PODCAST · arts
Linhas tortas
by Felipe Simão
Um livro de poesias sobre a decisão de um jovem, de mudar cidade, em busca de se tornar um artista.
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42 - 16 de fevereiro
Essa foi a minha primeira noite sem pesadelos, em dois meses; a vida urbana por si só já é um risco de morte, a vida familiar é um emaranhado de intrigas sem solução dia após dia perigas na beira do abismo e nessa desventura, matura a ideia de que os idealismos são sem razão Hoje é 16 de fevereiro, sexta feira, 2024, e a única coisa que desejo, no fundo do meu peito, é paz
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41 - Vereda
Para dizer a verdade, percebo que esse caminho de linhas tortas não me levou a lugar nenhum, longe ou perto dos meus sonhos, continuo distante da realização, o caminho em si não me ensinou nenhuma lição, sou eu que devo tirar as lições das estradas que escolhi
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40 - Vislumbre
Faz um ano que cheguei; a mulher por quem me apaixonei não é mais a mesma, Ipanema perdeu o vislumbre; a Lagoa a praia, o morro Dois Irmãos, são retoques de uma lembrança que exige novas demãos para não esmorecer com o tempo, como uma pintura em afresco; a clausura do apartamento já não parece desperdício, as aves exóticas já não me inspiram mais que os quero-queros e os pardais as amendoeiras têm menos encanto que as casuarinas; a minha terra é feia, mas lá ainda é permitido se olhar nos olhos; eu sigo aqui, de pupilas perdidas, ando pelas ruas sem me encantar, observando tudo com a pachorrência cotidiana que percorria as vias esburacadas de Santo Amaro; vendedores e pedintes já não me abordam, sequer me notam; talvez tudo esteja a mesma coisa, eu é que mudei, Ipanema me ensinou a admirar exibindo a sua beleza, mas também me ensinou a fechar os olhos para o que não convém
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39 - Sem direção
Não sei se me entrego ou se só aceito o mau gosto da sorte, a caminhos predefinidos não me apego, expectativas não rego, ando sem um norte, uma bússola é tão inútil quanto a prudência, o quão fútil é a aparência; meu horizonte é traçado por linhas tortas, vejo meras tábuas de madeira que todos insistem em chamar de portas, todo esse grande valor, a propaganda dum predial esplendor, são ideologias de paisagem, acho tudo uma grande bobagem, oportunidades não te encerram num cubo; eu apenas me masturbo, pois não faço sexo sem amor; as verdadeiras chances são aquelas que a gente se nega a ver, são os sonhos que a gente se priva de ter, o lúdico não é digno, a arte não é labor, o tédio é fidedigno e por isso tem valor, então a gente rasga o poema e se condena a uma vida sem calor
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38 - As palavras voaram
Quando eu me tornei escritor, as palavras foram perdendo o valor pra mim. Eu percebi que as palavras são como as sensações, só são eternas no papel. Quando eu me tornei ator, notei que o que as pessoas me dizem, não tem tanta importância, a gente se treina a agir de determinadas maneiras. Quando eu me tornei comediante, cheguei à conclusão de que o maior erro que se pode cometer é levar a vida a sério demais. O mais estranho é que agora que estou quase me tornando uma pessoa, o sentido se inverteu completamente, no início dessa jornada, eu queria conseguir dizer o que sentia, hoje eu sinto que nunca precisei dizer nada
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37 - Aquele dia na Lagoa
Sentado no cais da Lagoa, à frente, uma estátua, às minhas costas, a Cruz de Malta, pela primeira vez meditei de olhos abertos, pois me recusei a fechar as pálpebras diante de tanta beleza, o ar era mais puro, o vento mais brisa, o céu mais azul, as folhas mais verdes, e nada disso é exagero, pois nada era ficção Naquele dia na Lagoa, venci todos os meus medos, embebido de toda coragem e de toda pureza, virei um novo homem, andei até a beirada, sorri espontaneamente e proclamei: “Cidade Maravilhosa, abro os meus braços para ti, serás minha e juntos venceremos
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36 - Equilíbrio desconhecido
Não sei quem sou, o que gosto de fazer, o que gosto de comer, qual é o meu habitat natural, se rodeado de gente ou sozinho no meu quarto, com quem ter, se com mulheres ou com homens, talvez unido aos dois pronomes, talvez com todos os pronomes, que depois eu nem consiga lembrar de todos os nomes, uma loucura que me faça esquecer meus sobrenomes; seria eu comedido ou desvairado? Um sujeito incompreendido ou um espécime a ser erradicado? Sento no divã ou pego papel e caneta? Seria eu ambos, maníaco e terapeuta? Um homem de senhos brandos e desejos bambos, racional e intuitivo, levando a vida aos trancos e barrancos; seja com palavras ou com a pele, não sei ao certo o que sentir, na boca, o gosto do suor ou o da lágrima? Respirar de peito aberto ou forçando o diafragma? São muitos dilemas para um só homem; escolho os meus rumos ou deixo que eles me tomem? Parece que se desprendem as minhas costas, estou a ermo; com tantos contrastes é difícil encontrar o meio-termo
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35 - La douleur
Je pense toujours à ma douleur. Qu’est-ce que dois-je faire avec ma douleur ? Évidemment, je dois faire quelque chose, frapper le mur, vivre un amour, écrire un livre, méditer, m’éditer ; je dois transformer la haine, l’angoisse, la désillusion en autre chose que me va faire renaître Je m’ai trop haute En vérité, je ne me permets pas être sans réponse ; je pense que je dois dire quelque chose au monde, je suis en dette cars, je pense que le monde est en dette avec moi je ne suis aussi importante, je ne me permets oublier, pour marcher à la rencontre du destin La douleur existe, ça n'est pas un vrai problème, la douleur est là laisse tomber, le soleil se lève tous les jours, se ci sont encore des jours pour me lever, rien à faire, la douleur se doit seulement sentir. C’est ça.
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34 - Sacola vazia
Hoje, depois de acordar, me olhei no espelho e eu não estava lá, era outro no reflexo, irreconhecivelmente igual, nem quem eu fui e nem quem eu quero ser, era alguém que se perdeu e foi parar em Icaraí, alguém que não tinha o que era meu e esqueceu de si, que das próprias virtudes se desprendeu e apagou tudo que vivi, largou tudo que aprendi, largou sua cidade para viver um sonho, uma fagulha no breu; descobriu na irmã um demônio, e agora o próprio destino não é mais seu, talvez nunca tenha sido, e se da raiva tivesse se desprendido, deixado-a partir, se além disso alguma coisa conseguisse sentir, se é só esquisitice ou de fato escondo o meu verdadeiro eu, se fosse mais eu ou menos eu, estaria ainda aqui ou teria sido jogado aos leões do Coliseu? Sou uma sacola vazia que ficou por aí, com o vento a me levar, se tivesse algo para dar trocaria por um coração fértil de amor e a sabedoria de perdoar
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33 - O mundo
Sofá, pipoca, um filme em preto e branco, uma tarde de domingo, o descanso merecido, um recanto de amor por nós construído, quatro lábios colados que nada parte, Casablanca já não é no Marrocos, agora fica em Marte Dissolvido na cor dos teus olhos, eu me sinto encasulado num segundo, como uma borboleta prestes a voar pela primeira vez, os sonhos tomam conta do ar e o teu rosto fica mais lindo a cada vez, a tua pele me cobre como feitiço, é a razão da minha vida, a causa do meu sumiço, perdido há tanto tempo em ti, o mundo já não sente mais a minha falta e eu já não sinto falta do mundo Porque eu te amo e não consigo deixar de te amar
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32 - Harmonização facial
A gente se amava tanto, o primeiro a amor é sempre o mais latente, a eternidade da adolescência cada aula matada pela conveniência do nosso romance o primeiro amor tudo permite tudo fica ao nosso alcance quantas lições perdidas que hoje nada importam nas nossas vidas quantas vontades repentinas correspondidas que o hoje o impulso a gente não se permite a vida de adulto só admite sensatez Ainda lembro de você me esperando na porta da sala tomando Coca-cola, eu que tanto sonhava em ser jogador de futebol, quando aprendi a amar, esqueci de jogar bola; nós dois na praia, você em cima de mim, o seu cabelo me protegia do sol, o verão é bom demais para quem ama pela primeira vez, nós dois no chuveiro o medo, o desejo incalável de fazer amor, nós dois na casa de praia nós dois o tempo inteiro, vieram outonos, invernos e o meu mundo crescia com você vieram primaveras e a minha vida se desabrochava com você A gente se amava tanto, e hoje aquele quarto está a mais de 400 quilômetros, esse amor há mais de quatro anos, o sol secou o nosso beijo molhado de chuva e a minha memória parece ter sido convertido em grão de areia que o vento fez questão de varrer eu tento me lembrar de tudo, não fazer da lembrança uma história que eu contei pra mim mesmo, como minha mãe me contou as histórias da minha primeira infância; eu quero uma memória real, mas as suas fotos do Instagram só remontam um falso retrato você não era assim, excesso de maquiagem, preenchimento na boca, nariz operado, harmonização facial eu queria poder redesenhar as suas imperfeições com palavras, e beijar com meus versos pela última vez a mulher que eu amei
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31 - Vida de plástico
O emprego dos sonhos, estável, bem remunerado, almoços, reuniões, gráficos, relatórios, e-mails, férias na praia, palestras, discursos motivacionais, as mesmas trivialidades, as mesmas piadas na hora do cafezinho, os mesmos assuntos, tempo, família, o que dá certo na cozinha, o novo produto de limpeza, como está engarrafado o trânsito, imóveis, aluguel, contas a pagar, ter que trabalhar, aqueles papos de coach, com tantas palavras desnecessárias em inglês, futebol, política, nenhuma profundidade, chegar a casa depois das sete, jantar, mulher, filhos, e uma amante para os dias de hora extra; eu não quero nada disso renego todo esse projeto existencial que fizeram para mim, ser mais um engravatado no meio de vários outros engravatados, que só mudam de nome, de endereço, de escritório, de perfume, de cor de gravata, que fazem amor de forma mecânica, que tem certeza do significado da vida e preenchem seu vazio com o inessencial, dinheiro, um novo cargo, um apartamento no metro mais caro da cidade, a casa na praia, o carro do ano, pagar a faculdade que eles escolhem para os filhos, viajar para Europa, ir a Disney, uma aposentadoria segura, uma esposa troféu, eles têm tudo isso e são tão vazios quanto eu Sou visto como um homem sem aspirações por não querer essa vida de plástico; a diferença entre mim e eles é que busco respostas, sem simplesmente aceitar as que me dão, criar uma opinião própria e enxergar algo além do chão; eles vivem iludidos na ignorância e eu, inquieto numa assustadora consciência, eles não entendem as suas vontades, seus sentimentos, suas necessidades além daquilo que é material; sua masculinidade é estufada por orgasmos fingidos de esposas ressentidas e jovens com carência parental, cheia como um balão pode explodir com uma simples agulha, deixar de existir com uma simples dedada; já eu, me entedio de mulheres que não sabem conversar, vivo sozinho com meus orgasmos múltiplos, um único homem num cômodo esvaziado de calor humano, mas cheio de sonhos, projetos, Cultura, Arte, História e Literatura; invenções pairam no ar, exalam-se por todos os ecos das paredes, aparecem em todos os espelhos entram e saem pelas janelas, ocupam as telas, os papéis, a mesa, invadem os aparelhos; diversos mundos se fazem na minha mente, constroem-se diante dos meus olhos, ganham vida pela minha voz; esse quarto é um calabouço enfeitado, às vezes chego a esquecer da minha própria infelicidade, mas assim como eles eu não posso fugir da solidão, não importa quantas pessoas estejam à volta, ela está cerrada dentro de nós, nos condenamos a esse estado, seja tentando ser sozinhos ou ser iguais, no fundo, todo mundo é diferente, mas ninguém aceita os desiguais; eu me contento em ser um infeliz criativo, não engulo essa normalidade inócua, emprego, burocracia casamento, crianças batizadas, uma lareira que aquece o corpo e congela a alma; cuspo essa fórmula mágica da felicidade que me enfiaram goela abaixo, como quando era menino e cuspia todo tipo de remédio; essa prescrição nunca curou nenhum paciente de pular do precipício, pois quando o fim do dia chega, a cabeça no travesseiro se deita, não importa se há uma pessoa do lado, todos veem no teto a própria solidão e se a tristeza é inevitável destino, quero errar diferente, por isso me destrilho e busco encontrar alguma transcendência, antes de ser engolido pelo vácuo da inexistência
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30 - Itaperuna
Parece cocaína, mas é só Itaperuna, numa ressaca da festa de Medicina, um café vagabundo que deixa na boca um gosto de milho-torrado, é o sabor amargo da lembrança de que na vida eu nunca tive um verdadeiro amor no apartamento, terceiro andar, abro a janela e fumo o meu prensado para esquecer do meu futuro mal planejado, que no passado nem penso mais; eu só lembro do cheiro do seu condicionador cabelos afagados, um odor de carinho malcriado, os traços dela desapareceram da minha vida como passos na neve, a gente só lembra quando bebe, a gente só lembra quando não deve, só lembra quando não pode mais, coloca o telefone na bochecha e profere com a voz embriagada um monte de frases sem sentido Parece cocaína, mas é só Itaocara, talvez Campos dos Goytacazes, em setembro, nem lembro mais das histórias de quando eu morava com meus pais, das tantas vezes em que eu quebrei a cara, já fui despejado de tanta casa que perambulo pelas ruas do Rio como um anjo sem asa, vejo as ondas quebrando na pedra do Arpoador; esses filhos da puta não conhecem a minha dor, eles não sabem como é morar no interior; e as ondas violentas de Ipanema me levam nesta tarde cinzenta, para aquela vidraça em Itaperuna, vejo a vagarosidade da gente que passa e os julgo da minha Tribuna, julgo toda aquela gente que como eu nunca aprendeu, que não sabe amar eu grito para o mar, eu grito para expurgar o amor maldito da festa fantasia de Bom Jesus grito blasfemeio, taco pedra na Cruz, que alívio é mandar "Deus" à merda ele e toda aquela vida de merda que “Ele” planejou para mim grito o mais alto que posso, grito sem pudor, proferindo ofensas ao Cristo Redentor grito até me cansar e adormecer nas areias fofas da praia
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29 - Intrigas internacionais
O Universo é imenso, infinito, o dinheiro, o sexo, a vida, tudo é finito, os homens não passam de formigas que conspiram intrigas internacionais, são pedaços de barro aos quais “Deus” deu vida, todos eles vaidosos, prostram-se pomposos, crendo-se imortais, mas a vida uma hora se finda, um dia todo homem jaz
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28 - Paixões de um poliglota
Canções em sueco, filmes em inglês, palavrões em espanhol, obscenidades em francês, pensamentos em italiano, frases em japonês, versos em napolitano ou no dialeto romano, o idioma do cotidiano é o bom e velho português, mas não acaba por aí, de tudo há, de ditados em tupi a cantigas em iorubá As línguas se mesclam na minha cabeça, lambem meus ouvidos, se perdem na minha boca, se despem diante dos meus olhos e eu me desencontro com as letras, não sei que ortografia é de quem, que palavra é de uma ou de mais alguém, que expressão é de onde, se é uma ideia nativa ou traduzida, cidadão cosmopolita, os meus lábios são poliglotas, poligâmicos, entregam-se vadios a todas elas, mulheres por quem me interessei e pude conhecer, mulheres que amei e não consigo esquecer
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27 - Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto
Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, as palavras tinham valor, eram a única coisa que eu tinha Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, o mundo era grande e minha vida era pequena, a realidade era feita de suposições, os meus casos de amor eram inventados e as minhas amizades eram hipóteses Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, ficava o tempo todo olhando para cima e não me olhava no espelho, eu pensava bem de mim Quando as fantasias dançavam no teto do meu quarto, eu era mais alegre, apesar de ser apenas um fantasma que não foi ejaculado Quando eu tinha um quarto, casa e comida, nada que era meramente material tinha valor Hoje, pernoitado em muitos quartos, abraçado com estranhos, descobri que não sou nem um quarto do que eu queria ser Quantos quartos eu deixei, para nunca a mais voltar, quantos quartos de mim ficaram por aí, um quebra-cabeça a se desmantelar Hoje, os meus olhos vagam pelo teto, cabisbaixos e com as mãos nos bolsos, à procura de um par
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26 - Fábrica de traumas
Está cega e não me ouve; está surda e não vê; suas palavras, como soam severas Ela fala, sou todo ouvidos; eu falo, ela é todos ecos da própria voz Não sei se ela é o meu amor ou meu algoz, um colo acalentador ou uma armadilha atroz, uma mulher que me acaricia ou que me arranha feroz Tem dias que eu desejo ser imune, nunca mais amar, pois o amor é uma fábrica de traumas é uma emoção que nos faz idiotas e nos pune soterrando as nossas almas, e nos sufocando até não termos mais ar
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25 - Amor com toques amargos
Você me toca doce e eu perco o controle; você me fala azedo e no meu peito se faz um destrambolhe; mas não me descomponho, você insiste, palavras acres por lábios ocres; com deboche rebato, com afeto reinvisto, com meu jeito te reconquisto; eu me deságuo, você se inunda; mão na nuca mão na bunda, mãos e línguas por todos os lugares; meu espezinhar é uma arapuca, tu negas, mas sempre serei mais do que desejares; esquece-te daquilo que sonhares, nós só sonhamos amores perfeitos, outras pessoas com os nossos jeitos, não conseguimos imaginar o contraste, um amor de brigas e sexo selvagem, a gente não sabe do que gosta, tem que descobrir e eu me descubro em ti todos os dias, você é o meu mundo sem mapa, meu livro sem capa, uma vida muito além do meu querer
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24 - Rajah
Deitado no colchão exposto pelo piso gelado observo o caminhar das baratas e já não me levanto num ímpeto assassínio, continuo deitado e as olho com fascínio, admirando a rendição do meu espírito sociopata; a verdade é que eu nunca quis ser diplomata, o meu lugar é aqui com as baratas, onde não me alcança a vaidade de querer mudar o mundo, mas continuo tendo aquele sonho em que eu acordo em Islamabad, as pessoas me falam em língua urdu e eu respondo em francês; não tem aquele tom lúdico de sonho, parece um resquício de sensatez, um pedido que perdeu a vez, o último eco de um clamor, não, eu não vou poder ajudar vocês Uma barata se esconde atrás do armário; eu lembro daquele orgasmo insano, o único instante em que eu a tive lucidez de genuinamente desejar a paz mundial; a loucura é um rebento, um sopro contra o vento que nos permite ver a pureza das coisas
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23 - Resignação
Às vezes parece que tudo vai virar poesia, que a inspiração se esconde em cada esquina, que cada nuvem andeja no céu veleja pela força de compor um verso, quem sabe até uma estrofe; o poeta sofre com papel e caneta à mão, craveja na folha a mais fustigante aflição e costura a ferida no corpo do lírico eu que já não é mais seu Às vezes parece que tudo vai virar poesia, mas a vida é feita de tédio, com intervalos de emoção; às vezes parece que toda rima vai virar poema, que todo riso vai virar cena de livro e depois de filme no cinema, às vezes parece que não haverá dilema, que não importa o tamanho do problema, que não pesará a mágoa ou qualquer outra coisa que chateia; longe da escória, cidadão livre e cada sua estória, mesmo que feia, vai virar letra bonita; mas de fastio fez-se a vida, a trilha se entrava, a mente trava e tudo vira palavra não dita, frase encardida, ferrugem de memória que para nada serve; mas enquanto as palavras não faltam, a percepção não se perde, a memoração não falha, e as estórias não deixam de acontecer, sigo poeta, de papel e caneta até o amanhecer, as letras correm o papel apressadas e nem veem a lua desaparecer, os dias devoram a vida, o tédio devora as horas, e as horas vão nos comendo minuto a minuto sem percebermos, mas hoje não, não neste dia, nesta madrugada, ela ficará, e mesmo quando eu me for, ela ainda estará aqui, será um clarão no escuro, enquanto houver alguém para conhecê-la, com os olhos, com os ouvidos, no seu sentimento perpassar o momento mais duro, a resignação de que a maior parte da vida é antoja, presencialidade de sentido vazia, à transcendência é um ataque, um verdadeiro baque, saber que nem tudo vai virar poesia
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22 - A crueza que cabe
Cabelos desgrenhados, lençóis e fronhas desconjecturados, o cheiro de corpos suados, mesclados com látex e lubrificante; queria que o sexo fosse mais poético, mas na falta do edificante, escrevo a crueza que cabe no papel: a irretirável pregnância do sêmen que gera fetos, gruda na pela, mancha os tecidos e empesteia o ar; a hipocrisia que nos propicia os hormônios, de noite casal, de manhã dois estranhos que querem se livrar um do outro, a nudez compartilhada, vira nu vergonhoso, na destransparência dos lençóis se esconde o corpo a quem se o deu; são os efeitos da intimidade migrante que permeia o sexo ocasional; dois desconhecidos que se cumprimentam pelos genitais; fossem mais que um o reflexo do desejo do outro, necessidades rebatidas, saciadas ou insaciáveis vontades carnais, seriam fontes de calor que não se apagariam jamais
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21 - Primeira noite no Rio
Liberto-me dum sono claustrofóbico, sentindo as gotas de suor que se secam num colchão velho, ao fundo, o bafo sonoro de sons distorcidos, é o ritmo da favela que arde, o alarde duma solidão coletiva, de quem celebra a modo pagão um feriado cristão; nem tão bem, nem tão mal, abandonei uma rodoviária para ouvir fogos na noite de natal; são os retrocessos da evolução urbana e pessoal na favela do Pavão ou no Vidigal Com a cabeça pesada desço as escadas do beliche e me rebato sonolento pelas paredes do meu cubículo, na cozinha mato a sede duma noite de calor, na sala contemplo o esplendor, duma tela de muitos matizes e pouca cor, o morro é feito de mata, reboco, janelas e lâmpadas, luzes que alugam brilho à escuridão matutina, constelação de formiguinhas lampejantes, a amanhecer becos e vielas a mística noturna de todas as favelas
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20 - Umbral do pretérito
Andando pelas ruas de um passado que não me pertence mais, notei a desimportância de tudo aquilo que deixei para trás, uma concatenação de histórias poluía a minha cabeça sofrimentos sem sentido dispostos numa cadeia, como o amargo de se ressentir por não aproveitar um dia bonito numa cidade feia, mas naquele tempo ainda me faltavam algumas peças para fechar o quebra-cabeça, eu não podia saber, mas para que eu nunca me esqueça, quando ando por essas vielas presto muita atenção, desapego do visco das feias e me orgulho da rejeição das belas, pois ao menos coragem pude ter e mostrei o meu tesão Não são os fantasmas do passado que me assombram, é como se eu fosse um fantasma do presente, um vivo a caminhar no mundo dos mortos, os conhecidos me olham com espanto e os desconhecidos me dão olhares sem encanto, são narcisistas de rostos tortos, gente que está na miséria e nem sente, vidas inócuas que se alambram Eu queria não ter mais que voltar, abandonar de vez esse emaranhado de faltas e cumplicidades, viver uma vida só de sonhos e vantagens, queria demais poder carregar todas as doçuras dessa terra para longe dessa gente que não se consterna, para morarem junto de mim, perto do mar
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19 - Sofá
Um homem passa a ver a vida diferente quando tem as costas doídas dum sofá, as noites mal dormidas o fazem pensar, os raios invadem o ambiente pelas frestas da cortina, nos seus olhos já acordados vai se pintando a tela, suas malas e trouxas que desarrumam a sala-de-estar, naquele ninho de casal ele é a coisa fora do lugar, nessas horas lhe fere a dor das tardes não vividas, em que deixou o sol do lado de fora da janela, suas escolhas mal decididas, memórias duma vida que agora parece tão antiga; o som abafado duma cantiga, na cabeça do filho que esqueceu a voz do pai
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18 - Lagoa
No deque admiro a infinitude das águas, me sinto pequeno, mas não penso na minha solitude nem nas minhas mágoas, contemplo o canto dos pássaros, o encanto das cores, as minhas opiniões rígidas sendo desfeitas, a dissolvência dos meus dissabores; tudo é tão belo na Lagoa Rodrigo de Freitas Eu me sento no banco por onde passaram das mais belas aves sul-americanas, onde se amaram dois turistas franceses, onde um pedinte teve uma noite de frio, tento redesenhar em versos a beleza in natura, o contraste entre o urbano e o magnífico, abro mão de ser vadio e de postergar os verdadeiros amores a uma vida futura
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17 - Quebra-cabeça
Um dia vou voar, mais que os biguás do Campo do São Bento, suas asas negras como meu destino, um desatino sem alento, de todos os lados tentam me enganar, com a dose de verdade que há em todo falseio tento montar um quebra-cabeça com os pedacinhos de cada mentira que me contam um guia que me leve a algum lugar
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16 - Pós-enclausurado
Chorei pelos dias de sol que passei dentro de casa, pois agora não sou mais criança e não posso mais brincar, minha vida é tão vazia de esperança que perdi o brilho no meu olhar, uma lágrima escorre para cada dia doce que eu não soube aproveitar Sou um homem pós-enclausurado, nada sei da vida e dela só posso lamentar, um menino mais feliz, faz um homem menos triste, mas além da memória, ao passado não se pode voltar
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15 - Do céu caiu um pedregulho
Sonhei que morri, contemplei o universo sem a minha presença, tateei com os dedos cada diferença, a maioria das pessoas mostrou indiferença, mas os que sentiram a minha falta, os que choraram a minha saudade, choraram um pranto despido de ninharias e de vaidade, até alguns que não me viram, minhas palavras nunca ouviram, perderam-me sem nunca me conhecer, sem sentir o meu calor, debulhavam-se em lágrimas por dentro, numa hemorragia chorosa, sentindo a pontada duma dor que não conheciam a causa, latejava num órgão que nunca tiveram, grandes estórias descritas, desfeitas em pó num estalar de dedos, num sopro nebuloso de outono Sonhei que morri e percebi que a minha ausência é ainda mais perturbadora que a minha presença
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14 - Você se olha no espelho
Você se olha no espelho e vê que tem 20 anos você é maior de idade, pela lei você já é autossuficiente, mas na verdade você ainda não é ninguém Você se olha no espelho, tem 20 anos, não tem mais que ir à escola, aturar professores babacas, aturar colegas escrotos, estudar toda a matéria de álgebra na véspera da prova; o seu martírio acabou, mas esse fim não foi tão prazeroso quanto você esperava, querendo ou não, o colégio era um castigo e ao mesmo tempo um alívio, você podia continuar procrastinando as suas decisões Você se olha no espelho, tem 20 anos, não tem emprego, nem começou a faculdade, nem sabe o quer da vida, o seu único patrimônio é a incerteza Você se olha no espelho e vê que tem 20 anos, está velho demais para ser um adolescente e jovem demais para ser um adulto, as revoltas de antes já não fazem mais sentido, não têm lugar, a independência que você tanto sonha está muito distante, parece que nunca vai chegar; você tem 20 anos e não era assim que você se imaginava, os seus sonhos de infância se desmancham a cada dia agora você sabe que não vai ser jogador de futebol, não vai ser astronauta, não vai ser fotógrafo da Playboy, você não é genial como imaginava, se você tem algum talento, não faz ideia para que Você se olha no espelho e puta que pariu, você já tem 20 anos, continua virgem, e as punhetas não mais são suficientes para satisfazer o seu vazio; você tem 20 anos e nunca viveu nada, não consegue enxergar algo que vá além da janela do seu quarto Você se olha no espelho e vê que tem 20 anos, dizem que você ainda tem uma vida inteira pela frente, você pensa: caralho, tem mais dessa merda? O teto não é seu e você tampouco tem chão, você navega num bote sem remo, numa noite vadia de pura escuridão, uma ferrenha tempestade, no meio do oceano, sem qualquer sinal de terra à vista; seria você um náufrago ou um afogado? o seu pai até queria, mas você não tem tino para ser advogado Você se olha no espelho, você tem 20 anos, o seu futuro é um céu escuro de nuvens nebulosas, a sua vida, um limbo contínuo, você sabe que precisa dessa tempestade, abraçar o caos, saber o que será enfrentar o que há a existência inteira é grande demais para caber entres as paredes desse quarto, larga de ser um esquisito, larga o KY, toma coragem e beija os lábios de Calipso Você tem 20 anos, você se olha no espelho, fita nos seus próprios olhos e diz: “Agora é pra valer!”
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13 - O poema que não posso mais escrever
“Dançando com o vento me perdi”, esse foi o verso que não escrevi, nas rodas do tempo, inerte me deixei estar, não deixei o vento no meu rosto tocar, neguei ser livre, perdi a hora de brincar
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12 - Fracasso
Minha carne é dual, meu coração é igual; o meu destino não tem seta e as quatro letras da palavra amor, rearranjam no meu coração um ramo que se quebrou antes de brotar flor, ando perdido por vielas esguias sem nenhuma meta, não tenho a força de Rambo, nem a métrica de Rimbaud, de brios escasso, meu grande valor é o fracasso
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11 - Celular
Minha cabeça é pequena para tantas informações, este aparelho é pequeno demais para tantas distrações; como podem tantas coisas caberem no meu bolso? Como podem tantas coisas cobrirem os meus olhos? Como pode o mundo estar na palma da minha mão e eu não estar no mundo? Ruídos desconcertantes, telas hipnóticas, vidas umas das outras distantes, mesmo tão perto, tecnologias despóticas, se fosse o homem esperto, destruiria a sua própria invenção, recriaria a humanidade sem algoritmos, sem baladas com trap e seus poucos ritmos; eu gostaria, a vida seria muito melhor sem manipulação
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10 - Braços negros
Os teus braços de mãe e de labor, a pureza do teu amor, eu queria existir para sempre no teu abraço, foste a única que não teve embaraço, já de cara acreditando em mim, tanta gente te humilha, perdendo a chance de beber da tua enorme sabedoria, que não é de seus estudos incompletos, vem dos seus gestos repletos de ternura, é sabedoria de quem tem no peito candura, em quem o amor fala mais alto, transborda e vai além, de quem possui muita experiência em praticar o bem
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9
9 - Catapora
Não sei se você já teve a sensação de encontrar uma paixão antiga depois de muitos anos, quando o tempo passa, o amor fica parecendo uma catapora, não se sabe explicar por que veio, nem como foi embora
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8 - Pressa
A única pressa que eu tenho é de não deixar nada nessa vida
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7 - Sete minutos
Sete minutos pro metrô chegar! Puta que pariu! Ahhhhhh... Ah, vambora, como que o tempo passa devagar! A culpa é minha, eu que sempre tô atrasado, acho que quando eu for bem velho e tiver perto da morte, eu vou me arrepender de todos os momentos em que eu quis que o tempo passasse mais rápido
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6 - Faculdade
Quando você chega à faculdade, descobre que nada do que você aprendeu na escola serve; quando você à vida propriamente dita, descobre que nada do que você aprendeu na faculdade serve
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5 - A piada não faz mal
Rir é como voar, a realidade por alguns segundos se abandona, pelos defeitos que a piada abona Rir é como mastigar um pedaço de alívio
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4 - O silêncio estanca
Eu não falo mais das minhas dores, porque pra mim já deu, se a mágoa continua, deixo que lateje muda, não existe nenhum mérito, nenhuma vantagem em sofrer calado, mas não há por que falar, não me importo que me chamem de fraco, é só que não quero ruminar, faço do silêncio uma lâmina cortante, para estancar o meu sofrimento
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3 - Sem lugar
Na terra onde nasceu, onde viu o avô morrer, onde quando menino cresceu onde a tudo podia pertencer Pelas ruas da metrópole viu passado se perder, ao voltar para casa, casa não podia ser Do anjo viu a asa voar e se perder, após um seco gole pôs-se a dizer “Nada disso aqui é meu, nada aqui pode crescer, a inocência do querer morreu, o sonho perdeu a hora de nascer”
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2 - Divino
Não preciso que ninguém me diga mais nada! Eu me cansei dessa palhaçada! Perdi toda a ingenuidade que tinha... Todo mundo já sabe de tudo e é por isso que nos debates fico mudo; se for pra ficar com a arrogância dos outros, eu prefiro a minha, o meu caminho eu mesmo ilumino, se errar é humano, eu sou divino
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1 - Todo errado
Sou fruto da heresia, acidente social, banho de ironia e não sei ser banal; com o que parece absurdo flerto, um sonho absorto enxerto, não posso me “corrigir”, sei que ódio desperto, mas não consigo me reprimir; minha verdadeira alma, liberto irritantes, meus questionamentos ateus, ignoro as manias de tradições mortas sou a caligrafia de “Deus”, quando escreve sobre linhas tortas, nunca me concerto, por “polêmicas” sempre marcado, coberto; sou e serei todo errado enquanto a sociedade ditar o que é certo
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