EPISODE · Aug 24, 2026
“A malária continua a ser um grande problema de saúde pública” em Moçambique
from Ciência · host RFI Português
Assinalou-se a 20 de Agosto o Dia Mundial do Mosquito. O insecto é o animal mais mortífero para o ser humano e, em Moçambique, continua a alimentar uma das maiores ameaças à saúde pública: a malária. O mosquito está a adaptar-se aos insecticidas e a alterar o seu comportamento. As alterações climáticas, a urbanização desordenada e a habitação precária dificultam o controlo da doença. Apesar dos avanços no combate à malária, a doença continua entre as principais causas de morte e internamento em Moçambique. “A malária continua sendo um grande problema de saúde pública, infelizmente, em Moçambique, até ao dia de hoje”, afirma Pedro Aide, investigador e director científico da área de Malária do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), no sul do país. O investigador alerta para a capacidade de adaptação do mosquito e do parasita, nomeadamente à pressão exercida pelos insecticidas: “Os mosquitos têm estado a adaptar-se à pressão que é exercida ao longo dos últimos anos pelos insecticidas”. Mas, o problema não se limita à resistência química. Alguns mosquitos estão também a alterar o seu comportamento, o que pode comprometer medidas de protecção concebidas para actuar dentro das casas. Alguns mosquitos estão a picar dentro das casas, mas a descansar no exterior, reduzindo a eficácia da pulverização intra-domiciliária e das redes mosquiteiras. As alterações climáticas acrescentam uma nova camada de complexidade. O aumento das temperaturas, os ciclones e as cheias podem criar condições favoráveis à reprodução dos mosquitos e alterar as áreas onde a transmissão da malária ocorre. Segundo Pedro Aide, já existem relatos de transmissão em algumas zonas onde a doença tinha diminuído ou deixado de ocorrer: “Começa a haver alguma ressurgência de casos de malária, o que é bastante preocupante”. O investigador considera que as alterações ambientais podem modificar a própria distribuição geográfica da doença. “As alterações climáticas que estão a ocorrer um pouco por todo o mundo põem em risco aquilo que é a geografia da malária ou a geografia do mosquito transmissor da malária”. A urbanização desordenada e as habitações precárias são outros factores de risco. Casas com falhas nas paredes, tectos, portas e janelas que facilitam a entrada dos mosquitos. “A maior parte das habitações são construídas de forma não conveniente para protecção contra os mosquitos”, afirma o director científico do CISM.. A localização das habitações também conta. Construções em zonas pantanosas ou próximas de rios e outros lençóis de água podem favorecer a reprodução dos mosquitos. Por isso, Pedro Aide defende uma resposta que envolva vários sectores. “A questão da malária não é apenas uma questão que diz respeito ao ministério da Saúde. É uma questão que diz respeito a todo um país”. Agricultura, urbanização, transportes e planeamento das ruas, valas e valetas devem, na perspectiva do investigador, fazer parte de uma estratégia integrada de combate à doença. A vacina R21, administrada em quase todo o país, veio reforçar as medidas de prevenção, mas não constitui uma solução isolada. “A vacina contra a malária ainda não é a bala mágica que vai combater o problema da malária”. A vacinação veio acrescentar uma nova ferramenta ao combate à malária, mas está longe de resolver o problema isoladamente. Pedro Aide estima que as vacinas actualmente utilizadas apresentem uma eficácia de cerca de 40% a 50%. Mesmo com redes mosquiteiras, pulverização e vacinação, a adesão da população continua a ser determinante. Pedro Aide aponta a utilização correcta das redes e a aceitação da pulverização das habitações como medidas simples que nem sempre são cumpridas. Para o investigador, uma maior adesão às medidas de prevenção poderia reduzir significativamente o peso da doença e contribuir para interromper a transmissão. Moçambique continua, segundo Pedro Aide, entre os países com maior peso da malária a nível mundial. “Continuamos a ser o quinto país a nível mundial com maior peso da malária”, tanto em termos de casos clínicos como de mortalidade.
Embed this episode
Ready to play
“A malária continua a ser um grande problema de saúde pública” em Moçambique
No transcript for this episode yet
Similar Episodes
No similar episodes found.