EPISODE · Sep 7, 2026
Alterações climáticas estão a agravar insegurança alimentar e fenómenos extremos
from Ciência · host RFI Português
Na sexta-feira, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura avisou que os preços dos alimentos dispararam em Agosto num contexto de seca e de tensões geopolíticas. O verão excepcionalmente quente na Europa também levou a uma queda na produção agrícola, enquanto na Ásia o fenómeno El Niño ameaça a produção. Por outro lado, António Guterres, secretário-geral da ONU, disse que o mundo entrou em uma "zona de perigo de eventos climáticos extremos" e a Organização Meteorológica Mundial disse que o El Niño pode ser o mais forte em mais de 70 anos. Que cenários, soluções e perspectivas a curto e longo prazo? A seca e as tensões geopolíticas fizeram disparar os preços dos alimentos em Agosto, com um aumento particularmente acentuado nos preços do açúcar, informou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) na sexta-feira. O verão excepcionalmente quente na Europa levou a uma queda na produção agrícola, enquanto na Ásia o El Niño ameaça a produção. Carina Furusho Percot é hidróloga e trabalha no INRAE (Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, a Alimentação e o Ambiente) em Avignon. Ela começa por explicar como “a precocidade inédita das ondas de calor na Europa desde o final de Maio” teve impacto na agricultura. “Este ano, com essa precocidade inédita das ondas de calor na Europa desde o final de Maio, as temperaturas impactaram tanto as culturas de inverno, como o trigo, que é muito importante para a França, por exemplo, como as que são plantadas na primavera, como o milho. Essa onda de calor, associada a baixíssimos níveis de precipitação durante a primavera, causaram secas de intensidade também excepcionais e surpreendeu porque os níveis de chuva no inverno, na maior parte das regiões, tinham sido até altas este ano, até com inundações. Então, o que está acontecendo são sucessões de eventos extremos que estão impactando muito fortemente a agricultura e está difícil de adaptar e se poder ter uma segurança alimentar com o sistema que a gente desenvolveu hoje”, descreve Carina Furusho Percot. Após um verão marcado por vagas de calor, incêndios e secas sem precedentes, na sexta-feira, o governo francês anunciou um pacote de mil milhões de euros em ajudas de emergência para apoiar o sector agrícola. Porém, a FNSEA, principal sindicato agrícola - que estima as perdas do sector em cerca de "10 mil milhões de euros" - reivindica "pelo menos dois mil milhões". Também o sindicato Coordination Rurale, aponta a ajuda como "amplamente insuficiente". As “medidas são importantes para tentar salvar algumas fazendas”, mas o essencial seria “mudar totalmente a lógica do sistema produtivista de hoje” e mudar as práticas agrícolas, alerta Carina Furusho Percot. “A gente precisa realmente de sair desse modelo produtivista, que visa só os rendimentos a todo o custo, para um modelo mais robusto. Hoje, as monoculturas que são alimentadas por irrigação, pesticidas, fertilizantes, são extremamente vulneráveis a episódios climáticos. Então, os estudos mostram que a diversificação de culturas inclui diferentes espécies, variedades, associado a práticas de agroecologia, soluções mais sustentáveis. A afrofloresta, por exemplo, também permite ter mais humidade no solo, mais biodiversidade e manter um microclima mais adaptado às plantações”, propõe a hidróloga. O problema é que a luta contra o aquecimento global não parece estar a funcionar. A 2 de Setembro, as Nações Unidas publicaram um relatório a constatar que o limite de 1,5 °C de aquecimento global, definido no Acordo de Paris, será ultrapassado nos próximos anos. Por agora, a resposta deverá passar pela “adaptação e atenuação das mudanças climáticas”, alerta Carina Furusho Percot, lembrando que “quanto mais a gente deixa a atmosfera aquecer, mais fenómenos extremos de inundação e de secas vão acontecer”. “O facto que a gente não vai conseguir limitar a um grau e meio, significa que a gente precisa continuar fazendo todos os esforços para não chegar a dois graus, a 2,5. Cada décimo de grau conta porque esse aquecimento tem um impacto enorme nos eventos climáticos, nos extremos de inundação e de seca. Então, a gente precisa de fazer duas coisas. Como o aquecimento vai continuar pelo menos até 2050, mais ou menos, por causa da inércia do clima, a gente precisa de investir bastante em adaptação para poder ter sistemas mais resilientes, por exemplo, na agricultura e, ao mesmo tempo, trabalhar nessa transição, mudar todo esse sistema consumista que é baseado em energia fóssil para atenuar e não deixar a gente continuar nessa trajectória que nos levaria provavelmente a uma situação a que não vai mais ser possível se adaptar”, afirma a especialista. Na quinta-feira, a agência da ONU Organização Meteorológica Mundial divulgou os dados mais recentes sobre o fenómeno natural El Niño e disse que pode ser o mais forte em mais de 70 anos e durar pelo menos até Fevereiro de 2027. António Guterres, secretário-geral da ONU, disse que o mundo entrou em uma "zona de perigo de eventos climáticos extremos" à medida que os efeitos do El Niño começam a ser sentidos globalmente. Entretanto, os fenómenos extremos continuam. No Nepal, ainda há 5.500 pessoas desaparecidas nas inundações devastadoras de 26 de Agosto que mataram cerca de 1400 pessoas.
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