EPISODE · Jan 30, 2022 · 5 MIN
O corredor da Morte
from Cuida De Mim · host Marfiza de França
O corredor da Morte Sabemos tão pouco a respeito da vida... passamos os dias correndo atrás de motivos que justifiquem, ou esgotem todos os minutos que nos restam. Estamos condenados a viver, embora nosso coração insista em acreditar que nascemos para brilhar. Aos poucos nosso palco transforma-se em um "corredor da morte", e passamos os dias à espera do carrasco que anunciará, finalmente, o nosso último dia. Criamos uma rotina baseada em regras e modelos inventados por pessoas que nunca olharam em nossos olhos, ou pararam para ouvir um pouco da nossa história e sonhos, só para não enlouquecermos de medo das nossas possibilidades, ou da nossa grandiosa insignificância. Inventamos sonhos pequenos, possíveis, que se encaixem perfeitamente na expectativa daqueles que sonham por nós; inventamos metas e projetos para conferir um significado a este instante longo entre a chegada e a execução. Viver é esperar... Distraímos nosso coração enfeitando a cela e chamando-a de lar; inventamos histórias de amor, para não desesperarmos com a angustiante espera. Chamamos nosso carrasco de "Destino" e o juiz, de Deus. Aceitamos a nossa pena porque não ousamos questionar o "respeitável tribunal"; ansiamos pela prorrogação da sentença, mas não ousamos sonhar com a absolvição, pois não conhecermos a real dimensão da nossa Inocência. Somos seres conformados, delicados demais para gritar por justiça, ou por felicidade, aliás, a nossa polidez e insegurança talvez sejam os maiores aliados de nossos algozes. Temos vergonha... de chutar as grades e arrancar as algemas, porque isso pode deixar feridas que não cicatrizarão; ou gritar mais alto que o carcereiro, pois estamos acostumados a silenciar para não provocar os nossos medos; ou rejeitar a comida podre, por medo de morrermos de fome... Somos seres dóceis, que se adaptam com muita facilidade à dor, à punição, à espera interminável, à infelicidade mansa e silenciosa (se ela for barulhenta e nos denunciar, damos um jeito de calar seus gritos), à humilhação, às limitações impostas e às mentiras inventadas por nós mesmos, para disfarçar tudo isso. Não nos acreditamos feitos para os jardins, preferimos os quartos seguros, com paredes grossas e grades nas janelas. Não ousamos almejar um mundo sem cercas, pois nossa meta é uma corrente mais longa e uma coleira menos apertada. Não nos permitimos a poesia, optamos por respostas "coerentes" e enquadradas na lógica dos pequenos arquitetos deste universo. Sentimos muito e aprendemos, desde cedo, a não manifestar nossos sentimentos, para não denunciar nossa fragilidade. Queremos possuir coisas, ainda que saibamos que tudo ficará "guardado" em "lugar seguro" pelo carcereiro para, posteriormente ser entregue aos nossos familiares; essa certeza nos conforta e nos dá mais coragem para caminharmos em direção à dose letal. Fingimos o tempo todo, que tudo será para sempre e no último instante, o veneno abrirá as portas da Eternidade e, milagrosamente, venceremos a morte, sairemos vitoriosos... como se morrer fosse uma maneira de vencermos a vida. Só esquecemos de que desenhar o projeto da Vida com as próprias mãos, e executar esse projeto apaixonadamente é a única maneira de vencermos a Morte. Viver é realizar... Texto: Míriam Morata Narração: Marfiza de França
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