. O segredo dessa minha segurança é simples: todas as seleções tem seus ases. Mas o coringa é um só. E está com o Brasil."

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