Ciência & Cultura Cast

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Ciência & Cultura Cast

Podcast da revista Ciência & Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Entrevistas e bate-papos com especialistas em temas de ciência, cultura e suas inúmeras conexões com nossas vidas. Números mensais em publicações temáticas trimestrais. Cada episódio, muitas descobertas.

  1. 54

    Quando a ciência encontra a música

    Novo episódio do Ciência & Cultura Cast explora como sons, emoções e conhecimento científico se entrelaçam — da física às humanidades, passando pelos desafios da era da inteligência artificial. Entre equações, vibrações e emoções, a música surge como um território onde ciência e arte se encontram de forma profunda — tema do novo episódio do Ciência & Cultura Cast. Presente em praticamente todas as culturas humanas, a música mobiliza diferentes campos do conhecimento, da física e da biologia às ciências humanas. “A música é uma linguagem que está presente na totalidade dos povos e na experiência humana pela condução de conteúdos através da emoção. Vamos ter desdobramentos disso nas mais importantes áreas do pensamento, do estudo e da própria ciência”, afirma Luiz Piquera, músico, compositor, arranjador e regente dos grupos Coro e Osso, Musiarte – Colégio Progresso Araraquara e Sorema Canto Livre. Do ponto de vista científico, o som envolve fenômenos físicos, processos biológicos e estruturas matemáticas, além de expressar tradições culturais e modos de comunicação entre espécies. “O conhecimento científico permite ao artista explorar coisas que não exploraria, como por exemplo, questões de timbre, ressonância, harmônicos. Então de certa maneira é uma via de mão dupla. Tanto a música se beneficia da ciência, como a ciência também se beneficia da música”, explica Marcos Pimenta, professor emérito do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanomateriais de Carbono. Nesse diálogo, arte e ciência também compartilham um papel crítico na sociedade. “Em todos os governos fascistas ou proto-fascistas, o primeiro ataque à cientista e à classe artística é exatamente porque é quem pensa, é quem põe o dedo na ferida, é quem demonstra e escancara desigualdades”, destaca Aldo Zarbin, professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

  2. 53

    Quando a música pensa o Brasil

    A história da MPB como tecnologia cultural e instrumento de leitura do país A história da Música Popular Brasileira é também a história de como o país aprendeu a se narrar por meio do som. Para Ivan Vilela, compositor, arranjador, violeiro, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA), a própria noção de MPB deve ser vista de forma ampla: não apenas como um rótulo surgido nos anos 1960, mas como continuidade de uma tradição oral que atravessa séculos. “Nós fomos construídos durante muito tempo por uma formação oral”, afirma. Esse caráter histórico da música popular ganha força ao longo do século XX, especialmente durante a ditadura militar. A canção passa a operar como crônica social, enfrentando censura e inventando caminhos para dizer o indizível. Mas se a música resiste, o cenário cultural que a envolve se transforma. No encontro entre oralidade, tecnologia e novos ativismos, Vilela propõe pensar a MPB a partir da ideia de “epistemografia”: reconhecer que o conhecimento brasileiro não se expressa apenas pela escrita acadêmica, mas também por práticas sonoras, sensoriais e corporais. Confira no novo episódio do Ciência & Cultura Cast!

  3. 52

    Carnaval, Ritmo e Ancestralidade

    A percussão como fio condutor entre ancestralidade, resistência e organização coletiva no Carnaval brasileiro. O Carnaval brasileiro, mais que festa, é um território de resistência onde a percussão reafirma a ancestralidade africana e organiza corpos, memórias e identidades. Das baterias das escolas de samba aos blocos afro, os tambores ecoam tradições dos terreiros e de povos como os Iorubá, Ewe e Fon, transformando as ruas em espaços de afirmação cultural e enfrentamento ao apagamento histórico. Essa força rítmica, sustentada por instrumentos como atabaques, surdos e repiniques, mantém viva uma tecnologia de saberes que atravessa séculos. “Se tirar a música do carnaval, se tirar o povo preto do carnaval, não sobra absolutamente nada”, afirma Marilda Santana, professora titular do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal da Bahia e criadora, gestora e curadora do projeto Troféu Caymmy.

  4. 51

    COP 30: Resultados e desafios

    Brasil assume liderança climática, mas COP30 expõe força do lobby dos fósseis. Ouça no Ciência & Cultura Cast A COP30, realizada em Belém, evidenciou o protagonismo do Brasil nas negociações climáticas, mas também os limites impostos pelo lobby do petróleo. Para Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável da USP, além de membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a conferência trouxe avanços importantes, como a discussão inédita e consistente sobre adaptação e a participação intensa da sociedade civil, além da defesa brasileira por um “mapa do caminho” para eliminar os combustíveis fósseis. Ainda assim, a resistência de países produtores de petróleo e de nações ricas em assumir compromissos de financiamento travou acordos ambiciosos. O balanço do cientista reforça a urgência de ações estruturantes, da restauração ecológica à transição energética justa, para enfrentar um cenário de aquecimento severo no país. “Do ponto de vista de resultados, como esperado, a COP 30 teve altos e teve baixos. Entre os altos, podemos citar claramente a discussão sobre a questão de adaptação ao novo clima, discussão sobre financiamento climático que avançou significativamente e, como ponto baixo, a questão de que os países produtores de petróleo bloquearam qualquer discussão sobre a necessária o necessário fim da exploração e do uso dos combustíveis fósseis”, alerta.

  5. 50

    Clima e desigualdade urbana

    Como a vulnerabilidade urbana amplia os impactos da crise climática no Brasil Mais da metade dos municípios brasileiros já enfrenta alta vulnerabilidade climática. Especialistas alertam que ocupação desordenada, desigualdades históricas e falta de infraestrutura ampliam o impacto dos eventos extremos. Soluções baseadas na natureza, planejamento integrado e financiamento adequado são apontados como caminhos para cidades mais resilientes e sustentáveis. “Eu diria que é fundamental buscar respostas, trazer respostas. As respostas estão nas soluções baseadas na natureza, na articulação do plano diretor com mudanças climáticas, mudando efetivamente a forma de urbanizar a cidade. E nós estamos vendo isso de uma forma bastante visível e divulgada até pelas mídias, por exemplo, das soluções que têm sido dadas em diversos países”, alerta Pedro Jacobi, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Grupo de Estudos de Meio Ambiente e Sociedade do Instituto de Estudos Avançados da USP.

  6. 49

    A Riqueza das florestas

    A Amazônia é uma das maiores riquezas naturais e culturais do planeta, abrigando imensa biodiversidade, vastos recursos hídricos e populações que há séculos desenvolvem modos sustentáveis de vida. Mais que uma floresta, ela é um sistema vivo que regula o clima global e sustenta milhões de pessoas. Com a realização da COP30 em Belém, o mundo volta seus olhos para a região, onde os saberes tradicionais e as políticas de conservação se unem ao desafio de transformar a preservação em motor de desenvolvimento. “O grande perigo atualmente, com as mudanças climáticas, o crescimento populacional e o uso desenfreado de recursos é que haja um colapso da capacidade de suporte do planeta, então o planeta vai chegar num limite que não consegue mais sustentar as populações que aqui vivem”, alerta Luiz Aragão, Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Coordenador do Programa Mudanças Climáticas Globais da FAPESP.

  7. 48

    Cidades e educação ambiental

    A maior parte das cidades do Brasil ainda não tem uma Politica Municipal de Educação Ambiental. Tema é destaque no novo episódio do Ciência & Cultura Cast. Apenas 30% dos municípios brasileiros possuem políticas de educação ambiental, com grandes disparidades regionais, segundo o IBGE. O podcast Ciência & Cultura Cast discute o tema, destacando o papel central da educação frente à crise climática. Apesar de avanços em drenagem urbana, problemas como lixões, baixa coleta seletiva e falta de inovação persistem. “As mudanças climáticas é a ponta do iceberg de escolhas históricas que nós temos feito nos últimos tempos. E a educação tem esse papel fundamental de, primeiro, fazer com que as pessoas compreendam um pouco o papel das cidades e o papel das pessoas e instituições que estão nas cidades”, afirma Edson Grandisoli, consultor e especialista em educação climática e economia circular.

  8. 47

    Cidades e recursos hídricos

    Novo episódio do Ciência & Cultura Cast debate a relação entre água, clima e urbanização, com participação da especialista Marussia Whately. O novo episódio do Ciência & Cultura Cast discute os desafios da gestão da água nas cidades, tema crucial diante das mudanças climáticas e do crescimento urbano. Marussia Whately, diretora do Instituto Água e Saneamento, alerta para a vulnerabilidade das metrópoles e defende a segurança hídrica como direito essencial, que envolve abastecimento, proteção contra poluição e desastres, preservação dos ecossistemas e governança eficiente. “As cidades com grande concentração de pessoas têm se mostrado locais com grande vulnerabilidade e muito mal preparadas na sua grande maioria para lidar com o clima mais extremo. E água e clima são inseparáveis”, alerta.

  9. 46

    Cidades e mudanças climáticas

    Altamente emissoras e vulneráveis, as áreas urbanas estão no centro do combate às mudanças climáticas As cidades, responsáveis por mais de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa, são peças-chave no combate às mudanças climáticas — mas também sofrem seus impactos de forma aguda, como enchentes, ondas de calor e escassez hídrica, especialmente em áreas vulneráveis. Para enfrentar a crise, é essencial investir em soluções urbanas sustentáveis (transporte limpo, infraestrutura verde e energia renovável) e envolver as comunidades na construção de adaptações justas e eficazes, transformando desafios ambientais em oportunidades de equidade e inovação. “Áreas de infraestrutura verde podem fazer esse papel de mitigar os efeitos das mudanças climáticas, amenizando o calor, absorvendo mais água, porque esse é o papel que a infraestrutura verde ou a natureza faz”, explica Ivan Maglio, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) no Centro de Síntese Cidades Globais e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, na área de infraestrutura verde.

  10. 45

    A quântica e a música

    No Ano Internacional da Ciência e das Tecnologias Quânticas, arte e ciência se entrelaçam em sons, ideias e possibilidades. No Ano Internacional da Ciência e das Tecnologias Quânticas, Moreno Veloso — cantor, compositor e produtor musical – fala sobre como a arte traduz conceitos científicos, como a improvisação musical dialoga com a incerteza quântica e como a música pode aproximar o público dos mistérios da ciência moderna. “A física quântica começou a, de uma certa forma, abrir mais os horizontes da ciência de uma forma geral”, pontua Moreno Veloso, que também é formado em Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “E essa abertura, essa estranheza, pode ser preenchida com todos os tipos de arte e de pensamento. Ela só não pode ser preenchida com a ignorância”, conclui

  11. 44

    Importância da física quântica no mundo contemporâneo

    Dos átomos aos circuitos eletrônicos, a teoria quântica ultrapassa fronteiras e transforma nossa compreensão do universo — e do presente. Em 1925, os físicos Werner Heisenberg, Max Born e Pascual Jordan inauguraram a mecânica quântica com a formulação da mecânica matricial, revolucionando a física e abrindo caminho para uma compreensão mais profunda do universo — dos átomos às galáxias. Um século depois, a teoria quântica é essencial não apenas para a ciência, mas para a tecnologia cotidiana, viabilizando desde lasers e ressonâncias magnéticas até os chips que alimentam celulares e computadores. Em reconhecimento a esse impacto, a Unesco declarou 2025 como o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quânticas. Mais recentemente, pesquisas como as do brasileiro Amir Caldeira mostram que fenômenos como superposição e emaranhamento não se limitam ao mundo subatômico, podendo ocorrer também em sistemas maiores — o que amplia ainda mais o potencial da física quântica para gerar inovações e moldar o futuro da tecnologia. Tudo que você vê em física hoje – tem algumas exceções, claro – mas o que está envolvido com tecnologia, em geral, envolve mecânica quântica. E isso não é de hoje, isso vem de muito tempo, como o laser e o transistor. Isso está aí, permeando nossas vidas”, explica Amir Caldeira, professor do Instituto de Física da Unicamp e membro da Academia Brasileira de Ciências.

  12. 43

    Poesia, literatura e física quântica

    Como a física quântica inspira a literatura e amplia a imaginação científica Buscar relações entre física e arte pode parecer improvável, mas ambas partilham o desejo de compreender e expressar o mundo, ainda que por caminhos distintos. A física quântica, com seus paradoxos como o emaranhamento e a incerteza, há tempos inspira escritores a explorar metáforas sobre a subjetividade e a instabilidade do real, enquanto a literatura ajuda a popularizar conceitos complexos, tornando-os parte do imaginário coletivo.Para Marco Lucchesi, presidente da Biblioteca Nacional e imortal da Academia Brasileira de Letras, a separação radical entre ciência e cultura empobrece o conhecimento: “Senão, vamos departamentalizar de forma radical o conhecimento, burocratizá-lo, e nisso saímos todos perdendo. Na melhor das hipóteses, sairemos todos tristes e melancólicos, porque não teremos mais a aventura do inesperado, que é o que determina a física quântica”, afirma. Em 2025, essa conexão ganha ainda mais destaque com o Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica, proclamado pela ONU, celebrando um século da mecânica quântica e seu impacto na ciência e na cultura. 

  13. 42

    Ciência Aberta no Brasil

    Especialistas destacam a necessidade de políticas de Estado para garantir avanços consistentes na ciência abertaA ciência aberta no Brasil é tema do Ciência & Cultura Cast. As professoras Fernanda Sobral, da UnB, e Claudia Bauzer Medeiros, da Unicamp, que atuam como editoras científicas da edição da Ciência & Cultura sobre “Ciência Aberta”, debatem com Ricardo Galvão e Débora Menezes, do CNPq, e Denise Carvalho, da Capes, os desafios e oportunidades das políticas de ciência aberta no Brasil. Destaca-se a necessidade de políticas de Estado para democratizar o conhecimento, promover transparência e colaboração, enquanto se equilibram questões éticas e investimentos em infraestrutura e capacitação.

  14. 41

    Comunicação em tempos de extremismo

    Wilson Gomes, professor da UFBA, discute o papel estratégico da comunicação no combate à desinformação em episódio do Ciência & Cultura Cast  Wilson Gomes, professor da UFBA e coordenador do INCT-DD, destaca, em entrevistas conduzidas por Renato Janine Ribeiro para a revista Ciência & Cultura, a importância da comunicação de qualidade e do jornalismo ético no combate à desinformação e à defesa da democracia. Em um contexto de polarização e fake news, o psquisador defende que o jornalismo baseado em dados e na ética é essencial para preservar a confiança pública nas instituições e o bem-estar social. Ele também enfatiza a necessidade de investir em educação midiática para capacitar a população a distinguir informações confiáveis, além de destacar o papel da ciência e da arte na criação de narrativas que unam a sociedade e fortaleçam a democracia. “A democracia exige tolerância, mas, infelizmente, estamos vivendo em uma sociedade onde cada lado vê o outro como um inimigo a ser eliminado”, pontua.

  15. 40

    Defendendo a saúde e a democracia

    Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz, defende a informação para proteger o bem-estar social e a democracia em episódio do Ciência & Cultura Cast A desinformação na saúde representa uma grave ameaça ao bem-estar da população e à democracia, prejudicando campanhas de vacinação e minando a confiança nas instituições e na ciência. Na edição especial da revista Ciência & Cultura sobre “Desinformação, Democracia e Autoritarismo”, Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, destaca que a comunicação de qualidade, ética e acessível é essencial para combater fake news e proteger o bem comum. Defendendo a ciência como ferramenta de transformação social, a pesquisadora alerta que uma sociedade bem informada é menos vulnerável a retrocessos e mais capaz de garantir direitos fundamentais, como a saúde pública. “Não podemos aceitar que discursos nocivos comprometam a saúde pública e ampliem o sofrimento coletivo”, defende.

  16. 39

    Comunicação ética e o combate à desinformação

    Eugênio Bucci, professor da ECA-USP, defende o jornalismo ético e plural para proteger a democracia no episódio do Ciência & Cultura Cast A edição especial da revista Ciência & Cultura, com o tema “Desinformação, Democracia e Autoritarismo”, destaca em entrevistas conduzidas por Renato Janine Ribeiro, professor da USP e presidente da SBPC, a importância da comunicação de qualidade, ética e plural para proteger a democracia e o bem-estar social. Especialistas como Eugênio Bucci alertam que a desinformação, ao fragmentar a sociedade e minar a confiança pública, compromete não apenas o diálogo público, mas também a saúde emocional coletiva. “Essa corrosão da credibilidade afeta instituições fundamentais como a ciência, as universidades, a perícia judicial, o trabalho dos historiadores e a imprensa. Quando essa rede epistêmica implode, a verdade perde seu valor e sua autoridade natural”, afirma. Nesse cenário, o jornalismo responsável, fundamentado em evidências e comprometido com a pluralidade, é apresentado como ferramenta essencial para enfrentar manipulações, defender as instituições democráticas e promover o equilíbrio entre diferentes perspectivas.

  17. 38

    A ciência na defesa da democracia e da saúde pública

    Médica infectologista Luana Araújo alerta sobre os perigos da desinformação para a saúde pública no episódio do Ciência & Cultura Cast A edição especial da revista Ciência & Cultura destaca como a desinformação ameaça não apenas a democracia, mas também a saúde pública, com foco nos desafios enfrentados durante a pandemia de Covid-19. Em entrevista conduzida por Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC, a infectologista Luana Araújo reflete sobre o impacto devastador das narrativas falsas, que comprometeram a resposta à crise sanitária no Brasil e resultaram em mais de 720 mil mortes. Para ela, uma comunicação baseada em ciência é essencial para salvar vidas, reconstruir a confiança nas instituições e enfrentar desigualdades, reforçando o papel estratégico da informação de qualidade para o bem-estar da população. “Estamos imersos em um ambiente onde há uma produção massiva de informações de baixíssima qualidade – ou, pior, de desinformação feita dolosamente, com intenção clara”, alerta.

  18. 37

    Comunicação contra a desinformação e o autoritarismo

    Juremir Machado da Silva, escritor e professor da PUC-RS, discute o combate à desinformação em episódio do Ciência & Cultura Cast A edição especial da Ciência & Cultura, sob a liderança de Renato Janine Ribeiro, presidente da SBPC, destaca como a comunicação de qualidade é crucial para proteger a saúde pública e fortalecer a democracia frente à ameaça da desinformação. Em entrevista, Juremir Machado, professor da PUC-RS, alerta que a disseminação de fake news enfraquece a confiança nas instituições e prejudica a adoção de medidas essenciais, como a vacinação. Ele defende que uma comunicação baseada em evidências, clara e empática, é indispensável para combater manipulações que comprometem o bem-estar coletivo, reforçando a conexão entre ciência, jornalismo e o direito à informação verdadeira. “Acredito que o papel do jornalista é buscar a verdade factual, aquela que pode ser demonstrada”, defende.

  19. 36

    Arte, ciência e comunicação na luta pela democracia

    Martin Grossmann, professor da USP, defende a importância da comunicação e da arte no combate à desinformação e ao autoritarismo em episódio do Ciência & Cultura Cast Em um cenário de crescente polarização política e avanços autoritários, a comunicação de qualidade e a arte desempenham papéis essenciais na defesa da democracia e no combate à desinformação. Na edição especial da revista Ciência & Cultura, Renato Janine Ribeiro entrevista importantes pensadores como Martin Grossmann, professor do Departamento de Informação e Cultura da Escola de Comunicações e Artes da USP, que destaca como a comunicação pode ser uma ferramenta contra fake news e ameaças às liberdades civis, enquanto a arte, como forma de resistência, amplifica vozes marginalizadas e questiona estruturas opressivas. Ambos enfatizam que, em tempos de polarização, é urgente garantir um diálogo saudável, baseado em informações precisas e acessíveis, e combater os efeitos da desinformação, que enfraquecem a confiança nas instituições e prejudicam o bem-estar da população. “Esses discursos utilizam a democracia para se promover, mas, ao mesmo tempo, afetam negativamente a própria estrutura que sustenta o sistema democrático”, pontua.

  20. 35

    Impactos da pesquisa de Johanna Döbereiner

    Descobertas pioneiras da cientista na fixação biológica do nitrogênio continuam a impulsionar a agricultura brasileira e inspirar a pesquisa moderna Johanna Döbereiner revolucionou a agricultura no Brasil ao desenvolver estudos sobre a fixação biológica do nitrogênio, contribuindo para a sustentabilidade agrícola e economias anuais bilionárias ao país. Suas pesquisas impulsionaram a criação do programa de melhoramento da soja e consolidaram o Brasil como um dos maiores produtores globais, além de fortalecer a produção de etanol. “Eu posso dizer que, se não fosse trabalho dela, nós não seríamos hoje o maior produtor mundial da soja”, afirma a engenheira agrônoma Mariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa e professora do programa de pós-graduação em Biotecnologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Sua trajetória não só destacou a importância da ciência na resolução de problemas sociais e ambientais, mas também inspirou mulheres na ciência, rompendo barreiras em um campo dominado por homens e motivando mudanças em busca de maior representatividade feminina na pesquisa científica.

  21. 34

    As trilhas de Berta Ribeiro

    Etnomusicóloga usa trilha sonora para contar história da antropóloga brasileira e revela como a música pode dar novas dimensões à preservação e valorização das culturas indígenas Berta Gleizer Ribeiro, antropóloga brasileira, é uma figura central na antropologia e etnologia do Brasil. Seu trabalho pioneiro, especialmente na valorização e preservação das culturas indígenas da Amazônia, teve um impacto duradouro na ciência brasileira. No ano de seu centenário, sua trajetória é celebrada como um exemplo de dedicação à pesquisa e defesa dos direitos dos povos originários. Em homenagem a sua vida e obra, o documentário “Para Berta, com Amor” retrata sua contribuição à antropologia. A trilha sonora, composta pela musicista e etnomusicóloga Ollivia Maria Gonçalves, é um elemento fundamental que ajuda a contar a história de Berta. A combinação de imagem e som no documentário não só reforça o impacto do legado de Berta Ribeiro, como amplia sua visibilidade para novas gerações. Sua contribuição à antropologia continua a influenciar o campo, e a música agora emerge como uma ferramenta poderosa para dar ainda mais vida à sua obra.

  22. 33

    Recursos hídricos em risco

    Mudanças climáticas e eventos extremos ameaçam recursos hídricos e colocam em risco a saúde e a sobrevivência da população O Brasil, que detém a maior reserva de água doce do mundo, enfrenta desafios cada vez maiores devido às mudanças climáticas. As alterações nos padrões climáticos estão causando eventos extremos, como secas e inundações, tornando a disponibilidade de água imprevisível e agravando a escassez hídrica em várias regiões. Esses impactos têm consequências devastadoras, especialmente para as populações vulneráveis. Quando eventos extremos ocorrem, como enchentes ou secas severas, o abastecimento de água pode ser destruído ou contaminado, elevando o risco de doenças, comprometendo a segurança da água potável e agravando ainda mais o estresse hídrico. “Temos muitas doenças de veiculação hídrica. E à medida que aumenta a precipitação, você aumenta a quantidade dessas doenças, como a proliferação de larvas de mosquitos, por exemplo, que crescem em poças de água com temperatura mais elevada. Assim há um crescimento muito grande, por exemplo, da dengue, como foi constatado este ano no Brasil. Mas não só a dengue, como outras doenças causadas por bactérias e protozoários. Então há reflexos bastante sérios na saúde humana”, alerta José Galizia Tundisi, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP e presidente do Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental (IIEGA).

  23. 32

    Deslocados ambientais no Brasil

    Aquecimento global está forçando comunidades a abandonarem suas terras e exacerbando crises sociais e econômicas As mudanças climáticas no Brasil estão agravando crises sociais e econômicas, levando ao aumento de deslocamentos forçados, especialmente em regiões afetadas por secas no Norte e inundações no Sul. Esses “deslocados ambientais”, embora não reconhecidos oficialmente no direito internacional, enfrentam a perda de seus meios de subsistência e a ameaça aos seus direitos humanos. As mudanças climáticas também amplificam outras vulnerabilidades, como a pobreza e a escassez de recursos, criando um ciclo que pode gerar novos conflitos e mais deslocamentos, destacando a necessidade de políticas urgentes para proteger essas populações. “Os nossos deslocados ambientais internos são invisíveis e não recebem proteção nenhuma. Não há nem lei, nem política pública para protegê-los”, alerta Andrea Pacheco Pacífico, professora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Estadual da Paraíba e coordenadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa sobre Deslocados Ambientais (Nepda).

  24. 31

    O papel de Carolina Bori para o desenvolvimento da psicologia no Brasil

    Pesquisadora defendeu a regulamentação da psicologia e promoveu o avanço científico em tempos desafiadores. Carolina Bori foi uma pioneira na ciência e na política científica brasileira. Ela introduziu a Análise Experimental do Comportamento no Brasil em uma época em que a psicologia ainda era um campo de estudo novo e pouco explorado no país. Em 1987, Carolina Bori quebrou barreiras ao ser eleita a primeira mulher presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), superando um espaço historicamente dominado por homens. Sua coragem, determinação e habilidade diplomática a destacaram como uma das grandes cientistas do país. Bori sempre defendeu com fervor a importância da ciência se aproximar do público e do poder, e de se espalhar por todos os setores da sociedade. Ela acreditava na ampliação do conhecimento científico e em seu alcance. Participou da criação de cursos de Psicologia Experimental na USP, em Rio Claro, e nas universidades federais de São Carlos, Bahia, Pará e Rio Grande do Norte. Na Universidade de Brasília (UnB), criou o Laboratório de Psicologia Experimental e coordenou o Instituto de Psicologia entre 1963 e 1965. “Ela recebeu o registro número um de psicóloga no Brasil porque ela teve um papel muito importante nas comissões que se empenharam para criar os cursos de psicologia no país e criar a profissão de psicólogo”, conta Deyse das Graças de Souza, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. Sua atuação política foi notável, desde a defesa da regulamentação da profissão de psicólogo e o estabelecimento do primeiro currículo mínimo para a formação de psicólogos no Brasil, até a mobilização da comunidade científica para a elaboração de propostas para a nova Constituição Federal de 1988. Carolina Bori entregou pessoalmente a proposta oficial da comunidade científica à Assembleia Constituinte em abril de 1987. Ela também ocupou diretorias em diversas sociedades científicas, como a Associação Brasileira de Psicologia, a Sociedade de Psicologia de São Paulo, a Associação de Modificação de Comportamento e a Sociedade Brasileira de Psicologia, além da SBPC. “Ela tinha essa profunda convicção de que era o desenvolvimento científico, o desenvolvimento das diferentes áreas da ciência, que levaria o país adiante”, pontua Deyse de Souza, que foi orientanda de Carolina Bori. O ativismo marcou toda a trajetória de Carolina Bori. No início de sua carreira, ela lutou pela consolidação da psicologia como ciência no Brasil e, posteriormente, pelo desenvolvimento científico e tecnológico como um todo. Ela acreditava que a ciência e a educação eram os caminhos para o desenvolvimento do país. Após a regulamentação da profissão, Carolina Bori participou ativamente da elaboração do currículo mínimo para os cursos universitários de psicologia e da criação de cursos na UFSCar e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) de Rio Claro, hoje parte da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Ela investiu muito tempo para ver o desenvolvimento científico, para promover, para criar condições, para criar discussões, para criar bases e possibilidades para que as pessoas se desenvolvesse e ao se desenvolverem cientificamente, também desenvolvessem a ciência em geral no Brasil”, finaliza Deyse de Souza.

  25. 30

    Ensino de matemática, popularização da ciência e desenvolvimento nacional

    Educação matemática de qualidade é um fundamental para o desenvolvimento do país A matemática desempenha um papel crucial na sociedade moderna, sendo fundamental para o avanço científico, tecnológico e econômico. No Brasil, a superação dos estigmas associados à matemática é essencial para promover a educação de qualidade e impulsionar o desenvolvimento nacional. Muitos estudantes enfrentam dificuldades com a matemática, frequentemente percebida como uma disciplina inacessível. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), uma das razões para essa percepção é a formação precária de professores, especialmente nas séries iniciais do ensino fundamental. Este déficit na formação impacta negativamente a habilidade dos alunos em compreender conceitos matemáticos de forma significativa, muitas vezes limitando o aprendizado a memorização de regras sem entendimento profundo. Mas a SBM vem trabalhando para mudar esse cenário. “Acredito que é muito importante desmistificar isso e mostrar que a matemática pode sim ser acessível a todos e todas que queiram estudar matemática”, afirma Jaqueline Godoy Mesquita, professora do Departamento de Matemática da Universidade de Brasília (UnB) e presidente da SBM. Para ela, a popularização da ciência, incluindo a matemática, é fundamental para criar uma sociedade mais informada e curiosa. Iniciativas como museus de ciência e tecnologia desempenham um papel vital nesse processo. Especialmente porque, segundo Jaqueline Mesquita, a matemática é uma ferramenta indispensável no cotidiano. “Nós usamos a matemática para tudo, desde a senha do banco até para atravessar uma rua”. Assim, desde a gestão financeira pessoal até a tomada de decisões informadas em diversas áreas profissionais, a compreensão matemática capacita os indivíduos a resolver problemas e inovar.  A educação matemática de qualidade é um pilar para o desenvolvimento nacional. Superar os estigmas associados à matemática e promover sua popularização são passos essenciais para preparar uma geração capaz de enfrentar os desafios do futuro e contribuir para o progresso científico e social do Brasil. “Temos visto nesses últimos anos, com essas emergências climáticas e também com o período da pandemia, que estamos enfrentando vários desafios globais. E justamente quando olhamos para esses desafios globais, vemos que não tem como avançarmos sem a matemática. Porque as tomadas de decisão (desde período de quarentena, tempo entre as vacinas, ou mesmo previsão do tempo) são baseados em modelos matemáticos”, pontua Jaqueline Mesquita. “Então vemos que, de fato, é importante que a nossa população tenha esse conhecimento matemático mais aprofundado, inclusive para atuar em outras áreas do conhecimento”, conclui.

  26. 29

    Economia verde e desenvolvimento sustentável

    Transição para uma economia verde é fundamental para mitigar impacto das mudanças climáticas e garantir sustentabilidade do planeta A ideia de que podemos continuar com nossas práticas econômicas e sociais atuais é uma ilusão perigosa. Os eventos ambientais extremos – cada vez mais frequentes e intensos –comprovam isso. Para Ricardo Abramovay, continuar seguindo a lógica de explorar o meio ambiente sem pensar nas consequências acaba com qualquer chance de reverter, ou mesmo mitigar, os efeitos das mudanças climáticas. “A maneira com que usamos os serviços ecossistêmicos – como utilizamos os sistemas climáticas, a biodiversidades, a capacidade de absorver água por parte das cidades, a presença de carros nas ruas – vem em primeiro lugar do setor privado. E lógica desse setor até aqui tem sido ‘eu não tenho nada a ver com mudança climática’, ou ‘mudança climática é um assunto do governo’”, explica o professor da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto de Energia e Ambiente, ambos da USP. “Mas essa lógica acabou. A lógica não pode mais ser ‘o que eu vou ganhar com isso’. A lógica tem que ser ‘o que eu, como empresa, ofereço para a sociedade, vai contribuir para prejudicar ou para regenerar os serviços ecossistêmicos?’”, pontua.  Neste cenário, a economia verde considera a finitude dos recursos naturais, os serviços ecossistêmicos e os limites planetários estabelecidos pela ciência, oferecendo uma abordagem prática e concreta para a implementação dos princípios da sustentabilidade. Trata-se de um modelo que integra práticas de produção, distribuição e consumo dentro desses limites, promovendo a sustentabilidade e a justiça social. A transição para uma economia verde é impulsionada por mudanças regulatórias e pela evolução da consciência dos consumidores. No entanto, essa transição apresenta desafios significativos. Países desenvolvidos, com suas pegadas ecológicas maiores, precisam reduzir seu impacto ambiental, enquanto os países em desenvolvimento devem encontrar maneiras de crescer economicamente sem repetir os erros dos mais ricos. “O Brasil, com sua matriz energética de baixa intensidade de carbono, tem uma oportunidade única de liderar pelo exemplo, esverdeando ainda mais sua economia e aproveitando suas vantagens naturais”, defende Ricardo Abramovay.

  27. 28

    A influência do mundo digital sobre a divulgação científica e as manifestações culturais

    Novas formas de comunicar e interagir trazem novos desafios para comunicar a ciência e a culturaAs tecnologias da comunicação e o mundo digital têm transformado profundamente a dinâmica da vida em sociedade, impactando tanto a divulgação científica quanto as manifestações culturais. Uma das principais preocupações neste cenário é o fenômeno das fake news, que, segundo a estudiosa Lucia Santaella, pode ser considerada a praga da internet moderna.“O que acontece, do meu ponto de vista, é que vivemos uma cultura, infelizmente, extremamente dicotômica, onde as pessoas se encontram em bolhas”, explica Lúcia Santaella, coordenadora da Pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, Diretora do Centro de Investigação em Mídias na PUC-SP e presidente honorária da Federação Latino-Americana de Semiótica. Para ela, as mídias sociais acabam favorecendo essas bolhas, aproximando grupos com opiniões favoráveis e afastando aqueles com ideias contrárias – muitas vezes de forma violenta. “Isso sem que tenha a chance de examinar quais são as informações disponíveis para poder ter uma avaliação mais segura sobre onde estou, com o que eu vou concordar, e assim por diante”.Nesse ambiente, as fake news encontraram campo fértil para crescerem. No Brasil, o auge dos debates sobre fake news ocorreu durante o processo eleitoral de 2018, quando ficou evidente que essas notícias falsas proliferam principalmente nas redes sociais, controladas por algoritmos de inteligência artificial. “Se o cidadão não está bem informado, ele vai acreditar naquilo que está grudado nas suas crenças”, alerta Lucia Santaella. Para combater essa desinformação, é essencial promover a informação baseada na ciência. A ciência, diferentemente da arte e da literatura, oferece um conhecimento que penetra nos meandros mais íntimos da realidade física, química, biológica e social. É por meio de uma educação científica robusta que a sociedade pode desenvolver a capacidade de discernir entre fatos e ficções, fortalecendo a base para decisões políticas mais informadas e conscientes. “Preciso levar essa informação para a maior parte de pessoas possíveis, tentar fazer com que participem desse processo. A educação é crucial para lidar com essa nova realidade”, conclui.

  28. 27

    Aziz Ab’Sáber e o planejamento ambiental

    Geógrafo defendia que planejar era fundamental para a preservação do meio ambiente e a saúde da sociedade No cenário contemporâneo, onde as pressões sobre os recursos naturais são cada vez mais intensas, a preservação do meio ambiente é uma questão de sobrevivência, não apenas para as espécies que habitam o planeta, mas também para a própria humanidade. Aziz Ab’Sáber, renomado geógrafo brasileiro, compreendeu profundamente essa necessidade. E também afirmava que, para tanto, planejar era fundamental. Para Ab’Sáber, o planejamento ambiental não era apenas uma questão técnica, mas também ética. Ele destacava a importância de considerar as interações complexas entre os seres humanos e o ambiente que os cerca. “O planejamento tem que ser outro”, afirma Cláudio Antônio di Mauro, professor aposentado e ex-diretor do Instituto de Geografia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). “Tem que levar em conta os componentes da natureza, a quantidade de precipitação pluvial, a necessidade de estabelecer áreas que não podem ser ocupadas por construções, que precisam estar reservadas para acúmulo de água. Além disso, os rios não podem ser utilizados da maneira como são em suas margens, impermeabilizando tudo. Isso tem trazido gravíssimas consequências para os lugares onde a sociedade vive”, pontua. Aziz Ab’Sáber alertava para os efeitos devastadores da degradação ambiental nas cidades: poluição do ar, escassez de água, perda de biodiversidade, entre outros. Ele defendia que a preservação dos ecossistemas naturais não era apenas uma escolha, mas uma necessidade para garantir a qualidade de vida das pessoas nas áreas urbanas. A influência de Aziz Ab’Sáber nas políticas públicas para a preservação do meio ambiente no Brasil é inegável. Sua visão abrangente e suas pesquisas embasaram diversas iniciativas governamentais voltadas para a conservação dos recursos naturais. Ab’Sáber defendia a importância de uma gestão ambiental participativa, que envolvesse a sociedade civil, os governos e as empresas. Ele destacava a necessidade de uma abordagem integrada, que considerasse não apenas as questões ambientais, mas também as dimensões sociais e econômicas. “Ele mostrou que os componentes da natureza tinham que ser entendidos na sua integralidade”, explica Cláudio di Mauro. “Se a ciência não levar em conta o interesse daquele homem ribeirinho, que está na beira do rio, que sofre todo ano com transbordamento, e das outras comunidades que vivenciam isso, se eles não forem chamados para participar, nós corremos o risco de ter uma relação que não é saudável na construção do planejamento”, finaliza.

  29. 26

    A Física brasileira após Cesar Lattes

    Cientista contribuiu com avanços notáveis para a ciência no Brasil  César Lattes é uma figura icônica na história da física brasileira, conhecido por suas descobertas revolucionárias e contribuições inestimáveis para a ciência. Sua pesquisa pioneira sobre partículas subatômicas, culminando na identificação do méson pi, não apenas expandiu os horizontes da física nuclear, mas também colocou o Brasil no mapa da pesquisa científica global. Uma das contribuições mais marcantes de Lattes para a comunidade científica foi sua descoberta do méson pi, uma partícula fundamental para a compreensão das forças nucleares. Mesmo sem receber o Prêmio Nobel de Física, para o qual foi indicado sete vezes, Lattes continuou incansavelmente seus estudos. Em seus experimentos no Monte Chacaltaya, na Bolívia, confirmou suas teorias e identificou o méson pi, uma partícula crucial para a compreensão da física nuclear pós-guerra. Suas descobertas não apenas avançaram o conhecimento científico, mas também inspiraram uma nova geração de cientistas no Brasil. “Não é possível pensar a ciência no Brasil sem o Lattes”, afirma Antonio Augusto Videira Passos, professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Para o pesquisador, Cesar Lattes não apenas ajudou a apontar novos caminhos para a física de partículas, mas também contribuiu significativamente para ao avanço da ciência nacional. Após suas experiências no exterior, em 1949, Lattes retornou ao Brasil. Reconhecido como um dos maiores cientistas brasileiros, Lattes desempenhou um papel crucial na fundação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Sua dedicação incansável à busca do conhecimento e sua coragem em explorar novos horizontes fizeram dele um ícone da ciência brasileira e um exemplo vivo do potencial científico do país. “Fazer ciência é ter ousadia, é ter curiosidade, é gostar do caminho que se está percorrendo. A pessoa que quer se dedicar à ciência tem que ter a mente aberta e estar sempre preparada para corrigir sua rota. E o Lattes era assim”, finaliza Antonio Videira.

  30. 25

    Cesar Lattes e os institutos de ciência

    Cientista contribuiu para a fundação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico César Lattes é um os cientistas brasileiros mais renomados. Sua trajetória demonstra não apenas um comprometimento com a ciência, mas também com o desenvolvimento científico do Brasil. O físico tornou-se conhecido por descobrir a partícula subatômica méson pi (píon). Seu trabalho acabou recebendo o Prêmio Nobel de Física — mas ele ficou de fora da premiação, gerando uma controvérsia que perdura até hoje. Aliás, ele foi indicado sete vezes ao prêmio, sem nunca ser agraciado.Para além de suas descobertas científicas, Cesar Lattes foi fundamental para a consolidação da física no país e para a criação de vários institutos e centros de pesquisas. Um deles foi o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), que ajudou a fundar em 1949. A criação do CBPF não foi apenas um ato de pioneirismo científico: foi também um movimento estratégico para consolidar o desenvolvimento da ciência no Brasil. O CBPF foi, portanto, mais do que um espaço de estudo. Foi uma resposta à necessidade de investimentos fora do ambiente universitário tradicional. “O Cesar Lattes utilizou seu imenso capital científico para contribuir para a institucionalização e o avanço da ciência brasileira”, aponta Ana Maria Ribeiro de Andrade, pesquisadora titular aposentada do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST) e autora de obras como “Físicos, Mésons e Política: a dinâmica da ciência na sociedade” (Hucitec, 1999). Além do CBPF, Lattes foi um dos fundadores de instituições que moldaram a ciência brasileira, como a Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), uma entidade ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para incentivo à pesquisa no Brasil. Ainda contribuiu para a consolidação do Centro Nacional de Energia Nuclear (1968); e do Instituto de Física que recebe o nome de seu fundador, Gleb Wataglin, na Unicamp. “A importância de Lattes para a ciência no Brasil vai além do méson pi. Ele deixou um imenso legado, que persiste até hoje”, finaliza Ana Maria Ribeiro.

  31. 24

    O desastre em Mariana e a luta pela recuperação do Rio Doce - parte 3

    Série de podcast especial para a Ciência & Cultura analisa o impacto do rompimento da Barragem do Fundão e os desafios contínuos na restauração ambiental e social Em 5 de novembro de 2015, um marco trágico ecoou pelos vales de Mariana, quando a Barragem do Fundão, pertencente à Samarco Mineração S.A., sucumbiu, desencadeando um dos piores desastres ambientais da história brasileira. O acidente liberou cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, formados, principalmente, por óxido de ferro, água e lama - rejeitos que podem devastar grandes ecossistemas. A enxurrada de rejeitos alcançou o Distrito de Bento Rodrigues, a aproximadamente 5 km de distância, seguiu para o Rio Gualaxo do Norte, percorrendo 55 km até desembocar no Rio do Carmo e, posteriormente, atingir o Rio Doce. Os danos se estenderam pelo litoral do Espírito Santo, gerando impactos ambientais devastadores que persistem até os dias atuais.Em uma série de três episódios, o podcast produzido pela Univale especialmente para a Ciência & Cultura, traz três olhares diferentes – de especialistas, de ONGs e de quem vivenciou a tragédia - sobre o desastre de Mariana, suas consequências, e as estratégias necessárias para a recuperação ambiental.

  32. 23

    O desastre em Mariana e a luta pela recuperação do Rio Doce - parte 2

    Série de podcast especial para a Ciência & Cultura analisa o impacto do rompimento da Barragem do Fundão e os desafios contínuos na restauração ambiental e social Em 5 de novembro de 2015, um marco trágico ecoou pelos vales de Mariana, quando a Barragem do Fundão, pertencente à Samarco Mineração S.A., sucumbiu, desencadeando um dos piores desastres ambientais da história brasileira. O acidente liberou cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, formados, principalmente, por óxido de ferro, água e lama - rejeitos que podem devastar grandes ecossistemas. A enxurrada de rejeitos alcançou o Distrito de Bento Rodrigues, a aproximadamente 5 km de distância, seguiu para o Rio Gualaxo do Norte, percorrendo 55 km até desembocar no Rio do Carmo e, posteriormente, atingir o Rio Doce. Os danos se estenderam pelo litoral do Espírito Santo, gerando impactos ambientais devastadores que persistem até os dias atuais.Em uma série de três episódios, o podcast produzido pela Univale especialmente para a Ciência & Cultura, traz três olhares diferentes – de especialistas, de ONGs e de quem vivenciou a tragédia - sobre o desastre de Mariana, suas consequências, e as estratégias necessárias para a recuperação ambiental.

  33. 22

    O desastre em Mariana e a luta pela recuperação do Rio Doce - parte 1

    Série de podcast especial para a Ciência & Cultura analisa o impacto do rompimento da Barragem do Fundão e os desafios contínuos na restauração ambiental e social Em 5 de novembro de 2015, um marco trágico ecoou pelos vales de Mariana, quando a Barragem do Fundão, pertencente à Samarco Mineração S.A., sucumbiu, desencadeando um dos piores desastres ambientais da história brasileira. O acidente liberou cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, formados, principalmente, por óxido de ferro, água e lama - rejeitos que podem devastar grandes ecossistemas. A enxurrada de rejeitos alcançou o Distrito de Bento Rodrigues, a aproximadamente 5 km de distância, seguiu para o Rio Gualaxo do Norte, percorrendo 55 km até desembocar no Rio do Carmo e, posteriormente, atingir o Rio Doce. Os danos se estenderam pelo litoral do Espírito Santo, gerando impactos ambientais devastadores que persistem até os dias atuais. Em uma série de três episódios, o podcast produzido pela Univale especialmente para a Ciência & Cultura, traz três olhares diferentes – de especialistas, de ONGs e de quem vivenciou a tragédia - sobre o desastre de Mariana, suas consequências, e as estratégias necessárias para a recuperação ambiental.

  34. 21

    Cooperação científica na América Latina

    União entre países latinos pode fortalecer a ciência global Na América Latina, a cooperação científica e tecnológica entre países da região desempenha um papel crucial no desenvolvimento e progresso científico. No entanto, essa colaboração enfrenta desafios significativos, especialmente quando comparada com os países do Norte Global, que muitas vezes têm vantagens estruturais e de tradição. Um dos principais desafios é o desequilíbrio de recursos e capacidades. Países do Norte Global muitas vezes possuem investimentos substanciais em pesquisa e desenvolvimento, infraestrutura de ponta e recursos humanos altamente qualificados. Isso cria uma disparidade significativa em relação aos países da América Latina, que podem enfrentar limitações orçamentárias e falta de infraestrutura moderna. Para Tiago Braga, diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, onde atua também como líder do Laboratório de Informação e Sociedade, é preciso repensar a avaliação da ciência em nível mundial. “Precisamos pensar como essa ciência feita no Sul Global pode ser valorizada e pode ser considerada relevante a partir de outros mecanismos que não os tradicionais, porque se continuarmos nos mecanismos tradicionais, quem já está na frente, que tem uma estrutura pronta, sempre vai ter uma vantagem”. Outro desafio é a falta de coordenação e estratégia regional. A colaboração científica e tecnológica pode ser mais eficaz quando há uma abordagem regional unificada. No entanto, a América Latina muitas vezes carece de mecanismos eficazes de coordenação e estratégia, o que pode dificultar a maximização dos benefícios da cooperação. “Um dos principais desafios que temos que enfrentar é a construção de redes – e o Brasil tem um papel muito importante nisso, porque ele é um grande país produtor de ciência no Sul Global”, afirma Tiago Braga. “Esses conhecimentos devem ser disponibilizados numa rede que tenha visibilidade internacional capaz de permitir que as pesquisas e os conteúdos criados a partir dos investimentos nacionais possam ser disponibilizados e acessados em outras estruturas internacionais”. Apesar desses desafios, a cooperação científica e tecnológica entre países da América Latina continua sendo essencial para enfrentar os desafios globais, impulsionar o desenvolvimento econômico e melhorar a qualidade de vida das populações da região. Superar esses obstáculos exigirá um compromisso contínuo com a colaboração regional, investimentos em infraestrutura e recursos humanos, além de estratégias de financiamento inovadoras para impulsionar a pesquisa e a inovação na América Latina. “Precisamos fazer um movimento de abertura da pesquisa de abertura dos processos científicos que são só nossos. “Para a gente fazer esse movimento de abertura, também precisamos fazer esse movimento paralelo que é de fortalecimento das estruturas informacionais nacionais. A ciência aberta tem que vir necessariamente atrelada a um investido em infraestrutura para pesquisa”, defende Tiago Braga.

  35. 20

    Papel global da América Latina

    Região tem papel fundamental em questões urgentes no cenário mundialO cenário atual é crítico, com desafios globais interconectados, incluindo crises econômicas, energéticas e migratórias. Tais desafios demandam abordagens complexas e multilaterais. A América Latina enfrenta desafios e oportunidades únicas em um mundo em constante transformação.Neste contexto, é crucial que os governos da região desenvolvam uma agenda conjunta que vá além da lógica bipolar e promova o multilateralismo. O diálogo intra-regional deve ser fortalecido, e cúpulas de presidentes, após um hiato de sete anos, precisam ser retomadas. Além disso, é necessário repensar os acordos de integração, transformando-os em instrumentos de interdependência econômica e geopolítica, em vez de meros acordos comerciais. “A integração mostra um novo tipo de potência desses países, a capacidade de negociar conjuntamente sobre uma série de aspectos – desde a democracia na construção de políticas que sejam mais inclusivas até as decisões econômicas”, pontua Edna Castro, professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFP) e recentemente eleita presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS).A América Latina possui um potencial significativo na agenda climática e energética, tornando-se um aliado-chave para a União Europeia e outros parceiros globais. Com metade da biodiversidade mundial, 33% da energia proveniente de fontes renováveis e vastas reservas de minerais essenciais para a transição ecológica, a região pode desempenhar um papel crucial na transição global para uma economia mais sustentável. “Nós não podemos nos furtar de debater as emergências climáticas que estão ocorrendo no mundo inteiro. Nós estamos convivendo com esses desastres, que serão cada vez mais intensos e mais próximos. E a integração latino-americana passa necessariamente em como integrar sem destruir”, enfatiza a pesquisadora.A recente cúpula entre a Celac e a União Europeia expôs o papel da América Latina no cenário político global. Para Edna Castro, em meio a desafios globais complexos, a América Latina tem a chance de se posicionar como um ator-chave na arena internacional, promovendo a cooperação e ajudando a moldar um mundo mais sustentável e equitativo. É crucial que a região aproveite essas oportunidades e construa alianças estratégicas para enfrentar os desafios do século XXI. “Se vamos falar de integração, temos que pensar na integração de países que são cidadãos, que lidam com a diversidade e com os dilemas – e o dilema é a população dessa região não poder viver a plenitude de suas vidas”, finaliza.

  36. 19

    Consolidação democrática na América Latina

    Episódios recentes demonstram a fragilidades dos regimes democráticos na região Avanço da extrema-direita, aumento de regimes autoritários, enfraquecimento dos regimes democráticos. A democracia na América Latina está sob forte risco. O tema é discutido no último episódio do Ciência & Cultura Cast, o podcast da revista Ciência & Cultura, que nesta edição trata do tema “América Latina: Integração e Democracia”. Nos últimos anos, a América Latina testemunhou avanços promissores e preocupações crescentes no seu cenário democrático. Embora a região tenha uma rica história de luta pela governação democrática, hoje enfrenta vários desafios. Um dos principais riscos para a democracia na América Latina reside na fragilidade das instituições. Muitos países da região enfrentam problemas de corrupção, falta de transparência e um Estado de direito fraco, que minam a confiança do público no processo democrático. Essas questões são frequentemente agravadas por disparidades econômicas, agitação social e prevalência do crime organizado, criando um ambiente volátil que testa a resistência dos sistemas democráticos. “Isso deixa claro as fragilidades que nossas democracias, inclusive a brasileira, demonstraram ao longo dessas duas, três décadas de vigência entre o fim dos regimes militares e esse período mais recentemente”, pontua Clayton Mendonça Cunha Filho, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador-associado do Observatório Político Sul-Americano (IESP-UERJ). Para o pesquisador, esse cenário contribuiu para a ascensão de líderes alinhados à extrema-direita em toda a América Latina, levantou questões sobre a resiliência das normas democráticas. Alguns líderes foram acusados de minar as instituições democráticas e de concentrar o poder no poder executivo, o que pode levar à erosão dos pesos e contrapesos. Além disso, o clima político polarizado em muitos países tem dificultado o diálogo construtivo e a cooperação entre as diferentes facções, desafiando ainda mais a estabilidade da governação democrática. “A incapacidade desses regimes darem uma reposta eficiente aos problemas gerais da população – geração de emprego, crescimento econômico, educação de qualidade, distribuição de renda - contribuiu para o atual fortalecimento da extrema-direita. Ao não conseguir responder aos grandes problemas da população, dão a esse tipo de ator e deixam as democracias frágeis”, explica Clayton Mendonça. À medida que a América Latina enfrenta esses riscos multifacetados, o futuro da democracia na região depende do fortalecimento das instituições, da promoção da participação política inclusiva e da abordagem das disparidades socioeconômicas que continuam a alimentar o descontentamento entre as suas diversas populações. “É preciso também ter maior cuidado com a memória, com a educação cívica para as pessoas saberem se verdade o que foram essas ditaduras. Em Santiago, no Chile, por exemplo, você tem o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, que é um grande memorial do que foi a ditadura. Assim, é possível conhecer o que foram aqueles abusos aos direitos humanos na prática”.

  37. 18

    Contribuições da ciência básica para a saúde

    Ciência e tecnologia são fundamentais para a saúde e o bem-estar da população Inovações em tratamentos para prevenção e cura de doenças, redução da mortalidade, aumento do bem-estar e da longevidade. Esses são apenas alguns exemplos de como as ciências podem contribuir para a saúde. O tema é discutido no último episódio do Ciência & Cultura Cast, o podcast da revista Ciência & Cultura, que nesta edição trata do tema “Ciência básica para o desenvolvimento sustentável”. A pandemia da covid-19 trouxe de volta a discussão sobre a importância da ciência e seus benefícios para a população e a sociedade. Foi graças à pesquisa científica que foi possível sequenciar o coronavírus, compreender os sintomas e sequelas da doença, e avançar nas tecnologias para a produção de vacinas. “Na verdade, a ciência foi nossa trincheira. E não foram só as ciências básicas da saúde que se uniram e tentaram ter iniciativas contrárias ao desastre que foi a resposta brasileira à pandemia, mas também pessoas de outras áreas que apoiaram muito esse processo de enorme resistência”, aponta a médica Lígia Bahia, professora do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por outro lado, a veiculação e compartilhamento de informações falsas por meio de redes sociais, blogs, sites ou aplicativos de mensagens, trouxeram consequências sérias à saúde individual e coletiva. Durante a pandemia, foram várias as fake news que apoiavam tratamentos ineficazes, ao mesmo tempo em que atacavam o isolamento e as vacinas. Até hoje algumas dessas informações falsas persistem, e são um dos fatores que contribuíram para a queda na taxa vacinal contra várias doenças em todo o país. Além disso, a desigualdade é um fator complicador no acesso à saúde e no cuidado da população. Sete em cada dez brasileiros usam o Sistema Único de Saúde (SUS), e o país ainda acumula uma carência com cerca de 30 milhões de pessoas sem acesso à saúde, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE). “O que mata é a desigualdade. É fundamental que todo mundo que milita na área da saúde tenha essa compreensão: precisamos reduzir as desigualdades no Brasil”. O investimento em educação e ciência é fundamental para combater a desinformação e avançar em estudos que contribuam para a saúde e o bem-estar da população. Para Lígia Bahia, a ciência precisa ser transversal nas políticas do País. “A gente espera ter políticas de estado e não politica de governo. Assim a gente fica a mercê de um sistema de saúde muito cruel, onde quem tem mais continua recebendo mais. A gente precisa ir mudando isso”, finaliza.

  38. 17

    Cidades sustentáveis

    Cidades sustentáveis Mudar o modelo atual de urbanização é fundamental para evitar o esgotamento dos recursos naturais e conter a crise climática Atualmente, 55% da população mundial vive em áreas urbanas e esse número deve crescer para 68% até 2050. Os dados são do “Relatório Mundial das Cidades 2022”, publicado pela ONU-Habitat. Por isso, se torna cada vez mais necessário pensar em modelos sustentáveis para as cidades. Esse é o tema discutido no último episódio do Ciência & Cultura Cast, o podcast da revista Ciência & Cultura, que nesta edição trata do tema “Ciência básica para o desenvolvimento sustentável”. A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, aponta que as cidades sustentáveis são fundamentais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O foco principal é reordenar o funcionamento dos centros urbanos para evitar o esgotamento dos recursos naturais e conter a crise climática. Para isso, as políticas públicas devem contemplar as áreas da educação, trabalho, saúde, lazer, assistência social, meio ambiente, cultura, moradia e transporte. Para Raiza Gomes Fraga, assessora técnica no Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), falar de meio ambiente e biodiversidade não pode excluir outros grandes desafios brasileiros. “A redução da pobreza e das desigualdades, a garantia da segurança alimentar e o acesso à educação e saúde são alguns dos temas prioritários do nosso país”, afirma a pesquisadora. Uma cidade sustentável deve conciliar todas essas questões. Os dados da ONU apontam que o modelo atual não irá suportar o adensamento populacional previsto para as próximas décadas se não houver uma mudança significativa no funcionamento das cidades. Por outro lado, também indica que as cidades podem ser lugares mais equitativos, ecológicos e baseados no conhecimento. E para isso a ciência é imprescindível. “Nós temos instrumentos de planejamento urbano que permitem que as cidades se alinhem com os objetivos de desenvolvimento sustentável”, aponta Fraga, que também atua no Observatório de Inovação para Cidades Sustentáveis (OICS). Ela cita os planos de mobilidade e de saneamento, que são grandes planos para direcionar as cidades a pensar melhores formas de conviver com seu espaço e com as pessoas. “O único caminho que temos é o caminho da sustentabilidade”, enfatiza.

  39. 16

    Ciência e segurança alimentar

    Ciência e segurança alimentarBrasil sabe como debelar a fome – e ciência é fundamental para alcançar essa meta Hoje, mais de 33 milhões de pessoas não têm o que comer diariamente no Brasil, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (REDE PENSSAN). O número é quase o dobro do estimado em 2020 e representa 14 milhões de pessoas a mais passando fome no país. Nesse cenário, a ciência é fundamental para oferecer soluções – tanto sociais, como econômicas e até mesmo de produção. Esse é o tema discutido no último episódio do Ciência & Cultura Cast, o podcast da revista Ciência & Cultura, que nesta edição trata do tema “Ciência básica para o desenvolvimento sustentável”.Apesar da pandemia ter contribuído significativamente para essa elevada alta que colocou o Brasil de volta ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU) – de onde havia saído em 2014 – a fome não é consequência da covid-19. Segundo a economista Nathalie Beghin, integrante do colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a pandemia de covid-19 impactou e acirrou a situação de pobreza e fome, mas crise que vivemos é anterior a ela. Para a pesquisadora, os impactos do desmonte das políticas de segurança alimentar e nutricional são agravados pelos efeitos da forma de produzir e consumir alimentos no Brasil que apresentam graves consequências na saúde das pessoas, no meio ambiente e nas mudanças climáticas. “Precisamos mudar muito a forma como produzimos e consumimos alimento, porque o modelo atual – que é um modelo baseado na exportação de commodities – é um modelo que adoece a população. Ele contribui para aumentar o desmatamento, para expulsar do campo o agricultor familiar, que é quem produz o alimento básico, para desvirtuar hábitos alimentares culturalmente enraizados”, afirma.Por outro lado, a boa notícia é que sabemos como fazer para enfrentar esta questão. “Conseguiremos sair com uma certa velocidade dessa situação porque a gente já sabe como fazer”, aponta Beghin. Segundo a pesquisadora, a fome é um problema multicausal decorrente da insuficiência de renda, da dificuldade de acessar alimentos de qualidade e em quantidades suficientes, e, de processos discriminatórios, como o racismo e o patriarcado, que penalizam mulheres, pessoas negras, povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas, entre outras causas. Assim, o enfrentamento da insegurança alimentar e nutricional requer uma abordagem sistêmica e multissetorial. “As instituições estão sendo reorganizadas e reestruturadas a partir de uma experiência que a gente já teve. Agora precisamos aperfeiçoar”, finaliza.

  40. 15

    Saúde mental na era digital

    Excesso de informação e consumo ilimitado de mídias sociais pode afetar a saúde mental de crianças e adultos A maior parte do mundo está conectada à Internet – todos os dias, o dia todo. Não é mais possível imaginar nossa vida desconectada ou desprovida de smartphones, tablets, computadores, mídias sociais, apps... Mas com um amplo acesso também vem uma ampla quantidade de informações – algumas boas, outras nem tanto. E esse excesso de informação – a chamada “infodemia” – combinado à falta de mecanismos efetivos de controle de qualidade e acesso colocam em risco a saúde mental dos usuários.Nos últimos anos, o uso excessivo de tecnologias e redes sociais tem sido diretamente associado a um aumento no caso de doenças mentais como depressão, ansiedade e estresse. Um dos efeitos mais óbvios da era digital na saúde mental é a ascensão das mídias sociais. Essas plataformas permitem a conexão com pessoas de todo o mundo, mas também podem levar a sentimentos de solidão e isolamento. “Essa interação excessiva com o universo online vem trazendo algumas mudanças na nossa forma de relacionar com outras pessoas e com o desenvolvimento da própria pessoa”, explica Nara Helena Lopes Pereira da Silva, professora de psicologia online no programa de pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP. Para a pesquisadora, essas mudanças têm agravado ou provocado vários quadros de problemas mentais – e afetam inclusive a socialização, impactando aspectos como empatia, tolerância e aceitação.Mas há também o outro lado, em que essas tecnologias podem ser aliadas da saúde mental. Isso porque podem ser utilizadas para conscientizar sobre problemas como ansiedade e depressão, criar grupos de discussão e de apoio, ou através da telemedicina. Silva explica que a tecnologia pode ser benéfica, se usada com moderação e cautela. Mas, para tanto, é preciso haver um “letramento digital”, em que as pessoas aprendam a utilizar essas tecnologias da melhor maneira. “É preciso fazer um tratamento preventivo através dessa educação, preparando melhor as pessoas a lidar com essa realidade e essa tecnologias”.

  41. 14

    História das universidades brasileiras na pandemia e na resistência

    Universidades tiveram papel central no enfrentamento da pandemia da covid-19 e na defesa da ciência e da democracia As universidades ficaram na linha de frente no combate da pandemia da covid-19. Em um contexto de desorganização sistêmica por parte do governo, elas cumpriram sua missão de gerar conhecimento e servir à sociedade, fornecendo atendimento na área de saúde, aconselhamento jurídico, soluções tecnológicas, sessões de terapia, informações necessárias e outros serviços para a população. “A universidade gera recursos humanos para você produzir soluções para o país. A universidade viu que tem que agir não só pelo índice H de produtividade, mas com interesse público e voltada para a solução de problemas”, afirma Paulo Saldiva, médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da USP. Hoje, em um período em que as medidas preventivas da pandemia começam a relaxar e o clima é de “o pior já passou”, fica claro o papel estratégico das universidades e seus profissionais e estudantes nessa jornada. Porém, o cenário de ataques sistemáticos à ciência, à pesquisa e à própria democracia ainda se mantém como um grande obstáculo a ser enfrentado – e a universidade permanece como um importante espaço de resistência. “Foi a tempestade perfeita. Mas a importância do diálogo com a comunidade, as soluções que apareceram na ausência total de políticas, e a vontade de fazer o certo deu forças para que a universidade sobrevivesse e resistisse”, aponta Saldiva.

  42. 13

    Fuga de cérebros: como o Brasil pode reter seus talentos?

    Evasão de cientistas brasileiros se agravou nos últimos anos. Como reverter esse quadro? Falta de oportunidades, desvalorização profissional, cortes orçamentários... São vários os desafios enfrentados pelos cientistas brasileiros. Com um cenário agravado pela pandemia de covid-19 e um crescente negacionismo científico, cada vez mais pesquisadores acabaram deixando o país em busca de melhores oportunidades no exterior. O fenômeno, conhecido como fuga de cérebros, não é recente, mas tem se agravado nos últimos anos. A perda desses talentos traz consequência para todo o Brasil. Afinal, trata-se de profissionais altamente qualificados que poderiam contribuir para o desenvolvimento social, econômico e científico do país. Mas o que fazer para reter esses talentos? É possível trazer esses profissionais de volta? O que o Brasil precisa fazer agora para evitar que o problema da evasão de cérebros se agrave nos próximos anos? Para discutir essas e outras questões, convidamos os professores Débora Foguel, do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora de Educação da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE); Elizabeth Balbachevsky, do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e vice-coordenadora do Núcleo de Pesquisa sobre Políticas Públicas (NUPPs/USP); e Olival Freire Júnior, do Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e novo diretor Científico do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

  43. 12

    Mobilidade urbana: o que mudar?

    As tecnologias favorecem a mobilidade urbana, porém ainda há muito o que melhorar As novas tecnologias e as mudanças que a ciência nos proporciona na sociedade moderna também transformam a mobilidade urbana. Os aplicativos de localização são exemplos dessa realidade. Afinal, o que já mudou e o que pode mudar na mobilidade urbana, mais precisamente no transporte de mercadorias, na poluição das cidades, nos veículos, no transporte coletivo, na acessibilidade e na vida do cidadão que vive nos grandes centros urbanos? Há conciliação possível entre a praticidade da vida e a sustentabilidade? O que há de novo neste setor e quais as perspectivas para a mobilidade nestas áreas de adensamentos populacionais?Para falar conosco sobre estas questões que fazem parte de nosso cotidiano, convidamos os professores Renata Cavion, do Departamento de Engenharias de Mobilidade da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Cândida Maria Costa Baptista, da Engenharia Civil da Universidade São Francisco (USF); e Claudio Barbieri de Cunha, da Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).Ouça aqui este descontraído debate.

  44. 11

    O jovem cientista brasileiro

    A vida do jovem cientista no Brasil é atraente?Corte de bolsas, poucas oportunidades, muito trabalho. Afinal, a vida do jovem cientista no Brasil vale a pena? Para falar dos desafios da carreira científica, em suas diversas áreas, o Ciência & Cultura Cast conversou com três pesquisadores engajados no tema: Sofia Daher, assessora técnica e analista de Ciência e Tecnologia, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE); Jaqueline Mesquita, professora do Departamento de Matemática da Universidade de Brasília (UnB); e Vinícius Soares, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), gestão 2022-2024.Desde 1996, o CGEE estuda a formação de mestres e doutores e sua empregabilidade. Segundo Daher, com a crise que se aprofundou desde 2014 no Brasil, o número de pós-graduados sofreu uma redução, segundo dados de 2009 a 2017. Porém, ao mesmo tempo, houve um aumento na absorção pelo mercado de trabalho, ou seja, o número de pessoas empregadas cresceu e a taxa foi maior que entre pessoas sem qualificação. “Para termos dados mais claros sobre o impacto da pandemia, precisamos do levantamento de 2018 a 2022”, diz. Em sua visão, o Brasil tem hoje uma formação persistente de mestres e doutores, o que contribuiu para fortalecer o sistema que passou por vários governos. Sistema este que precisa ser revisitado e reavaliado com frequência, face à importância dos jovens cientistas para o desenvolvimento do país, conclui a pesquisadora.Para Mesquita, os desafios da carreira científica passam por ingresso, permanência, conclusão e empregabilidade. Ela lembra que há muito tempo não há reajuste nas bolsas de estudos e os concursos para carreiras acadêmico-científicas também têm atraído cada vez menos candidatos. A pesquisadora participa do estudo do Perfil dos Pesquisadores Brasileiros em Início e Meio de Carreira,  realizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e com o projeto Parent in Science. O objetivo deste mapeamento com mais de quatro mil entrevistados é revelar quais os desafios que o jovem cientista enfrenta, considerando as diferenças regionais, raciais e econômicas do País. O survey deve gerar subsídios para a criação de políticas públicas.Já Soares destaca uma das questões que considera mais importante neste contexto: Como atrair novos talentos, visto que a juventude não tem visto boas perspectivas na pós-graduação diante dos baixos valores das bolsas de pesquisa? “Muitas vezes a gente vai fazer a escolha de como colocar o pão na mesa”. Além dos baixos valores das bolsas, Vinícius também fala da falta de direitos trabalhistas, “apesar de já sermos profissionais”. Soma-se a isso as questões da permanência e da saúde mental. “No mundo inteiro, os pós-graduandos têm 60% mais chances de ter problemas psicológicos.” Em uma frase que já virou piada, o presidente da ANPG resume o cenário dos últimos anos para os pós-graduandos: “Tudo mudou no mundo desde 2013, até o Papa – menos as bolsas.”

  45. 10

    Tecnologias e trabalho: Um cenário em transformação

    O que há de novo nas mudanças que estão acontecendo nas relações de trabalho afetadas pelas novas tecnologias?“Existe um mito de que a tecnologia é neutra. Mas ela não é”. Com esta afirmativa, o sociólogo Ricardo Antunes, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dá início ao Ciência & Cultura Cast sobre a relação das tecnologias com o trabalho. Antunes é referência no campo da sociologia do Trabalho no Brasil e no exterior, tema sobre o qual já publicou diversos livros, entre eles “Uberização, trabalho digital e indústria 4.0” (2020, Editora Boitempo) e o mais recente “Capitalismo pandêmico” (2022, Boitempo).Também no debate, a psicóloga Marilene Zazula Beatriz, professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), falou sobre sua área de interesse, que é o trabalho em organizações sob os princípios da Economia Solidária, além da tecnologia social e a psicologia social do trabalho. A professora trabalha com uma incubadora de economia solidária na universidade. “O empreendimento autogestionário é um exemplo maravilhoso de processo tecnológico. Mas não falo de alta complexidade de tecnologia.”O cientista social Ricardo Colturato Festi, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), participou do bate-papo trazendo os dilemas da modernização no mundo do trabalho, tema de sua tese de doutorado. Ele é autor do livro “A fábrica sem patrão” (2021, Editora Lutas Anticapital) e membro do grupo de trabalho “Mundo do trabalho e suas metamorfoses”, da Unicamp, coordenado por Ricardo Antunes. O que virá?Antunes lembra que o trabalho humano sempre dependeu da tecnologia, desde a gênese humana. “A partir do século 18 há uma mudança no modo de vida de muita profundidade, e a tecnologia se torna um instrumento vigoroso para instauração e expansão do modo de produção nascente que era o modo de produção capitalista”. Segundo o pesquisador, no período “pré-moderno”, a tecnologia passa a ter um objetivo vital inquestionável: gerar mais riqueza. “Não estamos mais na era da hegemonia do capital industrial. Hoje é o capital financeiro, e ele é destrutivo. Ele trata o trabalho como um custo. O capitalismo do nosso tempo não consegue se reproduzir sem destruir.” Para Antunes, é inaceitável dizer que um trabalhador desempregado na informalidade virou empreendedor. “Agora estamos vivendo o capitalismo pandêmico.” O pesquisador faz a provocação: “A humanidade vai ter que decidir se quer sobreviver.”

  46. 9

    A cartografia social como passaporte de cidadania e nova forma de produção de conhecimento

    Antropólogo social Alfredo Wagner Berno de Almeida discute como a ideia da nova cartografia nasce contra o monopólio dos poderes “O que é relevante de ser mapeado? Aquilo que o Estado acha que é relevante? Aquilo que o conhecimento científico refinado e erudito acha que é relevante? Ou aquilo que os próprios atingidos dizem que é relevante?”, dispara o professor e pesquisador Alfredo Wagner Berno de Almeida, coordenador do projeto Nova Cartografia Social da Amazônia. “Nós vivemos transitando nestas fronteiras do conhecimento, daí que a nova cartografia foi se erigindo enquanto uma forma de produzir conhecimento.”Antropólogo social, Almeida é professor da Universidade Federal do Maranhão (UFAM) e das universidades federal e do estado do Amazonas, além de conselheiro regional do Grupo de Trabalho dos Direitos Humanos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em nossa conversa do Ciência & Cultura Cast, ele fala como essa ideia da nova cartografia nasce contra o monopólio dos poderes. Antes a cartografia e a ideia de produzir mapas estava muito ligada às ciências militares, ao poder, à ação colonial e aos impérios, explica o professor. “Hoje nós estamos assistindo ao fim do monopólio destes poderes que ditavam o que os mapas deveriam ter desde o século XVI.”A cartografia social nasce no contexto de popularização dessa nova forma de produzir conhecimento. Para Almeida, é preciso nos atentarmos para novos significados e conceitos. “No caso da nova cartografia social, ela não tem muito a ver com a geografia, tão pouco com a geologia. Ela significa, nesse novo léxico, uma tentativa de produção científica, de descrição, levando em consideração novas possibilidades de entendimento de realidades localizadas e de processos reais, enfatizando a situacionalidade da produção de mapas.”O pesquisador afirma: “Quando povos originários e comunidades tradicionais produzem as suas próprias representações cartográficas, eles reafirmam suas territorialidades. Esse tipo de produção cartográfica é um passaporte para ser cidadão, porque o território acompanha a sua identidade coletiva.” O professor lembra, no entanto, que ao mesmo tempo que houve um avanço da nova cartografia, há ainda muitas terras indígenas sem mapeamento preciso, assim como terras que são objeto de reforma agrária e assentamento.  Ouça aqui na íntegra o conteúdo desta conversa.

  47. 8

    Independência, democracia e o futuro que queremos para o país

    José Murilo de Carvalho fala do enigma brasileiro em seus 200 anos de independência “Vamos para onde? Foi isso que conseguimos em 200 anos?”, indaga o professor José Murilo de Carvalho, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e único historiador brasileiro membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele é autor de livros como “Os Bestializados” e “A Formação das Almas – O imaginário da República no Brasil”, e também vencedor do prêmio Jabuti de 1991.Nesta edição do Ciência & Cultura Cast, José Murilo de Carvalho compartilha conosco a sua constante indagação sobre a democracia brasileira, que ele considera um enigma. “É um país democrático? Pela parte formal, sim. Mas como um país democrático tem 60 milhões de pobres? O mecanismo formal democrático, que é a participação, não se reproduz nas políticas públicas em relação a este povo que está votando. É um enigma brasileiro.”Referência no estudo da História do Brasil, o historiador fala também sobre a ciência desde 1822, sobre o imperador Dom Pedro II, e ainda traça um paralelo entre a Revolta da Vacina, de 1904, e a vacinação, a partir de 2021, no Brasil contra covid-19.“Na Revolta da Vacina quem insistiu em vacinar foi o governo, foi Oswaldo Cruz, um cientista”, lembra o professor. Mas havia também desinformação, boatos e uma interferência militar.  “Os ingredientes quase todos de hoje estavam presentes na época, só que embrulhados de uma maneira diferente. (...) Hoje quem está errado é o governo.” Ele acredita que o que fez a diferença hoje foi a divulgação.Ouça aqui o episódio completo.

  48. 7

    A formação da comunidade científica brasileira

    O cientista social Simon Schwartzman, referência em História da Ciência no Brasil, conversou com o C&C Cast sobre a formação da comunidade científica em nosso País, tema de um dos seus livros, cuja primeira edição foi lançada em 1979 e desde então teve novas edições revistas e traduzidas para outras línguas. Também especialista em educação, Schwartzman é autor de títulos como “Pobreza, exclusão social e modernidade” e “A redescoberta da cultura”, entre outros.Além de membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Schwartzman se dedica hoje a um grande projeto conjunto da Fapesp e da Unicamp, “A ciência das ciências”. Ouça aqui (ou confira nas plataformas de podcast de sua preferência) este nosso bate-papo.

  49. 6

    Confira depoimento de Marília de Andrade sobre Oswald de Andrade

    Coreógrafa e dançarina revela histórias do pai escritor, um dos idealizadores da Semana de Arte ModernaA relação intensa entre pai e filha deixou marcas definitivas na vida de Marília de Andrade, que tinha nove anos quando seu pai, Oswald de Andrade, morreu em 1954. Em uma longa conversa, a professora aposentado da Unicamp, que criou o curso de graduação em Dança da Universidade, traz um emocionado depoimento sobre os últimos anos da vida de Oswald, também revelados no livro “Diário confessional”, recém-publicado pela Companhia das Letras com material inédito, trazido a público mais de 70 anos após a morte do modernista. As anotações de Oswald em seu diário começaram em 1948, quando Marília tinha apenas três anos de idade. Somente agora ela leu os relatos e nos conta que precisou criar coragem para isso.Feminista da linha de frente na década de 1970, período em que ela já trazia para o debate questões de identidade de gênero, Marília desenvolveu uma sólida carreira acadêmica e artística ao longo de sua vida. Primeiro como psicóloga social, área em que se tornou pesquisadora e fez PhD pela Columbia University; depois como coreógrafa e dançarina, profissão que lhe permitiu apresentar-se em palcos do mundo inteiro, a começar por “Kuarup”, com o Ballet Stagium. Especializou-se em Isadora Duncan, bailarina que também cruzou a vida do seu pai. Marília conta que se iniciou no ballet, aos 3 anos, com uma outra bailarina que marcou a vida de Oswald, como ele revela em seu diário.Marília de Andrade é a única filha mulher e também a única viva de um total de quatro filhos. Ela é curadora da obra de Oswald, que continua sendo traduzida em todo o mundo. Estas e outras lembranças, como a que ela dançou na sala de sua casa para Villa-Lobos a pedido do seu pai, Marília compartilha conosco nesta edição do Ciência & Cultura Cast.

  50. 5

    Memórias afetivas de Tarsilinha do Amaral e João Cândido Portinari

    Em um bate-papo impulsionado pelas lembranças, Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta de Tarsila do Amaral, e João Cândido Portinari, filho único de Cândido Portinari, falam sobre suas memórias afetivas e contam um pouco da intimidade dos dois modernistas.Nenhum dos dois artistas participaram da programação da Semana de Arte Moderna de 22, mas suas obras estão inscritas no movimento modernista, a exemplo do painel “Guerra e Paz”, produzido por Cândido Portinari para a ONU, e do quadro “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, que inspirou o Manifesto Antropofágico do escritor Oswald de Andrade, com quem Tarsila foi casada.Tarsilinha fala de sua teoria de que o “Abaporu” é um autorretrato de Tarsila, que desejava presentear seu marido Oswald. A sobrinha-neta é curadora de toda a obra de Tarsila do Amaral. João Cândido conta detalhes da exposição Portinari Para Todos, até o dia 10 de julho de 2022 em São Paulo, no MIS Experience (Rua Cenno Sbrighi, 250, no bairro Água Branca). Segundo ele, esta é a maior exposição já realizada sobre Portinari. O filho do artista está à frente, há 40 anos, do Projeto Portinari, que já reuniu mais de 30 mil documentos, entre eles seis mil cartas de Portinari trocadas com amigos como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira e Villa-Lobos, que frequentavam a casa da família e conviviam com o menino João.Além das artes plásticas, Tarsila do Amaral e Cândido Portinari tinham em comum uma grande preocupação social e uma inegável sensibilidade. Estas marcas ficaram evidentes em suas obras e em suas vidas pessoais, como nos contam Tarsilinha e João Cândido em nossa conversa do Ciência & Cultura Cast.

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Podcast da revista Ciência & Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Entrevistas e bate-papos com especialistas em temas de ciência, cultura e suas inúmeras conexões com nossas vidas. Números mensais em publicações temáticas trimestrais. Cada episódio, muitas descobertas.

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