Dois mil quilômetros num Aero...o quê??? ( Luiz Carlos Sá) episode artwork

EPISODE · Feb 5, 2007 · 2 MIN

Dois mil quilômetros num Aero...o quê??? ( Luiz Carlos Sá)

from Trem de doido · host H B

O italianíssimo Giovanni era de costume uma pessoa calma e bonachona. Raramente deixava transparecer aquela intensidade emocional que a gente acha ser comum a todos os habitantes da Grande Bota. Talvez ele fosse do norte, sei lá, ou quem sabe ele preferia fazer o gênero cool, que decerto seria mais condizente com um dono de boate naquela conturbada Brasília de 1967. Nossa capital federal, em seu sexto ano de existência, era uma coisa bem esquisita: atolada na poeira vermelha que entrava pelas narinas e roupas, parecia ter sido cuidadosamente deixada ali no cerrado por um Deus cansado de carregá-la nas costas. Mas como todo faroeste que se preza, Brasília era também fascinante e - atraído por esse fascínio - lá estava eu, sentado numa banqueta do palco da Cave des Rois (a boate do Giovanni) ensaiando com meu parceiro, o tecladista e arranjador Paulinho Machado, uma nova música pra colocar no show que fazíamos de terça a domingo com Beco na bateria, e... quem no baixo, meu Deus, faz tanto tempo! Dividiam o palco conosco dois cantores: a Glória, uma mulata suingadésima e o Ney, um rapaz tímido de voz estranha e carismática, que o Brasil consagraria alguns anos mais tarde com o sobrenome Matogrosso. Não entendi o porquê da súbita e esbaforida entrada do normalmente discreto Giovanni, interrompendo o ensaio aos gritos e acenos. Parando em frente ao palco, o italiano tomou fôlego e despejou: -Sá, você tem que se mandar daqui. Comecei a abrir a boca, atônito, mas ele não me deu tempo e continuou: - Sabe aqueles dois rapazes de terno que sentaram na mesa do meio ontem? – agitado, ele sacudia o dedo na direção da tal mesa. - Eu vi. Os caras não bateram palmas nenhuma vez, por isso reparei neles. - Pois é, catso! Eles eram do DOPS! Ah, o famigerado Departamento de Ordem Política e Social, os censores da ditadura. Os porões, as prisões, as torturas... - Do DOPS! – exclamamos eu e Paulinho, em uníssono. No show da noite anterior tínhamos estado particularmente empolgados e soltáramos os cachorros no golpe militar. Eu despejara boa parte do meu repertório de canções “de protesto”. O público em geral fora ao delírio, mas eu me lembrava bem dos dois mauricinhos estáticos tomando seus uísques sem mover um músculo que não os da boca. - Mas como... - Tenho gente lá dentro – respondeu Giovanni antecipando minha pergunta - Como é que você acha que a gente pode ser dono de boate nesta cidade? Fez uma pausa dramática, desta vez bem italiana do sul, e quase sussurrou: - Eles vêm atrás do Sá aqui hoje à noite. Vão esperar ele cantar aquela música do cangaceiro... - Atrás só do Sá... e nós? Perguntou Paulinho - Foi uma música aí de cangaceiro que o Sá cantou que deixou os caras irados! - A “Cantiga Cabra do Cão” – murmurei. Era uma parceria minha com Chico de Assis de letra particularmente virulenta... - Isso! Aí vão te levar em cana. Suei frio. DOPS em Brasília era coisa feia. Começamos imediatamente a fazer os planos para a minha retirada. Era uma da tarde. Rodoviária já! Giovanni nos levou ao apartamento do Paulinho, onde eu estava hospedado. Arrumei a mala em tempo recorde. Antes das duas já estávamos na rodoviária. Mas havia alguma coisa estranha no ar. As pessoas se acotovelavam à boca dos guichês, discutindo e gesticulando. Cheguei mais perto e perguntei a um senhor de óculos que parecia angustiado com alguma coisa: - O que é que está havendo? - Não tem nada saindo pra lugar nenhum – falou ele – A chuva acabou com um monte de estrada por aí. Tem barreira caindo, cidade sendo inundada, rio transbordando... Um caos total! Lembrei-me das notícias que eu lera no jornal da véspera. Tragédias no Rio. Inundações em Minas. Mas eu não previra que as coisas fossem chegar naquele ponto. - Pra lugar nenhum mesmo? - Bom pra umas cidades aqui perto ainda vai... Mas pra Rio, São Paulo e BH não sai nada. Olhei pro Paulinho, desanimado. Giovanni foi rápido: - Já pro Aeroporto! Isso dito, isso feito. Lá nos fomos. Mas no Aeroporto o caos era idêntico. Em 67, no Brasil, avião com radar ainda era uma certa exceção. Com o tempo péssimo nas capitais do sudeste, os vôos estavam sem previsão de partida. E mesmo que saíssem, com a confusão nas estradas, já estavam todos lotados pelos próximos dias. Saí do meio daquela muvuca e fui sentar, já pensando em pegar um táxi pra Goiânia só pra me livrar da amável visita que os dois amiguinhos de terno certamente quereriam me fazer. Rolava uma conversa entre dois sujeitos ao meu lado que me chamou a atenção: - Não posso ficar aqui parado não, rapá! – dizia o mais afobado, gordinho, meio careca, com a cara avermelhada e um inconfundível sotaque carioca. - Mas vamos sair de que jeito? – respondeu o outro, magrelo, alto e bigodudo, de terno sem gravata. Pareciam uma versão cabocla de Laurel & Hardy. - Já te falei. Vamos de carro. A gente passa por Goiânia, sai pelo interior de São Paulo, entra em Campinas, corta pela Dom Pedro e já sai depois de Jacareí. A Dutra só não dá passagem perto de São Paulo. De Jacareí em diante já vamos direto pro Rio. - São o quê... quase dois mil quilômetros! Eu não dirijo. Como é que você vai segurar essa onda tendo que estar no Rio amanhã à noite? Antes que eu pudesse detê-la, minha pessoa já estava de pé em frente ao gordinho despejando duzentos argumentos por segundo a favor da minha imprescindível presença naquele plano deles: eu dirigia, eu rachava a gasolina, eu tinha que estar no Rio na noite seguinte (mentiiiiira!), eu era o máximo, eu isso, eu aquilo. Gordo e Magro dobraram-se à minha imodesta enxurrada. Meia hora depois eu me despedia de Paulinho e Giovanni, deixando abraços pra banda, Ney e Glória e embarcava no Aero Willys do gordinho. O que seria um Aero-Willys? – pergunta você, a não ser que tenha boa memória ancestral ou seja um fanático colecionador de velharias nacionais automotivas. O Aero-Willys era um dos primeiros carros fabricados por aqui. Queixo-duro, motor de jipe, banco inteiriço na frente, três marchas na coluna de direção, ruim de curva... carro de tio! O Gordinho saiu pilotando, comigo ao lado e com o Magro e um outro caroneiro de última hora atrás. Nos primeiros duzentos quilômetros, Gordinho já cabeceava. Assumi a barca debaixo de tempestade. O Aero bailava como uma dançarina tailandesa, aquaplanando à vontade nas intermináveis baixadas goianas. A noite fechou e visto que o Gordo, o Magro e o outro carona roncavam com os anjos, continuei na pilotagem. Quando a manhã chegou já estávamos no estado de São Paulo. O Aero arfava, exausto, mas eu não lhe dava trégua: pé no fundo o tempo todo. Paramos num posto pra abastecer e a turma acordou. Gordinho pegou o volante e saiu fazendo aquilo que eu chamo de “ultrapassagens de cadáver”. Enxergasse ou não, ele mandava bala. Duzentos outros quilômetros depois do posto pedi arrego: - Deixa que eu levo... Gordinho não se fez de rogado: passou pro banco de trás, pôs o Magro pra frente e partiu direto pra sua terceira fase de meditação astral, morto para este mundo. O Magro desandou a falar e me manteve acordado. Aí vimos o aviso na placa: “pedágio a 500 metros ”. - Tem troco aí? – perguntei ao Magro. - Troco? - É, pra pagar o pedágio. - Vedágio? Me veio a luz. O Magro não sabia o que era pedágio. Aliás, pedágio no Brasil em 67 só mesmo ali na Anhanguera. Expliquei o caso pra ele, que puxou umas moedas do bolso. Peguei as moedas, abri o vidro, reduzi pra segunda e pisei no freio. Lembro até hoje da cara perplexa do caixa ao ver aquele Aero-Willys passando direto com o motorista tentando inutilmente atirar as moedas pra dentro da cabine. Meu pé foi até o fundo e o freio... nada! Aí percebi que tinha deixado acionado o freio de mão. Explico: nesses carros velhos o circuito era único. Se você esquecia o freio de mão puxado, o de pé acabava. E lá fui eu, reduzindo no tempo que nem louco naquele queixo-duro miserável. Parei uns cem metros adiante, vendo a patrulha rodoviária chegar pelo retrovisor. Tudo explicado, pedágio pago, seguimos em frente. O episódio não abalou em nada a paz absoluta do Gordinho, que seguiu roncando e – graças a São Cristóvão – não fez menção de querer dirigir. Seguimos eu e o Magro em interminável conversa até um Rio de Janeiro completamente arrasado por chuvas e enchentes. Eles me deixaram na porta de casa e nos juramos amizade eterna em honra de nossa aventura. Jamais reencontrei o Gordo, o Magro ou o carona, de quem sequer o nome eu soube. Mas sabe Deus do que eles e aquele improvável Aero-Willys me livraram a cara... Crônica publicada na revista Backstage **Em breve o Blog do Sá!!** ***** Pra escutar: Inaiá ( ao Vivo em 1966)

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O italianíssimo Giovanni era de costume uma pessoa calma e bonachona. Raramente deixava transparecer aquela intensidade emocional que a gente acha ser comum a todos os habitantes da Grande Bota. Talvez ele fosse do norte, sei lá, ou quem sabe ele preferia fazer o gênero cool, que decerto seria mais condizente com um dono de boate naquela conturbada Brasília de 1967. Nossa capital federal, em seu sexto ano de existência, era uma coisa bem esquisita: atolada na poeira vermelha que entrava pelas narinas e roupas, parecia ter sido cuidadosamente deixada ali no cerrado por um Deus cansado de carregá-la nas costas. Mas como todo faroeste que se preza, Brasília era também fascinante e - atraído por esse fascínio - lá estava eu, sentado numa banqueta do palco da Cave des Rois (a boate do Giovanni) ensaiando com meu parceiro, o tecladista e arranjador Paulinho Machado, uma nova música pra colocar no show que fazíamos de terça a domingo com Beco na bateria, e... quem no baixo, meu Deus, faz tanto tempo! Dividiam o palco conosco dois cantores: a Glória, uma mulata suingadésima e o Ney, um rapaz tímido de voz estranha e carismática, que o Brasil consagraria alguns anos mais tarde com o sobrenome Matogrosso. Não entendi o porquê da súbita e esbaforida entrada do normalmente discreto Giovanni, interrompendo o ensaio aos gritos e acenos. Parando em frente ao palco, o italiano tomou fôlego e despejou: -Sá, você tem que se mandar daqui. Comecei a abrir a boca, atônito, mas ele não me deu tempo e continuou: - Sabe aqueles dois rapazes de terno que sentaram na mesa do meio ontem? – agitado, ele sacudia o dedo na direção da tal mesa. - Eu vi. Os caras não bateram palmas nenhuma vez, por isso reparei neles. - Pois é, catso! Eles eram do DOPS! Ah, o famigerado Departamento de Ordem Política e Social, os censores da ditadura. Os porões, as prisões, as torturas... - Do DOPS! – exclamamos eu e Paulinho, em uníssono. No show da noite anterior tínhamos estado particularmente empolgados e soltáramos os cachorros no golpe militar. Eu despejara boa parte do meu repertório de canções “de protesto”. O público em geral fora ao delírio, mas eu me lembrava bem dos dois mauricinhos estáticos tomando seus uísques sem mover um músculo que não os da boca. - Mas como... - Tenho gente lá dentro – respondeu Giovanni antecipando minha pergunta - Como é que você acha que a gente pode ser dono de boate nesta cidade? Fez uma pausa dramática, desta vez bem italiana do sul, e quase sussurrou: - Eles vêm atrás do Sá aqui hoje à noite. Vão esperar ele cantar aquela música do cangaceiro... - Atrás só do Sá... e nós? Perguntou Paulinho - Foi uma música aí de cangaceiro que o Sá cantou que deixou os caras irados! - A “Cantiga Cabra do Cão” – murmurei. Era uma parceria minha com Chico de Assis de letra particularmente virulenta... - Isso! Aí vão te levar em cana. Suei frio. DOPS em Brasília era coisa feia. Começamos imediatamente a fazer os planos para a minha retirada. Era uma da tarde. Rodoviária já! Giovanni nos levou ao apartamento do Paulinho, onde eu estava hospedado. Arrumei a mala em tempo recorde. Antes das duas já estávamos na rodoviária. Mas havia alguma coisa estranha no ar. As pessoas se acotovelavam à boca dos guichês, discutindo e gesticulando. Cheguei mais perto e perguntei a um senhor de óculos que parecia angustiado com alguma coisa: - O que é que está havendo? - Não tem nada saindo pra lugar nenhum – falou ele – A chuva acabou com um monte de estrada por aí. Tem barreira caindo, cidade sendo inundada, rio transbordando... Um caos total! Lembrei-me das notícias que eu lera no jornal da véspera. Tragédias no Rio. Inundações em Minas. Mas eu não previra que as coisas fossem chegar naquele ponto. - Pra lugar nenhum mesmo? - Bom pra umas cidades aqui perto ainda vai... Mas pra Rio, São Paulo e BH não sai nada. Olhei (continued)

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