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EPISODE · Jun 4, 2020 · 20 MIN

Drummondiando #2 - "O boi" e "Um boi vê os homens", de Carlos Drummond de Andrade

from Didocast - Podcast de Literatura da Didosseia · host Helissa Soares

Dando continuidade à série "Drummondiando", no vídeo de hoje, faço um comentário acerca do poema "Um boi vê os homens", do livro "Claro enigma", em diálogo com o poema "O boi", do livro "José".O BOI(Carlos Drummond de Andrade) Ó solidão do boi no campo,ó solidão do homem na rua!Entre carros, trens, telefones,Entre gritos, o ermo profundo. Ó solidão do boi no campo,Ó milhões sofrendo sem praga!Se há noite ou sol, é indiferente,A escuridão rompe com o dia. Ó solidão do boi no campo,Homens torcendo-se calados!A cidade é inexplicávelE as casas não têm sentido algum. Ó solidão do boi no campo!O navio-fantasma passaEm silêncio na rua cheia.Se uma tempestade de amor caísse!As mãos unidas, a vida salva…Mas o tempo é firme. O boi é só.No campo imenso a torre de petróleo.UM BOI VÊ OS HOMENS(Carlos Drummond de Andrade) Tão delicados (mais que um arbusto) e correme correm de um para outro lado, sempre esquecidosde alguma coisa. Certamente, falta-lhesnão sei que atributo essencial, posto se apresentem nobrese graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutamnem o canto do ar nem os segredos do feno,como também parecem não enxergar o que é visívele comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristese no rasto da tristeza chegam à crueldade.Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-sea um simples baixar de cílios, a uma sombra.Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,e como neles há pouca montanha,e que secura e que reentrâncias e queimpossibilidade de se organizarem em formas calmas,permanentes e necessárias. Têm, talvez,certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazemperdoar a agitação incômoda e o translúcidovazio interior que os torna tão pobres e carecidosde emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campocomo pedras aflitas e queimam a erva e a água,e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

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