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Linha Direta

Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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  1. 24

    Em Portugal, pedidos de ajuda financeira para voltar ao Brasil crescem mais 50% no primeiro semestre

    A Organização Internacional para Migrações, OIM, entidade ligada à ONU, mantém em Portugal um dispositivo para ajudar imigrantes que desejam deixar voluntariamente o território português e voltar ao seu país de origem. Um balanço recente aponta um aumento no número de brasileiros que recorrem ao sistema. Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Portugal O programa chama-se Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração. Ele é destinado a pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, independente da região onde vivam, ou de estarem com a situação migratória regularizada. Recentemente, o que chamou a atenção foi o crescimento no número de brasileiros recorrendo a essa ajuda. Nos primeiros sete meses deste ano, a quantidade de pessoas pedindo o apoio subiu mais de 50% em comparação ao mesmo período do ano passado. É um indicativo de que o “sonho português” tem virado desilusão para muitos. No formato atual, o programa começou em 2024, mas desde então a tendência é crescente. Em todo o ano de 2024, 432 brasileiros fizeram a inscrição, pedindo apoio para o retorno. Um volume que já foi ultrapassado apenas nos sete primeiros deste ano. Até julho de 2026, o número chegou a 470 pedidos de ajuda. Os relatórios da Organização Internacional para Migrações, entidade que organiza o programa, apresentaram em 2025 uma média de 44 pedidos de brasileiros por mês; este ano, a média mensal está em 67, o que significa um aumento de 52%. Há inscritos de vários países, como Venezuela, Sri Lanka e Moçambique, mas o Brasil representa a maioria dos atendimentos. Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal, sendo 30% do total de imigrantes, mas representam 80% do total de pedidos de retorno. E são do Brasil quase todas as crianças que participam do programa. Ano passado, 85 crianças regressaram ao país com esse apoio oficial, o que mostra que são famílias inteiras que estão desistindo de viver em Portugal. O apoio ao retorno inclui a compra da passagem aérea e uma ajuda de custo de € 70 para as despesas durante a viagem. A passagem e o dinheiro são entregues em mãos, no dia, por um funcionário do programa. Muitas pessoas se inscrevem, mas acabam não completando o processo; a porcentagem de concretização do retorno costuma ser metade dos inscritos. A OIM não detalha os dados dos processos, mas há alguns obstáculos importantes: um deles é que é preciso comprovar a vulnerabilidade econômica e mostrar que não tem como voltar por meios próprios. Outro ponto importante é que quem participa do programa fica por três anos impedido de entrar tanto em Portugal como em qualquer outro país do Espaço de Schengen, zona de livre circulação que abrange 29 países europeus. Como muitas vezes o sonho de viver em Portugal acaba sendo substituído pelo sonho de viver em outro país da Europa, algumas pessoas preferem esperar um pouco mais, fazer algum sacrifício e se reogarnizar sozinho para poder partir para outro destino. As histórias de pessoas decepcionadas com a vida em terras portuguesas são cada vez mais frequentes. E há vários perfis, desde gente que veio de forma irregular e teve dificuldade para conseguir emprego e documentação, até quem chegou já com visto, com emprego certo, mas depois se deparou com um alto custo de vida e de moradia, e acabam preferindo voltar para o Brasil.

  2. 23

    Oposição israelense ataca Netanyahu após denúncia sobre alerta antes de 7 de Outubro

    Segundo o jornal Haaretz, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria recebido um telefonema do presidente dos Emirados Árabes Unidos, o xeque Mohamed Bin Zayed, alertando-o sobre uma operação planejada pelo Hamas uma semana e meia antes dos ataques de 7 de Outubro de 2023. Especialistas, porém, avaliam que a revelação dificilmente alterará de forma significativa o resultado da eleição, servindo mais para aprofundar a polarização política em Israel. Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel A ligação telefônica teria durado cerca de 45 minutos. O gabinete do primeiro-ministro classificou a matéria como “uma completa mentira”. O comunicado divulgado à imprensa afirma que "durante o período em questão, Netanyahu não conversou com o presidente dos Emirados Árabes Unidos e não recebeu qualquer aviso dele”.  O governo dos Emirados Árabes Unidos não negou a informação, mas preferiu não comentá-la diretamente.   “Órgãos dos governos dos Emirados e de Israel têm mantido linha direta de comunicação desde o início da relação [entre os países] mais de cinco anos atrás. Quando necessário, toda a informação de inteligência foi e continua a ser comunicada entre os órgãos relevantes”.  Em Israel, as lideranças dos partidos de oposição partiram para o ataque. Gadi Eisenkot, líder do partido Yashar, que neste momento ocupa a liderança em parte das pesquisas de intenção de voto para a eleição de 27 de outubro, declarou que “cada vez mais indícios apontam que Netanyahu conduziu Israel cegamente ao fracasso dos ataques de 7 de Outubro”.  Ainda segundo Eisenkot, “Netanyahu recebeu dezenas de avisos e ignorou todos. Ele é incompetente”. Ele prometeu também formar uma comissão de investigação estatal para "esclarecer o que Netanyahu sabia e o que não sabia”. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, líder do partido Yahad, de centro-direita, afirmou que “a informação é verdadeira” e que “Netanyahu tem responsabilidade pessoal e direta pela omissão que levou às mortes de milhares de israelenses”.  O líder do partido de esquerda Os Democratas, Yair Golan, disse que “as desculpas de Netanyahu acabaram e que ele é culpado”. Golan também prometeu formar uma comissão estatal de investigação "que revelará toda a verdade”. “Por negligência, Netanyahu é responsável pelo massacre de 1.200 israelenses em 7 de Outubro”, afirmou.  Timing pode ser chave Faltam menos de 50 dias para a eleição geral, justamente a primeira a ocorrer após o 7 de Outubro, após as guerras em Gaza, no Líbano e no Irã.  Ainda não se sabe qual será o impacto eleitoral desta notícia. Até agora, antes da revelação, as pesquisas mostravam que os partidos que atualmente estão no governo liderado pelo primeiro-ministro Netanyahu não conseguem formar uma nova coalizão majoritária.  Dois especialistas ouvidos pela RFI em Israel avaliam as possíveis consequências da reportagem do Haaretz com certa cautela. João Miragaya, mestre em história pela Universidade de Tel Aviv e cofundador do podcast 'Do Lado Esquerdo do Muro', não acredita que a revelação poderá mudar de forma decisiva o rumo das eleições.  “Durante a campanha, Netanyahu decidiu voltar a ‘trabalhar’ o 7 de Outubro para reconstruir a narrativa sobre o papel dele. Mas a teoria de conspiração que ele buscou emplacar de que ele não teria sido acordado de propósito deu errado.”  Miragaya faz referência à madrugada entre os dias 6 e 7 de outubro, uma vez que a ofensiva do Hamas começou às 6h29 do dia 7.  “A partir dessa reportagem, é provável que Netanyahu tente mudar de assunto. Do ponto de vista eleitoral, eu não acho que nem meio mandato vai mudar de lado devido a esta informação, por mais bombástica que ela possa parecer. Os eleitores dele não se importam com isso. Não importa a verdade, mas sim no que eles [os eleitores de Netanyahu] querem acreditar”, diz Miragaya sobre as revelações da reportagem.  Dan Orbach, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém, também não acredita em consequências mais dramáticas.  “Aqueles que odeiam Netanyahu acreditarão nisso [na informação divulgada pelo Haaretz]. Já os apoiadores do primeiro-ministro irão entender como difamação e perseguição. Acredito que o efeito sobre o eleitor marginal será pequeno. Isso vai reforçar a polarização, reforçar a adesão de ambos os lados”, avalia Orbach.  Listas eleitorais concluídas Terminou às 22h de 8 de setembro o prazo legal para a entrega das listas de todos os partidos. Como Israel é um regime parlamentarista, os eleitores votam em partidos, não em candidatos. Assim, as listas com os nomes e as posições que cada candidato ocupa são fundamentais para que os eleitores tenham clareza sobre o processo.  O Knesset, o parlamento israelense, tem 120 cadeiras. Para formar uma coalizão de governo é preciso obter a metade mais um dos assentos, ou seja, no mínimo de 61 parlamentares.  A ordem apresentada por cada partido à comissão eleitoral é fundamental, pois indica ao eleitor quem são os candidatos e em que posição cada um aparece na lista. Por exemplo, as pesquisas apontam que o Likud, o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, deve obter entre 22 e 25 cadeiras. O número um da lista é Netanyahu, líder da legenda. Um candidato da lista do Likud que ocupe a 30ª posição dificilmente terá assento na próxima legislatura. Assim funciona com todos os partidos, que negociam internamente as posições de seus candidatos. Não há uma regra sobre a quantidade de membros presentes nas listas de cada partido.  O cenário político interno de Israel é dominado por 14 partidos e coalizões. Para obter pelo menos quatro assentos no Knesset, cada um deles deverá ultrapassar a cláusula de barreira de 3,25% do total de votos válidos. 

  3. 22

    Campanha eleitoral entra no segundo mês de forma desafiadora para Lula

    A 26 dias do primeiro turno das eleições, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscam conter os impactos políticos do caso Master/Moraes sobre a campanha à reeleição. Do outro lado, a direita tenta associar a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal ao PT para desgastar o governo. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Mais do que o número de pessoas nas manifestações pelo dia da Independência do Brasil, a semana começou marcada por dados da pesquisa Quaest que mostram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) exatamente empatados no segundo turno, com 41% das intenções de voto. O resultado reflete não um avanço do candidato do PL, que permanece estável, mas uma oscilação negativa do desempenho do presidente. O sinal de alerta na esquerda desta vez vem em um momento de profunda crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O escândalo do Banco Master, que era até então o calcanhar de Aquiles de Flávio Bolsonaro, por causa da gravação em que ele pede recursos a Daniel Vorcaro, virou hoje um telhado de vidro ainda maior para o governo Lula, uma vez que, no epicentro do caso, está Alexandre de Moraes, relator do inquérito que condenou os golpistas do 8 de Janeiro. “A princípio, o escândalo do Master afetou mais Flávio Bolsonaro. Porém, agora, mais próximo das eleições e com o alvo muito bem definido no momento, que é Alexandre de Moraes, essa crise desfavorece muito mais a campanha de Lula à reeleição”, afirmou à RFI o cientista político André Rosa. “O discurso bolsonarista anti-Alexandre de Moraes começa a ser um pouco mais palatável para aquele eleitor que antes desconfiava, que o achava exagerado e até uma certa perseguição. Esse eleitor, antes indeciso, pode ter alguma base para associar a imagem de Lula à do próprio Alexandre de Moraes”, explica o analista. Ciente disso, Lula chegou a defender, em vídeo e sem citar nomes, uma investigação total contra todos os suspeitos, doa a quem doer, e tem procurado deixar para a presidência da Corte a busca por uma saída, sem assumir protagonismo na crise institucional. A aposta da direita Outro detalhe que não passou despercebido foi a declaração do meteoro Augusto Cury, psiquiatra até então conhecido como escritor de livros de autoajuda e que vem se consolidando como terceiro colocado nas pesquisas. Ele já havia defendido anistia à maioria dos condenados pelo 8 de Janeiro e, nesta segunda-feira, encerrou um discurso mandando um abraço especial ao ministro André Mendonça, do STF, numa demonstração de que pode estar mais próximo de Flávio do que de Lula em um eventual segundo turno. A indicação de apoio na segunda etapa não significa que os votos migram automaticamente, mas pode sugerir uma tendência, o que tem peso numa disputa acirrada entre os dois principais candidatos e se torna mais um motivo de preocupação para a esquerda. “A definição dos apoios e o redesenho dos votos no segundo turno são decisivos. Lula disputa praticamente sozinho no campo da centro-esquerda. Já na direita de Flávio Bolsonaro tem o Zema, tem o Caiado e até Renan Santos, que, mesmo sem declarar apoio a qualquer um dos candidatos, tem eleitores que tendem a migrar mais fortemente para Flávio no segundo turno. E o fator Augusto Cury hoje é o coringa da questão porque está em terceiro”, avalia André Rosa. “Se Lula conseguir atrair Cury para a campanha, mesmo com a maioria dos eleitores dos demais nomes apoiando Flávio, o petista tem mais chances. Agora, se Cury apoiar Flávio Bolsonaro, numa composição com os eleitores dos demais candidatos, aí realmente ficaria muito complicado para a campanha petista.” Alexandre de Moraes na linha de tiro A direita organizou manifestações pelo 7 de Setembro em várias capitais brasileiras, enquanto o presidente Lula participou de evento ao lado dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), e do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. Os ataques a Alexandre de Moraes e a tentativa de ligá-lo ao PT foram uma das bandeiras das mobilizações bolsonaristas, especialmente após novas revelações sugerirem uma profunda articulação entre o magistrado e o banqueiro Daniel Vorcaro.                                  “Quem viu o dossiê que eu fiz contra Alexandre de Moraes? Coincidentemente, horas depois, saiu um áudio meu com Vorcaro, o famoso pastel de vento. Eu e minha esposa nunca fizemos contrato de R$ 208 milhões com Vorcaro. Os meus filhos nunca receberam cartão de crédito do Banco Master. Eu não troquei meu celular durante as conversas com Vorcaro. Senão, não me chamaria Nikolas Ferreira. Eu me chamaria Alexandre de Moraes. E o teu lugar, Xandão, é na cadeia”, afirmou o deputado mineiro, em discurso ao lado de Flávio Bolsonaro. Já o mote governista no 7 de Setembro esteve mais ligado à soberania nacional, inclusive com críticas ao enorme boneco do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inflado durante a manifestação bolsonarista na Avenida Paulista. “Que vergonha! Traidores da pátria, no Dia da Independência vocês levaram o boneco do Trump, justamente ele, que está atacando o Brasil com tarifas. É uma aliança contra o Brasil. E levaram a bandeira norte-americana para as ruas. E tem mais uma coisa. Bolsonaristas falam de Vorcaro com Moraes. E Vorcaro com Flávio Bolsonaro? Foram R$ 134 milhões”, destacou o deputado Lindbergh Farias (PT).

  4. 21

    União com esquerda radical pode viabilizar governo de extrema direita na Alemanha após vitória em eleição estadual

    Ainda é incerto quem governará o estado alemão da Saxônia-Anhalt, que neste domingo (6) deu quase 44% dos votos ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD). A votação garantiu ao grupo 39 assentos no Parlamento estadual, sem alcançar os 42 necessários para formar maioria absoluta. Mas, ainda na noite de domingo, surgiu uma possibilidade: o pequeno partido de esquerda radical BSW, que conquistou cinco cadeiras, disse estar aberto a negociações que possam garantir uma mudança de governo no estado. Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf, Alemanha O BSW, cujo nome completo é Aliança Sahra Wagenknecht – Razão e Justiça, tem apenas dois anos de existência e é uma dissidência do partido de esquerda Die Linke, que, por sua vez, terminou a eleição com oito assentos no Parlamento estadual e se opõe frontalmente à AfD. Até o início da votação, muitos acreditavam que o BSW não conseguiria sequer atingir a cláusula de barreira, que exige votação mínima de 5%. O bom desempenho lhe garantiu não só a entrada no Parlamento, mas também uma posição-chave: nenhum grupo conseguirá formar maioria sem as cinco cadeiras conquistadas pelo partido. A principal candidata do BSW na Saxônia-Anhalt, Claudia Wittig, disse estar aberta a conversar com a AfD para promover uma mudança de governo no estado, atualmente controlado pela CDU, partido conservador do chanceler Friedrich Merz. Ela descarta formar uma coalizão formal para eleger o candidato da AfD, Ulrich Siegmund, mas diz aceitar uma colaboração para eleger outro nome contra o atual governador da CDU, Sven Schulze. Como será a colaboração BSW-AfD Na manhã desta segunda-feira, outro dirigente local do BSW, Thomas Schulz, deixou mais claro como seria essa "colaboração": o partido vai se abster caso haja uma terceira votação no Parlamento para escolher o governador. Na Saxônia-Anhalt, caso não se alcance maioria absoluta em duas votações seguidas para escolher o governador, o que é bastante provável no cenário atual, na terceira votação basta maioria simples. Com a abstenção do BSW, a AfD elegeria Ulrich Siegmund ao cargo com facilidade, contando com sua maioria simples de 39 votos. Se essa colaboração se confirmar, será a primeira vez que um partido alemão romperá o chamado Brandmauer, cordão de isolamento imposto à AfD, para viabilizar um governo estadual liderado pelo partido de extrema direita. No campo ideológico, o que diferencia o BSW dos demais partidos de esquerda é principalmente a pauta de costumes. O partido rejeita a chamada "agenda woke" e as pautas identitárias, tendo posições muito mais restritivas à imigração, mas abraça amplamente a agenda econômica de esquerda, com a defesa dos trabalhadores, dos sindicatos e de uma forte presença do Estado na economia. Unidos pela Rússia O que une os dois partidos de extremos opostos, AfD e BSW, é a defesa do fim das sanções à Rússia e de uma aproximação com Moscou. Às vésperas da eleição, a fundadora do BSW, Sahra Wagenknecht, criticou duramente o fechamento de instituições russas na Alemanha: "Estamos queimando todas as pontes para o diálogo". Em grande medida, a boa votação da AfD e do BSW, ainda que em proporções diferentes, se deve à exploração de um certo saudosismo de parte da população da Saxônia-Anhalt em relação à antiga Alemanha Oriental, alinhada à União Soviética. Soma-se a isso o desemprego elevado na região, formando o cenário que possivelmente levou à vitória da AfD. O resultado final da apuração indicou a AfD em primeiro lugar, com 43,8% dos votos, seguida pela conservadora CDU, com 17,2%, resultado muito abaixo do esperado, e por uma sequência de partidos mais à esquerda: os social-democratas do SPD, com 9,3%; os Verdes, com 8,9%; o Die Linke, com 8,6%; e o BSW, com 5,1%. Com 2,6%, o liberal FDP não atingiu o mínimo necessário e ficou fora do Parlamento estadual. A distribuição das cadeiras ficou em 39 para a AfD, 15 para a CDU, oito para cada um dos três partidos SPD, Verdes e Die Linke e, por fim, cinco cadeiras para o BSW.

  5. 20

    O cálculo eleitoral que pode levar a extrema direita ao poder regional na Alemanha

    Os olhos de toda Alemanha se voltam neste domingo (6) para a região da Saxônia-Anhalt, onde os eleitores poderão dar uma vitória no parlamento local ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD). As pesquisas apontam que há chances de a AfD conseguir formar, pela primeira vez, maioria para governar um dos 16 estados alemães. Tudo dependerá de uma matemática complexa que envolve o desempenho dos partidos da parte de baixo da tabela das pesquisas eleitorais. Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf, Alemanha Nos parlamentos estaduais alemães, assim como em todo sistema parlamentarista, quem ganha nem sempre é quem leva. Não basta ser o mais votado: é preciso ter mais de 50% das cadeiras do parlamento para indicar o primeiro-ministro. Na Saxônia-Anhalt, a AfD está liderando as pesquisas com 43% das intenções de voto, o que, se se confirmar, será a maior votação que o partido já fez em qualquer eleição anterior. A AfD já foi o partido mais votado na região da Turíngia em 2024, mas ficou longe de conseguir formar uma maioria. Isso acontece porque todos os outros partidos se recusam a fazer parte de uma coalizão com a AfD, já que consideram as propostas do partido uma ameaça à Constituição Federal da Alemanha. Em segundo lugar nas pesquisas da Saxônia-Anhalt vem o partido conservador CDU, que atualmente governa o Estado, mas aparece com apenas 22% das intenções de voto, seguido pelo partido de extrema-esquerda Die Linke, com 12%, e pelos social-democratas do SPD, que representam a esquerda tradicional alemã, com apenas 7%. Diante desse cenário, pode até parecer impossível que a AfD forme uma maioria ao obter 43% dos votos. Entretanto, a regra da cláusula de barreira, que também tem assustado alguns partidos brasileiros para a eleição de outubro, pode viabilizar uma vitória. A cláusula de barreira no estado da Saxônia-Anhalt determina que só quem atingir no mínimo 5% dos votos entra no cálculo da distribuição proporcional das cadeiras do parlamento local. Nesse contexto, em alguns cenários, é possível a AfD atingir a maioria mesmo sem fazer 50% dos votos. As pesquisas apontam que tanto o partido liberal FDP quanto o partido de esquerda populista BSW não atingirão este mínimo de votos. O fator decisivo serão os Verdes, que na pesquisa estão fazendo exatamente 5%. Se os Verdes não chegarem a 5%, serão excluídos da contagem e abre-se então uma possibilidade concreta de maioria absoluta para a AfD. Ou seja, a eleição vai ser decidida por 1% ou 2% dos votos. Merz repudia coalizão com a extrema esquerda A CDU se vê diante de um dilema histórico. Esta semana foi de intenso debate dentro do partido, inclusive com participação do chanceler Friedrich Merz. Há divergência interna sobre a conservadora CDU aceitar formar uma coalizão com o Die Linke, que vem logo em seguida nas pesquisas e que aportaria seus 12% dos votos. Esta seria, em princípio, a única possibilidade de a CDU conseguir formar um governo. Em tempos mais recentes, os conservadores não têm tido problemas em se aliar com os social-democratas (SPD), que representam a centro-esquerda da Alemanha. Mas o Die Linke é rechaçado pela maioria dos líderes conservadores por ter propostas consideradas radicais demais à esquerda. O chanceler Merz deu o seu veredito no início da semana: disse que nem a AfD, nem o Die Linke devem ser parceiros de governo da CDU. Mas ele apontou a solução encontrada em outros dois estados, a Turíngia e a Saxônia, como uma saída. Lá, a CDU consegue operar como uma espécie de governo de minoria, com maiorias variáveis e pontuais. Isso ocorre quando os partidos de oposição, como o Die Linke, toleram um primeiro-ministro de outro partido sem fazer parte da coalizão. É o que pode acontecer agora na Saxônia-Anhalt: outros partidos poderiam aceitar a permanência no cargo do atual primeiro-ministro da CDU, Sven Schulze, sem necessariamente integrar uma coalizão, como forma de evitar um governo da AfD. Governo AfD pode virar batalha jurídica A Saxônia-Anhalt deverá ser o campo de testes das ideias autoritárias do líder local da AfD, Ulrich Siegmund. O plano de governo foca principalmente em fazer mudanças nas políticas de educação e imigração, como a criação de 300 vagas de detenção para deportados e a conversão do centro de acolhimento de refugiados em Stendal em um centro de detenção. Na educação, a ideia é revogar a obrigatoriedade de crianças frequentarem a escola, dando a opção do ensino em casa. Também propõe mudar o sistema como juízes e magistrados são escolhidos. Especialistas dizem que a maioria dessas propostas vai esbarrar na legislação federal, que impede grande parte das medidas. Um governo estadual da AfD poderia, portanto, virar uma permanente batalha jurídica. Setembro ainda terá eleições municipais na Baixa Saxônia, no dia 13, e, no dia 20, duas eleições estaduais. Na de Berlim, pesquisas apontam a AfD em terceiro, com 18% das intenções de voto. Na eleição do estado de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD lidera com 35% das intenções de voto, mas com poucas chances de chegar a uma maioria para governar. Leia tambémParlamento alemão inicia debate sobre maior reforma econômica em 20 anos

  6. 19

    Brasil está fora da lista de fornecedores de carne da UE, mas setor aposta em reversão rápida do embargo

    A partir desta quinta-feira (3), o Brasil está oficialmente fora da lista de fornecedores credenciados a exportar carnes bovina, suína e de aves, além de outros produtos de origem animal, como ovos e mel, para a União Europeia (UE). Motivada por questões sanitárias, a restrição entra em vigor apesar do diálogo em nível técnico e das gestões feitas no mais alto nível, inclusive pelo presidente Lula, que enviou carta à Comissão Europeia. Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília É um sinal ruim para o Brasil, que firmou um tratado de livre comércio com a UE, em vigor desde maio. O país é o único do Mercosul que ficou fora quatro meses depois de o acordo começar a valer. Mas existe uma estimativa de que uma parte desses produtos — o que inclui aves, ovos e mel — volte a embarcar até novembro. Isso se ficar constatado que o país cumpriu todas as exigências. Para carnes bovinas, entretanto, isso só deve ocorrer no ano que vem, devido ao ciclo de vida desses animais, que é mais longo. Mas as tratativas continuam. Existe até a possibilidade de se liberarem alguns frigoríficos de maneira temporária até que todos estejam comprovadamente aptos. Uma missão técnica da UE esteve no Brasil para inspecionar a produção de frangos. O grupo ficou uma semana e parte nesta quinta-feira de volta a Bruxelas. Seu veredito ainda precisa ser anunciado. Contexto político Diante da crise sem precedentes na relação com os Estados Unidos, o sinal político não é bom. Ainda mais a um mês da eleição presidencial brasileira. Para o Mercosul e União Europeia, esse era um gesto importante em relação aos EUA. O acordo com a UE, negociado por um quarto de século, acabou saindo depressa esse ano justamente por conta das pressões comerciais que os americanos têm feito sobre o Brasil e o próprio bloco europeu. Foi isso que acabou levando a UE, até então mais reticente, a assinar o tratado, mesmo diante da resistência enorme por parte da França, Irlanda e Polônia. O Brasil tem na diversificação de parceiros comerciais uma alternativa à pressão americana, e, por incrível que pareça, vender à UE é diversificar, como dizem interlocutores do governo. O Palácio do Planalto ainda aposta na boa vontade por parte de Bruxelas. Afinal, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, bancou a conclusão da parceria Mercosul-UE. No Brasil, o que se diz entre negociadores é que chega a ser falta de visão dos europeus ter imposto a restrição nesse momento. Porém, é verdade que o país demorou a cumprir as novas regras, impostas depois da assinatura do acordo. Elas determinam o uso de antimicrobianos nos animais, como previsto pela UE. É claro que pode se tratar de novo mecanismo protecionista. Dentro do governo, há quem diga que isso poderia acontecer com, ou sem, acordo. Esse, aliás, não é um único ponto de fricção da relação. Ainda há o aço, já que a UE acaba de mudar o regime de cotas para importação do produto, o que afeta o Brasil; e o uso de pesticidas, além de outros temas. O importante é que, com o tratado, o país tem um arcabouço legal e mecanismos de diálogo que preveem a preferência pela resolução das questões. Cota extraordinária dos EUA pode repor perdas Esta semana, começou a valer uma cota extraordinária dos Estados Unidos para garantir a importação de carnes a preços mais baixos. É uma medida temporária criada pelo governo de Donald Trump com duração até a eleição americana de meio de mandato, prevista para 3 de novembro. A ideia é garantir um preço mais razoável para carnes, uma fonte de pressão para a inflação que tanto incomoda o consumidor americano e que tem ajudado a derrubar a popularidade de Trump. Entretanto, ela não compensa as perdas provocadas pelo bloqueio da UE ao Brasil. Até porque os cortes de carnes enviados aos EUA são diferentes. Ainda não dá para saber o tamanho do prejuízo até que Bruxelas libere as exportações brasileiras novamente, porque, desde que se soube que o país ficaria fora da lista, as vendas foram antecipadas. Mas essa cota dos Estados Unidos pode ajudar a repor parte das perdas no mercado chinês, depois que o Brasil atingiu bem antes do previsto a meta para carnes estabelecida para o ano. O país ganhou o limite mais generoso entre os fornecedores da China, mas ainda não foi suficiente. Tudo o que extrapolar esse limite estará submetido a uma tarifa de 55%. Este é um ponto em que a direita vem batendo nas redes sociais ao chamá-lo de “tarifaço chinês”. O governo brasileiro negocia com Pequim a possibilidade de o país ficar com parte das cotas não utilizadas por outras nações. Os EUA são uma delas. Até abril, o Brasil já tinha atingido 55,41% da sua cota, enquanto os americanos não tinham passado de 0,42%.

  7. 18

    Na Espanha, crise de migrantes em Ceuta mobiliza ruas, gera embate político e atrito internacional

    A crise migratória de Ceuta segue no centro da política espanhola. Nesta quarta-feira (2), data em que se celebra o Dia de Ceuta, há manifestações previstas em diversos municípios do país. As mobilizações ocorrem depois de uma série de protestos na própria cidade autônoma, na véspera de o primeiro-ministro Pedro Sánchez prestar esclarecimentos ao Congresso dos Deputados e em meio à aprovação de um plano de € 309 milhões para enfrentar as consequências da crise. Ana Beatriz Farias, correpondente da RFI em Madri Muitas das concentrações previstas para esta quarta-feira foram convocadas pela Federação Espanhola de Municípios e Províncias, que apresenta os atos como uma demonstração de solidariedade à população de Ceuta. Várias estão previstas para as 20h, no horário local, diante de prefeituras de diferentes municípios. As manifestações se tornaram motivo de disputa política. O Partido Popular (PP), de direita e principal força de oposição ao governo, apoia as mobilizações e acusa Sánchez de evitar responsabilizar Marrocos pela crise. O partido de extrema direita Vox é ainda mais contundente, acusando Marrocos de utilizar a migração como instrumento de uma “guerra híbrida” contra a Espanha e criticando duramente Sánchez pela forma como o governo conduziu a crise. Mobilizações dividem também a esquerda Do lado da esquerda, não há consenso sobre os atos. A direção nacional do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Sánchez, acusou o PP de instrumentalizar politicamente as manifestações. No entanto, mais de 30 prefeituras governadas pelo próprio PSOE decidiram aderir às mobilizações. Outros municípios governados por partidos de esquerda optaram por organizar atos alternativos de solidariedade a Ceuta. Em Madri, o partido de esquerda Podemos promove uma manifestação contra o racismo. A líder da sigla, Ione Belarra, acusa a direita de alimentar discursos racistas e xenófobos, mas também critica o governo de Sánchez por sua atuação diante da crise. As mobilizações desta quarta-feira se somam a vários dias de protestos na própria cidade de Ceuta. Enquanto isso, o Executivo espanhol aprovou um plano de € 309 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão) até o fim de 2026. Os recursos serão destinados ao acolhimento humanitário, incluindo o reforço da atenção aos menores migrantes, à segurança, aos serviços essenciais e a medidas de apoio a empresas e trabalhadores. O que o governo sabia Na quinta-feira (3), Pedro Sánchez irá ao Congresso dos Deputados prestar esclarecimentos sobre a gestão do governo desde o início da crise e sobre as medidas adotadas para reforçar o controle das fronteiras espanholas e europeias e garantir a soberania nacional. Também está em debate quais informações o governo tinha antes da entrada em massa de migrantes no enclave. A ministra da Defesa, Margarita Robles, reconheceu que os serviços de inteligência tinham informações prévias sobre movimentos relacionados à fronteira. Outros integrantes do Executivo afirmaram, porém, que não havia dados que permitissem prever a dimensão da entrada registrada em 30 de julho. Nas últimas horas, surgiu um novo elemento nessa equação. Segundo o jornal El Español, um relatório preliminar do Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF) aponta que agentes de segurança marroquinos teriam dado instruções a migrantes e administrado o fluxo de pessoas durante o ingresso dos estrangeiros em Ceuta. Segundo a imprensa espanhola, o documento foi entregue à juíza María Tardón, da Audiência Nacional espanhola, no âmbito da investigação sobre os acontecimentos. Quando a informação foi publicada, na noite de terça-feira (1), a Promotoria ainda não havia analisado o relatório. A publicação sobre o relatório provocou uma reação imediata do Ministério do Interior. Na madrugada desta quarta-feira, Fernando Grande-Marlaska pediu que o diretor-geral da Polícia esclareça, com urgência, se as informações divulgadas são verdadeiras e, em caso afirmativo, desde quando a Polícia Nacional tinha conhecimento dos fatos. O conteúdo ganha especial peso político porque, na segunda-feira (31), Sánchez afirmou que não havia informações das forças de segurança ou dos serviços de inteligência que levantassem dúvidas sobre uma eventual participação das autoridades marroquinas e destacou a cooperação de Marrocos durante a crise. Repercussão internacional Em entrevista recente à rádio Cadena SER, Sánchez disse que boatos sobre Ceuta se espalharam por redes sociais que associou à Rússia, a Israel e a uma rede internacional de extrema direita, que, segundo ele, explora a questão migratória para atacar a Espanha e a Europa. O primeiro-ministro ressaltou que isso não significa necessariamente uma atuação de atores estatais estrangeiros e reconheceu que as autoridades ainda investigam o que aconteceu. Israel rejeitou a acusação. O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Saar, acusou Sánchez de “mentir descaradamente” sobre o papel de Israel na crise. A Rússia, por sua vez, exigiu que o primeiro-ministro espanhol apresente provas concretas para sustentar suas declarações. Diante das reações internacionais, o governo espanhol afirmou se apoiar em um relatório da Comissão Europeia que, segundo o Executivo, apontava  para uma rede internacional de extrema direita, com focos digitais na Rússia e em Israel, que teria amplificado o ocorrido em Ceuta para aumentar a polarização na Europa. O Serviço Europeu de Ação Exterior sustenta que foram detectadas tentativas da Rússia de explorar a crise de Ceuta na internet. O organismo também afirma, no entanto, que não há provas conclusivas de que a própria crise tenha sido desencadeada por uma campanha de desinformação promovida por agentes estatais de outros países. Israel não é mencionado nessa avaliação.

  8. 17

    ‘MP das blusinhas’ evidencia impasse entre agrado ao consumidor e impacto na indústria brasileira

    Para reduzir críticas de setores nacionais e aprovar esta semana a MP da desoneração das blusinhas, parlamentares governistas falam em incluir avaliação periódica do cenário com possibilidade de compensações como cashback. Economista ouvido pela RFI elogia programa que permite rastreabilidade aduaneira, mas diz que isenção prejudica indústria brasileira. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Na tentativa de gerar pautas positivas em meio a uma acirrada busca por votos, o governo tenta reduzir pontuais resistências e aprovar esta semana a Medida Provisória que zera o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, antes taxadas em 20%. A chamada MP da isenção das blusinhas ilustra a encruzilhada que se transformou o debate sobre o comércio popular online, num país com enormes desafios estruturantes na área industrial, inclusive o alto custo Brasil. O país não tem condições de fabricar produtos que possam competir com a maioria daqueles expostos nas prateleiras da internet, dos quais grande parte se beneficiam de mão de obra asiática mais barata. Manter a taxação significa impedir o acesso de brasileiros, especialmente os de baixa renda, a produtos mais baratos vindos de fora. Por outro lado, nessa cesta virtual há mercadorias das mais variadas. A cadeia produtiva nacional pode ser afetada com a isenção federal em favor dos concorrentes, com potenciais reflexos danosos no médio e longo prazos sobre setores em que o Brasil é competitivo porque têm diferenciais, como qualidade e matéria-prima, a exemplo da indústria calçadista. Além disso, o setor varejista que vende produtos importados populares também receia a perda nas vendas. Pauta eleiteira A decisão acabou sendo tomada pelas planilhas não econômicas, mas eleitorais. “A discussão está intimamente ligada ao cenário político e o calendário de votação fala por si. É um assunto que afeta diretamente o consumidor brasileiro, que nos últimos anos tem usado muito essas plataformas como fonte de consumo", disse à RFI o economista Rafael Prado, da GO Associados.  "O assunto tem for apelo popular e pode gerar bônus para o governo, nesse sentido. Porém, os resultados para a economia brasileira são mais negativos do que positivos”, frisou. “Quando o governo retirou a isenção em 2024 o varejo brasileiro cresceu até 2,7% a mais do que teria crescido caso a isenção tivesse permanecido." Na véspera da votação da MP na Comissão Especial, a relatora, senadora Leila Barros (PDT/DF), e o presidente do colegiado, deputado Reginaldo Lopes (PT/MG), estiveram no Palácio do Planalto discutindo com integrantes da equipe econômica uma forma de amenizar a reclamação de setores produtivos nacionais, que alegam competição desleal com plataformas de compra online. Mecanismos de proteção Uma das propostas é incluir uma avaliação técnica periódica, inicialmente a cada três meses e depois a cada seis meses, para então se discutir se caberá ajuda do governo aos setores atingidos. “Nós estamos abertos ao diálogo. A gente está querendo inserir no projeto a questão da reavaliação. Daqui a três meses, se houver impacto real, com certeza nós vamos voltar e sentar para tratar o assunto”, afirmou a relatora. As regras atingem o comércio de plataformas certificadas pelo Remessa Conforme. “Diante de evidências técnicas e estudos de impacto, a Fazenda poderá mandar projetos de mitigação, seja, por exemplo, criar cashback, criar algum tipo de desoneração de até R$ 250 nas compras nacionais, ou outros mecanismos, lembrando que estamos hoje numa situação de pleno emprego”, afirmou o presidente da Comissão Especial. A MP perde a validade dia 8 e por isso o governo trabalha para votar esta semana a matéria na Comissão Especial e no Plenário da Câmara e o Senado. “O programa Remessa Conforme trouxe avanços. Houve mais rastreabilidade, mais controle aduaneiro onde antes quase não existia. O problema foi que com o programa veio a isenção, que atrapalha muito a competição dos produtos nacionais, tanto por conta da perda de empregos na indústria nacional e no varejo, quanto pela menor geração em volume mesmo de produção industrial nacional”, salientou Rafael Prado.

  9. 16

    O que o ‘não’ da Islândia representa para a União Europeia?

    Apesar da negativa pela adesão do país nórdico, o bloco europeu segue com seu novo projeto expansionista. Montenegro e Moldávia encabeçam uma longa lista de candidatos que prometem trazer à UE maior competitividade na disputa econômica frente à China e aos Estados Unidos. Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas A população da Islândia rejeitou, neste fim de semana, em referendo, a retomada das negociações de adesão à União Europeia. A decisão fecha uma frente estratégica para Bruxelas, que segue tocando seu projeto de expansão do bloco, atualmente com 27 países membros. Com cerca de 400 mil habitantes, o equivalente à população de uma cidade como Santos, a Islândia é um país pequeno, mas com relevância geográfica considerável. A ilha fica próxima da Groenlândia, no Ártico, no centro de um corredor marítimo estratégico historicamente usado pela Rússia e que ganhou ainda mais peso desde a guerra na Ucrânia. O país é membro da Otan, o que lhe garante proteção, mas o próprio bloco atlântico vive tensões internas. As ameaças de Donald Trump contra a vizinha Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, acenderam um alerta em Reykjavík, a ponto de o presidente americano ter se referido à Islândia por engano, em discurso em Davos, quando o alvo de suas declarações era a Groenlândia. O embaixador dos Estados Unidos na capital islandesa também chegou a dizer, em tom de brincadeira, que o país poderia se tornar o 52º estado americano. Leia tambémApetite de Trump pela Groenlândia pressiona Otan; EUA querem 'comprar' ilha, mas não descartam força militar A isso soma-se a eleição de um governo social-democrata e pró-União Europeia em Reykjavík. A ideia inicial era realizar o referendo apenas em 2027, mas o contexto geopolítico antecipou a consulta popular. A Islândia já havia aberto negociações com a UE após a crise econômica global de 2008, mas o processo foi interrompido anos depois. O país já integra o espaço Schengen e a zona de livre comércio europeia e, ainda assim, uma adesão plena ao bloco teria um impacto político significativo. Entre os argumentos dos que rejeitam a entrada está o excesso de regulamentação europeia, temido sobretudo por fazendeiros islandeses, preocupados com o efeito de novas regras sobre um país de PIB per capita elevado. Também existem preocupações em relação ao acesso dos recursos pesqueiros, que representam a maior parte das exportações do país. A adesão integraria o país à Política Comum das Pescas da UE e as embarcações do bloco teriam acesso igual às águas e aos recursos pesqueiros, além de cotas definidas por normas europeias. O referendo tratava da retomada das negociações, um processo longo que, se concluído, levaria a uma nova consulta popular, desta vez sobre a adesão em si. Com o "não" deste fim de semana, esse caminho não será percorrido, ao menos por enquanto. O resultado é um revés para Bruxelas, que retomou o plano expansionista, mas o bloco conta com outras frentes de adesão bem mais avançadas. Quem está na fila para entrar na UE Atualmente, nove países estão em processo de adesão à União Europeia. As negociações mais adiantadas são com Montenegro, onde a população é amplamente favorável à entrada no bloco. O governo implementou rapidamente as reformas exigidas por Bruxelas e, devido ao pequeno porte do país, a adesão não exigiria grandes mudanças nos fundos e programas de financiamento europeus. A Moldávia também avança e mira a adesão até 2028. Já a Ucrânia representa um caso à parte: seu processo de adesão está atravessado pela guerra em curso com a Rússia, o que torna o caminho mais complicado. Albânia e Macedônia do Norte aparecem como candidatas de médio prazo. Em outra categoria, Bósnia e Herzegovina, Geórgia, Sérvia e Turquia são vistas como candidatas mais distantes, sem perspectiva de adesão no curto prazo devido a divergências políticas em relação às regras do bloco europeu. De projeto identitário a projeto geopolítico Houve um tempo em que a União Europeia era um projeto de identidade: o que é ser europeu, quem se identifica com esses valores, com essa cultura. Mas essa discussão ficou totalmente para trás. Hoje o bloco está focado em competitividade e poder geopolítico, pressionado por uma estagnação econômica interna, por dilemas sociais que vão da previdência aos direitos trabalhistas e à questão migratória e, ao mesmo tempo, espremido pelos dois gigantes globais, Estados Unidos e China. Já são 13 anos sem a entrada de um novo membro na UE, o maior intervalo desde o início do processo de expansão do bloco. Por isso, fala-se em Bruxelas em um novo "Big Bang", termo usado para descrever a expansão de 2004, quando dez países ingressaram de uma só vez. Embora não se espere um número tão alto desta vez, a avaliação é de que, para sobreviver ao cenário geopolítico atual, a expansão da União Europeia é inevitável nos próximos anos. Leia tambémEntre tratores e geopolítica, a Europa perde espaço para a China na América do Sul

  10. 15

    Canadá reage a tarifaço de Trump e guerra comercial ameaça encarecer carros, casas e gasolina nos EUA

    Depois do Brasil, agora é a vez do Canadá reagir ao tarifaço de Donald Trump com medidas de reciprocidade. Após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países, o governo americano impôs tarifas de 50% sobre determinados produtos canadenses. Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York Trump também ameaçou ampliar a disputa. A partir de janeiro, o presidente americano pretende elevar para 50% as tarifas sobre carros, caminhões, autopeças e produtos de aço importados do Canadá. Em resposta, o governo canadense anunciou que vai impor taxas equivalentes sobre produtos americanos, aumentando a tensão comercial entre dois países que mantêm uma das relações econômicas mais importantes do mundo. Canadá promete responder “dólar por dólar” O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou tarifas de reciprocidade que entram em vigor no dia 8 de setembro. As medidas vão atingir principalmente setores como aço, laticínios, eletrodomésticos, máquinas agrícolas, papel e celulose e produtos eletrônicos. Carney justificou a decisão afirmando que as condições apresentadas pelos Estados Unidos durante as negociações eram injustas e economicamente desfavoráveis para o Canadá. “Eles pediram demais e ofereceram muito pouco”, afirmou o primeiro-ministro. O governo canadense também deixou claro que a escolha dos produtos americanos atingidos pelas tarifas não foi feita por acaso. A ministra canadense da Indústria, Mélanie Joly, afirmou que Ottawa selecionou estrategicamente mercadorias produzidas em determinados estados americanos numa tentativa de aumentar a pressão política sobre o governo Trump. Trump muda nome do Lago Ontário para “Lago América” A disputa entre os dois vizinhos ganhou também um capítulo simbólico. Nesta quinta-feira (27), Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Lago Ontário passe a ser chamado de “Lago América” nos Estados Unidos. O lago faz parte da fronteira entre os dois países. Ao norte está a província canadense de Ontário e, ao sul, o estado americano de Nova York. A ordem executiva determina que o Departamento do Interior atualize, dentro de 30 dias, o nome usado nos registros geográficos dos Estados Unidos. A decisão, no entanto, não tem efeito sobre o território canadense e Trump não pode obrigar o Canadá a adotar a nova denominação. Carney reagiu lembrando que o nome Ontário tem raízes indígenas e é anterior tanto à Confederação Canadense quanto à Declaração de Independência dos Estados Unidos. “Para os canadenses, é Lago Ontário. Antes, agora e sempre”, afirmou. A mudança de nome ocorre em meio a uma série de provocações de Trump contra o país vizinho. Desde que retornou à Casa Branca, o presidente americano já sugeriu diversas vezes que o Canadá deveria ser incorporado aos Estados Unidos como o 51º estado. Negociações estão paralisadas Apesar de as tarifas canadenses só entrarem em vigor em 8 de setembro, por enquanto não há sinais de que Washington e Ottawa pretendam retomar as negociações. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que não há novas conversas previstas e resumiu a posição de Washington dizendo que os americanos “já falaram o suficiente”. A dimensão da disputa preocupa porque o Canadá é um dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos, atrás apenas do México. O impacto imediato das novas tarifas americanas, porém, deve ser mais limitado do que a alíquota de 50% pode sugerir. Por causa das exceções previstas, as novas taxas atingem cerca de 5% dos US$ 382 bilhões em produtos canadenses importados pelos Estados Unidos em 2025. De carros a papel higiênico: o que pode ficar mais caro Centenas de produtos canadenses sujeitos às novas tarifas podem ficar mais caros para os consumidores americanos. A lista inclui desde flores, mel, equipamentos de hóquei e câmeras até materiais utilizados na construção civil. Este último setor está entre os que mais preocupam. Construtoras americanas historicamente dependem do Canadá para o fornecimento de materiais como madeira e compensado. Economistas avaliam, por isso, que as tarifas podem aumentar o custo tanto da construção de novas casas quanto de reformas nos Estados Unidos. A indústria automobilística também pode ser fortemente afetada se Trump cumprir a ameaça de elevar para 50% as tarifas sobre veículos e autopeças canadenses a partir de janeiro. As cadeias produtivas dos dois países são profundamente integradas e mesmo automóveis montados nos Estados Unidos utilizam componentes importados. Uma transferência rápida de toda essa produção para território americano é considerada inviável devido à complexidade e aos longos ciclos de produção da indústria. Do lado canadense, os consumidores também podem sentir os efeitos da retaliação. Produtos americanos como móveis, roupas e determinados produtos de aço e alumínio enfrentarão tarifas de até 50%. Eletrodomésticos, queijos, pescados e frutos do mar estão entre as mercadorias sujeitas a taxas de 25%. Até o papel higiênico entrou na guerra comercial. Produtos de papel estão entre os setores americanos que podem enfrentar tarifas canadenses de até 50%. Canadá ameaça usar energia como instrumento de pressão A escalada comercial também pode chegar aos postos de gasolina dos Estados Unidos. Carney sinalizou que o Canadá poderia reduzir ou até interromper o fornecimento de energia para o vizinho caso a disputa continue se agravando. A dependência americana da energia canadense é significativa. Segundo o primeiro-ministro, o Canadá fornece 99% do gás natural importado pelos Estados Unidos, 85% da eletricidade importada e 60% do petróleo bruto comprado pelo país no exterior. “Não acho que eles queiram que a gente pare de enviar essa energia”, afirmou Carney, em um recado direto ao governo Trump. Uma eventual redução das exportações canadenses de petróleo diminuiria a oferta disponível nos Estados Unidos e poderia exercer ainda mais pressão sobre o preço da gasolina para os consumidores americanos.

  11. 14

    Copenhague quer criar carteira de motorista de bicicleta para turistas

    Turistas que quiserem alugar bicicletas elétricas poderão ter que aprender as leis de trânsito do país. A proposta surge diante das crescentes reclamações de moradores de Copenhague sobre visitantes que não conhecem as regras de circulação nas ciclovias. Fernanda Melo Larsen, correspondente da RFI em Copenhague Copenhague quer criar uma espécie de “carteira de motorista” para turistas que alugam bicicletas elétricas compartilhadas. A proposta da prefeita Sisse Marie Welling prevê que os visitantes recebam uma introdução às principais regras de trânsito antes de poderem desbloquear uma bicicleta. A ideia surgiu depois de um verão marcado por reclamações sobre turistas que circulam de maneira insegura pelas ciclovias da capital dinamarquesa. Welling também defende a redução do número de bicicletas elétricas compartilhadas e o uso de capacete pelos visitantes. Novas medidas A proposta foi discutida em uma reunião entre representantes do setor turístico, empresas de aluguel de bicicletas, organizações de ciclistas e especialistas em segurança. Segundo Andreas Keil, secretário municipal de Emprego, Integração e Negócios de Copenhague, os participantes concordaram que é necessário agir para melhorar a segurança nas ciclovias. “É preciso que seja seguro para os turistas e para os habitantes de Copenhague, e é isso que estamos tentando fazer, encontrando muitas ideias e propostas”, afirmou. Entre as medidas discutidas, estão a redução do número de bicicletas elétricas compartilhadas, melhorias na sinalização de trechos considerados perigosos, mais informações para turistas nos hotéis e a possibilidade de um pequeno quiz ou vídeo sobre as regras de trânsito antes que o usuário possa desbloquear uma bicicleta. Atualmente, cerca de 13 mil bicicletas elétricas compartilhadas circulam em Copenhague. Em 2024, eram 8 mil. A prefeitura, no entanto, não tem sozinha os instrumentos legais necessários para estabelecer limites. Por isso, os representantes municipais querem buscar o apoio de uma maioria no Parlamento dinamarquês. Klaus Bondam, diretor de mobilidade, cultura e destinos da Wonderful Copenhagen, participou da reunião e afirmou que o primeiro passo é chegar a instrumentos legais. “A primeira e mais importante coisa a fazer, e houve ampla concordância sobre isso no grupo, é que, juntos, pressionemos o governo”, disse Bondam a uma emissora de TV. Turismo em alta A discussão acontece em meio ao crescimento do turismo na capital dinamarquesa. Em 2025, Copenhague registrou mais de 12 milhões de pernoites turísticos, um recorde. O aumento do número de bicicletas compartilhadas também coincide com uma percepção crescente de insegurança entre os ciclistas locais. Uma pesquisa realizada pelo instituto Epinion para o Conselho Dinamarquês de Segurança no Trânsito mostrou que cerca de oito em cada dez ciclistas de Copenhague consideram que turistas pedalando representam algum grau de problema para a segurança no trânsito. O levantamento ouviu 565 ciclistas. A preocupação não é apenas com quem está sobre a bicicleta. As bicicletas elétricas compartilhadas são frequentemente criticadas por ocuparem espaços de estacionamento e serem deixadas de maneira inadequada nas ruas. Setor turístico questiona A HORESTA, organização que representa hotéis, restaurantes e empresas do setor turístico na Dinamarca, apoia a redução do número de bicicletas elétricas compartilhadas e defende regras mais rígidas para as empresas responsáveis pelo aluguel. A entidade, no entanto, ressalta que o problema não envolve apenas turistas, já que as bicicletas também são utilizadas por moradores, incluindo jovens. A Wonderful Copenhagen também questiona a viabilidade de uma “carteira” obrigatória. Para Klaus Bondam, seria difícil controlar quem realmente fez o treinamento e quem poderia desbloquear uma bicicleta. Orientação ao ciclista Antes mesmo da proposta da prefeita, o Conselho Dinamarquês de Segurança no Trânsito já vinha promovendo ações para ensinar aos visitantes como circular pelas ciclovias de Copenhague. Neste verão, a entidade lançou uma campanha em vários idiomas com orientações como permanecer à direita, sinalizar antes de virar ou parar e evitar os horários de maior movimento. As informações são divulgadas nas redes sociais e em locais frequentados por turistas que alugam bicicletas. O Visit Copenhagen, mantém informações sobre as regras para pedalar na cidade e oferece um quiz para que os visitantes testem seus conhecimentos antes de sair de bicicleta. A Cruz Vermelha dinamarquesa oferece ainda treinamento gratuito para adultos que querem aprender ou melhorar suas habilidades de bicicleta. O treinamento começa em uma área fechada e segura e depois passa para o trânsito, onde os participantes aprendem as regras de circulação.

  12. 13

    Nova liderança da direita radical italiana cresce nas pesquisas e preocupa coalizão do governo Meloni

    Programa eleitoral de Roberto Vannacci defende propostas polêmicas, como o “patriarcado mediterrâneo”, restrições a conteúdos de gênero na TV e o fim da tipificação do crime de feminicídio. Por outro lado, descendentes de italianos no Brasil são vistos como uma alternativa para atrair novos trabalhadores ao país. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão A Itália já começa a olhar para as eleições parlamentares, previstas para o ano que vem. Nesse cenário, um nome da direita radical vem chamando a atenção pelo crescimento nas pesquisas: Roberto Vannacci, eurodeputado e uma das figuras mais controversas da política italiana neste momento. Ele afirma que o atual governo, considerado de extrema direita, não é suficientemente de direita.         O partido de Vannacci, o Futuro Nazionale, começou a divulgar, em etapas, um programa ideológico e eleitoral para as eleições de 2027. Na segunda parte, publicada nesta segunda-feira (22), o partido foca no conceito de família e em questões de identidade. Em um dos trechos mais polêmicos, há uma proposta de proibir a exibição na televisão de conteúdos ligados a gênero e homossexualidade entre as 6h e as 23h. O programa também questiona o apoio de governos a eventos e iniciativas de orgulho LGBTQIA+. O documento classifica os valores familiares e cristãos como “não negociáveis” e defende a chamada família tradicional, formada por um homem e uma mulher. Além disso, contesta que exista na Itália um “direito ao aborto” e questiona a formulação da legislação atual, que permite a interrupção voluntária da gravidez nos primeiros 90 dias. Há duas semanas, o partido de Vannacci havia divulgado a primeira parte do programa, que teve grande repercussão na Itália, por exemplo, ao defender um “patriarcado mediterrâneo”. Para o Futuro Nazionale, o conceito define a ideia de formar homens fortes, com o papel de proteger as mulheres e a sociedade. Ainda no campo das posições antifeministas, o partido quer acabar com a recente tipificação do feminicídio como crime autônomo. A medida entrou em vigor em dezembro e prevê prisão perpétua para esse tipo de crime. Leia tambémBrasil e Itália enfrentam desafios comuns no combate à violência contra mulheres Partido quer atrair descendentes de italianos no Brasil Um dos pilares do Futuro Nazionale é a imigração, tema em que o partido apresenta semelhanças com posições já defendidas pela atual direita italiana. A legenda fala em “tolerância zero” à imigração irregular e defende a chamada “remigração”, com políticas para incentivar e facilitar o retorno de imigrantes aos países de origem. Em contrapartida, quer atrair para a Itália descendentes de italianos que vivem no exterior. O programa propõe incentivos fiscais para estimular trabalhadores que tenham direito à cidadania italiana pelo ius sanguinis, ou seja, pelo direito de sangue, e menciona especificamente descendentes de italianos no Brasil, na Argentina e na Venezuela. O programa eleitoral, no entanto, não explica como essa proposta se encaixaria nas restrições que o governo Meloni impôs, no ano passado, ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência. Leia tambémQuem tem direito à cidadania italiana após aprovação da nova lei proposta pelo governo Meloni? Futuro Nazionale preocupa atual coalizão de governo O Futuro Nazionale vem ganhando espaço nas pesquisas de intenção de voto. Segundo levantamento da Ipsos Doxa divulgado no fim de julho, o partido de Roberto Vannacci aparece com 7,1%, uma alta de 1,1 ponto percentual em relação à pesquisa anterior, superando inclusive sua antiga legenda, a Lega, que aparece com 5,1%. Já o Fratelli d’Italia, de Meloni, segue na liderança, com 26,5%.              Nos bastidores, o governo discute a possibilidade de antecipar as eleições parlamentares para abril do ano que vem. O pleito deve ser realizado até outubro de 2027, quando Meloni completa cinco anos no cargo. Um dos motivos para essa antecipação seria aproveitar um momento ainda favorável à atual coalizão de governo e evitar dar mais tempo para que o Futuro Nazionale cresça e acabe dividindo os votos que hoje sustentam a aliança, já que Vannacci se coloca fora da coalizão e disputa diretamente parte do mesmo eleitorado. Além disso, de forma prática, uma eleição em abril daria ao novo governo mais tempo para preparar a lei orçamentária do ano seguinte, uma das principais tarefas do governo italiano no segundo semestre. Roberto Vannacci: do Exército à política Roberto Vannacci é um nome relativamente novo na política italiana. Militar de carreira, chegou ao posto de general e participou de missões em vários países, como Somália, Afeganistão e Iraque. Ele se tornou conhecido no país em 2023, quando publicou o livro “O Mundo ao Contrário”, que vendeu milhares de cópias online e causou forte controvérsia por passagens consideradas homofóbicas e racistas. Em um dos trechos mais polêmicos, por exemplo, ele diz diretamente aos homossexuais que eles “não são normais”. Em outro momento, fala da jogadora de vôlei Paola Egonu, filha de nigerianos, e diz que, apesar de ela ter cidadania italiana, seus traços físicos não representariam a “italianidade”. Com a repercussão do livro, Vannacci decidiu trocar a carreira militar pela política. Em 2024, aproximou-se da Lega, partido de direita radical liderado pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, e foi eleito para o Parlamento Europeu. A parceria com Salvini, no entanto, durou pouco. Em fevereiro deste ano, Vannacci rompeu com a Lega e fundou o Futuro Nazionale, com o objetivo de ocupar um espaço ainda mais à direita no cenário político italiano.

  13. 12

    Dois meses após os terremotos na Venezuela, famílias ainda buscam por parentes desaparecidos em La Guaira

    Nesta segunda-feira (24), o terremoto duplo que devastou o estado de La Guaira, na Venezuela, completa dois meses. Nas áreas mais afetadas, sobraram pilhas de concreto e entulho. O movimento diminuiu, mas algumas localidades ainda mantêm operações de busca por vítimas que permanecem soterradas sob os escombros. Até o momento, o governo venezuelano indica que a tragédia deixou aproximadamente 6.500 mortos. Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela Em Caraballeda, um dos municípios mais atingidos pelos sismos de magnitude 7,2  e 7,5, famílias observavam, neste domingo (23), debaixo das sombras das barracas posicionadas às margens das montanhas de concreto que restaram dos edifícios que desabaram, o andamento dos trabalhos. “Estou buscando minha irmã”, disse Deisy Rodríguez, que há dois meses deixou de procurar emprego para tentar encontrar Carmen Rodríguez, uma das tantas desaparecidas que não são contabilizadas pelos números oficiais divulgados pelo governo Venezuelano. “Eu venho para cá todos os dias. Chego às seis da manhã e fico até umas seis da tarde. É terrível, mas vou ficar aqui até conseguir o corpo da minha irmã”, relata Deisy. Não se sabe ao certo quantos corpos ainda permanecem debaixo dos escombros. Neste domingo, Hernán José Paredes, trabalhador vinculado ao Ministério do Poder Popular de Obras Públicas, tentava quebrar o concreto para acessar uma possível vítima. Ao seu lado, agentes do serviço funerário venezuelano, vestidos com macacão de proteção descartável, aguardavam a remoção de um corpo encontrado mais cedo. Para José Paredes, que diz estar trabalhando nas operações de busca e resgate desde o início da tragédia, os trabalhos de remoção dos corpos podem durar meses. “Vai levar tempo. Aqui se está retirando laje por laje. Se a gente entrar com máquina, não vai ser possível reconhecer os corpos”, disse o trabalhador que contou já ter extraído nove corpos de vítimas da tragédia. Vítimas não identificadas Nem todos os corpos localizados, no entanto, são identificados pelas famílias das vítimas. Na semana passada, os corpos de 40 crianças e adolescentes que estavam no necrotério improvisado montado em uma zona portuária de La Guaira foram encaminhados ao Cemitério da Esperança, onde foram sepultados junto a outras vítimas não identificadas. Todas as lápides contêm informações que podem ajudar possíveis familiares a reconhecer os corpos posteriormente. Retirada de escombros O volume de escombros deixado pelos terremotos de 24 de junho em La Guaira chega a 2,1 milhões de toneladas, segundo estimativa do ministro do Ecossocialismo, Nelson Rodríguez. A remoção e o processamento desse material poderiam levar cerca de um ano. “Estimamos que pode ser cerca de um ano de trabalho, de classificação, de trituração, para reduzir o volume [dos escombros]. Cada vez que trituramos reduzimos o volume em cerca de 80%. Fazemos essa estimativa de um ano para poder acabar [todo o trabalho]”, afirmou Rodríguez, em entrevista ao canal estatal VTV, na semana passada. Segundo o ministro, em 57 dias de operação, mais de 500 mil toneladas foram retiradas dos locais dos desabamentos. Desse total, cerca de 40 mil foram trituradas. A operação recolhe atualmente entre 280 e 300 toneladas de escombros por dia. Onde as operações de extração de vítimas já terminaram, resta o silêncio e montanhas de concreto. A paisagem é irreconhecível. Nas primeiras semanas após os terremotos, esses locais eram ocupados por familiares em busca de notícias, equipes de resgate e, depois, máquinas pesadas que retiravam os escombros. Com o fim das operações, também diminuiu a presença de voluntários e de equipes de assistência. Muitos voluntários que iam diariamente para essas áreas deixaram de aparecer. Até alguns pontos administrados por agências da ONU, onde havia distribuição diária de alimentos, foram desmobilizados. Famílias que vivem em regiões mais afastadas dos locais dos desabamentos caminhavam todos os dias até os pontos de distribuição de alimentos. Desde os terremotos, parte dos moradores está sem emprego e passou a depender das doações. Com a redução da ajuda, a dificuldade agora é outra: encontrar o que comer.

  14. 11

    Endividamento recorde leva argentinos às ruas contra juros abusivos e política econômica de Milei

    Nesta semana, uma série de protestos contra bancos e carteiras virtuais tem levado às ruas um problema que ganhou proporções históricas: 20,8 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa, estão endividados. Destes, seis milhões estão inadimplentes, equivalente a 30%. Por trás do problema, a perda acelerada do poder de compra dos argentinos que recorrem ao crédito para comer e pagar contas de serviços básicos. O presidente Javier Milei diz que “o problema é da esfera privada” e que “ninguém colocou uma pistola na cabeça dos devedores”, mas não impede juros de até 1.375% ao ano, um número 40 vezes maior do que a inflação anual. Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires Nos últimos 20 meses, a inadimplência no sistema financeiro tem crescido de forma acelerada e assustadora, a ponto de, nesta semana, ganhar forma de protestos populares. O problema afeta quase 21 milhões de argentinos, o equivalente a 95% da população economicamente ativa. Destes, seis milhões estão inadimplentes, o equivalente a 30%, e metade deles é considerada “irrecuperável”. Dentro do sistema financeiro, são 26,1% de inadimplentes, representando 17,5% de todos os empréstimos, um número que multiplica por sete o de dois anos atrás. Para se ter uma ideia da magnitude do problema, em outubro de 2024, a inadimplência era de 2,5% de todos os empréstimos. Um quarto da massa salarial do país está comprometida com a inadimplência. Os argentinos devem aos bancos, às carteiras virtuais, aos cartões de crédito, aos sistemas de crédito dos supermercados e aos agiotas do bairro. Os empréstimos foram para gastos básicos como comprar comida, pagar luz, gás, água. São montantes relativamente baixos, mas que se tornaram impagáveis devido a uma combinação explosiva de redução do salário, perda do emprego, aumento do custo de vida e taxas de juros estratosféricas. No setor bancário, os juros vão de 55% a 172%, enquanto nas carteiras virtuais, sobem a 260%, mas há custos financeiros encobertos e elevam as taxas para 400%, 700% e até de 1.375%. A principal vilã para os juros exorbitantes é a Fintech argentina MercadoPago, que também atua no Brasil. Nessas carteiras virtuais, com taxas consideradas excessivas, a inadimplência é de 31,5%. Nos sistemas de crédito dos supermercados, chega a 50%. Todos esses números são de créditos a pessoas físicas. Quando se engloba os créditos às empresas, a inadimplência de todo o setor privado é de 7,6% do total, fazendo da Argentina o país com mais inadimplentes na América Latina. Como comparação, o Brasil tem 3,9%, um número alto, mas menos da metade da Argentina, segundo o Banco Mundial. Protestos crescem  Esses números revelam o desespero das pessoas, a preocupação do sistema bancário, a impossibilidade de reativar o consumo na Argentina e as taxas abusivas de bancos e de carteiras virtuais. Por isso, nesta sexta-feira (21), às 15 horas, haverá um protesto no depósito de mercadorias da empresa MercadoLivre na cidade de La Matanza, na periferia de Buenos Aires. A empresa também financia as suas vendas com taxas como as do MercadoPago. A manifestação é convocada por organizações políticas e movimentos sociais que identificam na empresa a prática de usura. As empresas já foram denunciadas na Justiça pelo Partido Obreiro. “Apresentamos uma denúncia penal por possível crime de usura. A própria empresa informa taxas com um custo financeiro total de até 1.375,94% anual. Estamos falando de um mecanismo de endividamento que pode confiscar as receitas de trabalhadores e de famílias que recorrem ao crédito porque o salário não é suficiente”, explicou o dirigente Gabriel Solano, autor da denúncia. A Mercado Livre e a MercadoPago são empresas argentinas que atuam em toda a América Latina, inclusive no Brasil. O dono é Marcos Galperín, que se tornou a cara do problema ao cobrar taxas anuais mais de 40 vezes superiores à inflação do país que, embora seja alta, acumula 33,8% nos últimos doze meses. Nesta quinta-feira (20), centrais sindicais e movimentos sociais foram até a Praça de Maio para pressionar o governo por uma solução. O protesto foi também contra o plano econômico do presidente Javier Milei, apontando como a origem do problema. O alvo inicial da manifestação era o Ministério da Economia, ao lado da Casa Rosada, mas o governo colocou barreiras para impedir o protesto. Na quarta-feira (19), o coletivo político Libres del Sur foi até a MercadoPago para expor a empresa líder das carteiras virtuais e o seu dono. No protesto na Praça de Maio, Silvia Amarilla, de 46 anos, empregada doméstica desempregada, convocada pela Libres del Sur, explica à RFI que a família depende do baixo salário do marido, um trabalhador informal. “Antes de o presidente Milei assumir o cargo, podíamos reformar a casa, podíamos comer, podíamos comprar roupa e sobrava para comprar um cachorro-quente para os meus filhos. Não sobrava muito, mas chegávamos ao final do mês. Agora, a renda só dura até o dia 12 de cada mês. Nossos três filhos menores de idade não entendem de dívida. Perguntam o que há para comer e, por mais que expliquemos a situação, continuam com fome”, descreve Silvia. Há um ano, Silvia pediu 200 mil pesos argentinos ao MercadoPago, o equivalente a 650 reais. Já pagou o equivalente ao capital inicial, mas ainda deve 400 mil pesos e acaba de se tornar inadimplente ao entrar no terceiro mês sem pagamento do crédito. Os 200 mil pesos originais se triplicaram e a dívida continua a subir. “Provoca tristeza, raiva e muita frustração porque você vive o dia-a-dia sem saber se terá o suficiente para comer no dia seguinte”, lamenta. A família cortou o jantar como refeição diária, cortou elementos de higiene pessoal e de limpeza da casa. “Suprimimos o jantar, a higiene pessoal e a da casa. É desesperador perder coisas necessárias”, desabafa Silvia à RFI. Carolina Daniel, de 33 anos, perdeu o emprego numa cooperativa há nove meses, quando passou a trabalhar como doméstica. O marido mantém o emprego, mas a renda é insuficiente para cobrir os gastos até final do mês. “Para sobreviver, abrimos uma venda de comida na porta de casa e compramos um carrinho de cachorro-quente para vender na praça. Temos dois filhos. Tivemos de nos endividar para comprar alimentos e para pagar o colégio das crianças”, conta Carolina à RFI. Há um ano, Carolina pediu um milhão e meio de pesos, equivalentes a 500 reais. Hoje deve três milhões e meio de pesos e caiu na inadimplência. A dívida é com o Banco Patagonia, controlado pelo Banco do Brasil na Argentina. “Queremos pagar as dívidas, que o salário aumente, que as tarifas de luz, gás e água diminuam e que o presidente preste atenção no bolso dos trabalhadores e não no negócio dos empresários”, pede. Silvia e Carolina esperam que o governo ajude a refinanciar as dívidas, aumentando prazos e contendo as taxas de juros.  Governo, mero analista do mercado  O governo mostra-se insensível ao problema que o próprio presidente Javier Milei gerou ao liberar as taxas de juros, que passaram a não ter teto. Salários dos servidores públicos e aposentadorias foram diluídos. Os salários do setor privado, em geral, também perderam para a inflação.No ano passado, para conter uma corrida ao dólar, Milei subiu as taxas de juros de referência a 95%, mas, antes, para incentivar o crédito, disse que “o pior do ajuste fiscal já tinha passado” e que “o futuro seria melhor”. Confrontado com o problema, Milei disse que a inadimplência é um “problema entre privados” e que “ninguém colocou uma pistola na cabeça (dos devedores) para tomarem um crédito”. Já o ministro da Economia, Luis Caputo, disse que “empatia não pode ser confundida com política pública” e “que taxas de juros de 400% ou de 700% são abusivas”, mas “nada impede que sejam cobradas”. Ou seja: o governo comenta a realidade como um mero espectador. “Se o Estado sabe que milhões de trabalhadores estão endividados e que as carteiras virtuais concentram níveis de inadimplência superiores aos dos bancos, não pode lavar as mãos, permitindo que empresas como MercadoPago façam um negócio extraordinário com a necessidade das famílias”, criticou Gabriel Solano. A origem do endividamento pessoal  Desde que Milei assumiu em dezembro de 2023, os salários registrados perderam para a inflação. No caso do setor privado, a média é de 6,5%, mas com perdas de até 12,6% em determinados setores. Para os funcionários públicos e aposentados, as perdas foram de 36,5%. Mais de 20% dos funcionários públicos foram demitidos por Milei. São pessoas que ficaram sem renda formal. O “salário disponível”, ou seja, o montante que sobra depois de pagar as tarifas públicas, perdeu 20% do poder aquisitivo. As tarifas de serviços públicos representavam 6% dos salários médios; hoje, representam 15%. Uma pesquisa da consultora Zentrix indica que, para seis de cada dez argentinos, o salário termina antes do dia 20 de cada mês. São 61% que não passam do dia 20. Outros 24,3% não chegam até o dia 30, totalizando mais de 85% da população, um número em linha com a quantidade de devedores totais do sistema.

  15. 10

    Espanha realoca migrantes em Ceuta e prepara transferência de 500 menores para o continente

    O governo espanhol começou nesta quinta-feira (20) a transferir migrantes que permaneciam em acampamentos improvisados ou nas ruas de Ceuta para espaços temporários de acolhimento. A ação acontece quase três semanas depois da entrada em massa registrada nos dias 30 e 31 de julho. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI na Espanha A primeira operação teve início com as pessoas que estavam na praia de El Trampolín e na região de Loma Colmenar e está sendo realizada de forma voluntária, segundo o Ministério da Inclusão, Segurança Social e Migrações. Dois espaços foram habilitados nesta primeira fase, em Loma Margarita e El Embolsamiento, com capacidade conjunta para cerca de 1.800 pessoas. A Polícia Nacional, outras forças de segurança do Estado e autoridades de Ceuta participam do dispositivo, cujo objetivo declarado é retirar pessoas que estavam dormindo ao ar livre e oferecer condições de alojamento mais seguras. Até o fim da manhã, cerca de 1.500 pessoas haviam sido realocadas, segundo a Radiotelevisión Española (RTVE). Durante a operação, os migrantes foram organizados de acordo com o idioma para receber informações, com o apoio de entidades que atuam no acolhimento. Fontes do dispositivo disseram ao El País que a retirada de grupos que estavam em El Trampolín também teve motivação humanitária, já que as pessoas que dormiam ao ar livre estavam expostas ao mau tempo. A movimentação ocorre depois de semanas em que milhares de pessoas permaneceram espalhadas pela cidade autônoma. Ceuta, território espanhol situado no norte da África e na fronteira com Marrocos, também faz parte da fronteira externa da União Europeia. As estimativas mais recentes do governo espanhol apontam para cerca de 80 mil entradas nos dias 30 e 31 de julho. A maior parte dessas pessoas já retornou a Marrocos, mas milhares continuam em Ceuta. Segundo autoridades locais, entre 5 mil e 8 mil migrantes ainda permaneciam na cidade nos últimos dias.  Crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade Uma das grandes dificuldades na gestão da crise é determinar quantas crianças e adolescentes ainda permanecem em Ceuta e definir as medidas de proteção para esse grupo. Na terça-feira pela manhã, a Polícia Nacional havia identificado 2.168 menores, segundo dados publicados pela RTVE. Nesta quinta-feira, porém, o secretário de Estado de Juventude e Infância, Rubén Pérez Correa, apresentou uma referência mais atual e admitiu que o governo não conhece o número exato de menores migrantes que continuam na cidade autônoma. Em entrevista à rede Cadena SER, o secretário afirmou que os dados dos sistemas de proteção indicam entre 2.400 e 2.500 menores, mas ainda haveria outros menores nas ruas que não foram contabilizados. A ministra da Juventude e Infância Sira Rego já havia chamado a atenção para uma mudança no perfil dos migrantes em comparação com a crise de 2021: desta vez, segundo a ministra, chegaram mais meninas desacompanhadas e também crianças muito pequenas sem acompanhamento adulto. Governo trabalha no traslado de cerca de 500 menores Dentro desse grupo, o governo trabalha em uma solução específica para os perfis considerados mais vulneráveis. Na quarta-feira, a RTVE, citando fontes do Ministério da Juventude e Infância, informou inicialmente que cerca de 500 menores, meninos e meninas, poderiam ser transferidos com urgência para a Espanha continental. Outros meios, como a Cadena SER e o jornal El País, noticiam especificamente um plano para cerca de 500 meninas. Nesta quinta-feira, Rubén Pérez Correa confirmou à SER que o Ministério trabalha com o departamento de Infância de Ceuta em um plano para levar meninas à Espanha continental e afirmou que essa transferência é legalmente possível. A cifra de 500 continua sendo uma referência aproximada, e a fórmula definitiva para a transferência ainda está sendo definida. Entre as alternativas estudadas estão a distribuição entre comunidades autônomas, o acolhimento familiar e o atendimento por organizações especializadas em proteção da infância. A prioridade declarada pelo Ministério é a reunificação familiar quando ela for possível e compatível com o interesse superior da criança ou adolescente. A ministra Sira Rego defende que qualquer retorno seja feito com garantias, escuta do menor e respeito aos seus direitos, e rejeita a possibilidade de repatriações automáticas ou coletivas. Oposição defende o retorno de adultos e menores O plano abriu um confronto direto entre o governo central e o Partido Popular (PP), maior sigla da oposição. Em uma aparição conjunta em Ceuta, o líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, e o presidente da cidade autônoma, Juan Jesús Vivas, defenderam que as pessoas que entraram irregularmente nos dias 30 e 31 de julho devem deixar Ceuta, incluindo adultos e menores, e rejeitaram o envio de parte das crianças para a Espanha continental enquanto a situação é resolvida. Há, além disso, uma divergência pública sobre o próprio plano das 500 meninas. Vivas afirmou que não havia recebido uma proposta do governo central para esse traslado. O ministério da Juventude e Infância respondeu que havia mantido a administração local informada sobre as diferentes possibilidades e, nesta quinta-feira, Pérez Correa foi ainda mais explícito e disse que Ceuta “conhece o plano”. A situação de meninas e mulheres desperta preocupação particular por razões de segurança. O ministério da Igualdade alertou durante a crise para o risco de violência física e sexual e de captação por redes de tráfico e exploração entre as mulheres migrantes que permaneciam nas ruas de Ceuta. A Reuters informou nesta semana que pelo menos 15 denúncias de agressões sexuais foram registradas desde a chegada em massa, a maioria envolvendo menores. No caso específico das menores, fontes sanitárias disseram à Cadena SER que pelo menos seis meninas receberam atendimento após agressões sexuais. Entre os quatro primeiros episódios divulgados, duas relataram tentativas de estupro e, nos outros dois, foram observados indícios de que as menores haviam sido estupradas. Enfermagem denuncia colapso do sistema de saúde A permanência de milhares de pessoas em condições precárias também pressionou o sistema sanitário. O Colégio Oficial de Enfermagem de Ceuta considera que existe uma situação de colapso. Em entrevista ao diário Dicen, a presidente da entidade, Rosa María Fuentes Rosas, afirmou que os profissionais estão sustentando o sistema com uma “sobrecarga imensa” e que as equipes de enfermagem já estavam reduzidas antes da crise. Segundo os registros apresentados por Fuentes Rosas, o Hospital Universitário de Ceuta recebe entre 252 e 356 atendimentos por dia, dependendo do dia da semana. A dirigente afirma que a sobrecarga leva as equipes a ter que concentrar a atenção nos casos mais graves e relata problemas relacionados à administração de medicamentos e à transmissão de informações clínicas entre os turnos. O periódico El País informa que foram registrados mais de 200 casos de gastroenterite aguda, 20 de sarna, 21 de impetigo (infecção bacteriana superficial e muito contagiosa da pele) e quatro de tuberculose. Profissionais que trabalham no terreno também relatam doenças respiratórias e agravamento de condições crônicas, como diabetes e asma. O ministério da Saúde rejeita a existência de colapso sanitário e afirma que, apesar da forte pressão gerada pela crise, o sistema manteve sua atividade. Entre 31 de julho e 14 de agosto, o Instituto Nacional de Gestão Sanitária realizou 5.801 atendimentos. Segundo o ministério, mais de 60 profissionais foram incorporados como reforço e a pressão assistencial caiu 72%, de 1.149 atendimentos em 31 de julho para 322 em 14 de agosto. Com essa redução, a prioridade passou a ser melhorar as condições fora do hospital, especialmente água, higiene, saneamento e alojamento.

  16. 9

    Portugal enfrenta alta recorde nos aluguéis e discute pacote para conter crise habitacional

    Os aluguéis em Portugal voltaram a subir em julho, com o valor médio por metro quadrado 5,3% maior do que no mesmo período de 2025. No mês anterior, a variação para cima tinha ficado em 5,2%. Estes aumentos mostram que a pressão no mercado das casas para alugar se mantém elevada, num contexto de oferta escassa e procura forte, sobretudo nas grandes cidades e regiões turísticas. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), todas as regiões do país registaram aumentos. Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa A tendência não é exatamente um problema recente. Há 5 anos, o preço médio no país era de € 10,7 por metro quadrado. Agora está em € 17,7. Uma elevação de 65% de 2021 para cá, sendo que a inflação geral acumulada no período ronda os 20%. No intervalo de dez anos, o valor dos aluguéis mais do que dobrou - só na época da pandemia que deu uma estabilizada, mas a partir de meados de 2021 voltou a subir. Apesar do preço alto, as casas e apartamentos que são colocados no mercado para alugar recebem muitas propostas. No site Idealista, o maior de Portugal no ramo, 7% das unidades para aluguel não ficam nem 24 horas no ar. Essa corrida acontece porque a procura continua alta enquanto a oferta de novas casas para alugar até caiu. Segundo o Idealista, foram anunciadas 22% a menos de imóveis no segundo trimestre de 2026, em relação a 2025. Para muitas famílias, as contas não fecham, sobretudo nas grandes cidades. O salário mínimo em Portugal é de € 920 (cerca de R$ 5.500) e, com esse valor em Lisboa, o máximo que dá para alugar é um apartamento de um quarto, com menos de 60 m². Muitos jovens continuam morando com os pais por mais tempo do que gostariam, já que não conseguem pagar um aluguel. O alto preço é intensificado pela gentrificação, quando comércios locais e tradicionais de bairros populares dão lugar a estabelecimentos mais sofisticados, como cafés, galerias de arte, lojas de grife e restaurantes gourmet. O fenômeno atrai uma população de maior poder aquisitivo e empurra aos poucos os moradores mais pobres para longe das zonas centrais. Esse é um movimento comum em quase toda a Europa, mas em Portugal é mais importante porque a população é pouco distribuída pelo território e os salários são baixos, tornando difícil para os trabalhadores competir com os valores de aluguéis de curta temporada para turistas. Imigrantes sofrem mais Embora seja um problema para todo mundo que busca habitação, para os imigrantes a situação costuma ser ainda mais complicada, porque é mais difícil ter fiador, ou cumprir outras exigências dos proprietários, como comprovar estabilidade no emprego ou mostrar que pagava aluguel em dia anteriormente. Várias famílias acabam compartilhando um mesmo apartamento, para dividirem os custos. E há quem prefira comprar trailers e viver como se fosse em um acampamento permanente para não gastar praticamente tudo o que ganha na moradia. Em uma tentativa de resposta ao problema, o governo quer alterar algumas das regras do aluguel de imóveis. O pacote original de medidas, que ainda precisam ser discutidas no Parlamento, prevê que os proprietários possam exigir três meses de pagamentos adiantados (em vez dos atuais dois), acaba com o teto para pedido caução, e facilita os despejos. A ideia incentivar os proprietários, tornando o aluguel de seus imóveis uma opção mais atraente, como uma maneira de aumentar a oferta de bens disponíveis. Críticos do governo alegam que as medidas apenas fragilizam o lado dos inquilinos. Alguns especialistas na área até se mostram abertos à proposta, mas lembram que a escassez de oferta não nasce de um único ponto: não é só porque os proprietários não querem pôr seus imóveis no mercado. Construir é caro, o processo de aprovação de projetos é lento, a carga fiscal sobre o setor é alta, o acesso ao financiamento é difícil. As mudanças teriam que ser muito mais amplas para conseguir pôr um freio nos aluguéis.

  17. 8

    Após ameaçar Omã, Donald Trump quer transformar Estreito de Ormuz em território norte-americano

    Com o fim do prazo de 60 dias previsto no memorando, que ruiu poucos dias após sua assinatura, Washington dobra a aposta contra o Irã e amplia a pressão sobre seus aliados árabes. Patrícia Vasconcellos, de Washington especial para a RFI Depois de ameaçar Omã, aliado histórico dos Estados Unidos no Oriente Médio, o presidente Donald Trump elevou ainda mais o tom e disse que gosta da ideia de transformar o Estreito de Ormuz em “território norte-americano”. As declarações acontecem depois do fim dos 60 dias previstos no memorando assinado entre Estados Unidos e Irã, um prazo que, na prática, funciona apenas como marco temporal, já que o cessar-fogo estabelecido pelo documento ruiu poucos dias depois de entrar em vigor. Com a guerra próxima de completar seis meses, Washington amplia a pressão econômica e militar sobre Teerã e endurece o discurso contra países árabes que tentam negociar saídas para a crise. No centro da disputa está o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde normalmente transita cerca de 20% do petróleo negociado no mundo. Em uma sequência de perguntas e respostas no Salão Oval na tarde de segunda-feira (16), Trump voltou a afirmar que os Estados Unidos controlam o estreito por causa do bloqueio marítimo imposto na região — uma afirmação contestada pelo Irã e que contrasta com a redução do tráfego marítimo. O presidente foi além ao defender a possibilidade de domínio territorial americano sobre a passagem. “Nós o controlamos com o bloqueio, e gosto da ideia de declará-lo um território”, afirmou Trump. O presidente dos Estados Unidos também minimizou a capacidade de reação iraniana. “Eles podem ser um incômodo”, disse sobre o Irã. Em seguida, acrescentou que os iranianos poderiam colocar minas na água e atingir “navios de um bilhão de dólares”. Apesar do discurso de controle da Casa Branca, o movimento de embarcações pelo Estreito de Ormuz continua diminuindo. Segundo o MarineTraffic, serviço global de rastreamento de embarcações, foram confirmadas 95 travessias na semana passada, contra 118 na semana anterior. Pressão sobre Omã O endurecimento de Washington não se limita ao Irã. Donald Trump voltou a falar sobre Omã, país aliado dos Estados Unidos que há décadas desempenha papel de mediador entre Washington e Teerã. Questionado sobre a ameaça anterior de bombardear Omã, o republicano respondeu apenas que a questão “vai ser resolvida”. Antes, em entrevista a uma emissora norte-americana, o presidente havia usado um palavrão ao ameaçar bombardear o país caso os omanitas não agissem da maneira considerada correta por Washington. A ameaça ocorre enquanto Omã e Irã trabalham em uma negociação para abrir novas rotas de navegação diante do impasse no Estreito de Ormuz. A posição de Omã é particularmente delicada. O país mantém uma relação estratégica com os Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, preserva canais históricos de comunicação com Teerã. Essa condição permitiu aos omanitas atuarem durante décadas como intermediários em momentos de tensão entre americanos e iranianos. A ameaça de Trump, portanto, revela uma dimensão mais ampla da atual estratégia americana: Washington aumenta a pressão sobre o Irã e, ao mesmo tempo, tenta limitar a margem de atuação de aliados árabes que buscam negociar diretamente com Teerã. Memorando já havia ruído O fim do prazo de 60 dias previsto no memorando entre Estados Unidos e Irã não representa o vencimento de um cessar-fogo ainda em vigor. O documento, assinado em junho, previa uma trégua e uma janela de dois meses para negociações. O cessar-fogo, porém, foi rompido poucos dias depois. Os Estados Unidos acusaram o Irã de disparar mísseis e drones, dando início a uma nova sequência de ataques e contra-ataques. Israel também permanece nesse tabuleiro militar com o enfrentamento contra o Hezbollah no Líbano, acompanhado de perto por Teerã. Os 60 dias servem agora principalmente para medir o que aconteceu desde aquela tentativa diplomática e o cenário é praticamente o oposto do pretendido pelo memorando: a guerra continua, não existe acordo permanente, o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanece comprometido e Washington intensifica a pressão econômica sobre Teerã. Donald Trump afirmou não estar preocupado com o fim do prazo. Disse que não trabalha com um cronograma e que “não tem pressa” para chegar a um acordo permanente com o Irã. O presidente norte americano também afirma que seu governo mantém um canal reservado de comunicação com autoridades iranianas. Teerã, porém, contesta a versão de Washington sobre contatos diretos com integrantes da Guarda Revolucionária. As versões contraditórias sobre a existência e o alcance dessas conversas têm se repetido ao longo do conflito. Teerã não dá sinais públicos de recuo Do lado iraniano, não há até agora sinais evidentes de que o governo esteja disposto a ceder. O comandante-chefe do Exército iraniano, Amir Hatami, classificou o Estreito de Ormuz como “um ativo geopolítico concedido por Deus à nação iraniana” e afirmou que o país protegerá essa capacidade “com todo o poder”. A estratégia de Teerã é resistir à pressão militar e econômica dos Estados Unidos e preservar sua capacidade de interferir no tráfego marítimo. O controle da navegação é uma das principais formas de pressão iraniana e continua sendo um desafio para o Pentágono e para a Casa Branca. A vulnerabilidade iraniana está na economia. A inflação anual no país chegou a 66% em julho, segundo o Centro de Estatísticas do Irã. Trump voltou a explorar o tema ao afirmar que o Irã enfrenta um problema econômico grave e chegou a citar uma inflação de 300% — número muito superior ao dado oficial iraniano. Autoridades de Teerã também demonstram preocupação com a deterioração da economia e com a possibilidade de novos protestos internos. A aposta de Washington é que o bloqueio e o agravamento das condições econômicas acabem obrigando o governo iraniano a fazer concessões. Petróleo e gasolina pressionam Washington A disputa no Estreito de Ormuz também tem consequências para o mercado internacional de energia e para o consumidor americano. O petróleo Brent subiu 2,58%, chegando a US$ 91,10 o barril. Nos Estados Unidos, a gasolina custa em média US$ 4,06 por galão, segundo a Associação Americana de Automóveis. O valor é cerca de 93 centavos superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Donald Trump reconhece o impacto econômico da guerra, mas argumenta que o aumento dos combustíveis é consequência de um objetivo maior. O presidente disse que, se os americanos tiverem de pagar “um pouquinho a mais” pela gasolina, devem lembrar que o esforço tem como objetivo impedir que o Irã desenvolva uma arma nuclear. A frase resume um argumento repetido pela Casa Branca desde os primeiros ataques contra Teerã, no fim de fevereiro: a meta declarada por Washington é impedir que o Irã obtenha armas nucleares. Faltam menos de três meses para as midterms, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, e pesquisas recentes apontam insatisfação com a inflação e com a condução da guerra. O conflito transforma-se, assim, em uma disputa de resistência. Washington aposta que o bloqueio e a deterioração da economia farão o Irã ceder. Teerã tenta resistir tempo suficiente para que a alta do petróleo, da gasolina e o desgaste provocado pela guerra aumentem a pressão política sobre Donald Trump antes das eleições.

  18. 7

    Campanha no Brasil começa em clima de tensão com EUA, comparações entre governos e até chamado 'divino'

    Está oficialmente aberta a temporada de caça ao voto numa das campanhas mais desafiadoras para a direita e para a esquerda no Brasil, em meio a um momento delicado nas relações comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos. Com dois candidatos consolidados na dianteira, mas com indefinição quanto ao resultado final, Lula usa da estratégia de comparar seus governos à gestão de Jair Bolsonaro, enquanto Flávio diz que herdou "missão divina" do pai. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília No embate pessoal, a votação vai dizer como Lula encerrará sua carreira política e até quando o ex-presidente Jair Bolsonaro cumprirá pena. Sobre aspectos gerais, estão na mesa visões divergentes sobre meio ambiente, política social, armamento e soberania. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a largada de sua campanha em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, onde morou e foi líder sindical. Ele destacou a trajetória pessoal de vida, preocupação com a educação de jovens e a questão da violência. O petista mostrou que uma das estratégias é comparar seus anos de governo com os de Jair Bolsonaro. “Quanto eu era presidente, nós queimamos quase 500 mil armas do povo, armas que o povo devolveu. Sabe o que eles fizeram? Eles distribuíram, venderam mais de um milhão de armas. E venderam um bilhão de balas. Essa gente fala de segurança. Mas quem ficou com esse um bilhão de balas? Foi o crime organizado, que travestido de boa vontade foi comprar revólver, pistola, fuzil para continuar matando gente”, discursou o candidato do PT. Flávio Bolsonaro em Copacabana Já Flávio Bolsonaro escolheu a orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, berço político da família, para abrigar seu primeiro evento de campanha. O candidato do PL disse que está diante de uma "missão divina" e tentou mostrar que é a encarnação da figura do pai. “Eu estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país. Eu não sei qual é o medo que eles têm dessa palavrinha mágica chamada Bolsonaro. Porque hoje todo mundo vê que Bolsonaro nunca foi ameaça para a democracia. Nós sempre fomos o último obstáculo para que esse país não virasse uma ditadura de uma vez por todas. Volta, Bolsonaro”, pregou o nome do PL. Para afastar críticas que o clã Bolsonaro atuou pelo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, Flávio Bolsonaro afirmou que é o único que tem condições de negociar com outros países acordos favoráveis para o Brasil. Tarifaço de Trump na campanha Em meio à disputa política, vários setores são diretamente afetados como calçados, madeira, derivados de alumínio e aço, ainda que a lista de exceção seja muito mais ampla nesse novo tarifaço de Trump. O economista e professor do IBMEC, Gilberto Braga, disse à RFI que a reciprocidade, anunciada pelo Brasil, é uma estratégia de defesa que na prática é construída gradativamente. “Essa negociação é como se fosse um jogo de xadrez, em que os Estados Unidos jogam com as peças brancas no tabuleiro, ou seja, eles fazem os primeiros movimentos. E o Brasil joga com as peças pretas, reagindo e se defendendo ao movimento das brancas.” O analista afirmou que uma certa distensão poderia ser obtida com uma conversa direta entre os dois mandatários, Lula e Donald Trump. O novo diálogo já foi aventado pelo chefe brasileiro, mas o economista ressalta que isso também é afetado pelo clima eleitoral. “O que é diferente nesse momento é que nós estamos em plena corrida eleitoral no Brasil. E há um interesse norte-americano deflagrado e confessado de apoiar o candidato de oposição ao governo atual. Isso dá um contorno especial que não existia nas conversas bilaterais anteriores. Por isso a gente não sabe ainda se uma conversa vai ser tão efetiva quanto as anteriores, mas há a sensação de que um contato não prejudica o ambiente econômico e que poderá eventualmente trazer algum grau de melhora”, analisa Braga.

  19. 6

    Entre inflação e incertezas globais, italianos mudam a forma de passar as férias

    Acostumados a lotar as praias em agosto, muitos italianos estão mudando seus planos de férias. O aumento do custo de vida, as despesas com viagens e o clima de incerteza internacional levam parte da população a encurtar estadias, buscar destinos mais baratos ou até abrir mão de viajar. A forte demanda estrangeira pressiona os preços de hospedagem, alimentação e serviços à beira-mar, dificultando o acesso de parte da população às praias do país. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão Além de marcar o auge do verão, um dos motivos que levam milhões de italianos às estradas é o “Ferragosto”, feriado celebrado em 15 de agosto, cuja origem remonta a uma tradição da Roma Antiga ligada ao descanso. Por isso, muitos aproveitam a data para emendar alguns dias de férias, geralmente perto do mar. Neste ano, porém, em vez de passar vários dias seguidos fora, os italianos estão preferindo fazer uma ou mais viagens curtas, de poucos dias. Segundo pesquisa recente da Confturismo, principal entidade de representação empresarial do setor turístico, 69% dos entrevistados pretendem adotar esse modelo de férias. O gasto médio previsto é de cerca de 1.165 euros por pessoa. As viagens também devem ser mais perto de casa. Seis em cada dez italianos vão viajar dentro do país. Em 31% dos casos, o destino é própria casa de veraneio ou a casa de parentes e amigos. Um dos principais motivos para essas mudanças é o aumento dos custos. Nos últimos dez anos, as passagens aéreas domésticas ficaram quase 193,3% mais caras. A gasolina, as passagens de trem e a hospedagem também subiram. As diárias de hotel estão, em média, 69% mais altas do que em 2016, enquanto os pacotes de viagem acumulam alta de 46%. Os dados são do Centro Italiano de Formação e Pesquisa sobre o Consumo (CRC). Além disso, pesquisas apontam que as incertezas provocadas pelos conflitos internacionais também pesam na decisão de permanecer na Itália, principalmente por causa das rotas aéreas que passam pelo Oriente Médio. Itália é o destino favorito dos europeus Além do turismo doméstico, a Itália continua atraindo cada vez mais visitantes estrangeiros. Segundo a Confturismo, o país é o destino de verão mais desejado pelos europeus e foi apontado por 54% dos entrevistados como primeira opção para as férias. Na sequência aparecem Espanha, Grécia e França. O fluxo de estrangeiros no país vem registrando um forte crescimento. No primeiro trimestre deste ano, mais da metade das presenças turísticas (54,6%) registradas na Itália foi de visitantes estrangeiros, de acordo com o Instituto de Estatística (Istat). Em comparação com o mesmo período do ano passado, o número de turistas internacionais aumentou 12,5%. A grande surpresa é o destino mais procurado pelos turistas estrangeiros neste ano: a região da Puglia, que ultrapassou as ilhas da Sicília e da Sardenha nas buscas feitas na plataforma Booking.com. Tradicionalmente mais conhecida pelos próprios italianos, a Puglia ganhou visibilidade internacional nos últimos anos e passou a atrair cada vez mais visitantes de fora. Praias privadas: a polêmica do litoral italiano Parte da costa italiana está sob concessão para estabelecimentos balneares privados que ocupam grandes trechos do litoral. Quem deseja utilizar a estrutura, com guarda-sóis, espreguiçadeiras, banheiros e restaurantes, conhecida como “lidos”, precisa pagar. E, embora o acesso ao mar seja garantido por lei, muitos reclamam que sobraram poucos espaços livres para quem não quer ou não pode pagar. Neste ano, uma cidade próxima a Nápoles virou símbolo desse debate. O prefeito de Bacoli prometeu “devolver” o litoral aos cidadãos depois que o proprietário de um desses estabelecimentos chamou de “pé-rapada” uma mulher, que estava em uma praia livre, e após consumir uma bebida no restaurante, pediu para usar o banheiro. O prefeito da cidade afirmou que a ocupação do litoral da cidade possui um histórico “abusivo” e anunciou novas licitações para as concessões, que em muitos casos estão há décadas nas mãos das mesmas famílias. Além disso, determinou uma meta para que 80% do litoral de Bacoli seja formado por praias de acesso público. A legislação já foi aprovada pela Câmara de Vereadores. A proposta chama atenção porque, em algumas regiões da Itália, como Liguria e Emilia-Romagna, até 70% das praias estão sob concessão privada, segundo um levantamento da ONG Legambiente, realizado em 2022.

  20. 5

    Após críticas, Colômbia abre operações de resgate apenas a aliados políticos

    Após dias de críticas pela recusa em aceitar ajuda internacional, o governo de Abelardo De La Espriella anunciou, enfim, a abertura do país para equipes estrangeiras de resgate que atuarão nas áreas atingidas pelo terremoto. A medida, porém, tem forte componente ideológico: apenas socorristas dos Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador, países governados por líderes de direita, poderão participar das operações. Segundo balanço divulgado na quarta-feira (12), o número de mortos subiu para 265 vítimas. Pedro Pannunzio, de Pereira, especial para a RFI O governo justificou a escolha afirmando que apenas países com capacidade comprovada de mobilizar equipes de busca e resgate reconhecidas oficialmente e com padrão internacional de atuação foram autorizados a participar da operação. A explicação foi dada por David Tamayo, diretor da Unidade Nacional de Gestão de Riscos. Ao lado dele, na mesma coletiva de imprensa, o chanceler Omar Bula, negou que o governo colombiano tenha feito escolhas ideológicas. “Não excluímos absolutamente nenhum país. Em relação às ofertas que nos foram feitas, trabalhamos com países sem qualquer consideração ideológica ou política e aceitamos e agradecemos profundamente sua ajuda.” Ainda nesta quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, conversou por telefone com o chanceler colombiano. “O governo brasileiro está tomando medidas para o envio célere de ajuda humanitária para apoiar as ações de resposta do governo colombiano”, diz uma publicação nas redes sociais do Itamaraty. O Brasil deve enviar à Colômbia purificadores de ar, medicamentos e alimentos, mas ainda não há data nem quantidades definidas, segundo um diplomata do Itamaraty. Questionado sobre a possibilidade de uma missão de socorristas, como a enviada recentemente à Venezuela, ele afirmou que a ajuda é definida conforme a demanda do governo colombiano, que não solicitou equipes de busca e resgate. Na terça (12), o presidente salvadorenho, Nayib Bukele, havia dito que a Colômbia “solicitou ajuda humanitária exclusivamente na forma de insumos” e que o país agora comandado por De La Espriella “não requer apoio de pessoal”. Janela ideal de resgate quase fechada A limitada mudança de postura do governo colombiano ocorre tardiamente. A janela crítica de 72 horas, período em que há maior chance de encontrar sobreviventes sob os escombros, se encerra na manhã desta quinta-feira (13). Também nesta quinta, o grupo internacional de voluntários Topos Aztecas, do México, começou a atuar em Cali. Os integrantes chegaram ao país por iniciativa própria e, em nota, afirmaram que não receberam nenhum pedido oficial de ajuda. Há, em todo o país, 496 pessoas desaparecidas, segundo o último balanço divulgado, na quarta-feira, pelo presidente Abelardo de La Espriella. Ainda de acordo com o governo federal, o terremoto de magnitude 7,4 que atingiu a Colômbia na manhã desta segunda-feira (10) já deixou 265 mortos. A tendência, conforme os trabalhos de busca e resgate continuem, é que os números ainda cresçam. O Instituto Nacional de Medicina Legal identificou, até o momento, 205 corpos. Parte dos que ainda não foram reconhecidos estão localizados na cidade de Pereira, uma das mais atingidas pelos terremotos, que registrava quase 90 vítimas no último balanço divulgado pela prefeitura da cidade. Milhares de voluntários lideram as operações de busca e resgate no município e trabalham diariamente na tentativa de encontrar sobreviventes ou localizar os corpos das vítimas. Mas são poucos os que buscam por algum parente ou amigo. A região central, a área mais afetada da cidade, era frequentada, sobretudo, por prostitutas, moradores de rua e dependentes químicos, que já não tinham mais contato com suas famílias. No Instituto de Medicina Legal do município, para onde os cadáveres encontrados são levados, há 22 corpos de vítimas identificadas que ainda não foram reclamados por nenhum parente. As autoridades locais não divulgaram o número de mortos não identificados. Estado de emergência econômica Além de atualizar os números da tragédia, Abelardo de La Espriella também anunciou que vai declarar um estado de emergência no país para enfrentar a tragédia. “Decidi fazer uso da emergência econômica, mecanismo previsto em nossa Constituição para poder enfrentar esta crise”, afirmou. O chamado “Fundo Milagre” deverá concentrar recursos nacionais e internacionais destinados à reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto. A proposta prevê financiar a recuperação de hospitais, escolas, imóveis, estradas e aeroportos danificados pelo sismo. O pacote também prevê medidas para aliviar os impactos econômicos sobre a população, como subsídios para o aluguel de famílias que perderam suas casas, pagamento temporário de serviços públicos, benefícios tributários e auxílio a famílias vulneráveis.

  21. 4

    Eclipse total leva multidões à estrada e provoca corrida por óculos na Espanha

    Pela primeira vez em 114 anos, a Península Ibérica assistirá a um eclipse solar total nesta quarta-feira (12), quando a Lua encobrirá completamente o Sol em uma faixa que atravessa a Espanha da Galícia às Ilhas Baleares. O fenômeno poderá ser observado em 13 comunidades autônomas e deve provocar até 1,5 milhão de deslocamentos adicionais de pessoas para acompanhar o evento ao entardecer. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri O último eclipse solar total observado na Espanha peninsular ocorreu em 1912. Na época, porém, tratou-se de um raro eclipse híbrido: a totalidade durou apenas alguns segundos em uma estreita faixa do noroeste da Península Ibérica, enquanto o fenômeno foi anular no restante do percurso. Já o eclipse de 1905 teve proporções maiores. A totalidade durou quase quatro minutos, atraiu mais de vinte equipes científicas internacionais e levou milhares de pessoas a Burgos. O fenômeno ficou conhecido como “eclipse espanhol” e é considerado por muitos o último grande eclipse total visível na Espanha continental. Considerando todo o território espanhol, o eclipse total mais recente ocorreu em 1959, mas foi visível apenas nas Ilhas Canárias. Em busca do eclipse perfeito Para estar dentro da faixa de totalidade do eclipse, Sara Najar alterou os planos de férias. Ela estava em Alicante, sua cidade natal, mas planejou o retorno para Esporles, município de Mallorca onde vive, a tempo do eclipse. A mudança permitirá que Sara acompanhe o evento em condições completamente diferentes. Em Alicante, o fenômeno será parcial; em Esporles, a totalidade deverá durar aproximadamente 1 minuto e 36 segundos. Sara espera compartilhar esse momento com pessoas próximas, tornando-o ainda mais especial. “Eu imagino principalmente assistir ao eclipse ao lado de pessoas que eu amo, poder desfrutar desse tipo de fenômeno com gente próxima. Na verdade, não consigo imaginar exatamente como vou me sentir, mas acho que vai ser algo muito especial”, contou à RFI. A grande migração para ver o eclipse O caso de Sara está longe de ser isolado. A Direção-Geral de Trânsito da Espanha estima que o eclipse provoque entre 400 mil e 1,5 milhão de deslocamentos adicionais em direção às áreas de totalidade. O órgão montou uma operação especial e pediu que os motoristas planejem os trajetos e escalonem o retorno, já que boa parte do público deverá deixar os pontos de observação praticamente ao mesmo tempo, depois da totalidade. Nas Ilhas Baleares, o governo regional vai interromper ou controlar o tráfego em cerca de vinte estradas que levam a espaços naturais, faróis, mirantes e praias. As medidas procuram evitar o colapso dos acessos e garantir a passagem dos serviços de emergência. Na região de Madri, foram organizados mais de cinquenta pontos de observação. Um dos principais eventos será realizado no espaço recreativo de Riosequillo, em Buitrago del Lozoya, na parte norte da comunidade autônoma. Os três mil ingressos gratuitos para o festival se esgotaram em pouco mais de uma hora. Mesmo sem ingressos, a brasileira Luciana Patrícia decidiu ir ao município. Ela pretende acompanhar o eclipse do Mirador del Pinarcillo com o marido, os dois filhos, a sogra e um sobrinho. “A gente vai sair daqui na parte da tarde, às quatro, e organizamos comida para fazer um piquenique”, explicou. Quem permanecer na capital espanhola também verá o céu escurecer quase completamente. Em Madri, o eclipse será parcial, mas 99,9% do disco solar ficará oculto pela lua no momento máximo, previsto para as 20h32. A pequena parcela do sol que continuará visível, no entanto, é suficiente para causar danos à visão. Como a capital não entra na faixa de totalidade, os óculos com filtro solar certificado precisam ser usados durante todas as fases do eclipse sempre que o observador olhar diretamente para o sol. A corrida pelos óculos de proteção A procura por esses equipamentos tornou-se outro sinal da mobilização. O governo espanhol e o Grupo Social ONCE organizaram a distribuição gratuita de dois milhões de óculos certificados. Na Comunidade de Madri, 36.500 unidades foram destinadas aos pontos de observação, além de outras 20.000 distribuídas anteriormente em instituições e atividades educativas. Em alguns municípios, o material acabou rapidamente. Em Calatayud, na província de Zaragoza, seis mil óculos se esgotaram depois de longas filas na Oficina Municipal de Turismo. A brasileira Tatiana Camelo, que vive em Madri e se interessa por astronomia, decidiu não correr esse risco. Duas semanas antes do fenômeno, encomendou pela internet um pacote com dez unidades para dividir com os amigos. “Eu tinha certeza absoluta que ia ser muito difícil de encontrar mais perto”, afirmou. “Comentei com alguns amigos meus e comprei um pacote com dez óculos para dar para todo mundo se divertir e poder ver de forma segura.” Sol baixo, calor e risco de incêndios O horário do fenômeno acrescenta outro desafio. A totalidade ocorrerá com o sol muito próximo do horizonte, a uma altura que deverá variar entre 2,5 e 12 graus, dependendo da localidade. Por isso, o Instituto Geográfico Nacional recomenda procurar um lugar com visão desimpedida na direção oeste. A previsão geral da Agência Estatal de Meteorologia (AEMET) para esta quarta-feira indica predomínio de céu pouco nublado ou limpo em grande parte do país. A maior presença de nuvens é esperada no Cantábrico e no norte da Galícia, com possibilidade de formação de nebulosidade também em áreas do norte e do leste. Como o sol estará muito baixo, qualquer nuvem no horizonte poderá encobrir justamente o momento da totalidade. O calor intenso preocupa as autoridades. O mapa da AEMET coloca amplas áreas da Península e das Baleares em níveis muito altos ou extremos de perigo de incêndios. Os planos de segurança incluem medidas para impedir fogueiras, churrasqueiras e outras fontes de chamas, além de recomendações para que o público não jogue bitucas de cigarro nem bloqueie acessos de emergência. Das sombras do eclipse às Perseidas O espetáculo astronômico continuará durante a madrugada. O pico da chuva de meteoros Perseidas está previsto para a noite de 12 para 13 de agosto, entre quatro e seis da manhã no horário da Espanha peninsular. Conhecidas na Espanha como “Lágrimas de São Lourenço”, por ocorrerem perto de 10 de agosto, data dedicada ao santo, as Perseidas poderão ser vistas em condições especialmente favoráveis neste ano. A lua nova acontece na tarde desta quarta-feira e, portanto, não deverá iluminar o céu durante a madrugada. O eclipse desta quarta também inaugura o chamado “Trio de Eclipses”. Um novo eclipse total atravessará o sul da Espanha em 2 de agosto de 2027; em 26 de janeiro de 2028, um eclipse anular formará o chamado “anel de fogo” em parte do país. Depois dessa sequência, a Espanha só voltará a presenciar outro eclipse total do sol em 2053.

  22. 3

    Nova rodada de primárias nos EUA testa rumos de democratas e republicanos

    Os eleitores de Minnesota, Wisconsin, Connecticut e Vermont vão às urnas nesta terça-feira (11) para mais uma rodada das primárias que definirão os candidatos dos partidos Democrata e Republicano ao Senado e à Câmara dos Representantes nas eleições legislativas de novembro nos Estados Unidos. Já na Carolina do Sul, haverá uma primária especial para escolher o candidato republicano à vaga no Senado deixada pela morte recente de Lindsey Graham. No Alabama, por sua vez, há primárias especiais para a Câmara. Patrícia Vasconcellos, de Washington, especial para a RFI A menos de três meses do pleito que vai determinar se o Partido Republicano manterá ou não a maioria nas duas Casas do Congresso, os resultados das disputas regionais começam a revelar tendências sobre as preferências do eleitorado e sobre os rumos que os dois partidos pretendem seguir. As primárias estão na metade do calendário e, nesta etapa, os eleitores escolhem os nomes que estarão nas cédulas de novembro. Dentro do Partido Democrata, uma das principais disputas é pelo equilíbrio entre a ala progressista e os candidatos mais moderados. O embate ficou evidente na semana passada, em Michigan, com a vitória do democrata Abdul El-Sayed na disputa pela indicação ao Senado. El-Sayed foi frequentemente comparado a Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, que venceu uma disputa eleitoral com uma agenda centrada no custo de vida, no preço dos alimentos e na expansão de serviços públicos. Em Michigan, El-Sayed derrotou a deputada Harley Stevens, que buscava a indicação ao Senado e representa uma corrente mais moderada do partido. Stevens recebeu o apoio de figuras de destaque, como a ex-presidente da Câmara Nancy Pelosi e o governador de Michigan. El-Sayed contou com o apoio do senador Bernie Sanders, de Vermont, uma das principais referências da ala progressista democrata. Batalha pelo Senado em Minnesota Em Minnesota, uma das disputas mais importantes desta terça-feira também ocorre dentro do Partido Democrata e envolve a indicação para o Senado. De um lado está a deputada federal Angie Craig, identificada com uma corrente mais moderada. Do outro, a vice-governadora Peggy Flanagan, ligada à ala progressista. Também em Minnesota, os republicanos disputam a indicação para o Senado em uma corrida que reúne vários candidatos, entre eles a ex-comentarista esportiva Michele Tafoya e o ex-jogador da NBA Royce White. O vencedor da primária republicana enfrentará, em novembro, a disputa por uma cadeira atualmente ocupada pela democrata Tina Smith, que decidiu não concorrer à reeleição. Entre os republicanos, além da escolha dos candidatos, a principal questão envolve a capacidade de Donald Trump de manter unido o movimento conservador que o levou de volta à Casa Branca. Em uma iniciativa inédita, o Partido Republicano realizará, pela primeira vez, uma convenção nacional específica para uma eleição de meio de mandato. O encontro está previsto para setembro, em Dallas, no Texas. Disputas internas e estratégias Entre os democratas, o debate está concentrado sobretudo em questões estratégicas: até onde avançar à esquerda, como enfrentar Donald Trump e como reconquistar eleitores independentes e moderados. Até o momento, essas diferenças têm sido canalizadas principalmente para disputas eleitorais internas sobre o futuro do partido. No Partido Republicano, as fraturas têm se mostrado mais profundas e públicas. A divisão envolve a própria liderança de Trump e o futuro do movimento MAGA. Um dos exemplos recentes foi o rompimento entre o presidente e Marjorie Taylor Greene, ex-deputada que durante anos esteve entre as principais aliadas de Trump, mas posteriormente se tornou uma de suas críticas. A ruptura dos dois ex-aliados é um exemplo e evidencia que as divergências dentro do Partido Republicano já não estão restritas ao conflito entre republicanos tradicionais e a ala trumpista. As disputas também ocorrem dentro do próprio movimento que levou Trump novamente à Casa Branca. Trump mobiliza base Apesar das divisões, os republicanos chegam às eleições com uma vantagem importante: a capacidade de Donald Trump de mobilizar a base do partido. O presidente continua sendo uma figura central para o eleitorado republicano, embora isso não signifique que a legenda esteja completamente unificada. Entre os temas que provocam divergências estão a direção do movimento America First, a política externa, a imigração, a economia, os gastos militares no exterior e o grau de fidelidade ao presidente diante de questões que provocam conflitos dentro da própria coalizão conservadora. Enquanto setores do partido permanecem totalmente alinhados a Trump, outros defendem que o movimento America First siga uma direção diferente. A convenção republicana de setembro, em Dallas, será um dos momentos para medir o grau de unidade do partido. A escolha do Texas para sediar o encontro tem peso simbólico e político, já que o estado é uma das principais bases da coalizão republicana e exerce forte influência dentro da legenda. O encontro deverá funcionar também como uma demonstração de força do partido. Os democratas afirmam que não realizarão uma convenção nacional específica para as eleições legislativas para concentrar recursos e esforços nas campanhas regionais. O voto por correio em debate Outro tema que atravessa o debate eleitoral americano é o sistema de votação. Nos Estados Unidos, além da votação presencial no dia da eleição, os eleitores podem votar antecipadamente de forma presencial ou pelo correio. Donald Trump tenta restringir o uso do voto postal, sob o argumento de que existem vulnerabilidades no sistema eleitoral. Uma ordem executiva foi assinada pelo presidente em março restringindo este tipo de voto. Em seguida, um grupo de 23 estados mais o Distrito de Columbia questionou a determinação na justiça federal. Em junho, a mais alta instância do Judiciário americano decidiu, por maioria, um caso separado envolvendo o estado do Mississippi. A decisão permitiu que determinadas cédulas enviadas pelo correio sejam contabilizadas, desde que tenham sido postadas até o dia da eleição, em 3 de novembro, e cheguem ao local de contagem em até cinco dias depois do encerramento da votação.

  23. 2

    Lula tenta destravar no Senado pauta estratégica antes das eleições

    A menos de dois meses das eleições no Brasil, o presidente Lula tenta acelerar no Congresso a votação de projetos considerados estratégicos para o mandato e também para a campanha à reeleição. Entre as prioridades está a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. Depois de retomar o diálogo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Lula espera destravar a pauta durante as duas semanas de esforço concentrado do Legislativo antes do pleito.  Vivian Oswald, correspondente da RFI em Brasília Após um primeiro encontro desde o rompimento entre o petista e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), existe a expectativa de que o texto seja finalmente apreciado em uma das duas janelas de votação. Se não for nesta que se inicia, a ideia é que seja na segunda semana, de 31 de agosto a 3 de setembro, quando a Casa deve analisar temas de grande repercussão. Lula e Alcolumbre se encontraram em um jantar na semana passada, depois de quase três meses sem se falar. Existe a possibilidade de que se reúnam novamente nesta segunda-feira (10), em Brasília, justamente para discutir a pauta. Em função das eleições, o Congresso resolveu manter essas duas semanas de esforço concentrado. É assim que são chamadas essas duas janelas de votação, já que, em período de campanha eleitoral, Câmara e Senado não costumam ter muito quórum porque os parlamentares voltam às suas bases. A expectativa do governo é que a PEC da escala 6x1 entre finalmente na pauta. Neste domingo, Dia dos Pais, Lula publicou em sua conta no X que o maior presente que eles podem receber é ter mais tempo para passar com os filhos. Minerais cítricos e estratégicos em pauta Mas há outros temas de grande impacto econômico na pauta. O PL 2.780/2024, que cria uma política nacional para minerais críticos e estratégicos e um conselho voltado à industrialização desses recursos, é um deles. O projeto é considerado fundamental porque tem por objetivo principal incentivar a pesquisa, atrair investimentos e garantir que o país não seja apenas um exportador de matéria-prima, promovendo o beneficiamento interno de insumos como lítio, níquel, nióbio e terras raras. Este tema, em especial, tem forte componente geopolítico em um momento em que se tornou motivo de disputa internacional. Os EUA tentaram, nas negociações bilaterais com o Brasil – paralisadas desde o mais recente tarifaço –, garantir exclusividade de fornecimento, assim como têm tentado com outros países. A PEC da Segurança Pública também tem relevância, já que trata de um assunto que deve ocupar espaço importante na campanha e que preocupa o eleitorado. Mas há ainda a autonomia financeira do Banco Central, o novo teto do MEI (Microempreendedor Individual) e o Marco Legal da Inteligência Artificial. Agenda extensa Serão duas janelas curtas para a votação e uma agenda extensa. O encontro entre Lula e Alcolumbre quebra o gelo e abre caminho para avanços no Senado, onde está boa parte das pautas mais polêmicas. A relação entre os dois foi rompida após a rejeição, pelo Senado, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma cadeira do STF (Supremo Tribunal Federal). Agora, o governo recebeu sinais de que essas pautas podem avançar. Lula espera que o gesto feito a Alcolumbre ajude. Há ainda a PEC que substitui a contribuição previdenciária patronal de 20% sobre a folha por uma alíquota de até 1,4% sobre a receita bruta, com o objetivo de reduzir os custos de contratação formal, combater a informalidade e estruturar uma desoneração ampla. Além das propostas mais polêmicas, o Congresso terá de votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, administrar 32 medidas provisórias em tramitação e negociar dezenas de vetos presidenciais que paralisam a pauta das sessões conjuntas. A boa notícia é que parte da agenda do plenário para terça e quarta-feira, no Senado, segue em aberto. Ou seja, o espaço existe.

  24. 1

    Colômbia: Cali recebe posse histórica de De La Espriella sob forte esquema de segurança

    Pela primeira vez na história da Colômbia, a cerimônia de posse do novo presidente do país será realizada fora de Bogotá. Abelardo De La Espriella afirma que a mudança simboliza seu projeto de descentralização, enquanto analistas a interpretam como uma demonstração de força política. A cerimônia, marcada para Cali, ocorrerá sob forte esquema de segurança e tendo como pano de fundo manifestações convocadas por opositores ao novo governo. Pedro Pannunzio, especial de Cali para a RFI Nesta sexta-feira (7), Abelardo De La Espriella, de extrema direita, filiado ao partido Defensores de La Patria, tomará posse como novo presidente da Colômbia, em uma cerimônia marcada por disputas com a oposição e embates institucionais. Pela primeira vez na história do país, o chefe do Executivo não celebrará as honrarias na capital Bogotá. O evento será realizado em Cali, capital do departamento de Valle del Cauca, no sul do país. A posse contará com um reforçado aparato de segurança: mais de 11 mil agentes foram deslocados para a cidade, entre militares e policiais. Mas não fosse o estrondo dos caças que cruzavam o céu da zona norte de Cali na tarde nesta quinta-feira (6), a presença das forças de segurança passaria quase despercebida nos dias que antecedem a posse, exceto em pontos estratégicos, como as imediações do Aeroporto Internacional Alfonso Bonilla Aragón e nos locais onde estão as delegações internacionais. "Esses policiais não costumavam ficar aqui. Isso é novo", observou o motorista de táxi Luís Eduardo ao cruzar uma barreira policial, onde agentes empunhavam fuzis, em frente ao Hotel Intercontinental. Representantes israelenses e presidentes de direita presentes Entre as delegações que circulavam pelo Hotel Intercontinental nesta quinta-feira (6) estava a israelense. O corpo diplomático do país havia sido expulso da Colômbia por Gustavo Petro em 2025, um ano após o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países, na esteira dos ataques israelenses contra a Palestina. Outra presença confirmada é a dos Estados Unidos, que, no ano passado, protagonizou embates com o governo Petro. Apoiador abertamente declarado de Abelardo De La Espriella, Donald Trump enviou Todd Blanche, procurador-geral interino, como principal representante da delegação norte-americana. A posse também contará com a presença de governantes de direita e de extrema direita da região, em um encontro que evidencia o avanço desse campo político na América Latina e reforça a articulação entre seus principais líderes. Javier Milei, da Argentina, Daniel Noboa, do Equador, Santiago Peña, do Paraguai, José Antonio Kast, do Chile, e Nasry Asfura, de Honduras, são alguns dos chefes de Estado que marcarão presença na cerimônia.  O governo brasileiro será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Inicialmente, o presidente eleito pretendia tomar posse em uma base militar no departamento de Cauca, também no sul do país. Mas seu antecessor, Gustavo Petro, comandante em chefe das Forças Armadas até a conclusão da transição de governo, proibiu os militares de realizar a cerimônia. Além disso, De La Espriella enfrentava resistência no Congresso, que poderia rejeitar sua solicitação e impor a primeira derrota ao governo antes mesmo de sua posse. O presidente eleito, então, recuou e transferiu a cerimônia para Cali. A posse será realizada na Universidad Santiago, um espaço civil. Oficialmente, De La Espriella, que governará até 2030, afirma que a decisão de retirar o evento de Bogotá simboliza seu projeto de descentralização do poder na Colômbia. Analistas consultados pela RFI, no entanto, avaliam que a escolha de Cali representa uma tentativa de demonstração de força do novo presidente e, em certa medida, uma provocação. A cidade foi o epicentro da onda de protestos de 2021, que abriu caminho para a vitória de Gustavo Petro no ano seguinte, conquistando o posto de primeiro dirigente de esquerda da história do país. Além disso, no departamento de Valle del Cauca, o candidato governista Iván Cepeda derrotou De La Espriella com ampla vantagem. Protestos marcados em Cali Se, nos dias que antecedem a posse, Cali vive um clima de certa tranquilidade, o mesmo não deve ocorrer nesta sexta-feira, data da cerimônia presidencial. Além da imposição de uma lei seca e de restrições severas à circulação de veículos, os opositores prometem ir às ruas para protestar contra o novo presidente. Há pelo menos duas manifestações marcadas. Uma delas, na parte da manhã, conta com o apoio de organizações sindicais e do próprio Ivan Cepeda, candidato derrotado. Também está prevista uma concentração nos arredores da Universidad Santiago de Cali, onde, às 15h no horário local (17h de Brasília), terá início a cerimônia de posse do novo chefe de Estado colombiano. No local, o aparato de segurança já foi reforçado. Os protestos refletem a polarização que marca o país após a eleição presidencial. De La Espriella assumirá uma Colômbia dividida. No segundo turno, venceu por uma margem apertada: pouco mais de 250 mil votos o separaram do adversário Iván Cepeda, do Pacto Histórico. O agora ex-presidente Gustavo Petro questiona o resultado das urnas e afirma que houve fraude eleitoral.

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