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Ciência
by RFI Português
Uma vez por semana, os temas que marcam a actualidade científica são aqui descodificados.
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Alterações climáticas estão a agravar insegurança alimentar e fenómenos extremos
Na sexta-feira, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura avisou que os preços dos alimentos dispararam em Agosto num contexto de seca e de tensões geopolíticas. O verão excepcionalmente quente na Europa também levou a uma queda na produção agrícola, enquanto na Ásia o fenómeno El Niño ameaça a produção. Por outro lado, António Guterres, secretário-geral da ONU, disse que o mundo entrou em uma "zona de perigo de eventos climáticos extremos" e a Organização Meteorológica Mundial disse que o El Niño pode ser o mais forte em mais de 70 anos. Que cenários, soluções e perspectivas a curto e longo prazo? A seca e as tensões geopolíticas fizeram disparar os preços dos alimentos em Agosto, com um aumento particularmente acentuado nos preços do açúcar, informou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na sexta-feira. O verão excepcionalmente quente na Europa levou a uma queda na produção agrícola, enquanto na Ásia o El Niño ameaça a produção. Carina Furusho Percot é hidróloga e trabalha no INRAE (Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, a Alimentação e o Ambiente) em Avignon. Ela começa por explicar como “a precocidade inédita das ondas de calor na Europa desde o final de Maio” teve impacto na agricultura. “Este ano, com essa precocidade inédita das ondas de calor na Europa desde o final de Maio, as temperaturas impactaram tanto as culturas de inverno, como o trigo, que é muito importante para a França, por exemplo, como as que são plantadas na primavera, como o milho. Essa onda de calor, associada a baixíssimos níveis de precipitação durante a primavera, causaram secas de intensidade também excepcionais e surpreendeu porque os níveis de chuva no inverno, na maior parte das regiões, tinham sido até altas este ano, até com inundações. Então, o que está acontecendo são sucessões de eventos extremos que estão impactando muito fortemente a agricultura e está difícil de adaptar e se poder ter uma segurança alimentar com o sistema que a gente desenvolveu hoje”, descreve Carina Furusho Percot. Após um verão marcado por vagas de calor, incêndios e secas sem precedentes, na sexta-feira, o governo francês anunciou um pacote de mil milhões de euros em ajudas de emergência para apoiar o sector agrícola. Porém, a FNSEA, principal sindicato agrícola - que estima as perdas do sector em cerca de "10 mil milhões de euros" - reivindica "pelo menos dois mil milhões". Também o sindicato Coordination Rurale, aponta a ajuda como "amplamente insuficiente". As “medidas são importantes para tentar salvar algumas fazendas”, mas o essencial seria “mudar totalmente a lógica do sistema produtivista de hoje” e mudar as práticas agrícolas, alerta Carina Furusho Percot. “A gente precisa realmente de sair desse modelo produtivista, que visa só os rendimentos a todo o custo, para um modelo mais robusto. Hoje, as monoculturas que são alimentadas por irrigação, pesticidas, fertilizantes, são extremamente vulneráveis a episódios climáticos. Então, os estudos mostram que a diversificação de culturas inclui diferentes espécies, variedades, associado a práticas de agroecologia, soluções mais sustentáveis. A afrofloresta, por exemplo, também permite ter mais humidade no solo, mais biodiversidade e manter um microclima mais adaptado às plantações”, propõe a hidróloga. O problema é que a luta contra o aquecimento global não parece estar a funcionar. A 2 de Setembro, as Nações Unidas publicaram um relatório a constatar que o limite de 1,5 °C de aquecimento global, definido no Acordo de Paris, será ultrapassado nos próximos anos. Por agora, a resposta deverá passar pela “adaptação e atenuação das mudanças climáticas”, alerta Carina Furusho Percot, lembrando que “quanto mais a gente deixa a atmosfera aquecer, mais fenómenos extremos de inundação e de secas vão acontecer”. “O facto que a gente não vai conseguir limitar a um grau e meio, significa que a gente precisa continuar fazendo todos os esforços para não chegar a dois graus, a 2,5. Cada décimo de grau conta porque esse aquecimento tem um impacto enorme nos eventos climáticos, nos extremos de inundação e de seca. Então, a gente precisa de fazer duas coisas. Como o aquecimento vai continuar pelo menos até 2050, mais ou menos, por causa da inércia do clima, a gente precisa de investir bastante em adaptação para poder ter sistemas mais resilientes, por exemplo, na agricultura e, ao mesmo tempo, trabalhar nessa transição, mudar todo esse sistema consumista que é baseado em energia fóssil para atenuar e não deixar a gente continuar nessa trajectória que nos levaria provavelmente a uma situação a que não vai mais ser possível se adaptar”, afirma a especialista. Na quinta-feira, a agência da ONU Organização Meteorológica Mundial divulgou os dados mais recentes sobre o fenómeno natural El Niño e disse que pode ser o mais forte em mais de 70 anos e durar pelo menos até Fevereiro de 2027. António Guterres, secretário-geral da ONU, disse que o mundo entrou em uma "zona de perigo de eventos climáticos extremos" à medida que os efeitos do El Niño começam a ser sentidos globalmente. Entretanto, os fenómenos extremos continuam. No Nepal, ainda há 5.500 pessoas desaparecidas nas inundações devastadoras de 26 de Agosto que mataram cerca de 1400 pessoas.
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COP-17 termina sem acordo sobre seca: "Países africanos são dos mais afectados"
A COP-17, que decorreu de 17 a 28 de agosto, em Ulaanbaator, capital da Mongólia terminou com a decisão de mobilizar 1,3 mil milhões de dólares para o restauro de terras e pastagens, mas, uma vez mais, os países participantes voltaram a adiar a adopção de um acordo global juridicamente viculativo sobre a seca. A decisão sobre este assunto será tomada apenas na próxima conferência, em 2028, no Egipto. Esta 17 ª conferência das Partes da convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação acontece numa altura em que cerca de 40% das terras aráveis utilizáveis do planeta estão, aos poucos, a transformar-se em desertos. Mais de 3 mil milhões de pessoas já estão a ser afectadas por este problema em todo o mundo, segundo dados da própria ONU. A desertificação foi um dos temas centrais da COP-17, esta conferência que contou com representantes governamentais de 197 países, investigadores e várias organizações internacionais. Em entrevista à RFI, Francisco Ferreira, presidente da ONG ambiental Zero, faz-nos um balanço sobre esta conferência, salientando que houve aspectos positivos relacionados com o financiamento, mas defende que a COP-17 falhou no ponto mais importante: conseguir um acordo vinculativo sobre a seca. RFI: Qual é o balanço que faz desta COP-17 ? Francisco Ferreira: Esta COP-17 sobre o combate à desertificação teve aspectos positivos em relação ao financiamento nalgumas vertentes, nomeadamente na mobilização de 1,3 mil milhões de dólares para o restauro de terras e de pastagens, mas falhou naquilo que era o mais essencial: a adopção de um acordo global juridicamente viculativo sobre a seca. Há dois anos, na anterior Conferência das Nações Unidas, em Riad, tentou-se chegar a um acordo global vinculativo, que seria um paralelo com aquilo que foi o Acordo de Paris em 2015 e com aquilo que foi o acordo relativo à biodiversidade, em 2022, em Montreal. Ou seja, algo que conseguisse trabalhar nas várias vertentes, na prevenção das secas e na acção e apoio aos países mais afectados, nomeadamente, os países africanos. Não se conseguiu chegar a esse acordo porque houve grandes obstáculos e divergências entre os Estados Unidos e a União Europeia, o Brasil e o chamado grupo Africano e, portanto, aquilo que nós gostaríamos de ter, que era um balanço claramente positivo de termos um programa, um planeamento, um conjunto de decisões e de um apoio financeiro muito significativo, não aconteceu porque nós precisamos praticamente de 1000 milhões de dólares por dia para enfrentar e prevenir as consequências da seca à escala global. Isto realmente não foi novamente conseguido. Vamos esperar mais dois anos. RFI: Falou de um ponto muito importante, o facto de uma vez mais se ter falhado a adopção de um acordo global juridicamente vinculativo sobre a seca. O que é que significa este adiamento na prática e quem é que fica mais exposto com a ausência desse acordo ? Francisco Ferreira: Significa que nós não vamos ter obrigações da parte dos países desenvolvidos em apoiar os países em desenvolvimento, que estão com processos de desertificação significativos, com perda de solos, com incapacidade de apoiar um regime de pastagens para efectivamente garantirmos que esta questão iria ser ultrapassada. E entre os países mais prejudicados, estão, sem dúvida, alguns países da Ásia, mas também os países africanos. São eles que têm visto ao longo dos anos, por causa das alterações climáticas, por causa de determinadas práticas agrícolas e florestais, que não são as melhores... São eles que têm realmente necessidade, do ponto de vista técnico, científico e financeiro para reduzir aquilo que é o avanço da desertificação, da perda de solos e os solos são fundamentais para a sobrevivência das populações. Os solos demoram dezenas e dezenas de anos a serem construídos pela Natureza. E realmente são vários países de África, em particular, aqueles que mais sofrem pela incapacidade de não se ter chegado a este acordo. RFI: Temos desde logo, por exemplo, Cabo Verde, que é fortemente afectado pela seca e pela desertificação, tal como o sul de Angola. Moçambique também enfrenta a degradação dos solos e outras consequências das alterações climáticas. Que medidas concretas é que poderão ser tomadas, no fundo, para ajudar estes países a combater estes problemas e a proteger as populações mais vulneráveis ? Francisco Ferreira: Nós podemos ter algumas medidas independentes da conferência. Mesmo sem um acordo, não devemos ficar parados. Esta era a conferência da implementação e nós não devemos em qualquer país, incluindo, por exemplo, também em Portugal, não devemos esperar por uma nova conferência, que nem sabemos se terá êxito ou não. É necessário que cada um destes países realmente consiga ter uma política nacional de prevenção e de gestão proactiva da seca. Desde alertas precoces, desde capacidade de fazer obras em linha com a salvaguarda também dos valores naturais de retenção de água, trabalhar na recuperação dos solos, protegermos as pastagens e os sistemas agroflorestais. E é preciso aqui uma grande coerência entre a sustentabilidade na agricultura, no regadio, na gestão da água, da floresta, da biodiversidade, do clima e no ordenamento do território. Nós temos, sem dúvida, que fazer chegar os poucos financiamentos que se conseguiram acordar porque há agora o chamado Mecanismo de Investimento para a Resiliência à Seca, que tem como meta mobilizar até 400 milhões de dólares. Temos também uma iniciativa emblemática para as pastagens, com 1,2 mil milhões de dólares, já envolvendo 45 projectos e 23 países. RFI: Que acaba por ser aqui uma mudança de paradigma também esta questão de destinar este dinheiro às pastagens... Francisco Ferreira: Sem dúvida. As pastagens, ao contrário do que se pode pensar, ajudam o combate à desertificação, desde que seja um regime de pastagem extensivo, com uma forma e um conjunto de cabeças de gado que não satura e degrada os solos. Portanto, é isto que é fundamental conseguir garantir. RFI: Esta reflexão é muito importante também porque este ano não nos podemos esquecer que fica marcado por ondas de calor arrebatadoras. Por exemplo, aqui em França, as ondas de calor, aliadas à vegetação seca, provocaram incêndios de grandes dimensões. Esta reflexão sobre os fenómenos climáticos extremos torna-se mais premente do que nunca pelo facto de agora, infelizmente, se estarem a tornar também cada vez mais frequentes ? Francisco Ferreira: Sem dúvida alguma. Os incêndios são, aliás, uma causa dramática das alterações climáticas. São um factor a par, obviamente também do tipo de floresta que temos, da forma como gerimos os nossos sistemas florestais, como temos o ordenamento do território, mas o aquecimento global está a ter um papel dramático na Europa e noutras partes do mundo. Veja-se o Canadá, por exemplo, pondo em causa a sobrevivência de várias actividades, das próprias pessoas que foram afectadas com várias mortes e feridos em várias partes do mundo. E, obviamente, com uma perda de património enorme. Nós ainda temos duas conferências pela frente este ano: a da biodiversidade, em Outubro, na Arménia e depois na Turquia a Conferência sobre Alterações Climáticas. Um dos apelos desta conferência (COP-17) é que haja realmente esta interligação para termos resultados e, infelizmente, eles estão aquém do necessário porque o clima está a mudar muito mais rápido do que a velocidade a que estamos a tomar as decisões. E, portanto, este alerta e esta mobilização que se procurou e que só foi conseguido em parte agora na Mongólia, na COP-17, tem que ter uma maior pressão política e da sociedade civil para também nestes outros fóruns das Nações Unidas nós conseguirmos resultados mais consistentes e passarmos à acção e sermos ambiciosos porque realmente estamos a ficar longe de conseguir estancar aquilo que é um aumento de temperatura com recordes em 2024 e com as temperaturas depois de 2023 e 2025 a estarem aqui no top três. Em 2026, temos também a ameaça do El Niño e já sabemos que será dos mais fortes. Não sabemos ainda todas as consequências, mas as secas são, sem dúvida, uma das consequências mais dramáticas actualmente.
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“A malária continua a ser um grande problema de saúde pública” em Moçambique
Assinalou-se a 20 de Agosto o Dia Mundial do Mosquito. O insecto é o animal mais mortífero para o ser humano e, em Moçambique, continua a alimentar uma das maiores ameaças à saúde pública: a malária. O mosquito está a adaptar-se aos insecticidas e a alterar o seu comportamento. As alterações climáticas, a urbanização desordenada e a habitação precária dificultam o controlo da doença. Apesar dos avanços no combate à malária, a doença continua entre as principais causas de morte e internamento em Moçambique. “A malária continua sendo um grande problema de saúde pública, infelizmente, em Moçambique, até ao dia de hoje”, afirma Pedro Aide, investigador e director científico da área de Malária do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM), no sul do país. O investigador alerta para a capacidade de adaptação do mosquito e do parasita, nomeadamente à pressão exercida pelos insecticidas: “Os mosquitos têm estado a adaptar-se à pressão que é exercida ao longo dos últimos anos pelos insecticidas”. Mas, o problema não se limita à resistência química. Alguns mosquitos estão também a alterar o seu comportamento, o que pode comprometer medidas de protecção concebidas para actuar dentro das casas. Alguns mosquitos estão a picar dentro das casas, mas a descansar no exterior, reduzindo a eficácia da pulverização intra-domiciliária e das redes mosquiteiras. As alterações climáticas acrescentam uma nova camada de complexidade. O aumento das temperaturas, os ciclones e as cheias podem criar condições favoráveis à reprodução dos mosquitos e alterar as áreas onde a transmissão da malária ocorre. Segundo Pedro Aide, já existem relatos de transmissão em algumas zonas onde a doença tinha diminuído ou deixado de ocorrer: “Começa a haver alguma ressurgência de casos de malária, o que é bastante preocupante”. O investigador considera que as alterações ambientais podem modificar a própria distribuição geográfica da doença. “As alterações climáticas que estão a ocorrer um pouco por todo o mundo põem em risco aquilo que é a geografia da malária ou a geografia do mosquito transmissor da malária”. A urbanização desordenada e as habitações precárias são outros factores de risco. Casas com falhas nas paredes, tectos, portas e janelas que facilitam a entrada dos mosquitos. “A maior parte das habitações são construídas de forma não conveniente para protecção contra os mosquitos”, afirma o director científico do CISM.. A localização das habitações também conta. Construções em zonas pantanosas ou próximas de rios e outros lençóis de água podem favorecer a reprodução dos mosquitos. Por isso, Pedro Aide defende uma resposta que envolva vários sectores. “A questão da malária não é apenas uma questão que diz respeito ao ministério da Saúde. É uma questão que diz respeito a todo um país”. Agricultura, urbanização, transportes e planeamento das ruas, valas e valetas devem, na perspectiva do investigador, fazer parte de uma estratégia integrada de combate à doença. A vacina R21, administrada em quase todo o país, veio reforçar as medidas de prevenção, mas não constitui uma solução isolada. “A vacina contra a malária ainda não é a bala mágica que vai combater o problema da malária”. A vacinação veio acrescentar uma nova ferramenta ao combate à malária, mas está longe de resolver o problema isoladamente. Pedro Aide estima que as vacinas actualmente utilizadas apresentem uma eficácia de cerca de 40% a 50%. Mesmo com redes mosquiteiras, pulverização e vacinação, a adesão da população continua a ser determinante. Pedro Aide aponta a utilização correcta das redes e a aceitação da pulverização das habitações como medidas simples que nem sempre são cumpridas. Para o investigador, uma maior adesão às medidas de prevenção poderia reduzir significativamente o peso da doença e contribuir para interromper a transmissão. Moçambique continua, segundo Pedro Aide, entre os países com maior peso da malária a nível mundial. “Continuamos a ser o quinto país a nível mundial com maior peso da malária”, tanto em termos de casos clínicos como de mortalidade.
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Cabo Verde: Organizações ambientais alertam para os impactos da iluminação LED na fauna nocturna
Várias organizações ambientais cabo-verdianas alertam para os impactos da iluminação pública LED na fauna nocturna, apontando para casos de desorientação e mortalidade de aves marinhas e para uma redução da nidificação de tartarugas marinhas em algumas zonas do arquipélago. Em Santo Antão, a directora-executiva da Associação Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Terrimar), Silvana Roque, explica que a iluminação instalada na ilha está a afectar sobretudo as aves marinhas, que realizam voos nocturnos e podem ficar desorientadas pela intensidade da luz: “A iluminação LED que está sendo colocada aqui na ilha de Santo Antão afecta as aves marinhas, porque causa desorientação”. Desorientadas as aves podem cair ao chão, podendo assim ficar feridas ou expostas a predadores. “Muitas vezes acabam por se tornar um alvo fácil para predadores, por exemplo, os gatos”, refere Silvana Roque, acrescentando que têm sido registados vários casos na zona de Ribeira das Pombas. A responsável alerta igualmente para os efeitos da iluminação sobre as tartarugas marinhas, particularmente na Praia Grande, na zona do Tarrafal. Apesar de não existir iluminação directamente na praia, a luz proveniente das habitações próximas acaba por incidir sobre a faixa costeira: “A praia fica toda iluminada durante toda a noite”. A exposição à luz artificial pode, segundo Silvana Roque, inibir a saída das tartarugas para a desova. “Quando há uma luz muito forte, elas ficam inibidas e acabam procurando outras praias para desovar”. Durante a actual campanha de monitorização, a Terrimar observou “uma diminuição significativa na quantidade de saídas e ninhos nessa praia comparado a anos anteriores”, situação que a organização associa também à iluminação existente nas proximidades. Para reduzir estes impactos, a organização defende que a iluminação deve ser direccionada para o chão, evitando a dispersão da luz para o céu e para zonas laterais: “A intenção da iluminação é iluminar a via onde as pessoas passam. Não é necessário iluminar para cima nem para os lados numa longa distância”. Silvana Roque sublinha que a Terrimar não se opõe à iluminação pública, reconhecendo a sua importância para a segurança das comunidades. “Porém, há que se pesar os impactos que isso pode causar na biodiversidade”, afirma, defendendo que as questões ambientais sejam consideradas desde a fase de instalação. Na ilha do Sal, o director-executivo do Projeto Biodiversidade, Albert Taxonera, alerta igualmente para os efeitos da poluição luminosa sobre tartarugas e aves marinhas. Segundo o responsável, as tartarugas adultas tendem a evitar zonas muito iluminadas, enquanto as crias recém-nascidas se orientam naturalmente em direcção à luz, o que as pode conduzir para locais inadequados. “Não é uma questão de distância, é uma questão de intensidade e de visibilidade”, explica, sublinhando que mesmo fontes luminosas localizadas a alguma distância podem afectar a fauna. Para Albert Taxonera, o problema não se limita à substituição das antigas lâmpadas de vapor de sódio por LED, mas à expansão da iluminação artificial em geral. No Sal, uma ilha com forte desenvolvimento turístico, existem já diversos focos de iluminação pública e privada, incluindo iluminação de segurança, obras e estaleiros. Embora reconheça que a tecnologia LED permite reduzir o consumo energético, Albert Taxonera considera que não deve ser automaticamente classificada como amiga do ambiente: “A luz LED, embora durante muitos anos se vendeu como ‘ecofriendly’ (amiga do ambiente), não é uma luz amiga do ambiente, no sentido de que tem impacto grande na vida selvagem”. O responsável defende, por isso, uma planificação mais rigorosa da iluminação pública, avaliando onde a instalação é realmente necessária. Em estradas com pouca circulação, por exemplo, poderão ser consideradas alternativas como pinturas reflectoras ou pequenos dispositivos de sinalização, em vez de iluminação permanente. Nas zonas próximas de colónias de aves marinhas ou de praias de desova, o director-executivo do Projeto Biodiversidade aponta para a utilização de luzes com tonalidades vermelha ou laranja e para uma instalação que limite a visibilidade da luz a partir das áreas sensíveis. “Colocar as luzes mais baixas, mais perto do chão, para evitar que seja visível desde a praia”, exemplifica. Todavia a organização ambiental alerta que a simples colocação de filtros sobre as lâmpadas não resolve necessariamente o problema. “Temos que ser muito mais técnicos e pesquisar muito melhor”, defende, salientando a necessidade de avaliar as características espectrais, a intensidade e o posicionamento das fontes luminosas. Os dados recolhidos pelo Projeto Biodiversidade no Sal apontam já para impactos significativos sobre as crias de tartarugas. Segundo Albert Taxonera, em algumas praias, a poluição luminosa poderá já afectar “até 50%” dos ninhos, mesmo em zonas relativamente afastadas e inseridas numa reserva natural. Em áreas mais turísticas, o impacto poderá atingir a totalidade dos ninhos: “Aí podemos dizer que provavelmente 100% dos ninhos. É por isso que muitos desses ninhos foram transferidos para viveiros de incubação”. As organizações defendem, assim, que a modernização da iluminação pública seja acompanhada por estudos e medidas de mitigação destinados a proteger a biodiversidade e dizem estar disponíveis para trabalhar com a empresa de electricidade e outras entidades na procura de soluções que conciliem a iluminação necessária às comunidades com a conservação da fauna. A substituição da iluminação pública por tecnologia LED começou formalmente em Fevereiro de 2025. A Brava foi a primeira ilha do arquipélago a ter iluminação LED em toda a sua extensão, no início de 2026. A modernização integra a estratégia de transição energética de Cabo Verde e pretende aumentar a eficiência energética. O país estabeleceu como meta atingir 50% de produção de electricidade a partir de fontes renováveis até 2030.
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Eclipse total do Sol acontece esta quarta-feira
Contagem decrescente para o eclipse total do Sol, esta quarta-feira, 12 de Agosto. O fenómeno acontece quando a Lua passa exactamente entre a Terra e o Sol e projecta a sua sombra sobre a superfície terrestre. Em Portugal, será um eclipse parcial muito profundo, com mais de 90% do disco solar tapado pela Lua em todo o território. A totalidade será visível apenas numa pequena zona do Norte, a norte de Bragança, no Parque Natural de Montesinho. Em entrevista à RFI, Pedro Mota Machado, astrofísico do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, ligado à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e Comissário Nacional para o Eclipse Solar 2026, explica que a raridade do fenómeno está na precisão do alinhamento entre a Lua, a Terra e o Sol. “Como a Lua é relativamente pequena comparada com a Terra e com o Sol, este cone de sombra tem um diâmetro de à volta de 300 quilómetros”, explica o astrofísico. É essa faixa estreita que define onde é possível assistir ao eclipse total. Fora dela, o eclipse é parcial, ainda que muito profundo. Durante o eclipse total a Lua bloqueia completamente a fotosfera, a camada visível do Sol, permitindo a observação da coroa solar, uma região muito menos luminosa que se estende em torno da estrela, “só é passível de ser vista durante um eclipse total do Sol”, sublinha Pedro Mota Machado. A discrepância entre a temperatura da superfície e a da coroa continua a ser uma das questões em aberto da ciência solar. O eclipse total constitui, por isso, não apenas um espectáculo para o público, mas também uma oportunidade para a ciência. A experiência pode ser impressionante, mas exige cuidados. Observar o Sol sem a protecção adequada pode provocar lesões permanentes na visão. A observação do eclipse deve ser feita com óculos próprios, com filtros certificados. Óculos de sol convencionais, mesmo muito escuros, não protegem os olhos da radiação solar. Também não devem ser utilizadas radiografias antigas, CDs, DVDs ou vidros fumados. Binóculos e telescópios só podem ser usados com filtros solares adequados e sob condições de observação seguras. O perigo é particularmente elevado porque a retina não possui receptores de dor. “Nós não nos apercebemos logo que estamos a danificar os nossos olhos”, alerta o cientista. É também, por isso, que o momento de retirar os óculos exige cuidado: primeiro deve desviar-se o olhar do Sol e só depois retirar a protecção. Para as crianças mais pequenas, Pedro Mota Machado recomenda uma alternativa simples: a projecção por “câmara de buraco de agulha”. Um pequeno orifício numa cartolina ou caixa de cartão permite projectar a imagem do Sol numa superfície, possibilitando acompanhar a evolução do eclipse sem olhar directamente para o astro. Em Portugal, em Bragança espera-se uma concentração particularmente elevada de espectadores. O aeródromo da cidade será palco de um programa dedicado ao eclipse, num território que deverá receber “muitos milhares de pessoas” atraídas pelo fenómeno. Há meses que as entidades locais se preparam para a chegada de visitantes. Mas o eclipse não é o único acontecimento astronómico do dia. Antes do nascer do Sol, será possível observar um alinhamento de vários planetas, incluindo Mercúrio, Vénus, Júpiter, Saturno e Marte. Com binóculos ou telescópios adequados, poderão ainda ser observados Urano e Neptuno. E, já durante a noite, depois do eclipse, o céu reserva outro espectáculo: uma chuva de meteoros, das Perseidas. Para quem ainda hesita em sair de casa ou procurar um local com boa visibilidade, Pedro Mota Machado recorda um eclipse profundo que observou no Texas, nos Estados Unidos. Diz esquecer-se de muitas coisas, mas “Eu nunca me esqueço do eclipse que tive a sorte de observar no Texas”. “É tão especial que deixa memórias inesquecíveis”.
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Mega incêndios vão ser a norma em França e no sul da Europa?
Em França, milhares de pessoas foram autorizadas a regressar, esta segunda-feira, às localidades mais afectadas pelo mega incêndio que lavrou durante cerca de dez dias na província de Gironde, no sudoeste de França. As autoridades anunciaram que o fogo está controlado, depois de ter obrigado à retirada de cerca de 220 mil pessoas e consumido cerca de 42 mil hectares. Este é o incêndio florestal mais grave em França desde 1949, num verão que está a ser marcado por outros mega incêndios noutras regiões de França e também noutros países, especialmente no sul da Europa. O que fazer perante um cenário que se pode tornar norma e que tem vindo a ser antecipado pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas? Para conversarmos sobre o tema convidámos Francisco Ferreira, presidente da ONG ambiental ZERO e director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa. RFI: Por que é que os incêndios em França têm sido tão intensos este verão? Francisco Ferreira, Presidente da ONG ambiental “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável” e director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa: “Não podemos atribuir apenas a uma causa, mas sim a um conjunto de circunstâncias, um pouco como tiveram lugar em Junho e em Outubro de 2017 em Portugal, com uma enorme área ardida. Do ponto de vista da meteorologia, estamos a falar de umas características muito próprias que habitualmente são identificadas como 30-30-30, ou seja, 30% ou menos de humidade relativa, mais de 30 graus Celsius e velocidades de ventos superiores a 30 quilómetros por hora. São realmente circunstâncias que levam a uma enorme secura da vegetação, vegetação essa que com um historial de um clima que teve fases em que levou ao desenvolvimento de vegetação, nomeadamente rasteira, e depois a períodos de seca, com as ondas de calor que tiveram lugar, proporcionaram uma extensão muito rápida dos incêndios. Por outro lado, também, sem dúvida alguma, o local em causa. Estamos a falar de florestas de pinhal, de uma monocultura com uma enorme quantidade de combustível que, face às circunstâncias meteorológicas e climáticas, entraram naquilo que nós chamamos um ciclo positivo, em que um incêndio passa para um mega incêndio que se propaga com grandes velocidades, onde o vento também acaba depois, pela dinâmica do próprio incêndio, a ter um comportamento irregular e incontrolável do ponto de vista da previsão, com uma extensão e um impacto absolutamente brutais e incontroláveis.” Este “mega incêndio” na região de Gironde está a durar há mais de dez dias e só agora é que estão a deixar a população voltar para casa. O que é que explica que este mega incêndio tenha durado tanto tempo? “O problema é que quando nós temos esta mistura de muito combustível presente, circunstâncias meteorológicas que levam a que o incêndio possa ter um desenvolvimento muito maior que o normal, questões de ordenamento do território também a ajudar e quando se sabe também que tudo isto é resultado de um agravamento causado pelas alterações climáticas, ou seja, as alterações climáticas não são o aspecto decisivo, mas são sim uma agravante destes incêndios, que estamos a ter na Europa um conjunto de circunstâncias que levam a que estejamos com temperaturas muito elevadas e baixa humidade relativa, obviamente, estes incêndios tornam-se incontroláveis e a própria noção de criação de cumulonimbus que são nuvens de desenvolvimento vertical, ou seja, quando nós temos o ar a subir muito rapidamente, uma enorme deslocação vertical, se eu tiver também neste movimento da formação destas nuvens um incêndio no seu interior, digamos assim, isso leva àquelas línguas de fogo que são visíveis e que obviamente representam ainda um maior factor de descontrolo do incêndio em termos de previsibilidade e de extensão daquilo que pode vir a acontecer. O que é facto é que estes incêndios que temos assistido em vários locais, na proximidade de Madrid, na proximidade de Bordéus, também aconteceram em Portugal, no Pinhal de Leiria, em Setembro de 2017, na zona de Pedrógão Grande, em Junho de 2017, são resultado de um conjunto de circunstâncias. As ignições também são importantes. Em França, sabemos que nove em cada dez incêndios têm a ver com uma origem humana directa, seja ela por negligência ou criminosa.” Falou na monocultura do pinheiro, que é um tipo de vegetação mais inflamável. Como é que agora deve ser feita a reflorestação para não cometer os mesmos erros? “Talvez aqui o Pinhal de Leiria seja um exemplo que Portugal pode apresentar para França e para o resto da Europa porque nós tivemos realmente mais de 500.000 hectares ardidos, no total, no país em 2017 e no ano passado ainda tivemos 250.000 hectares de área ardida. Ora bem, como é que a recuperação ou reabilitação ou reflorestação tem sido feita? Acima de tudo, através da diversidade que nós conseguimos impor à paisagem, ou seja, não é retirar o pinheiro, mas é olhar para o ordenamento do território como um mosaico, um mosaico que tem diferentes espécies, umas que podem ser muito importantes do ponto de vista da sua produção - árvores para madeira, para outros fins - mas também com vegetação autóctone com maior resistência ao fogo, zonas agrícolas, ou seja, o truque está em eu não ter uma ocupação com base numa única espécie e contínua - mesmo que tenha alguns espaços para corredores para permitir atrasar a propagação do fogo e o seu combate, mas que se têm revelado insuficientes. Portanto, o truque está realmente na gestão florestal, nesta lógica de diversidade e de mosaico que poderão permitir atrasar a propagação, permitir o controlo da parte dos bombeiros e, acima de tudo, até garantir uma paisagem mais resiliente. O fogo faz parte das características do Mediterrâneo e de zonas de França, como Bordéus e outras, mas o problema é que nós temos uma paisagem que foi fortemente humanizada, assumindo um risco de incêndio que nos últimos anos tem vindo a aumentar e, portanto, nos obriga também a repensar a paisagem.” Tendo em conta as ondas de calor, as alterações climáticas, a sobreocupação humana da própria paisagem, os incêndios extremos vão tornar-se uma norma em França e no Sul da Europa? “É isso que o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas tem vindo a dizer nos seus últimos relatórios, claramente identificando Península Ibérica, a França, a Grécia, a Turquia e a Itália como países onde os incêndios farão parte, infelizmente, de uma realidade com um clima diferente, mas onde as alterações climáticas são um dos factores e não apenas o único. O que é facto é que é um drama enorme para o próprio clima porque o clima está a aquecer porque temos mais dióxido de carbono na atmosfera e as florestas são precisamente onde nós conseguimos captar e armazenar este dióxido de carbono. Cada vez que temos um incêndio, nós estamos a recolocar esse dióxido de carbono, que estava armazenado, na atmosfera, para além, obviamente, de todos os prejuízos, sejam eles directamente em vidas humanas, seja para os bens, seja para a poluição do ar, que afecta também não apenas as zonas circundantes, mas zonas bem distantes, como vimos há poucas semanas no caso dos grandes incêndios rurais do Canadá.” Falámos na prevenção, mas no que toca à gestão da crise, a França teve de recorrer a meios aéreos europeus, incluindo de Portugal, para combater o mega incêndio do distrito de Gironde. A França está preparada para este tipo de incêndios? “Eu acho que nenhum país da Europa está preparado para este tipo de incêndios e nem deve estar, entre aspas, porque nós temos que ter um equilíbrio, eu diria até uma predominância dos investimentos na prevenção e não tanto no combate. O que é facto é que o mecanismo europeu procura dar esta resposta para que cada país - às vezes, alguns com dimensão pequena, como Portugal - não tenha que ter um conjunto de meios que tem custos enormes, como são os meios aéreos, e que possamos usar entre os vários países europeus - e também no caso de Portugal, recorrendo a Marrocos - este tipo de resposta coordenada.”
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Artigo académico analisa emoções dos portugueses em França logo a seguir ao 25 de Abril de 1974
Entre esperança e incerteza, milhares de portugueses instalados em França terão escrito para o programa "Emissão dos trabalhadores portugueses” nos meses logo após o 25 de Abril de 1974. Este era um programa dedicado à diáspora portuguesa que passava de segunda a sexta-feira na rádio francesa. 50 dessas cartas existem até hoje e o investigador português Manuel Antunes da Cunha transpôs num artigo científico as principais emoções de quem viveu a revolução à distância. “Ici Paris, Office de Radiodiffusion Télévision Française. Emission en langue portugaise, destinée aux travailleurs portugais résidant en France”, assim começava o programa quotidiano da ORTF “Emissão dos trabalhadores portugueses” dedicado à comunidade portuguesa em França e que durou entre 1966 e 1992, apresentado por Jorge Reis. Neste programa, difundido na então rádio pública francesa, o objectivo começou por ser orientar os cada vez mais numerosos portugueses que chegavam a França nas papeladas administrativas, mais tarde na integração e depois com conteúdos adaptados à segunda geração já nascida em terras gaulesas. Se até ao 25 de Abril de 1974, este programa não entrava em temas políticos de forma a evitar problemas diplomáticos entre o Portugal dominado pelo Estado Novo e França, após a Revolução dos Cravos, muitos portugueses escreveram a Jorge Reis para mostrar a sua felicidade, mas também a sua inquietação face aos acontecimentos políticos. Manuel Antunes da Cunha, professor na Faculdade de Filosofia e Ciência Sociais da Universidade Católica de Braga e investigador, documenta há duas décadas a imigração portuguesa em França e escreveu o artigo “Dire Avril en Exil” que explora as emoções dos portugueses no período pós-revolução estudando 50 cartas enviadas ao programa “Emissão dos trabalhadores portugueses” entre Maio e Junho de 1974. “Esta emissão iniciou-se em 1966. De facto, embora a emissão fosse feita em França e fosse ouvida em França e em Portugal, de facto, por razões diplomáticas, o Jorge Reis, que era o jornalista histórico desta emissão e que era um exilado comunista, não fazia política à antena, digamos assim. Esta emissão era exactamente para ajudar os portugueses a integrar-se em França, ajudá-los a responder às suas questões com a administração pública. As cartas que eu analiso aqui são 50 cartas enviadas ao programa entre 14 de maio e 20 de junho de 1974, isto é, logo depois do 25 de Abril. E essas cartas foram deixadas no Centro de Documentação 25 de Abril. E são interessantes porque a partir deste momento solta-se a palavra. Até aí, havia milhares e milhares de cartas que eram enviadas, mas os imigrantes portugueses não diziam tudo aquilo que pensavam, até porque a PIDE estaria também presente na imigração. E aqui, digamos, solta-se a palavra e é interessante ver e ouvir como os portugueses falam da sua necessidade de emigrar, falam da sua relação com o Estado Novo e com a distância e a saudade, com Portugal, com o futuro”, explicou o investigador em entrevista à RFI. Manuel Antunes da Cunha estima que tenham sido enviadas milhares de cartas a esta emissão durante as quase três décadas na antena, mas a maior parte perdeu-se. As 50 que analisou no artigo “Dire Avril en exil : diaspora, médiations radiophoniques et émotions communautaires” foram depositadas no Centro de Documentação 25 de Abril, na Biblioteca de Coimbra, em Portugal. Se há uma análise das emoções destes portugueses, entre esperança e incerteza, o académico relembra que a mobilização dos portugueses na diáspora foi visível logo em 1974, quando em Agosto, os portugueses que residiam no estrangeiro organizaram uma grande manifestação de apoio à revolução em Lisboa. "Os imigrantes não puderam estar no 1º de Maio, na grande manifestação da liberdade. E, portanto, criou-se uma nova manifestação, com os emigrantes, alguns dos quais foram a Lisboa. E há testemunhos através da imprensa da época de que foi uma grande manifestação. E Jorge Reis estava no palco com várias personalidades e falou à multidão. Portanto, havia essa questão da incerteza e essa vontade de fazer parte de um novo Portugal e de participar nesta reconstrução. E alguns deles vão constituir listas para angariar dinheiro para várias iniciativas a partir da emigração", descreveu Manuel Antunes da Cunha. Este artigo integra a revista "La Révolution des Œillets et les Portugais en France", editada pelo Centre d'études et de recherches sur les migrations ibériques, que conta também com artigos ligados à presença dos músicos portugueses de intervenção em França ou as remessas dos emigrantes. A RFI é uma das empresas do audiovisual público francês que resultou da desagregação da ORTF, mantendo até hoje antenas em português.
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Matéria escura: Portugal trabalha sobre projecto internacional
Várias observações do Universo indicam que a matéria escura é um ingrediente fundamental do cosmos: é cerca de cinco vezes mais abundante do que a matéria normal e contribui para manter as galáxias coesas. Apesar disso, a sua detecção directa é um grande desafio, uma vez que as partículas que a constituem não emitem nem interagem com a luz. A RFI falou com Isabel Lopes, responsável do grupo Matéria Escura na Universidade de Coimbra. E se alguém lhe dissesse que tudo aquilo que conseguimos ver no Universo representa apenas cerca de 5% do que existe? Os outros 95% seriam, pois, matéria escura. A experiência LUX-ZEPLIN é uma colaboração internacional com 250 cientistas e engenheiros de 37 instituições dos Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Suíça, Austrália e Coreia do Sul. A investigadora Isabel Lopes é responsável do grupo Matéria Escura do LIP, o Laboratório de instrumentação e física experimental de partículas, da Universidade de Coimbra. Ela começa por explicar o âmbito da experiência LUX-ZEPLIN. Essa experiência tenta detectar as partículas, hipotéticas porque não sabemos se elas sequer existem, que constituirão a matéria escura. A matéria normal, nós sabemos que é feita de partículas, então nós pomos a hipótese de que a matéria escura também seja feita de partículas. Só que não podem ser estas partículas que nós conhecemos. As propriedades da matéria escura não são de molde a serem compatíveis com as propriedades das partículas que nós conhecemos. De modo que são partículas desconhecidas. E então a experiência LUX-ZEPLIN tem um enorme detector numa antiga mina de ouro, a 1,7 quilómetros de profundidade, a ver se consegue detectar partículas dessa matéria escura que venham da periferia da nossa galáxia. Porque é que o detector está enterrado tão fundo? Estas partículas da matéria escura, nós sabemos que têm pouca probabilidade de interagir com a matéria normal, portanto, com o detector. Ao mesmo tempo, por exemplo, aqui à superfície da Terra, temos imensas outras partículas que vêm da atmosfera, que vêm dos materiais, até nós próprios irradiamos partículas. E, portanto, seria impossível distinguir, no meio de tanta partícula a interagir no detector, aquelas que nós procuramos, que são muito raras. Por isso, vamos lá para baixo, e assim, no nosso detector só vamos ver os sinais das partículas de matéria escura, quando eles aparecerem claro. Para tentar ver estes sinais, utilizam o xénon líquido. O que é e porque é importante nessa pesquisa? Pois são dez toneladas de xénon líquido e como a probabilidade destas partículas interagirem é muito pequena, nós temos que aumentar a massa das nossas partículas normais. São os átomos de xénon líquido, compostos por electrões, protões e neutrões. Por isso temos que ter muitos desses átomos. O xénon é bom porque ele tem um gás inerte, não é perigoso. Portanto daí a escolha do xénon. E é líquido porque sendo líquido é muito mais denso que sendo gás. Densidade significa que temos mais partículas por unidade de volume. E, portanto, conseguimos maior probabilidade de observar as tais partículas da matéria escura. Se uma partícula de matéria escura atravessar o detector, o que acontece exactamente? Vemos um sinal eléctrico, não no xénon directamente. No xénon directamente, essa partícula vai alterar os átomos, vai produzir luz. E essa luz que é uma luz no ultravioleta, vai ser detectada por uns sensores que nós temos no detector, no pote, digamos assim, cheio de xénon líquido. Temos um conjunto de sensores de luz no topo e na base. E então esta luz é detectada por esses sensores. Esses sensores convertem a luz num sinal eléctrico e o que nós vimos é nos computadores um sinal eléctrico. Depois há todo o trabalho de ver se o sinal eléctrico observado é compatível com que nós esperamos da partícula da matéria escura. E aí entra a física. Se o encontrassem matéria escura, o que mudaria na física? Isso me ajudaria imenso, porque é um mistério enorme. Termos provas de que exista matéria escura, que não só existe como é 90% de toda a massa do universo. Nós temos aqui na nossa galáxia toda um halo de matéria escura à volta da parte luminosa e que não sabemos o que é. E, portanto, além disso, seriam partículas novas, totalmente desconhecidas. Iremos ter que estudar todas estas partículas e ver se compreendemos o comportamento dessas massas. Era realmente uma revolução. Ao contrário, se o LUX-REPLIN terminar sem encontrar matéria escura, significa que não existe ou que temos de a procurar de outra forma? Já está a ser desenhado um detector ainda maior, também de xénon líquido, muito parecido com LUX-ZEPLIN, porque o tamanho importa muito. Portanto já está a ser desenhado esse detector que se chama XLZD. Essa é a fase seguinte. Prevê-se que esteja pronto para 2030, 2031 e depois, se esse não der, então temos que procurar outras maneiras. Nesses projetos, qual é o papel de Portugal? Há só uma instituição em Portugal a participar que é o LIP. E então nós fomos responsáveis e mantemos a manutenção. Fomos nós que desenhámos e construímos, digamos, o cérebro da experiência que se chama o sistema de controlo, que é o sistema, como o nome indica, que controla as várias partes do detector e toma a acção quando ela é necessária. Por exemplo, estas dez toneladas de xénon estão sempre a circular, não estão quietinhas no detector. Isso obriga a que abram e fechem as torneiras e sejam lidos muitos sensores. Esta experiência tem 10.000 sensores, para além dos sensores de luz, têm 10.000 sensores de pressão, temperatura porque o cheiro só é liquido a -100 graus. Também fizemos um sistema todo software para ir analisando os dados da experiência, ou seja, os sinais dos sensores de luz para ver se está tudo a correr bem. Isso é bastante complexo porque nós temos que ter a certeza que o detector está estável a um nível muito elevado. A precisão tem que ser muito grande. E agora somos responsáveis por analisar os dados à procura do tal sinal da matéria escura. Temos uma parte dessa tarefa. Portanto, temos várias valências. É um grupo que não é muito grande. Tem 12 pessoas, entre investigadores e estudantes. Fizeram uma operação de 417 dias entre 2023 e 2025, na qual não encontraram matéria escura, mas aprenderam muito. Considera que é um sucesso? Ah sim é um sucesso. Ela foi um sucesso. Nós já temos resultados posteriores a estes, mas estes foram um sucesso porque não só mostraram que era possível operar um detector tão grande. E, por outro lado, ficámos a saber um pouco mais da matéria escura, quanto, por exemplo, a sua potencial massa. Era Isabel Lopes, investigadora e responsável do grupo Matéria Escura do LIP da Universidade de Coimbra, que nos acompanhou neste magazine de Ciência.
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Fontainhas: A aldeia encantada de Santo Antão
Moldada pelo isolamento geográfico, pela agricultura em socalcos e pelas tradições centenárias, a aldeia das Fontainhas preserva costumes como o fongo, uma iguaria artesanal associado à Páscoa. Considerada, várias vezes, como o segundo lugar com a vista mais bonita do mundo, impulsionada pelo crescente turismo e pelo reconhecimento da UNESCO, a aldeia da ilha de Santo Antão, em Cavo Verde, procura conciliar a valorização do seu património com a preservação da sua identidade. Chegar às Fontainhas é, por si só, uma experiência memorável. Encravada nas montanhas da ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, esta pequena aldeia revela-se apenas depois de uma longa viagem por uma estrada sinuosa, que serpenteia entre escarpas e precipícios, aumentando a expectativa a cada curva. Quando finalmente surge diante dos olhos, o cenário é arrebatador: um conjunto de casas coloridas parece desafiar a gravidade, agarrado à encosta da falésia e suspenso sobre um vale coberto por socalcos verdejantes que se estendem até onde a vista alcança. Em 2024, as Fontainhas foram classificadas como Património Mundial da UNESCO, um reconhecimento que veio reforçar a projecção internacional da aldeia, já anteriormente distinguida pela revista National Geographic como uma das localidades com a segunda vista mais bonita do mundo. A estrada dos Namorados Durante décadas, o acesso à aldeia foi difícil e reservado aos mais destemidos. A antiga estrada, escavada na própria rocha, era tão estreita que quem sofresse de vertigens dificilmente conseguia percorrê-la, fosse a pé ou de automóvel. Em 2025, as autoridades cabo-verdianas concluíram um projecto de valorização turística e ambiental da aldeia, inaugurando uma nova via de acesso. No entanto, a antiga estrada continua a fazer parte da memória colectiva e é conhecida como a "Estrada dos Namorados". Vítor Monteiro recorda a história que deu origem ao nome. A estrada foi mandada construir por João Serra, então administrador do concelho, para poder visitar a esposa, Bárbara, natural das Fontainhas. Proprietário do único camião Bedford existente na região, fez questão de abrir uma estrada com a largura exacta necessária para a passagem do veículo. Construída integralmente em pedra seca, a obra permanece como testemunho da perícia e da dedicação dos trabalhadores da época. Anos mais tarde, porém, o próprio João Serra perdeu o controlo do camião numa das curvas, devido a uma falha nos travões. O veículo caiu na ribeira e ficou destruído, mas o condutor sobreviveu ao acidente. Agricultura e caminhadas entre montanhas Apesar da crescente escassez de água, as Fontainhas continuam a manter alguma actividade agrícola. Nos socalcos cultivam-se produtos como inhame, cana-de-açúcar e bananeiras, culturas que ainda garantem parte do sustento das famílias locais. A aldeia das Fontainhas é igualmente um dos pontos de passagem obrigatória para os amantes das caminhadas. O percurso entre Cruzinha e Ponta do Sol, com cerca de 15 quilómetros, é considerado um dos mais espectaculares de Cabo Verde. Todos os dias, dezenas de visitantes percorrem este trilho costeiro e, durante a época alta, esse número ascende facilmente às centenas. O desafio de preservar a autenticidade O reconhecimento internacional trouxe uma crescente procura turística. Actualmente, mais de 500 visitantes passam - na época alta- diariamente pelas Fontainhas. Para Vítor Monteiro, o turismo representa uma oportunidade importante para o desenvolvimento económico da comunidade, mas alerta para os riscos associados ao crescimento descontrolado. A sua principal preocupação é a construção de edifícios modernos que possam descaracterizar a aldeia. Com a melhoria dos acessos, receia que aumente o interesse de investidores externos, comprometendo a autenticidade que distingue as Fontainhas.O fongo: um sabor que atravessa gerações Entre as tradições mais emblemáticas das Fontainhas encontra-se o fongo, uma especialidade gastronómica profundamente ligada às celebrações da Páscoa. Na casa de Dona Antónia, de 90 anos, descobrimos uma receita artesanal transmitida de geração em geração. A preparação começa com banana madura esmagada, à qual se juntam sal, açúcar, farinha de milho, farinha de mandioca e fermento. Depois de bem amassada, a massa é envolvida em folhas de bananeira. Dona Antónia aprendeu a confeccionar o fongo quando tinha pouco mais de quarenta anos, ensinada por uma mulher mais velha da aldeia. Desde então, nunca deixou de manter viva esta tradição. Ao contrário das versões mais modernas, preparadas no forno, Dona Antónia continua fiel ao método antigo: o fongo é cozinhado lentamente sobre palha e brasas, uma técnica que lhe confere um sabor e uma textura muito característicos. Para os habitantes das Fontainhas, o fongo é mais do que um alimento. É um símbolo de identidade, de partilha e de memória colectiva. Em 2024, esta tradição foi registada pelo Instituto do Património Cultural de Cabo Verde, integrando o processo de valorização do património cultural imaterial da aldeia.
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Um ano depois da tempestade: As vidas que ainda se reconstroem em Cabo Verde
Na madrugada de 11 de Agosto de 2025, uma tempestade de intensidade excepcional atingiu Cabo Verde, provocando oito mortos e um rasto de destruição nas ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau. Quase um ano depois, as marcas da tragédia continuam bem visíveis. Raquel Melício perdeu toda a exploração agrícola e tenta recomeçar a actividade. Já Elídio Gomes da Luz viu o táxi ser arrastado para o mar e continua à espera da indemnização. Duas histórias que ilustram o impacto humano dos fenómenos meteorológicos extremos num dos países mais vulneráveis às alterações climáticas. Há quase um ano, Cabo Verde foi palco de uma das mais graves tragédias provocadas por condições meteorológicas extremas da sua história recente. Na madrugada de 11 de Agosto de 2025, as ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau foram atingidas por chuvas torrenciais que deixaram um rasto de destruição, provocaram oito mortos e alteraram profundamente a vida de centenas de famílias. Em São Vicente, caíram cerca de 163 milímetros de chuva em apenas uma hora, o equivalente a cerca de 81,5% da precipitação média anual da ilha. A violência da tempestade destruiu habitações, arrastou viaturas, danificou estradas e devastou explorações agrícolas, evidenciando a crescente vulnerabilidade do arquipélago aos fenómenos meteorológicos extremos. "O mais importante era estarmos vivos" Entre as pessoas afectadas está Raquel Melício, antiga profissional de saúde que, meses antes da tragédia, tinha decidido dedicar-se à agricultura. O projecto familiar incluía a produção de tomate e papaia , um investimento construído ao longo de vários meses de trabalho. Naquela noite, Raquel, o marido e os filhos permaneceram dentro de casa enquanto a tempestade se intensificava. "Começámos a ouvir um barulho estranho. Havia relâmpagos constantes e percebíamos que muita coisa estava a cair. Estávamos em pânico. A certa altura, o meu marido disse apenas: 'Raquel, vamos rezar, porque já não temos mais nada para fazer'." Pouco depois, a água começou a invadir a habitação "vi a água entrar pela porta. Lá fora já tinha cerca de um metro de altura e começou a passar pelas fissuras. Ficámos aterrorizados. Não sabíamos o que fazer." Raquel recorda que quando amanheceu, conseguiu finalmente sair de casa e o primeiro sentimento foi de alívio. "Nem pensei no que tinha sido destruído. A única coisa que senti foi que estava viva. Olhámos uns para os outros e dissemos: 'Ainda bem que estamos vivos'. Um investimento perdido numa única noite A força da chuva e do vento destruiu a exploração agrícola. Três estufas foram arrasadas, cerca de 600 plantas de papaia desapareceram, o poço que abastecia a exploração ficou coberto por cinco metros de lama e toda a vedação caiu. "Foi um momento de terror", confessa Quase um ano depois, a reconstrução avança lentamente. Nas estufas começam novamente a crescer tomates e morangos, enquanto os primeiros produtos já voltam a chegar aos clientes. Apesar da recuperação gradual, todo o investimento está a ser suportado exclusivamente pela família. "Estamos a reconstruir devagar, pouco a pouco, aproveitando os materiais que conseguimos recuperar. A agricultura não tem seguros. Estamos a reconstruir com as nossas poupanças." Para Raquel, recuperar da tragédia exigiu muito mais do que recursos financeiros. "No início é preciso ter muita força de vontade e muita resiliência. É um choque enorme. Mas também sabemos que, se ficarmos parados, nada muda." A tempestade deixou igualmente um receio permanente sempre que se aproxima o mês de Agosto. "Hoje penso duas vezes antes de fazer novos investimentos. O meu marido mostrou-me equipamentos agrícolas, mas eu disse-lhe para esperarmos primeiro que Agosto passe." A exploração aposta na agricultura hidropónica, um sistema que permite reutilizar a água através de um circuito fechado, reduzindo significativamente o consumo de um recurso escasso em Cabo Verde. Contudo, este modelo implica novos desafios. "Temos de investir num gerador. Se faltar a electricidade, podemos perder toda a produção." Um táxi levado pelo mar Também Elídio Gomes da Luz viu a sua vida mudar naquela madrugada. Taxista em Mindelo, perdeu uma das viaturas que garantia o sustento da família. Na véspera da tempestade, tinha regressado da ilha de Santo Antão sem qualquer indicação de que se aproximava um fenómeno daquela dimensão. Um dos seus automóveis ficou estacionado junto a uma bomba de combustível. Durante a noite, a chuva transformou completamente a cidade e ao amanhecer, encontrou um cenário devastador. "As pessoas diziam que mais abaixo estava tudo destruído. Fui a pé procurar o carro. O carro foi parar ao mar. Não foi só o meu. Quase todos os carros que estavam estacionados naquele local foram arrastados." Apesar da dimensão dos prejuízos, Elídio afirma que nunca conseguiu recuperar financeiramente.Segundo explica, a seguradora recusou assumir os danos, considerando tratar-se de um fenómeno natural. Quanto ao apoio prometido pelo Governo, continua à espera. "Disseram que iam ajudar. Algumas pessoas receberam apoio, mas quem teve perda total, como eu, até hoje não recebeu nada." Alterações climáticas agravam vulnerabilidade Cabo Verde continua entre os pequenos Estados insulares mais expostos aos efeitos das alterações climáticas. A irregularidade da precipitação, associada ao aumento da frequência e intensidade dos fenómenos meteorológicos extremos, coloca desafios crescentes à agricultura, às infra-estruturas e à economia local. As histórias de Raquel Melício e de Elídio Gomes da Luz ilustram a realidade vivida por muitas famílias cabo-verdianas: perderam praticamente tudo numa única noite, mas continuam a reconstruir as suas vidas com os próprios recursos, enfrentando um futuro marcado pela incerteza e pela ameaça de novas tempestades.
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A evolução das bactérias e o desafio da resistência aos antibióticos
O director de investigação no Instituto Pasteur, em Paris, o cientista português Eduardo Rocha, dedica-se ao estudo da evolução bacteriana, da diversidade genética e dos mecanismos que permitem às bactérias trocar informação genética entre si. Um trabalho fundamental para compreender um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea: a resistência aos antibióticos. Entrevista realizada por Taíssa Stivanin. A investigação começa quase sempre pela leitura do genoma. Ou melhor, pela leitura de milhares de genomas. "As nossas análises, em geral, começam com a sequenciação de um genoma, ou de muitos genomas. As pessoas fazem amostragem de bactérias ou de elementos móveis que estão no ambiente, nos hospitais ou dentro dos indivíduos - nós temos muitas bactérias no nosso intestino. Depois sequencia-se o genoma, isto é, identifica-se a sequência de nucleótidos no ADN que vai estabelecer, por exemplo, os genes que estão presentes no genoma e quando vão ser expressos. É preciso perceber que o genoma de uma bactéria típica é um texto grande. Pode ter quatro milhões de letras, um milhão ou dez milhões, depende das bactérias. E é um texto escrito com um alfabeto de quatro letras, os quatro nucleótidos. O nosso objectivo é compreender o que está escrito nesse texto: identificar que genes estão presentes, que elementos regulam a sua presença e a sua expressão. E sobretudo compará-los para perceber como é que as bactérias evoluíram no passado e como poderão evoluir no futuro." O foco da equipa está precisamente nessa capacidade das bactérias para evoluírem. Uma evolução que, ao contrário do que acontece nos organismos mais complexos, pode ser observada em tempo real. "Tentamos perceber como é que as bactérias se adaptam. Elas conseguem adaptar-se muito rapidamente. Temos a ideia dos processos evolutivos como algo muito lento, mas nas bactérias, em parte porque se conseguem dividir muito rapidamente, estes processos podem ser extremamente rápidos, tão rápidos que os podemos observar no laboratório. Podemos fazer experiências em que vemos a evolução da bactéria. Em poucos dias, ela pode tornar-se resistente a antibióticos, perder virulência ou aumentar a virulência. E como agora podemos sequenciar genomas muito facilmente, conseguimos traçar exactamente quais foram as modificações nos genomas que levaram ao resultado final." Durante muito tempo, os cientistas pensaram que a evolução bacteriana resultava sobretudo de pequenas mutações. Mas a realidade revelou-se bastante mais complexa. "Se continuarmos na analogia do texto, é um bocado tentar perceber como é que as palavras mudaram. O que percebemos nos últimos vinte anos é que muitas das mudanças nos genomas não são pequenas mutações, não são palavras que mudaram. Na realidade, são frases, parágrafos ou até secções inteiras que mudaram completamente. Isso acontece porque as bactérias têm a capacidade de trocar genes com outras bactérias, adquirir genes de outras bactérias. E isso permite-lhes evoluir rapidamente. É isso que explica que há setenta anos praticamente todas as bactérias com as quais convivíamos fossem susceptíveis aos antibióticos e que hoje existam bactérias resistentes a quase todos os antibióticos conhecidos. Foram adquirindo estes genes e isso permitiu-lhes evoluir muitíssimo mais rápido." No Instituto Pasteur, a equipa de Eduardo Rocha procura reproduzir e observar estes fenómenos em condições controladas. Mas nem toda a investigação acontece em laboratório. Uma parte importante do trabalho passa pela análise de amostras recolhidas em hospitais ou em estudos clínicos. Um dos projectos recentes acompanhou pessoas saudáveis sujeitas a tratamento antibiótico. “Publicámos um estudo feito num hospital em França com vinte e duas pessoas saudáveis que tomavam dois tipos de antibióticos. Seguimos essas pessoas ao longo de vários meses para perceber o que acontecia à flora intestinal depois do tratamento. Porque ao tomarmos antibióticos, perturbamos as bactérias que estão na nossa flora intestinal e demora um certo tempo até o equilíbrio se voltar a estabelecer.” O estudo tinha uma aplicação clínica directa, mas permitiu também aprofundar uma questão central para o trabalho da equipa: o papel dos chamados elementos genéticos móveis. "Um dos aspectos que nos interessava era compreender como é que os elementos móveis das bactérias reagiam à presença de antibióticos. As bactérias tendem a transferir genes entre si e isso permite-lhes adaptar-se a novos desafios ou aproveitar novas oportunidades. Mas para que o ADN passe de um genoma para outro existem, na maior parte dos casos, elementos genéticos móveis que fazem essa transferência. É aí que se concentra actualmente a nossa equipa. Porque são esses elementos que vão determinar a capacidade das bactérias para se adaptarem. Mas também têm um lado egoísta. Cada vez que se replicam ou se transferem, impõem um custo à bactéria. Em alguns casos, esse custo pode mesmo levar à morte da bactéria. Existe portanto um equilíbrio delicado entre os benefícios que trazem e os custos que impõem." Esses elementos móveis funcionam como verdadeiros veículos de transporte genético. Alguns actuam através de vírus que infectam bactérias. Outros constroem pontes entre células vizinhas. Esses elementos móveis funcionam como verdadeiros veículos de transporte genético. Alguns actuam através de vírus que infectam bactérias, outros constroem pontes entre células vizinhas. E nos últimos anos, os investigadores descobriram ainda um novo nível de complexidade. "Percebemos que existe todo um zoológico de elementos móveis que utilizam outros elementos móveis para se transferirem. Temos agora duas camadas de complexidade: elementos móveis que utilizam a bactéria e elementos móveis que utilizam os elementos móveis que utilizam a bactéria. Estabelece-se uma relação a três entre a bactéria, o elemento móvel autónomo e um segundo tipo de elemento móvel que vai jogar com os outros dois elementos para se transferir. Mas o que nós constatámos é que muitos dos genes de resistência aos antibióticos estão neste segundo tipo de elementos móveis. Uma vez chegados à bactéria, são muito pouco custosos. Isso permite que a bactéria mantenha durante muito tempo os genes de resistência. É uma das razões pelas quais a resistência aos antibióticos não desaparece simplesmente quando deixamos de tomar os medicamentos. A resistência ficou estabilizada na bactéria."
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Hidratação é palavra de ordem durante vagas de calor
A Europa está a ser atingida por uma vaga de calor intensa que deve continuar, pelo menos, até quinta-feira. De forma a afrontar as altas temperaturas, a hidratação resta uma arma importante, assim como uma exposição mínima ao sol, adaptação de horários de saídas e prática de desporto limitada e adaptada. Em várias capitais europeias os termómetros vão chegar quase aos 40 graus, levando ao encerramento de escolas, suspensão de trabalho ao ar livre e cancelamento de comboios, tudo devido ao calor. Em França este é o segundo fenómeno extremo de calor em 2026, estando a bater recordes devido à duração e às temperaturas máximas atingidas, levando a cuidados reforçados com as crianças e com os idosos, mas lançando também um alerta de prevenção a toda a população. Maria Castro, médica de Medicina Geral e Familiar em Portugal, explicou em entrevista à RFI o impacto das temperaturas extremas no corpo humano e o que acontece quando somos expostos a altas temperaturas de forma prolongada. "O nosso corpo funciona ali à volta dos 37 graus e acaba por ter mecanismos para dissipar o calor. O corpo tenta então, através da transpiração e da dilatação dos nossos vasos sanguíneos mais ao nível superficial da pele, dissipar o calor. No entanto, quando a temperatura se torna mesmo muito elevada, tudo isto pode não ser eficaz, ou seja, pode não ser o suficiente e a nossa temperatura corporal começa mesmo a aumentar. Com este aumento da temperatura, vai haver aqui um reforço cardiovascular porque o corpo continua a tentar combater o calor e pode ocorrer mesmo também aquilo que se chama a desidratação. Esta desidratação vai dar alguns sinais e esses sinais de alarme, os principais, passam por uma sensação de sede intensa, boca seca, uma sensação de fraqueza fora do normal, sensação de tonturas, até mesmo dores de cabeça. Às vezes até pode mesmo ocorrer a sensação de uma náusea ou até algum episódio de vómito. A pessoa pode mesmo ter a sensação de palpitação, porque o nosso esforço cardiovascular vai aumentar, que a frequência cardíaca e é possível que a gente sinta em palpitação. E tudo isto pode se tornar mais grave, até mesmo com confusão mental, desorientação, eventualmente uma perda de consciência", explicou Maria Castro. Estima-se que em França, 90% da população esteja a ser afectada por esta vaga de calor e o alerta vermelho cobre também uma grande parte do país, levando a uma vigilância reforçada e conselhos permanentes à população. "Começando logo pela questão de beber água. No fundo nós estamos, de certa forma, mal habituados. Só bebemos água quando temos sede e mesmo sem ser nas ondas de calor, isso acaba por ser um erro. Mas principalmente nestas alturas devemos tentar ir bebendo água ao longo do dia sem esperar pela sensação de sede, até porque às vezes nem nos apercebemos e não estamos muito alerta para esta sensação e confundimos até, às vezes com fome. Por exemplo, os idosos até perdem mesmo fisiologicamente esse mecanismo. Então é importante irmos mantendo a hidratação e não esperar pela sensação de sede", aconselhou a médica. Tanto em Paris, como Madrid ou Lisboa, e sem esquecer que decorre actualmente um Mundial de Futebol do outro lado do Atlântico, muitos atletas continuam a sua prática seja de corrida, levantamente de pesos ou desportos de equipa mesmo durante as vagas de calor. Maria Castro lembra que é importante continuar a praticar desporto, mas que deve os esforços têm de ser adaptados. "No que diz respeito à prática de exercício, se a prática for a uma hora de muito calor, devemos alterar. Deve ser reduzido o prolongamento de exposição ao sol. [...] Obviamente [em eventos profissionais] estamos a falar de adaptação por parte das organizações [desportivas]. E no fundo, a nível de tempo aqui do Mundial, seria importante adaptar os horários, aumentar o período de pausa para a ocorrência de hidratação, monitorização médica das condições do atleta. Mas a nível de sinais de alarme penso que a população que até os conhece melhor serão exactamente os atletas", concluiu.
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Cabo Verde utiliza programa PISA para avaliar conhecimentos e melhorar "bem-estar" dos alunos
Mais de 2 mil alunos em Cabo Verde realizaram no final de Maio provas de leitura, matemática e compreensão para uma avaliação global do programa PISA, padrão de aprendizagem dos países da OCDE. Conclusões devem ser conhecidas no final de Junho. Até ao final de Maio, cerca de 2200 alunos cabo-verdianos de 44 escolas que frequentam o 9º e o 10º ano de escolaridade foram avaliados nos chamados testes PISA, ou Programma for International Student Assessment, que mede os nivéis de aprendizagens dos alunos nos países da OCDE e que, entretanto, se tornou um padrão internacional de referência. Estes testes servem não para dar notas individuais, mas sim para avaliar as competências em geral num determinado país dos alunos a nível da leitura, matemática e resolução de situações do dia a dia. Em África, só Marrocos faz estas avaliações e entra nos rankings da OCDE. Em Cabo Verde, após mudanças curriculares e uma preocupação crescente com as aprendizagens feitas alunos desde a entrada na escola primária, o país quer através destes testes identificar os pontos fortes, as fragilidades e áreas prioritárias de melhoria no ensino. Segundo Adriano Moreno, director nacional da Educação de Cabo Verde, esta avaliação deve servir para continuar a formar os professores, ajudar os alunos e, sobretudo, verificar se há ajustes a fazer nos programas escolares. "Nós queremos sobretudo melhorar a aprendizagem e o bem estar dos alunos, porque esta avaliação permite comparar o desempenho dos alunos com padrões globais, nomeadamente os países da OCDE. E nós temos estado a fazer uma reforma educativa profunda precisamente visando essa aproximação e realizar a avaliação PISA permite que façamos um diagnóstico do sistema educativo e trabalhar na melhoria contínua do mesmo", explicou Adriano Moreno em entrevista à RFI. Os resultados dos testes PISA em Cabo Verde devem ser conhecidos entre o final de Junho e o início de Julho. Para o director nacional da Educação de Cabo Verde o diagnóstico que vier destas avaliações não devem nem causar "euforia" se forem bons, nem depressão se forem maus", mas sim contribuir para melhor o percurso escolar do alunos cabo-verdianos. "Nós estamos a trabalhar com professores e a comunidade em geral, e estamos a avisar que não devemos nem ficar eufóricos nem entrar em depressão com os resultados. Nós não temos como finalidade, para já criar rankings de escolas ou entrar em rankings em termos internacional, queremos é fazer o diagnóstico, trabalhar sobre as evidências e ir melhorar continuamente o sistema educativo", concluiu.
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Organizações ambientais denunciam impactos sociais e ambientais da barragem de Mphanda Nkuwa
O projecto hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa, previsto para o rio Zambeze, na província de Tete, no centro-norte de Moçambique, voltou a ganhar impulso depois de mais de duas décadas marcadas por adiamentos, mudanças de investidores e forte contestação social. Um relatório publicado pelas organizações Justiça Ambiental e CCFD-Terre Solidaire levanta sérias preocupações quanto aos impactos sociais, ambientais e culturais do projecto, alertando para o risco de deslocação de milhares de pessoas. Apresentado pelo Governo moçambicano e pelos promotores como uma peça fundamental para a transição energética da África Austral, o empreendimento prevê a construção de uma barragem com capacidade para produzir 1.500 megawatts de electricidade e um investimento estimado em 6,4 mil milhões de dólares. Contudo, um relatório publicado em 2025 pelas organizações Justiça Ambiental (JA!) e CCFD-Terre Solidaire levanta sérias preocupações quanto aos impactos sociais, ambientais e culturais do projecto, alertando para o risco de deslocação de milhares de pessoas e para a degradação de um dos mais importantes ecossistemas da região. A barragem seria construída cerca de 60 quilómetros a jusante de Cahora Bassa e desenvolvida por um consórcio privado que detém 70% da propriedade - liderado pelas empresas francesas EDF-Electricité de France (40%) e TotalEnergies (30%), juntamente com a japonesa Sumitomo Corporation (30%) - em parceria com a Electricidade de Moçambique (EDM) e a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), que mantêm 30% do projecto. Para os promotores, o projecto representa uma oportunidade para aumentar a produção de energia renovável e reforçar o papel de Moçambique como exportador de electricidade. No entanto, para muitos habitantes das comunidades afectadas, Mphanda Nkuwa é visto como mais um capítulo de uma história marcada por promessas de desenvolvimento que raramente se traduzem em benefícios para quem vive no terreno. Daniel Ribeiro, coordenador técnico da ong moçambicana Justiça Ambiental, recorda que o projecto não é novo e que o seu percurso tem sido marcado por sucessivos fracassos. “O projecto implantado desde 2000, já teve várias tentativas para o fazer avançar. Já teve o Banco Mundial envolvido, já teve investimento brasileiro, até chinês, e muitos deles acabaram por sair devido à complexidade do projecto”. “É um projecto que tem grandes impactos ambientais e sociais e agora voltou à mesa, desta vez com investimento francês. Já é um projecto com um historial muito complicado e problemático”, afirma. Nas aldeias que poderão vir a ser inundadas pela futura albufeira, a perspectiva de uma nova barragem desperta memórias dolorosas da experiência de Cahora Bassa. O relatório refere que praticamente todas as comunidades consultadas associam Mphanda Nkuwa ao trauma dos deslocamentos forçados ocorridos durante a construção da grande barragem colonial nos anos 1970. Muitas famílias foram reassentadas em terras menos férteis, perderam o acesso ao rio e viram os seus modos de vida profundamente alterados. Décadas depois, os impactos continuam presentes na memória colectiva das populações. Daniel Ribeiro sublinha que a incerteza prolongada gerou um desgaste profundo entre os habitantes locais. “O povo local já teve vários ciclos de ‘vão ter que sair das vossas terras’, depois ‘não vão ter que sair’. Eles já estão cansados, não querem o projecto”, “temos uma comunidade que está a dizer não ao projecto”. De acordo com o relatório publicado em 2025 pelas organizações Justiça Ambiental (JA!) e CCFD-Terre Solidaire, a criação da albufeira poderá inundar cerca de 100 quilómetros quadrados de território e obrigar à deslocação directa de mais de 1.400 famílias, num total estimado superior a 8.000 pessoas. Contudo, os autores consideram estes números conservadores e alertam para impactos muito mais vastos. Uma avaliação preliminar aponta para quase 39 mil pessoas em risco de deslocação económica ou física e para cerca de 350 mil habitantes potencialmente afectados a jusante pelas alterações ambientais e socioeconómicas provocadas pela barragem. Grande parte destas populações vive da agricultura familiar, da pesca artesanal, da criação de gado e, em algumas comunidades, da extracção artesanal de ouro. As margens do Zambeze constituem a base da sua sobrevivência económica e alimentar. “As barragens são o sector industrial que deslocou o maior número de pessoas no mundo”, afirma Daniel Ribeiro. “Os rios são zonas muito produtivas, muito importantes para a soberania alimentar da zona. Então, [as populações] vão perder o seu acesso ao rio. Grande parte das ‘machambas’ ou terrenos agrícolas mais produtivos está ao lado do rio.” Para o ambientalista, os efeitos não se limitam às populações directamente deslocadas. Uma das principais críticas feitas ao projecto diz respeito precisamente à ideia de que a energia hidroeléctrica constitui uma solução simples para a crise climática. Daniel Ribeiro considera que essa narrativa ignora riscos crescentes associados às alterações climáticas. A produção hidroeléctrica depende da estabilidade dos regimes de precipitação e dos caudais dos rios, algo que poderá ser cada vez mais difícil de garantir num contexto de aquecimento global: “As barragens são sensíveis às mudanças climáticas, mudanças na precipitação. Podes ter menos água, mais água, menos cheias, mais cheias. E as projecções climáticas para a zona fazem com que vá haver mais variabilidade, que não é boa para a produção de energia.” Outra das críticas prende-se com o destino da electricidade produzida. Embora o projecto seja frequentemente apresentado como um instrumento para combater a pobreza energética no país, uma parte significativa da energia será exportada para os mercados regionais. “A electricidade não é para nós, é para exportação”, garante Daniel Ribeiro.
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Microplásticos e contaminantes químicos em aves marinhas subantárcticas
Microplásticos e compostos químicos potencialmente nocivos para a saúde foram detectados em aves marinhas da Geórgia do Sul, uma ilha remota da subantárctica. Um estudo internacional liderado por investigadores do Centre for Functional Ecology (CFE) do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou 1275 partículas de origem antropogénica em sete espécies de aves, algumas delas classificadas como vulneráveis ou ameaçadas. A investigação foi conduzida no âmbito de um doutoramento em Biociências na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra pela investigadora Joana Fragão, que também colabora com o British Antarctic Survey, no Reino Unido. A investigação procura avaliar a presença de microplásticos e contaminantes químicos ao longo da cadeia alimentar antárctica: “Este estudo está inserido no meu projecto de doutoramento, sendo que o projecto é uma avaliação mais global da presença de microplásticos e quais os níveis dos microplásticos, bem como dos compostos químicos em toda a cadeia alimentar da Antárctida”. Segundo a investigadora, os plásticos podem funcionar como vectores de contaminação. Além dos compostos adicionados durante o seu fabrico, conseguem absorver outros poluentes presentes no meio marinho, incluindo metais pesados. Apesar de a presença de microplásticos em regiões remotas já ter sido documentada por outros estudos, alguns dos resultados surpreenderam a equipa. “Houve um estômago de uma ave em que contabilizei 130 partículas”, revela Joana Fragão. Embora a média tenha sido de cerca de 17 partículas por indivíduo, a investigadora admite que observar directamente estas partículas durante as análises reforça a percepção do impacto da actividade humana na biodiversidade. O estudo detectou, também, vários compostos químicos com potencial acção como disruptores endócrinos, substâncias capazes de interferir com o sistema hormonal. Ainda assim, a investigação não conseguiu demonstrar uma relação directa entre a presença destes contaminantes e a ingestão de microplásticos. As amostras analisadas foram recolhidas a partir de aves encontradas mortas no âmbito de programas de monitorização realizados na Geórgia do Sul. Esta abordagem impõe limitações ao estudo, uma vez que os investigadores dependem dos animais encontrados e não podem controlar factores como o número de indivíduos ou o período exacto de recolha. De acordo com o comunicado oficial, “os investigadores destacam que estes dados contribuem para uma melhor compreensão da exposição da fauna marinha a diferentes tipos de poluentes, sublinhando a importância de reforçar medidas internacionais que visem a redução da poluição marinha e a protecção da biodiversidade, incluindo a implementação de programas de monitorização de plásticos e contaminantes químicos, mesmo em ecossistemas considerados isolados”.
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Menstruação ainda é tabu e fonte de exclusão para raparigas
Esta semana assinala-se o Dia Internacional da Higiene Menstrual. A pobreza menstrual continua a afectar milhões de mulheres e raparigas em todo o mundo. Em Moçambique, a dimensão real do problema é difícil de medir. “Nós não temos dados. A questão da pobreza menstrual está relacionada com a própria visão da mulher, do corpo da mulher”, afirma Nair Teles, directora executiva do Centro de Estudos em Direitos Humanos, Saúde e Sociedade de Moçambique. Para a investigadora, o silêncio em torno do tema impede até a sua quantificação. “Aquilo que não se fala não existe”. A pobreza menstrual continua a afectar milhões de mulheres e raparigas em todo o mundo. Segundo dados das Nações Unidas, cerca de 1,8 mil milhões de pessoas menstruam todos os meses, mas mais de 500 milhões não têm acesso a produtos menstruais, água potável ou saneamento adequado para gerir a menstruação de forma digna e segura. Em África, a situação é agravada pela pobreza, pela falta de infra-estruturas e pelo estigma social em torno do corpo da mulher e da menstruação. Esta semana assinala-se o Dia Internacional da Higiene Menstrual. Em Moçambique, a dimensão real do problema é difícil de medir. “Nós não temos dados. A questão da pobreza menstrual está relacionada com a própria visão da mulher, do corpo da mulher”, afirma Nair Teles, directora executiva do Centro de Estudos em Direitos Humanos, Saúde e Sociedade de Moçambique. Para a investigadora, o silêncio em torno do tema impede até a sua quantificação. “Aquilo que não se fala não existe”, sublinha. Segundo Nair Teles, a pobreza menstrual não se resume à falta de pensos higiénicos. Está ligada à ausência de informação, à dificuldade de acesso aos serviços de saúde e à forma como o corpo feminino continua a ser encarado socialmente. “Uma jovem ou uma mulher em situação de pobreza extrema muitas vezes nem sabe porque está a menstruar. Ela só sabe que menstrua”, explica. A directora executiva do Centro de Estudos em Direitos Humanos, Saúde e Sociedade de Moçambique aponta ainda falhas na comunicação dentro das famílias, nas escolas e nas próprias instituições públicas: “Um pai não fala sobre isso com a filha. A mãe também passou pelo mesmo silêncio. Há uma naturalização desse silêncio.” A situação tende a ser ainda mais invisível nas zonas rurais: “A mulher rural não existe, embora seja ela que nutre, seja ela o esteio”. Em muitos casos, o custo dos produtos menstruais torna-se incomportável face às necessidades básicas de sobrevivência. A investigadora defende que distribuir produtos menstruais é importante, mas insuficiente sem educação e debate público: “É preciso quebrar o silêncio. Explicar o corpo da mulher, a menstruação, a tensão pré-menstrual, a menopausa. O corpo da mulher não pode continuar a ser tratado como tabu.” Nair Teles considera que a pobreza menstrual é apenas uma das manifestações de um problema mais profundo relacionado com a condição feminina no país: “Tudo isto tem relação directa com a visão da mulher. O que é isto que a gente chama de mulher? Ela é só para uso? Para procriar? Para cuidar da casa e dos filhos? O que nós somos?”, questiona.
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Os sintomas iniciais de Ébola são semelhantes aos de doenças como a Malária
A propagação inicial de um foco epidémico de Ébola deve-se em parte à semelhança dos sintomas iniciais com os de doenças comuns em África, como a Malária. Nesta edição de Ciência, o Dr. Eusébio Manuel explica-nos as dificuldades nessa etapa da epidemia e como o combate se torna mais eficaz uma vez identificado o contágio por Ébola. O actual surto de Ébola no leste da República Democrática do Congo foi considerado uma emergência de saúde pública de âmbito internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS sublinhou, no entanto, que não responde aos critérios de uma pandemia. Neste magazine de Ciência, conversámos com o Dr. Eusébio Manuel, chefe do Departamento de Higiene e Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde de Angola que, afirmou, "estamos atentos e alertas em acompanhar a situação que ocorre na República Democrática do Congo." Relativamente à variante Bundibugyo, explica que "o vírus Ébola é o mesmo, independentemente do género, (...) a letalidade é sempre a mesma. Os sinais-sintomas são os mesmos, portanto, não há muita diferença em relação a outra estirpe de Ébola, apesar de este ter já uma alta letalidade, não há nenhuma diferença em termos de sinais-sintomas." Numa fase inicial da epidemia, a detecção de infecções por Ébola é difícil porque não há casos registados e os primeiros diagnósticos confundem-se com os de outras doenças comuns em África: "Um dos principais sintomas é febre. Muitas das vezes cruzamos nos nossos países, onde a malária é a primeira causa de morte e de doença, suspeitamos sempre como seja malária, mas depois os sintomas secundários vão aparecendo, dias depois. As pessoas apresentam sinais de febre e essa febre pode cruzar-se com astenia, dores musculares, mas são sinais-sintomas que vêm a posteriori. O sinal principal para reconhecimento é a febre. E depois vamos fazendo outros diagnósticos diferenciados. As hemorragias aparecem no quinto, sétimo dia, mas aí é onde ocorre o maior perigo, em que a pessoa esquece-se que está frente a uma doença altamente contagiosa como a doença hemorrágica. Mas nesta fase a pessoa já se envolveu com o doente. Por isso o contágio é muito frequente." Quando se passa a uma fase testagem já a epidemia está em curso porque nestes primeiros dias há muitos contactos. E depois, há falta de recursos laboratoriais. Em Angola "nós temos um laboratório de referência, que é o Instituto Nacional de Investigação em Saúde, que faz o diagnóstico primário. Mas caso haja evidências claras de que se trata de uma febre hemorrágica, temos que mandar as amostras ao Instituto Pasteur de Dacar [Senegal] ou Camarões, que são os únicos laboratórios que nós temos de referência em relação às doenças hemorrágicas." O diagnóstico de uma febre hemorrágica dá-se muitas vezes da forma mais dolorosa, como sublinha o Dr. Eusébio Manuel: "O sinal muito fatal de reconhecimento daquilo que nós chamamos o sinal de gatilho, ou gatilho para reconhecer a doença hemorrágica, é quando começam a falecer, a morrer ou apanhar a mesma doença, as pessoas que estiveram a manipular essa pessoa, os enfermeiros, médicos, familiares que estiveram em contacto, começam a apresentar os mesmos sinais-sintomas. Aí nós percebemos que essa doença é altamente contagiosa." Na fase actual, em que há o reconhecimento de uma epidemia em curso e um alerta internacional, o estado de preparação é outro: "Nós estamos numa fase de alerta máximo. Significa que a situação está a ocorrer no país vizinho e nós daqui estamos num estado de preparação para que isso não se introduza em Angola. Estando já a doença identificada no país, aí as condições de profilaxia e as condições de segurança já são máximas: evita-se a cumprimentar, seja qualquer pessoa, e todo e qualquer doente com sinal, síndrome febril, é considerado um doente. Tendo em conta, claro, o seu perfil, sua condição e se ele esteve em contacto com pessoas, essas pessoas devem ser isoladas imediatamente." 60 por cento dos casos suspeitos foram detectados em mulheres que estão um pouco mais expostas às condições de contágio, refere o Dr. Eusébio Manuel: "Primeiro, o que é uma zoonose? É uma doença que é transmitida pelo contacto com animais infectados. Se nós repararmos, na região africana, maioritariamente quem vão, quem trabalham nas lavras, são o sexo feminino. Enquanto os homens às vezes ficam vendendo na praça ou noutros sítios. (...) Se bem que há homens também. A proporção de homens, sobretudo os que lidam com caça, e a caça é o homem, mas quem prepara é a mulher. Mas o que justifica isto é mesmo envolvimento das mulheres nas aldeias, nas áreas de maior risco. Os rituais fúnebres, os que fazem muitos homens e mulheres quando morre alguém? São as mulheres que estão à volta do óbito. Fazem aqueles rituais todos. Então, a probabilidade delas se contaminarem é muito maior em relação aos homens."
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De Maputo para o espaço, primeiro astronauta análogo moçambicano sonha trabalhar com a NASA
Aos 25 anos, Fernando Armando Cavele tornou-se o primeiro moçambicano a conquistar o título de astronauta análogo, uma distinção que reconhece participantes em missões de simulação espacial realizadas na Terra. Apaixonado pela astronomia desde 2019, o jovem vê nesta conquista um passo importante rumo ao seu maior sonho: colaborar com instituições como a NASA e ajudar a criar uma agência espacial em Moçambique. Em entrevista à RFI, Fernando Armando Cavele explica que o título surgiu após a participação num concurso divulgado através do LinkedIn. “Houve um concurso em que precisavam de pessoas interessadas em fazer este treinamento e eu coloquei lá as minhas motivações e os meus projectos relacionados a esta área”. Antes disso, já participava em actividades de observação astronómica em Moçambique, através do grupo “Detectives do Cosmos”. Um professor de Física despertou-lhe a curiosidade ao falar da relação entre arquitectura e astronomia e, a partir daí, aprofundou pesquisas e descobriu a chamada arquitectura espacial, área que une as ciências espaciais à arquitectura. Neste percurso, os maiores desafios são as dificuldades financeiras e a falta de infra-estruturas ligadas à exploração espacial em Moçambique: “Venho de uma família de baixa renda e, portanto, para conseguir criar essa possibilidade de logística, de sair daqui para a Índia, houve essa dificuldade”. Acrescentou ainda que teve de procurar informação fora do país para desenvolver os seus estudos. O jovem lamenta também a ausência de apoio institucional nacional. “A maior parte dos apoios que eu tive foram internacionais”, contributos vindos de amigos e contactos em Portugal, Suíça e Índia. Fernando Armando Cavele descreve a experiência na missão análoga realizada na Índia como transformadora e destaca as aprendizagens adquiridas: “dentro da missão tive a oportunidade de trabalhar em várias áreas que não são do meu interesse”, referindo contactos com engenharia espacial, geologia e biotecnologia. Além da vertente científica, a missão representou também um desafio psicológico. “Aprendi a lidar também com as minhas próprias emoções dentro de um contexto de isolamento”, afirmou, sublinhando igualmente a necessidade de gerir recursos de forma controlada. Fernando Armando Cavele defende que Moçambique precisa de reforçar a cooperação internacional e criar mecanismos de apoio para jovens interessados na área espacial. Está actualmente a desenvolver a startup “Space Lab”, dedicada à procura de soluções tecnológicas para problemas nacionais através de tecnologias espaciais. O primeiro astronauta análogo revelou ainda que foi admitido num mestrado em Arquitectura Avançada e Fabricação Digital, em Espanha, mas enfrenta dificuldades financeiras para concretizar a inscrição. “Falta financiamento para poder me inscrever e também pagar as minhas despesas de estadia na Espanha”, apesar dos obstáculos, mantém-se optimista. “Estou com fé que vou conseguir” e, para o efeito, tem nas diferentes redes sociais uma campanha de angariação de fundos em marcha. O sonho maior é tornar-se arquitecto espacial e contribuir para o desenvolvimento de um programa espacial moçambicano: “Um dos meus maiores sonhos é ver Moçambique a construir uma agência espacial e também um programa espacial nacional”.
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“O plástico nos mangais sufoca o ecossistema”
A gestão de resíduos urbanos e do plástico descartado estão no centro de um problema crescente à escala mundial e Moçambique não é excepção. A incapacidade de dar resposta ao volume de lixo produzido expõe fragilidades estruturais e ambientais. Fenómenos como chuvas intensas ou falhas nos canais de drenagem aceleram o problema. No centro desta crise está o plástico, um material omnipresente e cada vez mais difícil de gerir, agravado por um sistema de produção e consumo que dificulta qualquer solução eficaz. Em Maputo, basta chover com intensidade para que o problema dos resíduos urbanos se revele à superfície: canais de drenagem entupidos, ruas inundadas e toneladas de lixo arrastadas em direcção aos rios e ao oceano. O plástico assume papel central nesta problemática da gestão de resíduos urbanos. O problema não está apenas na falta de civismo ou de infra-estruturas, mas num sistema que produz lixo difícil - ou impossível - de reciclar. “Num único produto […] tem-se vários tipos de plástico, o que torna a reciclagem muito desafiadora e até insustentável”, deixando uma parte significativa destes resíduos sem destino eficaz e mais propensa a acumular-se no ambiente e a ser arrastada para rios e oceanos, alerta Sharon Clésia, assistente de projectos e ponto focal do aplicativo KOLEKT na AMOR - Associação Moçambicana de Reciclagem. A omnipresença do plástico tem consequências directas nos ecossistemas e na saúde humana. “Acaba, de facto, forçosamente no nosso prato”, diz, referindo-se ao percurso dos resíduos que, sem tratamento adequado, chegam aos oceanos e entram na cadeia alimentar sob a forma de microplásticos. Embora mais visível em grandes centros urbanos, o problema estende-se a todo o país. “Eu diria que é igual no país todo. Contudo, os volumes variam consoante o nível de poder de compra”. Mesmo em zonas remotas, a situação é alarmante: “Vimos a presença de resíduos sólidos no mangal de uma forma escandalosa”, explicou a jovem engenheira ambiental, após projectos realizados em regiões como Inhambane. As consequências são múltiplas. Em meio urbano, incluem inundações provocadas pelo entupimento de sistemas de drenagem. Já nos ecossistemas naturais, o impacto é devastador: “O plástico nos mangais […] sufoca o ecossistema” e afecta espécies que dependem destes habitats. “Certos animais confundem pequenos pedaços de plástico com alimento […] e, por meio da cadeia alimentar, vão parar ao prato dos seres humanos.” Perante este cenário, a técnica da AMOR não hesita: “É uma bola de neve […] que precisa ser travada, porque, ao contrário, caminhamos para um precipício, para uma crise de saúde pública.” Uma das respostas encontradas pela AMOR foi a criação do sistema das “moedas azuis”, que incentiva a recolha de resíduos através de compensação financeira: “Colocamos um valor económico como forma de incentivo para a recolha desses resíduos sólidos”. O modelo é simples: por cada quilograma de resíduos entregue, há um pagamento variável consoante o tipo de material. A iniciativa surgiu em 2020, durante a pandemia de Covid-19, quando campanhas tradicionais de limpeza foram interrompidas. “Pensámos que era mais interessante estimular aquelas pessoas que estavam sem trabalho […] com um preço simbólico” e o resultado surpreendeu: “Em cinco semanas tivemos mais de 300 toneladas de resíduos recolhidos.” Desde então, o projecto evoluiu, incorporando tecnologia digital através da aplicação KOLEKT e alargando o seu alcance com financiamento internacional. “Passámos de uma fase experimental para uma estratégia que funciona”, afirmou.
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Cientista português premiado por abordagem revolucionária contra o cancro
Fábio Rosa, investigador português de 32 anos, acaba de ser distinguido, neste mês de Abril, com o Prémio de Inovação e Ciência 2026, atribuído pelo Instituto de Bioinovação da Dinamarca. O reconhecimento surge na sequência de uma investigação pioneira que poderá transformar o futuro do combate ao cancro. A investigação deste jovem cientista, natural de Aveiro, já considerado uma das mentes mais promissoras da sua geração, desafia abordagens convencionais e pretende transformar os próprios tumores em vacinas capazes de estimular o sistema imunitário a combater a doença de forma mais eficaz. RFI: Em que consiste a sua investigação? Fábio Rosa: A base da minha investigação foi desenvolver um método que permite converter qualquer célula do organismo, como células da pele ou células dos tumores, em células muito específicas do sistema imunitário, chamadas células dendríticas, que são os soldados do sistema imunitário. São basicamente capazes de identificar as células do cancro e induzir uma resposta imune contra o próprio cancro. Este método foi identificado originalmente na Universidade de Coimbra, quando eu estava a fazer o meu mestrado e doutoramento. O que é que fazemos concretamente? Nós identificámos um conjunto de três proteínas que são entregues directamente nas células do cancro, e estas três proteínas modelam a expressão dos genes e convertem a célula do cancro numa célula do sistema imunitário, que depois é capaz de induzir uma resposta imune contra ela própria. RFI: E em que é que esta abordagem, no fundo, é diferente de outras abordagens que já existem na luta contra o cancro? Fábio Rosa: A maior parte das abordagens na luta contra o cancro são focadas em destruir as células do próprio cancro, ou seja, o objectivo é induzir uma resposta imunitária directamente contra o cancro. Mas o cancro desenvolve mecanismos que faz com que ele fique invisível para a detecção do sistema imunitário e, consequentemente, não pode ser destruído. O que é que nós fazemos? Em vez de destruir directamente as células do cancro, nós convertemo-las em células do sistema imunitário, ou seja, com este método, forçamos as células do cancro a induzir uma resposta contra ele próprio. E, assim, tornamos o cancro visível de novo para o sistema imunitário. Isto faz com que, em vez de induzir à destruição das células do cancro directamente com o nosso tratamento, basicamente fazemos o cancro mais visível para o nosso próprio sistema imunitário, de forma a que ele consiga detectar e destruir. RFI: E esta terapia poderá substituir de alguma forma os actuais tratamentos de quimioterapia e radioterapia que já existem? O que é que está em cima da mesa em concreto? Fábio Rosa: Definitivamente. Os tratamentos mais comuns, como a radioterapia ou a quimioterapia, definitivamente poderão ser substituídos. O objectivo, no entanto, e é onde a área de investigação de novas terapias para o cancro está a emergir, é que a cura que todos estamos à procura vai muito provavelmente depender da combinação racional de diferentes tratamentos, que basicamente fazem o targeting de diferentes componentes do sistema imunitário. Ou seja, quanto a esta terapia, inicialmente vamos testá-la sozinha, sem ser em combinação com outros tratamentos. Mas, no futuro, pretendemos combiná-la com outras terapias e, consequentemente, aumentar o número de doentes que podem beneficiar deste tipo de terapias, que usam o próprio sistema imunitário para induzir uma resposta anti-cancerígena. RFI: O Fábio é um estudioso nesta área do cancro. O que é que ainda não sabemos sobre o cancro e que mais o intriga? É o facto de existirem diferentes tipos de cancro? De cada cancro ter, no fundo, um comportamento distinto? O que é que mais o intriga nesta doença? Fábio Rosa: O que mais me intriga nesta doença é que o cancro é muito complexo e heterogéneo, ou seja, quanto mais sabemos sobre o cancro e sobre o processo oncológico, sobre o processo do desenvolvimento de cancro, mais perguntas temos. Estas perguntas ajudam-nos a tentar perceber melhor, perceber os mecanismos e desenvolver novas terapias que realmente podem fazer a diferença. RFI: O Fábio é uma das vozes mais promissoras na sua idade, em Portugal, no que diz respeito ao estudo contra o cancro. Este ano recebeu o Prémio de Inovação e Ciência. Como é que se sente com este reconhecimento? Fábio Rosa: É um reconhecimento que, na verdade, é um prémio pessoal, mas que no final reflecte o trabalho conjunto de muitas pessoas. Eu, os meus colegas do laboratório, e todas as pessoas que directamente ou indirectamente têm trabalhado na tecnologia que nós estamos actualmente a desenvolver. É o início. Existem muitas coisas que ainda temos de fazer. Estamos a desenvolver esta terapia, na Asgard Therapeutics, a empresa que eu co-fundei na Suécia, juntamente com Cristiana Pires e Filipe Pereira. Para o ano vamos entrar na clínica. Este é o primeiro passo para fazer com que realmente o que temos estado a trabalhar nos últimos dez anos consiga beneficiar os doentes. Daqui para a frente é continuar a trabalhar com o foco de ajudar o maior número de doentes possível com a doença oncológica. RFI: Fábio, a última pergunta que lhe faço é o que é que o motivou a estudar o cancro e a imunologia? Fábio Rosa: O que me motivou a estudar o cancro é o facto de ser uma doença tão misteriosa. Ainda é incerto como é que aparece, como é que se desenvolve e como é que progride. É uma doença que, até este ponto, ainda não tem tratamento. Ou seja, o conjunto de perguntas que eu tinha sobre o que é que faz uma célula tornar-se numa célula cancerígena e porque é que o sistema imunitário não as consegue identificar e não as consegue eliminar, como seria de esperar, de acordo com a Biologia, de acordo com o que aprendemos nas aulas na Universidade... Portanto, toda essa complexidade foi uma motivação da minha parte para tentar perceber quais é que são os processos responsáveis por estes factos. E, no final de tudo, tentar arranjar maneiras de usar o conhecimento que nós desenvolvemos ao responder a estas perguntas, para desenvolver novas terapias que são mais inteligentes. Ou seja, que nos permitem, por exemplo, fazer as células do cancro mais facilmente detectadas pelo sistema imunitário e que sejam destruídas, de forma a conseguirmos, por um lado, aumentar a qualidade de vida dos doentes com cancro. Por outro lado, o objectivo de todos os cientistas que estão a trabalhar nesta área é desenvolver o que chamamos a cura. Aquilo que pretendemos é que quando um doente é diagnosticado com cancro, possa, de uma maneira rápida e eficaz, ser tratado com uma terapia que seja eficaz e que resulte na remissão completa desta doença oncológica.
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Moçambique: Barreira de pneus ajuda a travar erosão e assoreamento na Macaneta
Uma barreira de 13.000 pneus de uma extensão, até agora, de 600 metros, ao longo da margem do rio Incomáti, tem ajudado a travar a erosão e assoreamento na Macaneta, no sul de Moçambique. A barreira de pneus começou a ser construída em 2021, tem resistido, incluindo às recentes cheias, e já foi replicada noutra região do país, contou à RFI Clausêncio Ngovene, director de programas na Cooperativa Repensar. Desde 2021 e até agora, a barreira implementada pela Cooperativa Repensar tem cerca de 13.000 pneus e uma extensão de 600 metros ao longo da margem do rio Incomáti, na Macaneta, no sul de Moçambique. Os pneus de aviões, carros e tractores são carregados de entulho para resistir à força da água, mas há pneus gigantes que precisam da força de seis a sete homens. Uma tarefa hercúlea, sem ajuda mecânica, mas que tem protegido esta zona costeira e resistido inclusivamente às recentes cheias. Os pneus ganham assim uma segunda vida e ajudam a proteger o mangal e as comunidades, travando a erosão e o assoreamento. O material provém de doações do Porto de Maputo, do Aeroporto de Maputo, mas também é recuperado nas lixeiras, nas ruas e também é dado por particulares. RFI: Como nasceu esta barreira de pneus na Macaneta? Clausêncio Ngovene, Director de programas na Cooperativa Repensar e coordenador do programa Lixo Marinho: “De forma geral, estamos na Macaneta desde 2021 a implementar um programa designado de Lixo Marinho. O programa visa combater a poluição, principalmente plástica, no meio aquático, no estuário da Macaneta e em todo o ambiente costeiro. No meio destas actividades, nós percebemos que a Macaneta sofre bastante da erosão costeira e assoreamento. No estuário do Incomáti, que é um rio que nasce na vizinha África do Sul e que desagua na Macaneta, nós temos verificado o assoreamento e erosão costeira e fluvial. No meio disto, nós tentámos várias técnicas para conter os impactos da erosão e assoreamento e fizemos várias tentativas até chegarmos a conclusão de aplicarmos os pneus.” Para quem não conhece, explique-nos o que é a erosão e o assoreamento. “Erosão é o processo de desgaste dos sedimentos, quer na zona costeira, quer também na zona fluvial, causando impactos directos no ambiente. Assoreamento também é o processo de desgaste de sedimentos, a areia. Esses sedimentos são arrastados para o interior do rio e aumentam, portanto, o caudal do mesmo rio. Assoreamento é o arrastamento dos sedimentos da areia para o interior do rio e aumenta, portanto, a sua extensão.” Como é que isso tem impacto na vida das populações costeiras? “Isto tem um impacto directo na vida das populações. Primeiro, a questão da destruição da vegetação costeira e que é uma vegetação que protege contra os ventos fortes. Temos também a questão da degradação do ecossistema do mangal, que é um ecossistema muito preponderante para a reprodução dos peixes, dos caranguejos e outros seres costeiros. Isto afecta directamente a vida da comunidade.” Vamos então aos pneus. Porquê os pneus? “Nós usamos os pneus como uma solução viável. Primeiro, nós estamos a falar de uma zona costeira onde temos sal, a água é salina. Outras técnicas que já tentámos não se mostraram eficientes. E já houve uma tentativa de aplicação de gabiões, mas também sem sucesso, por causa da salinidade da água. E porquê pneus? Porque é um material literalmente descartado, sem valor em Moçambique, que termina nas lixeiras, termina na rua, em qualquer ambiente e nós recuperamos para reutilizar, nós recuperamos para travar os impactos da erosão e assoreamento. Também o pneu é um material consistente que dura mais tempo, que não tem problema com a salinidade, resiste mais no ambiente salino.” Na prática, como é que os pneus formam então uma barreira para proteger a comunidade? E que tipo de pneus é que são? “Nós usamos vários tipos de pneus. São pneus que, na maioria, recebemos de doação do Porto de Maputo e recebemos também do Aeroporto Internacional de Maputo. São pneus também que recebemos de vários doadores singulares e pessoas que desejam trocar os pneus dos seus carros, em vez de jogar na lixeira. Nós usamos pneus também que recuperamos nas lixeiras, que estão em risco de serem queimados. Então, nós vamos lá recuperar e usamos todo o tipo de pneus. A estrutura de montagem é bem simples. Nós montamos uma estrutura à base, com pneus gigantes e depois da montagem dos pneus, nós colocamos o entulho, que são pedras, para garantir a consistência do pneu e vamos subindo em forma de escadaria. Nas últimas fiadas, nós já colocamos a vegetação, ou seja, a areia orgânica, e vamos reabastecer a vegetação. Nós usamos este conceito para também contrabalançar os possíveis impactos que os pneus possam causar naquele ambiente. Então, é uma forma de compensar, uma forma de contrabalançar. Nós estamos a restaurar as dunas, estamos a restaurar o ecossistema costeiro fluvial degradado, mas à base de pneus.” Como é o processo de montagem? Falou-me em pneus gigantes, que devem ser os pneus dos aviões. Estes são pneus muito pesados. Têm máquinas para os ajudar? “Na verdade, é um verdadeiro martírio. Este trabalho demanda muita força humana. Infelizmente, nós não temos nenhum equipamento, nenhuma máquina industrial ou uma máquina a motor. Nós usamos a força humana. Só para ter uma ideia, um pneu gigante, o mais pesado, requer no mínimo sete homens. Seis ou sete homens com força para o conseguir manusear. Então, é um trabalho muito hábil que nós temos feito. Para ter uma ideia, já conseguimos montar mais de 13.000 pneus no total.” Esses mais de 13.000 pneus estão espalhados por onde? A barreira vai de onde a onde? “Toda a barreira está no estuário do Incomáti, onde desagua o rio, Incomáti. É uma extensão de mais ou menos de 600 metros, com uma altura média de cinco metros.” Nas últimas cheias, em Janeiro, a barreira como é que resistiu? “Mostrou que é possível aplicar os pneus em qualquer ambiente para controlar, para conter a erosão. Mostrou que é possível haver uma replicabilidade deste conceito. Mostrou resistência, resiliência.” A barreira manteve-se intacta? Resistiu? “Sim, resistiu e tem resistido também às marés altas. Nós estamos num estuário, portanto depende do comportamento da maré. A maré alta vai afectar o rio e o estuário. Na maré baixa, também haverá o vazamento das águas. Então tem mostrado esta resistência fora das cheias, mas também a dinâmica de comportamento da maré.” Como é que se lembraram dos pneus? “Nós iniciámos este projeto de restauro no ano de 2021, um ano em que nós iniciamos o nosso projecto principal, designado Lixo Marinho, que visa combater a poluição, principalmente plástica. Daí nós identificámos esses problemas. Fizemos um diagnóstico ambiental detalhado, identificámos os problemas que é erosão costeira e fluvial e também o assoreamento. Fomos vendo também o histórico da região, percebemos que várias técnicas foram usadas, mas não surtiram efeito. E olhando a nossa realidade, temos assistido que vários pneus terminam nas lixeiras, terminam em ambientes inadequados, e fizemos um pequeno estudo sobre a consistência de pneus, recuperámo-los e fizemos esta barreira que mostra ser muito eficiente.” Falou-me na replicabilidade do projecto. Já há ideias para levarem este projecto para outros locais? “Coincidentemente, nós já fomos solicitados para prestar uma assessoria em Inhambane numa outra zona costeira e lá conseguimos montar e conseguimos travar. Já temos o primeiro caso de replicabilidade, que é numa das praias de Inhambane.” Há quanto tempo é que foi e está a resistir? “Está a resistir. Nós intervimos no final do ano passado, no mês de Novembro, e até agora resistiu.”
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Coimbra testa limites da IA na música com máquinas que escutam emoções
Na Universidade de Coimbra, uma equipa liderada por Rui Pedro Paiva está a ensinar máquinas a interpretar emoções na música. O projecto MERGE cruza inteligência artificial, áudio e linguagem natural para mapear canções num espaço emocional. Mais do que inovação tecnológica, trata-se de uma tentativa de aproximar algoritmos de algo profundamente humano: perceber o que a música “é”, antes mesmo do que nos faz sentir. Na Universidade de Coimbra, a pergunta não é nova, mas a abordagem é radicalmente contemporânea: pode uma máquina compreender emoções na música? O projecto MERGE: “reconhecimento de emoções na música de próxima geração”, responde com um cauteloso “talvez”, sustentado por ciência, dados e alguma humildade perante a complexidade humana. Coordenado por Rui Pedro Paiva, o projecto combina inteligência artificial, processamento de áudio e análise de linguagem natural para classificar automaticamente emoções nas canções. O objectivo é claro: “criar um sistema capaz de colocar cada tema num mapa emocional entre valência e intensidade”. “Essa é a ambição”, afirma o investigador. “É ambicioso justamente porque há muita ambiguidade na interpretação de emoções na música e nas emoções em geral.” Mas o ponto de partida do MERGE não é o que sentimos ao ouvir música. E essa distinção é central. “Quando falamos de emoção na música, podemos entender três níveis: a emoção expressa pelo artista, a emoção percebida pelo ouvinte e a emoção sentida. No projecto estamos focados na percepção: aquilo que a música ‘tem’ em si própria.” Entre o que a música diz e o que a música faz Essa escolha metodológica procura reduzir a variabilidade. Afinal, duas pessoas podem reagir de forma completamente distinta à mesma canção. “Com certeza”, reconhece Rui Paiva. “Mas o nosso projecto não aborda a emoção sentida pelas pessoas. Aborda um ponto mais objectivo: a emoção inerente à música.” Um exemplo simples ajuda a perceber: “Uma música com batida intensa está tipicamente associada a emoções alegres ou tensas, não a algo relaxado ou melancólico.” Ainda assim, o investigador admite: “eu posso sentir emoções diferentes em resposta a esse estímulo musical. Estão relacionadas, mas não são a mesma coisa.” O MERGE tenta, assim, encontrar um terreno comum entre a subjectividade e a estrutura. E fá-lo recorrendo a um modelo clássico da psicologia: o de James Russell. “Esse modelo propõe dois eixos: valência, que indica se a emoção é positiva ou negativa, e activação, que mede a intensidade”, explica. “Com isso, conseguimos um espaço onde identificamos quatro emoções básicas: alegria, relaxamento, tensão e melancolia.” Relação entre som e letra Um dos desafios mais interessantes do projecto está na relação entre som e letra. “Há músicas onde a melodia sugere uma coisa e a letra outra”, reconhece Rui Paiva, evocando o caso de canções dos The Beatles em que o contraste é evidente. Ainda assim, o sistema tenta lidar com essa ambiguidade. “A componente acústica capta melhor a intensidade. A componente textual ajuda a perceber se a emoção é positiva ou negativa.” E há um factor adicional: o contexto do ouvinte. “Se a pessoa não compreender a língua, vai apoiar-se mais no som. Se compreender, a letra tende a dominar.” No fundo, mesmo quando a máquina tenta ser objectiva, a experiência humana continua a infiltrar-se no processo. Um mapa emocional para o streaming O impacto potencial do MERGE vai além da investigação académica. Num tempo em que as plataformas digitais moldam o consumo musical, a possibilidade de procurar música por emoção pode alterar a relação com o som. “A música é muitas vezes chamada a linguagem da emoção”, lembra Rui Paiva. “Pesquisar por emoção, em vez de artista ou género, pode ser uma ferramenta particularmente vantajosa.” A aplicação prática já está em desenvolvimento. “Temos um protótipo que será disponibilizado online. Qualquer pessoa poderá testar, embora com limitações de direitos de autor, apenas excertos de 30 segundos.” Limites, simplificações e futuro Apesar do entusiasmo, o investigador não ignora as limitações. Reduzir emoções a dois eixos pode parecer simplista. “Sim, pode ser visto como uma simplificação excessiva”, admite. “Mas permite controlar a ambiguidade. Se usarmos centenas de categorias emocionais, o problema torna-se ainda mais complexo.” E há também limites tecnológicos. “Neste momento, modelos de linguagem conseguem cerca de 50% de sucesso neste problema, enquanto nós atingimos 80% na nossa base de dados.” A razão? Falta de dados em larga escala e a dificuldade de anotação emocional. “É um processo muito trabalhoso e inevitavelmente subjectivo.” Ainda assim, o horizonte é claro. “No momento em que existam bases de dados de grande dimensão, a inteligência artificial poderá aproximar-se mais da capacidade humana.” Até lá, o projecto MERGE permanece num intermédio entre ciência e sensibilidade, entre algoritmo e emoção. Um espaço onde, talvez, as máquinas ainda não sintam, mas começam, lentamente, a compreender.
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Artemis II a caminho da Lua, não para aterrar e sim para preparar regresso em 2028
A missão Artemis 2 partiu na quarta-feira rumo à Lua. Nesta viagem que deve durar 10 dias, os quatro astronautas a bordo - 3 homens e uma mulher - não vão atterrar na Lua, mas sim contorná-la de forma a recolherem informações sobre a geografia lunar. A missão Artemis 2 partiu na quarta-feira rumo à Lua, ainda não para o regresso efectivo da humanidade a este satélite natural da Terra, mas sim para aprimorar a viagem, traçar a rota mais eficaz e preparar um possível local de estabelecimento de um módulo lunar. A bordo da Artemis 2 vão quatro astronautas, três homens e uma mulher e estes são os seres humanos que mais longe algum dia estiveram da Terra, já que passam na face oculta da Lua, percorrendo no total 800 mil quilómetros durante esta missão. Em entrevista à RFI, Hugo André Costa, director adjunto da Agência Espacial Portuguesa, explica os desafios desta missão. "Esta missão serve exactamente para preparar uma próxima alunagem do homem na Lua. Faz parte do conjunto de missões Artemis. A Artemis I que foi para testar toda a máquina, mas ainda sem humanos. A Artemis II já é uma viagem onde quatro humanos vão até até à Lua e esta sim vai testar todo o sistema de suporte de vida da nave. Vai testar também aquilo que pode ocorrer do ponto de vista de emergência durante uma missão desta natureza. E vai testar também como é que os astronautas vivem num espaço tão contíguo durante dez dias, o que é extremamente difícil e, portanto, vai ser muito útil", explicou. Nesta viagem de 10 dias haverá entre 30 a 40 minutos de silêncio, já que as comunicações ficarão cortadas com a nave quando os astronautas passarem no lado oculto da Lua. Esta é uma viagem também de exploração e de avaliação, com os astronautas a poderem observar o Pólo Sul deste satélite natural onde num futuro próximo se poderá instalar um módulo lunar. "Há muita coisa que não sabemos sobre o Pólo Sul da Lua. Nós sabemos que Pólo Sul é o local onde, à partida existe mais acesso à água e, portanto, é aí onde a NASA espera fazer uma base lunar. E mesmo a própria China já identificou esse local ideal para aterrar na Lua. E esse é um dos trabalhos dos astronautas também. A órbita que eles vão fazer vai permitir observar o Pólo Sol da Lua. Neste caso, não com sondas, mas com os olhos dos astronautas que vão observar esta área da Lua, tentando também já identificar uma zona onde podem estar em 2028, quando se espera que seja a missão para aterrar na Lua", detalhou Hugo André Costa. A esperança de chegar à Lua é um esforço comum liderado pela NASA, com o apoio da Agência Espacial Canadiana, mas também a Agência Espacial Europeia. Para esta missão, o novo módulo de suporte vida que vai permitir aos astronautas viverem com mais conforto, segurança e comodidade foi concebido na Europa, produzido por diferentes empresas europeias, montado na Alemanha e enviado depois para os Estados Unidos. Quanto à data de 2028 para voltar a ver um homem ou uma mulher a andar na Lua, Hugo André Costa tem algumas dúvidas já que o módulo que vai permitir aterrar na superfície da Lua deverá ser produzido por uma empresa privada, havendo ainda dúvidas se ficará para a Space X de Elon Musk ou Blue Origin, que pertence a Jeff Bezos. "Parece-me um pouco difícil, no entanto, não quer dizer que seja impossível. Isto porque à partida e após esta missão, certamente vai correr tudo bem. Tudo aquilo que tem a ver com a parte do segmento do espaço está perfeito. Os astronautas vão regressar e, portanto, vai correr tudo bem. Mas aquilo que é mais difícil é a aterragem na Lua. Nós temos agora os desenvolvimentos, quer por parte da SpaceX, quer por causa da Blue Origin, que serão quem fará a aterragem na Lua. E, portanto, aqui nós temos que acoplar dois sistemas o sistema da NASA e um sistema privado. Há uma corrida entre os dois actores privados para ver quem é que chega à Lua primeiro, ou, neste caso, quem vai conseguir ter a melhor opção para aterrarmos na Lua. Esperemos que consigam em 2028, que é aquilo que a NASA se propõe fazer. Mas eu acredito que tecnologicamente vai ser complicado porque temos aqui dois sistemas diferentes", concluiu Hugo André Costa.
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Transplante renal abre nova esperança para doentes em Cabo Verde
No dia 24 de Março, Cabo Verde realizou o seu primeiro transplante renal, numa operação que decorreu no Hospital Universitário Agostinho Neto, na cidade da Praia. A intervenção durou cerca de três horas e envolveu uma parceria com especialistas de Portugal. A equipa cabo-verdiana foi liderada pelo nefrologista Hélder Tavares, que ao microfone da RFI salientou "um passo histórico". A equipa cabo-verdiana foi liderada pelo nefrologista Hélder Tavares, responsável pela coordenação da selecção e preparação dos pacientes. Em declarações à RFI, Hélder Tavares explicou que o caminho até ao transplante envolveu “uma luta de vários anos… começou primeiramente com a aprovação da lei, depois reunir as condições locais, técnicas e logísticas, equipamento e recursos humanos mínimos, e só então começar a procurar pacientes e dadores adequados para o procedimento”. O procedimento foi realizado com um dador vivo, como prevê a primeira fase do programa. “Apresentaram-se 13 pacientes com os respectivos dadores. Todos foram submetidos a avaliação clínica e analítica, e os restantes 12 foram excluídos por diversos motivos, como diabetes, infecção pelo vírus da hepatite B ou incompatibilidade com o receptor. Nesta primeira fase, só ficou elegível este par que foi então submetido ao transplante”, detalhou o nefrologista. O especialista sublinhou a importância médica da cirurgia para Cabo Verde: “Este é um passo histórico porque é a primeira vez que isso é feito em Cabo Verde. Conseguimos vencer algumas barreiras e mostrar que somos capazes de fazer isto, mesmo com ajuda externa. Mas a grande parte da investigação e preparação foi feita aqui.” Hélder Tavares descreveu a realização do transplante como uma experiência emotiva e gratificante: “Naturalmente, a emoção é muito grande. É uma realização pessoal e um sonho antigo. Mas esta alegria não é só minha, é de toda a equipa. Quem chefiou o processo do lado de Portugal foi o Dr. António Norton de Matos, cirurgião reformado português que nos apoiou desde o início.” Para o paciente, os benefícios são significativos. “Significa uma melhor qualidade de vida e uma melhor taxa de sobrevida. Para o sistema de saúde, representa um tratamento mais barato e mais eficaz. Um transplante é muito mais económico do que a hemodiálise”, afirmou. Quanto à autonomia do país neste tipo de cirurgia, o nefrologista esclareceu que será gradual: “Não seremos totalmente autónomos de um dia para o outro. Por enquanto, estamos a trabalhar em cooperação com Portugal até adquirirmos a competência necessária para sermos totalmente independentes. Alguns procedimentos exigem ainda tempo de treino, nomeadamente a técnica de remoção por laparoscopia.” A insuficiência renal crónica, principal causa de necessidade de transplante, está frequentemente associada a doenças como diabetes e hipertensão.
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