PODCAST · society
alarido
by Miguel De
uma coleção mais ou menos desordenada de pensamentos, sugestões, divagações e criações.a partir das cartas disponíveis no substack de Miguel De. miguelde.substack.com
Episodes
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da decisão.
Não sou fã de mensagens de despedida. Na verdade, esta não é uma. É uma nota de intenções. Uma justificação, vá. Também não sou grande fã delas, mas penso que o motivo a permite. Confundidas às vezes com chamadas de atenção (e elas abundam), as mensagens de que “vou sair do insta!” são percebidas...
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da história.
Rui sente com a palma da sua mão direita o asfalto do campo de futebol da escola, a rugosidade da pedra marcando o terreno da sua pele com minúsculos vales de dor. Empurra a mão contra o chão o mais que pode, quer ver até onde o solo consegue entrar no seu corpo. This is a public episode. If you...
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da separação.
Tomás segura o seu copo de cerveja com a mão direita. Encosta-se a uma coluna na lateral do bar, a música gritando aos seus ouvidos. As luzes rasgam os rostos e os corpos dos fugitivos da noite, obrigando-os a uma dança ritmada imperturbável. Perscruta os olhares de quem passa, procurando alguma...
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da falha.
Falhar é fazer falta. Faz falta percorrer os caminhos outrora hipotéticos, outrora quotidianos. Faz falta introduzir conceitos alienígenas numa conversa aberrante ao sábado à noite. Ao sábado à noite bebe-se fuma-se conversa-se grita-se dança-se. Ao sábado à noite é domingo de manhã. Faz falta o...
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do corpo.
Para a carta de hoje, decidi recuperar o tema da minha dissertação de mestrado, no qual, a partir de um projecto fotográfico, escrevi sobre o conceito de masculinidade, a sua representação na arte e, sobretudo, a forma como os homens gay olham para os seus corpos e os dos outros. Todas as pessoas...
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do toque.
A pele é um terreno ardiloso. Existe numa suavidade incomparável, salpicada de interrupções que desencaminham os dedos deslizantes. Deslizam, porque a pele desce. Inicia-se num topo, um qualquer topo, e depois desce. This is a public episode. If you would like to discuss this with other…
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do orgulho.
Já falamos aqui na questão da ocupação de espaços. Ocupar é usar um espaço contra a vontade do seu dono (legítimo ou não). O espaço pode ser físico ou metafórico. Ou ambos. Um espaço metafórico é o ar que respiramos, a possibilidade da existência. Ser-se num ar hostil é ocupá-lo. A própria...
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do clarão.
Estou sentado num chão desnivelado e desconfortável, descansando os ouvidos dos tremores apressados da música que ecoa dentro da sala negra, a conversar com o Pedro e a Francisca, calmamente, quando o cimento se ilumina. Olho para o céu e por cima de mim, por cima de nós, um intenso clarão em...
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da não-ocupação.
Ocupar um espaço implica conquistá-lo. Ocupar um espaço é, por definição, fazê-lo à revelia. Não se ocupa com permissão. Ocupar não é a mesma coisa que utilizar. Utilizar um espaço é passageiro, ocupar é permanente. Uma nova ocupação implica a expulsão da anterior, ainda que o seu espectro se...
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do que se faz.
A possibilidade da acção anima o espírito. É o acto que materializa o pensamento. Esse, divorciado de qualquer acção, é essencialmente individual, hermético e introspectivo. Um pensamento que não implica uma acção não tem, nessa óptica, efeito no mundo. Pensar num copo de água não cria o copo de...
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do desequilíbrio.
Há umas cartas atrás, falei sobre uma forma que vejo de olhos fechados. Preciso de retomar esse assunto, porque tenho de confessar que não fui totalmente honesto. Ou melhor, entretanto percebi mais umas coisas que tornam aquilo que escrevi não totalmente verídico. This is a public episode. If you...
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da liberdade.
A liberdade é um conceito demasiado vasto para ser entendido com exactidão na mente humana. É tão vasta e tão invisível, que parece não existir; que é a mesma coisa que dizer que parece que, não existindo, não faz falta. This is a public episode. If you would like to discuss this with other...
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do desejo.
Rui desconhecia que a sua inquietação era fruto da falta. Era incapaz de compreender o que sentia, de adormecer o espírito na calada da noite. Do desejo, conhecia-lhe tudo, menos a consciência da sua existência. O seu desejo era fulminante, atirado a tudo o que não podia possuir. Olhava Tomás…
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do desaparecimento.
Viajava de comboio e olhei pela janela quando passava junto à praia. O sol punha-se, como se põe todos os dias, formulando o clichê das stories do Instagram, do fotógrafo amador. Pensei em sacar do telemóvel e tirar uma fotografia. Não o fiz. Amanhã há outro pôr-do-sol. This is a public episode.…
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do desconhecido.
Na carta sobre a inocência, disse que o medo do escuro é, na verdade, medo do desconhecido. Seria preciso, antes de falarmos sobre o desconhecido, percebermos o que é o desconhecido. Ou melhor, não o que ele é, mas o que significa. Se fosse o que ele é, deixava de sê-lo, certo? O que significa,...
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do ritmo.
Olhas para cima e é noite escura. De todo o lado ecoa o tremor do chão, os graves dos sons ritmados que surgem do palco. Luzes intermitentes e coloridas varrem as centenas, milhares, milhões de corpos que ali se espalham, movimentando-se ao mesmo tempo, na mesma cadência, num ritual de…
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da escrita.
Este sábado o Paulo e o Ricardo perguntaram-se se escrever estas cartas me estavam a fazer bem. A resposta curta que dei foi que sim, que ajudavam a descarregar algumas das coisas que me vão pela cabeça. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get...
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do desencanto.
Tomás enterrou os pés na areia enquanto fitava o mar à sua frente, o sol iniciando a sua descida vertiginosa pelo horizonte. Os grãos afiados rasgavam-lhe suavemente a pele entre os dedos, mas não o detinham. Deixava-se imergir na areia, como que uma apatia se instalasse nas pernas, um sono...
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da distensão.
A página em branco é um terror. Tocar uma única nota num piano, enquanto se pressiona o pedal da sustentação, para que o som se prolongue o mais possível, abafando-se lentamente na propagação que dita a sua morte. Tocar outra vez na mesma tecla, a mesma nota, o mesmo pedal, durante o mesmo tempo....
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da estética.
Tem 33 anos, mas a pele seca do rosto e as duras feições dão ar de quarentas. O cabelo é preto e rapado nas laterais. Acompanha-lhe uma barba densa, escura e curta. Não é muito alto, mas os ombros ocupam espaço. O peito, volumoso, desenha-lhe a t-shirt larga, abraçando o ar que sobra por debaixo.…
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da dúvida.
A dúvida é uma assombração. Faz-se de pequenas interrupções do pensamento, furtos assertivos do eu contra si próprio, uma tentativa demasiadas vezes bem sucedida de plantar a vontade da desistência. This is a public episode. If you would like to discuss this with other subscribers or get access…
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do mal-estar.
Contorcer-se sobre si mesmo e levar as mãos ao peito, um nó profundo, um punho fechado (é sempre um punho fechado) ocupa o ar do externo. É um objecto estranho, um parasita volumoso, está lá dentro a empurrar o peito para fora — levas as mãos ao peito e arredondas as costas, queres gritar mas não...
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da casa.
Mudei de casa. Aconteceu por força das circunstâncias, não porque tenha tomado a decisão consciente de fazê-lo. Os contratos renovam-se ou terminam e, no meu caso, ficou por renovar. Aconteceu no último mês do ano passado, como que me preparando para um ano de inquietude. Serviu talvez como o...
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do álbum de família.
Um dia, a voltar para casa, deparei-me com um pedaço de negativo atirado ao chão, em frente à porta do meu prédio. Uma relíquia de outros tempos, sem qualquer pista de como terá ido parar ali. Decidi pegar nele e guardá-lo. Eram três fotografias, talvez dos anos 80 ou inícios dos 90. Uma delas...
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da ocupação.
Tenho uma relação de amor e ódio com as redes sociais. Acho que, em certa medida, todos temos. Pendo mais para o ódio: não apenas pelas redes, mas pela necessidade delas que me afronta o peito. Por várias vezes deixei-me delas, principalmente do Instagram, que tanto mal (e bem!) me fez. As redes...
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da forma.
Acontece, de vez em quando, ao fechar os olhos, de ver uma sobreposição de volumes impossíveis que me inquietam. A descrição não é fácil de fazer, mas peço-te que me acompanhes. Geralmente são duas formas de ângulos rectos, brancas, suaves, sem qualquer textura ou rugosidade. Uma está perto de…
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da inocência.
Na última semana vi alguns filmes e terminei um pequeno livro que, nas coincidências do quotidiano, têm um subtexto em comum que me deu vontade de escrever. A inocência. Os filmes: Close, de Lukas Dhont; May December, de Todd Haynes; Aftersun, de Charlotte Wells. O livro: O meu corpo, este…
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dos começos.
Um começo é um ritual. Prepara-se um espaço, uma pessoa, a si próprio, para receber, praticar, experimentar a novidade. A audição apura-se, o tacto parece mais sensível, os olhos prescrutam os espaços em volta. O novo tem o dom de nos colocar alerta e este estado de vigília aprofunda o…
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