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Histórias de ter.a.pia

Histórias reais, de gente como a gente, para você ouvir e se inspirar.

  1. 255

    Meu cachorro aprendeu a salvar minha vida

    Desde pequena, Sabrina carregava a sensação de não pertencer a lugar algum. Na escola, era a criança que ficava sem recreio porque não conseguia acompanhar a aula, sofria bullying e acabou encontrando abrigo justamente entre os “desasjusados”. Sem entender o que acontecia dentro de si, cresceu tentando anestesiar uma dor. Aos 13 anos, encontrou no álcool uma fuga, que só a fez afundar. Na vida adulta, suas crises emocionais passaram a afetar o trabalho, os relacionamentos e a própria vontade de continuar vivendo.Durante muito tempo, todos enxergavam apenas uma mulher emocionalmente descontrolada. Até que vieram os laudos. Autismo, TDAH, ansiedade, depressão e síndrome de Tourette. O diagnóstico trouxe respostas, mas também o peso de aceitar que aquela diferença tinha alguns nomes.Nessa época, o Glück já fazia parte da sua vida. Ele chegou filhote e, logo nos primeiros meses, Sabrina descobriu que ele era surdo. Em vez de desistir, aprendeu uma nova forma de se comunicar com seu cãozinho. Adaptou comandos, treinou cada gesto e construiu uma linguagem com ele..Anos depois, aquele cachorro que já era companhia se tornou seu cão de assistência, que auxilia a Sabrina em momentos de crise.Hoje, antes mesmo que Sabrina perceba uma crise chegando, o Glück percebe. Ele encosta a cabeça na sua perna, cutuca suas mãos e tenta chamar sua atenção. Quando ela começa a se machucar, batendo a cabeça ou arranhando o próprio rosto, ele salta sobre seu corpo e faz o que os especialistas chamam de terapia de pressão. O peso do seu corpo interrompe o caos. Sabrina respira, acaricia seu pelo e, aos poucos, volta para a realidade.Ela costuma dizer que existe uma diferença enorme entre sair sozinha e sair ao lado dele. Antes, uma crise no meio da rua podia fazê-la ficar totalmente perdida. Hoje, ela sabe que não está sozinha.Porque, às vezes, o que salva uma vida não é apenas encontrar um diagnóstico, mas um ser vivo que, mesmo sem ouvir uma única palavra, aprende exatamente como cuidar de você.

  2. 254

    Depois de muitas relações abusivas, me apaixonei por uma colega de trabalho

    Durante muito tempo, Sayuri acreditou que amar significava suportar. Foi preciso atravessar a culpa, relacionamentos complicados, a maternidade e o esgotamento para descobrir que o amor de verdade não grita, não controla e não faz alguém esquecer de si.Ainda criança, ela cresceu tentando expulsar de si os sentimentos que acreditava serem pecado. Entre as orações de domingo e os primeiros apaixonamentos por meninas, carregava uma culpa que ninguém deveria conhecer tão cedo. Quando descobriu que também gostava de homens, acreditou ter encontrado o caminho para uma vida "normal". Mas os dez anos ao lado do noivo terminaram um mês antes do casamento, deixando para trás não apenas um coração partido, mas uma mulher que já havia perdido a própria autonomia.Foi a espiritualidade que a fez olhar para dentro e perguntar por que aceitava tão pouco de quem dizia amá-la. Ainda assim, repetiu velhos padrões em outro relacionamento. Vieram suas duas filhas, o preconceito no trabalho, o pós-parto, as mudanças no corpo e uma rotina marcada por discussões, gritos e solidão. Até entender que não podia convencer ninguém a tratá-la com respeito. Podia apenas escolher sair.A virada aconteceu quando conheceu Roberta. O encanto foi imediato, mas o que transformou Sayuri não foi a paixão. Foi encontrar alguém que respeitava seus limites, acolhia seus medos e nunca a fazia implorar por consideração. Pela primeira vez, ela percebeu que era desejável, mas, acima de tudo, digna de cuidado.Hoje, ela sabe que o maior amor da sua vida não foi aprender a amar outra pessoa. Foi aprender a se escolher. Porque relacionamentos podem acabar, mas quem aprende a se colocar como prioridade nunca mais aceita viver onde o afeto precisa disputar espaço com a humilhação. E, para quem enfrenta esse caminho, ela deixa duas certezas: ninguém atravessa a vida sozinho. Rede de apoio e terapia também são formas de amor.

  3. 253

    Monique Evelle: Mulher preta só existe pela dor?

    Quando era criança, a Monique Evelle sonhava em ter dinheiro por um motivo muito simples: dar um plano de saúde para a mãe. Anos depois, ela conquistou muito mais do que isso: é uma empresária de sucesso, investidora e a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Shark Tank Brasil. Mas com todo esse sucesso, ela descobriu que para muita gente, isso tudo só faria sentido se viesse acompanhado de sofrimento.Monique cresceu na periferia de Salvador acreditando que podia criar uma realidade que ainda não existia. Queria ser professora porque acreditava que a educação mudava vidas.Até ouvir, ainda adolescente, que ninguém vivia de sonho.A frase que poderia ter desanimado ela, fez o contrário: aos 15 anos, ela decidiu que construiria uma trajetória impossível de ser ignorada.Vieram a universidade, sua primeira empresa, o trabalho no Profissão Repórter e, depois, a decisão de voltar ao empreendedorismo. Foi quando entendeu que dinheiro e impacto social não precisavam ocupar lados opostos. Era possível transformar o mundo e prosperar ao mesmo tempo.Mas nem a ascensão apagou o racismo. As pessoas continuam perguntando se o dinheiro é realmente dela, continuam esperando o erro, e acreditando que alguém deve estar por trás das suas conquistas.Foi então que Monique percebeu outra armadilha.Sempre esperavam que ela falasse sobre dor. racismo, resistência. Como se uma mulher preta só pudesse emocionar quando estivesse sangrando.Mas ela decidiu fazer o contrário. Recentemente, escreveu um livro sobre amor. Falou do marido, dos afetos, da vontade de construir uma vida leve. E descobriu que isso incomodava mais do que qualquer denúncia.Porque existe um mundo que aceita mulheres negras fortes, desde que continuem sofrendo, mas a Monique recusou esse papel.Ela não quer provar que merece estar onde chegou porque pessoas pretas não precisam justificar o sucesso pela dor.Também podem vencer pelo sonho, pelo talento e, principalmente, pelo direito de amar em voz alta.

  4. 252

    Passei a cuidar do meu marido após um AVC aos 32 anos

    Aos 32 anos, Evandro viu sua vida mudar de forma repentina: o cabeleireiro que sonhava em ter o próprio salão passou a depender de cuidados diários após um AVC grave. Mas, para Anderson, o amor que construíram juntos nunca coube dentro de um diagnóstico. Anderson e Evandro se conheceram pela internet. Em poucos meses já dividiam a mesma casa, os mesmos planos e o sonho de empreender juntos. Com o passar dos anos, tornaram-se família um para o outro. No segundo semestre de 2023, começaram as dores de cabeça de Evandro. Eles não sabiam, mas eram sinais de que algo estava errado.Na segunda-feira de Carnaval de 2024, Anderson foi visitar a família em outra cidade e quando voltou, encontrou Evandro apoiado na pia do banheiro, pedindo ajuda porque já não sentia as pernas. Horas depois, ele estava inconsciente no hospital.Foram dias de incerteza, até que em um breve momento de esperança, Evandro voltou a falar. E, logo depois, a notícia que mudaria tudo: ele havia sofrido um AVC.Foram quase cinquenta dias de UTI até que os médicos falaram em cuidados paliativos. Anderson imaginou que estava se despedindo. Em vez disso, precisou aprender a cuidar. Aprendeu a aspirar a traqueostomia, adaptar a casa e reorganizar toda a vida.Em meio à rotina do hospital, uma pergunta mal feita atravessou Anderson. Um médico quis saber onde estava a família de Evandro. Por um instante, ele percebeu tudo o que haviam construído juntos, e respondeu que a família estava ali. Nos seus irmãos, nas cunhadas, na sua mãe que não saía do seu lado, sobretudo na sua presença também. Porque, depois de tantos anos compartilhando a vida, Anderson não era, nem nunca foi um simples companheiro. Ele é a família do Evandro.Atualmente, o quadro do Evandro é bastante complexo. Ele se comunica por olhares, expressões e pequenos sinais que só quem ama aprende a traduzir. E Anderson aprendeu que cuidar não é abandonar a própria vida, mas encontrar novas formas de compartilhá-la.Porque o caminho não ficou mais fácil, só ficou mais leve. E, às vezes, o amor não cura, no sentido que a gente acredita que seja a cura, mas permanece. E permanecer, em certos momentos, é o gesto mais bonito que existe.

  5. 251

    A morte do meu pai mudou a forma que subo no palco para cantar

    Quando perdeu o pai de forma repentina, a Bruna entendeu que o amor deixa marcas que permanecem vivas, mesmo quando a voz de quem amamos já não pode mais ser ouvida.Pouco tempo antes da perda, Bruna havia passado um feriado ao lado do pai. Voltaram para casa no sábado. No domingo de manhã, ele saiu de moto e não voltou mais. Um acidente interrompeu uma história que ela imaginava ter muito mais capítulos pela frente.15 depois, ainda mergulhada no luto, ela tinha um show marcado. Subir naquele palco parecia impossível, mas foi justamente ali, tão perto da despedida, que encontrou forças para seguir. Cantar a fez lembrar por que havia escolhido a música. Desde o início, cada nota carregava um desejo silencioso: orgulhar o pai.A música sempre foi uma herança de família e seu avô era um de seus maiores mestres. Já muito doente, ele passava os dias entre a cama e as lembranças. Foi durante uma visita despretensiosa que Bruna comentou ter experimentado uma sanfona na casa de um amigo, e seu avô respondeu apontando para um instrumento esquecido na sala.A partir daquele dia, ela começou a aprender sozinha. Assistia a vídeos, ensaiava algumas notas e levava a novidade para compartilhar com ele. A sanfona virou uma desculpa bonita para estar presente com ele.Foi então que o pai percebeu algo especial naquele encontro entre neta e avô. Incentivou Bruna a pedir o instrumento para ela. Antes mesmo que ela terminasse a frase, o avô já havia dado sua resposta: para ele, aquela sanfona pertencia a quem a tocava.Um mês depois, ele partiu.Hoje, o pai já não está aqui. O avô também não. Outros amigos se foram pelo caminho, alguns de forma tão inesperada quanto o pai. Mas, quando Bruna canta, nenhuma dessas presenças parece distante.Porque a música se tornou o lugar onde as memórias permanecem vivas, o espaço onde o amor continua encontrando voz e onde ela pode reverenciar aqueles que ajudaram a construir quem ela é.Bruna acaba de lançar a música “Quase de Dançar”. O clipe reúne relatos de pessoas que já passaram pelo @historiasdeterapia e que ajudam a comprovar o poder transformador da música. Como diz a própria letra: toda canção nasce do que é bom de ouvir por dentro.

  6. 250

    Antes de ser finalista do The Voice Brasil, ela ouviu que deveria lavar banheiro

    A pandemia quase levou a vida de Amanda. Ela sobreviveu, mas quase perdeu aquilo que mais amava: a sua voz. Para uma cantora, ouvir que nunca mais voltaria a cantar era como perder parte da própria identidade. Amanda cantava profissionalmente desde os 17 anos quando, em 2020, contraiu Covid-19. As complicações vieram rápido. Asmática, chegou ao hospital com apenas 40% de saturação e já apresentava sinais de confusão mental. Em pouco tempo, precisou ser entubada. O procedimento deixou uma cicatriz em suas pregas vocais.A recuperação foi lenta e dolorosa. Ela perdeu peso, precisou usar cadeira de rodas e dependia de ajuda até para tomar banho. A voz, antes firme, agora saía trêmula, insegura. Como se não bastasse, Amanda perdeu 37% da audição do ouvido esquerdo e passou a enfrentar dificuldades motoras que faziam seu próprio corpo parecer estranho.Quando decidiu buscar tratamento para voltar a cantar, encontrou alguns profissionais que diziam não saber como ajudá-la. Outros foram além: afirmavam que sua voz jamais voltaria. Um deles chegou a sugerir que abandonasse a música e procurasse um trabalho como faxineira, num óbvio comentário racista.Mas ela não deixou barato! Amparada pela fé, pela família e pela fonoaudióloga que acreditou nela, iniciou uma longa reabilitação que devolveram, pouco a pouco, aquilo que parecia perdido. Primeiro vieram os movimentos. Depois, algumas notas musicais e, finalmente, a voz.Em 2023, Amanda subiu ao palco do The Voice Brasil. Se inscreveu no programa para celebrar a vida, como alguém que voltou a ficar de pé. Amanda virou as quatro cadeiras e terminou a competição em segundo lugar!Desde então, cantou dentro e fora do Brasil, integrou projetos ao lado de grandes artistas, como Seu Jorge, e viu seu nome aparecer em lugares que jamais imaginou alcançar durante os dias em que sequer conseguia tomar banho sozinha.Ela aprendeu que recomeçar nem sempre significa voltar ao que era antes. Às vezes, significa voltar mais forte. Algumas pessoas recebem uma segunda chance, e a Amanda transformou a dela em música.

  7. 249

    Humilhada por uma professora por ser faxineira, ela deu a volta por cima através da escrita

    A Aline cresceu no morro vendo a mãe se dividir em dois empregos para sustentar três filhos sozinha. Desde muito cedo ela aprendeu que sobreviver vinha antes dos sonhos.Ela parou de estudar aos 13 anos para trabalhar no farol. Enquanto vendia coisas nos semáforos, aprendia também a se proteger dos perigos que cercavam meninas pobres e negras desde cedo demais.Mais tarde, já com seu primeiro filho, ela consegue o primeiro emprego como faxineira depois de voltar a estudar pelo EJA, equilibrando os R$410 do salário entre aluguel, fraldas, leite e a vizinha que cuidava do filho pequeno. Mesmo enfrentando preconceito e assédio, ela seguia trabalhando com dignidade nas faxinas. Fazia questão de sorrir enquanto limpava banheiros, como quem tentava provar para si mesma que nenhum trabalho deveria diminuir alguém.Quando começou a trabalhar em uma creche, como auxiliar de limpeza, os traumas da infância voltaram. Via crianças negras e atípicas sendo excluídas das rodas, ignoradas pelas professoras, tratadas como invisíveis. Ela não conseguia fingir que não via.Até que, durante uma reunião de professores, ela sugeriu uma brincadeira para as crianças. A resposta de uma das professoras veio em forma de humilhação: “Cala a boca! Você não tem pedagogia”.Aquilo doeu fundo na Aline, mas foi também o dia em que ela decidiu que voltaria para aquela escola como professora.Sem dinheiro para faculdade, virou passista da Vai-Vai para pagar os estudos. Trabalhava como faxineira durante a semana, fazia shows à noite e vendia produtos em feiras nos finais de semana. Tudo isso enquanto criava o filho sozinha e tentava sobreviver a um relacionamento que repetia diariamente que ela era burra demais para conseguir se formar.Até que ela conseguiu. Entrou na Universidade Zumbi dos Palmares, se formou em pedagogia e voltou para a mesma creche que foi humilhada. Dessa vez, como professora.Ali, a Aline entendeu que podia transformar dor em acolhimento, e foi isso que fez dentro das salas de aula.Mais tarde, após o nascimento do filho com síndrome de Down, precisou deixar a escola novamente, mas não largou a pedagogia e transformou essa nova dor em literatura. Escreveu livros infantis com protagonismo negro e viu suas obras viajarem o mundo, serem reconhecidas em universidade fora do Brasil.A faxineira silenciada dentro de uma escola hoje ensina justamente aquilo que mais faltou para ela durante a vida toda: afeto e pertencimento.

  8. 248

    Meus amigos decidiram que iam doar um rim para salvar minha vida

    Aos 33 anos, o Vinícius tomou um susto quando o que parecia ser apenas uma crise de gota revelou algo muito maior. Seus rins já não funcionavam como deveriam, e metade da função estava perdida. Junto com o diagnóstico, veio um medo que ele nunca tinha sentido antes, que era a sensação constante de que podia morrer, já que em determinado momento ele passou a precisar de um transplante de rim.Por sorte, Vinicius sempre teve muito acolhimento da família e também dos amigos, como o Thiago e a Xaxá. Foi numa ligação despretensiosa com a Xaxá, que ele ouviu que se fosse preciso, o amigo doaria um rim. Mas isso soou apenas como um apoio moral, até porque até ali ninguém sabia da seriedade da sua doença. O tempo passou, a doença do Vinicius avançou e ele seguiu em silêncio, carregando a certeza de que não podia pedir um rim pra ninguém. Até que, numa conversa com os amigos, ele mencionou que precisaria do transplante. E, como se fosse a coisa mais natural do mundo, Thiago e Xaxa compartilharam seus tipos sanguíneos. Como quem diz: “Sou um possível doador”.Foi nesse momento que tudo mudou.O que antes era impensável se tornou real, mas aceitar que alguém fizesse isso também doía porque receber um gesto desses carrega uma enorme responsabilidadeMas os amigos estavam junto com o Vinicius, e não voltariam atrás. Foram fazer os exames para saber qual dos dois era o doador perfeito, e o escolhido foi o Thiago.Xaxa, apesar de não se tornar doadora, não ficou de fora. Criaram um grupo dos três e ela era a mãezona que sustentava, cuidava e permanecia ali para não deixar as ansiedades consumirem os dois.Antes da cirurgia, Vinícius, que é ator e músico, sentia como se estivesse prestes a entrar em cena. Ansioso, mas pronto. Sabia que precisava daquilo para continuar.E deu certo!E, no fim, não era só um transplante, mas um chamado para o SIM. O gesto dos amigos, a responsabilidade de Vinicius, tudo isso revela muito sobre amizade, mas também sobre algo muito simples e raro: um ser humano disposto a dar vida a outro.

  9. 247

    Conheci meu marido na cadeia e só aceitei ficar com ele se largasse o crime

    A Jéssica foi visitar o irmão na prisão e acabou encontrando ali o homem com quem construiria uma família. Em um lugar marcado pelo julgamento e pela desconfiança, a Jéssica descobriu que algumas pessoas só precisavam de alguém que acreditasse nelas pela primeira vez.Tudo começou nas visitas ao irmão, preso em Parelheiros. Entre corredores frios, marmitas e olhares baixos, ela conheceu Emerson, o responsável por aquecer e distribuir a comida dos visitantes daquela cela. Quieto, tímido, sempre desviando o olhar, enquanto os outros falavam apenas o necessário com o Emerson, Jéssica puxava conversa. Ela não tinha nenhuma intenção, a não ser integrá-lo nas visitas, já que ele não recebia nenhuma.Com o tempo, nasceu uma amizade entre os dois. O Emerson contou sobre os erros que tinha cometido, sobre o abandono que viveu e sobre a vida que nunca tinha aprendido a construir direito. Jéssica escutava sem romantizar nada. Ela sabia o peso daquele lugar.Quando o irmão ganhou o semiaberto, ela acreditou que nunca mais pisaria numa cadeira de novo. Mas meses depois recebeu carta do Emerson, que revelou tentar esquecê-la, mas não conseguiu. Entre meses de troca de cartas, Jéssica era dura e dizia que seria só amizade, até que ele saísse da prisão. Mas aquela troca fez crescer um sentimento improvável. Até que um dia ela decidiu voltar à prisão apenas para olhar Emerson nos olhos. Foi ali, no meio do pavilhão, cercados pelo preconceito silencioso das pessoas, que os dois se beijaram pela primeira vez.Mas Jéssica deixou claro: amor nenhum sobreviveria se ele continuasse na vida errada.Emerson saiu da prisão decidido a recomeçar. Ganhou uma oportunidade de trabalho e encontrou na família dela algo que nunca tinha tido antes: acolhimento.Anos depois, o sonho que ele descreveu em uma das primeiras cartas virou realidade. Eles tiveram um filho. Hoje, Jéssica acredita que existem pessoas que não querem mudar, mas sabe também que algumas só precisam de uma segunda chance. Emerson aproveitou a dele. E ela aprendeu que ressocializar alguém não é apagar os erros do passado, mas acreditar que o futuro ainda pode ser diferente.

  10. 246

    Fim da escala 6x1: Ela decidiu que suas funcionárias iriam trabalhar numa jornada 4x3 depois de sofrer um burnout

    Descanso é fundamental pra todo mundo! Foi quando entendeu isso que Letícia mudou não só a própria vida, mas a forma como outras mulheres trabalhavam no seu salão de cabelereiro, assumindo uma jornada 4x3 de trabalho, num momento em que discutimos o fim da escala 6x1.Antes disso, a história da Letycia começa em escassez. De família pobre e criada na periferia da Baixada Santista, ela cresceu rápido, aprendendo a transformar necessidade em possibilidade. Brincava de salão de beleza antes mesmo de saber que aquilo seria seu caminho. Aos 13, com uma prancha e um secador dados pela mãe e pela avó, começou a atender vizinhas. Ia de bicicleta, enfrentava chuva, desconfiança e até abordagem policial. Era uma menina com uma mala, insistindo em ser levada a sério.O primeiro salão nasceu improvisado, no meio da garagem de casa, que inundava quando o canal enchia. Lá tinha um lavatório com balde, um espelho simples, toalhas penduradas em um varão adaptado pelo pai.Com o tempo, as conquistas que pareciam impossíveis começaram a surgir. Até que ela realizou o grande sonho de abrir um salão no centro de Santos, e foi ali que tudo perdeu o sentido também.A sobrecarga chegou silenciosa. Um dia, mesmo com o salão cheio, Letycia se sentia vazia por conta do cansaço extremo. Ali, ela entendeu que nenhum sonho justificava perder a si mesma.Fechou o salão e recomeçou do zero, mas agora com um pensamento diferente.Foi nesse recomeço que veio a virada. Se ela se sentia sobrecarregada, outras mulheres também deveriam estar, e decidiu que suas funcionárias trabalhariam na jornada 4x3. Todo mundo tiraria folha aos domingos, segundas e sextas. Ela sabia que era importante ter tempo para os filhos, para o lazer, para seus relacionamentos. Era importante estar presente na vida. E o resultado não poderia ter sido melhor: no sábado, todas chegavam com mais energia, mais alegria, simpatia e cuidado com as clientes.Porque, para a Letycia, o diferencial nunca foi o café de cortesia, mas o tempo dedicado a escutar cada cliente.Hoje, ao olhar para trás, Letícia reconhece cada etapa: da menina que sonhava mudar de vida à mulher que construiu um negócio com propósito. Porque a vida, sua e de suas funcionárias, não se negocia! Compre o livro do ter.a.pia "A história do outro muda a gente" e se emocione com as histórias : https://amzn.to/3CGZkc5Tenha acesso a histórias e conteúdos exclusivos do canal, seja um apoiador http://apoia.se/historiasdeterapia

  11. 245

    Eu acreditei no conto de fadas com um gringo, mas entrei numa relação tóxica

    A Nadja atravessou o oceano acreditando que estava indo ao encontro do amor da vida, mas entendeu em outro país, casada com um gringo, que o sonho de princesa que vendem nos filmes, não existe. Nadja conheceu um polonês que morava na Suíça através de amigos. Foram apenas 17 dias juntos no Brasil, mas o suficiente para que ela acreditasse estar vivendo um conto de fadas. A paixão veio rápida, intensa, dessas que fazem parecer que finalmente tudo encontrou sentido.Quando ele voltou para a Europa, os dois decidiram que dariam um jeito de ficar juntos. Nadja se preparou, guardou dinheiro e foi para lá. Levou na mala a coragem e a ingenuidade de quem acreditava que o amor bastava.Mas logo na primeira semana, percebeu que algo não estava certo. As críticas dele sobre seu jeito de falar, de se vestir, de existir começaram a surgir muito rápido. Aos poucos, ela foi sendo colocada no lugar de quem devia agradecer por estar ali, como se ele estivesse fazendo um favor.E o que começou ruim, piorou. Ele passou a dizer que ela o envergonhava na frente dos seus amigos, controlava seu dinheiro e fazia questão de lembrá-la de que ela estava ali por conta dele.Nadja foi se apagando, ao mesmo tempo que tentava justificar aquelas violências. Pensava no passado difícil dele, na dor que ele carregava, na ideia de que amar também era suportar. Afinal, ela cresceu ouvindo que sofrimento era aprendizado e, quanto mais difícil ficava, mais ela acreditava que precisava fazer dar certo.Até que uma noite, deitada na cama, sentiu uma angústia física. Pensou na menina que um dia tinha sido, a Nadja de franjinha curta, e se perguntou se deixaria aquela criança viver aquilo.A resposta veio imediata: não.Nadja pegou suas coisas e voltou ao Brasil sem saber recomeçar, mas sabendo que precisava sobreviver. Foi aqui que encontrou força nas próprias raízes e ouvindo o pai falar sobre os Charruas, povos indígenas indomáveis do sul do Brasil, ela entendeu algo que ninguém tinha lhe ensinado: ela também era feita dessa resistência.Antes de voltar pela última vez para pedir a separação, ouviu do pai que gaúcho mora sob as estrelas, livre, e que ela também era assim. Livre e indomável.Nadja hoje trabalha com mulheres imigrantes e ajuda outras pessoas a saírem de relações abusivas, mostrando que amor não é encontrar um salvador, até porque ninguém veio ao mundo para ser servido, muito menos para servir. Veio para ser livre.

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