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EPISODE · Jun 26, 2026 · 4H 37M

Os arquitectos da guerra que virá. Uma conversa com Marta Lança

from Enterrados no Jardim · host Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho

«Por toda a parte, armadilhas para lobos, cães perigosos, arame farpado, vidros partidos, fundos de garrafas, código civil: se alguma coisa lhes parece verdadeiramente amável é o letreiro: Proibido passar. (…) Estão nas suas tocas, o tempo todo a defender a sua propriedade contra os proprietários dos arredores e a Propriedade contra os que não possuem nada.» Estou a ler de um manuscrito que facilmente se teria perdido, uma dessas vozes subtis e geladas, segundo um amigo de Paul Nizan, um desses que confessou como depois da sua morte, mesmo aqueles que tinham sido seus cúmplices só não o liquidaram moralmente porque não encontraram uma maneira de o fazer, e foi a juventude que surgiu depois deles, esses que estavam encantados com as suas belas almas («inchados com essa flatulência a que chamamos a nossa alma»), essa belas almas embevecidas consigo mesmas e que significam a morte dos outros. Um tempo não muito diferente deste, em que os intelectuais estão de tal modo convencidos das suas virtudes que não chegam a compreender como estas os condenam à sua radical impotência. Mas ali, diante dos escritos daquele que tomaram como uma bala perdida, alguém que fez as suas acusações e assumiu a conveniência de se achar morto com apenas 35 anos, tendo desaparecido da vista num desses territórios que se usavam para apontar aquele limite para lá do qual a imaginação não vai já dar-se ao trabalho de se pôr a retirar daí grandes ilações. Mas Nizan, esse que escreveu nos seus livros que um burguês francês, passados quarenta anos, não passa de uma carcaça, revelou ser um «mau morto», cuja delicada gargalhada ficou a ressoar. «Nizan era um desmancha-prazeres», diz-nos Sarte. «Gritava às armas, apelava para o ódio: classe contra classe; com um inimigo paciente e mortífero, não tem contemplações; matar ou fazer-se matar: nada de meio termo. E nunca dormir. Repetiu toda a sua vida, com a sua graciosa insolência, olhando as unhas: não acreditem no Pai Natal.» Por cá, continuamos a acreditar no que for preciso. E o pior é quando fingimos levar-nos a sério, e procuramos condicionar o nosso pensamento, em vez de segui-lo, deixar que este nos surpreenda, nos aterrorize com as suas suspeitas. A literatura digna desse nome consegue, no entanto, recordar-nos que o que importa é estar na companhia daqueles que se recusam a fazer batota, censurando certas intuições. Anima aquela juventude impiedosa dar umas horas a esses escritores que parecem ser conduzidos contra a sua vontade a zonas tenebrosas, porque, de outra forma, que risco estaria envolvido neste jogo em que é suposto os meios revoltarem-se contra os fins. Talvez por isso, desde há algumas décadas, os leitores que não procuram simplesmente «cultivar-se», exibir uma bela alma, esses furtam-se aos géneros maiores, aos percursos orientados, cheios de tabuletas para que ninguém se desvie, e reconhecem que «os pensamentos mais audaciosos e honestos não têm origem nas obras sérias, mas nas obras frívolas, que têm por carácter distintivo o facto de dispensarem os seus autores de assumirem a responsabilidade dos seus ditos», anota Benjamin Fondane, um poeta quase milagroso praticamente esquecido, soterrado debaixo de tantas nulidades tão enfáticas. Deportado para Auschwitz, parece que procurou definhar cimentando amizades e distraindo-se da penúria e do horror sobre poesia e filosofia. «Se como e bebo/ o mundo incomestível/ do que haveria de ter medo? (…) Se bebo a minha sede/ e como a minha fome/ sob que epitáfio dormirei por fim?» Hoje, os poetas, vivendo existências estéreis nas suas gorjetas e respeitos, são esses mesmos canalhas que aparecem sempre a exaltar a cultura, o humanismo, e, por isso, daquilo que escrevem não se aproveita nada, nada que sirva a uma inversão, um consumo de ódio, não fazem outra coisa senão rebaixar o mundo aos seus reflexos mais viscosos. E se tanta gente por estes dias se indaga sobre a ineficácia do dito «espaço público», não é difícil deixar de apontar como este foi submetido à flatulência dessas almas a quem a actualidade tanto obceca, mas que, no entanto, precisam pedir licença a todo o momento para formular juízos fora do constrangimento social, dessa forma aberrante de discutir esta incessante perda de mundos segundo um regime de «moderação». «Propunham vocês, a fim de concertar as coisas, que se aumentasse a dose de razão? Talvez fosse preferível pensar numa cura de desintoxicação… Se o doente é cínico, talvez isso suceda por a sua educação ter sido demasiado hipócrita”, escreve Fondane. E Nizan prossegue: «Que vocês tenham uma acção ou mil, o número já não conta. Toda a sua baixeza, todo o seu peso, toda a sua ausência de humanidade provém dessa passagem de limites. Já não defendem a sua vida, mas um lucro luxuoso e a ideia que ele dá da sua importância. A própria grandeza desse lucro não entra em linha de conta. Podem chegar a ser cruéis. Sacrificam tudo a favor da ordem que lhes garante esse lucro e lhes assegura a permanência da sua transformação mística de trabalhadores em rentistas. Se bem que esses lucros não ocasionem nenhuma satisfação concreta. Um lucro compra objectos: ele só se manifesta por uma compra. Essas compras estão mortas, esses objectos são dos que se possuem gastos até à corda: engendram uma doença, falsos desejos. Para tirar prazer dos seus lucros, para tornar os seus lucros sensíveis à sua própria consciência, um homem não poderia matamorfoseá-los senão em atestados da sua solidão e do seu poder. As satisfações mais simples apenas lhe acontecem no instante em que provocam o dispêndio de um lucro: um burguês não se vai tratar ao hospital, mas gosta de pagar ao seu médico. Sofre por a mulher que ele ama ser gratuita: quer pagá-la. O único objectivo é dominar com um poder de compra, que faz com que o comprador seja invejado e esmague outros homens. Esse poder também pode ser reduzido quanto se quiser. Assim, o desprezo que suportam, a inveja que provocam são os sentimentos da sua vida. Não se sentem viver, se ninguém os inveja ou odeia. Ficam contentes com isso, porque é mesmo preciso sentir-se vivo, sentir que se é. Ninguém se contenta com o tédio. Eu digo que eles se entediam porque a sua verdadeira vida está morta sem reparação. Os homens não são como os caranguejos: as partes amputadas não voltam a crescer sozinhas. Realidade dissolvida. Existência de fumo. Paixões de sonhos. Nem tido nem achado, o homem passou para a conta dos lucros e das perdas. Existe um trabalho e uma posse real, quero dizer, nos camponeses, nos artesões, nos poetas, para os quais a posse significa a unidade da acção, do preço e do produto. Mas os burgueses produzem e possuem abstractamente. Como há muito herdaram de Israel, passam a vida a emprestar com juros. Comanditam, pobre ou grandemente, são portadores de obrigações e ganham somas abstractas pagas por devedores abstractos: uma cidade, uma companhia, um Estado, um caminho-de-ferro. Ou possuem acções: operários de carne trabalham para prolongar a sua existência de fantasmas. Entre os seres e eles, a vida humana e eles, a banca é seguida pelo seu cortejo fantástico de bolsas, de cargos, de correctores de câmbios. O género de posse e de lucro burguês separa-os de tudo aquilo que é real: conhecem apenas sinais e contactos feéricos à distância. O seu mundo é mágico. No dia em que estas pessoas tiverem nas mãos um poder timbrado, um título verde, participam na natureza mística de um ser que não existe. Absorvem as suas hóstias de capital. Eles não são. São conduzidos pelos demónios da abstracção. Que pensam eles? Quem os pensa? Estados civis, catálogos. Ricos com etiquetas como uma velha mala de viajante. Nos sólidos regulares dos seus quartos, fecham à chave todos os seus repertórios de sinais e emblemas, para dormirem um sono tranquilo: uma brochura de casamento, uma cédula militar, um cartão de eleitor, e a escuma de papel que deixa a circulação do dinheiro nas casas dos homens. Todos os monumentos de França defendem o estado mágico destes homens. A sua vida de asilo está protegida, em todos os pontos cardinais, contra as tentativas da vida ao ar livre. É impossível respirar, está-se no fundo de um poço. Eu sei porque é que me sentia a sufocar, já não é um sufoco obscuro, um movimento cego de se debater num sonho, mas a mutilação ao sol, a asfixia em pleno dia. Tudo o que está de pé em torno de mim pertence aos meus inimigos. Eu não tenho nada, não tiro prazer de nada. Vejo por toda a parte as provas de pedra da sua dominação, as igrejas, os palácios nacionais, as casernas, os institutos, os comissariados, os palácios da justiça, os bordéis, os ministérios. Não se pode estender os braços sem tocar com a ponta dos dedos na porta de um banco, no peito de um agente, de um cavaleiro da Legião de Honra. Conseguirei eu fazer escapar a mulher que amo? Eles põem entraves nas rodas do amor. Acorrem de todos os lados ao local onde se faz ouvir uma palavra de protesto, onde se produz uma tentativa de libertação. Quando se retiram, deixam o lugar limpo: os seus polícias, os seus mirones e os seus sábios agem com a certeza sonhadora das máquinas.» Acho que fica bem claro que estava tudo descrito muito antes de termos nascido. Como nos lembra Sven Linqvist, a palavra «Europa» deriva de uma palavra semítica que significa apenas «escuridão». E, de resto, como ele também vinca, «a distância entre a ideia do extermínio e o coração do humanismo não é maior do que a existente entre Buchenwald e a Goethehaus em Weimar. Essa percepção foi quase completamente reprimida, até mesmo pelos alemães, que foram transformados num bode expiatório por perfilharem ideias que constituem de facto uma herança europeia comum.» No livro Exterminem Todas as Bestas, ele faz ainda este reparo: «Ninguém chama a atenção para o facto de, durante a infância de Hitler, um dos principais elementos na visão europeia da humanidade ser a convicção de que as ‘raças inferiores’ estavam por natureza condenadas à extinção: a verdadeira compaixão das raças superiores consistia em facilitar-lhes o desaparecimento.» Ele ainda nos remete para a etimologia desse termo banalizado pelos órgãos de comunicação social – extermínio. «O latim extermino significa ‘conduzir para fora’, terminus, ‘exilar, banir, excluir. Daí deriva o português exterminar, que significa ‘conduzir para fora, para a morte, banir da vida’.» É muito evidente, por isso, como as nossas sociedades baseadas na lógica da exclusão, em que a própria noção de triunfo se liga à capacidade de gozar de privilégios exclusivos, é, em si mesma, uma educação para o extermínio. E se estamos sempre à espera de uma revelação estrondosa, o que se torna cada vez mais claro por estes dias +e que o inferno não é mais impressionante do que isto. De um lado toda esta indiferença, do outro só resta o momento em que alguém, tendo poder sobre nós, fará o tem a fazer. Mistério de espécie alguma virá soprar aos nossos ouvidos uma noção que nos sirva como um ponto de não retorno. «Quando sábios sentados nos seus cadeirões, há já muito tempo, se puseram a descrever as aparências e os costumes do Homo Economicus, muitas pessoas não acreditaram nas suas palavras e chamaram o homem real de homem abstracto. Ninguém então se podia dar conta de que esses professores e esses calculadores estavam simplesmente a descrever a nova existência abstracta da humanidade e assinalavam os primeiros eclipses do homem real. Ninguém suspeitava de que a sua descrição só parecia abstracta pela fidelidade à abstracção do seu novo modelo» (Nizan). Neste episódio, impulsionados pelo enredo nervoso, cumulativo, indagador, dessa proposta de uma etnografia dos ambientes circundantes que a Marta Lança acaba de lançar (Essas Pessoas na Sala de Jantar), mergulhamos em tantos dos elementos que sinalizam como a geração de que fazemos parte gozou de um período de intervalo extraordinário em que se permitiu iludir com a perspectiva da superação ou supressão da História, sendo que muita da nossa ilusão hoje alimenta um mal-estar desafiante, obrigando a redescobrir com uma inusitada estranheza tantos capítulos das nossas vidas, e reconhecendo como estes poderão ser lido dentro de alguns anos como os sinais de uma espécie de privilégio fabuloso e ofensivo.

Marta Lança, Essas Pessoas na Sala de Jantar, Angola, Polícia, Violência, Imigração,

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This episode was published on June 26, 2026.

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