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EPISODE · Feb 22, 2025 · 54 MIN

As invasões bárbaras

from Estado da Arte

Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o visigodo Alarico saqueou Roma 66 anos antes da queda de seu último imperador, Romulus Augustus – nome composto ironicamente pelos do primeiro imperador e do fundador de Roma –, São Jerônimo lamentou “a extinção da luz mais resplandecente de toda a Terra”, quando “o Império perdeu sua cabeça” e “o mundo pereceu em uma cidade”. Um século antes, Lactâncio afirmava que o mundo pode acabar rápido, mas não há nada a temer enquanto a cidade de Roma permanecer intacta. Desde então, as invasões bárbaras viraram o arquétipo da brutalização da vida civilizada, o “Declínio e Queda do Império”, na fórmula proverbial de Gibbon. Porém, como ele descreveu, o Império só caiu 1.000 anos depois em Constantinopla. Das letras e dos letrados resgatados de lá, a Itália concebeu o Renascimento, dando à luz a modernidade, em que o espírito de Roma inspiraria desde as artes clássicas às políticas republicanas, e hoje, como sempre, multidões de católicos são lideradas Urbi et Orbi pelo bispo da Cidade Eterna. Para os iluministas inebriados de classicismo, a sua queda foi o mergulho na “Idade das Trevas”. Mas não seria a Idade Média uma idade de luz? A engenhosidade arquitetônica de suas catedrais góticas é mais fulgurante que qualquer maquinação romana para copiar os gregos; seus cavaleiros se bateriam aos maiores centuriões; seus escolásticos inventaram a universidade; seus poetas, o romance, e, do menor deles, surgiu talvez o mais são dos santos, Francisco. O Sacro Império Romano-Germânico, gestado numa noite de Natal pelo papa na basílica de São Pedro com a coroação do rei franco Carlos Magno, imperou mil anos até ser esmagado sob a bota do imperador francês Napoleão. As Letras latinas são belas, bárbaras, mas sua língua morta só frutifica barbarizada em pedaços nas nossas línguas românicas. Não é à República romana que a Inglaterra tributa seu parlamentarismo democrático e sua monarquia constitucional, mas às ligas tribais de celtas, anglos, saxões, bretões, normandos. A consciência e a arte germânicas são povoadas dessas bestas loiras que Nietzsche amava: Thor, Siegfried, Artur, Parsifal, Tristão, Isolda. Para Hegel, esse povo consumava a apoteose do Espírito Divino, inaugurando o império da verdade e da liberdade para o Universo. As igrejas protestantes, as nações e Estados europeus, nosso Novo Mundo americano – além dos eslavos, a Rússia, sua revolução, sua literatura, sua religião ortodoxa herdada do Império romano dos gregos em Bizâncio junto com o mito messiânico da Terceira Roma –, nada existiria como conhecemos não fossem os bárbaros. Nem só legiões de Conans, vândalos e valquírias, nem cosmopolitas nórdicos, eram muitas vezes tribos civilizadas fugindo de tribos bestiais, ora abatendo Roma, ora se abrigando nela, ora combatendo seus invasores. O que conquistaram afinal? A morte de uma esplêndida civilização carcomida? Sua ressurreição pela barbárie? E o que revelam em nosso tempo de “invasões verticais dos bárbaros” e “tribos globais” e rebeliões das massas de imigrantes e refugiados – como o foram, aliás, os pais de Roma, bastardos selvagens como Rômulo e Remo e hordas asiáticas como os troianos de Eneias, o piedoso? Convidados Adrien Bayard: doutor em História Medieval pela Universidade de Sorbonne em Paris. Marcelo Cândido: professor de História Medieval na Universidade de São Paulo Renato Viana Boy: professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal da Fronteira do Sul. Referências The Early Slavs: Culture and Society in Early Medieval Eastern Europe de Paul Barford. Myth of Nations. The Medieval Origins of Europe de Patrick Geary. La Formation de l’Europe et les invasions barbares, vol. I : Des origines germaniques à l’avènement de Dioclétien de Émilienne Demougeot. Die Goten de Wolfgang Giese. The New Cambridge Medieval History, Vol. 1: c. 500 – c. 700 ed. por Paul Fouracre. Barbarian Migrations and the Roman West, 376–568 de Guy Halsall. Rome’s Gothic Wars: from the third century to Alaric de Michael Kulikowski.  Barbarian Tides: The Migration Age and the Later Roman Empire de Walter A. Goffart. Die Ursprünge Europas. Migration und Integration im frühen Mittelalter de Verena Postel. Romans and Barbarians de Edward A. Thompson. Les Invasions barbares de Pierre Riché et Philippe Le Maître. Medieval Europe – A Short History de Judith M. Bennett e C. Warren Hollister Ilustração: A Batalha de Ludovisi. Sarcófago romano (c. 250-260 d.C.) Produção técnica: Afrânio Cruz. Gravação original 22 de outubro de 2018 O post As invasões bárbaras apareceu primeiro em Estado da Arte.

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