EPISODE · Dec 30, 2021 · 13 MIN
Inédita Pamonha #89 - A arte de ser humano
from Podcasts do Clóvis · host Clóvis de Barros
Clóvis fala sobre arte, técnica e natureza e propõe uma reflexão para o final de ano. Jorge Luis Borges – João 1,14 Não será menos enigmática esta página que as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetem as bocas ignorantes, por julgá-las de um homem, não espelhos obscuros do Espírito. Eu que sou o É, o Foi e o Será torno a condescender com a linguagem, que é tempo sucessivo e emblema. Quem brinca com um menino brinca com algo próximo e misterioso; eu quis brincar com Meus filhos. Estive entre eles com assombro e ternura. Por obra de magia nasci curiosamente de um ventre. Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpo e na humildade de uma alma. Conheci a memória, essa moeda que não é nunca a mesma. Conheci a esperança e o temor, esses dois rostos do incerto futuro. Conheci a vigília, o sono, os sonhos, a ignorância, a carne, os torpes labirintos da razão, a amizade dos homens, a misteriosa devoção dos cães. Fui amado, compreendido, louvado e pendi de uma cruz. Bebi o cálice até as fezes. Vi por Meus olhos o que nunca havia visto: a noite e suas estrelas. Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero, o sabor do mel e da maçã, a água na garganta da sede, o peso de um metal na palma, a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva, o odor da chuva na Galileia, o alto grito dos pássaros. Conheci também a amargura. Encomendei esta escrita a um homem qualquer; nunca será o que desejo dizer, não deixará de ser seu reflexo. De Minha eternidade caem estes signos. Que outro, não o que é agora seu amanuense, escreva o poema. Amanhã serei um tigre entre os tigres e predicarei Minha lei a sua selva, ou uma grande árvore na Ásia. Às vezes penso com nostalgia no odor dessa carpintaria. Para mais informações sobre o Inédita Pamonha e conteúdos complementares ao episódio, acesse: www.revistainspirec.com.br
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Clóvis fala sobre arte, técnica e natureza e propõe uma reflexão para o final de ano. Jorge Luis Borges – João 1,14 Não será menos enigmática esta página que as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetem as bocas ignorantes, por julgá-las de um homem, não espelhos obscuros do Espírito. Eu que sou o É, o Foi e o Será torno a condescender com a linguagem, que é tempo sucessivo e emblema. Quem brinca com um menino brinca com algo próximo e misterioso; eu quis brincar com Meus filhos. Estive entre eles com assombro e ternura. Por obra de magia nasci curiosamente de um ventre. Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpo e na humildade de uma alma. Conheci a memória, essa moeda que não é nunca a mesma. Conheci a esperança e o temor, esses dois rostos do incerto futuro. Conheci a vigília, o sono, os sonhos, a ignorância, a carne, os torpes labirintos da razão, a amizade dos homens, a misteriosa devoção dos cães. Fui amado, compreendido, louvado e pendi de uma cruz. Bebi o cálice até as fezes. Vi por Meus olhos o que nunca havia visto: a noite e suas estrelas. Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero, o sabor do mel e da maçã, a água na garganta da sede, o peso de um metal na palma, a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva, o odor da chuva na Galileia, o alto grito dos pássaros. Conheci também a amargura. Encomendei esta escrita a um homem qualquer; nunca será o que desejo dizer, não deixará de ser seu reflexo. De Minha eternidade caem estes signos. Que outro, não o que é agora seu amanuense, escreva o poema. Amanhã serei um tigre entre os tigres e predicarei Minha lei a sua selva, ou uma grande árvore na Ásia. Às vezes penso com nostalgia no odor dessa carpintaria. Para mais informações sobre o Inédita Pamonha e conteúdos complementares ao episódio, acesse: www.revistainspirec.com.br
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