O Apocalipse Alegre (Remix). Uma conversa com Ana Maria Pereirinha episode artwork

EPISODE · Nov 1, 2024 · 3H 18M

O Apocalipse Alegre (Remix). Uma conversa com Ana Maria Pereirinha

from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho

A morte não é mistério nenhum, já o facto de os vivos hoje terem tornado a vida tão insípida que os espíritos do passado se recusam a renascer, isso sim deve angustiar-nos. Perdemos o direito às repetições capazes de produzir alguma harmonia a partir da textura do quotidiano. O próprio tempo parece ter visto a sua natureza mudar, e a duração deixou de ser sentida como no estado normal das coisas. Hoje somos existências em suspenso, e mesmo os eventos mais drásticos não chegam para nos transtornar verdadeiramente. Diante da catástrofe, empanturramo-nos. Paul Valéry, no breve ensaio publicado entre nós com o título "O Governo da Máquina", fala numa crise da Inteligência, uma crise de todas as faculdades do espírito mediano, e instiga-nos a investigarmos em que sentido a vida moderna, os maquinismos obrigatórios desta vida e os hábitos que nos impõe podem modificar, por um lado, a fisiologia do nosso espírito, todas as nossas percepções e, sobretudo, o que fazemos com as nossas percepções ou no que estas se tornam em nós. Ainda pior que o desespero, é o apagamento desses sinais de vida, dessas inversões súbitas, dos gestos que reviram o sentido da história em que vínhamos embalados e produzem o inesperado. Estamos gastos por usos e para fins em relação aos quais nem demos o nosso acordo nem fomos consultados. Limitámo-nos a permitir que o estado de coisas se nos impusesse. Valéry entende que, se o lazer aparente ainda existe, perdemos o lazer interior… “Perdemos esta paz essencial das profundezas do ser, esta ausência inestimável durante a qual os elementos mais delicados da vida se refrescam e se revigoram. Somos banhados pelo esquecimento total; lavamo-nos do passado, do futuro, da consciência clara e premente, da presença implícita e confusa das obrigações suspensas e das expectativas que espreitam.” Um dia destes deixaremos sequer de perguntar quanto ao que podemos fazer para mudar o rumo das coisas. O carácter de um homem diluir-se-á juntamente com o seu destino à medida que deixa de poder afectá-lo. Mas durante muito tempo houve um bom número de canalhas que não se eximiam, ao abandonarem qualquer esperança de transformar o mundo, de pelo menos deixarem um rastro de devastação nesses actos desesperados. “Fugir, sim, mas no momento da fuga empunhar uma arma” (Deleuze). Mas hoje a máquina começa a ser o verdadeiro actor do nosso tempo. Ela mergulhou os seus circuitos em nós e empurrou-nos para uma frequência em que qualquer dos nossos impulsos se vê seduzido e dominado, absorvido por ela. Continuamos a usar termos como resistência ou revolução, mas a iniciativa foi perdida para a máquina. É esta quem programa todos os aspectos das nossas vidas, estende o seu horizonte e articula todos os domínios através da sua eficácia esmagadora. A alma começa a parecer-se cada vez mais com um algoritmo. Perante o efeito de intoxicação pela pressa que Valéry diagnosticou nas nossas sociedades há um século, este poeta-filósofo notou como “das inteligências vivas, umas gastam-se a servir a máquina, outras a construí-la, outras ainda a planear ou a preparar uma mais potente; uma última categoria de espíritos gasta-se a tentar escapar ao domínio da máquina”. E acrescenta que “estas inteligência rebeldes sentem, com horror, que o todo completo e autónomo que era o espírito dos antigos é substituído por um qualquer daimon inferior que só pode colaborar, aglomerar-se, encontrar o seu sossego na dependência, a sua felicidade num sistema fechado que se fechará tanto mais sobre si mesmo quanto mais exactamente criado por nós e para nós”. Mas e podemos lutar ainda por alguma coisa? Para Valéry é preferível recuar e voltar a pensar. Ele entendia que não se trata de resolver estes problemas, porque talvez o grande vício tenha nascido desse abandono, desse pacto estabelecido com as máquinas e que não é substancialmente diferente dos terríveis compromissos que o sistema nervoso faz com os demónios subtis da classe das drogas. “Quanto mais a máquina nos parece útil, mas útil se torna; quanto mais útil se torna, mais nos tornamos incompletos, incapazes de nos privarmos dela.” Não estamos apenas a transformar-nos noutra coisa. Estamos a deixar de ser o que quer que tenhamos sido até aqui, ao ponto desses espectros já nem saberem como exercer alguma pressão sobre nós. O passado está a sentir o sinal perder-se, a tradução a tornar-se cada vez mais débil, como um morse que persistisse já sem ouvidos que o soubessem interpretar. Para falarmos sobre os limites e as dificuldades que a tarefa do tradutor comporta, sobre erosão desta e doutras profissões liberais, sobre a tão ameaçada classe ligada às actividades da inteligência ou do espírito, sobre as ocupações desses indivíduos indefinidos, e cuja acção tem muitas vezes um alcance incomensurável, pedimos a Ana Maria Pereirinha para partilhar connosco as anotações que foi fazendo no seu dossier de pautas, isto ao fim de décadas em que tem estado ligada aos vários momentos e dimensões da vida editorial, estando hoje dedicada à tradução de textos e obras literárias. Colhendo cacos e escolhos, comparando fragmentos, tentando alcançar uns palmos sobre aquilo que se adivinha, começou a ficar claro que tudo aquilo que ainda somos capazes de recordar nos dá uma medida do que já perdemos ou estamos prestes a perder.

Ana Maria Pereirinha, Tradução, Colectivo de Tradutores Literários, Livros, Edição, Paul Valéry, O Governo da Máquina, Walter Benjamin

NOW PLAYING

O Apocalipse Alegre (Remix). Uma conversa com Ana Maria Pereirinha

0:00 3:18:34

No transcript for this episode yet

We transcribe on demand. Request one and we'll notify you when it's ready — usually under 10 minutes.

The Course Mentors Podcast The Course Mentors Hey there, future course creator!Ever feel like turning your know-how into an online course is like trying to solve a Rubik's cube blindfolded? Well, grab your headphones because "The Course Mentors Podcast" is here to be your secret weapon!Meet Aimee and Odette (that's us!), your new best friends in the course creation world. We've been in the trenches for over a decade, and for the last five years, we've been rocking the online course space. Now we're here to spill all our secrets in bite-sized, 15-20 minute episodes that'll fit perfectly in your coffee breaks.No fluff, no filler - just real, actionable advice that'll take you from "um, what's a landing page?" to "holy moly, I just hit six figures!". We're talking everything from crafting your course to marketing it like a pro and building a business that'll have you pinching yourself.Whether you're dreaming of ditching the 9-to-5 grind, adding a sweet extra income str Two Recruiters: Zero Filter Two Recruiters At Two Recruiters: Zero Filter, we're on a mission to demystify the hiring process, share insider tips, and empower you to maneuver through the professional world with confidence. With more than 30 years of combined experience navigating the intricate web of job markets, talent acquisition, and career development, we're here to spill the tea on everything career related. But wait, there’s more! We will dive into many life topics that are interesting to us as well.  Get ready for a rollercoaster of insights, stories, and no-holds-barred advice!Join us for conversations that matter – where work, life, and authenticity collide in the most unexpected and rewarding ways. The Brackenfield Records Anvil Audio Productions An off-beat homage to classic radio detectives of the 1940s and '50s, The Brackenfield Records offers comforting genre fare, sitting somewhere between cosy and hard-boiled crime fiction.Whether it's dealing with unfaithful spouses, off-the-rails celebrities, crooked businesspeople, or gun-toting no-gooders, Brackenfield never falters! 繁盛店にしたいなら私の話を聞きなさい! K-MIX KIKURA 静岡市のチーズケーキ専門店『すずとら』創業者、現在は夫婦で経営する『ITAMAE朝太郎』の女将である小川陽子が、悩める女性店舗経営者に送る応援型ポッドキャストです。美容サロン、飲食店、物販など様々な店舗を起業した経験から、今までの失敗談を含めてあなたの起業・店舗経営に役立つ魔法のエッセンスをズバッとお伝えします。番組へのメッセージやご感想は公式LINEかメルマガへお気軽にご連絡ください。公式LINE:https://kiby8fuo.autosns.app/line公式メルマガ:https://1lejend.com/stepmail/kd.php?no=IRnMelaqEvInstagram:https://www.instagram.com/yokoneko0829YouTube:https://youtube.com/@user-hx4ge5kt2g▼MC:小川陽子㈱ベルエキップ・プラス代表取締役。美容、カフェ業を経て50歳を機に洋菓子店を事業売却。店舗ビジネス20年4事業10店舗実績。売れて信頼されるロングセラービジネス法で女性店舗経営者をサポート。宅建士。

Frequently Asked Questions

How long is this episode of Enterrados no Jardim?

This episode is 3 hours and 18 minutes long.

When was this Enterrados no Jardim episode published?

This episode was published on November 1, 2024.

What is this episode about?

A morte não é mistério nenhum, já o facto de os vivos hoje terem tornado a vida tão insípida que os espíritos do passado se recusam a renascer, isso sim deve angustiar-nos. Perdemos o direito às repetições capazes de produzir alguma...

Can I download this Enterrados no Jardim episode?

Yes, you can download this episode by clicking the download button on the episode player, or subscribe to the podcast in your preferred podcast app for automatic downloads.
URL copied to clipboard!