PODCAST · arts
caiu na rede é PEIXE
by leticia e luciana
Parte do conteúdo deste podcast está licenciada sob: todas as de Leticia Kamada e nenhuma de Luciana Gerbovic ou convidados
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jhjhghcfgdrfderserawearsdfhgjkhlkhjkgbhgfgxdfsdsarsers2345 Minha afilhada acabou de me dizer que muita gente faz isso quando não sabe o que escrever. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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despedida
Se vivessem tanto quanto nós, choraríamos menos suas perdas, mas certamente não desfrutaríamos tanto desse amor. Saber que não estarão conosco na nossa velhice, se chegaram às nossas casas durante a infância ou a adolescência, nos obriga a ser um companheiro melhor, pois nessa relação não haverá tempo para pedidos de desculpas e arrependimentos. Ou se é inteiro. Ou se é inteiro. Achamos que somos necessários, mas basta olharmos para suas carinhas enquanto zelam por nós para termos a mais inabalável certeza de que a dependência é exatamente contrária. Como somos tolos na nossa prepotência! Precisamos do abanar do rabo ao entrar em casa, das corridas alegres que desarrumam o tapete (que eles comeram) em torno da sala, das patas arranhando nossos braços ao pedir carinho, dos pulos que querem nos alcançar, do corpo quente encostado aos nossos pés, dos latidos altos e, principalmente, do olhar que nos diz “estou aqui”. Somos capazes de suportar, e até de aceitar, a indiferença humana, mas desabamos diante de uma cauda que não se agita freneticamente ao nos ver. E a magia ainda maior disso tudo é que não importa o tempo, se um, dois, cinco, dez ou quinze anos. Um dia apenas é suficiente. Aliás, um olhar... Lu Gerbovic . . . . . . . Esa música NÃO está sob licença Creative Commons porque não é minha.
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diálogos que merecem ser dialogados # 2
- Penélope. - Pelénonpe. - Não. Penélope. - Pelénonpe. - Não. Pe. - Pe. - Né. - Né. - Lo. - Lo. - Pe. - Pe. - Penélope. - Pelénonpe. - Nããão. Pené. - Pené. - Lope. - Lope. - Penélope. - Pelénonpe. - Ainda não. - Tia Lu, não dá pra mudar o nome da cachorra? Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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too much
this kind of music is a little too much for me it's not melodic and it's confused it's very confused but........ hum...... i like it! Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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cause love is blind
meu, meu, meu seu, seu, seu viu? viu? viu? cause love is blind each other, voices, skin, voices each other, voices, skin, voices each other, voices, skin, voices hard enought for me meu, meu, meu seu, seu, seu viu? viu? viu? cause love is blind Leticia Kamada os samples aqui utilizados foram tirados de: http://ccmixter.org/media/reviews/leticiakamada/9719 conhece? Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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só os pimentões são felizes
As mães que me perdoem, mas a vontade é a mãe (hermafrodita ainda) de todos os males humanos, por isso só os pimentões são felizes. Todos os pimentões vermelhos são vermelhos. Todos os pimentões verdes são verdes e todos os amarelos são amarelos (apesar do dicionário Aurélio não mencionar o pimentão amarelo – o que ele tem contra os amarelos?), mas eles se misturam bem e resultam numa bela salada. Os pimentões são pimentões. Isso. Ponto. Está definido: erva alta da família das solanáceas muitíssimo usada como hortaliça. Serve também para o preparo do colorau, mas ainda assim é um pimentão. Simples assim. Basta ser o que se é. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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desapego
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desfiladeiro
foto . Hiroshige_Fuji_Inume Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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choveu, choveu, choveu...
Não há chuva sem a maturidade da nuvem Por que teimamos em acelerar o tempo, se a cada tentativa ela se mostra, mais cedo ou mais tarde, vã? Há o tempo do sol, há o tempo da chuva. Há o tempo de amar, há o tempo de repensar. Há o tempo certo de plantar, há o tempo certo de colher. Há o tempo certo de saber que o tempo é certo. Há o tempo de olhar para fora, há o tempo de olhar para dentro. Há sempre o tempo de respeitar o tempo. E sempre é tempo de responder ao tempo. Texto: Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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eu sou metáfora
Eu sou árvore. Eu sou pássaro. Eu sou Zeus. Eu sou Ares. Eu sou opaco. Eu sou transparente. Eu sou cão. Eu sou gato. Eu sou rato! Eu sou caça. Eu sou caçador. Eu sou lobo. Eu sou cordeiro. Eu sou rocha. Eu sou água. Eu sou criança. Eu sou ancião. Eu sou doce. Eu sou azedo. Eu sou copo cheio. Eu sou copo vazio. Eu sou mente. Eu sou corpo. Eu sou espírito. Eu sou coração. Eu sou eu. Eu sou você. Eu sou nós. Depende do dia. Depende da noite. Depende do Sol. Depende da Lua. Depende da brisa. Depende do mar. Depende da hora. Depende do minuto. Depende de tudo. Depende do nada. O que eu quero. O que eu posso. O que você quer? O que você pode? Lu Gerbovic * pixel de Cátia Leandro Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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flor de lótus
*texto falado de Ricardo Guima Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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espelho, espelho meu
Algumas palavras ou expressões a gente pronuncia com a boca cheia de prazer. É o caso daquele “caralho” quando uma coisa muito boa ou muito ruim nos acontece. É também o que acontece com o “eu te amo” dito pela primeira vez, depois de tanto tempo escondido no coração. Eu tenho uma expressão que enche minha boca de orgulho: “amiga de infância”. Não existe pra mim nada mais prazeroso do que dizer “eu tenho uma amiga de infância...”. Sabe quando estamos conversando com alguém e ao contar um casinho você diz: “eu tenho uma amiga de infância que viajou para o Zimbabwe....?” Pois é, eu digo assim: “eu tenho uma AMIGA DE INFÂNCIA etc etc etc” Ter uma amiga de infância (ou amigo, claro – é que no meu caso passei a infância brigando com a maioria dos hoje tão queridos garotos) é sinal de vitória. Significa que você é capaz de manter, apesar do tempo e da distância, laços fortes de amor com uma pessoa que não tem com você qualquer relação de parentesco ou sexual. Quando mencionamos que temos um(a) amigo(a) de infância queremos dizer que há uma pessoa nesse planeta que tem algo muito importante: nosso passado. Apesar de hoje magrelas em função da fome imposta pela ditadura da moda, nossa amiga de infância sabe que já fomos gordinhas um dia. Ainda que hoje tenhamos um gosto musical mais refinado, nossa amiga de infância sabe que perdemos a voz de tanto gritar pelo Menudo. Ela também sabe por quantos garotos já choramos e quantos vexames já passamos. Amigos de infância são como o espelho. O amigo de infância evoca escolha, amor, companheirismo, cumplicidade, intimidade, persistência, paciência, tudo isso junto. E um pouco mais. Há como não se sentir orgulhoso ao dizer “eu tenho um AMIGO DE INFÂNCIA”? Lu Gerbovic * texto falado é de Ricardo Guima Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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previsível demais
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somos coloridos, sim
Alguns acreditam que nossas cores fazem diferença. Esses alguns, que para mim não têm ainda definição e qualificação, não sabem apreciar a beleza e a profundidade do colorido. Para esses alguns, essa LINDA lição da natureza...mais uma! PS: esses alguns não vão entender essa lição, não é mesmo? Mas eu insisto. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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all we need is love (the beatles)
Ele disse que não precisa do meu amor porque o meu amor destrói, o meu amor só causa dor. O meu amor mata! MATA! Se esse poder de matar e destruir está no coração de quem ama ou no coração de quem é amado, eu não sei. EU NÃO SEI. Só sei que ele disse que não precisa do meu amor. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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ver tudo verdinho
Há algumas semanas eu circulava de carro pela Marginal Pinheiros quando me deparei com pessoas navegando de caiaque pelo rio que leva o mesmo nome. Claro que meu primeiro pensamento foi “que gente louca”, por mais que estivessem enfeitando a paisagem com suas roupas coloridas. Cheguei mais perto e percebi que a louca era eu, de achar que um bando de gente iria passar o dia navegando de caiaque pelo Rio Pinheiros. Tratava-se de bonecos ali colocados pelo artista plástico Eduardo Srur, que decidiu reconstruir um cenário de algumas décadas atrás. Hoje pela manhã, passando lentamente (óbvio) pela Marginal Pinheiros, vi novamente os navegadores coloridos. Achei a idéia muito legal, pois nos gera um sentimento de culpa e remorso e nos põe para pensar. Aí fiquei pensando como seria se eles fossem mesmo gente. E se fosse verdade? Como seria passar pela Marginal Pinheiros ao lado de um rio limpo, bonito, agradável e ver pessoas ali nadando e navegando? Algumas pessoas já viram sim essa cena, mas eu já nasci com o rio doente. Meu coração se encheu de alegria ao imaginar essa cena. Só que alguns metros à frente vejo um monte de caiaques juntos. “Bateram”, pensei. Dirigi um pouco mais e vi a verdade: os caiaques estavam todos encalhados em cima de uma montanha de lixo que transformava o rio em uma substância sólida. Ao lado e por cima deles, um bando de urubus. A verdade não precisava ter se colocado à minha frente de maneira tão brutal em tão curto espaço de tempo. Doeu. Lu Gerbovic música de Milton Nascimento voz do Nildo . . . . . . .
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quem me ensinou a nadar
A gente nasce no mar, mas em algum momento somos jogados num aquário, sem ao menos se dar conta disso. A água de um vai se misturando aos poucos com a do outro e quando percebemos não vemos mais toda aquele imensão com seus inúmeros caminhos. Cadê todos os peixinhos que nadavam comigo sem se preocupar com o tubarão? Ou até mesmo sem saber que esse tubarão existia. Onde estão os peixinhos e peixões que me ajudavam a escapar da rede, a rede que sempre vem? Seja no mar ou no aquário, a rede vem, presa em uma mão louca para nos pegar. Só que no aquário nos sentimos menores para dela escapar. Se eu ainda fosse um peixinho e lembrasse como nadar, eu estourava o aquário e me atirava no mar... Quer vir comigo? Creio que a gente ainda pode. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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retrato do pânico
Ele está lá fora: o sapo. O sapo é grande e gordo e marrom e pegajoso e nojento. O sapo não é mal, mas fica lá fora a me prender aqui dentro. Eu não posso ser livre com o sapo lá fora porque o medo aprisiona. O sapo não me olha, mas está lá fora. O sapo é MUITO grande e MUITO gordo. O sapo existe. Existe desde que eu era criança. O que eu sinto pelo sapo? Nada, porque ele me paralisa. Eu não penso, não respiro, não me movo e meu coração não bate. Então eu não sinto nada pelo sapo porque ele não me deixa sentir. O sapo me mata. O sapo. Eu não desgosto do sapo, mas a existência do sapo não me deixa existir. Ou ele ou eu no mundo. Mas por que o sapo? Por que não a lagartixa, a borboleta, o gafanhoto, a barata, a galinha, o leão ou o elefante? Será por que o sapo é feio? Mas a feiúra depende de quem vê. O sapo é feio? Não sei, porque o sapo não me deixa ver. Quando vejo um sapo só enxergo o nada. O sapo é grande. O sapo é enorme. O sapo tenta pular. O sapo tenta andar. O sapo só fica parado. O sapo me pára. O sapo não lava o pé, não lava porque não quer. O sapo está lá fora e eu aqui dentro. Ele nã entra. Eu não saio. Nunca enquanto ele estiver lá. O sapo vai me matar! O sapo no fundo é bonzinho. Só o homem é malzinho mesmo. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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surpresa pra lelê
Uma lista escrita há dois anos e encontrada há dois minutos: Te amo, Lelê. Eu amo a Leticia Eu amo o Zeca Todos os cães O barulho da chuva A minha cama As pessoas que me amam E as que não também. Escrever. Os livros Fazer novos amigos Reencontrar velhos amigos Reencontrar antigos conhecidos Fazer planos. Executá-los. Fazer yoga Beber com amigos Dar risada Observar os animais Ajudar um bichinho Ajudar uma pessoa Dia de sol Barulho do mar Doce. Jantar com a família Meus irmãos. Conversar com uma criança Assistir a uma boa aula Dar um abraço Ganhar um beijo Fazer um afago Ficar abraçada Falar que eu amo. Deitar numa rede com um bom livro. Conversar. Ouvir música Aprender Ir a um lugar que não conheço. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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cantinho da tarde
São cinco horas da tarde do dia 20 de setembro de 2006. Uma forte chuva caiu sobre São Paulo. O céu ficou escuro em plena tarde e acaba de clarear. Durante alguns segundos de silêncio das buzinas dos carros que passam pela Ministro Rocha Azevedo, em pleno Jardins, ouço o piar de um pássaro. Imagino que ele está com uma carinha feliz, todo molhado da água da chuva, tamanho o acalento que sua voz frágil me provoca. Eu posso até imaginá-lo dançando. Há tempos eu não parava para ouvir um pássaro, principalmente no centro de São Paulo. Ouvi-lo encheu meu coração de alegria e de esperança. Esperança de quê? Não sei. Mas a alegria foi por perceber que alguns serezinhos ainda se arriscam a viver em meio ao caos e às buzinas tocadas por pessoas completamente estressadas e mal educadas, como que com a finalidade única de acarinhar alguns corações solitários da cidade. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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segunda-feira
São 07h50 da manhã. Saio de casa, num condomínio fechado a 25 km de distância da capital de São Paulo, rumo ao escritório, na esperança de lá chegar uma hora depois. Coloco a bolsa embaixo das pernas, o que me causa certo desconforto, ao mesmo tempo em que me dá a sensação de poder dirigir um pouco mais segura pelas marginais de São Paulo. Ligo o rádio, a fim de saber se entro em São Paulo pela Marginal Pinheiros ou Tietê e eis o que ouço: já são 72 os policiais e agentes carcerários mortos em confronto com o crime organizado nesse último final de semana. Os criminosos, há muito mais organizados do que nossa polícia, seja ela civil, militar ou federal, começaram a rebelião atacando bases policiais e estenderam esses ataques a agências bancárias e empresas de transporte público, que eu imagino ser de alguma serventia para amigos e parentes desses criminosos, mas não se trata aqui de entender essa lógica. Antes mesmo de ouvir a notícia atualizada da rebelião, eu já estava preparada para enfrentar minha luta diária: vias urbanas completamente congestionadas; motoqueiros raspando seus pés e espelhos laterais das motos no meu carro, enquanto eu penso se serei ou não assaltada; pessoas desconhecidas se xingando mutuamente logo pela manhã; motoristas furiosos jogando seus carros contra o dos outros e motoqueiros estirados no meio do asfalto, mortos ou semi-mortos. Hoje, porém, percebo que a batalha terá novos elementos, pois o caos se espalhou pela cidade. No rádio, é a vez do ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo dizer: “está na hora de revermos nosso sistema carcerário e a lei de execução penal”. Está na hora? Foi isso o que ele disse? Essa hora passou faz tempo e não é possível que eu seja a única a perceber. Olho para os lados, à procura de cumplicidade nos outros motoristas, mas não vejo nada além de vidros escuros totalmente fechados e não ouço nada mais que buzinas tocadas por motoristas estressados. Estou só. Entro numa via paralela à estrada Castelo Branco, que me dá o privilégio de andar a 120 km/h (contra 110 km/h da antiga via) e cortar um pouco do trânsito. Para tanto terei que desembolsar R$ 5,40. Ao entrar na chamada “marginal pedagiada” um luminoso: “São Paulo pede paz”. Essas quatro palavras ficam gravadas na minha mente e eu me pergunto qual será a eficácia desses dizeres. Terá esse luminoso algum efeito sobre as pessoas? Não precisamos nos esquecer dos afazeres do dia e ir para as ruas pedir paz? Até quando viveremos essa guerra em silêncio? Continuo olhando para os lados à procura de amparo, mas sou fechada pelos motoristas apressados que precisam, assim como eu, chegar no escritório e trabalhar no mínimo 9 horas por dia em troca de um baixo salário. As pessoas não têm tempo de ir para as ruas. Ninguém está preocupado com as famílias dos policiais que morreram. Parece não haver ninguém se importando com essa guerra. Repito: guerra!!! Um dia prometi a mim mesma que eu nunca me permitiria perder o meu poder de indignação. Mas hoje me sinto só. Só com meu poder de indignação. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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o tempo existe
Eu gostaria de conseguir escrever neste espaço todos os dias. Mas o que ando fazendo com o tempo (ou o que o tempo anda fazendo comigo) que não consigo parar todos os dias por alguns minutos que seja? Eu pergunto mas eu mesma posso responder: são nove horas no mínimo dentro de um escritório, com direito a uma pausa de uma hora para almoço, mais três ou quatro horas em sala de aula ou em preparação para a aula, somadas a umas três horas diárias no trânsito (sim - três horas NO MÍNIMO), que já totalizam algo em torno de dezesseis horas. Nas oito horas que restam eu costumo gastar uma hora em banhos, café da manhã e lanche da noite, o que significa que tenho no máximo sete horas para dormir. No entanto, perco uma meia horinha por dia brincando com os cães e mais uma meia hora conversando com o marido. Nas outras seis horas eu tento dormir, mas como não consigo relaxar enquanto não leio uma página pelo menos acabo dormindo umas cinco horas e meia. Conclusão: eu trabalho demais, moro numa cidade com um trânsito infernal, leio muitíssimo pouco (ainda mais se considerarmos a pilha na cabeceira), não escrevo tanto quanto eu gostaria, vejo muito pouco meus amigos, não conheço a cidade como eu deveria e não assisto a todos os filmes que desejo. Mas o que me intrigou é que nesse último feriado de 7 de setembro eu passei quatro dias no alto de uma montanha localizada numa cidade habitada por 4.000 pessoas. Na descida da montanha, já no domingo à noite, me deparei com a igreja da cidade lotada de fiéis durante a missa das seis horas. Na praça em frente à igreja, inúmeras crianças (creio que todas da cidade) brincavam sozinhas no coreto (coreto!), enquanto alguns casais namoravam sentados nos bancos da praça (infiéis, pelo jeito). Ali parecia que o tempo tinha parado. Não havia um carro em movimento. Não havia uma pessoa apressada. Eu poderia jurar que estava em outra dimensão. O problema é que ao mesmo tempo em que eu estava maravilhada com a constatação de que o tempo existe, eu me perguntava como é que alguém poderia viver daquela maneira. Como as pessoas conseguiam, num domingo à noite, simplesmente sentar no banco da praça e ficar olhando para o "nada"? Aquele encantamento, no momento dessa pergunta, se transformou em tristeza, pois percebi que nós, da cidade grande, já nos acostumamos tanto com o fato de que o tempo deixou de existir que quando nos deparamos com ele ficamos assustados, por mais que passemos nossos dias atrás dele. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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nossa não humanidade
De todas as pessoas que conheço, sou a que mais gosta de cachorros, apesar da minha mãe ficar quase ali comigo no primeiro lugar. Tudo começou quando eu tinha uns 2 ou 3 anos e meus pais me deram o Pitoco, um dauchshund (salsicha, né?) pretinho. O Pitoco foi meu primeiro grande amigo, o primeiro ser que me ensinou sobre responsabilidade afetiva, antes mesmo do Pequeno Príncipe: se alguém gosta de mim, devo respeitá-lo mais do que a mim mesmo. Tudo bem que até hoje dou cabeçadas, mas a primeira lição veio do Pitoco e não irei reproduzi-la nesse momento por não estar disposta a chorar agora. Logo após o Pitoco veio o Banzé, um salsichinha caramelo, irmão de outra ninhada do Pitoco. Em razão de uma briga com os dálmatas da vizinha, o Pitoco não resistiu e morreu quando eu tinha 9 anos. Minha primeira grande perda. Minha primeira grande tristeza. Minha primeira grande lição sobre a vida. Muitos cachorros vieram depois do Pitoco e também do Banzé, no que eu chamo de uma primeira fase: o Faro, um fila brasileiro amarelo; o Banzé II, uma mistura de cocker e vira-lata; o Caco, também cocker com vira-lata (mesma mãe do Banzé, que pelo jeito gostava de um malandrão, já que os dois eram de ninhadas diferentes); o Corman (Corínthians e Mangueira), um fila cinza lindo de morrer; o Viola, um filho de fox com cocker e o Chang, um shar-pei amarelo legítimo. Digo que essa foi uma primeira fase porque esses cachorros todos me lembravam da perda do Pitoco. Durante anos eu me obriguei a não me afeiçoar a eles (não que eu tenha conseguido, já que gostava demais de todos eles), pois sabia que um dia eles me deixariam e eu iria sofrer tudo de novo. Seguindo essa minha lógica (covarde e inútil), quando eu percebia que estava amando demais, fugia. Foi nessa primeira fase que me mudei de Sorocaba para São Paulo, passando a morar sozinha. Depois de alguns anos, o que aconteceu? Claro, senti uma falta imensa de cachorros e arranjei um cão de apartamento: o Zeca, um poodle branquinho. O Zeca não fez reaparecer o meu amor pelos cães porque na verdade ele nunca foi embora, mas o Zeca tornou o meu sentimento mais corajoso: eu amava os cachorros e a partir de agora sofreria por eles o quanto fosse preciso, impedindo que o medo me privasse de viver momentos maravilhosos. Algo parecido com outros amores que temos na vida, não? A partir daí fiquei tão corajosa que não bastasse minha casa em Sorocaba já estar habitada nessa segunda fase pelo Tobias, um buldogue fofo, pelo Fubá, um labrador amarelo e pelo Branco, um labrador preto, eu arranjei uma família na rua: Aurora, uma vira-lata especial e adorada, mãe do Achado, da Bionda e da Morena. Na verdade, levei a Aurora com a ninhada apenas para curá-los da sarna e da desnutrição, mas a paixão, o amor e o orgulho que me deram não me permitiram vislumbrar a possibilidade de outra família para eles. Ninguém os amaria mais do que eu. Depois deles cuidei de vários outros vira-latinhas da rua: uma ninhada de 5, dentre os quais 2 foram doados, 2 morreram (que choradeira) e uma ficou em casa, a Matilda. Depois dela vieram a Sasha, das ruas de São Paulo (mas foi minha mãe quem a levou); a Belinha, a Sara e a Nina, todas doadas; a Juju, também doada; o Dingo, doado; o Bento, a Menina e a Boneca (também minha mãe - eu fiz escola), que estão em casa hoje; o Madruga, na empresa, sem mencionar aqueles para os quais arranjei um lar e nem mesmo fiquei sabendo o nome. Hoje em Sorocaba são 13 cães no total, fora o Ulisses e a Penélope que moram comigo e costumam passar os feriados e as férias na casa da "vó". Todos esses cachorros e cachorras que já passaram pela minha vida, cada um a sua maneira, fizeram e fazem de mim uma pessoa melhor. Assim como a vida só tem valor com a morte, acredito que só nos damos conta da nossa humanidade quando convivemos e respeitamos um ser não-humano. Olhar nos olhos desses bichinhos, perceber sua dignidade e sinceridade, aceitar o seu amor e respeitar seus sentimentos faz com que sejamos maiores e melhores. O homem convivendo só com seus semelhantes passa a crer que é o dono da natureza e tem a certeza de que o mundo existe só para satisfazê-lo. Precisamos desses serezinhos ditos não racionais para nos ensinar sobre a nossa humanidade. Mais um delicioso paradoxo da vida. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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valor na morte
Estou testando um novo método para avaliar minhas prioridades e valorar minhas escolhas: o do leito de morte. Para saber em que lugar da minha lista de prioridades tal ato ou fato está e para saber o quanto aquilo é importante pra mim, me pergunto: "no momento da minha morte, por um segundo que seja, me arrependerei ou não de ter feito isto ou aquilo? Vou chegar a me lembrar desse momento na hora de minha morte?" Se a resposta for sim, aquele fato merece que eu lhe dê valor. Por exemplo: fiz uma prova de finanças onde tive que calcular valor de empresas, preço de ações, EVA, ROI, ROL, ROE, ROA, PVA, P/L, NOPAT e mais uma série de coisas que no fundo eu acho que são pegadinhas e fui muito mal. Eu, uma pessoa que ama as palavras e não se entende com os números, devo ter tirado um belo zero e saí mal da sala de aula. Aí pensei: "no momento da minha morte, vou pensar nessa prova e me arrepender de não ter estudado mais?" Não, não vou. Não vou nem me lembrar dessa prova. Então esse fato não tem tanto valor assim. Tentando me acostumar a essa idéia, fui pra casa depois da prova um pouco cabisbaixa. Ao chegar, louca para me enfiar na cama e dormir, encontrei minha cadelinha doida para brincar. Pensei: "na hora de minha morte, vou pensar que eu poderia ter brincado mais com a Penélope?" Sim, vou. Então tratei de correr pela sala com ela, pois essa brincadeira tem muito valor. E por aí vai: convite para um cinema num dia em que eu deveria dormir cedo. Uma viagem num feriado onde eu deveria fazer alguns trabalhos extras. Um bar com os amigos numa hora em que deveria estudar. Tudo isso tem muito valor. Isso não significa que fugirei das obrigações e responsabilidades, as quais levo exageradamente a sério (e talvez até por isso esteja tentando encontrar uma maneira de não sofrer tanto pelas suas consequências), mas o novo critério possa talvez me ensinar a dar o real valor para as coisas. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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o meu deus
Fugi dessas imagens nas últimas semanas como pude, por pura covardia. Ver essas crianças mortas ou despedaçadas chegou a me causar um mal físico, uma dor de estômago e uma vontade de vomitar. Essa foto, no entanto, explodiu na minha frente sem que eu me desse conta, e não pude ignorá-la. Fico olhando para a foto desse pai carregando o corpo de uma pessoinha que um dia foi seu filho e me pergunto: ele acredita em Alá? Ele acredita no Partido de Deus? No que, meu deus, ele acredita? Em que ele está pensando nesse momento? Esse desejo inerente ao homem de se sentir poderoso ultrapassou todos os limites da minha compreensão e inteligência. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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cirque du brésil
Domingo, 20 de agosto de 2006 – 22h30 – Grande Tenda do Cirque du Soleil – São Paulo Aplaudo, em pé, satisfeita e emocionada, os artistas do Cirque du Soleil, aparentemente misturas de ser humano, máquina e obra divina. O Cirque do Soleil, além de nos mostrar os frutos advindos da dedicação e coragem, nos ensina que animais não nasceram para dançar can-can sobre placas quentes nem para passar no centro de rodas de fogos ao ouvirem o estalo de um chicote. Gente é gente. Bicho é bicho. Gente é artista em circo. Bicho é artista solto na natureza. Não se faz espetáculo com exploração. Palmas para eles. Segunda-feira, 21 de agosto de 2006 – 22h30 – Esquina da Avenida de Julho com a Rua José Maria Lisboa – São Paulo Choro, sentada dentro do carro, triste e revoltada, ao ver no semáforo as crianças malabaristas do Cirque du Brésil, frutos do descaso, da corrupção e da exploração. O Cirque du Brésil tem conseguido colocar no picadeiro cada vez mais e mais artistas. Os adultos, na sua maioria, trabalham como palhaços e malabaristas. Muitos ficam à frente de atiradores de facas, torcendo para que esses não os acertem. As crianças começam como malabaristas, atirando bolinhas de tênis para o alto ou fazendo pirâmides humanas. Muitas, no entanto, já são exímias atiradoras de faca. O problema é que nenhum desses artistas está no circo porque quer. São como os leões, elefantes e macacos acorrentados e treinados para fazer suas leonices, elefantices e macaquices. Os artistas do Cirque du Brésil não sabem que o circo pode se transfomar num Cirque du Soleil. A minha esperança, naquele momento ao menos, foi de que nossos artistas mirins possam ser capturados pelo Cirque du Soleil durante sua passagem pelo Brésil. Não se faz espetáculo com exploração. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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num vôo marcado para as 17h30
Depois de três dias de congresso em Curitiba, extremamente cansada, resolvi voltar para São Paulo num vôo marcado para as 17h30 de uma sexta-feira. Ao entrar na sala de embarque, uma hora antes do horário previsto para a decolagem, fui informada pela tensão que estava no ar de que o vôo estava atrasado, e muito. Como meu desespero e meus protestos não teriam o poder de fazer surgir um avião na pista pronto para decolar, e também em razão do meu cansaço, resolvi simplesmente me acomodar numa das cadeiras e esperar o tempo passar da melhor maneira possível. No momento em que tirei um livro da bolsa, porém, percebi que o clima estava carregado demais para que eu desfrutasse desse prazer e então resolvi que naquelas horas que se seguiriam eu iria simplesmente observar, afinal de contas essa é uma das mais ricas experiências que podemos ter em locais públicos. Ao meu lado esquerdo o gerente comercial de uma empresa de transportes recebia e enviava emails decidindo as mais diversas questões operacionais. Ao lado direito uma executiva falava com duas pessoas ao mesmo tempo, segurando um celular em cada orelha, enquanto comia um sanduíche, que disse ser seu almoço. Na minha frente havia um arquiteto com um fone já acoplado na orelha, para que as duas mãos ficassem livres para checar os emails no notebook e folhear uma edição da “Arquitetura & Construção” e ao lado dele um verdadeiro desfile de executivos, todos usando o celular e o notebook ao mesmo tempo, decidindo questões envolvendo não só muito dinheiro mas também a vida de outras pessoas. Alguns gritavam e pediam que emails lhes fossem enviados enquanto estivessem voando, para que pudessem lê-los assim que o avião aterrissasse, enquanto eu observava e me perguntava se tudo aquilo era mesmo necessário. Será que todos esses profissionais estavam resolvendo questões que não podiam esperar uma ou duas horas? Eu reconheço que o tempo de espera num aeroporto pode ser utilizado para o trabalho, mas não é essa questão. O que eu gostaria mesmo de saber é se as pessoas estão se dando conta de que a neurose da luta contra o tempo e a favor da produtividade entrou no inconsciente coletivo e faz com que ninguém mais consiga ficar sentado num aeroporto não trabalhando e sem culpa. Quem olhasse aquela sala de fora, como eu estava tentando fazer, teria a impressão de que o mundo iria simplesmente acabar dentro de alguns minutos e a missão de cada um era salvar o que pudesse das suas organizações. Não havia um minuto a perder. Nem mesmo dentro do avião, com todos os protestos das aeromoças, os celulares eram desligados e eu comecei a me perguntar quantos anos teriam aqueles senhores com rostos jovens e cabelos todos brancos. Quantos anos teriam os filhos desses homens e mulheres, dos quais eles obtinham notícias através de telefonemas para as babás? Eu não sou contra o trabalho, muito pelo contrário: também não sei viver sem ele. Mas eu também amo minha família, meus amigos, meus cachorros e minha casa. Um mês de férias é tão importante para mim quanto os onze meses que passo trabalhando, mas a impressão que tenho é que nada disso mais importa. Nós deixamos de trabalhar para viver e passamos a viver para trabalhar. Se isso é bom ou ruim, só os adultos por nós “criados” poderão dizer. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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sábado
Eu não defendo nem árabes nem judeus...defendo apenas a vida e a dignidade humana que, não se esqueçam, inclui também o respeito pela natureza e pelos outros seres ditos não racionais. De maneira que considero importante termos conhecimento de textos e até mesmo fotos, por mais chocantes que sejam, que nos levem no mínimo à reflexão. Mais uma vez, não para defender um ou outro, mas para nos defendermos de nós mesmos. Lu Gerbovic Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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4
sexta-feira
quem sofre de véspera é peru
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quinta-feira
Esse áudio está licenciada sob uma Licença Creative Commons. . . . . . . .
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Vinheta de Abertura . GAME_Cultura
Festival de Jogos Eletrônicos do SESC Pompéia de 29 de JUNHO à 06 de AGOSTO quer jogar? *______________________________________* . 05 MMO´s . 25 computadores . 04 arcades . 10 jogos selecionados MOSTRA_BR OFICINAS * VJs * SHOWS * PALESTRAS........ *_______________________________________* programação completa: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=15226416 ou www.sescsp.org.br
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Parte do conteúdo deste podcast está licenciada sob: todas as de Leticia Kamada e nenhuma de Luciana Gerbovic ou convidados
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leticia e luciana
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