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May 8, 2025 17 min

Um corpo estranho

from Dizeres Quaisquer Hosted by Wil Gonçalves

Já se sentiu estranhe? Não deslocado de um lugar, mas deslocado do próprio corpo, como se ele fosse uma coisa em constante movimento, sempre um pouco à frente do que você consegue nomear. Um corpo que não cabe, que não responde, que não entende nem é entendido. Um corpo que escorrega entre os dedos, como se estivesse sempre viajando – entre normas, desejos, possibilidades. Foi com essa inquietação que me encontrei no texto da Guacira Lopes Louro. "Um corpo estranho". Só o título já parece um espelho. Há algo de profundamente político nesse corpo que se recusa a obedecer. Que atravessa fronteiras impostas e tropeça no caminho dado. Que carrega a estranheza não como um erro, mas como evidência de que há algo mais por vir. Esse corpo, que desde cedo escutou comandos – “sente direito”, “fala mais baixo”, “se comporta” – é o mesmo que, com o tempo, aprendeu a se perguntar: mas de quem é esse roteiro? Porque parece que todos nós nascemos com um mapa traçado antes mesmo de sermos nomeades: “é menino”, “é menina”, e então o mundo vai preenchendo os espaços com obrigações, expectativas, renúncias. Você tem que se vestir assim, se portar assim, amar assim. E tudo aquilo que foge disso vira ameaça. Mas ameaça de quê? Da estabilidade? Da família tradicional? Da “boa moral”? Vai ver o que esse corpo estranho ameaça, na real, é uma mentira muito bem contada – aquela que diz que há um jeito certo de ser. Que tudo está dado, definido, decidido. Mas e quando o corpo não se encaixa? Quando não obedece? Quando desvia? Eu cresci com essa sensação de desencaixe. Sentia que todo mundo tinha entendido uma regra secreta da qual eu nunca soube. E então, em vez de me conformar, comecei a testar. Brinquei com formas, roupas, modos de falar, de amar, de desejar. E percebi que o problema não era o que eu fazia – era o que me diziam que eu deveria ser. Guacira diz que a viagem transforma o corpo. Que somos modificades pelo caminho. E talvez seja isso: não há chegada. Há travessia. E nessa travessia, o corpo vai se inventando, se refazendo, rasurando o roteiro. A drag, que se monta exagerando o feminino, mostra justamente isso: o gênero é construção. E se tudo é construção, então tudo pode ser reinventado. Ser esse corpo estranho é viver à margem da norma – e ao mesmo tempo, é o que mais expõe a instabilidade da própria norma. É dizer que não existe essência, só performance. E que a liberdade está em poder desmontar, desmontar-se, montar-se de novo. No fundo, tudo isso não é sobre “ser diferente”. É sobre existir. É sobre não precisar mais se esconder. É sobre parar de pedir desculpa por ocupar espaço. É sobre transformar a dor da inadequação em um lugar de potência. Porque, se ser quem somos incomoda o mundo, talvez seja o mundo que precise se reorganizar. E como diz Preciado, talvez não nos falte coragem. Talvez o que nos falte é o cansaço de fingir. Porque a verdadeira revolução começa quando deixamos de tentar caber – e começamos a criar, enfim, um espaço em que possamos simplesmente ser. @wgonds Música utilizada: Jack Will - Mantra Minazz

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Um corpo estranho

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As Sombras de Duarte Lima Observador Na noite de 7 de dezembro de 2009, Rosalina Ribeiro, uma das herdeiras do milionário português Lúcio Tomé Feteira, saiu de casa, na zona sul do Rio de Janeiro. Ia encontrar-se com o seu advogado português, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Seria a última vez que era vista com vida. O corpo da portuguesa, de 74 anos, foi encontrado na manhã seguinte, a mais de 60 quilómetros de distância, na berma de uma estrada pouco movimentada em Saquarema, uma zona onde não tinha quaisquer motivos para estar. Tinha sido assassinada, atingida com dois tiros, um no peito, outro na cabeça. Através de depoimentos inéditos; de entrevistas a testemunhas-chave, entretanto já falecidas; de gravações da polícia brasileira; de áudios da vítima, captados horas antes de ser assassinada; e da análise de vídeos de videovigilância, fotografias, relatórios e de milhares de páginas de documentos, o novo Podcast Plus do Observador reconstitui toda a investigação à morte de Rosali Diário Musical de Cairo Braga Cairo Braga meu nome é Cairo Braga e eu vou compartilhar tudo que tenho em mente que tenha alguma relação com fazer música, incluindo trabalhos musicais e quaisquer outras coisas que couberem. este podcast, juntamente com minhas transmissões de vídeo ao vivo no Twitch e no YouTube, servirá como uma espécie de documentário (e documento) dos bastidores da minha jornada como uma musicista independente.

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This episode was published on May 8, 2025.

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