O Tal Podcast

PODCAST · society

O Tal Podcast

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

  1. 124

    Marco Mendonça: “O humor é uma porta de entrada para um lugar de empatia, escuta, compreensão. Ou mesmo que não seja compreensão, de respeito”

    Em 2024 criou, encenou e interpretou o espetáculo “Blackface”, a partir de uma velha prática racista. No ano seguinte, juntou a direção artística ao currículo, com “Reparations, Baby!”, peça que usa um concurso de TV para debater reparações históricas. Agora planeia um musical ‘fora de tom’, em que o hino nacional promete desafinar ideias. Marco Mendonça é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, e sobe hoje ao palco do Planetário da Marinha, em Lisboa, com “Hotel Paradoxo”, em cena até sábado, 23.  Entre histórias da infância em Moçambique, o fascínio precoce pela performance e a descoberta do teatro como espaço de liberdade, Marco Mendonça reflete sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português e da presença negra na cultura contemporânea.  Com a honestidade e ironia que atravessam criações como “Blackface” e “Reparations, Baby!”, o ator e encenador falou sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português, da presença negra na cultura contemporânea e das dinâmicas de poder que persistem dentro e fora das artes. “Uso muitas vezes os espetáculos que faço para aprender mais. Facilmente me esqueço de coisas importantes: factos, datas. É bom ter várias notas nestes processos de investigação e de pesquisa, para ter acesso direto à história, e àquilo que vou recolhendo como material de uma forma mais acessível para mim também.” O humor e o riso acompanharam Marco Mendonça desde a sua juventude, tornando-se cedo uma forma de relação com o mundo: “Achavam que eu fazia bem imitações, porque eu sempre fiz questão de ser um dos palhaços da turma. Quando havia situações mais risíveis, eu tentava estar sempre envolvido nelas.” Esse impulso para “mandar larachas” foi-se construindo ao longo do tempo, até resultar na criação em palco.  Depois do secundário em Artes Visuais, entrou em Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas bastaram duas semanas para perceber que o melhor seria avançar para a Escola Superior de Teatro e Cinema. “De repente, ali era um espaço de liberdade total. Vamos abraçar-nos e chorar e ser vulneráveis à frente uns dos outros.” Pelo meio, houve espaço para falar da “alma velha” de Marco Mendonça, num momento em que, aos 31 anos, assume novas responsabilidades e outra relação com o trabalho e com o corpo.   A conversa trouxe ainda uma notícia esperada por muitos — o regresso do espetáculo “Blackface” a Lisboa —  a que se junta outra novidade: vem aí um musical sobre o hino nacional português, com estreia prevista na Culturgest.   Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  2. 123

    Raquel Lima: “Tendo um filho, é importante ele sentir que estou bem. Não dá para reproduzir a mãe estressada. Quero muito estar bem e feliz à volta dele”

    Poeta, investigadora, arte-educadora e ativista, Raquel Lima é a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense galardoada com o Prémio Emma Goldman, recebido no último mês de março, em Viena de Áustria. A experiência, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, permitiu-lhe refletir sobre merecimento, autocuidado e literacia financeira, e constatar como, independentemente de geografias, as mulheres partilham uma espécie de “síndrome da impostora coletivo”. Nascida em Lisboa, filha de mãe angolana e pai são-tomense, cresceu na margem sul do Tejo, entre uma infância marcada por precariedade, ruturas familiares e perdas precoces, que viriam a tornar-se matéria viva da sua escrita.   A sua assinatura literária tem passado por vários formatos, tanto no spoken word, como através da academia. Publicou livros como “Ingenuidade, Inocência e Ignorância” e “Ululu”, e hoje trabalha também a partir da oratura, ligada às tradições africanas de transmissão oral. Fundadora da União Negra das Artes, tem vindo a pensar o coletivo como espaço de criação, mas também de desgaste. “Perceber o que o coletivo quer dizer é isto: não pode recair sobre uma, duas ou três pessoas que ficam sobrecarregadas”, nota, ao refletir sobre os limites do trabalho partilhado e a necessidade de abrandar sem abandonar a comunidade. Neste episódio, a conquista recente do Prémio Emma Goldman surge como ponto de inflexão. Distinção internacional atribuída em Viena, o prémio chega num momento de transição pessoal e abre espaço para uma reflexão sobre merecimento e autocuidado. Entre outras oito mulheres de geografias diversas, Raquel reconhece um “síndrome da impostora coletivo”, como se a dúvida sobre o lugar de cada uma fosse menos individual do que estrutural.  “Ainda estou a processar”, diz, ao falar de uma distinção que mexe com a autoestima e com a forma como o trabalho é validado. Ao mesmo tempo, a artista revela que os 50 mil euros correspondentes ao prémio a fizeram questionar a relação com o dinheiro, e a importância da literacia financeira.Tudo de um lugar onde defende que aprender a receber é tão importante quanto aprender a cuidar. Raquel partilha também como a espiritualidade atravessa o seu percurso de forma central. “Eu acho que a nossa revolução só vai acontecer se a gente puser o espiritual aí dentro. Acho que a nossa batalha mesmo antirracista, feminista, é espiritual”, assinala, ao falar de práticas de espiritualidade de matriz africana que recuperou em adulta. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  3. 122

    Ângelo Delgado: “A nacionalidade não vale por si só. Tens que ir provando que tens os mesmos hábitos. É aí que está a validação. Não é o bilhete de identidade”

    Nascido em Portugal em 1981, ano em que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, o escritor Ângelo Delgado reflecte, neste episódio de “O Tal Podcast”, sobre a relação entre documentos e acolhimento. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, diz o autor do romance “Foi o Preto”, obra lançada no início do ano, que espelha bem as fraturas raciais que continuam a dividir o país. “A nacionalidade não vale por si só”, sublinha.Escritor, leitor compulsivo e voz ativa na reflexão sobre identidade e racismo, Ângelo Delgado abre espaço, entre memórias, feridas e reconstruções, para uma conversa onde a escrita surge como refúgio, mas também como confronto. “É onde vomito aquilo que me vai na alma”, confessa, revelando um processo criativo profundamente íntimo e, muitas vezes, doloroso.No centro da conversa está “Foi o Preto”, obra construída a partir de vivências reais — suas, da família e de pessoas próximas. Mais do que um livro, é um exercício de exposição e catarse.“Tive de remexer nas minhas entranhas”, admite. O resultado é uma narrativa provocadora, que coloca o leitor diante do desconforto e o deixa, tal como o racismo faz, “num beco sem saída”.O autor revisitou uma infância marcada pela sensação de diferença. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, recorda, apontando a escola como o primeiro espaço onde essa perceção se impõe, muitas vezes sem explicação, sem espaço para questionar.“A nacionalidade não vale por si só”, diz, sublinhando que o verdadeiro reconhecimento continua a depender de códigos invisíveis — hábitos, comportamentos, formas de estar.A conversa atravessa também as dinâmicas familiares e culturais que moldam o seu olhar sobre o mundo. Das mulheres cabo-verdianas, fortes, resilientes, frequentemente sobrecarregadas, às estruturas comunitárias que contrastam com o isolamento vivido na diáspora, há um constante movimento entre geografias e significados. “É como colorir memórias a preto e branco”, descreve, num processo de redescoberta da própria identidade.Pelo caminho, há ainda espaço para pensar o racismo para lá do discurso imediato, questionando a forma como ele é abordado publicamente, e defendendo a literatura como lugar essencial dessa reflexão. Porque, no fim, escrever não é apenas contar histórias: é dar sentido ao passado, reorganizar o presente e, talvez, encontrar alguma forma de liberdade.Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  4. 121

    Cirila Bossuet: “O meu trabalho é emprestar o meu corpo. Tudo que eu tenho, eu dou”

    Nomeada para os Prémios Sophia 2026, marcados para o próximo dia 15 de maio, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Cirila Bossuet vai disputar a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, pela interpretação no filme “Banzo”, de Margarida Cardoso. A indicação, logo na sua primeira experiência no cinema português, evidencia a importância das oportunidades, um dos temas em destaque neste episódio de “O Tal Podcast”. Desde cedo habituada a um ambiente familiar intenso e cheio de vida, foi no silêncio que encontrou o seu lugar. Antes de subir a palco, Cirila Bossuet era a criança que observava e apreciava o silêncio. Hoje, é nesse mesmo equilíbrio, entre interioridade e exposição, que constrói uma carreira marcada pela entrega total à arte de representar. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a atriz revisita um percurso que começou quase por acaso: seguiu uma amiga para o teatro sem imaginar que ali encontraria a sua voz. “Não fazia ideia do meu tom, do que o meu corpo era capaz”, conta, descrevendo o teatro como um portal de autoconhecimento que lhe permitiu ocupar espaço, falar mais alto e sentir que a sua opinião importa. Se a descoberta artística foi inesperada, as raízes estavam lá desde sempre. Filha de bailarinos fundadores do Ballet Nacional de Angola, Cirila cresceu rodeada de expressão artística, embora só mais tarde tenha feito essa ligação. A história familiar, marcada pela migração forçada e pela reconstrução em Portugal, trouxe consigo uma palavra-chave: responsabilidade. E com ela, o desejo profundo de honrar o percurso dos pais. Entre múltiplos projetos simultâneos, exaustão física e a instabilidade da profissão, Cirila fala abertamente sobre os desafios de viver da arte em Portugal. Do “veneno da comparação” ao ritmo avassalador de Lisboa, a atriz descreve um meio onde “há sempre a sensação de que se deveria estar a fazer mais”. Ainda assim, resiste, criando distância ao viver fora da cidade, em Sintra, onde encontra o seu “ninho” e o silêncio necessário para se reconstruir. A conversa abre ainda espaço para uma reflexão crítica sobre a falta de oportunidades no cinema e na televisão portugueses, onde, lamenta a atriz, “vemos sempre as mesmas caras”. Deixa, por isso, um apelo por processos mais justos e inclusivos. Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  5. 120

    Rita Évora dos Santos: “Uma coisa que as mulheres têm é empatia. A minha mentora, que me trouxe às finanças sistémicas, diz: cada mulher que encontro traz-me notícias de mim”

    Licenciada em Gestão, e empresária há mais de uma década, Rita Évora dos Santos transformou as aprendizagens num programa de mentoria exclusivo para mulheres, e focado em finanças sistémicas. Uma abordagem que desenvolve a partir do entendimento de que “o dinheiro é emoção”, conforme partilha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que sublinha a importância das crenças e padrões familiares na relação com a área financeira, e partilha como Cabo Verde lhe devolveu o sorriso. Todos os cêntimos contam, por isso, mesmo a moeda mais pequena deve ser valorizada, defende Rita Évora dos Santos. “Não vim de um sítio com dinheiro, tive que o ganhar. E hoje respeito todo o tostão. Se vejo um cêntimo, apanho”, diz a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso. Filha de uma empregada de limpeza e de um trabalhador da construção civil, a gestora conta que aprendeu com os pais o sentido de sacrifício. “Vou fazer o que tiver que ser feito para me manter intacta”, garante, dando como exemplo a forma como conduz o seu negócio. “Tenho uma empresa de gestão de alojamentos, mas o nosso core também são limpezas. Se tiver que limpar um apartamento, sou a primeira”. Além das lições que traz da infância, nomeadamente que pobreza não é sinónimo de indignidade, e que o básico é o essencial, Rita partilha como a experiência empresarial tem sido formativa. “Limpámos as nossas poupanças para empreender”, revela, recuando aos primórdios da sua aventura empresarial, iniciada com o ex-companheiro, há mais de 10 anos. Hoje mentora de finanças sistémicas, a empresária conta que chegou a ter a conta ordenado a negativo – “Então, muitas vezes saía à meia-noite do trabalho, e às sete da manhã estava a limpar um escritório” – antes de encontrar a sua ‘fórmula’ de poupança. “Há pessoas que com aquilo que têm fazem uma vida digna, e há pessoas que estão enrascadas, porque somos influenciados por muitos viciozinhos. Vivemos num mundo de consumismo”. Sem ceder às inúmeras pressões de compra, Rita explica como se foi ‘libertando’. “Quando acabei de comprar o carro, continuei a pôr [dinheiro] de parte. Quando aluguei a casa, tinha o Porta 65, e aquilo que me deram pus de lado, como se estivesse a pagar a renda por completo. E ganhei este hábito”. A partir do que tem vivido, a empresária pretende apoiar outras mulheres na sua gestão financeira. “Quando conheço as finanças sistémicas, percebo que o dinheiro é emoção”, afirma, convicta da importância de manter o foco feminino do seu trabalho. “Uma coisa que as mulheres têm é empatia. A minha mentora, que me trouxe às finanças sistémicas, diz: cada mulher que encontro traz-me notícias de mim”, partilha a empresária neste episódio de “O Tal Podcast”, em que revê as próprias reconstruções emocionais. “Vim de Cabo Verde super apaixonada por mim, porque conheci uma Rita que não via há mais de 20 anos, que sorri só porque sim. O meu sorriso estava apagado e voltou”. O processo de transformação, revela a empresária, implicou uma mudança de vida completa. “Saí da relação em que estava, e vi-me sozinha pela primeira vez. Na altura até isolei-me um bocadinho, passei por uma tristeza, até perceber que a tristeza também é boa. E comecei a abraçá-la, e a abraçar-me”. Mais do que isso, Rita garante que renasceu: “Passei a olhar para mim e a gostar, a perceber que não são os outros que me veem. Sou eu que tenho de me ver primeiro. Isso tornou-me ainda mais bonita”. Ouça a conversa na íntegra aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  6. 119

    Marco Aurélio Mendes: “As lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres. Isto é uma revolução que África irá viver nos próximos anos”

    O convite para pisar o palco da TEDxLuanda deu um novo rumo à vida de Marco Aurélio Mendes. Filho de angolanos, nascido no Algarve, o gestor e empreendedor conta, neste episódio de “O Tal Podcast”, o que o levou a trocar Portugal por Angola, há quase 15 anos. Nesta conversa, recorda também como sobreviveu a uma malária muito grave, encontrou na adoção uma nova forma de olhar o mundo, e se tornou aprendiz e mestre de liderança. O título do livro é provisório – “Sonhalidade” – e, antecipa Marco Aurélio Mendes, nele caberão os primeiros 50 anos da sua história de vida, demarcada pela “linha que separa o sonho da realidade”. Ainda em fase de “rabisco-sarrabisco”, conforme o gestor pré-cinquentão faz questão de assinalar, a autobiografia apresenta 2016 como um ano de renascimento. De volta a esse período, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso recorda os efeitos de uma malária muito grave. “Estive três meses no hospital, perdi um pouco da audição, cabelo, 18 quilos, e toda a massa muscular. Acho que só fiquei a 100% dois anos depois”. A experiência, com passagem por 10 dias de coma induzido e sessões de hemodiálise, impulsionou velhos planos familiares. “Se Deus me deu uma segunda oportunidade de cá estar, achei que devia dar corpo a este sonho: entrámos no processo de adoção”. Juntamente com a mulher, Nancy, Marco, à época já pai de Francisca, tornou-se também pai de Alexandre, e, mais recentemente, de David. “Vou no terceiro filho, e todos me fizeram mudar”, nota o empreendedor, lembrando uma das primeiras lições que recebeu quando decidiu adotar. “Uma coisa que a psicóloga nos disse é que não se escolhe. Escolhe-se uma mercadoria, as crianças sinalizam-se”. É também ao círculo familiar que o convidado deste episódio de “O Tal Podcast” vai buscar uma das aprendizagens mais estruturantes da sua liderança. “Mal cheguei [a Luanda], estava a criticar a equipa e o meu pai disse: ‘não te esqueças que, quando chove, a rua de boa parte destas pessoas vira um rio. Se calhar algumas meninas tiveram que ir buscar água para tomar banho. É importante que penses nisso”. Mais do que refletir, Marco começou a questionar quem são os trabalhadores que tem a responsabilidade de gerir. “Onde e como vivem? Porque se vivem oito pessoas dentro de um quarto, o sono não é tranquilo”, diz, por um lado; enquanto, por outro, observa: “Comecei a perceber que era complicado desenhar um caminho a três anos, quando a pessoa ao meu lado só está a pensar em como consegue 200 Kwanzas para ir para casa”. Cada vez mais atento a quem o rodeia, o gestor transforma as experiências de liderança em conversas, integradas no podcast “Performance 360”. “Muitas empresas acham que construir ADN é ir buscar os quadros da concorrência que já trabalham bem”, aponta, questionando a estratégia: “Vais trazer o ADN da concorrência, e não constróis o teu?”. Confiante no potencial do denominado continente-berço, que apresenta como “o diamante da Humanidade”, Marco Aurélio Mendes considera que “as lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres”, num movimento que vê como “uma revolução que África irá viver nos próximos anos”. Qual será o papel de Angola nesta transformação? Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  7. 118

    Aoaní: “O sonho americano é um pesadelo. Vivia em estado de alerta 24 sobre 24 horas. Estou a falar principalmente da questão racial”

    Em vésperas de subir ao palco com a peça “Kabeça Orí”, que estará em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, Aoaní revela, neste episódio de “O Tal Podcast”, como a representação sempre fez parte dos sonhos de infância, igualmente povoados de aspirações jornalísticas. Hoje com um percurso profissional que cruza as duas áreas, a atriz revisita várias etapas desse caminho, desde a saída de São Tomé e Príncipe alargado a Portugal, Brasil, Angola e EUA, onde se casou, divorciou, e se apanhou a viver em estado de alerta racial. Apresenta-se livre de apelidos, à imagem da icónica ‘Queen Bey’. “A Beyoncé não tem apelido. Percebi que não há necessidade de ter um. Portanto, achei interessante responder só por Aoaní”. O posicionamento, explica a convida de Georgina Angélica e Paula Cardoso, não deve ser confundido com eventuais tentativas de distanciamento e apagamento familiar. “Os Salvaterra não têm papas na língua. São uma força da natureza, têm sempre opiniões fortes. E eu acabo por ser assim, porque a minha mãe também é”, adianta, vinculando-se ao sobrenome materno, enquanto identifica outras heranças parentais. “O stand-up entra na minha vida porque sou palhaça, tanto [da parte] do pai como da mãe”, nota a atriz, lembrando que a avó Lourença, que faleceu no ano passado, com quase 102 anos, “era muito gozona”. Mais do que um traço herdado, Aoaní vê nos gracejos uma via de resistência.  “É muito presente nas nossas vivências o rir para não chorar. É um bocado de espírito de sobrevivência”. O reconhecimento de experiências transversais às vidas negras não é, contudo, sinónimo de indiferenciação individual, avisa a atriz. “Não sou representante de ninguém, não carrego o povo negro às costas. Sou negra e, se as pessoas se revirem na minha história e na forma como eu crio, fantástico”. Agora com um novo espetáculo, intitulado “Kabeça Orí”, a são-tomense prepara-se para subir ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, na companhia de Joyce Souza. A proposta autoral dá resposta à necessidade de abrir caminho. “Em Portugal, ainda temos pouco espaço no mercado, mas creio que a solução seja criar as nossas histórias e contá-las, criar o nosso próprio espaço. E é isso que tenho feito, ou tentado fazer”. O resultado que agora já se apresenta no palco, passou primeiro por um laboratório de aprendizagens, que tiveram nos Estados Unidos um eixo primordial.   “O que me levou para os EUA foi a idealização de Hollywood, de trabalhar na Broadway, porque eu achei que era só chegar e ir”. Não foi. Muito pelo contrário. Se no início a dificuldade estava em arranjar trabalho sem documentos, depois de se casar e obter o Green Card, a falta de uma rede de apoio e de seguro de Saúde revelaram-se obstáculos intransponíveis, agravados por um permanente estado de vigilância racial. “De cada vez que fosse parada, numa paragem de trânsito, normal, ficava muito aflita, porque não sabia se iria sair viva”, recorda, sem esquecer o impacto familiar. “Uma amiguinha do infantário, ou ‘inimiguinha’, disse à minha filha que não podia ser uma princesa por ser preta. Isso para uma criança de 5 anos foi brutal. Ela chegou a casa a chorar”, diz Aoaní, sublinhando o peso das conversas que se seguiram. “Tivemos todo um processo de reforço da autoestima. O trabalho é constante, até hoje”, destaca a atriz. Acompanhe aqui a conversa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  8. 117

    Didi: “Nos meus quase oito anos de Portugal, tive chances de viajar pelo interior e entender que podemos ser muito parecidos diante das nossas diferenças do que imaginava”

    DJ e artista multidisciplinar, Diego Cândido, mais conhecido como Didi, tornou-se uma referência da cultura negra, queer e imigrante de Lisboa, onde aterrou depois de vários voos internacionais, que encontraram em Nova Iorque um destino de expansão identitária. Hoje coletivamente alicerçado nas “Afrontosas” e na “União Negra das Artes”, o também pesquisador brasileiro conta, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como as viagens o ajudaram a reconstruir a ideia de família e de casa. Começou por romper fronteiras em 2009, graças ao curso de Direito. Quase 18 anos depois, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso vê na primeira viagem a Nova Iorque, concretizada no âmbito do projeto “Ciências sem Fronteiras”, uma mudança de rota vital. “Não consegui mais parar”, revela o DJ e artista multidisciplinar, fundador do “Coletivo Afrontosas”. Sempre em movimento, Didi tem percorrido milhas desde a formação nova-iorquina em “Business Management” (Gestão de Negócios), procedida, entre outros destinos, de voos para o Canadá e Londres, antes da chegada a Portugal. Há cerca de oito anos no país, o brasileiro recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast” os planos académicos que trazia na bagagem. “Cheguei [a Lisboa] para fazer um mestrado. Na época, queria tratar de temas que eram a base da minha forma criativa, artística, queria falar sobre movimentos negros a partir da perspectiva queer, da população LGBTIQI+. E ‘levei’”. Cabe nesse “levei” uma série de embates que teve de enfrentar, diante da pouca ou nenhuma abertura que encontrou na Academia, para investigar as questões que o mobilizam. O revés académico não travou, contudo, a vontade de encontrar respostas para uma pergunta que coloca desde o primeiro dia em Portugal: “Cadê elas? Onde estão as pessoas negras queer?”. A interrogação deu lugar a um dos projetos desenvolvidos pelas “Afrontosas”, que permite reconhecer que essas presenças sempre existiram – e resistiram. “Aos poucos, com muito auxílio dos movimentos negros, de pessoas diversas do próprio movimento LGBT, contamos essa história”. Enquanto se resgatam referências do passado, Didi partilha como se está a construir história no presente, nomeadamente a partir da UNA – União Negra das Artes, via não apenas de organização, mas de “encontro afetivo”, apontado como uma das peças-chave para superar fronteiras geograficamente impostas. “A imigração possibilita construir de novo, estreitar laços de formas até mais presentes, fortes e frutíferas do que os laços de sangue”, defende o DJ, surpreendido com a casa que encontrou em Lisboa. “Vi-me apadrinhado por uma realidade que nunca imaginei encontrar, a partir do meu companheiro e da minha base coletiva, grandemente instituída pelo Coletivo Afrontosas”. À experiência lisboeta juntam-se vários trânsitos de reconhecimento humano pelo país. “Nos meus quase oito anos de Portugal, tive chances de viajar pelo interior e entender que podemos ser muito parecidos diante das nossas diferenças do que imaginava” Ouça o episódio completo aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  9. 116

    Episódio Especial ao Vivo: “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”

    No Dia Internacional e Nacional para a Eliminação da Discriminação Racial, assinalado no último sábado, dia 21, o “O Tal Podcast” aceitou o convite da Casa Capitão, em Lisboa, para se juntar a um dia de reflexão, com a gravação de um episódio especial. Ao vivo, com a participação do público e a presença dos podcasters José Rui Rosário e Justino Sacalumbo como convidados, a conversa partiu de um compromisso: “Desfazer o silêncio, confrontar o ruído, e assumir o lugar de fala”. Enquanto a pandemia impunha distanciamentos sociais, José Rui Rosário, assistente técnico na Câmara do Seixal, juntava-se a dois amigos para lançar “O Lado Negro da Força”, apresentado como “um lugar de escuta de vozes raramente ouvidas”, nomeadamente “portugueses negros, migrantes e pessoas racializadas”.  No mesmo período, marcado por muitas interrogações, o técnico de audiovisual Justino Sacalumbo saía de Angola e fixava-se em Portugal, onde acabou por criar “O Despertador Podcast”, como via para refletir sobre o que sempre teve vontade de questionar, abrindo também espaço para que outras pessoas se expressem. Cada qual com o seu projeto, os dois convidados contam, neste episódio de “O Tal Podcast”, como o ato de partilhar percursos de vida se revelou uma via de transformação. “O que tu viveste ontem hoje pode bater de frente com o que alguém esteja a passar. Isso salva vidas”, sublinha Justino, enquanto José Rui destaca o efeito terapêutico de cada encontro. “Foi tão bom saber que não estou sozinho, que as nossas histórias coincidem em muitas coisas, e que continuamos a ter força para acreditar na mudança”. Sem nunca perder a ligação ao coletivo, o cofundador de “O Lado Negro da Força”, e da plataforma antirracista Kilombo, defende, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que a única forma de quebrar o silêncio sobre o racismo é “dizer o que é isto de nos sentirmos um corpo ausente, diferente, limitado ou acossado, cientes de que isto é uma maratona”, e não é uma corrida de 100 metros. Mas, como falar quando isso pode custar o ganha-pão? Justino arriscou. “Saí de um emprego quando me disseram: ‘és espetacular, trabalhas bem, mas tenta não falar muito angolano’”. Confiante na sua identidade africana, o angolano explica que valoriza muito o sotaque, enquanto “a pronúncia linguística que identifica um povo, uma cultura, um indivíduo, uma nação”.  Ao mesmo tempo, o podcaster destaca a resistência geradora do crioulo cabo-verdiano, distinção que sobressai na história de José Rui. “Em casa, a minha mãe só falava crioulo. Esta questão da língua sempre foi algo que ela transformou em batalha, em afirmação”. A herança, nota o também vocalista da banda rock Dixit, celebra-se para além das ligações familiares. “Falar crioulo continua a ser uma forma de resistência, uma forma de dizer que eu honro os meus ancestrais. Fico muito orgulhoso quando vejo os miúdos, nos bairros, a falar crioulo”. É também na continuidade que José Rui encontra caminho. “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança nos meus filhos, em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”. Já Justino, vê possibilidades na entrega, no compromisso de dar o melhor de si “naquilo que tem a ver com a consciência negra, a igualdade, o poder, o direito”. Ouça aqui o episódio completo, encerrado com a intervenção do público.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  10. 115

    Cláudio Gonçalves: “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar, empoderar os outros para conseguirem também”

    Manequim com carreira internacional, que tem no currículo campanhas para gigantes da moda, como Dolce&Gabbana, Gucci, Prada e Louis Vuitton, Cláudio Gonçalves não esquece de onde veio. “Os bairros sociais e as comunidades imigrantes foram o planeta onde cresci e o princípio de tudo”, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, em que recorda as privações da infância – transformada a partir da adoção –, e revela como o sucesso nas passerelles o inspira a transformar vidas. Nas ruas da Cova da Moura cabia todo o mundo de Cláudio Gonçalves, até ser retirado da família. Tinha cerca de seis anos, e dava nas vistas pela infância errante, denunciada pelos vizinhos à Segurança Social. “A minha mãe tinha três trabalhos e só a conseguia ver uma vez por semana, se tanto. Eu vivia com a minha avó, que era alcoólica”, recorda o manequim, que chegou a roubar para comer. Hoje manequim de sucesso, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso rejeita endeusamentos e romantizações. “Estou sempre a dizer: eu não sou especial, eu tive toda uma quantidade de recursos, uma educação diferente, que me meteram na posição em que estou. Isso é que mudou a minha vida: ter acesso a coisas que um jovem num bairro social não tem”. Com um início de história marcado pela separação da família, Tibunga, como também é conhecido, conta que antes de ser adotado pela sua antiga professora, agora mãe, chegou a um ponto em que “já nem sabia se estava melhor na rua ou na instituição”. Além das lutas diárias em que as crianças se envolviam, Claúdio revisita o sistema de abusos. “Tinha um trabalho de escravo, a descascar batatas de manhã à noite, a cavar campos e fazer 30 por uma linha. Coisas a que uma criança daquela idade [seis anos] não devia ser submetida”. O ambiente de violência, agravado pela austeridade religiosa que o regia, assemelhava-se a “um campo de concentração”, compara o manequim, lembrando que, ali, as vidas encolhiam. “Dormíamos num contexto de prisão, em camas individuais de ferro, em que cada um tinha uma gaveta, daquelas de mesa de cabeceira. Tinha lá dentro uma foto da minha mãe, uns berlindes, e pronto. A nossa existência era aquela gaveta”. Sem nunca perder de vista as marcas do passado, Cláudio constrói, no presente, um caminho para abrir novos futuros.   “Há uma limitação nos sonhos dentro dos bairros sociais, em que os meninos querem sempre ser futebolistas ou aquele estereótipo que já se conhece”, nota o manequim, empenhado em transformar essa realidade. “Se não fosse a minha mãe a resgatar-me daquela instituição, provavelmente ficava lá até os 18 anos, nunca teria sido modelo, estava a trabalhar numa caixa registadora qualquer. Sabendo isto, é minha obrigação voltar para trás e dizer: vou mostrar a um Cláudio de agora que é possível, e vou lhe dizer como é possível”. O compromisso social ganha expressão em bairros das periferias de Lisboa, onde o manequim identifica um enorme potencial de mudança. “Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar os outros para conseguirem também”. Enquanto inspira e influencia mudança, o manequim aponta igualmente para outros voos. “Um dos meus sonhos de vida é voltar para África, criar um império e empoderar as pessoas. Gostava muito que fosse em Cabo Verde”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  11. 114

    Kai Fernandes: “O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”

    Vislumbrou na Psicologia uma tábua de salvação da própria dor e acabou frustrado, admite Kai Fernandes, o convidado desta semana de “O Tal Podcast”. Entretanto reconciliado com a sua área de estudos, o psicólogo percebeu, a partir do início da prática clínica, que teria de se ajudar para conseguir ajudar. Das feridas da adoção, aos traumas do racismo, a que se junta o processo da transição de género, a identidade de Kai representa, para muitas pessoas, a única via de reconhecimento. “Existem poucos psicólogos como eu: negro, trans, jovem, e que vive as não monogamias”. Estávamos em 2020, quando o assassinato de George Floyd confrontou Kai Fernandes com as próprias sombras. “Percebi que não havia mais espaço para ignorar o impacto que o racismo tinha na minha vida”, recorda o psicólogo, de volta ao facto marcante que o levou a criar a página “Quotidiano de uma negra”, no Instagram. “Era muito raro ter contacto com outras pessoas negras. Ter sido adotado por pessoas brancas, e ter crescido num espaço inteiramente branco se calhar atrasou o processo de encontrar a minha identidade”, conta o terapeuta. Noutro momento decisivo da sua história, vivido em 2023, numa viagem à Tailândia, o psicólogo começou a perceber em si uma desconformidade entre identidade de género e sexo biológico. “As pessoas falam muito do feminino e do masculino. E às vezes tenho dificuldade em encaixar-me nessa ideia binária. Daí a não binariedade, daí a ideia de transgénero”. Hoje, e já depois de outro 'voo de reconhecimento' em direcção a Banguecoque, Kai não tem dúvidas sobre a sua afirmação. "Sinto uma liberdade muito grande quando me expresso de uma forma masculina, porque me permite criar uma masculinidade que acredito que possa realmente ser uma mudança no mundo". Distanciado dos modelos de masculinidade que se habitou a observar enquanto crescia, o psicólogo sublinha a importância de quebrar padrões tóxicos.  "Há momentos em que sinto saudades de meter uma maquilhagem ou usar uma roupa mais feminina”, diz, libertando-se da necessidade de encaixar em normatividades. "O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”. Negro, trans, jovem, e muito interessado no território das relações não-monogâmicas, Kai encontra nas suas expressões identitárias a explicação para a diversidade de pertenças e geografias que recebe em consultório. "Muitas pessoas querem ter alguém do outro lado, na terapia, que tenha uma semelhança com elas. Há muitas coisas na minha identidade que são a representação dos meus clientes", assinala, sem romantizações. "A minha experiência não é representativa da maior parte das pessoas trans. As pessoas que me são próximas, no geral, acompanharam a minha transição. Senti muito acolhimento”. Além do papel desempenhado por quem o rodeia, Kai destaca a influência dos lugares. “Banguecoque foi o sítio onde eu passei a ser quem eu era e ninguém me questionou. Nem por ser negro, nem por me vestir de uma forma masculina. Ninguém me estranhou. Isso teve um poder gigantesco”, reconhece. Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  12. 113

    Amina Bawa: “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu”

    Enquanto o Brasil vivia o conturbado processo de afastamento da então Presidente Dilma Rousseff, Amina Bawa encontrava, em Portugal, uma espécie de “oásis” político. Estávamos em 2016, e o mestrado em Cultura e Comunicação abria as portas para uma nova casa. Dez anos depois da mudança, a jornalista e produtora cultural partilha, neste episódio de “O Tal Podcast”, o seu olhar sobre as transformações políticas em curso em Portugal, além de refletir sobre fronteiras raciais, familiares e académicas. Apresenta-se como “100% brasileira e carioca”, mas faz questão de acrescentar ao cartão-de-visita genético 50% de herança nigeriana. “O meu pai deixou o Brasil quando eu era muito nova. Fez a licenciatura, mestrado, doutoramento, e voltou para a Nigéria, [o seu país]”, adianta Amina Bawa, que, já depois dos 20 anos, recuperou a ligação ao lado paterno. O contacto, desde o falecimento do pai transferido para os tios, ‘alimenta-se’ com comunicações regulares, prelúdio de uma viagem – ainda por concretizar – ao encontro das origens africanas. Para já, porém, os planos de voo cumprem-se, com crescente intensidade, entre Portugal e o Brasil. Habituada a transitar entre os dois lados do Atlântico, a jornalista e produtora cultural tornou-se uma inesperada conselheira de viagens. “Dou muitas orientações a pessoas que querem vir para Portugal estudar”, diz a carioca, que, a partir da sua experiência de mestrado, começou a facilitar aprendizagens. As recomendações não se restringem, contudo, ao mundo académico, embora ele seja palco de muitas vivências. “Tive professores dizendo: ‘hoje, vocês, investigadores, usam de uma vertente muito pessoal para falar e trazem isso para a academia. E eu pensava: que ótimo! É maravilhoso quando eu falo de mim, não do outro”. Atenta às fronteiras que comprimem os trabalhos de pesquisa, Amina recorda, nesta conversa, o desconforto de querer “falar de pessoas pretas que estão sendo felizes, e que são bem-sucedidas dentro dos seus negócios”. Ainda no domínio da academia, a carioca assinala que “há uma diferença muito grande entre o Brasil e Portugal”. Desde logo, nota a jornalista, “a gente fala muito da negritude, mas como é que a gente estuda quem criou esse conceito?”. Para já, a resposta vem apenas do outro lado do Atlântico, onde se criou o Observatório da Branquitude. Por cá, seguimos com as observações da convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, também voltadas para as relações afro-brasileiras. “No Brasil, tudo está muito conectado com África, mas a gente não conhece, é uma África que está muito no imaginário. E quando venho para Portugal, tenho um embate com as realidades africanas, o que é maravilhoso”. Noutros “choques” de realidade, partilhados neste episódio, Amina revisita eleições de má memória – “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu” – , e traumas de viagem. “Não tenho medo de viajar sozinha, mas na Hungria já fui perseguida, quase sequestrada. Eles sequestram muitas mulheres para o tráfico sexual”. Ouça a conversa completa aqui.    See omnystudio.com/listener for privacy information.

  13. 112

    Ana Josefa Cardoso: “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”

    Aos cinco anos, na pré-primária, em Cabo Verde, Ana Josefa Cardoso tinha dores de barriga só de pensar em falar português. Hoje faz do ensino da ‘língua de Camões” profissão, enquanto mantém vivo o idioma materno. “A língua que une efetivamente todos os cabo-verdianos é o crioulo”, sublinha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que reflete sobre o papel da escola e do professor, num contexto cada vez mais desafiante. O ano de 1993 marca o início da carreira docente de Ana Josefa Cardoso, caminho que, mais de três décadas depois, continua a percorrer com o mesmo sentido de missão. “A tarefa do professor é inacabada. Um professor a sério é um eterno aprendiz”, destaca nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, lembrando que cada aluno é único. Desde sempre empenhada em valorizar e acolher a diversidade humana, a professora revela como forjou o seu compromisso com a inclusão a partir dos próprios processos de exclusão. “Fui para a pré-primária com 5 anos, em Cabo Verde, e foi o meu primeiro contacto com o português. Os alunos eram castigados por não falarem uma língua que não sabiam, e não tinham tido a oportunidade de aprender”. A experiência deixou marcas, indissociáveis da consciência pedagógica entretanto formada, igualmente moldada no ‘apagão’ que esvaziou as lembranças do primeiro ano de escolarização em Portugal. “Enquanto não falava português, entrava muda e saía calada [da escola]”, recorda a também investigadora, hoje consciente de que talvez o silêncio tenha sido o meio que encontrou para passar despercebida, e não se tornar alvo de chacota por causa do sotaque. Com ou sem memórias desse período, Ana Josefa nota que a escola pode ser o primeiro local de confronto com “o conflito, o desânimo, as frustrações”.  Aliás, acrescenta a professora, talvez venha desse reconhecimento – e da vontade de oferecer a proteção que não teve –, uma das motivações para ter escolhido o ensino. A opção, iniciada no ensino da Língua Portuguesa, estendeu-se ao ensino e investigação da Língua Cabo-Verdiana, mais recentemente alargado a lições de português como língua não-materna. “Os tempos vão mudando, o público é mais diverso, os desafios são maiores a todos os níveis. Se a escola não estiver aberta à mudança, não consegue ser hospitaleira”, defende, atenta ao impacto dos novos fluxos migratórios e linguísticos, bem como às transformações tecnológicas. “Temos que ter propostas para que as nossas aulas sejam aliciantes para todos. Por isso digo que o professor tem de ser um eterno estudante, porque precisa de se atualizar para dar resposta aos novos desafios”. Às vezes, assinala a docente, basta ativar a empatia. “Lembro-me da professora que tive a partir do 2.º ano: a dona Benvinda. Eu ia de lenço [na cabeça] para a escola, e ela levava o seu lenço ao pescoço e, várias vezes, pedia-me para lhe pôr como punha o meu”. O episódio é partilhado como um exemplo concreto do papel que a Educação deve assumir. “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”. Ouça a conversa completa aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  14. 111

    ROD: “O futuro é queer. Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”

    Saiu de casa dos pais ainda criança, para estudar numa cidade maior, onde morou com os tios até começar a viver sozinho, quando tinha apenas 14 anos. Hoje com cinco décadas de história, Rodrigo Saturnino, ou simplesmente ROD, conta, neste episódio de O Tal Podcast, como os seus primeiros anos de vida se inscrevem numa trajetória “mais comum do que parece”. Mas se o passado do pesquisador e artista visual encontra eco noutras narrativas oriundas do interior do Brasil, o presente solta-se de expetativas alheias, e o futuro apresenta-se ainda mais livre. Assumidamente queer. A história de vida de Rodrigo Saturno começou a cerca de 7.600 quilómetros de Lisboa, na pequena localidade de Jequitibá, localizada no estado brasileiro de Minas Gerais. Desde 2007 em Portugal, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso soma cerca de 16 anos de academia portuguesa – entre estudos de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento –, percurso marcado por várias investigações sobre o mundo digital. É a partir dele que conserva, há quase duas décadas, os afetos familiares, ainda hoje fortemente enraizados na sua terra de nascimento, que descreve, afetuosamente, como uma “cidadezinha minúscula”. “Jequi, como a gente fala, tem 5 mil habitantes”, aponta o pesquisador e artista visual, precocemente habituado a gerir distâncias: “O meu senso de independência foi muito prematuro”. Desde os 10 anos longe da casa dos pais, de onde se mudou para morar com os tios e “poder receber melhor educação”, o cofundador do Coletivo Afrontosas e da União Negras das Artes, revela que embora tenha começado a desbravar caminho sozinho muito cedo, contou sempre com a supervisão parental. Além de revisitar, com assumido orgulho, algumas das principais etapas do seu percurso – onde se inclui a criação de uma faixa com a polémica frase “Não foi descobrimento, foi matança” –, ROD aborda, nesta conversa, como está a lidar com o avançar da idade. “Todo o mundo fala ‘você não parece que tem 50’. Aí pergunto: o que é parecer ter 50 anos? Ser velho, barrigudo, que desistiu da vida, entregou tudo?”. Contrariando eventuais expetativas, o convidado deste episódio de O Tal Podcast adianta que, nesta fase, se sente “mais livre” de qualquer pressão para encaixar dentro dos comportamentos associados à idade. Talvez resida aí um jeito queer de ser e de estar? “O queer tem essa característica de ser diferente. É outra coisa, outro universo, outra leitura do mundo. É outra explicação das coisas”, defende, perentório na antevisão de que “o futuro é queer”. Em que sentido? “Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”, explica, sem nunca perder de vista as múltiplas camadas que o atravessam. Das provações da imigração, que põem em choque processos de integração e assimilação, passando pelas expressões de racismo na academia, nos algoritmos e outras tecnologias, a conversa termina com um breve olhar sobre as lições que ficam de um passado de estudos religiosos. “Tenho aprendido que a espiritualidade não tem que ser doutrina, não tem que ser litúrgica. Mas tem que existir nessa relação com o mundo invisível”. Ouça aqui a conversa completa.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  15. 110

    Carlos Lopes: “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”

    Filho de cabo-verdianos, nascido em Lisboa em 1976, Carlos Alberto Monteiro Lopes gravou no corpo, como assinatura de identidade, a frase “Blood of a Slave, Heart of a King”. Em português: “Sangue de pessoa escravizada, coração de rei”. As palavras, explica o convidado desta semana de “O Tal Podcast”, devem ler-se como uma homenagem aos seus antepassados, e inscrevem-se numa composição de 13 tatuagens que transporta na pele. O número, indicativo de sorte, inclui a figura de Nossa Senhora de Fátima, expressão de uma fé que levou o empresário a ser catequista, e até a equacionar a vida de padre.  “Sou muito crente. Todos os dias, de manhã e à noite, rezo, peço a Deus”, revela Carlos Lopes, que herdou dos pais a devoção católica. O legado familiar manifesta-se igualmente no mundo dos negócios, território no qual o anfitrião do Brooklyn Lisboa se estreou há cerca de 15 anos.  “Sempre tive a referência do meu pai como um exemplo a seguir. Ele foi um empresário de sucesso nos anos 90, teve altos e baixos, caiu, levantou-se”, conta Carlos, que, a determinada altura, decidiu mudar de rota. “Trabalhei durante 12 anos em comércio internacional, que foi toda a minha experiência profissional. Tinha uma vida muito estável, e hoje pergunto-me: o que me passou pela cabeça para abrir o [restaurante] Harlem?”. Primeiro no Cais do Sodré com o Harlem, e agora na Praça da Alegria com o Brooklyn, Carlos mantém a geografia inspiracional: “Sempre tive paixão pelos EUA. Toda a luta da cultura afro-americana, contra a segregação, com a música e a gastronomia à mistura, despertou-me como se eu tivesse nascido lá”. Também desde que tem memória, o empresário recorda-se de fazer planos para que a história das migrações negras seja conhecida e reconhecida. “O Brooklyn Lisboa conta a narrativa entre Cabo Verde, as Américas e Portugal”, assinala o convidado deste episódio de “O Tal Podcast”, sem nunca se desligar da sua relação pessoal com essa rota. “Os nossos pais emigraram para Lisboa no final da década de 60 e 70, e foram construindo a sua barraquita, o seu bairro de lata. Era ter no estrangeiro um mini país”, descreve, revisitando o quotidiano da sua primeira morada, acomodada entre Linda-a-Velha e Miraflores. “Temos um grande orgulho de termos nascido e crescido na Pedreira dos Húngaros, pela resiliência que a vivência do bairro trouxe a cada um, pela facilidade com que enfrentamos as dificuldades”. As memórias desses tempos conservam-se nas amizades que, década após década, se mantêm firmes. “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”. A par da sustentação que vai buscar às relações de sempre, Carlos conta que também encontra abrigo no terreno onde em tempos existiu a comunidade da Pedreira dos Húngaros. “Quando estou com o meu GPS emocional desregulado, passo ali na zona onde era o nosso bairro para lembrar a minha infância, a minha trajetória. É terapêutico”. Noutras viagens, é Cabo Verde que sobressai, como destino de expansão das raízes e dos negócios. Para conhecer nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode ouvir aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  16. 109

    Ao vivo no PodFest: Lei da Paridade, Consulta Aberta e O Tal Podcast

    Veja também em youtube.com/@45_graus Maria Castello Branco é comentadora política e cronista, e é autora do podcast "Lei da Paridade”, juntamente com Leonor Rosas e Adriana Cardoso. ​Paula Cardoso e Georgina Angélica são comunicadoras e autoras de conteúdos, e autoras do "O Tal Podcast”.​ Margarida Santos é médica de família e autora do podcast "Consulta Aberta”. _______________ Episódio especial gravado ao vivo na 3.ª edição do Podfest do Expresso, que decorreu a 27 de janeiro no Auditório da Universidade NOVA de Lisboa. Neste painel juntaram-se quatro projetos com identidades e públicos distintos: o Lei da Paridade, representado por Maria Castello Branco, o Consulta Aberta, com Margarida Santos, o O Tal Podcast, por Paula Cardoso e Georgina Angélica — e, claro, o 45 Graus. A conversa partiu das novas vozes e dos nichos que hoje encontram espaço no áudio digital, e explorou o que muda quando um projeto independente passa a integrar um grande grupo de media. Falámos de representação, de literacia — política e em saúde —, da relação íntima que o formato cria com quem ouve, das surpresas que as estatísticas revelam sobre o público e também do outro lado da exposição: o entusiasmo, o sentido de missão e, por vezes, o confronto com o ruído e o ódio nas redes. Uma troca franca de ideias sobre como o podcasting abriu portas a protagonistas que antes ficavam de fora — e sobre a responsabilidade de as manter abertas. ______________ Esta conversa teve a sonoplastia de Hugo OliveiraSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  17. 108

    Margarida Valença: “Vivemos num mundo que valoriza as grandes figuras, os grandes eventos. A História é feita das pequenas estórias do dia-a-dia, e das pessoas que são completamente invisíveis no espaço público”

    Ciência Política ou Engenharia do Ambiente? Dividida entre as duas licenciaturas, Margarida Valença precisou apenas de três meses para descartar a segunda opção. Apesar do gosto pelas cadeiras de Biologia, Química ou Física, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” conta que o curso não lhe despertava paixão. “Saí e fui procurar emprego para a Amnistia Internacional no ‘face-to-face’, que são aquelas pessoas que estão na rua e falam com as pessoas para angariar doadores”. A experiência, conta, trouxe-lhe boas conversas, e competências que vê como valiosas para o jornalismo, atividade que se tornou caminho ainda durante os estudos em Ciência Política. Curiosa nata, há muito que Margarida procura respostas para múltiplas inquietações.  “Andei num colégio de freiras do primeiro ao quarto ano. Foi um motor muito importante para eu começar a questionar o mundo”. Desde logo, a jornalista nota que quando passou a estudar numa escola não-católica, ficou “parva ao perceber que, afinal, as pessoas não acreditavam todas em Deus”. Terá encontrado aí uma ‘permissão’ para, também ela, se libertar de crenças religiosas? “Sinto que há muitas coisas a aprender sobre religiões, e tento ser uma pessoa que procura. Gosto muito dos princípios do hinduísmo, por exemplo. É uma religião que consegue encontrar validade em todas as religiões”.  Os questionamentos acentuam-se na política, tema ao qual sempre esteve exposta em casa, e que procurou aprofundar com ligações partidárias. “Quis juntar-me à Juventude Socialista. Queria de alguma maneira estar envolvida, não sabia muito bem como. Achei que havia ali um conjunto de valores com os quais me identificava”. Um ano depois de avançar, Margarida recuou, por sentir que “estava a ir a imensos eventos, mas não estava a fazer nada em concreto”. A desilusão não a desmobilizou, antes redirecionou-a para o Livre. Desta vez, porém, foram as práticas jornalística e partidária que se revelaram conflituantes. “Mesmo que não esteja na secção de política, e a ir ao parlamento, ela está em todo lado”.  A constatação não alimenta, contudo, pretensões de neutralidade. “Acho que um jornalista não é uma pessoa que deve estar desligada de opiniões, nem de fazer jornalismo com valores”. Idealista por natureza, Margarida sublinha que quando decidiu arrepiar caminho no mundo da comunicação social foi com a perspetiva de fazer coisas alinhadas com aquilo que idealiza. O mesmo impulso guiou a experiência partidária, da qual extrai várias lições. Por um lado, a jornalista observa que “um partido é feito de muita toxicidade, de toda a parte de discussão, de troca, de conflito”. Por outro lado, Margarida sugere que os partidos façam “uma reflexão muito grande” sobre a forma como chegam às pessoas, enquanto ela própria matuta nas suas reflexões. “Um exercício que ultimamente tenho feito é escrever ao computador, às vezes uma hora, para perceber aquilo que penso e sinto. Porque às vezes é uma coisa confusa, quando estamos imersos, e à nossa volta muitas pessoas têm muitas certezas”. Nos antípodas dessa amálgama de certezas, a jornalista lembra como começou a questionar aquilo em que ela própria acreditava. “Comecei a ler coisas de autores mais liberais e autores mais marxistas, e a tentar enquadrar-me”. Com que impacto? Ouça o episódio completo aqui.  See omnystudio.com/listener for privacy information.

  18. 107

    Silvania de Barros: “Trabalhar o silêncio e a solitude é ótimo. Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”

    Entre a calma de São Tomé e Príncipe, onde nasceu e cresceu, e a agitação da vida que encontrou em Portugal, há mais de uma década, Silvania de Barros recorda, neste episódio de “O Tal Podcast”, como lidou com esse contraste de realidades. “Venho de uma cidade pequena, e não me sentia preparada para viver em Lisboa. Eu dizia: é muito ruído, sinto que a minha cabeça vai explodir, são muitas vozes, muitas línguas”. O processo de adaptação trouxe impactos na saúde, física e mental, um dos temas desta conversa. Formada em Gestão pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Silvania de Barros dedica-se, desde a adolescência, vivida em São Tomé e Príncipe, a projetos de intervenção social. Cidadã ativa em defesa da igualdade de género, a são-tomense lembra que continua a ser necessário assinalar o óbvio: esta não é uma luta apenas sobre mulheres. Justamente por isso, ao cocriar com um grupo de amigas o grupo de leitura “Obirin”, para promover autoras negras, fez questão de o manter aberto a todas as pessoas. “As mulheres já escrevem há séculos, só não têm visibilidade”, lamenta, recomendando a todas as pessoas que, a cada leitura, façam um exercício de reflexão. “Quem é que escreve o livro? Do que está a falar?”. Atenta às assinaturas, temas e geografias que acompanham as obras, Silvania recorda que a iniciativa literária surgiu online na altura da pandemia, permitindo ir além da “bolha de Lisboa”. A cidade para a qual a são-tomense admite que não estava preparada quando, em 2014, “aterrou” no rebuliço da zona do Intendente. “Os meus amigos diziam: tens que sair de casa, faz uma caminhada e estás na Graça, tens esse privilégio porque não precisas de apanhar transportes. E eu dizia: não consigo, é muito ruído”. Talvez por isso tenha sentido a necessidade de trabalhar o silêncio e a solitude. “Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”. Além dos ajustes de movimento, a ativista destaca os efeitos que ainda hoje sente no corpo e na mente. Dos ganhos e perdas de peso, às dificuldades com o clima, Silvania partilha, neste episódio, como as consultas médicas, de várias especialidades, se tornaram uma rotina. “São Tomé é um país quente, mas húmido. Quando vim para Portugal, comecei a sofrer muito com a respiração. Fui a uma consulta e o médico ficou incrédulo: nunca viu alguém que pudesse fazer tantas alergias”. Os desafios clínicos estendem-se à própria relação com os profissionais, e dinâmicas do Serviço Nacional de Saúde. “Tinha baixado 20 quilos e agora aumentei 30. E não tenho sentido um acompanhamento verdadeiro. A primeira endocrinologista pediu as análises, a segunda já estava a passar-me antidepressivos, porque dizia que precisava de dormir”. Já num terceiro momento, Silvania conta que recebeu como recomendações uma cirurgia bariátrica ou a toma de Ozempic, medicamento indicado para o tratamento da diabetes, que tem sido prescrito para a perda de peso. Apesar das provações, a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso não tem dúvidas sobre a escolha da sua geografia. “Sei de onde sou, tenho muito fincada a minha identidade, as minhas origens, mas também gosto de me sentir um corpo livre. Estou onde consigo descansar, onde o meu coração está em paz”. Ouça aqui a conversa completa.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  19. 106

    Ismael Santos: “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”

    Inglaterra substituiu o Exército nos planos de vida de Ismael Santos. Atraído pela possibilidade de um percurso académico que em Portugal não vislumbrava, o convidado deste episódio de "O Tal Podcast" conta como se desencantou com a via militar, e partiu à aventura para Londres, destino que trouxe um “grande abre-abrolhos”: a formação em Economia. Mas é no desporto, como personal trainer, que Ismael vive a grande paixão, e transforma em projeto os seus três pilares de vida – fé, legado e resiliência. Entre trabalhar em Economia, onde investiu três anos de estudos superiores, e especializar-se como personal trainer, área na qual se iniciou após cinco meses de formação intensiva, Ismael Santos não hesitou. “Entrei num caminho sem volta”, diz, recordando o encantamento que o afastou da escolha académica. “Fui ganhando experiência como personal trainer, criando relações, comecei a fazer contactos. Dei por mim tão envolvido nessa área, que nem considerei trabalhar em Economia”. Agora à frente do seu projeto – o Alphastry Club –, Ismael aplica as aprendizagens do curso universitário para promover saúde e bem-estar, desafiando mais pessoas a “adicionarem vida aos seus anos”. Com uma proposta que combina exercício físico e mental, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso lembra a importância da resiliência, um dos pilares que fazem parte da sua história, a par da fé e do legado. A família destaca-se nessa tríade, enquanto fonte de motivação e inspiração diária, indissociável da vivência que teve em casa. “No seio dos meus amigos, sou dos poucos que tinham os pais juntos”. Hoje com três filhos, todos menores de idade, Ismael recorda nesta conversa um dos momentos mais difíceis que ultrapassou, com a então parceira de quase 10 anos de vida. “Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”. A experiência aconteceu no início da mudança para Inglaterra, destino de emigração que arriscou há mais de uma década, depois de uma curta passagem pelo Exército. “Quando caímos, levantamo-nos. Esses momentos ajudam a solidificar a resiliência mental, e a construir uma nova identidade”. Já refeito da culpa que acompanhou essa rutura conjugal, o personal trainer lembra que há sempre um contexto para cada história. “Entrava às 6h no ginásio. Saía de um, ia para o outro, e chegava a casa às 23h30, esgotado. Mas quando temos a barriga vazia, temos de ir atrás”. Mais do que seguir no encalço do que é preciso, Ismael empenha-se, dia após dia, em incentivar outras pessoas a fazerem-no, algo que se liga à influência familiar. “Sou o mais velho de cinco irmãos. Sempre olharam para mim como a referência”, nota o primogénito dos Santos, que, com a decisão de emigrar para Inglaterra inspirou a família a seguir-lhe as pisadas. Entretanto regressado a Portugal, o personal trainer revisita diferentes etapas da temporada no estrangeiro, incluindo uma passagem de má memória pela Escócia. “Em Edimburgo tive algumas experiências desagradáveis. O supervisor dos seguranças do centro comercial onde trabalhava tinha uma suástica tatuada”, recorda neste episódio de "O Tal Podcast". Ouça a conversa na íntegra aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  20. 105

    Cleo Diára: “Digo a mim mesma: tu és uma reparação histórica. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”

    Presença confirmada no programa europeu de talentos "Shooting Stars" – que vai decorrer durante o 76.º Festival de Cinema de Berlim, de 12 a 22 de fevereiro –, Cleo Diára continua a firmar créditos internacionais, depois de vencer o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes, pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a também encenadora revisita as emoções de Cannes, recorda a infância em Cabo Verde, partilha as primeiras impressões sobre Portugal, e a inesperada trajetória artística, trilhada depois de uma passagem pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. É aos primeiros anos de vida, em Cabo Verde, que Cleo vai buscar o fascínio por enredos que lhe aguçam a criatividade. “Quando me contam histórias, começo a imaginar, fico a criar as minhas imagens”, revela a atriz que, na infância, em casa da avó materna, descobriu a magia dos contos populares. Hoje com 38 anos, e desde os 10 em Portugal, a atriz conta, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que o encanto pelos universos narrativos se mantém. “Não é a importância de estar num palco ou filme que me move, mas como posso honrar as histórias que conto, que esperanças posso brotar”. Formada na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), Cleo ainda ensaiou uma temporada de estudos no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. “Ser atriz era uma vontade que toda a gente sabia que eu tinha, mas que continuava a ser recalcada”, partilha, lembrando que, quando anunciou que pensava candidatar-se à ESTC, ouviu de toda a gente um sonoro: “Não vais entrar”. Cleo tinha 23 anos, nenhuma referência artística na família, e pouca exposição à dramaturgia. “Os primeiros tempos na ESTC foram duros. Não andei, tive de correr, de dar saltos”. Ao revisitar o percurso, já consagrado com o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes – pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho –, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” faz questão de partilhar o palco. “O Mário Coelho foi super importante, porque eu estava a lidar com as inseguranças de não ter vindo de uma família artista, de não saber as coisas. E ele dizia: tu sabes o que sabes, tens a tua cultura, as outras pessoas têm a delas”. Tal como o amigo e encenador Mário, Nádia Yracema e Isabél Zuaa, amigas e parceiras no coletivo “Aurora Negra”, compõem o elenco de protagonismos da história de Cleo, reconfigurada a partir do encontro com as duas atrizes. “Estávamos a desenvolver o guião, a estrutura do espetáculo [Aurora Negra], e a falar sobre a nossa ancestralidade. E elas iam falando dos povos de onde vinham, tanto da Guiné quanto de Angola. Eu não tinha para onde ir além de saber que era cabo-verdiana. Então decidi investigar a minha família, encontrar os apelidos dos meus avós e bisavós”. Dessa busca surgiu a identidade Diára, nome que emprestou à personagem que viveu em "O Riso e a Faca”, e com o qual homenageia a sua africanidade, indissociável do exemplo da bisavó Ana. É com ela nos pensamentos que afirma: “Digo a mim mesma ‘tu és uma reparação histórica’. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  21. 104

    Miguel de Barros: “A combinação entre a falta de consciência histórica, o vedetismo e a mercantilização das relações está a produzir seres egoístas”

    Ainda não tinha 40 anos quando foi distinguido como a personalidade mais influente da África Ocidental, no mesmo ano de 2018 em que também recebeu o prémio humanitário Pan-Africano de Excelência em Pesquisa e Impacto Social.  Hoje com 45 anos, Miguel de Barros, convidado deste episódio de ‘O Tal Podcast’, continua a somar distinções, num palmarés a que se juntou, em 2025, o reconhecimento da Fundação Amílcar Cabral, com o medalhão comemorativo do centenário do líder histórico. É caso para perguntar: como é que o legado cabralista influencia o pensamento e a ação do sociólogo e investigador guineense? Descendente de “uma família revolucionária de Bissau, que esteve na génese do movimento libertador, tanto na clandestinidade como na frente armada e diplomática”, Miguel de Barros conta que, embora a sua casa tenha sido um espaço de confluência de nacionalistas africanos, tanto da Guiné como dos outros PALOP, o ensinamento de Cabral não veio de berço. “Foi uma descoberta fruto das necessidades que tive, e não algo inculcado”, nota o sociólogo, recuando aos primórdios da ligação ao pensamento e prática do líder histórico. “Aprendi no meu percurso enquanto cidadão”, revela Miguel, a partir da adolescência ativamente envolvido nos então incipientes movimentos juvenis guineenses. Nessa fase, de transformação do país para a liberalização política, o investigador recorda que o fator mais determinante para a sua formação cívica foi a escola da Tiniguena. “Tiniguena significa ‘esta terra é nossa’, um movimento que apareceu quando havia uma abordagem dos atores públicos de desengajamento do Estado, de privatização”. Cofundador da chamada Geração Nova da Tiniguena, cujo slogan era ‘Conhecer para amar, amar para proteger’, o sociólogo sublinha a importância ambiental e cívica desse projeto educativo, que, através de um programa de visitas de estudo, aproxima adolescentes de sítios de património natural, cultural e histórico do país. “A Tiniguena marcou e transformou a minha vida”, revela o guineense, que se preparava para seguir planos de uma carreira na medicina quando uma dessas incursões pela Guiné lhe trocou as voltas. “Queria ser cirurgião, estudei os agrupamentos necessários, mas quando saí da visita disse que não. O médico tem um papel mecânico na sua atuação. Eu queria transformar a sociedade, acabar com as desigualdades”. Do ímpeto adolescente para o compromisso adulto, Miguel reconfigurou não apenas a escolha profissional, mas também a gestão dos tempos livres. “Não viajo para férias. Viajo para interagir e trabalhar com comunidades, com ONGs, cooperativas que têm interesse em imaginar memórias do futuro, pensar processos de planificação estratégica participada, fazer mapeamentos territoriais, e colocar isso ao serviço da sociedade”. Entre idas e vindas, o sociólogo foi aprofundando a leitura crítica da realidade africana e global. “As grandes revoluções já aconteceram”, defende, acrescentando que “nunca vamos conseguir fazer aquilo que a geração de Cabral fez”, e que “só não somos felizes porque houve traição à memória dessa geração”. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o investigador guineense apela ainda à refundação do sistema educativo e à mudança do sistema financeiro global, enquanto alerta para os ‘pecados’ da geração atual. “A combinação entre a falta de consciência histórica, o vedetismo e a mercantilização das relações está a produzir seres egoístas”. Ouça o episódio completo aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  22. 103

    Rita Cruz: “Ser uma boa pessoa é uma relíquia, ter em atenção o outro. Nós estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”

    Escreve, encena, interpreta e também canta. Artista para muitos espetáculos e produções, Rita Cruz está habituada a desdobrar-se entre o teatro, a televisão, o cinema e a música. “O problema é estar quieta”, diz a autora do single ‘Cuidado’, gravado com Dino d’Santiago. Além de nos apresentar esta sua novidade discográfica, a convidada desta semana de ‘O Tal Podcast’ revela como a “teimosia” e uma “escolha um pouco inconsciente e meio infantil” se concretizaram numa carreira no mundo da representação. Ainda pequena, Rita Cruz sonhou e anunciou o próprio futuro: “vou ser atriz”. A certeza, conta nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, foi-se acentuando enquanto crescia, nas “pequenas rábulas” que fazia na escola. “Era mais forte do que eu, essa necessidade de colocar a criatividade em prática”. Os planos artísticos acabaram, contudo, adiados, ao esbarrarem em alertas de precariedade laboral. Por um lado, a mãe aconselhou-a a tirar um curso superior com uma saída profissional estável. Por outro lado, o pai estava bem consciente dos desafios da vida de artista. “Era músico, mas também tinha uma profissão dita normal. Acho que ele via em mim este gosto pela arte, mas também me dizia: vai por uma coisa mais segura”. Rita foi, e por isso formou-se em Reabilitação e Inserção Social, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, antes de seguir o destino que desde cedo reconheceu como seu. Licenciada em Teatro – Atores, pela Escola Superior de Teatro e Cinema, avançou para os palcos e nunca mais recuou. “Cofundei o Teatro do Eléctrico já com a vontade de construir oportunidades. Só mais tarde percebo a importância que teve, porque jovens vieram ter comigo: ‘olha, fui para a escola de teatro porque te vi num palco, nunca tinha visto uma atriz negra’”. Hoje consciente da importância de todas as pessoas se sentirem identificadas na ficção, Rita defende que a “falta de representatividade fecha-nos a possibilidade de sonhar”. Ela própria ‘órfã’ de referências negras – “Em criança via quem? A Whoopi Goldberg, e pouco mais” –, reconhece que a sua trajetória foi construída a partir de uma “grande vontade de fazer”, combinada com uma certa dose de inconsciência. “Ouvi muitos “nãos’ e ‘mais vale não vires ao casting porque não fazes parte do perfil’. Eu percebia o que se queria dizer, era pura e simplesmente a cor. Mas ia, e aconteceu-me variadíssimas vezes o encenador ter gostado da minha prestação e ficar com o papel”. Contra as probabilidades, numa altura em que “não via Ritas na televisão, na publicidade, ou na música”, a multifacetada artista considera que, a partir da exposição a outras Ritas, as novas gerações expandiram o imaginário, e, com isso as aspirações. “Há uns tempos, tivemos uma conversa com diferentes gerações, em que se falou de representatividade, e viu-se a diferença geracional: os miúdos de 20 anos são muito mais frontais, [dizem]: “isto é um direito meu’”. Além das palavras, a atriz sublinha a importância de combater atos de discriminação, algo que procura fazer também através da educação do filho. “Quando eu era mais jovem sentia-me sozinha e não sabia porquê. Era um sítio de solidão, este não dizer, sentir, mas não saber dar nome, este não lugar. Portanto, acho muito importante falar [sobre racismo] com os pais, com a professora, e com o meu filho”. Um dos temas de discussão, aponta Rita, tem sido o lápis cor de pele. “Basta colocar várias mãos à frente, e conseguem perceber que há diferentes tons de pele. Isto é muito importante para as crianças não se sentirem sozinhas, num sítio de exclusão”. O compromisso com a inclusão, presente na representação e na maternidade, estende-se à música, e tem no tema ‘Cuidado’, gravado com Dino d’Santiago, um sonoro manifesto. “Ser uma boa pessoa é uma relíquia, ter em atenção o outro. Nós estamos num sítio de muito umbigo, fechados. Temos de procurar mais o outro”. Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  23. 102

    Carlos Andrade: “Preciso de fazer coisas em crioulo. Sinto que tenho uma responsabilidade com Cabo Verde, porque não há muitas pessoas a fazer conteúdos em crioulo”

    Popularizado nas redes sociais, pela criação de conteúdos humorísticos em crioulo cabo-verdiano, Carlos Andrade, ou simplesmente ‘Artolash’, estende cada vez mais a sua influência digital aos palcos. Autor do espetáculo “Berdianos ka Konxi Limiti” (“Cabo-verdianos não conhecem limites”) – com o qual esgotou, no último sábado, 20, o Auditório Nacional da cidade da Praia, em Cabo Verde –, o humorista é o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso. Quando olha para a chegada a Portugal, aos 16 anos, Carlos Andrade vê com nitidez não apenas o que encontrou, mas sobretudo o que ficou para trás. “Se permanecesse em Cabo Verde, acho que o meu futuro teria sido muito diferente”, diz, enquanto revisita impulsos adolescentes. “Comecei a fazer umas coisas um bocadinho manhosas, a dar-me com pessoas que não devia. Uma delas está presa, outra morreu”, conta neste episódio d’ ‘O Tal Podcast’, sem esquecer um encontro providencial com um polícia à paisana. “Apontou-me uma arma, encostou-me à parede, revistou-me e disse: ‘O que estás a fazer? Volta para casa!”. Carlos obedeceu e, embora não acredite em planos divinos, ficou com a sensação de que talvez a mãe já pressentisse o pior. “Percebeu que se não me tirasse de Cabo Verde, provavelmente alguma coisa de mal poderia acontecer”. Como quem dá à luz a várias vidas do filho, Inês Andrade, mãe do humorista, está no centro de todas as grandes mudanças da sua história, percorridas nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. Para começar, foi a mãe quem tratou de tudo para que, ainda no secundário, viesse estudar para Portugal. Depois, encorajou-o a nunca desistir dos estudos, via de acesso à SIC, onde a produção e gestão de conteúdos o transportou para vários momentos inimagináveis. “Nunca pensei falar pessoalmente com a [atriz] Juliana Paes, e ela já bebeu grogue comigo, porque quando fui para os Emmy levei uma garrafa, e fiz um conteúdo incrível com o pessoal”. O momento viveu-se em 2019, em Lisboa, na Gala Semifinal dos International Emmy Awards, numa altura em que a sua mãe já se tinha transformado numa espécie de talismã artístico. “Representei-a muito em vídeos e sketches que me catapultaram no mercado cabo-verdiano, para ser mais conhecido e fazer mais shows”. Com a recriação, em personagem, da figura da mãe cabo-verdiana, inspirada na sua própria progenitora – a que se juntam outras criações icónicas, como Djubensu –, ‘Artolash’ foi firmando assinatura humorística nas redes sociais, sempre em crioulo, presença hoje popularizada muito além do digital. Depois de várias apresentações para a diáspora cabo-verdiana nos EUA e em países europeus, o comediante esgotou, no último sábado, 20, o Auditório Nacional da cidade da Praia, em Cabo Verde, com o espetáculo “Berdianos ka Konxi Limiti”. Em português, “Cabo-verdianos não conhecem limites”. A proposta estreou-se este ano em Lisboa, confirmando que, também por cá, há público para a comédia em crioulo. “Sinto que tenho uma responsabilidade com Cabo Verde, porque não há muitas pessoas a fazer conteúdos em crioulo”, nota o humorista, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. Mas, muito mais do que subir ao palco disposto a arrancar gargalhadas de audiências, o humorista – e assumido viciado em fazer rir os outros – orgulha-se de contribuir para a emergência de uma nova geração de comediantes. “Vários humoristas cabo-verdianos agradecem-me porque tive influência no começo da sua carreira. Hoje estão a trabalhar, e conseguem fazer dinheiro online, com humor e publicidade. Isso deixa-me contente”, revela Carlos Andrade neste episódio d’ ‘O Tal Podcast’, que pode ouvir aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  24. 101

    Mariana Gil (Parte 2): “Não represento ninguém. Apresento-me, e isso pode servir de representatividade, que são coisas diferentes”

    Maria e Mariana Gil, mãe e filha, são as convidadas deste episódio de ‘O Tal Podcast’, para ouvir em duas partes. No final da primeira metade da conversa, que pode escutar aqui, estávamos prestes a conhecer uma das histórias que marcam um contínuo de embates étnico-raciais vividos pela família na escola, ponto de partida para a segunda parte deste episódio, conduzido por Georgina Angélica e Paula Cardoso. "Os gémeos estavam na pré-escola e pediram-nos: tragam algo para a festa de Natal, que tenha a ver com o lugar de onde vêm. Eu disse: nós moramos aqui ao lado, nascemos aqui", conta a mãe de António, Salvador, Vicente e Mariana, lembrando que, nessa como noutras ocasiões, fez questão de sublinhar que a sua família não se limita a estar aqui, porque ela é daqui. Como se não bastasse ser relegada à condição de estrangeira no próprio país, Maria ainda teve de suportar a ostracização da sua herança cultural, ao propor levar um doce cigano, típico de Natal.  “Alguém da escola diz: não faça isso aos seus filhos. Já viu que são tão giros, tão loirinhos. Assim, toda a gente fica a saber que são ciganos". A circunstância de ter de se “moldar a uma clandestinidade, para ter acesso ao que é legítimo”, conforme referiu na primeira parte desta conversa, não a protege, contudo, do anticiganismo nem do racismo, algo que refere na segunda metade deste episódio de ‘O Tal Podcast’. “O nosso lazer é uma afrontação para o geral, é criminalizado. Eu, enquanto corpo cigano, ou corpo racializado, sentada numa esplanada, não estou a fazer mais nada a não ser viver à custa dos outros”. Entre a hipervisibilização que condena, e a invisibilização que exclui, Mariana matura o olhar: “A resistência foi-me imposta. Eu nasci para existir e obrigaram-me a resistir”. Na sequência do que tinha referido na primeira parte deste episódio, quando mencionou que o ativismo se tornou incontornável na sua história, a estudante de Ciências da Comunicação partilha a importância de trazer leveza a esse quotidiano de combatividade. “Falei sobre apropriação cultural na televisão, e agora só estou nesse lugar de militância, de luta, e tudo o que me desvie disso é frivolidade ou futilidade”, assinala, recordando a passagem pelo concurso Cabelo Pantene. “Tinha plena consciência de que também era o meu espaço”, recorda, enquanto insiste na força do amor-próprio. “No infantário diziam: és feia, e eu: ok, fica com a tua opinião. Nem toda a gente cresce com essa autoestima”. Apesar de reconhecer o efeito da representatividade nessa equação, a jovem faz questão de se libertar de narrativas de excecionalidade. “Gosto quando as pessoas se inspiram naquilo que digo. Não gosto quando dizem: Mariana, tu vais salvar-nos, porque não posso salvar ninguém sem também ser salva”. Determinada a encontrar o seu caminho de leveza e de descanso, onde inclui expetativas de uma vida política e financeiramente estável, a estudante é perentória: “Não represento ninguém. Apresento-me, e isso pode servir de representatividade, que são coisas diferentes”. Os planos da filha cruzam-se com os desejos da mãe. “Uma das grandes aspirações que tenho para a Mariana é ela poder acordar sem ter de se preocupar: ‘Será que vou vestir já a capa de ‘super guerreira, super heroína’? Simplesmente o poder da escolha”. Por agora, a estudante lembra que o direito de escolher continua longe de ser universal. “Quando não se vem de uma classe endinheirada, temos de pensar: vou para a faculdade, isso significa adiar talvez três anos de trabalho, mas se escolher bem o curso, será que me dá dinheiro logo?”. Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  25. 100

    Maria Gil (Parte 1): “É muito cansativo educar os nossos filhos para uma militância permanente. Educá-los sobre um estado constante de vigilância é de uma violência enorme”

    Mãe e filha, Maria e Mariana Gil são as convidadas deste episódio de O Tal Podcast, para ouvir em duas partes. Nesta primeira metade da conversa, Georgina Angélica e Paula Cardoso percorrem os afetos familiares, indissociáveis de uma herança coletiva de desafetos. “Há um projeto secular do anticiganismo, bem impresso na história em Portugal. Tanto que os nossos filhos, quando estão na escola, têm que se editar. Têm que entrar deixando a sua identidade para trás, porque não há nada nos livros escolares que diga: vocês existem”. O diagnóstico, aponta Maria, agrava-se num emaranhado de preconceitos que forçam destinos de luta e resiliência. “É muito cansativo educar os nossos filhos para uma militância permanente. Educá-los sobre um estado constante de vigilância é de uma violência enorme”. Antes do nascimento de Mariana, há 20 anos, Maria já educava António, Salvador e Vicente, experiência que a obrigou a calibrar perspetivas, e a reconhecer na escola um lugar de confrontos. A experiência é partilhada pela filha única, perentória na autodescrição: “Atualmente, a minha simples apresentação torna-se um ato de resistência: sou Mariana, cigana, afrodescendente e estudante do Ensino Superior em Portugal”. Desde cedo confrontada com o peso das características que marcam a sua identidade, a mais nova dos Gil recorda quão “perverso” pode ser o sistema de ensino. “No nono ano, antes do Covid-19, tinha um colega racista, que fazia afirmações extremamente perigosas. Tive a infelicidade de, no calor de uma discussão, em que ele se dirigia a mim com extrema violência, o chamar de nazi”, conta, sem perder de vista o desfecho. “No final do período, tive um valor retirado da nota e o aluno racista não teve nenhuma repreensão. Nem tentaram perceber a motivação daquela minha palavra”. Antes desse embate, a hoje estudante de Ciências da Comunicação recorda o primeiro confronto com os enviesamentos curriculares. “Fui a primeira pessoa a aprender a ler na minha turma, e a primeira vez que abri um dicionário, das primeiras palavras que fui procurar foi cigano. O que lá encontrei não foi nada bom”. A consciência da discriminação e da exclusão não demoraram a forjar um forte compromisso ativista, extensivo ao universo da moda, que navega criticamente. “Porquê é que numa menina branca um coque bastante liso e umas argolas douradas é clean e chic, mas numa menina cigana, negra, indiana já é um estilo marginal? Comecei-me a questionar”, adianta Mariana, criadora da “Statement Magazine”, projeto académico que define como “disruptivo”. O engenho criativo e a assinatura política, reconhecida pelos pares, evidencia-se em casa desde a infância. “A Mariana tem uma capacidade imensa, de me obrigar a reorganizar enquanto pensamento. Ela consegue fazer essa reorganização não para mim, não por mim, mas comigo. Isso tem sido incrível, porque tem-me trazido outros pontos de consciência”. Ao reconhecimento materno, a estudante universitária responde com reconhecimento filial. “Eu e a minha mãe estivemos ligadas durante nove meses por um cordão umbilical, e depois a ligação manteve-se via Bluetooth. Somos dois dispositivos que não funcionam um sem o outro”. Os firmes laços familiares expressam-se também numa campanha fraterna no mínimo original: “Os meus irmãos têm um autocolante no telemóvel a dizer: Marianinha for President [Marianinha para Presidente]”. Ouço aqui a primeira parte deste episódio, que continua na próxima semana.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  26. 99

    José Baessa de Pina: “Não há trabalho precário. Há trabalhos mal pagos que tornam a pessoa precária”

    No mesmo ano – 1976 – em que Portugal aprovava a sua Constituição, estabelecendo os direitos, liberdades e garantias fundamentais dos seus cidadãos, José Baessa de Pina nascia em território nacional, destituído dos mais elementares preceitos constitucionais. Filho de ex-contratados cabo-verdianos que, antes de serem mobilizados para Lisboa pelo regime colonial, amargaram trabalhos forçados nas roças de São Tomé e Príncipe, Sinho, como é mais conhecido, habituou-se a contar a sua história no plural. A caminho dos 50 anos, o vice-presidente da Associação Cavaleiros de São Brás, com sede no Casal da Boba, na Amadora, reconstitui as memórias pessoais e familiares a partir dos laços comunitários que nenhum processo de demolições e realojamentos conseguiu desfazer. Convidado desta semana de O Tal Podcast, Sinho recorda como os escombros do Bairro das Fontainhas, onde cresceu, continuaram a ser lugar de pertença anos após a mudança para a Boba. “No processo de realojamento não se preocuparam com o acompanhamento de psicólogos, [o efeito de] tirar uma pessoa de uma comunidade autoconstruída, pé no chão, que tem muita solidariedade e autoajuda”, nota o líder comunitário, partilhando um dos efeitos do desenraizamento. “Fomos realojados em 2001. Em 2004, nós, jovens, ainda dormíamos nas Fontainhas. Isso tem que ser estudado. Porque é que és realojado num bairro, e três anos depois ainda vais dormir [ao antigo bairro]”. As marcas dessa experiência avivam-se nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, e também se ativam no passeio “Noz Stória”, conduzido por Sinho como uma homenagem à sua comunidade, e uma denúncia contra as ausências e os excessos do Estado. “Enquanto a esquadra não estivesse construída, não fazíamos o realojamento. Foi a primeira coisa que senti: vamos continuar a ser guetizados”. As políticas de exclusão, nota o também agente cultural, estão bem visíveis na paisagem urbana que caracteriza os bairros de habitação municipal, esvaziados de zonas verdes e áreas de diversão para as crianças. “Havia uma biblioteca, o Pólo da Boba, e tiraram. Era a melhor ferramenta que estava no bairro”. Muito além dos espaços, as lógicas de subtração operam na construção da personalidade, conforme conta Sinho neste episódio. “A minha primeira língua é o crioulo. Levei várias reguadas porque a professora dizia que eu não falava correto. Isto tira-te a autoestima, queres ficar lá no canto”. Hoje pai de uma jovem mulher– a atleta olímpica Taís de Pina –, e de gémeos adolescentes, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso faz questão de quebrar velhos ciclos de encolhimento. “O meu pai nunca falou comigo, era pouco diálogo, muito rígido. Estamos noutro tempo, mas ainda a desconstruir, porque há um modelo de criação antigo que com essas crianças de agora tens que negociar, sem deixar o respeito”. Nesta conversa, o líder comunitário reflete também sobre a desproteção das relações laborais.  “Não há trabalho precário. Há trabalhos mal pagos que tornam a pessoa precária”, defende, alertando para os desequilíbrios de poder que fragilizam os trabalhadores."Temos um Portugal com neocolonialismo. Estamos a ver na televisão, em 2025, a mesma exploração. Está escancarado nas notícias: 10 GNR dentro de um gangue a escravizar pessoas”. Ouça o episódio completo aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  27. 98

    Telma Tvon: “A minha avó já era coach de desenvolvimento pessoal. Essa história de ‘tu é suficiente, magnífica, fantástica’ ela dizia-me a mim, aos meus primos e à minha irmã”

    Desligada das redes sociais, por lhe darem mais dores de cabeça do que alegrias,Telma Tvon anda sempre acompanhada de pelo menos um par de livros. "Jogos da prisão", que estava a ler à data desta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, revirou-lhe intensamente as emoções, talvez por encontrar na escrita de Nana Kwame Adjei-Brenyah mais um retrato inquietante da realidade. É a ela – à vida nossa de todos os dias – que a convidada deste episódio d’ O Tal Podcast vai buscar inspiração para criar. Seja no rap, onde se destacou como integrante das Backwordz, seja na literatura, onde se estreou com “Um preto muito português”. A obra, publicada em 2017, foi reeditada no ano passado pela Quetzal, selo editorial com que se prepara para lançar um novo título, no qual as mulheres são sujeito e ação. É para elas que a escritora e rapper deixa uma mensagem, já no final desta conversa. “Gostaria de lançar um desafio para quem nos está a ouvir, sendo mulheres africanas, ou descendentes de mulheres africanas, para nos juntarmos, e consumirmos mais coisas que as mulheres africanas estão a produzir”. Mais do que um encontro, Telma propõe um movimento de rutura com velhos condicionamentos. “Sentia-me deslocada no universo feminino. Cresci com muitos primos, e tinha a ideia errada de que as mulheres não gostavam de mim. Acho que a sociedade nos incute isso”. Há muito distanciada de imposições e distorções de género, a angolana conta como o rap foi passaporte para se encontrar, numa viagem por rimas que se iniciou na infância, em Luanda, e levantou voo na adolescência, vivida nas periferias de Lisboa, entre turbulências de adaptação. “Saí de Angola por causa da guerra. Mas vim um bocado contrariada. Eu estava feliz lá, com os meus 12, 13 anos, com amigos, a crescer e a aprender tantas coisas”. Já em Portugal, Telma confrontou-se com novos espelhos. “Vens, e de repente tens que conhecer todo um outro universo. Pessoas que nem sempre estão recetivas porque és diferente, porque és essa pessoa preta, estranha, que vieste para o país deles”. As provações da mudança tiveram na escola um dos palcos principais, de onde a escritora extrai muitos episódios de discriminação. “Sempre fui muito boa aluna. Fiz um teste de português e fui a melhor, mas a professora achou que tinha copiado. Disse: como é que uma aluna que veio da Angola pode ter a melhor nota?”. Nessa, como noutras situações, Telma encontrou na avó o porto de abrigo. “Às vezes chegava a casa a chorar, outras, cheia de raiva, e a minha avó era a pessoa que me punha no centro. Dizia: não vais ser igual a eles. Eles não foram educados como tu foste”. Enraizada na segurança encontrada no reduto familiar, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso revela que “quando sentia que estava a desmoronar”, porque duvidavam das suas capacidades, lembrava-se sempre da avó. Ela “já era coach de desenvolvimento pessoal”, brinca a a angolana que, nesta conversa, percorre também memórias de Luanda, e partilha o seu olhar sobre o atual momento da sociedade portuguesa. “Houve uma altura que os professores se coibiam de dizer certas coisas aos alunos. Agora tens miúdos de 14, 15 anos a quererem desistir da escola porque o professor disse: porque é que queres ir para a Química? A tua mãe é empregada doméstica”. Ouça o episódio completo aqui.  See omnystudio.com/listener for privacy information.

  28. 97

    Bruno Furtado: “Colocam em causa a legitimidade do meu documento porque nasci em Santa Maria [no hospital] e sou cabo-verdiano. É como se fosse um gajo falsificado, como se não existisse”

    Onze anos de prisão em quase 40 de vida dão a Bruno Furtado uma idade que não cabe em documentos. Mas são eles – os papéis – que marcam a sua história, já traduzida para o documentário “Complô”, que se estreia hoje, 20, nos cinemas de mais de uma dezena de cidades do país. A produção, assinada por João Miller Guerra, já foi distinguida com uma Menção Honrosa, na última edição do Doclisboa, projetando uma condição pouco conhecida, ou até mesmo desconhecida em Portugal: a de “órfão do Estado”. É sobre ela que gravita a existência de Bruno, o convidado desta semana de O Tal Podcast. Nascido no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Ghoya, como também é tratado, nunca viu reconhecido o direito a ser português. Empurrado por sucessivas ‘armadilhas’ administrativas para as margens do exercício da cidadania, o rapper e ativista político conhece bem as impossibilidades de uma existência indocumentada. “Colocam em causa a legitimidade do meu documento porque nasci em Santa Maria [no hospital] e sou cabo-verdiano. É como se fosse um gajo falsificado, como se não existisse”, conta. ‘Invisível’ no sistema dos direitos, e hipervisível no território dos delitos, Bruno começou cedo o seu percurso de institucionalização. “As pessoas podem meter os rótulos que quiserem, mas se estamos num centro educativo somos crianças. Fizemos alguma coisa que justifica estar lá, tudo bem, mas chegamos e temos monitores que não estão preparados para lidar com a situação”. Sem rodeios, Ghoya recorda, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o abandono infantil que viveu e testemunhou quando foi institucionalizado, e vê nele uma fonte de desigualdades estruturais. Hoje pai de três, o rapper sublinha que as pessoas indefesas, como o são as crianças, devem ser cuidadas e protegidas. A consciência mantém-no, por enquanto, longe dos filhos. “Estão em Inglaterra, com a mãe deles. Quero ir visitá-los, e não posso”, lamenta Bruno, expondo um dos efeitos da falta de documentos.  “É um complô tão grande que nem se importam que tu saias [do país]. Depois, estás a entrar e dizem: ‘Não, desculpa lá, tu nem és português”. A prática sobressai no documentário, que, tal como as músicas de Ghoya, denunciam os caminhos e descaminhos que se traçam entre excesso e défice de Estado. “Essa vontade que a polícia sente de invadir os nossos corpos e nos brutalizar de forma tão violenta já vem de um hábito. Fazem-nos isso desde tenra idade”, nota o activista, realçando que nada tem contra os agentes. “Nós vemos a polícia como um órgão que nos protege, que nos deve defender. O que me indigna não é haver um ou 10 polícias maus. É que nem os bons se prontificam a combater isso, e se protegem. Há aqui uma inversão de valores”. Crítico, desde logo de si próprio, Bruno Furtado partilha, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, os processos de desumanização que se vivem nas cadeias e fora delas. “Existe uma espécie de negação patológica [em Portugal]. Temos cidades, bairros e ruas de ascendência árabe e africana. E agora, como se estivéssemos numa crise de identidade, dizemos: não temos nada a ver com vocês”. Ouça o episódio completo aquiSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  29. 96

    Pedro Hossi: “As nossas cabeças são lugares violentíssimos e horríveis. Nós somos os nossos piores inimigos, somos extremamente duros connosco”

    Às vezes em estúdios de televisão, outras nos palcos do teatro, e também pelos plateaux de cinema, Pedro Hossi veste e despe personagens há mais de duas décadas. Ator com formação no prestigiado Lee Strasberg em Nova Iorque, o também realizador conta, neste episódio de O Tal Podcast, como passou de “vadio” a “príncipe” no mundo da representação. As inesperadas categorias profissionais, que conheceu a partir das lições do veterano George Loros, marcam o arranque desta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, pontuada por reflexões sobre a carreira, a família e a espiritualidade. “Sinto-me muito tranquilo em relação ao passar do tempo e dos dias. Mas há coisas que quero fazer, e estou muito mais consciente em relação àquilo que tem que ser feito”, aponta o angolano, sublinhando que nem sempre foi assim. “Padeci dessa doença de me levar muito a sério quando comecei”, recorda, enquanto avalia o currículo de aprendizagens. “Fui parar a uma escola de teatro que ensina uma técnica – o método – que convida o ator a mergulhar em si para emprestar isso à personagem”. O processo, explica Pedro, “faz com que os atores fiquem no seu mundo”, fechamento que se pode revelar problemático. “Levou-me algum tempo a sair daí”. Assim encerrados, como nos libertamos de nós mesmos? “Lembro-me de estar num período desajustado, com muitas questões e talvez alguma falta de fé, e de ter feito uma viagem que me ajudou a restaurar esse conceito de fé, e a perceber que o mundo não anda à deriva, e a perceber também que o carma tem a ver com as nossas ações”. Hoje apaziguado com as perdas da vida, “sejam mortes, fins de relações, pessoas que se afastam”, o ator considera que “aí existe muita graça”, porque “é quando provavelmente estamos mais próximos de Deus”. Não a representação cunhada pelas religiões, mas aquela intrinsecamente humana. “Acho que existe um Criador, mas nem me atrevo a tentar descodificar que criador é esse, se tem formas, se é uma energia”, revela o convidado desta semana d’ O Tal Podcast, para quem “todos somos seres espirituais”, ainda que muitos de nós se tenham esquecido. “Quando tudo está a desmoronar, ou falha, ou quando estamos num lugar de perfeito desajuste, podemos sempre fechar os olhos, respirar fundo e meditar”, propõe o ator, que encontrou nessa desaceleração uma prática diária, com ganhos assinaláveis. “Sinto-me com muito mais energia vital hoje do que tinha há 10 ou há 20 anos. Tenho uma prática física muito regular, e isso tem mais que ver com processos mentais do que com processos físicos”. Talvez por isso, Pedro veja como redutor o conceito de saúde mental. “Acho que essa designação fica muito aquém do flagelo real do que vai dentro da cabeça das pessoas”, nota, sem hesitar no autodiagnóstico. “Sou duro comigo, especialmente quando fico aquém daquilo que sei que é a minha capacidade”. Consciente de que não está sozinho nesse processo de autoflagelação, o angolano considera que “as nossas cabeças são lugares violentíssimos e horríveis”, acrescentando: “Nós somos os nossos piores inimigos, somos extremamente duros connosco”. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, o ator angolano partilha também a proximidade aos avós e à mãe – que o teve com 15 anos –, e revisita o polémico beijo gay que protagonizou na novela angolana Jikulumessu. “Fui ameaçado uma vez na rua [em Luanda]. Lembro-me de um tipo se ter dirigido a mim e dizer: vocês estão a trazer para aqui essa coisa da homossexualidade. Isto não faz parte da nossa cultura”. Ouça aqui o episódio na íntegra.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  30. 95

    REWIND - Paula Almeida

    “Estejamos mais abertos para acolher as nossas crianças!”. Mais do que a expressão da sua experiência profissional e da vivência pessoal, as palavras de Paula Almeida refletem a sua consciência sobre a necessidade de um despertar comunitário. “A mulher negra sempre acolheu”, assinala nesta conversa, entre partilhas sobre a sua própria viagem pela maternidade.https://www.otalpodcast.com/p/paula-almeidaSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  31. 94

    Ana Paula Costa: “Migrar é também renascer de alguma forma, é ir-se reconstruindo. Tive o privilégio de construir boas relações interpessoais”

    Presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Ana Paula Costa conhece como poucos as políticas, práticas e leis da imigração, tema incontornável neste episódio de O Tal Podcast. “Estamos a viver um atentado a direitos conquistados”, lamenta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, obstinadamente alicerçada nos valores de Abril. “Todo o processo democrático foi de construir um mundo que fosse igualitário e livre para todas as pessoas”. Desde 2016 em Portugal, Ana Paula conta, nesta conversa, que veio sem planos para ficar, mas acabou rendida ao encanto de Coimbra. Quase uma década depois, a cientista política nota que os desafios da migração mudaram muito, decalcados do momento político que se vive no país. “Sempre existiu xenofobia, mas a animosidade de hoje, inclusive nas relações sociais interpessoais, não estava presente”, sublinha, lamentando a instrumentalização que tem sido feita das pessoas imigrantes, “usadas para expiar muito dos problemas sociais”. O retrocesso não desvia, para já, a rota de Ana Paula, que tem o sangue da resistência e resiliência a correr-lhe nas veias. “A minha avó ficou viúva com cinco filhas. Então, teve que espalhar as meninas pelo Brasil. Depois, reuniu de novo as filhas, comprou uma casa. Eu venho dessa família, que conseguiu se reerguer numa força feminina”. Natural de Cachoeiro de Itapemirim, berço de várias referências culturais brasileiras, como o “Rei” Roberto Carlos, a cientista política descreve a sua cidade como “muito artística, bastante influenciada pelos atores, e autores da literatura”. Foi lá que, ainda na infância, Ana Paula se tornou Paulinha, nome que molda a sua identidade, mas que já se habituou a ouvir apenas quando está de regresso à morada de nascimento. “Todo o mundo me chama de Ana Paula aqui em Portugal. Lembro que no início, quando ia para o Brasil, ficava meio confusa”. Apesar de se reconhecer mais como Paulinha, a cientista política vê nas variações de tratamento mais um reflexo natural dos movimentos transatlânticos. “Migrar é também renascer de alguma forma, é ir-se reconstruindo”. Nesse processo haverá partes que morrem? Quais? “A gente idealiza o processo migratório, o país, a relação que se vai construir. E quando entramos em contato com a realidade, há sempre essa morte do imaginário”. Ao mesmo tempo, “nascem mais coisas ou se afirmam mais coisas”, reconhece Ana Paula, refletindo sobre as mudanças que foi e vai encontrando. “Acho que migrar me fez ser muito mais brasileira”, diz, sem abdicar das suas particularidades. “Tenho um orgulho enorme de falar com esse sotaque brasileiro. É uma preservação de mim, nesse ambiente migratório”. Educada para ser tudo aquilo a que aspira, a presidente da Casa do Brasil de Lisboa não hesita na direção. “O sentido das coisas é coletivo, porque sozinho a gente não consegue fazer nada, não há caminho possível”. Firme na caminhada, Ana Paula Costa partilha, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, alguns pesos emocionais que se carrega na bagagem da imigração, sem nunca descurar o compromisso cívico. “Quero ficar em Portugal, mas o país precisa de mudanças, e eu quero fazer parte delas, com os portugueses que trabalham para construir um país melhor”. Ouça aqui o episódio completo.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  32. 93

    REWIND - Ana Marta Faial

     Sem tabus, a antiga modelo partilha a violência que sofreu na última relação, tão abusiva que chegou a temer pela vida.Ana Marta Faial foi distinguida como “Manequim do Ano”, em 1986. Até hoje reconhecida pelos dotes de passerelle, a ex-modelo tem colocado a sua experiência ao serviço da formação de novas gerações. Hoje com 66 anos, além de formar manequins, e juntar a sua assinatura profissional às marcas Elite Model Look Angola, Cabo Verde e Moçambique, Ana Marta conjuga talentos de artista plástica com os de designer de moda.https://www.otalpodcast.com/p/ana-marta-faialSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  33. 92

    Ana Paula Tavares: “Comecei a seduzir pela palavra. Era eu que fazia as redações dos colegas. Era uma forma de exercer poder”

    Hoje celebramos a vida e a obra de Ana Paula Tavares, que neste 30 de Outubro festeja o 73º aniversário, depois de no passado dia 8 ter sido aclamada vencedora da 37.ª edição do prestigiado Prémio Camões. O reconhecimento literário da poeta e historiadora dá o mote para esta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, iniciada com uma proposta de releitura da obra “Ritos de Passagem”. Quatro décadas depois da publicação, que marcou a sua estreia editorial, será que Ana Paula Tavares encontra novos significados nas palavras que escreveu lá atrás?  “Ultimamente, não só por causa do prémio e das entrevistas que provoca, senti muita necessidade de voltar aos princípios, a uma linguagem que escolhi, e que tinha, digamos, alguns frutos do bioma angolano, das coisas que são angolanas, e das coisas que chegaram ao país, entre os muitos trânsitos, e os milhares de migrantes que foram fazendo aquela entidade histórica, social, psicológica e linguística que é a Angola dos nossos dias”. Nesse exercício de regresso ao início, a poeta nota que ainda há muito “por nomear, por tratar poeticamente”, observação que pede “um novo ciclo de frutos, para ser outra vez transformado em objeto do poema”. Talvez resulte daí uma revisita aos “Ritos de Passagem”, antecipa Ana Paula, que neste episódio d’ O Tal Podcast partilha outros revisitares da sua história, por muitos ainda desconhecida. “É muito engraçada a cara de espanto com que as minha vizinhas agora me olham. Dizem: vi uma pessoa tão parecida consigo na televisão. E eu não desfaço este pequeno equívoco. De resto, a vida continua normal”, garante, recuando aos tempos de mobilização anticolonial. “Por volta dos 18, 19 anos, sou surpreendida com a grande tarefa de tentar fazer alguma coisa por Angola. Não digo que logo nessa altura tivesse consciência de me inscrever na luta armada, ou tomasse posições políticas fortes, mas, sobretudo a partir da orientação de pessoas mais velhas, houve maneira de tentar participar e sobretudo alfabetizar adultos” O compromisso para a libertação nacional sucedeu a uma rutura com a igreja – “aí por volta dos 16, 17 anos” –, experiência que a poeta recorda pela ligação ao campismo missionário, projeto “absolutamente colonial”, inserido “dentro daquelas normas de evangelizar os indígenas”. “Éramos um grupo de meninas, e íamos para o campo, com senhoras mais velhas, ensinar as mulheres, por exemplo, a dar banho aos bebés, a vesti-los, a fazer pequenas coisinhas como se não tivessem um ensinamento de séculos de como tratar dos seus filhos”, descreve a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, realçando a aprendizagem. “Forçou-me a olhar o outro, com outro olhar. Foi aí que comecei a interrogar: afinal, de que lado estou?” Além dos questionamentos individuais e das interpelações coletivas, Ana Paula Tavares percorre, neste episódio, leituras mais e menos proibidas; revela uma profunda conexão à filha e ao neto; surpreende pela veia musical; conta como fez da palavra instrumento de poder, e partilha uma ‘encomenda familiar’ que continua por desembrulhar.  “A minha avó Felicidade disse-me muitas vezes: foste a primeira pessoa da família que estudou, portanto tens a obrigação de contar a minha história, a da outra tua avó, a da tua mãe e a tua. E até te vou dar um título: “As Filhas da Pouca Sorte”. Nunca fui capaz de escrever”. Saiba porquê, ouvindo o episódio completo aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  34. 91

    REWIND - Jonathan Ferr

    Sem filtros, Jonathan Ferr fala sobre como a espiritualidade ajudou a dissipar o ceticismo e trouxe uma nova compreensão da vida, focada no processo, e não na ansiedade de resultados. Com uma visão única, Jonathan desconstrói ideias pré-concebidas sobre prosperidade e revela a importância de estar rodeado de pessoas que também vibram em abundância. https://www.otalpodcast.com/p/jonathan-ferrSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  35. 90

    Miguel Cardoso: “Se pusermos de lado o compromisso com o antirracismo, o que antes eram fantasmas e agora são pessoas, vai ganhar mais força”

    De um lado estavam os que torciam pelo Benfica e, por isso, queriam batizá-lo de Eusébio, figura ímpar na história dos encarnados e do futebol nacional. Do outro, aqueles que preferiam o Sporting, e insistiam em chamar-lhe Jordão, à letra de um ilustre leonino, também celebrizado na seleção das quinas. Quando este empate entre rivais de Lisboa parecia impossível de desfazer, o Brasil entrou em campo e resolveu. “Alguém sugeriu: ele tem o cabelinho parecido com o Pelé. Fica Pelé”. Nascia assim, entre jogadas de futebol de rua, a alcunha que acompanha a identidade de Miguel Cardoso desde os 10 anos. Hoje com 39, é fora das quatro linhas, numa frente de intervenção antirracista, que o convidado desta semana d’ O Tal Podcast deixa a sua assinatura. Diretor executivo da Black Europeans, iniciativa que no passado mês de setembro esteve sob ataque, na mira de uma campanha de desinformação, Miguel explica, nesta conversa, a importância do combate ao racismo. “Se pusermos de lado o compromisso com o antirracismo, o que antes eram fantasmas e agora são pessoas, vai ganhar mais força”, avisa, determinado em salvaguardar o futuro das próximas gerações. “A única forma de toda a gente ter uma vida melhor é cada um de nós dar um contributo significativo a esta luta antirracista”. O compromisso, sublinha Pelé, reforça-se a partir da paternidade: “Encontro esperança no meu filho. Olho para ele e vejo a força de querer continuar e construir uma sociedade melhor”. A inspiração para a mudança ativa-se não apenas a partir dos cuidados parentais, mas também de um cúmulo de microagressões. “Quando nasces num país, vais engolindo a história, a cultura, e foi nesse sentido que aprendi a amar Portugal. Mas o país demonstra que não gosta de mim, seja através de pessoas individuais, seja através de entidades públicas”. Um dos exemplos desse amor não correspondido está bem presente nas memórias de Miguel, que, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, recorda como foi arredado da possibilidade de arrendar um apartamento. “Falei ao telefone com o proprietário da casa, ele não percebeu a minha cor. Quando apareci, basicamente tinha uma pessoa a dizer: não lhe vou arrendar por causa da sua cor de pele”. A experiência está longe de ser um caso isolado, nota Pelé, que explica como encontrou no choro um meio de libertação.  “Percebi que tinha que chorar, porque não podia descarregar esta raiva sobre ninguém, não podia pegar na minha vivência e culpabilizar alguém. A sociedade foi estruturada desta forma, e tenho de aprender a lidar com o racismo”. Apesar dos sucessivos embates raciais, o gestor imobiliário garante que não guarda ressentimentos. “Não tenho nenhum rancor, nem ódio em relação ao país, mas eu não amo Portugal”, conta, insistindo na importância da reciprocidade. “Vibrava com a seleção nacional. Até dizia: sei o hino de Portugal, mas não o de Cabo Verde. Mas aprendi que esse amor não era recíproco” Noutras lições de vida, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso destaca os ensinamentos da ausência paterna. “Culpava a minha mãe por não ter um pai presente. Depois percebi, que ele não quis estar na minha vida. E comecei a questionar-me: porquê que não quis saber de mim?”. Ouça aqui este episódio d’ O Tal Podcast.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  36. 89

    REWIND - Maria Gorjão Henriques

    Estamos num cruzamento essencial”, nota Maria Gorjão Henriques, para quem “nunca foi tão urgente honrarmos o nome da raça humana”. Facilitadora de consciência sistémica, Maria sublinha: “Ou nos permitimos despertar para a humanidade em Nós, ou nos vamos perder”. Formada em Psicologia, Maria Gorjão Henriques consolidou carreira no mundo financeiro, até ao dia em que decidiu agir de acordo com o que sentia e intuía. https://www.otalpodcast.com/p/maria-gorjao-henriquesSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  37. 88

    Ana Markl: “A menopausa traz uma grande libertação. Não estava a contar, mas devo dizer que é um conhecimento sobre mim que me faz sentir mais jovem”

    A idade que temos coincide com aquela que sentimos ter? Envelhecer retira prazer sexual? Porque é que homens e mulheres andam tão zangados uns com os outros? O feminismo está sob ataque, enquanto as masculinidades tóxicas progridem? Neste episódio d’ O Tal Podcast - gravado ao vivo, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, e com o tema “Reescrever o Tempo”- Georgina Angélica e Paula Cardoso conversam com Ana Markl e Tânia Graça sobre o impacto da passagem dos anos, no corpo e na mente, e os progressos e retrocessos que nos acompanham neste tempo de ‘algoritmização’ acelerada. “A quantidade de informação é tão ansiogénica que nos paralisa”, nota Ana, alertando para a inércia coletiva que se observa diante de tragédias, como a da Palestina.  “Noutros períodos da história, as pessoas não sabiam o que se estava a passar e deixaram que acontecesse. Acreditavam na propaganda, nas narrativas. Neste momento não há desculpa”. Outro sinal da época em que vivemos evidencia-se nas masculinidades tóxicas, e o regresso a velhos e opressores papéis de género. “Como os valores do feminismo nunca se concretizaram por inteiro, estamos sempre a voltar para trás. E a falar do que falávamos nos anos 60”, assinala Tânia, perentória no diagnóstico. “Progresso mais forte traz contramovimento mais forte. Acho que tem sido isso que temos visto acontecer, não só em Portugal como no mundo, em que movimentos conservadores e políticos crescem, alimentam preconceitos horríveis”. Entre o que observamos à volta, e o que observamos em nós, que histórias estaremos a escrever e até a reescrever? “A menopausa traz uma grande libertação – sobretudo numa idade em que ainda estou bastante válida – em perceberes que já não estás a competir no mesmo campeonato a que a sociedade te obriga durante muito tempo, que é o de ser gira, desejável e fresca”, defende Ana. Preparada para dar a volta aos revezes do tempo a autora conta que, no verão passado, celebrou com um bolo a nova fase da sua vida adulta. “Não estava a contar, mas devo dizer que é um conhecimento sobre mim mesma que me faz sentir mais jovem”, revela, apaziguada com o que ficou para trás.          “O envelhecer enquanto estigma não me apoquenta. Angustia-me o receio de não ter saúde, até porque fui mãe aos 40, e quero desfrutar do meu filho”. Já Tânia Graça, lembra que muitas vezes o espelho devolve-nos a idade, a partir das pessoas que estão à nossa volta. “Vou vendo a minha mãe, que tem 71 anos, está ótima e com muita saúde, mas há esse confronto com a passagem do tempo”. Da mesma forma, a psicóloga e sexóloga, partilha a perplexidade de ver o sobrinho mais velho, de 17 anos, a avançar para a conclusão do ensino secundário. “Às vezes sinto uma certa crise existencial: tenho 33 anos, que coisas ainda me falta fazer? Será que tenho tempo para fazê-las? Às vezes isso dá-me uma sensação, que não é real, de que tenho pouco tempo”. A caminho de mais um aniversário, Tânia aponta um dos questionamentos que a idade lhe trouxe. “Tenho o cabelo super branco, e pintar ou não pintar é um debate interno. Porque os meus valores dizem: não tenho que pintar, não tenho que esconder o meu envelhecimento, mas é facto que tenho pintado”. A escolha, sublinha a psicóloga, evidencia o poder dos condicionamentos a que todas as pessoas estão sujeitas.“Aqui ninguém é alecrim dourado que nasce do campo sem ser semeado. Estamos todos em desconstrução”. Ouça aqui esta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, pontuada de gargalhadas e reflexões. See omnystudio.com/listener for privacy information.

  38. 87

    REWIND - Juninho Loes

    O que o cabelo afro nos diz sobre a construção da identidade negra? Como nos podemos aprisionar ou libertar através das nossas raízes capilares?Juninho Loes, especialista em cabelos crespos, cacheados e ondulados, partilha experiências de renascimento e crescimento, vividas a partir de processos de aceitação, transformação e celebração capilar. A começar pela sua própria jornada de transmutação, onde a música ocupou um lugar central.https://www.otalpodcast.com/p/juninho-loesSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  39. 86

    Inocência Mata: “Tem de haver políticas linguísticas em África que promovam as línguas, mas não apenas como línguas folclóricas. Temos de transformá-las em línguas úteis, para se discutir, falar, conversar”

    Na infância e na adolescência, vividas em São Tomé e Príncipe, Inocência Mata idealizava Portugal à letra e à imagem do que os manuais escolares, ainda oficialmente coloniais, projetavam. “As representações são muito importantes, porque configuram o imaginário. Eu imaginava que Lisboa era o paraíso, que não havia sujidade”, diz a convidada desta semana d’ O Tal Podcast, encontrando semelhanças entre o desencanto que sentiu em relação à velha metrópole, e aquele que vem descrito na obra “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso. “É a história de um menino branco, Rui, que vem a Portugal pela primeira vez, depois do 25 de Abril, e que, ao sair do aeroporto, diz: Luanda é muito mais bonita, não é?”. Entre as páginas do multipremiado romance, e os capítulos da própria vida, Inocência relata uma desilusão que durante anos não conseguiu verbalizar. “Tive uma deceção quando, aos 18 anos, conheci o Rio Tejo, porque, como maior rio da Península Ibérica, achava que tinha de ser maior que o Kwanza”. Hoje especialista em Literaturas Africanas e pós-doutorada em Estudos Pós-coloniais, a professora reconhece nessas e noutras experiências a força engenhosa das narrativas, subtilmente enraizadas nas palavras que usamos. “A linguagem é ideológica, não é inocente”, sublinha, defendendo a necessidade de adequarmos o vocabulário, nomeadamente em relação a grupos historicamente marginalizados, como são os povos Romani e as comunidades negras. “Sim, eu policio-me. Há coisas que dizia e já não digo”. Da mesma forma que procura retirar velhas construções racistas e xenófobas da sua linguagem, a também ensaísta e investigadora alerta para novas ‘armadilhas’. “A palavra racializado é, para mim, a mesma coisa que pessoas de cor. É dizer que os brancos não têm cor, que não têm raça”, aponta, demarcando-se da disseminação do termo. “Estamos a partir do princípio de que a cor branca é a bissetriz. Eu não utilizo esta expressão. Digo não-brancos porque é disso que se trata”. O sentido crítico, tantas vezes expresso em contracorrente, vem de longe, e corre nas veias. “Tenho um problema em aceitar sem concordar”, adianta, recordando que, desde cedo, “estava sempre a argumentar, a contra-argumentar e a defender os outros”. A personalidade interventiva, que o pai chegou a predestinar como vocação para estudar Direito, acabou por ser decisiva para se afirmar profissionalmente. “Quando acabei o curso, em 86, disseram-me que não tinha condições para concorrer para dar aulas porque não tinha nacionalidade portuguesa. O meu advogado impugnou a decisão, e eu ganhei”, conta, por estes dias enredada numa nova ação judicial. “As pessoas estão habituadas a que ninguém conteste”, observa, ainda incrédula com o desfecho de uma avaliação, em que a sua carreira é reduzida à publicação de “um só livro, relativamente curto”. Doutora em Letras pela Universidade de Lisboa, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso revela como essa nova tentativa de descredibilização fez transbordar um já farto copo de agressões racistas. “O ano passado estive em completo burnout, com baixa médica e tudo. Nunca me tinha acontecido. Estou cansada. O racismo cansa, adoece e mata”. Ouça o episódio completo aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  40. 85

    REWIND: Mirza Lauchand

    Mirza Lauchand encontrou na música um lugar de expressão e criação artística, alargado, com a entrada para o gospel, numa via de desenvolvimento espiritual. Neste episódio, conta como encontrou na música um “regresso a casa”. https://www.otalpodcast.com/p/mirza-lauchandSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  41. 84

    Israel Campos: “Termos a possibilidade de chegar a certos lugares também é consequência direta dos nossos privilégios”

    Batizado à letra do nome de um dos estados que, nos últimos tempos, mais tem mobilizado protestos a nível global, o convidado deste episódio d’ O Tal Podcast, começa por partilhar o peso que cabe na sua identificação. “Não tem sido fácil carregar o nome Israel. Em Inglaterra, já me cancelaram viagens de Uber. Entrei no carro, e disseram: não te vamos levar por causa do nome. O clima é de tensão alta”, conta, amenizando, contudo, o “mal menor” que lhe coube em sorte. “Somos privilegiados, estamos numa parte do mundo em que podemos acordar, fazer a nossa vida, ir ao parque, trabalhar, brincar com os nossos. Mas o que devia ser tão comum e universal, não é”. Desde a infância atento ao que acontece ao seu redor, Israel Campos recorda, nesta conversa, como o ambiente familiar o preparou para ler, questionar e escrever sobre a atualidade. “Cresci em Luanda, ao lado de muitos ‘mais velhos’, no seio de jornalistas, a ouvir conversas sobre o estado do país e a política”. Filho de Graça Campos, referência incontornável do jornalismo em Angola, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflete sobre o acesso precoce a um manancial de conhecimentos. “Em casa já havia uma biblioteca, que era do meu pai e, portanto, sempre fui muito incentivado a ler. No contexto angolano é um grande privilégio”. Hoje com 25 anos, e várias distinções e prémios jornalísticos, académicos e literários, Israel faz questão de transformar as oportunidades e aprendizagens em vias de construção coletiva, talento que levou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a convidá-lo a integrar um grupo de jovens que reflete sobre o futuro de Portugal. “A noção de serviço público passou a ser um grande elemento na minha vida profissional e pessoal”, sublinha, recuando à experiência precoce como locutor de rádio, entretanto amadurecida na universidade e numa carreira em jornalismo. Tudo começou aos 12 anos, revela o também escritor, de volta ao momento que lhe abriu as portas da Rádio Nacional de Angola (RNA). “Fui convidado para ir ao programa infantil Kaluanda Pió, falar do meu interesse pela escrita e pintura. O produtor gostou muito da minha desenvoltura e convidou-me para ir voltando”. O primeiro contrato não tardou – “Tive que ir com a minha mãe assinar, porque era menor de idade” –, e marca um antes e depois nesta história. “A experiência na rádio foi muito importante para a minha formação pessoal e profissional”, nota Israel, que, a partir do rigor dos horários – “eram programas em direto, e em direto não há atrasos” –, aguçou o sentido de responsabilidade e compromisso cívico. “Hoje trabalho mais como freelancer, e estou mais dedicado a questões académicas, mas o serviço público continua a pautar a minha atuação: penso em que medida posso utilizar o privilégio que tenho, para servir de alguma maneira”. Entretanto desvinculado da RNA, na sequência de um episódio de censura, Israel Campos comenta, neste episódio, o estado do jornalismo e da política em Angola, inspirações para a tese de doutoramento que ganha forma a partir de Inglaterra. Muito mais do que um destino de estudos superiores, uma espécie de refundação de identidade. Saiba de que forma, na conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. Para ouvir aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  42. 83

    REWIND: Kwenda Lima

    Que memórias conseguimos guardar para além daquelas que exibimos no telemóvel? Temos medo de amar? Onde está a força de nos vulnerabilizarmos? E Deus? Onde o podemos encontrar? Podem as mulheres não querer ser mulheres? Neste episódio, Kwenda Lima questiona a sabedoria. Do que somos e podemos ser. https://www.otalpodcast.com/p/kwenda-limaSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  43. 82

    Vânia Andrade: “Ser vegana trouxe-me muitas coisas. É um descanso. Sinto que o meu corpo está menos propício a ficar doente”

    De microfone na mão, aos pés da escadaria da Assembleia da República, Vânia Andrade projetou a voz em defesa dos direitos das trabalhadoras da limpeza. O repto, lançado a 25 de fevereiro de 2023, marcou a primeira manifestação do movimento Vida Justa, e colocou no centro das atenções reivindicações habitualmente classificadas de periféricas. “Já me disseram: tu foste das primeiras mulheres a assumir, com a idade que tens, que trabalhavas nas limpezas”, conta Vânia, neste episódio de O Tal Podcast. Mais de dois anos depois dessa intervenção diante do Parlamento, a poetisa e performer sublinha a importância dos modelos de referência para a definição das nossas escolhas. “Acredito muito que tudo o que vamos fazer tem muito a ver com quem está à nossa volta. Há propósitos que seguimos quando somos impulsionados”. Da mesma forma que hoje outras mulheres olham para ela como uma inspiração, Vânia encontra sustentação nas suas raízes femininas. “As mulheres que me criaram dizem-me que sou inteligente, em silêncio, e isso é maravilhoso. São as que mais acreditam em mim”. Nascida em Portugal, com ascendência cabo-verdiana, ‘Puma’, como também é conhecida, expande a força construída no seio familiar a teias de transformação coletiva, onde se inclui o grupo “Mulheres Negras Escurecidas”. “Surge muito da minha vontade de estar e partilhar coisas com outras mulheres”, explica a ativista antirracista, destacando a necessidade de se proteger de espaços de opressão. “Tenho feito questão de estar em lugares onde sou acolhida, onde não sou vista como agressiva, como aquela que fala muito alto, que não quer ter amigos, que é muito antipática”. O autocuidado estende-se à intervenção no espaço público, que, cada vez mais, Vânia procura harmonizar com o descanso. “Aprendi a não me sentir mal quando não posso estar”. A busca de equilíbrio ganha novas urgências com a proximidade dos 40 anos. “Há um medo que aparece. Há várias coisas que ainda não estão feitas, que tens que fazer, e outras que não querias ter feito. Então, é um trajeto que começa a trazer algumas dúvidas e medos que, por vezes, começam a ser mais salientes. Tenho sentido isso”. Mais do que refletir sobre direções de vida, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode escutar aqui, Vânia Andrade pondera o efeito das escolhas que fazemos, nomeadamente alimentares. “Ser vegana trouxe-me muitas coisas. É um descanso. Sinto que o meu corpo está menos propício a ficar doente, que estou mais calma desde que deixei de comer carne”.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  44. 81

    REWIND: Elisabete Moreira de Sá

    Que histórias contamos a nós próprios? Como nos vemos, a partir dos lugares de onde vimos? Na Quinta da Princesa, um dos bairros mal-afamados do concelho do Seixal, ⁠Elisabete Moreira de Sá ⁠começou por encolher perspetivas, encerrada numa vida de impossibilidades, até começar a alargar o olhar. Foi então que ‘saiu da ilha’ para ganhar o mundo, viagem que lhe tem permitido SER, independentemente do que possa parecer. https://www.otalpodcast.com/p/elisabete-moreira-de-saSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  45. 80

    Saliu Djau: “Tendo nascido e crescido na Guiné, vivi muito a cultura comunitária, de entreajuda e ligação com outras pessoas”

    Facilita encontros entre cidadãos e deputados à Assembleia da República, nos bastidores do Festival Política. Com o mesmo à-vontade, protagoniza campanhas publicitárias, vestindo a pele de modelo ocasional. Ao mesmo tempo, soma ligações a várias iniciativas de impacto social, compromisso cívico iniciado na Guiné-Bissau, onde nasceu e cresceu até à mudança para Portugal, já vivida na maioridade. Hoje com 30 anos, Saliu Djau percorre, neste episódio d’ O Tal Podcast, o tanto que já fez e faz, caminho academicamente demarcado por uma licenciatura em Relações Internacionais. “Nasci já muito velho, com os joelhos a doer”, brinca, situando na adolescência as primeiras experiências de cidadania ativa. “Em Bissau, na escola, criámos uma associação para jovens, fazíamos atividades culturais, organizávamos conferências e palestras, e tentávamos criar dinâmicas sociais e de partilha de conhecimento.  Queríamos só fazer coisas e conviver com amigos, mas desenvolvemos interesses, e acabámos por evoluir como pessoas”. Muitos projetos de associativismo depois, onde sobressai a ligação ao Festival Política, Djau encontra no chão de partida as raízes que sustentam a sua busca por justiça social. “Somos fortemente influenciados pelo nosso espaço e circunstância. Somos o resultado do nosso tempo e do nosso espaço. Tendo nascido e crescido na Guiné, vivi muito a cultura comunitária, de entreajuda e de ligação com outras pessoas”. Atualmente ao serviço da Fundação Calouste Gulbenkian, Djau trabalha como gestor de projetos, especializando-se, entre outros domínios, na promoção de literacia mediática, via necessária de combate à desinformação. Antes disso, ajudou a lançar, dentro de uma instituição financeira, um grupo promotor da diversidade e inclusão, iniciativa que traz para a conversa o desaproveitamento do alcance da responsabilidade social. “Ainda é uma coisa muito frágil em Portugal”. Consciente das inúmeras desigualdades que comprometem a coesão social, e atento aos desafios que ameaçam a dignidade humana, Djau estende a sua intervenção às escolas. “Volto sempre muito feliz. Os miúdos, que nunca viram um ‘rasta man’ a dar aulas, ficam super contentes e curiosos”, assinala, reconhecendo o poder transformador da representatividade. “Quando dizia ‘eu trabalho num banco’, ficavam: ‘uau, a sério’? Porque provavelmente nunca viram uma pessoa parecida comigo a trabalhar num banco. Acho que isso acabou por ser uma referência”, nota o gestor de projetos, despido de heroicidades. “Há sempre retorno nas coisas que fazemos. O altruísmo nunca é 100% puro”, diz nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode seguir aqui.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  46. 79

    REWIND: Lura

    Na vida de Lura, há um antes e depois da maternidade, que transporta força revolucionária. Mãe da pequena Nina, a cantora partilha, neste episódio, as maravilhas e os desafios dessa viagem, iniciada de forma profundamente consciente. “A minha filha é a prioridade, e depois organizo a vida em função dela”, conta, acrescentando que, por mais contraditório que possa parecer, essa é uma vivência que lhe trouxe mais liberdade.De que forma? Lura explica, numa conversa recheada de memórias, desfiadas com múltiplos significados.https://www.otalpodcast.com/p/luraSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  47. 78

    Carla Adão: “A maternidade traz-nos grandes inseguranças. Se calhar, até as sinto mais agora do que quando os meus filhos eram pequenos, porque eles estão crescidos, quase emancipados, e eu questiono: ‘Será que fiz tudo certo?’”

    Subdiretora da RTP África, Carla Adão está no canal desde o arranque. Quase trinta anos depois, a jornalista destaca, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, as pontes que o projeto permitiu construir entre os países africanos de língua portuguesa, contributo que, defende, importa preservar, mas também reavaliar. “Quando a RTP África surgiu, os nossos países tinham meios de comunicação ainda muito incipientes, sobretudo a televisão. De repente, começámos a ligar, a fazer chegar as notícias de uns sítios aos outros. Agora já não tem esse peso, porque o mundo está de outra maneira”. Neste novo contexto, qual poderá e deverá ser o papel do projeto televisivo? “Devíamos, na comunidade afrodescendente, olhar mais para a RTP África como uma montra, difundir as imagens das pessoas que lá vão e que falam nos nossos programas, sobre todos os assuntos, nomeadamente política”, assinala, reconhecendo a importância de se diversificar o naipe de presenças na esfera mediática. “Como é que acabámos de ter umas eleições em Portugal e não há nenhum comentador negro, quando uma das questões que esteve em cima da mesa foi a imigração? As televisões continuam sem ter esse espaço, que eu acho que a RTP África tem e deve abrir ainda mais”. Neste episódio d’ O Tal Podcast, Carla Adão revela como a sua trajetória profissional a ajudou a perceber o impacto dessa pluralidade. “Quando chego a subdiretora da RTP África, começo a ver as reações [da comunidade afrodescendente], a alegria de muitas pessoas por eu estar nesse cargo, porque sentiam: é uma de nós, alguém que nos representa. Veio por aí o reconhecimento, e o meu autorreconhecimento”. Até esse momento, a jornalista conta que estava apenas a seguir o seu percurso, dentro de uma linha normal de progressão, sem consciência do significado coletivo das suas conquistas. Agora com uma nova consciência, a subdiretora da RTP África assume o compromisso de continuar a desbravar caminhos. “Tenho sonhado em dar e criar espaço para outras pessoas, em dar voz a histórias e pessoas que ainda não têm voz, em dar a conhecer histórias que estão esquecidas”, aponta, cumprindo os planos que a acompanham desde a infância. “Aos 9 anos disse à minha mãe que ia ser jornalista. E por volta dos 11, 12 anos, comecei a fazer um jornal no meu prédio, com uma máquina de escrever. Fazia inclusive os tracejados das palavras cruzadas que via noutros jornais”. A vocação, precocemente identificada, permitiu recuperar ligações africanas quebradas na infância com a saída de Angola para Portugal. “Quando fui à Guiné pela primeira vez, senti o chão, senti: ‘estou em casa’. Criei uma relação muito próxima com o país”. Esta é uma das experiências revisitadas neste episódio, onde Carla Adão partilha o reencontro emocionante com uma irmã perdida durante a guerra em Angola, bem como os desafios de ser mãe. “A maternidade traz-nos grandes inseguranças. Se calhar, até as sinto mais agora do que quando os meus filhos eram pequenos, porque eles estão crescidos, quase emancipados, e eu questiono: ‘Será que fiz tudo certo?’” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  48. 77

    REWIND: Victor Hugo Mendes

    Pai de três, Victor Hugo Mendes (VHM) poderia muito bem fechar as contas da sua paternidade numa dezena de descendentes. Escrito de outro modo: gostaria de ter 10 filhos. O número impressiona, em especial numa Europa com algumas das mais baixas taxas de fertilidade do mundo, porém VHM não se deixa intimidar, assumindo valores ancestrais africanos na relação com a ascendência e descendência. https://www.otalpodcast.com/p/victor-hugo-mendesSee omnystudio.com/listener for privacy information.

  49. 76

    Blessing Lumueno: “O grande marco é José Mourinho. Os treinadores desenvolveram-se muito a partir daí. O problema é que depois a própria máquina começa a asfixiá-los”

    Num autorretrato que cabe em três palavras, Blessing Lumueno apresenta-se: “Fanático pela liberdade”. É assim que se vê, na relação com os outros, o mundo, e com ele próprio, revela neste episódio d’ O Tal Podcast, gravado antes de rumar para o Kuwait, como treinador-adjunto do Al-Arabi. Tema incontornável na história de Blessing, o futebol ocupa um lugar tão central na sua vida, que não hesita em declarar que estão unidos em matrimónio. Com uma visão de jogo aprimorada nos relvados, entre construções de equipas técnicas, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso também tem partilhado táticas como comentador desportivo, somando intervenções na TSF, Canal 11 e RTP, e publicações no Expresso, além da autoria do blogue “Posse de Bola”. É com esta experiência que aguça a sua leitura crítica, além das quatro linhas. “Não há muito investimento em Portugal para os clubes. Há poucas oportunidades para os treinadores se profissionalizarem”, nota, antecipando resultados nada promissores, a partir de um foco cego no rendimento. “O mercado é muito violento, e os treinadores, fruto disso, vão procurando atalhos, e quando o fazem estão a tirar possibilidades aos jogadores de terem um tipo de evolução diferente”. A “máquina”, conforme descreve, calibrou-se com outro engenho a partir de José Mourinho, mas parece viciada numa programação que promove a medianidade em detrimento da excecionalidade. “Estamos a perder os melhores, em prol de termos de jogadores, jogadoras assim-assim, que fazem o trabalho ‘benzito’”, alerta, sublinhando a importância do tempo para afinações. “Se ao primeiro erro és massacrado, e ao segundo erro és espezinhado, acabou. A partir daí, a reação mais normal, quando queres tentar qualquer coisa que ainda não tentaste, é retraíres-te e nem sequer o fazeres”. O preço a pagar, aponta, é o défice de inovação, que, prenuncia, vai implicar uma crise de talentos nas próximas gerações, e não apenas de futebolistas. A análise, conta Blessing, influencia o seu comportamento não apenas nos clubes, mas também em casa. “Tenho uma ideia de parentalidade muito aberta, de deixar experimentar, de não ser excessivamente interventivo no processo de crescimento da minha filha”, diz, sem nunca esquecer as suas próprias aprendizagens. “Cresci com mulheres. Deu para perceber as dificuldades que qualquer uma tem para conseguir um cargo decente, fazer valer aquilo que são as suas melhores qualidades, e nunca ser olhada de lado por usar o cabelo mais comprido ou andar de vestido e, sobretudo, nunca ser deixada para trás por causa da maternidade ou por ser mais verdadeira com as emoções do que os homens, que conseguem esconder e manipular de outra forma”. A proximidade feminina permitiu-lhe também observar a sua resiliência. “Vejo nas mulheres a capacidade para, dentro de situações horrorosas, dramáticas, de crise, continuarem a lutar. Acho isso ímpar”, destaca, sublinhando que foi a partir de muitos sacríficos da mãe e das tias que conseguiu dar “um salto geracional”. Vamos perceber de que forma nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, em que se revisitam feridas do colonialismo, desigualdades raciais, e desafios sociais. Sem nunca perder de vista as lições da vida. “Aprendi, pelo rumo da vida da minha mãe e das minhas tias, que podem ser solteiras e felizes. Não necessitam um parceiro de vida disso para isso, podem fazer uma vida perfeitamente plena sem estarem ligadas, do ponto de vista afetivo, a um homem ou a uma mulher” Ouça a conversa n’ O Tal Podcast.See omnystudio.com/listener for privacy information.

  50. 75

    REWIND: Henda Vieira Lopes

    Henda Vieira Lopes, psicólogo e diretor do Espaço Yanda, acumula mais de 20 anos de experiência na promoção de competências, incluindo uma forte intervenção comunitária. Com uma abordagem afrocentrada, integra práticas ancestrais africanas na psicologia clínica. Neste episódio, Henda Vieira Lopes aponta caminhos que nos ajudam a separar o homem do masculino, e a construir uma masculinidade positiva e inclusiva. https://www.otalpodcast.com/p/henda-vieira-lopesSee omnystudio.com/listener for privacy information.

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ABOUT THIS SHOW

Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.

HOSTED BY

Paula Cardoso e Georgina Angélica

Produced by Joana Beleza

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