EPISODE · Jul 28, 2020 · 3 MIN
Canto quinto
from Prosas e Poesias Proletarias · host Fábio Francisco de Souza
Roubem o que lhes roubaram, tomem finalmente o que lhes pertence, ele gritou, tremendo de frio em seu casaco pequeno demais, os cabelos ondeando ao vento, sob os gavietes, estou com vocês, ele gritou, o que estão esperando? Chegou a hora, botem abaixo os tabiques, atirem os canalhas ao mar junto com suas malas, cães e lacaios, as mulheres inclusive e até as crianças, com violência, com facas, com mãos nuas! E mostrou-lhes a faca, mostrou-lhes a mão nua. Mas a gente da terceira classe, todos eles imigrantes, permanecia quieta na escuridão e tirava calmamente suas boinas da cabeça e o escutava. Quando é afinal que vocês querem se vingar, se não for agora? Ou será que não suportam ver sangue, além daquele dos seus filhos e do seu próprio? E ele esfolou seu rosto e cortou sua mão e mostrou-lhes o sangue. Mas a gente da terceira classe Escutava-o sem abrir a boca. Não porque ele não falasse lituano (ele não falava lituano); não porque estivessem bêbados (tinham havia muito esvaziado suas garrafas avelhantadas, envoltas em panos grosseiros), não porque tivessem fome (se bem que fome eles tinham): Não era nada disso. Não era tão fácil explicar. Eles bem que entendiam o que ele dizia, mas não o compreendiam. Suas palavras não eram as palavras deles. Eram consumidos por outros medos que não os dele, e por outras esperanças. Deixavam-se ficar, pacientes, com seus alforjes, seus rosários, seus filhos raquíticos junto aos tabiques; abriam espaço, escutavam-no, respeitosos, e aguardavam o momento de afogar-se. (Hanz Magnus Enzensberger)
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