Sá - Como tudo começou : MINHA (quase) EMPOLGANTE HISTÓRIA: SER OU NÃO SER?! episode artwork

EPISODE · Sep 12, 2006 · 3 MIN

Sá - Como tudo começou : MINHA (quase) EMPOLGANTE HISTÓRIA: SER OU NÃO SER?!

from Trem de doido · host H B

Consegui esse música hoje e a paixão foi imediata: tinha que colocar aqui, fazendo par com o texto do Sá que acabei de ler essa semana. Tudo estalando de novo! Divirtam-se: Episódio 1 – O Banco Minha mãe não se conformava com o filho que, na flor dos dezessete anos, vivia de violão debaixo do braço. Eu, Gilson e Máriozinho Pires subíamos e descíamos a rua Conde de Bonfim todas as noites, parando aqui e ali, na casa de amigos ou na rua mesmo pra tocar e cantar. Aporrinhávamos os pais das namoradas, as turmas rivais, os gerentes do clube, os guardas-noturnos (rolava isso na época...), todos e tudo: saíamos a bordo do jipe do Gílson arregaçando o Alto da Boa Vista, a Usina, a Muda, a praça Saenz Peña e – nos fins de semana – a própria e nesse tempo longínqua zona sul com o velho Di Giorgio 36 do meu pai, que, ao contrário da minha mãe, achava a maior graça nisso tudo. Não raro eu chegava em casa tarde da noite, de porre, mal conseguindo encarar o buzum na manhã seguinte pra ir ao distante Colégio Andrews, além-túnel. Isso não podia continuar, pensou mamãe, armando seu plano sinistro: eu teria que ter um... emprego! Ora, mas pra mim eu já tinha um emprego: era cantor e às vezes, na falta do Helio Celso, guitarrista do grupo Nouvelle Vague, que fazia bailinhos aqui e ali pelo bairro, arrecadando uma merreca suficiente pras cervejas e noites na filial tijucana da boate do Sargentelli, onde volta e meia tocavam meus ídolos bossanovísticos. Que mais eu queria? No fim desse mesmo ano passei no vestibular de Direito, o que abrandou a angústia materna. Mas achei a faculdade uma droga. Só o que me compensava era sair depois da aula com meus novos amigos, Gustavo e Jorginho, para fazer a mesma coisa que fazia no tempo de colégio: farra. Agora, as aulas eram noturnas e eu já tinha carro. Demorou! Vendo que eu “não tomava jeito” nem com a perspectiva de um futuro bacharelado, mamãe se apavorou e apelou com meu pai: -Sílvio, você tem que dar um jeito nesse menino! Um emprego! Pressionado, meu pai cedeu e descolou uma entrevista num banco do centro da cidade. Meu pai era uma pessoa que persuadia no papo: não consegui escapar. Fiz a entrevista e como estava “altamente recomendado”, fui efetivado no banco. A barra ia pesar: trabalhar de meio dia às seis, comer rapidinho e sair direto pra Faculdade Candido Mendes, ali na praça XV Até hoje me lembro do meu primeiro dia de “trabalho”, conforme definia minha mãe que nunca acreditou em nenhum emprego que não tenha marcação de ponto: Fui designado para o Departamento de Compensação, na sobreloja do prédio, que ficava ao lado da Galeria dos Empregados do Comércio, na Avenida Rio Branco, Rio. Era uma sala escura e comprida, com uma confusão de gente e telefones. Minha função era conferir os códigos dos cheques de outras praças. No começo achei até divertido: falava com o Brasil inteiro, as recepcionistas eram charmosas e o meu chefe era uma figura folclórica, de suspensórios, que sempre nos policiava com um olhar grave. Isso provocava em nós, funcionários, crises incontroláveis de riso quando ele, seu Aristides, esticava os suspensórios até o máximo e os deixava estalar de volta na imensa barriga: - Ele gosta é de apanhar! – dizia o Sérgio ao meu lado - Que nada! – retrucava Lurdes, loura de olhos muito azuis que levantava a galera só na passagem - ele gosta é de bater! No meio disso tudo o que realmente me intrigava era uma sala envidraçada que ficava ao fundo da nossa extensa galeria, com um cara solitário que aparecia de vez em quando. Ninguém ao certo sabia quem ele era ou o que fazia: - É gente do Sindicato! (falava o Paulinho, um magrelo de Vila Isabel) e nele ninguém põe a mão. Nesse entretempo, para relativo desgosto materno, a carreira musical só fazia progredir: minha amiga Luhli fora contratada pela Philips e, produzida por João Araújo e João Mello, gravara três músicas minhas, das quais uma, “Baleiro”, já começava a tocar nas rádios. Como se isso não bastasse, meu companheiro tijucano de esbórnia, Máriozinho Pires, filho do médico da EMI – Odeon, me apresentara a Milton Miranda, diretor artístico da gravadora. Milton se amarrou nas minhas músicas e em menos de um ano eu tinha hits nas rádios, cantados por Pery Ribeiro, Rosa Maria (hoje Colyn), MPB4 e Nara Leão. O primeiro grande sucesso foi com Pery, quando eu ainda estava no Banco. “Giramundo” tocava dia e noite no Brasil inteiro. Numa bela tarde, seu Aristides me chamou, esticando os inevitáveis suspensórios: Tem um sujeito aí querendo falar com você. Espantei-me. Quem iria me procurar naquela cloaca? -Você tem quinze minutos. Vou descontar do seu tempo de lanche. Saí e fui até a ponta da galeria, de frente pra tal sala envidraçada, onde me esperava um cara meio gorducho, de terno e gravata desarrumados: - Prazer. Sou Aloísio Santana, da Editora Vitale. Nós estamos interessados em editar suas músicas. De repente, pelo canto do olho, percebi que o Homem do Sindicato, lá na sala envidraçada, se levantava. Desviei o olhar do Aloísio e olhei pro cara, um magrelo alto de olhos claros e cabelo escorrido que me acenava um frenético “não”. Espantado pela reação do sujeito, hesitei: - Ah... Não sei... Aloísio me pareceu perplexo. Eu havia reagido intuitivamente à energia do cara da sala envidraçada. Não tinha uma idéia muito exata do que significava editar músicas e resolvera obedecer aos gestos de uma pessoa que parecia entender o que estava acontecendo ali do lado de fora. E o cara continuava a fazer gestos, sinalizando pra que eu mandasse o Aloísio embora. Foi o que fiz. - Olha, eu tenho que trabalhar... Dá pra você voltar depois do expediente? Aloísio concordou, decepcionado, e saiu. O sujeito da sala envidraçada abriu sua sagrada porta e veio ao meu encontro: - Olá. Você é quem? Fiquei besta. Quem era eu como? Ele insistiu: - Se o Aloísio Vaca Brava veio te procurar, você é compositor. Eu também sou. Sou o Durval Ferreira, você já ouviu falar de mim? Durval Ferreira! Um de meus ídolos bossanovísticos! Autor de “Chuva”, “São Salvador”, “Batida Diferente” e outros clássicos instrumentais da bossa nova que eu tentava – e nem sempre conseguia - tocar! Guitarrista que tinha inventado metade das levadas que eu tentava e – mais uma vez, nem sempre conseguia - imitar! Não acreditei: - Nossa... Durval! Cara, curto demais suas músicas... Aquela batida... Ele descartou rapidamente a tietagem: - Mas me conte. O que é que o doido do Vaca Brava quer contigo? A custo consegui dizer quem eu era e falar das minhas músicas. - “Giramundo” é seu? – ele gargalhou – não é à tôa que eles estão atrás de você! Em menos de uma hora, sob o distante mas persistente e perturbador olhar do seu Aristides, Durval explicou-me o complicado mecanismo das edições musicais e me aconselhou a pedir oitocentas pratas pela edição. Fiquei branco. Eram dez salários meus da época. - Pode pedir que ele vai te dar. Dito e feito. Quando Aloísio voltou no final do dia, fechamos por oitocentos bagarotes. Só então Durval saiu da sala, gozando e surpreendendo o Aloísio, que ainda não havia reparado na presença dele: - Aí, Vaca Brava, pensou que ia se dar bem? É meu peixe... Terminamos a noite os três tomando todas num bar da Cinelandia, às custas da Vitale. Uns dias depois, descontado o cheque, pedi demissão do Banco e cheguei em casa cheio de marra, dinheiro ao vivo na mão. E diante dos olhos arregalados de minha mãe e do mal disfarçado sorriso orgulhoso do meu pai, lasquei: - Pai, mãe, agora sim eu sou compositor. Profissional! Pena que dali em diante nunca mais foi tão moleza... *********** "O dia do grilo" - Luis Carlos Sá e A Charanga ( 1971) Foto: Show do Trio no Shopping Anália Franco(SP), dia 27/08/2006 Sá em primeiro plano.

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Consegui esse música hoje e a paixão foi imediata: tinha que colocar aqui, fazendo par com o texto do Sá que acabei de ler essa semana. Tudo estalando de novo! Divirtam-se: Episódio 1 – O Banco Minha mãe não se conformava com o filho que, na flor dos dezessete anos, vivia de violão debaixo do braço. Eu, Gilson e Máriozinho Pires subíamos e descíamos a rua Conde de Bonfim todas as noites, parando aqui e ali, na casa de amigos ou na rua mesmo pra tocar e cantar. Aporrinhávamos os pais das namoradas, as turmas rivais, os gerentes do clube, os guardas-noturnos (rolava isso na época...), todos e tudo: saíamos a bordo do jipe do Gílson arregaçando o Alto da Boa Vista, a Usina, a Muda, a praça Saenz Peña e – nos fins de semana – a própria e nesse tempo longínqua zona sul com o velho Di Giorgio 36 do meu pai, que, ao contrário da minha mãe, achava a maior graça nisso tudo. Não raro eu chegava em casa tarde da noite, de porre, mal conseguindo encarar o buzum na manhã seguinte pra ir ao distante Colégio Andrews, além-túnel. Isso não podia continuar, pensou mamãe, armando seu plano sinistro: eu teria que ter um... emprego! Ora, mas pra mim eu já tinha um emprego: era cantor e às vezes, na falta do Helio Celso, guitarrista do grupo Nouvelle Vague, que fazia bailinhos aqui e ali pelo bairro, arrecadando uma merreca suficiente pras cervejas e noites na filial tijucana da boate do Sargentelli, onde volta e meia tocavam meus ídolos bossanovísticos. Que mais eu queria? No fim desse mesmo ano passei no vestibular de Direito, o que abrandou a angústia materna. Mas achei a faculdade uma droga. Só o que me compensava era sair depois da aula com meus novos amigos, Gustavo e Jorginho, para fazer a mesma coisa que fazia no tempo de colégio: farra. Agora, as aulas eram noturnas e eu já tinha carro. Demorou! Vendo que eu “não tomava jeito” nem com a perspectiva de um futuro bacharelado, mamãe se apavorou e apelou com meu pai: -Sílvio, você tem que dar um jeito nesse menino! Um emprego! Pressionado, meu pai cedeu e descolou uma entrevista num banco do centro da cidade. Meu pai era uma pessoa que persuadia no papo: não consegui escapar. Fiz a entrevista e como estava “altamente recomendado”, fui efetivado no banco. A barra ia pesar: trabalhar de meio dia às seis, comer rapidinho e sair direto pra Faculdade Candido Mendes, ali na praça XV Até hoje me lembro do meu primeiro dia de “trabalho”, conforme definia minha mãe que nunca acreditou em nenhum emprego que não tenha marcação de ponto: Fui designado para o Departamento de Compensação, na sobreloja do prédio, que ficava ao lado da Galeria dos Empregados do Comércio, na Avenida Rio Branco, Rio. Era uma sala escura e comprida, com uma confusão de gente e telefones. Minha função era conferir os códigos dos cheques de outras praças. No começo achei até divertido: falava com o Brasil inteiro, as recepcionistas eram charmosas e o meu chefe era uma figura folclórica, de suspensórios, que sempre nos policiava com um olhar grave. Isso provocava em nós, funcionários, crises incontroláveis de riso quando ele, seu Aristides, esticava os suspensórios até o máximo e os deixava estalar de volta na imensa barriga: - Ele gosta é de apanhar! – dizia o Sérgio ao meu lado - Que nada! – retrucava Lurdes, loura de olhos muito azuis que levantava a galera só na passagem - ele gosta é de bater! No meio disso tudo o que realmente me intrigava era uma sala envidraçada que ficava ao fundo da nossa extensa galeria, com um cara solitário que aparecia de vez em quando. Ninguém ao certo sabia quem ele era ou o que fazia: - É gente do Sindicato! (falava o Paulinho, um magrelo de Vila Isabel) e nele ninguém põe a mão. Nesse entretempo, para relativo desgosto materno, a carreira musical só fazia progredir: minha amiga Luhli fora contratada pela Philips e, produzida por João Araújo e João Mello, gravara três músicas minhas, das quais uma, “Baleiro”, já começava a tocar nas rád(continued)

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