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Estado da Arte
by Estado da Arte
Três especialistas apresentam e discutem temas de importância atemporal das humanidades, das artes e das ciências, expondo o melhor e mais atual estágio de conhecimento sobre cada assunto.
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As Viagens de Marco Polo
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts No final do século XIII, num mundo que ainda não tinha contornos definidos e onde mapas misturavam cidades reais com monstros marinhos, num tempo em que a sombra – e o sangue – das Cruzadas se estendiam sobre a Europa e os sonhos da cavalaria a inspiravam, um adolescente partiu com seu pai e seu tio de uma república mercantil a quem o Adriático sussurrava segredos distantes; atravessou desertos implacáveis, montanhas que roçavam os céus e rios que serpenteavam como veias de civilizações esquecidas; atingiu o coração do maior império terrestre de todos os tempos; tornou-se um emissário privilegiado da corte de Kublai Khan; e percorreu sua vasta teia de conquistas, enfrentando bandidos nômades, tempestades que engoliam caravanas, mares governados por monções, e povos cujas línguas ecoavam como enigmas ancestrais. Mais do que uma aventura individual, a odisseia de Marco Polo foi um acontecimento civilizacional. Pela primeira vez, um europeu percorreu com continuidade e atenção um mundo asiático vasto, organizado, sofisticado – e regressou, 24 anos depois, para descrevê-lo. Não como alegoria teológica, nem como fábula moral, mas como um inventário de lugares, povos, riquezas, técnicas, rotas e costumes. Um olhar moldado tanto pela curiosidade quanto pelo cálculo; tanto pelo assombro quanto pela utilidade. O Livro das Maravilhas do Mundo é o mais célebre relato de viagens já escrito. Ditado a um romancista numa prisão genovesa, nele se mesclam o fabuloso e o factual, a imaginação e a contabilidade. Cidades de ouro convivem com sistemas de correio imperial; relatos de palácios flutuantes em lagos artificiais com descrições minuciosas de moedas, pesos e mercadorias; histórias de rinocerontes tomados por unicórnios e especiarias que incendiavam os sentidos, com observações frias sobre impostos, canais, papel-moeda e pólvora. É um texto onde o maravilhoso medieval não desapareceu, mas começa a ser disciplinado pelo olhar moderno que mede, compara e registra. O seu Oriente não é apenas exótico; é administrado, conectado, produtivo. O seu Ocidente não é apenas curioso; é mercantil, inquieto, pronto a expandir seus horizontes. Entre ambos, abre-se uma zona de contato onde a Idade Média vislumbra, sem saber, a aurora do mundo moderno. Marco Polo inaugurou a era das grandes descobertas, inspirando Colombo a velejar para o desconhecido, Vasco da Gama a desbravar continentes e Fernão de Magalhães a contornar o planeta. Por séculos ele moldou – e ainda molda – a maneira como o Ocidente sonhou o Oriente – e, em alguma medida, a si mesmo. Convidados Andrea Carla Dore: professora de história moderna da Universidade Federal do Paraná. Flavia Galli Tatsch: professora de história da arte medieval da Universidade Federal de São Paulo. e Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: professor de história atlântica da Universidade Estadual de Campinas. Ilustração: Marco Polo parte de Veneza. Iluminura para um manuscrito do séc. XV de “Il Milione” (domínio público) O post As Viagens de Marco Polo apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Guerra Civil Americana
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Há guerras que se travam por territórios nacionais, e há guerras que se travam pela alma de uma nação. A guerra civil americana foi ambas – e mais: foi a morte e ressurreição de um povo julgado no tribunal da própria consciência. Em meados do século XIX, os Estados Unidos viviam uma contradição intolerável: proclamavam-se pátria da liberdade e igualdade, mas, no Sul, latifúndios tecidos em algodão e abastecidos por sangue erguiam pórticos brancos sobre lombos negros; no Norte, forjado em ferro e vapor, a fé no trabalho livre fundia-se ao fundamentalismo puritano. No choque entre essas civilizações, as palavras começaram a ferir mais que armas: púlpitos tornaram-se trincheiras, romances e hinos viraram bombas de efeito moral, e a própria Bíblia foi dilacerada entre os que a liam para justificar a escravidão e os que a liam para massacrar escravizadores. Quando Abraham Lincoln, um abolicionista de origens humildes e convicções de aço, triunfou no combate eleitoral, as fronteiras viraram abismos. O que se seguiu foi não só um conflito militar, mas uma espécie de juízo final – uma travessia pelo inferno da modernidade. Ferrovias, telégrafos, encouraçados, nitroglicerina e proto-metralhadoras transformaram os campos de batalha em máquinas de aniquilação, antecipando a guerra total do século XX. Nenhuma guerra sacrificou mais americanos que a guerra a dos americanos contra si mesmos. Sobre milhares de cadáveres nas valas comuns de Gettysburg, o conflito encontrou sua esperança, nas palavras que Lincoln gravou na eternidade: a nação concebida na convicção de que todos nascem iguais sob Deus deveria viver o parto sangrento da liberdade, para que o governo do povo, pelo povo, para o povo jamais pereça sobre a terra. Mas a vitória da União não trouxe paz – apenas outro tipo de guerra. Lincoln tombou sob a bala de um extremista, e seu sonho de uma reconstrução magnânima, “com malícia para ninguém, com caridade para todos”, foi muitas vezes virado às avessas. Entre os vencedores, as promessas de união se mesclaram à libido da vingança. Os vencidos retaliaram com códigos que restituíam a servidão e com o terror noturno das milícias brancas. A guerra terminou nos mapas, mas continuou na alma americana. Quando o sangue secou, começou a batalha pela memória. O Norte celebrou precocemente – e às vezes hipocritamente – a redenção; o Sul se evadiu na fábula da “Causa Perdida”, mas nobre, onde a derrota virou honra, o regime escravocrata, um idílio cavalheiresco, e o vento levou as promessas de cidadania negra. A segregação durou mais 100 anos, até o movimento dos direitos civis, ao preço de vidas como a de Martin Luther King. Entre o mito e a culpa, o trauma e o ressentimento, os Estados Unidos seguiram marchando – às vezes aos tropeços, às vezes em círculos – tentando reconciliar-se consigo mesmos. E, ainda hoje, sob monumentos de bronze, tensões raciais e guerras culturais, ecoa o alerta de Lincoln: pode uma casa dividida permanecer de pé? Convidados Leandro Gonçalves: professor de história militar do Instituto Federal de São Paulo e autor da tese A Revolução em Assuntos Militares no Contexto da Guerra de Secessão. Marcos Sorrilha: professor de história da América da Universidade Estadual Paulista e produtor do Canal do Sorrilha sobre a história dos Estados Unidos. Vitor Izecksohn: professor de história da América da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Duas Guerras nas Américas. Referências Brado de Guerra da Liberdade: A Guerra Civil dos Estados Unidos (Battle Cry of Freedom: The Civil War Era) e For Cause and Comrades: Why Men Fought in the Civil War, de James M. McPherson. Nada Além da Liberdade (Nothing but Freedom – Emancipation and Its Legacy), The Story of American Freedom e The Second Founding: How the Civil War and Reconstruction Remade the Constitution, de Eric Foner. Duas Guerras na América: Raça, Cidadania e Construção do Estado nos Estados Unidos e Brasil (1861-1870), e “Escravidão, federalismo e democracia: a luta pelo controle do Estado nacional norte-americano antes da Secessão” (revista Topói), de Vitor Izecksohn. A revolução em assuntos militares no contexto da Guerra de Secessão Americana (1861-1865), de Leandro J.C. Gonçalves. “Guerra de Secessão”, de André Martin, em História das Guerras, org. Demétrio Magnoli. “Guerra Civil nos EUA: os antecedentes do conflito que formou a nação” e “Estados Unidos após a Guerra Civil” no podcast Hora Americana. A Guerra de Secessão: a guerra civil que dividiu os EUA, episódio do Podcast História FM. The American Civil War, documentário de Ken Burns produzido pela PBS. “American Civil War”, série em quatro episódios para o podcast The Rest is History. A History of the American People, de Paul Johnson. The Unfinished Nation: A Concise History of the American People, de Alan Brinkley. A People’s History of the United States, de Howard Zinn. What This Cruel War Was Over: Soldiers, Slavery, and the Civil War, de Chandra Manning. Race and Reunion: The Civil War in American Memory, de David W. Blight. This Republic of Suffering: Death and the American Civil War, de Drew Gilpin Faust. Reconstruction: America After the Civil War, documentário de Henry Louis Gates Jr. Produzido pela PBS. The Civil War (1861–1865), canal de podcast com diversos episódios de Rich & Tracy Youngdahl. Ilustração: bandeiras da União e da Confederação geradas por IA. O post A Guerra Civil Americana apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Dom Quixote
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Existem livros que são como cidades antigas: habitados por gerações, percorridos por caminhos óbvios e veredas secretas. E há os que são como caravelas em oceanos desconhecidos, onde cada leitor é simultaneamente navegante e vento, rasgando rotas que não deixam vestígios. Dom Quixote é as duas coisas. Uma história clara e fresca – acessível até às crianças – e, ao mesmo tempo, inesgotável como as grandes criações humanas. Paradoxalmente, a força de sua mensagem nasce da leveza de sua execução. Nela, se agitam forças contraditórias: a sátira e o lirismo; o impulso de desconstrução e o desejo de transcendência; o sublime e o ridículo. Nascido de uma vida temperada por batalhas, cativeiro, sonhos de grandeza e frustrações ainda maiores, o livro absorveu a irreverência das novelas picarescas, a observação psicológica da filosofia humanista e a crítica social do teatro para sintetizar a alma do Século de Ouro espanhol, suspensa entre a glória imperial e a melancolia da decadência, entre o canto de cisne do cavalheirismo medieval e o alvorecer da civilização burguesa. Mas mais do que retrato de seu tempo, Cervantes forjou um espelho da condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não encarnam apenas opostos, mas se complementam numa totalidade simbólica – um, a encarnação do idealismo que se choca com o real; o outro, a do realismo que humaniza o ideal. Sua jornada é uma peregrinação às raízes da existência, o diálogo interminável da alma consigo mesma: a poesia do sonho e a prosa da realidade; a ânsia do absoluto e o peso do corpo; o céu estrelado e a estrada poeirenta. Cervantes ri da fantasia sem zombar da esperança; critica a vida, mas abraça sua dignidade, mostrando que, quando há paixão moral, mesmo o delírio pode esconder verdades profundas, e, quando não há, a lucidez pode ser a maior das cegueiras. O riso que desmonta ilusões, é o mesmo que nos liberta para amarmos o mundo. Não é à toa que esta é a ficção mais popular de todos os tempos e o quarto livro mais vendido do planeta, atrás apenas de obras confessionais – a Bíblia, o Corão, o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung. Não há uma única vida que se queira humana sem trazer em si algo de uma aventura quixotesca; um só coração que não se recuse a reduzir a vida apenas ao que é visível. Com seu Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes deu carne ao arquétipo universal do homem que luta pelo impossível, e cravou no coração da humanidade uma interrogação que jamais será calada – o que é mais louco: sonhar um mundo melhor ou se conformar ao mundo como ele é? Convidados Erivelto Carvalho: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e co-autor de Os Ibéricos: História, Liberdade e Literatura. José Luis Martinez Amaro: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e coordenador do grupo de pesquisa “Retórica e historiografia na literatura hispânica”. Maria Augusta da Costa Vieira: Professora de Literatura Espanhola da Universidade de São Paulo e autora de Dom Quixote: A Letra e os Caminhos. Referências Dom Quixote: A Letra e os Caminhos; Cervantes Plural; e A narrativa Engenhosa de Miguel de Cervantes: Estudos Cervantinos e Recepção do Quixote no Brasil, de Maria Augusta da Costa Vieira. Vida de Dom Quixote e Sancho (Vida de Don Quijote y Sancho), de Miguel de Unamuno. “Miguel de Cervantes” em O Cânone Ocidental (The Western Canon), de Harold Bloom. Lições sobre Dom Quixote (Lectures on Don Quixote), de Vladimir Nabokov. “Dulcineia Encantada”, em Mimesis de Erich Auerbach. Cervantes em “Antibarroco”, Capítulo VI, do Volume II da História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. El Pensamiento de Cervantes, de Américo Castro. Don Quichotte, de Paul Hazard. Cervantes o la crítica de la lectura, de Carlos Fuentes. The Man Who Invented Fiction: How Cervantes Ushered in the Modern World, de William Egginton. Aproximación al Quijote, de Martín de Riquer. Cervantes’ Don Quixote: A Casebook, ed. por Roberto González Echevarría. Cervantes y su época, de R. León Máinez. Miguel de Cervantes Saavedra, de J. Fitzmaurice-Kelly. Cervantes y su obra, de A. Bonilla y San Martín. Don Quijote als Wortkunstwerk, de H. Hatzfeld. Sobre la génesis del Don Quijote, de J. Millé Jiménez. La invención del Don Quijote em de M. Azaña. Cervantes, de R. Rojas. Cervantes, de A.F.G. Bell. Sentido y forma del Don Quijote, de J. Casalduero. Intención y silencio en el Quijote, de R. Aguilera. “Dom Quixote”. Episódio do programa Literatura Universal com Maria Augusta da Costa Vieira. “Don Quixote”, episódio do programa In Our Time, da Radio BBC 4. Don Quijote y Cervantes em RNE, coleção de produções radiofônicas da RNE espanhola. “Cervantes y la leyenda de Don Quijote”, documentário da RTVE. “Un été avec Don Quichotte” e “Miguel de Cervantès”, séries da Radio France. “Cervantes’ Don Quixote”, curso de Roberto González Echevarría na plataforma Yale Open Courses. “Audios magistrales para entender el Quijote”, série de podcasts de Jesús G. Maestro. “Don Quixote”. Episódio do podcast The Great of Literature Books. “Don Quixote: The First Modern Novel”, episódio do podcast The Pillars: Jersualem, Athens, and the Western Mind. “The Man Behind the Curtain: ‘Don Quixote’ by Miguel de Cervantes”. Episódio do podcast Close Readings. Ilustração: Esboço de Pablo Picasso (1955. Fonte: Wikimedia Commons) O post Dom Quixote apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Seja qual for a sua espiritualidade, imagine o ritual que mais eleva o seu coração. Pense também na celebração cívica que mais excita suas paixões patrióticas. Agora, imagine uma cúpula geopolítica – com chefes de Estado, embaixadores e suas delegações. Um festival cultural – com arquitetura monumental, galerias de esculturas, récitas de poetas e filósofos, música, dança, truques de mágica. Acrescente uma feira de mercadores e inventores. Agora, coloque tudo isso sob o mesmo sol, e, bem no centro, atletas nus em competições de alta performance. Pronto, agora você tem um vislumbre do que eram os jogos olímpicos na Grécia Antiga. A disputa foi a quintessência da vida grega, o combustível de sua cultura. As cidades competiam entre si em leis e instituições; os poetas, em versos; os filósofos, em argumentos. Hesíodo desafiou Homero. Ésquilo e Sófocles concorriam nos festivais teatrais de Dionísio. Xenófanes contestava os poetas; Sócrates, os sofistas; os estoicos, epicuristas e céticos contestavam uns aos outros. A historiografia de Heródoto nasceu da guerra contra os persas e a de Tucídides da guerra entre Esparta e Atenas. A democracia era uma arena onde cidadãos disputavam o poder pela força da palavra. Os espaços de treino e disputas físicas foram sublimados e hoje consagram os nomes de nossas instituições culturais e educacionais: as palestras, a academia, os liceus, o ginásio. Mas se o espírito agônico dos helênicos foi destruição criativa, foi também criação destrutiva, que os impediu de forjarem uma nação, os mergulhou em guerras fratricidas e levou à sua capitulação sob potências estrangeiras. A política dividia as cidades gregas, a religião fracassou em uni-las – mas o esporte conseguiu. Nos jogos, o conflito se transformava em espetáculo e a rivalidade em celebração. Guerras eram suspensas pela trégua sacrossanta; caravanas atravessavam mares e montanhas; e a Grécia, eternamente dilacerada, conhecia por instantes a comunhão. Sob o calor e a poeira de Olímpia, sacrifícios e procissões conviviam com o ruído das corridas, o brilho das armaduras, o sangue e o suor das lutas. Menandro resumiu a cena em cinco palavras: “multidão, feira, acrobatas, entretenimento, ladrões”. Os jogos foram um microcosmo da cultura helênica e também sua apoteose; o ponto de fusão entre arte, política e fé, onde a Grécia não só reverenciava os deuses, mas celebrava o vigor humano. O atleta grego era uma encarnação do equilíbrio cósmico, um sacerdote do corpo. A coroa de oliveira, rústica e efêmera, valia mais que qualquer tesouro, porque simbolizava a consagração do indivíduo diante da eternidade – e a santificação da alegria coletiva. Os gregos humanizaram os deuses para divinizar os homens. E os jogos os treinavam nessa pedagogia da glória, ensinando-os a vencer sem soberba e a perder com dignidade, e os imergiam numa teologia do júbilo, unindo a religião e o prazer, a guerra e a dança, o esforço e a graça, a beleza e o bem – o corpo esculpido pelo exercício e a alma disciplinada pela virtude. Convidados Delfim Leão: Professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra. Gilberto da Silva Francisco: Professor de História Antiga na Universidade Federal da São Paulo. Nuno Simões Rodrigues: Professor de Letras Clássicas da Universidade de Lisboa. Referências O Espírito Olímpico no Novo Milênio, coordenação de Francisco Oliveira. A Brief History of the Olympic Games, de David C. Young Olympia. Robin Waterfield. Los Juegos Olimpicos y el Deporte em GreciaI, de Fernando García Romero. The Olympic Games. The First Thousand Years, de M.I. Finley e H.W. Pleket. Olympia. The Classical Hellenic City-State Culture, de Thomas Heine Nielsen. “A ascensão da Grécia”, em A História da Civilização. V. II. A Vida da Grécia, de Will Durant. “Ancient Olympics”. Documentário do History Channel. “Olimpíadas”, no podcast História em Meia Hora. “The Olympic Games”, em The Games Odyssey Podcast. “Origins of the Olympics”, no podcast The Ancients. O post Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Hamlet
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Responda rápido: qual peça de Shakespeare lhe vem primeiro à cabeça? Ou qual citação: “Ser ou não ser”? “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”? “O resto é silêncio”? Ou qual a primeira cena: um jovem de preto interpelando uma caveira? Será coincidência que por trás de tudo isso repouse um único nome? Hamlet é, de todas as obras do teatro moderno, a que exerce o fascínio mais persistente – e implacável. A tragédia do príncipe dilacerado entre a reflexão e a ação atravessa os séculos como um espelho oblíquo, turvo, fissurado da condição humana, onde cada época descobre suas próprias inquietações e conjura seus próprios fantasmas. A peça desafia toda classificação. É, a um tempo, drama familiar, meditação existencial, thriller político, crítica social e uma reflexão sobre o teatro e o próprio ato de representar. É intriga de corte, mas também metafísica do ser. É paralisia excruciante numa espiral de choques e rupturas. No coração do drama pulsa não só um vingador hesitante, mas um palco povoado por máscaras, danças macabras, jogos de aparência e silêncios perturbadores. Entre o espectro do pai assassinado, a mãe desposada pelo assassino, um amor despedaçado, amizades fraudulentas e uma carnificina apoteótica, o príncipe da Dinamarca – soturno, sardônico, sagaz – se move num labirinto de espelhos como um ator de si mesmo – ensaiando ações, testando palavras, pensando alto diante do abismo e transmutando a dúvida em imagens líricas de alta voltagem. Com sua tapeçaria de temas – a loucura e a razão, a justiça e o crime, a fantasia e a verdade, a corrupção do poder e a fragilidade da vida –, nenhum outro drama entrelaça com tanta densidade a inquietação filosófica e a paixão poética. Entre os solilóquios torturantes e o sarcasmo dos bobos, não só transbordam os dilemas do herói, mas a consciência moderna em ebulição. De Montaigne a Nietzsche, de Freud a Camus, Hamlet antecipa temas arquetípicos de nossa cultura: o “gênio melancólico” do romantismo, a “angústia da escolha” existencialista, os “complexos neuróticos” da psicanálise. Se Hamlet é um enigma, é também um espelho – e uma ferida. O que nele hesita, pensa. O que nele pensa, sangra. E o que sangra, pergunta. Pergunta como só a poesia sabe perguntar: sem esperar resposta – mas com a estranha esperança de que o ato de falar ainda possa nos redimir. Convidados José Francisco Hillal Botelho: escritor, poeta, crítico e tradutor de Shakespeare. Fernanda Medeiros: professora de Literatura Inglesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e co-organizadora de O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe. Liana Leão: professora de Literatura Inglesa da Universidade Federal do Paraná e co-organizadora de O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe. Referências O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe, org. F. Medeiros e L. Leão. Shakespearean Tragedy (Tragédia Shakespeariana), de A.C. Bradley Hamlet in Purgatory, de Stephen Greenblatt. Shakespeare: The Invention of the Human (Shakespeare: A Invenção do Humano) e Hamlet: Poem Unlimited (Hamlet: Poema Ilimitado), de Harold Bloom. Shakespeare Our Contemporary (Shakespeare, Nosso Contemporâneo), de Jan Kott Methuen. Hamlet and Oedipus (Hamlet e o Complexo de Édipo), de Ernest Jones. What Happens in Hamlet, de J. Dover Wilson. “Hamlet and His Problems”, em The Sacred Wood, de T.S. Eliot. The Cambridge Companion to Shakespeare (Guia Cambridge de Shakespeare), ed. por Emma Smith. “Hamlet”, entrevista para o programa In Our Time da rádio BBC 4. Discovering Hamlet, documentário de Lyndy Saville. Falando de Shakespeare e Shakespeare: o que as obras contam, de Barbara Heliodora. “Hamlet”, The Play Podcast. “Hamlet”, podcast Shakespeare for All. Hamlet e a filosofia, de Pedro Süssekind. Ilustração: gerada por IA. O post Hamlet apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Kierkegaard
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Sob os vendavais da era romântica, enquanto a Europa se embriagava com apoteoses filosóficas e otimismo científico, um espectador inquieto e solitário perambulava pelas ruas de Copenhague, e, sob máscaras de pseudônimos, escrevia freneticamente, desafiando a ilusão de que a existência possa ser domesticada por ideias. Søren Kierkegaard não era filósofo de cátedra, mas um provocador de almas, um poeta da angústia, um teólogo que via na fé não conforto, mas um “escândalo” a ser abraçado. Seu pensamento se ergue a um tempo perturbador como uma tragédia elisabetana e cômico como um teatro de marionetes. Kierkegaard fez de sua vida – marcada pela melancolia herdada do pai pietista e pela chaga de um noivado abortado –, o palco de sua obra. Seus escritos não são tratados, mas performances existenciais – fragmentadas, ambíguas, polêmicas, e carregadas de uma ironia que serve não como ornamento, mas como instrumento filosófico. Para ele, não se tratava de conquistar leitores, mas almas. Na sua obra inaugural, Ou-Ou, encenou a contradição entre o esteta, joguete do do prazer e do tédio, e o ético, cativo da responsabilidade. Em Temor e Tremor, mergulhou no paradoxo de Abraão, cuja fé é um “salto” além da razão. Enquanto Hegel prometia a reconciliação de todas as contradições, Kierkegaard proclamava a sua inexorabilidade. “A verdade é a subjetividade”, dizia. “A vida só pode ser entendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida para frente”. Nesse abismo entre a compreensão e a ação, descreveu a liberdade como “vertigem” e diagnosticou o desespero como a incapacidade de ser o próprio eu — uma antecipação genial das neuroses do século XX. Apologeta combativo, denunciou a cristandade burguesa como uma paródia do cristianismo, insistindo que a fé exige risco, não rituais vazios. Seu legado ecoa na filosofia de Heidegger e Sartre, na literatura de Camus, na teologia dialética de Karl Barth e na psicoterapia existencial. Mas talvez sua maior atualidade esteja em seu diagnóstico da alienação da alma moderna. Na era da cultura de massas e de performances digitais, sua advertência — “a multidão é a mentira” – soa profética. Kierkegaard não oferece respostas, mas perguntas que queimam: Como escolher quando não há certezas? O que significa crer em um mundo pós-metafísico? Como ser um indivíduo em tempos de conformismo em escala industrial? Kierkegaard foi o Hamlet da filosofia – gênio atormentado, herói hesitante, mestre da ambiguidade, e talvez o crítico mais cruel dos sonhos da nossa vã filosofia. Convidados Alvaro Valls: professor de filosofia da UNISINOS, tradutor de Kierkegaard e autor de Kierkegaard, Cá Entre Nós. Jonas Roos: professor de ciências da religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de 10 Lições sobre Kierkegaard. Gabriel Ferreira da Silva: professor de filosofia da UNISINOS e autor de Em Busca de Uma Existentiel-Videnskab: Kierkegaard e a Ontologia do Inter-esse. Referências Kierkegaard, Cá Entre Nós e Kierkegaard não era um homem sério, de Alvaro Valls. 10 Lições sobre Kierkegaard e Tornar-se cristão: paradoxo e existência em Kierkegaard, de Jonas Roos. Em Busca De Uma Existentiel-Videnskab: Kierkegaard e a Ontologia do Inter-esse, de Gabriel Ferreira da Silva. Compêndio Kierkegaard, 2 vols., org. por A. Valls e Gabriel Ferreira da Silva. Lições de Vida: Kierkegaard, de Robert Ferguson. The Cambridge Companion to Kierkegaard, eds. Alastair Hannay & Gordon D. Marino. Kierkegaard: A Very Short Introduction, de Patrick Gardiner. “Kierkegaard”, entrevista de Jonathan Rée, Clare Carlisle e John Lippitt para o programa In Our Time da BBC Radio 4. A Short Life of Kierkegaard, de Walter Lowrie. “Søren Kierkegaard”, verbete na Stanford Encyclopedia of Philosophy, por William McDonald. Søren Kierkegaard: A Biography, de Joakim Garff. “Kierkegaard, philosophe malgré lui”, série em 10 episódios da radio France Culture. Kierkegaard: A Biography, de Alastair Hannay. Philosopher of the Heart: The Restless Life of Søren Kierkegaard, de Clare Carlisle Kierkegaard e Pascal, de Luigi Pareyson. Søren Kierkegaard, de Cornelio Fabro. Kierkegaard: An Introduction e Kierkegaard’s Philosophy of Religion, de C. Stephen Evans Études kierkegaardiennes, de Jean Wahl. The Philosophy of Kierkegaard, de George Pattison. Kierkegaard and the Religious Imagination, de David Wood. Der Buckel Kierkegaards (Kierkegaard the Cripple), de Theodor Haecker. “In Search of Søren Kierkegaard”, da Radio BBC 4. “Søren Kierkegaard”, série em 3 episódios para The Panpsycast Philosophy Podcast. Philosophize This!, podcast, episódios 77, 78, 79 e 160. “Sea of Faith: Kierkegaard”, documentário da BBC. “Kierkegaard au secours de l’existence”, série em 4 episódios. Ilustração: retrato inacabado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard c. 1840. (Wikicommons). O post Kierkegaard apareceu primeiro em Estado da Arte.
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‘Da Guerra’, de Clausewitz
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Para alguns pensadores, a história humana é basicamente a história da cultura. Para outros, a história da economia. Mas há quem diga que ela nada mais é que a história da guerra. É plausível. Por que procurar a mola-mestra da História no poder das ideias ou no poder do dinheiro, e não simplesmente no poder do poder? Quer dizer: a força pura de dobrar os outros à sua vontade – ou aniquilá-los –, seja lá quão brilhantes ou ricos sejam. Muito além dos quartéis e trincheiras, fala-se em guerra por toda parte – “guerras culturais”, “guerras comerciais”, “guerras santas”, a “guerra dos sexos”. Todo mundo maquina suas “táticas” e “estratégias” para tudo. O que são nossos esportes e jogos – do futebol ao xadrez – senão guerras sublimadas? A guerra está em todo lugar. Mas o paradoxo é quão raros são os livros sobre a guerra. Não entenda mal: as guerras inspiraram obras primas da literatura – das epopeias de Homero aos romances de Tolstoi; toda geração produz toneladas de manuais militares – só para serem soterrados pelos manuais da geração seguinte, a par com as novas tecnologias. Mas e os livros sobre a guerra? Não sobre a guerra do Peloponeso, da Gália, a Primeira Guerra Mundial, a Segunda ou a Guerra Fria, mas só sobre a guerra. O que é? Como começa? Como termina? A Arte da Guerra, o clássico do chinês Sun Tzu, é demasiado “clássico” – fruto de um tempo arcaico e heroico onde combates eram travados com escudos, espadas e códigos de honra, milênios antes do poder de destruição em massa da pólvora e do poder de mobilização em massa dos Estados nacionais. Daí a afirmação ousada, mas difícil de refutar, de Bernard Brodie, um dos pais da estratégia nuclear, sobre o tratado do general prussiano Carl von Clausewitz: “Não é só o maior, mas o único grande livro sobre a guerra”. Como disse um estrategista contemporâneo: “Você pode lutar guerras sem ler Clausewitz, mas dificilmente pode entendê-las”. Escrito no rescaldo das guerras napoleônicas, muito mais do que um manual bélico, o livro é uma meditação sobre a violência organizada e sua relação inextricável com o poder político. Muito além de táticas e estratégias, ele explora a guerra como um espelho da natureza humana, um fenômeno social, psicológico e moral regido pela “admirável trindade”: a “paixão”, o “acaso” e a “razão”, encarnadas no “povo”, nas “forças armadas” e no “governo”. Como obra inacabada, ela nos lega não só luz, mas lacunas e contradições. Até hoje, contudo, em tempos de drones e guerras híbridas, Clausewitz permanece crucial para entender como e por que os homens lutam. Grandes estadistas – de Bismark a Mao Tsé-Tung, de Lenin a Eisenhower – formam fila com batalhões de generais, pensadores e até artistas para dar testemunho da ponderação do cientista político Christopher Coker: “Clausewitz permanece insubstituível – não porque tenha todas as respostas, mas porque ajuda a fazer as perguntas certas”. Convidados Eugênio Diniz: Professor de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais e membro do International Institute for Strategic Studies. Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos: Professor de Relações Internacionais da Unesp e autor de Clausewitz e a Política. Sandro Teixeira Moita: Professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Referências Clausewitz e a Política, de Rodrigo Duarte Fernandes dos Passos. Pensar a Guerra: Clausewitz (Penser la guerre: Clausewitz), de Raymond Aron. Strategy: A History, de Lawrence Freedman. Clausewitz: A Biography, de Roger Parkinson. Clausewitz: A Very Short Introduction, de Michael Howard. The Clausewitz Homepage. “Clausewitz and On War“, no programa In Our Time, da Radio BBC 4. Clausewitz: His Life and Work, de Donald Stoker. Clausewitz and the State: The Man, His Theories, and His Times, de Peter Paret. Reading Clausewitz, de Beatrice Heuser. Masters of War: Classical Strategic Thought, de Michael I. Handel. Clausewitz’s Puzzle: The Political Theory of War e Clausewitz and Contemporary War, de Antulio J. Echevarria II. Clausewitz and Escalation, de Stephen Cimbala. Clausewitz in the Twenty-First Century, de Hew Strachan e Andreas Herberg-Rothe. Decoding Clausewitz: A New Approach to On War, de Jon Tetsuro Sumida. The Fog of War, documentário de Errol Morris com Robert S. McNamara (A Névoa da Guerra, disponível com legendas em português em diversas plataformas). “Great Strategists: Clausewitz”, série do podcast War Room do U.S. Army War College. Clausewitz for the 21st Century, palestra de Christopher Coker. “Clausewitz on War”, episodio do podcast Cui Bono. Ilustração: Pxhere.com Free Images. O post ‘Da Guerra’, de Clausewitz apareceu primeiro em Estado da Arte.
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O Cristianismo primitivo
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando um carpinteiro de Nazaré foi condenado pelos clérigos hebreus e crucificado por um governador romano, a população de seus seguidores mal encheria uma sinagoga. Vinte séculos depois, eles formam a maior religião do mundo, predominante em quase todos os continentes. Nenhuma instituição fez tanto pelo Bem, a Verdade e a Beleza. Seus orfanatos e hospitais aliviam a humanidade; seu mecenato deu ao mundo dos mosaicos bizantinos às catedrais medievais às obras primas renascentistas e barrocas. A Igreja deu à luz as universidades e continua a inundar o planeta com escolas. Das ruas poeirentas da Judeia, a pequena seita messiânica floresceu como uma árvore de raízes múltiplas, cujos galhos se espalhavam com inacreditável rapidez entre cidades portuárias, desertos, prisões e palácios, cruzando fronteiras étnicas, morais e culturais para oferecer uma nova fé a judeus e gentios, analfabetos e filósofos, legionários romanos e mulheres gregas. O cristianismo foi vilipendiado, perseguido, ridicularizado, mas cresceu, como cresce a semente sob a terra, regada pelo sangue dos mártires. Como se cristalizou, entre torturas e concílios, o que hoje chamamos de ortodoxia? Como se forjou, em meio a uma cacofonia de doutrinas, seitas e evangelhos rivais a fé no mistério tão contra-intuitivo quanto central da Trindade? Como a crença num Deus crucificado, escândalo para judeus e loucura para gregos, sintetizou o universalismo helênico e o profetismo hebraico? Como uma religião que pregava o amor ao inimigo, a castidade, o sacrifício e o perdão conquistou os senadores de Roma, os intelectuais de Alexandria, os comerciantes de Antioquia? Como uma comunidade que pregava desapego às riquezas construiu basílicas de ouro? E o que aconteceu quando Constantino abraçou o símbolo da Cruz: terá a Igreja conquistado o mais formidável império que o mundo já conheceu ou terá sido prostituída por ele? Não há como compreender os destinos da civilização humana sem percorrer os passos das primeiras gerações de cristãos, de catacumbas obscuras a palácios imperiais, de Gibraltar à Mesopotâmia. Neles está em germe tanto o império teológico da cristandade medieval quanto as rupturas que o abalaram: da avassaladora onda islâmica ao cisma entre o Oriente e o Ocidente até a Reforma Protestante que escancarou as portas da modernidade. E, talvez, refazendo estes passos – humildes, corajosos, incendiários – os cristãos de hoje possam reencontrar a sua missão: reconciliar-se, anunciar a fé com novo ardor, e preparar, enfim, o mundo para a consumação do Reino de Deus. Convidados Marcus Reis Pinheiro: professor de filosofia da Universidade Federal Fluminense e coordenador do grupo de estudos em mística comparada. Paulo Nogueira: professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e autor de Breve história das origens do cristianismo. Pedro Vasconcellos: professor de história da cultura da Universidade Federal de Alagoas e co-autor de Caminhos da Bíblia – Uma história do povo de Deus. Referências Breve história das origens do cristianismo, Religião e poder no cristianismo primitivo e Experiência religiosa e crítica social no cristianismo primitivo, de Paulo Nogueira. Caminhos da Bíblia – Uma história do povo de Deus, de Pedro Vasconcellos. História do Cristianismo (A History of Christianity), de Paul Johnson. O Crescimento do Cristianismo (The Rise of Christianity) e The Triumph of Christianity, de Rodney Stark. A Formação da Cristandade (The Formation of Christendom) de Christopher Dawson. História da Igreja de Cristo (Histoire de l’Église du Christ). Vol. I: A Igreja dos Apóstolos e dos Mártires, de Daniel-Rops. A História da Civilização (The Story of Civilization). Vol. III: César e Cristo, de Will Durant. A Ascensão do Cristianismo no Ocidente (The Rise of Western Christendom), de Peter Brown. Domínio. O Cristianismo e a criação da mentalidade ocidental (Dominium), de Tom Holland. Roots of the Western Tradition: A Short History of the Ancient World, de C.W. Hollister. The Early Church, de Henry Chadwick. The Story of Christianity, de Justo L. Gonzales. Christian History: An Introduction, de Alister McGrath. The Cambridge History of Christianity. Vol. 1: Origins to Constantine, ed. por M.M. Mitchell e F.M. Young. The First Thousand Years: A Global History of Christianity, de Robert Louis Wilken. Ilustração: Afresco da Última Ceia na igreja de Meillonnas, França (Dreamstime.com) O post O Cristianismo primitivo apareceu primeiro em Estado da Arte.
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‘A Democracia na América’ de Tocqueville
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o jovem francês Alexis de Tocqueville viajou aos Estados Unidos, em 1831, o Antigo Regime estava em decomposição, mas a rigor não havia democracias no mundo. Mesmo os governantes americanos eram eleitos por uma elite diminuta. Filho de uma aristocracia moribunda, visionário de uma democracia embrionária, Tocqueville não amava, nem odiava, nem uma nem outra, e pôde julgá-las com um olhar desapaixonado. Nem apologista da democracia, nem seu crítico reacionário, na América ele viu a marcha irresistível do igualitarismo moldando não só as leis e instituições, mas os costumes e a alma coletiva, para o bem, mas também para o mal. Entre os riscos que a democracia trazia em seu ventre, ele diagnosticou os males do individualismo e do materialismo; do conformismo e da apatia política, de um lado, e do fanatismo sectário e da tirania da maioria, de outro; do atomismo social e do monismo estatal. “Desejo imaginar sob quais novos traços o despotismo poderia produzir-se no mundo”, disse Tocqueville, “e vejo uma inumerável multidão de homens semelhantes e iguais, que sem descanso giram em torno de si mesmos, a fim de se proporcionarem pequenos e vulgares prazeres com que enchem a alma; cada um, isolando-se parte à parte, como que estranho ao destino dos demais. … Acima de todos, eleva-se um poder imenso e tutelar, único a encarregar-se de lhes assegurar seus gozos e velar sobre sua sorte. É absoluto, detalhado, regular, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objeto preparar os homens para sua idade viril, mas, pelo contrário, procura apenas fixá-los irrevogavelmente na infância. … Se pudesse, lhes suprimiria inteiramente até a preocupação de pensar e a dificuldade de viver!” Mas Tocqueville foi salvo do ceticismo por sua fé política na liberdade, e do pessimismo por sua fé religiosa no cristianismo. Com o mesmo vigor com que denunciou as patologias da democracia, apontou os seus remédios: a participação em associações civis, a imprensa livre, a vitalidade das instituições locais, a descentralização do poder, a educação cívica e sobretudo o freio ao egoísmo e motor do altruísmo que é a religião. Duzentos anos depois, mais da metade dos países do planeta são democráticos e mesmo regimes autocráticos como a China ou a Rússia prestam a homenagem do vício à virtude e hipocritamente se proclamam “democracias”. A obra prima de Tocqueville, a Democracia na América, teve um valor inestimável para compreender a história passada das democracias. Mas poderá ainda nos ajudar a decifrar o presente, e, talvez, salvar o futuro? Convidados Lívia Franco: professora de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa. Roberta Soromenho: professora de Ciência Política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rodrigo do Lemos: professor de Língua e Literatura Francesa da Universidade Federal Fluminense. Referências As etapas do pensamento sociológico (Les Étapes de la Pensée Sociologique), de Raymond Aron. Alexis de Tocqueville: a historiografia como ciência da política, de Marcelo Gantus Jasmin. “A Democracia na América”, em As Grandes Obras Políticas (Histoire de la pensée politique), de Jean-Jacques Chevalier. Os desafios da escrita Política, de Claude Lefort. O Liberalismo: Antigo e Moderno e O Argumento Liberal, de José Guilherme Merquior. História Intelectual do Liberalismo (Histoire intellectuelle du libéralisme) e Tocqueville et la nature de la démocratie, de Pierre Manent. Curso de Extensão 200 anos de Sociologia (UFJF/SBS) – Módulo I – Alexis de Tocqueville com Roberta Soromenho Nicolete. Curso “200 anos de Sociologia” – Módulo I | Alexis de Tocqueville, com Marcelo Jasmim (PUC-Rio). The Cambridge Companion to Tocqueville, editado por Cheryl Welch. “Tocqueville: Democracy in America”, entrevista do programa In Our Time, da Radio BBC 4. Quando a política caminha na escuridão – interesse e virtude n’A Democracia na América de Tocqueville, de R.K.S. Nicolete. “Alexis de Tocqueville, ‘De la démocratie en Amérique’” (4 episódios); “Tocqueville à la découverte de la démocratie”; “Tocqueville, éducateur” e “Alexis de Tocqueville (1805-1859) ou Comment terminer la Révolution?” Programas da Radio France Culture. “The Strange Liberalism of Alexis de Tocqueville”. History of Political Thought, II, de Roger Boesche. “Tocqueville’s ‘Sacred Ark’”, de Aurelian Craiutu, em Araucaria 21 (42), 2019. French Political Thought From Montesquieu To Tocqueville – Liberty In A Levelled Society?, de Annalien de Djin. “Naissance d´un paradigme: tocqueville et le voyage en Amérique [1825-1831]”, de François Furet. Em Annales 39 (2), 1984. Tocqueville et les langages de la démocratie, de Laurence Guellec. Alexis de Tocqueville, de André Jardin. Tocqueville and the two democracies, Jean-Claude Lamberti. L’idee républicaine em France: essai d´historie critique, de Claude Nicolet. Liberty, Equality, Democracy, de Eduardo Nolla. Tocqueville between two worlds. The making of a political and theoretical life, de Sheldon Wolin. New French Thought: Political Philosophy, de Mark Lilla. Ilustração: Estátua da Liberdade em construção. Paris, 1883 (domínio público). O post ‘A Democracia na América’ de Tocqueville apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Os Vikings
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts No ano de 793 depois de Cristo, os céus do litoral norte da Inglaterra se encheram de relâmpagos, tornados e dragões, então se seguiu uma grande fome, e finalmente “horrendas incursões de pagãos destruíram a igreja de Deus na ilha de Lindisfarne com roubos e massacres ferozes”. Foi assim, ao menos segundo as crônicas anglo-saxãs, que os vikings inauguraram três séculos de invasões, conquistas e colonizações. Até hoje os vemos como guerreiros super-masculinos navegando em navios em forma de dragão com capacetes com chifres, peles de animais e machados reluzentes em busca de saques, assaltos, pilhagens, estupros, sequestros, chacinas, escravizações. Assim como nossa sociedade mantém uma relação ambígua com a violência, somos a um tempo atraídos e repelidos pelos vikings. Simpatizamos com suas vítimas, mas admiramos sua força, coragem e virilidade, e, de um modo geral, prevalece a imagem positiva da jovialidade, ousadia, aventura e exploração. Com efeito, os vikings batalharam da Inglaterra e França até Portugal e Espanha; navegaram por rios do Báltico ao Mar Negro; comercializaram em Constantinopla e Bagdá, conectando-se com a China e a Índia através da Rota da Seda; colonizaram a Islândia; e exploraram a América 500 anos antes de Colombo. Eles aterrorizaram os povos medievais, mas também catalizaram grandes transformações culturais, religiosas e políticas. A destruição criativa detonada na Escandinávia teve um caráter caleidoscópico. Considere Cnut, o Grande, que foi rei da Dinamarca, Noruega, Inglaterra e parte da Suécia. Ou Harald Hardrada (literalmente, “o Durão”), filho do rei da Noruega; meio-irmão de Olaf, o Santo; genro de Yaroslav, o Sábio, da Rússia; cunhado dos reis da Hungria e da França; exilado, pirata, poeta, mercenário, general do Império Bizantino, que lutou no mediterrâneo, reconquistou seu trono e quase subjugou a Inglaterra. Aos poucos, os chefes tribais escandinavos foram se tornaram súditos de reis e fiéis da Igreja universal. Quando os conquistadores foram conquistados pela fé de monges e freiras, a era viking acabou e nasceram os reinos da Dinamarca, Suécia e Noruega. Mas seus descendentes na Normandia conquistaram a Inglaterra e a Sicília; e suas dinastias em Kiev inauguraram aquela que se tornaria a maior nação do planeta: a Rússia. E a mistura de masculinidade, aventura e coragem em suas sagas e mitos continuam a energizar nosso imaginário, das óperas de Wagner aos romances de Tolkien, de filmes a séries e videogames. Como os vikings se tornaram o primeiro povo pré-moderno a matar e morrer nos quatro continentes? O que a sua jovialidade expansiva tem a ver com a introversão torturante de um Hamlet ou um Kierkegaard? E como os descendentes desses bárbaros ferozes construíram nações que hoje são modelos exemplares de regimes social-democratas igualitários, civilizados e pacíficos? Convidados Hélio Pires: pesquisador do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa e autor de No Tempo dos Vikings. Lukas Grzybowski: professor de História Medieval da Universidade Estadual de Londrina e autor de The Christianization of Scandinavia in the Viking Era. Santiago Barreiro: professor de História Medieval da Universidade de Buenos Aires e tradutor das sagas nórdicas. Referências “Vikings” em História da Civilização. Vol. IV. A Idade da Fé (The Story of Civilization), de Will Durant. Vikings: A história definitiva dos povos do norte (Children of Ash and Elm: a history of the Vikings, de Neil Price. Mitos do norte pagão: Os deuses dos nórdicos, de Christopher Abram. Os Mitos Nórdicos: Um guia para os deuses e heróis, de Carolyne Larrington. O livro da mitologia nórdica, de John Lindow. The Cambridge History of Scandinavia. Vol. 1. From Prehistory to 1520, ed. por Knut Helle. “Vikings” em Medieval Europe. A Short History, de J.M. Bennett e W.C. Hollister. The Vikings, de Else Roesdahl. The Viking World, org. por S. Brink e N. Price. The Vikings. A Very Short History, de Julian D. Richards. The Age of Vikings, de Anders Winroth. The Norsemen in the Viking Age, de Eric Christiansen. The Vikings in History de F. Donald Logan. The Cambridge Introduction to the Old Norse-Icelandic Saga, de M. Clunies-Ross. Eso no estaba en mi libro de Historia de los vikingos, de Losquino Garcia. The Hammer and the Cross, de Robert Ferguson. A History of the Vikings, de Gwyn Jones. Ancient Scandinavia. An Archeological History from First Humans to the Vikings, de Douglas T. Price. The Routledge Research Companion to the Medieval Icelandic Sagas, ed. por A. Jakobsson e S. Jakobsson. A Companion to Old Norse-Icelandic Literature and Culture, ed. por Rory McTurk The Rise of the Scandinavian Kingdoms from the Vikings to the Reformation, de Sverre Bagge. Scandinavia in the Age of Vikings, de Jón Viðar Sigurðsson e Thea Kveiland. Scandinavia in the Middle Ages 900-1550: Between Two Oceans, de Kirsi Salonen e Kurt Villads Jensen. A History of the Vikings, de T.D. Kendrick. Nordens historia: en europeisk region under 1200 år. de Harald Gustafsson. Ilustração: Drakkars vikings criados por Inteligência Artificial. O post Os Vikings apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A ‘República’ de Platão
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Você já imaginou como seria viver em uma sociedade ideal, perfeitamente justa, onde todas as pessoas são livres, sadias, educadas, virtuosas, generosas, cada uma agindo conforme as suas capacidades, cada uma recebendo conforme as suas necessidades? Seria como emergir das cavidades e penumbras de uma caverna vitalícia, deslumbrando-se com as cores, os movimentos, a densidade e a vida do mundo real. Mas é desconcertante que quem entra na Cidade Ideal de Platão parece percorrer o caminho inverso. Nossa sensibilidade moderna se choca com visões contra-intuitivas – como o regime do comunismo austero das elites, sem família, nem posses – ou mesmo perturbadoras – como o controle da poesia e das artes em nome da moral, a eugenia e a compartimentação por castas, ou, sobretudo, o repúdio à democracia eleitoral como antessala da anarquia e da tirania. Como conciliar essa estrutura estreita e rígida com lampejos visionários, como a abolição da escravidão ou o igualitarismo total entre homens e mulheres? Não surpreendem os 2.400 anos de controvérsias inflamadas entre quem adora a República como uma utopia luminosa – o prenúncio do Reino dos Céus – e quem a detesta como uma distopia tenebrosa – a mãe de todos os totalitarismos. Mas ninguém negará que Platão alicerça a construção de sua cidade “bela e boa” nas questões essenciais: o que é a justiça? o que é a felicidade? é possível ser injusto e feliz – ou justo e infeliz? E mesmo as críticas mais densas dos críticos mais ardentes não deixam de ser uma homenagem ao tour de force de Platão em busca do equilíbrio e da hierarquia entre a dimensão religiosa, a política e a econômica que compõem toda a sociedade humana, assim como entre a razão, a vontade e a emoção que movem toda alma humana. Nenhuma outra obra platônica ilustra tão completamente o dito de Alfred North Whitehead de que a história da filosofia não passa de “uma série de notas de rodapé a Platão”. Em sua busca pelo Estado ideal, o protagonista Sócrates extrapola a política, investigando a ética, a estética, a metafísica, a epistemologia, a pedagogia, a psicologia e até a física para oferecer uma síntese audaciosa entre a arquitetura do universo e a anatomia da alma. Seu anseio pela fusão do saber e do poder produziu algumas das alegorias poéticas mais fecundas da história do pensamento – o mito da caverna, o sol como imagem do Bem, o Estado como um navio, a odisseia da alma no além-mundo. E aprove-se ou não os caminhos e estratagemas de Platão para responder à pergunta crucial sobre a Justiça, a resposta – medida pelas grandes lideranças morais e religiosas da humanidade – segue impecável: o vigor de uma civilização é antes de tudo uma questão de ordem interior, e é sempre preferível ser justo, mesmo sofrendo as mais cruéis injustiças, do que gozar de prazeres, riquezas e glória praticando injustiças. Ame ou odeie a República, o certo é que nenhum pensador jamais ficou indiferente a ela. Hoje, como sempre foi e, previsivelmente, sempre será, a República é uma poderosa fonte de inspiração para pensarmos quem somos – e o que poderíamos ser –; e para investigar como construir uma sociedade justa – e como sermos justos em um mundo injusto. Convidados Gabriele Cornelli: professor de Filosofia Antiga da Universidade de Brasília e ex-presidente da International Plato Society. Luca Pitteloud: Professor de Filosofia Antiga na Universidade Federal do ABC e Pesquisador pela Universidade Autónoma de Madri. Maria do Céu Fialho: professora de Línguas e Literaturas Clássicas da Universidade de Coimbra. Referências Paidéia. A formação do homem grego (Paideia), de Werner Jaeger Ordem e História. Volume III. Platão e Aristóteles (Order & History), de Eric Voegelin. Platão. História da Filosofia Grega e Romana Vol. III. (Storia della Filosofia Greca e Romana), de Giovanni Reale. “Platão”, em História da Civilização. Vol. II. A Vida na Grécia (The Story of Civilization), de Will Durant. “Platão”, em História da Literatura Grega (Geschichte der griechischen Literatur), de Albin Lesky. Plato’s Republic, episódio do programa In Our Time, da Radio BBC 4. The Cambridge Companion to Plato, ed. por R. Kraut e The Cambridge Companion to Plato’s Republic, ed. por G.R.F Ferrari. “Platone”, na Enciclopedia Filosofica Bompiani. “Plato”, na Stanford Encyclopedia of Philosophy. Plato. The Man and His Work, de Alfred Taylor. Platon: Logos und Mythos, de Kurt Hildebrandt. Plato’s Theory of Man, de John Wild. Platon, de Paul Friedländer. Ilustração: A Apoteose de Homero, de Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1827 (Louvre, Paris. Wikicommons). O post A ‘República’ de Platão apareceu primeiro em Estado da Arte.
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As Catedrais Góticas
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Imagine um edifício que não só abriga pessoas, mas conta histórias, canaliza a luz divina e desafia as leis da física para tocar o infinito. “A arquitetura gótica”, disse o historiador Will Durant, “foi a suprema realização da alma medieval. Os homens que ousaram suspender estas abóbadas em umas poucas palafitas de pedra estudaram e exprimiram sua ciência com mais rigor e efeito que qualquer filósofo medieval em qualquer summa, e as linhas e harmonias de Notre Dame formam um poema maior que a Divina Comédia”. As catedrais foram arte total em grande escala, abrigando em sua arquitetura todo tipo de atividade estética, da carpintaria à música. Com seus arcos ogivais, abóbadas nervuradas e vitrais que transformam luz em narrativa, os mestres góticos desafiaram a gravidade para glorificar a Deus. A matemática servia à mística e, mais do que medir, os números revelavam a criação divina. Enquanto os templos greco-romanos celebravam a harmonia terrena, os góticos fundiram arte, fé e ciência em pedra e vidro para conquistar, com a voracidade de seus antepassados bárbaros, o reino dos céus. Mas eles também amavam a terra e combinando a piedade e o humor, o êxtase e o terror, seus escultores entrelaçaram, entre anjos e demônios, santos sublimes e animais cômicos ou apavorantes. A casa de Deus era a casa do povo. A catedral foi o coração das cidades medievais, um ponto de encontro para os cidadãos, uma escola de letras para seus filhos, uma escola de artes e ofícios para suas guildas. Como disse Victor Hugo, antes da imprensa “a arquitetura foi o grande livro da humanidade”: nas paredes de Notre Dame até os analfabetos liam a Bíblia. O Partenon em Atenas servia a uma elite para venerar deuses distantes, a catedral feudal era democrática e convidava Deus a habitar conosco: seus vitrais, como uma membrana entre o humano e o divino, iluminavam ricos e pobres, inundando os olhos de todos com a luz imaterial de Cristo. Sem materiais sintéticos, guindastes ou computadores, só com pedras, cinzeis, cordas e compassos, multidões de arquitetos, artesãos, monges e camponeses anônimos ergueram estes castelos de luz entre a terra e o céu que sobreviveram a guerras, incêndios e revoluções. Quando, na era romântica, o homem moderno se cansou de mimetizar as formas greco-romanas, foi na arquitetura gótica que ele buscou reenergizar sua imaginação antes das convulsões criativas modernistas. Mais do que relíquias do passado, as catedrais são faróis de um sonho coletivo, o de unir o efêmero ao eterno; abertas a todos como uma Arca de Noé, elas avançam no tempo, como um navio de pedra que nos leva além, rumo ao matrimônio entre o novo Céu e a nova Terra. Convidados Flavia Galli Tatsch, professora do departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo. Ricardo Marques de Azevedo, professor de História da Arte da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. Tamara Quírico, professora do departamento de História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Referências Gótico (Gothic), de Rolf Toman. O Tempo das Catedrais (Le Temps des cathédrales), de Georges Duby. “O florescimento gótico”” em História da Civilização. Vol. IV. A Idade da Fé (The Story of Civilization), de Will Durant. A História da Arte (The Story of Art), de E.H. Gombrich. Iniciação à História da Arte (A Basic History of Art), de H.W. Janson. “The Central Middle Ages. Architecture and Sculpture”, em Medieval Europe. A Short History, de J.M. Bennett e W.C. Hollister. The Gothic Enterprise. A Guide to Understanding the Medieval Cathedral, de Robert A. Scott. How to Build a Cathedral, documentário da rede BBC. Medieval Architecture e Masons and Sculptors, de Nicola Coldstream. Art – A New History, de Paul Johnson. A World History of Art, de H. Honour e J. Fleming. Arte gótico. Visiones gloriosas, de Michael Camille. Ilustração: Skyline da cidade de Colônia, Alemanha (Pixabay) O post As Catedrais Góticas apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Liberdade de expressão
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Aristóteles definia o ser humano como o “animal que fala” – para o bem e para o mal. Os cristãos chegam a venerar o Verbo de Deus feito carne e acreditam que ele foi, como todos somos, tentado pelo “Pai da Mentira”. As palavras estão na origem de tudo que amamos na civilização, mas também dos crimes mais horrendos, sejam elas proferidas em cavidades da consciência individual ou em maquinações entre comparsas ou para inflamar multidões. É natural que as sociedades esperem de suas autoridades a supressão das falas perversas e a difusão das edificantes. Mas há uns 300 anos alguns pensadores começaram a ventilar uma ideia que, como sugeriu o jornalista Jonathan Rauch, foi talvez a mais eficaz que os seres humanos já tiveram e também a mais contraintuitiva: a de que os governos deveriam não só tolerar falas errôneas, repugnantes, blasfemas ou subversivas, mas protegê-las, porque quando são ouvidas, disputadas e contestadas a céu aberto, nos ajudam a encontrar mais rápido a verdade e aprofundá-la; a nos fortalecer individualmente e a cooperar coletivamente; a tolerar diferenças, desmoralizar preconceitos e galvanizar o pluralismo. A criminalização de discursos ofensivos, longe de dissuadir os intolerantes, viraliza seus rancores, incentiva o autoritarismo e sufoca conversas sadias. A aposta desse liberalismo epistêmico, analogamente à do liberalismo político e do econômico, é que as decisões devem ser distribuídas por redes sociais com um mínimo de autoridade e controle centralizados. Em defesa dessas ideias insólitas, os apologistas liberais lembram que antes só havia autocracias no mundo e 90% das pessoas viviam na extrema pobreza; hoje, metade da população mundial vive em democracias e menos de 10% é miserável. Em meados do século XX, as Nações Unidas consagraram a liberdade de expressão como um direito humano universal, e, no final, a internet surgiu augurando uma era de ouro de manifestações individuais e debates livres de controles hierárquicos. Mas nas mãos de regimes totalitários as redes digitais se transformaram num aparato de repressão e manipulação inimaginável nos sonhos mais selvagens de Hitler ou Stalin. Se nas democracias a censura à imprensa foi desmoralizada, cresce o clamor pela tutela estatal contra discursos preconceituosos; as redes digitais tornaram-se instrumentos de coerção social por vanguardas políticas – sejam populistas de direita disseminando desinformação e teorias conspiratórias, sejam elitistas de esquerda exigindo conformidade aos seus dogmas –; e a liberdade de expressão nunca foi tão ameaçada por aquilo que os primeiros pensadores da democracia mais temiam: a “tirania da maioria”. Convidados Diogo Costa: mestre em ciência política pela Universidade de Columbia e presidente da Foundation for Economic Education. Eduardo Wolf: professor de filosofia da Universidade de Brasília e pesquisador da Cátedra Unesco-Archai sobre as Origens do Pensamento Ocidental. Fernando Schüler: professor de ciência política do Insper e pesquisador da Cátedra Palavra Aberta sobre liberdade de expressão e de imprensa. Referências “O caminho estreito”, artigo para a revista Veja de Fernando Schüler. “Defendam a liberdade de expressão” (“Dickinson College Commencement – Address to Graduates”), discurso de Ian McEwan traduzido pelo Estado da Arte. Liberdade de Expressão (Free Speech. A Very Short Introduction), de Nigel Warburton. Free Speech: A History from Socrates to Social Media, de Jacob Mchangama. Kindly Inquisitors. The new attacks on free thought e The Constitution of Knowledge. A Defense of Truth,de Jonathan Rauch. Free Speech. Ten Principles for a Connected World, de Timothy Garton Ash. Freedom of Speech, de Greg Lukianoff. Dangerous Ideas. A Brief History of Censorship in the West, From the Ancients to Fake News, de Eric Berkowitz. “Freedom of Speech”, verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy. What is Free Speech? The History of a Dangerous Idea, de Fara Dabhoiwala. From Palmer Raids to the Patriot Act. A History of the Fight for Free Speech in America, de Christopher M. Finan. Ilustração: Wikicommons. O post Liberdade de expressão apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Alexandre, o Grande
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts O que você conquistou aos 30 anos? O filho de Felipe da Macedônia estudou com o maior filósofo de seu tempo – talvez de todos os tempos –; unificou as cidades-estado gregas após séculos de disputas fratricidas; viajou mais de 30 mil quilômetros na aventura possivelmente mais audaciosa da história humana; fundou 70 cidades; elevou-se ao Olimpo dos maiores generais de todos os tempos, como César, Gengis Khan ou Napoleão, mas, diferentemente deles, lutava na linha de frente e jamais perdeu uma batalha; conquistou o mais poderoso império de seu tempo e criou o maior império que a humanidade já vira, estendendo-se dos Balcãs até a Índia; Alexandre até se tornou um deus. Caracterizá-lo, como fizeram alguns modernos, como um “príncipe da paz” idealizador dos direitos humanos universais e da comunidade das nações unidas é abusar do romantismo ao ponto do delírio. Alexandre, o grande herói, foi também um grande criminoso, que escravizou compatriotas, incinerou cidades, exterminou populações, assassinou amigos por despeito – e, há quem diga, até seu pai por ganância. Aos 32 anos, parecia-se cada vez mais com um déspota oriental cheio de caprichos cruéis e autodestrutivos. A morte prematura, por alguma moléstia ordinária potencializada pelo abuso do álcool, talvez tenha sido uma benção que lhe poupou fracassos e infâmia. E, talvez, por justiça poética, o preço de sua ambição desmedida tenha sido a dissolução instantânea de seu império. Dizem que Alexandre chorou ao pensar nos mundos que nunca conquistaria. Mas seu legado ignora fronteiras de tempo e espaço. Seu sonho de fundir num império multicultural e multilinguístico as duas superpotências de seu tempo, a Grécia, no Ocidente, e a Pérsia, no Oriente, foi tão improvável e espetacular quanto fundir os Estados Unidos à União Soviética nos tempos da Guerra Fria ou à China hoje. Como a carreira intelectual de seu mestre Aristóteles, sua carreira militar foi feita de conquistas e sínteses. As conquistas territoriais que ele consumou criaram o espaço para o Império Romano; e as sínteses espirituais que ele inaugurou gestaram o tempo da Cristandade. Convidados Delfim Leão: professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra. Henrique Modanez: professor de história antiga da Universidade de Brasília. Thiago Biazotto: pesquisador de pós-doutorado em história helenística da Universidade Estadual de Campinas. Referências Os Heróis. De Alexandre o Grande e Júlio Cesar a Churchill e João Paulo II (Heroes), Paul Johnson. “Alexandre, o Grande”, em História da Civilização. Vol. II. A Vida na Grécia (The Story of Civilization), de Will Durant. Alexandre, o Grande (Alexander the Great), de T.R. Martin e C.W. Blackwell. A Extraordinária História de Alexandre o Grande (Alexander the Great), de Nigel Rogers. Alexandre, o Grande e o período helenístico (Alexander the Great), de Peter Green. Alexandre, o Grande (Geschichte Alexanders des Grossen), de Johann Gustav Droysen. Alexandre o Grande (Alexandre le Grand), de Pierre Briant. “Alexandre, o Grande”, episódio do podcast História em Meia Hora. “Alexander the Great”, episódio do programa In Our Time, da Radio BBC 4. “Alexander the Great”, episódio do podcast The Rest Is History. “Alexander the Great”, episódio do podcast How To Take Over the World. Ilustração: Estátua e busto de Alexandre, o Grande, no Museu Arqueológico de Istambul. O post Alexandre, o Grande apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Bizâncio – O Império Romano do Oriente
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o Império Romano morreu? Se você pensou no século Vº, errou por mil anos. É compreensível. O Império Romano do Oriente é praticamente terra incognita nos currículos escolares, pesquisas acadêmicas, mercados editoriais e estúdios cinematográficos. Mesmo admiradores de Roma desdenham essa saga milenar como “uma história monótona de intrigas de padres, eunucos e mulheres, de constante envenenamento, conspirações, ingratidão e fratricídio” (William H. Lecky). Para iluministas como Edward Gibbon, foi o “triunfo da barbárie e da religião”; “uma coleção inútil de orações e milagres”, segundo Voltaire; “um tecido de rebeliões, insurreições e traições”, “o trágico epílogo da história de Roma”, segundo Montesquieu. Não surpreende que na consciência popular o adjetivo “bizantino” reverbere obscurantismo, futilidade, cerimonialismo, e particularmente querelas labirínticas, bizarras, extravagantes, sinistras. Em suma, a traição do que havia de melhor na Grécia e na Roma clássicas. Mas, francamente, isso exala na melhor das hipóteses paroquialismo, na pior, ingratidão. Por séculos, Bizâncio foi um escudo da Cristandade contra hordas asiáticas, vândalos africanos, os xás da Pérsia e os califas de Bagdá – sem ele a “Europa” não existiria e provavelmente nós ocidentais estaríamos de joelhos para Alá cinco vezes ao dia. Enquanto o império romano ocidental era despedaçado por tribos bárbaras, Bizâncio consagrou-se como o maior poder do Mediterrâneo, e Constantinopla, a metrópole mais cosmopolita e exuberante da Idade Média. Foi sobre o corpo de Bizâncio que os turcos otomanos ergueram seu império, reconfigurando o universo islâmico até os nossos dias. Foi o espírito de Bizâncio que civilizou os Balcãs, animou o embrião da Rússia e inspira até hoje a visão messiânica de Moscou como a “Terceira Roma”. Duas vezes mais longevo que o império romano clássico, foi Bizâncio que realizou o sonho arcano de Alexandre o Grande. Fundindo a cultura helênica, a administração romana, a mística asiática e a fé cristã, Bizâncio preservou as letras gregas, arquitetou a teologia ortodoxa, criou a arte sacra mais carregada de espiritualidade de todos os tempos e cimentou os códigos que alicerçam nossos sistemas jurídicos. A maioria das civilizações vive um ciclo de aurora, apogeu e crepúsculo, mas, provando seu vigor e flexibilidade, Bizâncio viveu pelo menos dois. E quando finalmente morreu, seu espírito insuflou o Renascimento na Itália, inaugurando a aventura moderna. Tão fascinante, tão incompreendida, tão distante de nós e tão inusitadamente como nós, qual será a verdadeira história desta ponte de ouro entre a antiguidade e a modernidade, entre o Oriente e o Ocidente? Convidados Bruno Tadeu Salles: professor de história medieval da Universidade Federal de Ouro Preto. Renato Viana Boy: professor de história medieval da Universidade Federal da Fronteira do Sul. Referências “O zênite bizantino” em História da Civilização. Vol. IV. A Idade da Fé (The Story of Civilization), de Will Durant. O Império Bizantino, de Hilário Franco Jr. e Rui de Oliveira Andrade Filho. “Império Bizantino” – Episódio do podcast História FM. “Império Bizantino” – Episódio do podcast História em Meia Hora. Byzantium. The Surprising Life of a Medieval Empire, de Judith Herrin. The Oxford Handbook of Byzantine Studies, ed. por E. Jeffreys, J. Haldon e R. Cormack. The Byzantine Achievement. An Historical Perspective, de Robert Byron. The Byzantine Empire, de Robert Browning. Medieval Europe. A Short History, de J.M. Bennett e W.C. Hollister. The History of Byzantium, podcast com dezenas de episódios. “Byzantium – Last of Romans” – episódio do podcast Fall of Civilizations. “Byzantium”, entrevista com Charlotte Roueché, John Julius Norwich e Liz James para o programa In Our Time da Radio BBC 4. A History of Byzantium, de Timothy E. Gregory. The Lost World of Byzantium, de Jonathan Harris. A Short History of Byzantium, de John J. Norwich. Byzantine Christianity. A Very Brief History, de Averil Cameron. A History of the Byzantine empire, de A.A. Vasilev. The Byzantine Empire, de Sir Charles W.C. Oman. A History of the Byzantine State and Society, de Warren Treadgold. “Byzantium and the Ghosts of Rome”; “Theodora: Empress of Byzantium”; “Justinian: Making Rome Great Again”; “Justinian & Theodora”, do podcast The Rest Is History. Hispania y Bizancio: una relación desconocida, de Margarita Vallejo Girvés. Guerra Santa: formação da ideia de cruzada no Ocidente, de Jean Flori. As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf. Ilustração: Capela Palatina (1132-1143), no Palácio Real de Palermo, na Sicília, encomendada pelo rei normando Rogério II. (Fonte: SmartHistory. Foto de A. Fein). O post Bizâncio – O Império Romano do Oriente apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Moisés
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts A vida pode ser dura. Imagine que você é um órfão adotado pelos opressores de seu povo, perseguido pelos poderosos, refugiado entre seminômades. Você tem um temperamento instável, ora colérico ao ponto da selvageria, ora hesitante ao ponto da covardia, e, ah, sim, tem a língua presa. Já velho, você é forçado a contragosto a retornar e conduzir por um caminho árido um povo que vê você e sua família como estrangeiros e está sempre se rebelando, rumo a uma terra na qual será proibido de pôr os pés. O que é você senão uma pecinha insignificante na engrenagem do mundo, uma gota no imenso rio da história? E, no entanto, como disse um historiador, Moisés “ilustra o fato, que grandes historiadores sempre reconheceram, de que a humanidade não progride invariavelmente por passos imperceptíveis, mas às vezes dá um salto gigante, frequentemente sob a propulsão dinâmica de uma personalidade solitária e extraordinária”. Seu monoteísmo ético desencadeou o processo pelo qual toda a visão de mundo da antiguidade foi destruída. Moisés não foi um dos muitos heróis e reis do mundo antigo, muito menos um semideus ou deus. Ele foi menos do que tudo isso, mas em certo sentido foi mais, assim como foi menos e mais que um profeta, um legislador, um libertador, um fundador espiritual. Há algo de profeta em Moisés, mas aquele que consumou a aliança entre Deus e seu povo não foi só mais um dos infindáveis mensageiros dessa aliança. Há algo de legislador, mas não como um mero codificador de regras e regulamentos e sim como enunciador de leis eternas. Há algo de historiador naquele que não escreveu a Torah, mas contou estórias consagradas nela e mudou a história da humanidade. Ele foi um libertador, não como um Garibaldi israelita, mas como alguém que libertou seu povo da submissão ao Faraó para submetê-lo a Yaweh. Foi um fundador espiritual, mas não fundou uma religião, só liderou um povo que é minúsculo até hoje, e ao fazê-lo lançou os fundamentos das duas religiões mais populares de todos os tempos. Abraão foi o pai do povo judeu, mas Moisés foi seu criador. A história do Genesis é a do nascimento de uma família; a história do Êxodo, a do nascimento de uma nação. Na primeira, Deus reserva para si o sangue de um povo, na segunda, sopra através desse povo seu espírito no mundo. Hoje, não só os judeus, mas cristãos e muçulmanos adoram o Deus revelado por Moisés. Para quase 60% da população mundial sua lei é sagrada, e, com exceção do extremo Oriente, sua fé é predominante em todas as regiões do planeta. Convidados Carlos Augusto Vailatti: professor da Faculdade Evangélica de São Paulo e autor de As Dez Pragas e a Abertura do Mar. Ruben Sternschein: reitor da Academia Judaica da Congregação Israelita de São Paulo. Suzana Chwarts: diretora do Centro de Estudos Judaicos da Universidade de São Paulo. Referências “Israelitas” em História dos Judeus, de Paul Johnson. “Moisés e a Partida do Egito”, em História das Crenças e das Ideias Religiosas. V. I. (A History of Religious Ideas), de Mircea Eliade. Israel, Das Origens até Meados do Século VII a.C., de Adolph Lods. “Judeia”, em História da Civilização. Vol. I. Nossa Herança Oriental (The Story of Civilization), de Will Durant. Ordem e História. Vol. I. Israel e a Revelação (Order & History), de Eric Voegelin. Moses, de Gerhard von Rad. Moses. The Revelation and the Covenant, de Martin Buber. Moses. A life, de Jonathan Kirsch. “The Pentateuch and Israelite Law”, em The Cambridge Companion to The Hebrew Bible, ed. por S.B. Chapman e M.A. Sweeney. “Moses & The Exodus”, episódio do podcast The Ancients. The Encyclopedia of World Religions, org. R.S. Ellwood e G.D. Alles. Britannica Encyclopedia of World Religions, org. W. Doniger. Ilustração: Moisés. San Pietro in Vincoli, Roma. De Michelangelo Buonarroti (c. 1513-15). O post Moisés apareceu primeiro em Estado da Arte.
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As invasões bárbaras
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o visigodo Alarico saqueou Roma 66 anos antes da queda de seu último imperador, Romulus Augustus – nome composto ironicamente pelos do primeiro imperador e do fundador de Roma –, São Jerônimo lamentou “a extinção da luz mais resplandecente de toda a Terra”, quando “o Império perdeu sua cabeça” e “o mundo pereceu em uma cidade”. Um século antes, Lactâncio afirmava que o mundo pode acabar rápido, mas não há nada a temer enquanto a cidade de Roma permanecer intacta. Desde então, as invasões bárbaras viraram o arquétipo da brutalização da vida civilizada, o “Declínio e Queda do Império”, na fórmula proverbial de Gibbon. Porém, como ele descreveu, o Império só caiu 1.000 anos depois em Constantinopla. Das letras e dos letrados resgatados de lá, a Itália concebeu o Renascimento, dando à luz a modernidade, em que o espírito de Roma inspiraria desde as artes clássicas às políticas republicanas, e hoje, como sempre, multidões de católicos são lideradas Urbi et Orbi pelo bispo da Cidade Eterna. Para os iluministas inebriados de classicismo, a sua queda foi o mergulho na “Idade das Trevas”. Mas não seria a Idade Média uma idade de luz? A engenhosidade arquitetônica de suas catedrais góticas é mais fulgurante que qualquer maquinação romana para copiar os gregos; seus cavaleiros se bateriam aos maiores centuriões; seus escolásticos inventaram a universidade; seus poetas, o romance, e, do menor deles, surgiu talvez o mais são dos santos, Francisco. O Sacro Império Romano-Germânico, gestado numa noite de Natal pelo papa na basílica de São Pedro com a coroação do rei franco Carlos Magno, imperou mil anos até ser esmagado sob a bota do imperador francês Napoleão. As Letras latinas são belas, bárbaras, mas sua língua morta só frutifica barbarizada em pedaços nas nossas línguas românicas. Não é à República romana que a Inglaterra tributa seu parlamentarismo democrático e sua monarquia constitucional, mas às ligas tribais de celtas, anglos, saxões, bretões, normandos. A consciência e a arte germânicas são povoadas dessas bestas loiras que Nietzsche amava: Thor, Siegfried, Artur, Parsifal, Tristão, Isolda. Para Hegel, esse povo consumava a apoteose do Espírito Divino, inaugurando o império da verdade e da liberdade para o Universo. As igrejas protestantes, as nações e Estados europeus, nosso Novo Mundo americano – além dos eslavos, a Rússia, sua revolução, sua literatura, sua religião ortodoxa herdada do Império romano dos gregos em Bizâncio junto com o mito messiânico da Terceira Roma –, nada existiria como conhecemos não fossem os bárbaros. Nem só legiões de Conans, vândalos e valquírias, nem cosmopolitas nórdicos, eram muitas vezes tribos civilizadas fugindo de tribos bestiais, ora abatendo Roma, ora se abrigando nela, ora combatendo seus invasores. O que conquistaram afinal? A morte de uma esplêndida civilização carcomida? Sua ressurreição pela barbárie? E o que revelam em nosso tempo de “invasões verticais dos bárbaros” e “tribos globais” e rebeliões das massas de imigrantes e refugiados – como o foram, aliás, os pais de Roma, bastardos selvagens como Rômulo e Remo e hordas asiáticas como os troianos de Eneias, o piedoso? Convidados Adrien Bayard: doutor em História Medieval pela Universidade de Sorbonne em Paris. Marcelo Cândido: professor de História Medieval na Universidade de São Paulo Renato Viana Boy: professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal da Fronteira do Sul. Referências The Early Slavs: Culture and Society in Early Medieval Eastern Europe de Paul Barford. Myth of Nations. The Medieval Origins of Europe de Patrick Geary. La Formation de l’Europe et les invasions barbares, vol. I : Des origines germaniques à l’avènement de Dioclétien de Émilienne Demougeot. Die Goten de Wolfgang Giese. The New Cambridge Medieval History, Vol. 1: c. 500 – c. 700 ed. por Paul Fouracre. Barbarian Migrations and the Roman West, 376–568 de Guy Halsall. Rome’s Gothic Wars: from the third century to Alaric de Michael Kulikowski. Barbarian Tides: The Migration Age and the Later Roman Empire de Walter A. Goffart. Die Ursprünge Europas. Migration und Integration im frühen Mittelalter de Verena Postel. Romans and Barbarians de Edward A. Thompson. Les Invasions barbares de Pierre Riché et Philippe Le Maître. Medieval Europe – A Short History de Judith M. Bennett e C. Warren Hollister Ilustração: A Batalha de Ludovisi. Sarcófago romano (c. 250-260 d.C.) Produção técnica: Afrânio Cruz. Gravação original 22 de outubro de 2018 O post As invasões bárbaras apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Estoicismo
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Algumas escolas filosóficas gregas exprimiram recortes tão profundos da existência humana que em nossos dias se generalizaram em adjetivos. Quando dizemos que um sujeito é “cínico” ou “cético” esquecemos que estas são reduções simplistas de doutrinas complexas fermentadas em longas tradições. “Estoico” é popularmente um sujeito rígido no cumprimento do dever e imperturbável na desgraça. Há alguma verdade nisso, mas é só a superfície de um universo de ideias. Como todos os descendentes de Sócrates, os estoicos buscaram obstinadamente responder uma única questão necessária: como viver uma vida digna de ser vivida? A resposta cética levava a um quietismo paralisante; a cínica, ao desprezo pela sociedade; a epicurista, ao individualismo hedonista, e nenhuma era compatível com o autocontrole e os sacrifícios necessários à vida coletiva. As religiões ancestrais já não cumpriam essa função; as velhas cidades-estado já não elevavam o ser humano à abnegação. Os gregos educados buscaram os consolos para as crises da vida na filosofia e pediram a ela uma visão de mundo que desse sentido à existência e uma esperança além da morte. O estoicismo foi a última tentativa da antiguidade de encontrar uma ética natural, e antecipando não só a ética, mas a teologia do cristianismo, os estoicos conceberam o mundo, a lei, a vida, a alma e o destino em termos de Deus, e definiram a moralidade como um desejo de se render à vontade divina. “Viver de acordo com a razão”, “viver de acordo com a virtude”, “viver de acordo com a Natureza” e “viver de acordo com Deus” são uma só e mesma coisa. Deus é, como o ser humano, uma matéria viva; o mundo é seu corpo, a ordem e a lei do mundo são sua mente e sua vontade; o universo é um organismo colossal do qual Deus é a alma, o sopro que anima, a razão que ilumina. O ser humano é para o universo como um microcosmo para um macrocosmo. A felicidade é só o ajuste racional de nossas vontades às leis do universo. O estoico se satisfaz com pouco, aceita sem reclamar as agruras da vida, é indiferente a tudo – a doença e ao prazer; ao opróbrio e à fama; à liberdade e à servidão; à vida e à morte – exceto à busca pela virtude e à aversão ao vício. Em tese, era uma doutrina monstruosa de uma perfeição isolada, severa, prepotente e implacável. Na prática, forjou homens de coragem, santidade e boa vontade. Foi a filosofia mais popular do mundo antigo, e a mais versátil, encarnando-se em figuras tão díspares como, na Grécia, o fundador Zenão, um semi-semita rico que trocou a fortuna pela simplicidade, ou o pugilista asiático Cleantes; e, em Roma, o estadista Catão; o escritor Sêneca; o escravo Epicteto; ou o imperador Marco Aurélio. Os estoicos fizeram um esforço honesto para erguer uma ponte entre a religião e a filosofia; sua doutrina manteve a sociedade antiga íntegra até que uma nova fé viesse animá-la. Após a Idade Média, influenciaria o cristianismo protestante, especialmente calvinistas e o puritanos, mas também os iluministas, e de todas as escolas antigas, é em nossos dias, mesmo quando no anonimato, a mais influente, seja qualificando manuais de autoajuda, seja instruindo técnicas psicoterapêuticas, e não há por que duvidar que seres humanos de todos os tipos, em todo o mundo, continuarão a buscar no estoicismo a disciplina e a inspiração para viver a vida digna de ser vivida, até o final dos tempos. Convidados Aldo Dinucci: professor de filosofia antiga da Universidade Federal do Espírito Santo. Eduardo Wolf: professor de filosofia antiga da Universidade de Brasília. Renata Cazarini: professora de letras clássicas da Universidade Federal Fluminense. Referências Manual de Estoicismo, de Aldo Dinucci. Estoicismo, Ceticismo e Ecletismo. História da Filosofia Grega e Romana Vol. VI (Storia dela Filosofia Greca e Romana), de Giovanni Reale. A Vida Estoica (The Stoic Life), de Tad Brennan. Estoicismo (Stoicism), de John Sellars. O Estoicismo (Stoicism), de George Stock. “O compromisso estoico”, em História da Civilização. Vol. II. A Vida na Grécia (The Story of Civilization), de Will Durant. “Stoicismo” e outros verbetes na Enciclopedia Filosofica Bompiani. “Stoicism” e outros verbetes na Stanford Encyclopedia of Philosophy. “Stoicism”, entrevista com Angie Hobbs, Jonathan Rée e David Sedley para o programa In Our Time da Radio BBC 4. “Stoic Ethics”, de Brad Inwood, em The Cambridge History of Hellenistic Philosophy, ed. por K. Algra, J. Barnes et. al. The Cambridge Companion to The Stoics, ed. Brad Inwood Handbook of Greek Philosophy: From Thales to the Stoics. Analysis and Fragments, de Nikolaos Bakalis. A New Stoicism, de Lawrence C. Becker The mutual influence of Christianity and the Stoic school, de James Henry Bryant. Stoic Studies, de A.A. Long. Stoicism: Traditions and Transformations de Steven Strange. The Stoics, Epicureans and Sceptics, de Oswald J. Reichel. Ilustração: Self made man. Escultura de Bobbie Carlyle. Douglas County Library (Parker, Colorado, EUA). Foto (em preto e branco) de Joel A. Rogers (www.coastergallery.com). O post Estoicismo apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Conquista da América
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Há 100 milhões de anos, uma massa de terra hoje batizada América se desprendeu do supercontinente conhecido como Pangea. Há 40 mil anos, humanos pioneiros na Sibéria cruzaram uma ponte de terra até o Alasca. Depois disso, o continente desapareceu para o resto do mundo. Então, em 1492, um almirante genovês – valendo-se da bússola inventada na China, de conceitos matemáticos do Egito, um sistema numérico da Índia e cálculos astronômicos árabes redigidos com letras romanas – lançou-se no Atlântico à frente de três caravelas espanholas em busca de especiarias da Ásia, e fez a descoberta que seria o evento mais importante da história mundial no último milênio. Inadvertidamente, Colombo reuniu a humanidade e inaugurou a “aldeia global”. Das colisões, convergências e misturas de três povos – indígenas, europeus e africanos – nasceu um Novo Mundo, que deu ao Velho Mundo frutos preciosos, a começar pelo sentido literal: você consegue imaginar a culinária universal sem o tomate, a batata, o milho ou o chocolate? Acrescente a esta cesta o tabaco e a borracha. Mas as dores do parto foram terríveis. Em 300 anos, 15 milhões de africanos foram arrancados de seu continente, na maior imigração forçada da história mundial. Os conquistadores trouxeram não só os dons culturais e materiais da Europa, África e Ásia, mas também seus germes e armas. Entre 80% a 90% dos nativos foram dizimados, a esmagadora maioria por pestes como sarampo, catapora, tifo e difteria, mas muitos pelo aço europeu. A conquista militar dos impérios e terras dos indígenas foi consumada por uns poucos milhares de europeus em algumas dezenas de anos, mas a conquista dos corações e mentes jamais seria completada. Os colonizadores criaram novas nações com os sistemas políticos, legais e linguísticos europeus, mas nas regiões onde grandes populações indígenas persistiram e grandes números de escravos foram importados emergiram sociedades ocidentais na superfície e não-ocidentais no fundo. Onde estará a verdade entre a narrativa triunfalista dos europeus trazendo a civilização aos selvagens e a narrativa vitimista dos opressores perversos brutalizando oprimidos inocentes? Quais as grandes virtudes e vicissitudes das heranças coloniais para a América Latina e a América Anglo-saxã? E como as primeiras podem ser potencializadas e as segundas superadas para consumar a fusão dos três povos e integrar suas nações em um mundo genuinamente novo, justo e próspero? Convidados Janice Theodoro: Professora de história da América da Universidade de São Paulo. Leandro Karnal: Professor de história cultural da Universidade Estadual de Campinas. Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: Professor de história da América da Universidade Estadual de Campinas. Referências América Barroca: tema e variações, de Janice Theodoro. Teatro da Fé, de Leandro Karnal. As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750), ed. por J. Cañizares-Esguerra, L.E.O. Fernandes e M.C.B. Martins. A Conquista da América: a questão do outro (La Conquête de l’Amérique), de Tzvetan Todorov. Sete Mitos da Conquista Espanhola (Seven myths of the Spanish Conquest), de Matthew Restall. A Era das Conquistas: América Espanhola, sécs. XVI e XVII, de R. Raminelli. The Cambridge History of Latin America. Colonial Latin America. Volumes I e II., ed. por L. Bethell. Conquest of Americas, de Marshall C. Eakin. Audiolivro para a série Great Courses. The Age of Reconnaissance. Discovery, Exploitation and Settlement. 1450-1650, de J.H. Parry. Atlantic History. Concept and Contours, de Bernard Bailyn. The Atlantic World: a History, de D.R. Egerton, A. Games, J.G. Landers et al. Discovery of the Americas. 1492-1800, de Tom Smith. Colonial America. A Very Short Introduction, de Alan Taylor. The Great Explorers. The European Discovery of America, de S.E. Morison. “Conquistas – História da Historiografia”, debate com S. Rinke, E.N. dos Santos e R. Raminelli. “A Conquista Espiritual: a Igreja Católica e os indígenas nas colônias americanas” e “A Conquista do México e suas interpretações“, episódios do Podcast Hora Americana sobre a história das Américas. “The Maya Civilization”, “The Aztecs”, “The Inca”, entrevistas para o programa In Our Time da Radio BBC 4. Hernán, série documental na Amazon Prime. Ilustração: Chegada de Hernán Cortés em Vera Cruz. Detalhe do mural “A Epopeia do Povo Mexicano”, no Palácio Nacional, Cidade do México. De Diego Rivera, 1929-35. (Wikimedia Commons). O post A Conquista da América apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Transtorno bipolar
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Imagine que você está tendo um dia bom. Um dia ótimo, na verdade! Cada ideia que vem à cabeça – e elas jorram! – é excitante. Cada fala é inspiradora. Pessoas medíocres te irritam. Mas você cativa todo mundo com sua vivacidade. Você se sente energético, desinibido, confiante, otimista. Nenhum erro é incorrigível, nenhum obstáculo é invencível. O futuro é luminoso. Você pode mover corações e mudar o mundo. Talvez seja um visionário, um reformador, um gênio, um profeta enviado por Deus. Quem sabe o próprio Deus! Ou, talvez, seja só um lunático… Não foi um dia, foram vários, muitos sem dormir. Você está numa cama de hospital, perdeu o emprego, está afundado em dívidas, os amigos estão afastados, a família, assustada. Mas talvez esse tipo de euforia seja alheia e distante. Você está mais familiarizado com achaques de melancolia. Eles vêm sem nenhum motivo aparente, mas você sabe que têm razão de ser. Entre a apatia e a agitação, você tem poucas ambições e as poucas que tem sabe que são irrealizáveis. Você tem algum defeito inexplicável para as pessoas; é um estorvo para as mais próximas; se constrange em encontros sociais – melhor evitá-los. Nada acontece como deveria, e tudo por culpa sua. O passado é uma sucessão de erros irreversíveis e oportunidades desperdiçadas; o presente é doloroso; o futuro, opressivo. Sua vida é um fracasso, e sempre será. A angústia jamais passará, a menos que você corte o mal pela raiz. O único alívio é a morte. Imagine agora oscilar perpetuamente entre os dois extremos, às vezes lançado de um ao outro no mesmo dia, às vezes até vivenciando ambos ao mesmo tempo. Como disse um maníaco-depressivo: “É ter a motivação de mudar o mundo num momento, e depois não ter a motivação para tomar banho”. Estima-se que o transtorno bipolar afete de 1% até 4% das pessoas. A mania pode pôr a sua vida e a de outros em perigo. A depressão é a principal causa de incapacitação e suicídio. Por volta de 30% a 40% das pessoas com esse distúrbio se ferem a si mesmas, e a mesma proporção tem comportamentos autodestrutivos e problemas financeiros, sociais ou profissionais, agravados por estigmas e preconceitos. Quais as causas do transtorno bipolar? Como tratá-lo? Quais as esperanças de uma cura? Convidados Beny Lafer: professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo. Flávio Kapczinski: professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Valentim Gentil Filho: professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo. Referências Transtorno Bipolar: Teoria e Clínica, ed. por F. Kapczinski e J. Quevedo. Uma Mente Inquieta (An Unquiet Mind. A memoir of moods and madness) de Kay Redfield Jamison. Aprendendo a Viver com o Transtorno Bipolar, ed. por R.A. Moreno, D.H. Moreno et al., e Depressão e Transtorno Bipolar, de R.A. Moreno e D. Freitas. The Science & Treatment of Bipolar Disorder, podcast da Plataforma Huberman Lab. Concise Texbook of Clinical Psychiatry, ed. Por J.A. Grebb e C.S. Pataki. Shorter Oxford Texbook of Psychiatry, ed. por P. Harrison e P. Cowen. Clinician’s Guide to Bipolar Disorder. Integrating Pharmacology and Psychoterapy, de D.J. Miklowitz e M.J. Gitlin. Manic-Depressive Illness. Bipolar Disorders and Recurrent Depression, de F.K. Goodwin e K.R. Jamison. The Bipolar Disorder Survival Guide, de D.J. Miklowitz. 100 Questions and Answers about Bipolar (Manic-Depressive) Disorder, de A.T. Albrecht e C. Herrick. Cognitive-Behavioral Therapy for Bipolar Disorder, de M.R. Basco e A.J. Rush. Being Bipolar. Living with manic-depressive disorder, de C.M.C Carballo. Ilustração: Máscaras de comédia e tragédia (Fonte: OnBlogStage) O post Transtorno bipolar apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Goethe
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Você já imaginou como seria viver a vida de um grande artista? E de um grande estadista ou um grande pensador? E que tal tudo isso numa única vida? O ideal do “homem universal” foi consagrado no Renascimento, mas é plausivelmente tão antigo quanto a humanidade. É curioso, contudo, que dentre todos os bilhões e bilhões de seres humanos que já existiram haja tão raros candidatos a este título. Platão foi o patriarca dos filósofos e um escritor de talento, mas um político frustrado que expulsou os poetas de sua República ideal. Pascal, um grande cientista, filósofo e teólogo, mas demasiado atormentado e recluso. Mesmo o ícone Leonardo da Vinci foi um pintor extraordinário, mas produziu pouco nas outras artes. Suas invenções são sonhos irrealizáveis e não deixou nada digno de nota na filosofia. Johann Wolfgang von Goethe também tinha suas limitações. Ele desconfiava das abstrações da filosofia. Foi administrador público – mas de um ducado menor. Um cientista dedicado – mas mais inspiracional que efetivo. Um pintor amador, um historiador diletante, um diplomata de ocasião. Mas de todos os “homens universais” foi o maior dos poetas. Primeiro escritor alemão de estatura inquestionável e o mais celebrado desde então, talvez nenhum outro em todos os tempos e lugares tenha o seu alcance e variedade. Ele produziu obras primas em praticamente todos os gêneros: poesia lírica, épica, dramática, erótica, romances, autobiografia, aforismos, ensaios, crônica, crítica literária e artística. Ele é para o Iluminismo o que Shakespeare foi para o Renascimento e Dante para a Idade Média. Seu Fausto, foi o maior poema longo desde a Divina Comédia e o Paraíso Perdido de Milton, e o drama mais emblemático da era moderna. Sua vida coincidiu com o período mais excitante e criativo desde o Renascimento. Ele atravessou da Revolução Francesa às guerras napoleônicas até a eclosão da burguesia industrial e das democracias liberais. Usando sua experiência e criatividade, radiografou estas metamorfoses e fascinou os maiores artistas, estadistas e filósofos. “Eis um homem!” exclamou Napoleão aos seus oficiais. Para Marcel Proust, é “a maior inteligência que já existiu”. Para Stefan Zweig, “o mais sábio dos sábios”. “Minha ambição, meu tormento e minha alegria”, disse Nietzsche, era “viajar por toda a circunferência da alma moderna e ter sentado em todos os cantos … Verdadeiramente superar o pessimismo, e, como resultado, adquirir os olhos de Goethe – cheios de amor e boa vontade”. Em Goethe, o ideal do homem universal atingiu seu auge e seu fim. Mas ele deixa a cada um de nós uma provocação que reverberará pelos séculos: você pode viver a vida como uma obra de arte? Convidados Daniel Martineschen: professor de língua e literatura alemã da Universidade Federal de Santa Catarina e tradutor do Divã ocidento-oriental de Goethe. Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Goethe do Brasil. Sylk Schneider: curador, tradutor, intérprete e autor de Viagem de Goethe ao Brasil. Referências A dupla noite das tílias: história e natureza no Fausto de Goethe, de Marcus Mazzari. Viagem de Goethe ao Brasil, de Sylk Schneider. Divã Ocidento-Oriental (West–östlicher Divan), introdução, tradução e notas por Daniel Martineschen. Ensaios Reunidos: Escritos sobre Goethe, de Walter Benjamin. Goethe e seu Tempo (Goethe und seine Zeit), de György Lukács. Deus e o Diabo no Fausto de Goethe, de Haroldo de Campos. Dinheiro e Magia. Uma crítica da economia moderna à luz do Fausto de Goethe (Geld und Magie), de Hans Christoph Binswanger. The Cambridge Companion to Goethe, ed. Por Lesley Sharpe. Goethe. Life as a work of art, de Rüdiger Safranski. Goethe: A Very Short Introduction, de Ritchie Robertson. De Leibnitz a Goethe, de Wilhelm Dilthey. Goethe, Kant and Hegel, de Walter Kaufmann. Reading Goethe. A critical introduction to the literary work, de M. Swales e E. Swales. Rousseau, Kant, Goethe, de Ernst Cassirer. Tres poetas filosofos. Lucrécio, Dante, Goethe, de George Santayana. Goethe. The Poet and the Age, de Nicholas Boyle. Goethe. His Life and Times, de Richard Friedenthal. Der Briefschreiber Goethe, de Albrecht Schöne. Michael Jaeger: Wanderers Verstummen, Goethes Schweigen, Fausts Tragödie. Oder: Die grosse Transformation der Welt, de Michael Jaeger. Mit einer Art von Wut – Goethe in der Revolution, de Gustav Seibt. Goethe-Lexikon, ed. por Gero von Wilpert. Goethes Faust. Erster und Zweiter Teil. Grundlagen. Werk. Wirkung, de Jochen Schmidt. Ilustração: Goethe em Weimar, aos 30 anos. Por Georg Melchior Kraus (1778, Wikimedia Commons). O post Goethe apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Super-heróis
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Imagine guerreiros descendo do céu, combatendo monstros e vilões com poderes sobrenaturais e armas mágicas, salvando comunidades inteiras da destruição. Por inacreditável que pareça, essa foi a realidade para a esmagadora maioria da humanidade, desde a época dos deuses e titãs das aventuras de Hércules, Gilgamesh, Sansão ou Homero, até a dos arcanjos, demônios e cavaleiros da Cristandade. Hoje, tudo isso foi relegado ao universo dos super-heróis, um mundo que pessoas sofisticadas menosprezam como um passatempo vulgar e infantil. Mas pense bem. Se nossa sociedade industrializada e desencantada já não é movida pela fé ou pela honra, mas pelo dinheiro, esses paladinos atléticos com uniformes colantes, codinomes emblemáticos, máscaras e capas coloridas não estão para brincadeira. Surgidos na Grande Depressão econômica, hoje os super-heróis energizam uma indústria mamute, uma usina de bilhões e bilhões de dólares em filmes, videogames, merchandise, desenhos animados, brinquedos, parques, feiras e, sim, revistas em quadrinhos. Por sinal, um único quadrinho amplificado por artistas como Roy Lichtenstein ou Andy Warhol pode ser objeto de culto e peregrinação em museus. Na sétima arte, os super-heróis já mesmerizaram diretores reputados como Christopher Nolan, e um vilão como o Coringa já consagrou ao menos um filme cult. Considere o valor inestimável (ainda que subestimado) desse universo para os estudiosos do fenômeno humano: sociólogos, psicólogos, filósofos, teólogos até. Suas explosões de cores, testosterona e acrobacias são o primeiro choque das crianças com a criação artística, e o canal que as introduz nos dramas do mundo adulto: os conflitos morais, a perversão do poder, a paixão do mal que vibra em nós através dos vilões que amamos odiar. É um espelho ampliado das esperanças mais espetaculares das massas contemporâneas, e de suas ansiedades mais aterrorizantes: da criminalidade urbana às hecatombes nucleares; da manipulação genética à Super Inteligência Artificial. Com suas aventuras intergalácticas, viagens no tempo, multiversos, ressurreições, civilizações alienígenas, as epopeias dos super-heróis extravasam os sonhos mais fabulosos das ciências. Fundindo palavras e imagens, literatura e pintura, seus criadores, armados só com tinta, papel e caneta, conseguiram satisfazer as ambições de artistas eruditos, como Richard Wagner, de criar uma “obra de arte total” e uma “mitologia moderna”, a um tempo mais popular e mais arrojada. Talvez os super-heróis sejam não só os maiores depositários da nossa nostalgia pelo combate puro e brutal do bem contra o mal, que muitos apaziguam idealizando heróis do passado – de guerreiros aristocratas, como samurais e cavaleiros medievais, a vingadores solitários, como ninjas e cowboys –, mas também a chave para a humanidade do terceiro milênio, a antecipação visionária de supercorpos servidos por supertecnologias. Quando se olha as promessas comprimidas no universo dos super-heróis, quase se é tentado a parafrasear o Evangelho: se não vos tornardes como crianças, não entrareis no reino do futuro. Convidados André Cáceres: jornalista, crítico, editor e autor dos romances de ficção científica Nebulosa e Esperando o Dono. Bruno Andreotti: doutor em história pela PUC de São Paulo, editor do site Quadrinheiros e organizador do livro Super-Heróis e Política. Nathália Thomaz: doutora em literatura juvenil pela USP e editora da Revista Literartes. Referências Super-heróis e Política, ed. por Bruno Andreotti. Quadrinhos Através da História – As Eras dos Super-Heróis e Os Dois Lados da Guerra Civil, ed. por Bruno Andreotti, A. Marangoni e M. Zanolini. Superdeuses: Mutantes, Alienígenas, Vigilantes, Justiceiros Mascarados, e o Significado de Ser Humano na Era dos Super-Heróis, de Grant Morrison. A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Jr. Superheroes!, de L. Maslon e M. Kantor. “Superheroes. A Never Ending Battle”. Documentário da rede PBS. “Superheroes”. Episódio do podcast The Rest is History. Superhero: the secret origin of a genre, de Peter Coogan. On the origin of superheroes e Superhero comics, de Chris Gavaler. A Brief History of Superheroes, de Brian J. Robb. Do the Gods Wear Capes?, de Ben Saunders. Superman on the Couch. What superheroes really tell us about ourselves and our society, de Danny Fingeroth. Super-History, de Jeffrey K. Johnson. The Superhero Symbol. Media, Culture & Politics, ed. por L. Burke, I. Gordon e A. Ndalianis. The American Superhero. Encyclopedia of caped crusaders in history, ed. por R.A. Hall. Our Superheroes, Ourselves, ed. por R.S. Rosenberg. Superheroes. Capes and crusaders in comics and films, de Roz Kaveney. Marvelous Myths. Marvel superheroes and everyday faith, de Russell W. Dalton. Superheroes v. Supervillains. A-Z., de Sarah Oliver. Ilustração: Heróis da Marvel v. DC Comics. (Fonte: Akiracomics.com) O post Super-heróis apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Os Medici
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts O que você pensa quando pensa no Renascimento? Talvez na apoteose das artes plásticas? Ou na ressurreição dos poetas, filósofos e deuses greco-romanos, de suas aventuras e orgias? Na fundação dos Estados nacionais? Na expansão da burguesia mercantil? Enquanto cavaleiros da Cristandade expulsavam califados da Europa e corsários do Mediterrâneo, seus navegadores redescobriam os tesouros da Ásia e rompiam a clausura da América. A fé medieval em Deus, ainda profunda e ardente, fundiu-se a uma nova fé na Humanidade: a confiança em seu poder de conquistar a Natureza com as ciências, de consumar o matrimônio entre o Céu e a Terra, de gerar um Novo Mundo. “Coloquei-te no centro do mundo”, disse Deus a Adão no diálogo vislumbrado pelo filósofo Pico della Mirandola, “para que possas observar mais facilmente tudo o que existe no universo. Nem celeste nem terreno, nem mortal nem imortal te criamos, a fim de que possas, como um livre e extraordinário escultor de ti mesmo, plasmar a tua própria forma tal como a preferires. Poderás degenerar-te nas formas inferiores, que são animalescas; poderás, segundo a tua decisão, regenerar-te nas formas superiores, que são divinas”. Entre as luzes crepusculares da Idade Média e as matinais da Modernidade, destacava-se uma nação, a Itália, e no centro dela uma cidade, Florença, e acima dela uma família, os Medici. Essa dinastia de banqueiros conduziu a pátria de Dante à sua era de ouro, gerou quatro papas para Roma e uma rainha para a França, que gerou três reis. Michelangelo, Leonardo, Donatello, Botticelli, Brunelleschi, Alberti, Rafael, Galileu, Monteverdi, quase todos os titãs da Renascença foram em algum grau beneficiados pela patronagem Medici. Veja o jovem Lorenzo, o “Magnífico”: “Nada pode ilustrar melhor os costumes, a complexidade e a diversidade do Renascimento italiano que a imagem de seu personagem mais central governando um Estado, administrando uma fortuna, disputando torneios, escrevendo excelente poesia, apoiando judiciosamente artistas e escritores, misturando-se facilmente com acadêmicos e filósofos, camponeses e bufões, marchando em procissões, cantando canções obscenas, compondo hinos suaves, brincando com cortesãs, gerando um papa, e sendo honrado pela Europa como o maior e mais nobre italiano de seu tempo” (Will Durant). Essa cornucópia de riquezas e poder veio com um preço. “Não se governa um Estado com ‘Pais Nossos’”, dizia o patriarca Cosimo. As intrigas shakespeareanas, a brutalidade quase mafiosa, as vaidades que arderam nas fogueiras de Savonarola, o cinismo dissecado por Maquiavel, deixariam a Itália fracionada e subserviente por séculos. Mas se entre os potentados renascentistas os Medici estiveram longe de cometer os piores desses pecados, como mecenas das artes e do conhecimento jamais foram igualados na história da Humanidade, e mesmo após o seu declínio e queda no século XVIII, seus frutos nas ruas de Florença, em palácios, museus, bibliotecas, igrejas e telas de todo o mundo, continuam a inspirar os seres humanos a se regenerarem como criaturas divinas; a criar, com suas mãos, movidos pela sua fé, um novo Céu e uma nova Terra. Convidados Luciano Migliaccio: professor de história da arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Luiz Felipe D’Avila: cientista político e autor de Cosimo de Medici. Memórias de um Líder Renascentista. Newton Bignotto: professor de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. Referências A cultura do Renascimento na Itália (Die Cultur der Renaissance in Italien) de Jacob Burckhardt. Cosimo de Medici. Memórias de um Líder Renascentista de Luiz Felipe d’Ávila. Maquiavel Republicano e Origens do Republicanismo Moderno de Newton Bignotto. A História da Civilização. V. 5. O Renascimento (The Story of Civilization. V. 5. The Renaissance) de Will Durant. Florença na época dos Medici (Florence à l’époque des Médicis) de Alberto Tenetti. Breve historia de los Medici de Eladio Romero García. The Renaissance: A Short History de Paul Johnson. Italy in the Age of Renaissance 1300-1550, ed. Por John. M. Najemy. Medici. Storia di uma dinastia europea de Franco Cesati. “The Medici”. Entrevista para o programa In Our Time da Radio BBC 4 com Evelyn Welch, Robert Black e Catherine Fletcher. The Medici Podcast. Dezenas de episódios apresentados por Chad Danton. Princely Citizen. Lorenzo de Medici and Renaissance Florence e Lorenzo de Medici & the Art of Magnificence de Francis W. Kent. Lorenzo de Medici. Uma vita di Magnifico de Giulio Busi. La vie quotidienne à Florence au temps des Médicis de Jean Lucas Dubreton. The House of Medici. Its rise and fall de Christopher Hibbert. The Medici de Mary Hollingsworth. The Medici. Power, Money and Ambition de Paul Strathern. Ilustração: “A Adoração dos Magos”, óleo sobre tela de Sandro Botticelli (c. 1485/86), com diversos membros da família Medici retratados. Galleria degli Uffizi, Florença. (Fonte: Wikimedia Commons). O Grande Teatro do Mundo — Os promotores do humanismo, por Jacob Burckhardt. O post Os Medici apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Origem da Vida
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts (Reprodução: GoodFon.com) Em geral a ciência avança como se resolvesse enigmas: a solução existe, os dados estão lá, basta encaixá-los, como um quebra-cabeças. Considere a evolução. A humanidade teve de esperar até Darwin para a teoria da seleção natural. Mas uma vez de posse dela, pode explicar perfeitamente como cada espécie surge e porque é como é: um organismo gera diversos descendentes, os mais adaptados ao ambiente vivem mais e geram mais descendentes, os menos adaptados geram menos e desaparecem. Mas ao menos três fenômenos cruciais nos desafiam não como um enigma, e sim como um mistério: quanto mais dados juntamos, quanto mais respostas encontramos, mais questões surgem. Um desses mistérios é a origem do universo; outro, é a origem de uma criatura, o ser humano, capaz de compreender e transformar esse universo – ou ao menos tentar. E entre um e outro há o mistério da origem da vida. Não sabemos ao certo sequer o que estamos buscando. O que é, afinal, a vida? Os cientistas já nomearam cerca de 1,8 milhão de espécies, mas estimam que haja 1 trilhão, e elas representam menos de 1% de todas que já existiram. Estudiosos já listaram mais de 100 características da vida. Ao menos duas parecem literalmente vitais: a reprodução e o metabolismo. Mas mesmo nelas há exceções. Cristais se replicam, mulas não. Até a morte é incerta: há bactérias que permanecem inertes por milhares de anos e depois, por assim dizer, “ressuscitam”. Parafraseando o que Santo Agostinho dizia sobre o tempo, “Se ninguém me pergunta o que é a vida, eu sei o que é. Se tento explicá-la a quem me pergunta, não sei”. Abstraindo as exceções, seres vivos se reproduzem; para se reproduzir, crescer e se mover, alteram elementos químicos que geram energia; e, para isso, precisam de um corpo a um tempo impermeável para bloquear substâncias nocivas e permeável para absorver as úteis e expelir os restos. Para alguns, a síntese dessas características é tão improvável, que é como esperar montar um quebra-cabeças chacoalhando suas peças. Para outros, dadas as condições ambientais e os elementos certos, o surgimento da vida é uma necessidade natural. Mas eles não estão nem perto de explicar como funções tão complexas e interdependentes emergem simultaneamente. Milagre ou necessidade, a origem da vida continua a quebrar cabeças. Convidados Amâncio Friaça: professor de astronomia da Universidade de São Paulo; Jorge Ernesto Horvath: professor de astrobiologia da Universidade de São Paulo; Miriam Forancelli Pacheco: professora de paleontologia da Universidade Federal de São Carlos Referências Breve História de Quase Tudo (A Short History of Nearly Everything), de Bill Bryson. O Quinto Milagre (The 5th Miracle: The Search for the Origin and Meaning of Life), de Paul Davies. Criação: A Origem da Vida / O Futuro da Vida, de Adam Rutherford. The History of Life – A Very Short Introduction, de M.J. Benton. “Life in the Universe”, de Stephen Hawking. The Mystery of Life’s Origin, de C.B. Thaxton, W.L. Bradley e R.L. Olsen. Origins of Life, de Freeman Dyson. Origins and Evolution of Life. An Astrobiological Perspective, Ed. por M. Gargaud, P. López-Garcia, H. Martin. “The Origins of Life”, entrevista com Richard Dawkins, Charles Simonyi e Richard Corfield para o programa In Our Time, da Radio BBC 4. Spontaneous Generation and the Origin of Life. John S. Wilkins.The Talk. Origins Archive. Genesis: The Scientific Quest for Life’s Origin, de R.M. Hazen. O post A Origem da Vida apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Os Impressionistas
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Você já ouviu essas críticas a artistas contemporâneos? “Uns lunáticos esparramam manchas de tinta, assinam o troço e se chamam revolucionários”; “eles não têm conhecimentos sólidos e acham que suas emoções bastam para chamá-las arte”; “uma criança faria”; “é feio”; “não dá pra comparar com um Monet ou Renoir”. E, no entanto, esse é o tipo de crítica que faziam a Monet e Renoir. “Impressionismo”, como “gótico” ou “barroco”, foi originalmente um termo de ridicularização. Madame Monet e seu filho. Claude Monet, 1876 (Reprodução: Wikimedia Commons) Por séculos os pintores perseguiram uma precisão fotográfica. A fotografia tornou as cópias utilitárias obsoletas, mas os românticos estavam livres para usar essa precisão recriando cenas da natureza, da história ou da mitologia. Os realistas deram as costas às igrejas e palácios e encontraram beleza em operários quebrando pedras. Mas até a invenção de apetrechos como bisnagas de tinta e cavaletes portáteis os quadros eram pintados no estúdio. Os impressionistas pintavam ao ar livre. Deve ter sido a sensação dos artistas da idade da pedra quando pintaram fora das cavernas, ou de um fugitivo da caverna de Platão. As paisagens, as alegrias mundanas, a palpitação urbana se ofereciam aos seus olhos e falavam por eles. Eles podiam quebrar os raios de luz, captar sua vibração no ar, segui-los enquanto deslizam nos objetos e os envolvem com cor. Mas um quadro não era mais mera janela. Já Manet descobrira que o mundo da pintura tem “leis naturais” distintas das da realidade familiar, e a lealdade do pintor é primeiro para com a tela. Muito da história da arte moderna é a estória dos desdobramentos do impressionismo ou reações a ele. Em 10 anos já havia “neo-impressionistas” ou “pós-impressionistas” insatisfeitos. A insatisfação de Cézanne com a negligência dos impressionistas à ordem e equilíbrio da arte, às formas sólidas e duráveis, levaria ao cubismo; a de Van Gogh com sua submissão das paixões expressivas às impressões visuais levaria ao expressionismo; a de Gauguin com as complexidades da arte e da vida aos primitivismos. Quando Monet morreu, Picasso já distorcia a realidade ao seu bel prazer e Mondrian a abstraia por completo. Os artistas estavam livres da tirania da objetividade para explorar seu universo interior, muitos ousaram se dizer livres da tirania da Beleza. Mas estariam livres da tirania dos modismos, do capricho, do mercado, da massificação? Essas tentações já estavam em germe no impressionismo. Em 1910, a impressionista pioneira Mary Cassatt denunciava as obras de Monet como “papel de parede”, e era possível comprar seus nenúfares em barras de chocolate, cigarros ou canecas. Ainda podemos discernir o valor dessas pinturas por trás dos leilões multimilionários e da mitologia sobre seus pintores? Mas talvez haja uma razão para sua consagração por artistas, eruditos e massas. Talvez tenha sido o instante mágico que combinou a sede de liberdade individual dos artistas modernos com a devoção a ideais coletivos de beleza, verdade e nobreza dos antigos, a paixão pela expressão dos sentimentos e a paixão pela representação dos objetos, como se as visões prodigiosas de um Giotto fossem animadas pelas energias explosivas de um Pollock. Mesmo o mais fiel às primeiras impressões impressionistas, Monet, já rico, famoso, com olhos octogenários e esclerosados, criaria, diluindo plantas aquáticas em reflexos de luz e cor, o impossível: a fusão da representação concreta com a imaginação abstrata. Convidados Ana Cavalcanti: professora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro Luciano Migliaccio: professor de história da arte da Universidade de São Paulo Sandra Leandro: diretora do Museu Frei Manuel do Cenáculo em Évora. Referências A História da Arte (The Story of Art), de E.H. Gombrich. Iniciação à História da Arte (A Basic History of Art), de H.W. Janson. Art – A New History, de Paul Johnson. A World History of Art, de H. Honour e J. Fleming. Critical Readings in Impressionism and Post-Impressionism. An Anthology, ed. por M.T. Lewis. The History of Impressionism e Studies in Impressionism, de John Rewald. The Impressionists, documentário no Perspective Art Channel. Impressionism, de M. Powell-Jones. Impressionism and Its Canon, de J.E. Cutting. A Companion to Impressionism, ed. por A. Dombrowski. Impressionism, N. Brodskaïa. O post Os Impressionistas apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Ludwig Wittgenstein
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Ludwig Wittgenstein é considerado por muitos o maior filósofo do século XX. Já em vida influenciou massivamente os meios acadêmicos, onde chegou mesmo a ser objeto de um culto. “Deus chegou, eu o encontrei no trem das cinco e quinze”, disse o economista John Maynard Keynes. Ludwig Wittgenstein (Foto: Anônimo. Domínio público) Mas é uma escolha insólita. Wittgenstein renunciou a uma herança multimilionária, aparentemente porque seria um estorvo para o filosofar, mas gastou boa parte de sua vida em ofícios ordinários, como jardineiro ou professor de escola primária. Ele desconfiava do ensino acadêmico, leu muito pouca filosofia, legou só duas obras canônicas e publicou apenas um livro em vida. Não há nada em sua obra das grandes sistematizações teosóficas de um Platão, um Tomás de Aquino ou um Hegel, nada da torrente de imagens poéticas de um Nietzsche, nem da força de mobilização planetária de um Marx. Na verdade, ele se dedicou quase que exclusivamente, obsessivamente até, a investigar uma única questão, mas uma questão da qual depende toda especulação teorética, toda criação poética, toda ação política: a linguagem. Ele não inventou, como os filósofos geralmente fazem, novas ontologias, mitologias ou utopias, mas, como Sócrates, instigou novas gerações a criticar suas ilusões, pensar com clareza e falar com precisão. Em seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein explorou os limites da linguagem. O que, afinal, é possível dizer sobre o mundo? Aparentemente, muito menos do que se imagina. É como se as ciências pudessem falar sobre tudo, exceto o essencial, e tudo o que a filosofia tem a dizer sobre o essencial fosse nonsense. Mas no seu livro póstumo, as Investigações Filosóficas, Wittgenstein praticamente desconstrói sua própria desconstrução. Os seres humanos não se ocupam apenas em distinguir, como fazem os lógicos, proposições falsas de verdadeiras, e seja lá qual for o limite da linguagem, eles a usarão para falar sobre o que bem entender: para contar piadas, dar ordens, iludir, rezar, persuadir. Nosso falar tem lógicas que a lógica desconhece. Quais são elas? .stk-72617b1 .stk-block-subtitle__text{font-size:24px !important}@media screen and (max-width:999px){.stk-72617b1 .stk-block-subtitle__text{font-size:24px !important}}Convidados Luiz Henrique Lopes dos Santos: professor de filosofia da USP e tradutor do Tractatus Logico-Philosophicus Marcelo Carvalho: professor de filosofia da Unifesp e co-autor Fenomenologia, análise e gramática: comentário às observações filosóficas de Wittgenstein Tiago Tranjan: professor de filosofia da Unifesp e co-tradutor das Investigações Filosóficas * SEP: Wittgenstein — Leia o verbete dedicado a Ludwig Wittgenstein na Stanford Encyclopedia of Philosophy. Tradução de Gustavo Coelho, revisão de Jônadas Techio. O Grande Teatro do Mundo — As “investigações filosóficas” de Ludwig Wittgenstein. O post Ludwig Wittgenstein apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Thomas Mann
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Entrevista com Cláudia Dornbusch, Marcus Mazzari e Paulo Soethe. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Pouco antes da Primeira Grande Guerra, um jovem alemão perdido numa nevasca a ponto de morrer congelado esvaía-se em delírios quando se percebeu acolhido numa comunidade idílica, até notar atrás de si um templo e dentro dele duas megeras seminuas devorando um bebê vivo. Despertando de sua alucinação o protagonista do romance A Montanha Mágica formulou esta máxima: “Em nome do bem e do amor, o homem jamais deveria permitir que a morte domine seus pensamentos.” Aos 25 anos Thomas Mann publicou seu romance de estreia sobre a decadência de uma família mercantil como a sua. Os Buddenbrook, até hoje o maior best-seller da ficção alemã, lhe renderia o Nobel de Literatura, já revelando sua singular “consciência sismográfica”, o “alinhamento secreto” entre o “pessoal e o fatual” que lhe permitia, através de jogos irônicos, contrastes e alusões, transformar a matéria da vida ordinária em forma espiritual. Suas tapeçarias monumentais urdidas por tramas autobiográficas e fictícias justapõem em progressões sinfônicas símbolos e fatos, reflexões filosóficas e intuições psicológicas, trivialidades domésticas e panoramas históricos. Assim, um sanatório nos Alpes se transforma, na Montanha Mágica, em um palco para a dramatização do destino europeu, o “épico de um desenvolvimento cultural” capaz de “abraçar toda a dialética política e moral ocidental”. Um relato lacônico, como o da tribo de Jacó na Bíblia, se torna, nas duas mil páginas de José e seus irmãos, o exercício de “uma viva curiosidade sobre o que é mais remoto e antigo nas coisas humanas: o mítico, o lendário, o tempo antes do alvorecer da razão”. Uma lenda medieval, como a do pacto entre um alquimista e o diabo, serve no Doutor Fausto à mais fina psicografia da consciência alemã em meio à catástrofe nazista. Já consagrado como o romancista de maior apelo da literatura alemã, Mann foi ainda o principal porta-voz da resistência a Hitler. Suas locuções radiofônicas difundidas do exílio pela rádio BBC no território do Terceiro Reich foram um bombardeio moral. Ao traçar os primeiros esboços para a Montanha Mágica, Mann anunciava a um amigo: “O espírito geral é o de um niilismo humorado, e a balança é, se for, levemente empurrada para o lado da simpatia pela morte.” O mesmo poderia ser dito de praticamente todas as suas obras. Exceto que, muitas vezes, a balança é empurrada para o outro lado. .. Convidados Cláudia Dornbusch: professora de língua e literatura alemã da Universidade de São Paulo e autora de A literatura alemã nos trópicos. Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e coordenador da coleção Thomas Mann da Companhia das Letras. Paulo Soethe: professor de língua e literatura alemã da Universidade Federal do Paraná e membro da Associação Internacional de Germanística.. .. O post Thomas Mann apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A ‘Poética’ de Aristóteles
Entrevista com André Malta, Vicente Sampaio e Fernando Gazoni. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”? Talvez. Mas entre as não sonhadas jamais houve uma que não tenha atraído o olhar e o tato de Aristóteles. Primeiro e maior sistematizador da história do pensamento, seu Corpus enciclopédico definiu a epistemologia que está na base dos currículos de ensino superior ao redor do mundo. E, como se não bastasse a teoria, nos deixou também a chave para a prática do saber. No comando de algumas das cabeças mais competentes da Grécia, formaria em seu Liceu o primeiro centro de pesquisa científica aplicada, antecipando o aparato de produção de dados das academias contemporâneas. Curiosamente, dentre suas numerosas obras, poucas, ou talvez nenhuma, teria uma repercussão comparável à de sua pequena apostila de teoria literária. Desafiando o lugar comum de que gosto não se discute, a Poética apresenta uma análise criteriosa não só dos elementos que compõem a poesia, mas das qualidades que brilham na boa poesia. Para o historiador da literatura grega Albin Lesky, “uma história da Poética e dos seus influxos deveria representar uma parte importante da vida cultural do Ocidente e ser, ao mesmo tempo, a história de erros grandiosos”. Após um período de hibernação milenar, o opúsculo renasceria incompleto ao olhar dos humanistas modernos. Popularizado como um “manual” de composição dramática, se revelou crucial para a formação da ópera italiana e do teatro barroco e neoclássico, suscitando mais de uma polêmica literária literalmente “homérica”. E mesmo hoje, não poucos roteiristas de Hollywood recorrem às lições da Poética para aprimorar a sua arte. Assim – quer saibamos quer não – Aristóteles segue exercendo uma influência decisiva sobre o modo como concebemos nossas histórias, vivemos nossos dramas e experimentamos o horror e a beleza do mundo. .. Convidados André Malta: professor de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo. Vicente Sampaio: tradutor da Poética e pesquisador do departamento de filosofia da Universidade Estadual de Campinas. Fernando Gazoni: tradutor da Poética e professor de língua e literatura grega na Universidade Federal de São Paulo. O post A ‘Poética’ de Aristóteles apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Existencialismo
Entrevista com Juliano Garcia Pessanha, Vicente de Arruda Sampaio e Valter José Maria Filho. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts “A partir de hoje e daqui por diante um novo épico começou na história mundial, e pode-se dizer que no momento estamos em seu início”. O psicólogo e filósofo O.F. Bollnow falava por muitos ao aplicar essas célebres palavras de Goethe sobre a batalha de Valmy a Ser e Tempo de Martin Heidegger. Com seu vocabulário singular e um estilo que oscila entre o êxtase e a exasperação, o livro mesmerizaria o pavilhão acadêmico no período entre-guerras, ao denunciar toda a metafísica ocidental, de Platão em diante, como um “grande esquecimento”, articulando pela primeira vez os temas de fundo do movimento filosófico que estava destinado a ser o mais impactante de todos no imaginário cultural do século XX. Catalisado pelos instintos publicistas de intelectuais franceses como Gabriel Marcel, Merleau-Ponty e sobretudo Jean-Paul Sartre, em pouquíssimo tempo o existencialismo extrapolaria o universo filosófico, tanto no campo teórico, quanto no prático e no estético, provocando reverberações decisivas para a psicoterapia, a teologia, as ciências sociais e as artes e letras em geral; e, hoje, não há pessoa no mundo que não tenha, ao menos uma vez na vida, enfrentado “angústias existenciais”. Como definir um fenômeno tão difuso e dinâmico? De fato, pode-se mesmo dar um passo atrás e questionar: teria realmente existido algo como uma “escola existencialista”? O próprio Heidegger recusava explicitamente a denominação, bem como Albert Camus, Karl Jaspers e tantos outros tradicionalmente indexados como existencialistas. Para o crítico literário Otto Maria Carpeaux, o existencialismo foi, a um só tempo, “uma filosofia, uma literatura, e um clima de opinião”. Seria então possível distinguir, paradoxalmente, a “essência” do existencialismo? .. Convidados Juliano Garcia Pessanha: escritor, ensaísta, autor da trilogia Sabedoria do Nunca, Ignorância do Sempre e Certeza do Agora e de Instabilidade Perpétua, e doutorando em filosofia pela Universidade de São Paulo com tese sobre Peter Sloterdijk e Martin Heidegger. Vicente de Arruda Sampaio: tradutor, editor e professor de filosofia, e doutorando pela Universidade Estadual de Campinas, com tese sobre Martin Heidegger e o pensamento pré-platônico. Valter José Maria Filho: professor e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo, com a tese O Conceito de Razão na Época de sua Efetuação. O post Existencialismo apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Direito Romano
Entrevista com Bernardo Queiroz de Moraes, Carlos Boucault e Tomás Olcese. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts 1.500 anos após a queda do Império no Ocidente, o Direito Romano vive hoje, como viveu na era medieval e moderna, na condição de matriz dos códigos civis da Europa continental, assim como da América Latina e mesmo do Japão. Sua influência hegemônica no direito público e privado é um fato mensurável linguisticamente: “Jurisprudência”, “Tribunal”, “República”, “Plebiscito”, “Lei”, “Senado” e tantas outras instituições jurídicas e políticas vitais à nossa organização social têm seus nomes derivados do léxico romano clássico. Ironicamente, a única exceção à regra talvez seja o próprio vocábulo “Direito”, fruto espúrio do latim medieval, posto que na Roma antiga “Direito” e “Justiça” se fundiam originariamente numa só palavra, ius, um conceito tão omnipresente na biosfera romana, que em toda a literatura produzida por seus jurisprudentes – a primeira ciência jurídica do mundo – só se encontram escassas definições, e mesmo elas parecem descrever não tanto a realidade do direito tal qual ele é, mas sim um ideal de justiça moral tal qual ela deveria ser. Para um deles ius é “a técnica de se realizar o bem e a equidade”, para outro os preceitos do direito são “viver honestamente, não prejudicar os outros e atribuir a cada um aquilo que é seu”. A epopeia da cidade que se tornou o mais poderoso império que o mundo já conheceu foi também a história da consolidação de uma Lei e uma Ordem comuns para a maior parte da Europa, África do Norte e Oriente Médio. Ninguém exprimiu mais contundentemente esse destino quanto o maior dos poetas romanos, Virgílio, na admoestação premonitória do troiano Anquises ao seu filho Eneias, o pai mítico da raça romana: “Romano, lembra o teu poder para governar sobre os povos da Terra – pois tuas artes hão de ser estas: pacificar, impor o império da lei, poupar os vencidos, abater os soberbos”. A verdade, contudo, é que o próprio herói encerraria sua saga enterrando seu gládio no peito de seu oponente, enquanto este, rendido, lhe suplicava misericórdia. E a expansão do Império romano significou também a perpetuação dos dois maiores males sociais que a humanidade já produziu: a escravidão e a guerra. Nisso Roma não se diferenciava dos outros povos da Antiguidade. Todos basearam suas estruturas econômicas e políticas nestas duas perversões – todos viveram pela espada e morreram pela espada. Roma só foi, talvez, mais eficiente – e sua queda, mais espetacular. Os frutos originais do solo romano foram, sim, juristas capazes de manter um saudável realismo para com os fatos ante seus olhos, sem sufocar o idealismo em seu coração. Como um certo Ulpiano, que olhando em torno constatava, cerca de 2.000 anos antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que “a escravidão é própria do ius gentium, o direito dos povos, mas não do ius naturale, porque pelo direito natural todos os homens nascem livres”. .. Convidados Bernardo Queiroz de Moraes, livre-docente e professor de Direito Romano da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Carlos Boucault, professor de direito da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e coordenador do projeto de pesquisa “Hierarquia entre Direito e Retórica no Final da República Romana”. Tomás Olcese, professor de Direito na Universidade Anhembi Morumbi e pesquisador do projeto temático da Universidade de São Paulo “As Origens Romanas do Código Civil Brasileiro”. O post Direito Romano apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Mecânica Quântica
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Entrevista com Maria Cristina Batoni Abdalla, Osvaldo Pessoa e Walter Pedra. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ao fim do século XIX um jovem alemão, contemplando a carreira acadêmica, foi desaconselhado a se empenhar na física. À época o edifício da mecânica clássica erguido por Newton, Maxwell e outros parecia tão bem acabado, que cientistas como Lord Kelvin acreditaram que todas as grandes ideias da física já haviam sido descobertas, só restando trabalhar adornos e pormenores. Por sorte o estudante recusou o conselho e em 1900, já professor de física em Berlim, diria a seu filho que fez uma descoberta tão importante quanto as de Newton. Por mais que soasse grandiloquente, Max Planck falava a pura verdade. Buscando sair de um dilema em relação ao fenômeno da radiação, ele sugeriria que a emissão ou absorção subatômica se dá na forma de quantidades discretas de energia ou quanta. A mecânica quântica descreve um mundo fantástico e desconcertante, onde uma partícula elementar parece ora se propagar como uma onda, ora surgir em dois lugares ao mesmo tempo, ora desaparecer em um e reaparecer em outro, ou mesmo interagir com uma outra partícula à distância, um fenômeno que o próprio Einstein – autor de um passo decisivo na teoria quântica ao demonstrar que também a luz é composta por quanta, ou fótons – previu em hipótese, mas que preferiu rejeitar como “assustador demais” para ser validado por um físico. As teorias sobre porque as coisas são assim variam das mais extravagantes, como a de uma pluralidade de mundos simultâneos, às mais prosaicas, como uma falha nos nossos cálculos, e não surpreende que o físico teórico Richard Feynman dissesse: “creio que posso afirmar com segurança que ninguém entende a mecânica quântica”. Apesar disso, o aparato matemático quântico ainda é incomparável na sua capacidade de previsão, cada dia mais precisa, do comportamento das partículas elementares. E malgrado todos os desafios à nossa lógica ordinária e todas as controvérsias sobre porque o universo microscópico é assim, os resultados de laboratório só fazem confirmar: ele é assim – até que se prove o contrário, a matéria da qual todas as coisas são feitas é assim: fantástica e desconcertante. .. Convidados Maria Cristina Batoni Abdalla: professora de Teoria Geral das Partículas e Campos da Universidade Estadual Paulista e autora de O Discreto Charme das Partículas Elementares. Osvaldo Pessoa: professor de História e Filosofia da Ciência da Universidade de São Paulo e autor de Conceitos de Física Quântica. Walter Pedra: professor do Departamento de Física Matemática da Universidade de São Paulo e coordenador do grupo de pesquisa de “Termodinâmica de Sistemas Quânticos de Corpos Não-Simétricos”. O post Mecânica Quântica apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Behaviorismo
Entrevista com Roberta Kovac, César Rocha e Candido Pessôa. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts O que é uma pessoa? Resposta: “Um membro da espécie humana que se comporta como se comporta por causa de muitas características ou propriedades internas, entre elas sensações, decisões, fantasias, aptidões, percepções, pensamentos, virtudes, intenções, habilidades, instintos, devaneios, incentivos, atos de vontade, alegria, compaixão, defesas emocionais, crenças, complexos, expectativas, anseios, escolha, impulsos, ideias, responsabilidades, satisfações, memórias, desejos, necessidades, sabedoria, quereres, um instinto de morte, um senso dever, sublimação, impulsos, capacidades, propósitos, vontades, informação, um superego, proposições, experiências, atitudes, conflitos, sentidos, formações reativas, uma vontade de viver, consciência, angústia, depressão, medo, razão, libido, energia, reminiscências, inibições, e doenças mentais”. Além de exprimir o senso comum e de catalogar o vocabulário de mais de dois mil anos de investigações psicológicas desde a filosofia grega à psicanálise, a descrição de Burrhus Skinner é especialmente eloquente por sintetizar tudo aquilo que, segundo seu autor, uma pessoa não é nunca foi e jamais será. Contra essa ilusão, dita “mentalista”, ele oporia sua perspectiva “radical”, chegando a sugerir que ela “provavelmente conclama à mais drástica transformação jamais proposta em nosso modo de pensar sobre o homem: é quase literalmente uma questão de virar a explicação do comportamento de dentro para fora”. O impacto calculado de formulações desse tipo cumpriria sua função de despertar o olhar humano para a singularidade da recém nascida ciência do comportamento, mas também faria do behaviorismo um dos “ismos” mais controvertidos do século XX. Se para os mais deslumbrados o ideal de um progresso cientificamente orientado à prosperidade parecia descer do céu à terra, para seus antagonistas, pessoas como Pavlov teriam convertido o “How like a god!”, de Hamlet, em “How like a dog!” E de Admirável Mundo Novo e 1984 a Laranja Mecânica e Matrix uma corrente ficcional tão excitante quanto inquietante se habituaria a associar o ideário comportamentalista a delírios de controle sobre-humano e processos de desumanização em massa. Cientificamente indiferentes aos exageros de entusiastas e alarmistas, contudo, os analistas comportamentais continuam a lapidar a teoria e a empiria do comportamento, acumulando sólidos benefícios ao aplicá-las a práticas como a educação, a gestão pública e privada, a reabilitação clínica e a socialização de deficientes e delinquentes. E, hoje, após as experiências totalitárias do século XX, na era da globalização econômica, das redes virtuais e do recrudescimento do fundamentalismo religioso, as questões provocadas pelo comportamentalismo são talvez mais urgentes do que nunca. Afinal, que são todos os sistemas jurídicos, políticos, religiosos; suas leis, costumes, ritos; seus valores, crenças, ideais e toda a multidão de símbolos que chamamos “cultura”, senão artifícios fabricados por seres humanos para estimular ou inibir comportamentos humanos? O que mais fazem pedagogos, psicoterapeutas, sacerdotes senão aplicar técnicas de previsão, interpretação e controle de comportamento a fim de capacitar pessoas a prever, interpretar e controlar comportamentos? E, acima de tudo, podemos ou não podemos selecionar nossos próprios comportamentos?, podemos ou não podemos, em uma uma palavra, determinar nosso destino?.. Convidados Roberta Kovac: mestre em Psicologia Experimental pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, psicoterapeuta, e professora do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento. César Rocha: doutorando em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos com pesquisa sobre análise do comportamento e planejamento cultural. Candido Pessôa: doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo, pesquisador e professor do Núcleo Paradigma e da Escola de Sociologia Política de São Paulo. O post Behaviorismo apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Cidade na Era Industrial
Entrevista com Josianne Cerasoli, Leandro Medrano e Renato Cymbalista. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Por volta de 1800 Londres, então a maior metrópole do mundo, superava a marca de 1 milhão de habitantes, igualando pela primeira vez a cidade mais populosa da antiguidade, Roma. Na época a população mundial contava com 900 milhões de pessoas, e pouco mais de 10% habitava nas cidades. Desde então o crescimento se deu continuamente em doses industriais. De 1950 até hoje o número de habitantes das cidades em todo o mundo proliferou de 746 milhões para quase 3,5 bilhões, e em 2009, 200.000 anos após o aparecimento dos primeiros homo sapiens, a população urbana finalmente superou a rural. Hoje, num planeta que aglomera mais de 7,25 bilhões de seres humanos, há quase 30 mega-cidades com mais de 10 milhões de habitantes cada. Só em Shangai, a cidade mais populosa do planeta, vivem cerca 25 milhões de pessoas, e as projeções mostram que em 2050 66% da população mundial será urbana, sendo que nos países desenvolvidos essa taxa será de quase 90%. Não há duvidas de que nosso mundo está se civilizando aceleradamente, ao menos do ponto de vista literal, dado que a raiz etimológica do termo “civilização”, assim como de “civismo”, “cidadão”, “urbanidade”, “política”, “polidez” e outras expressões que denotam os mais altos graus de sofisticação da vida humana, têm todas sua origem no vocábulo “cidade”. Mas acaso esse crescimento vertiginoso das cidades implica um crescimento equivalente da cidadania? Em nosso tempo 1 bilhão de pessoas, quase um terço da população urbana mundial, vive em favelas e assentamentos do gênero, e a expectativa é de que em 2030 esse número dobre para 2 bilhões. E desde o mito da Torre de Babel até as modernas distopias futuristas, as cidades sempre foram convincentemente retratadas como um cenário apocalíptico de criminalidade, insalubridade, stress, individualismo, luxúria, consumismo, superficialidade e outras formas de degradação física, psíquica e moral. O que explica a explosão urbana dos últimos dois séculos? Como as cidades absorveram mais da metade da população mundial? Que transformações isso traz para a cultura e a sociedade humana? E acaso o globo estaria se transformando numa única e colossal conurbação?. .. Convidados Josianne Cerasoli: professora de história política e urbana da Universidade Estadual de Campinas e coordenadora da pesquisa “O urbano em questão: saberes especializados, cidade e história”. Leandro Medrano: professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e editor da revista Pesquisa em Arquitetura e Construção. Renato Cymbalista: professor de História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e presidente do Instituto Pólis. .. .. O post A Cidade na Era Industrial apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Magna Carta
.. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Durante a Guerra Civil inglesa, o panfleteiro ultrademocrata Richard Overton se lembraria comovido de uma das incontáveis vezes em que foi preso pelos oficiais da Coroa: enquanto arrancavam “de mim a Grande Carta das Liberdades e Direitos da Inglaterra”, gritava “assassino, assassino, assassino!” Uma geração antes, Sir Henry Spelman, membro da ala conservadora do Parlamento, descreveria a Carta como “a mais majestosa e sacrossanta âncora das liberdades inglesas”... No ano de seu oitavo centenário a Magna Carta é prestigiada mundialmente não só como a pedra fundamental do direito anglo-saxão, mas também, nas palavras do jurista britânico Lord Denning, “como o maior documento constitucional de todos os tempos – o fundamento da liberdade individual contra a autoridade arbitrária do déspota”. Todavia, de suas 63 cláusulas, só 3 não caducaram ou foram revogadas, permanecendo vigentes na Constituição do Reino Unido. E nos últimos dois séculos não faltaram historiadores que denunciassem a Grande Carta como um “mito” elaborado ideologicamente sobre uma colcha de retalhos de exigências incôngruas e mal costuradas em nome dos interesses privados da elite feudal do século XIII. O próprio Overton diria em outra ocasião, numa chave bem menos romântica, que a Carta é “uma coisa miserável contendo muitas marcas de opressão intolerável”. .. Convidados Eduardo Tomasevicius Filho: mestre em História Social e professor doutor do departamento de Direito Civil da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Maria Cristina Carmignani: professora doutora de História do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Tomás Olcese: professor de Direito das Faculdades Metropolitanas Unidas e membro do grupo de pesquisa “Direito Privado Comparado Contemporâneo” da Universidade de São Paulo. O post A Magna Carta apareceu primeiro em Estado da Arte.
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O Império Otomano
Entrevista com Heitor Loureiro, Karabekir Akkoyunlu e Monique Sochaczewski. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Quando o Império Otomano colapsou na Grande Guerra ele cobria só um pedaço da Turquia, era vilipendiado como o “Homem doente da Europa” e recriminado por atrocidades contra minorias armênias. Mas em seu apogeu, no reino de Suleiman o Magnífico, no século XVI, era a maior potência do Oriente Médio, África e Europa, senão do mundo, imperando sobre Atenas, Jerusalém, Cairo, Cartago, Budapeste, Damasco, Babilônia, e as cidades sagradas de Meca e Medina. Três séculos antes, eram só uma tribo nômade turca da Anatólia. Sobre os escombros bizantinos deixados por hordas de mongóis e cruzados, o clã de Osman dominou o ponto nevrálgico entre a Europa e a Ásia, Constantinopla, consagrada como a capital Istanbul, e, por meio de conquistas militares, diplomáticas e matrimoniais, se expandiu do Egito à Hungria, do Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico, dos palácios de Bagdá às portas de Viena. Foi um dos maiores, mais longevos e esplêndidos impérios multiétnicos e multi-religiosos, só comparável aos de Roma e Bizâncio, aos impérios cristãos dos Habsburgo e Romanov, ou aos islâmicos dos árabes abássidas, iranianos safávidas ou indianos mugal. Os sultões viam-se como herdeiros de Alexandre e César, e eram venerados pelos sunitas como califas, os sucessores de Maomé. Mas seu islamismo absorve elementos do xamanismo, budismo e cristianismo. Enquanto católicos e protestantes perseguiam judeus, muçulmanos e uns aos outros, sob os otomanos as crenças e propriedades de xiitas, judeus e cristãos eram respeitadas. Nos haréns não havia preconceitos étnicos: búlgaras, sérvias, albanesas, húngaras, russas, mongóis e árabes eram recebidas de braços abertos e seus filhos eram herdeiros dos sultões. A elite militar dos janíçaros era recrutada entre crianças cristãs gregas, armênias e eslavas educadas no califado. Suas tropas e frotas eram imbatíveis em disciplina e engenho militar. Por séculos, foram os maiores adversários dos persas xiitas, e responderam pelas maiores ameaças do mundo islâmico à cristandade, mas também pelas melhores alianças. O próprio Suleiman, que personifica o estereótipo do “despotismo turco”, também simboliza os sonhos do Ocidente pelo “luxo oriental”. “O Magnífico” foi um nome dado pelos europeus. Para os muçulmanos ele é “O Legislador”. Os sultões e vizires estão entre os maiores mecenas de todos os tempos. Suas mesquitas abobadadas espelhadas nas basílicas bizantinas são um monumento à glória de Alá jamais igualado na arquitetura islâmica. Como eles ergueram seu império? Como ele desmoronou? Qual o seu legado para a Turquia, suas antigas províncias, o Islã e o mundo contemporâneo? .. Santa Sofia e a Mesquita Azul, em Istanbul (Miwok, Flickr) .. Convidados: Heitor Loureiro: Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista e pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio. Karabekir Akkoyunlu: Professor de história e política comparada da Escola de Relações Internacionais da FGV, e coautor de Guardianship and Democracy in Iran and Turkey. Monique Sochaczewski: Professora do IDP, Cofundadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio e autora de “Do Rio a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano”. .. Apresentação: Marcelo Consentino. Produção técnica: Compasso Coolab. .. .. O post O Império Otomano apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Nanotecnologia
Entrevista com Ado Jorio de Vasconcelos, Aldo José Gorgatti Zarbin e Ernesto Joselevich. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts No século XVII, o místico, filósofo e cientista Blaise Pascal dizia que o ser humano é uma criatura irremediavelmente perdida entre os dois extremos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno. Mas as últimas gerações de cientistas parecem infinitamente mais próximas do pequeno. Já em 1959, o físico laureado com o Nobel, Richard Feynman, previu a miniaturização extrema da tecnologia até a manipulação de moléculas e átomos como blocos de construção. Desde os anos 80, invenções e descobertas na fabricação de nano-objetos têm atestado esta visão. Em poucas décadas a nanotecnologia tornou-se um mercado trilionário, que move universidades, corporações, militares e governos em travessias multidisciplinares entre as fronteiras da química, biologia molecular, ciência dos materiais e física da matéria condensada para compreender a alterar propriedades inesperadas. Desde 1999, há um crescimento anual da ordem de 15% de nanodispositivos no mercado. Alguns pensam que a nanotecnologia trará a próxima revolução tecnológica, após a revolução industrial e a revolução digital, com efeito combinando e amplificando ambas. Desde já, materiais compostos utilizam elementos em nanoescala para tornar todo tipo de coisa melhor, mais forte e mais rápida – de tecidos e cosméticos a telas de TV e painéis solares. Estruturas ultra-leves para aeronaves e microchips com hiper-memória já estão no horizonte. Provavelmente não há nenhum aspecto da vida humana que não será em algum momento afetado. Enquanto a nanotecnologia avança para cobrir a lacuna entre a fantasia e a realidade, os visionários a veem como uma panaceia capaz de eliminar a poluição nos países ricos e a fome nos países pobres, reconstruir plantas e animais extintos, e diagnosticar e curar todos os nossos males. Fala-se até em nano-robôs que “viverão” em nossos corpos, eliminarão patógenos, reverterão traumas e turbinarão nossas capacidades físicas e mentais. Para os céticos isso nunca será mais que um delírio futurista. Os alarmistas enxergam o próximo passo na guerra química e biológica, com nano-robôs fugindo aos laboratórios para evoluírem como seres sensíveis que escaparão ao controle da humanidade e finalmente a substituirão. Mas o que realmente acontece quando o ser humano se torna capaz de redesenhar e reconstruir com precisão atômica as partículas que compõem o tecido da existência? Quais as conquistas da nanotecnologia hoje? Quais os desafios para o futuro? E quais os dilemas éticos e regulatórios envolvidos nessa aventura? .. Nanopartícula de vidro suspensa em uma cavidade ótica (Wikimedia Commons) .. Convidados Ado Jorio de Vasconcelos: professor de física da Universidade de Minas Gerais. Aldo José Gorgatti Zarbin: professor de Química da Universidade Federal do Paraná. Ernesto Joselevich: professor do Departamento de Materiais e Interfaces Instituto de Ciência Weizmann em Israel. Apresentação: Marcelo Consentino. Produção técnica: Compasso Coolab .. .. O post Nanotecnologia apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Reprodutibilidade científica
Entrevista com Marcus Vinícius Baldo, Maria Elice de Brzezinski Prestes e Olavo Amaral. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Como os teólogos na Idade Média, os cientistas são a suprema autoridade intelectual no nosso tempo. Veja a confiança que inspiram fórmulas como “cientificamente comprovado” ou “cientistas demonstram que…”. Nossa esperança pelo progresso vive da fé na ciência. E a pedra angular da ciência é a reprodutibilidade. Se o resultado de um experimento é real e robusto, qualquer pesquisador deve ser capaz de obtê-lo reproduzindo os mesmos procedimentos. Mas em 2005 um médico e cientista constatou: a maioria dos resultados reproduzidos em pesquisas são falsos. No artigo que caiu como uma bomba na comunidade científica, John Ioannidis demonstra que a maioria das publicações não atinge padrões mínimos de evidência. Desde que a chamada “Crise da Reprodutibilidade” foi detonada, os cientistas têm aprimorado a verificação de evidências (ou de sua ausência), naquilo que alguns chamam “Metaciência”. Mas quanto ainda podemos confiar nos cientistas? Até onde seus vieses alteram a produção e a reprodução de seus dados? Será verdade, como disse um filósofo, que não existem fatos, só interpretações? A bem da verdade, não existe a Ciência, só as ciências, cada qual com seus objetos e métodos. A crise não é igualmente crítica para as ciências humanas, as biológicas e as físicas. A própria crítica hiperbólica de Ioannidis se referia, mais restritamente, às pesquisas médicas, e significa, mais rigorosamente, não que os resultados são majoritariamente “falsos”, mas que “não foram comprovados” ou na pior das hipóteses “não podem ser”. Como atividade humana, a ciência é por definição falível, falsificável, deturpável a ponto de se tornar um culto. Mas mesmo que um certo obscurantismo ou um ceticismo extremado apontem as inconsistências, fraquezas e vícios dos cientistas para desacreditá-los, podemos confiar que, junto com filósofos ou teólogos, cada qual com seus objetos e métodos, eles aproximam a humanidade da verdade. Se, como disse o filósofo Karl Popper, “acontecimentos singulares não reprodutíveis não têm importância para a ciência” — e nossas experiências mais singulares da beleza, do bem, da verdade, são por definição irrepetíveis, únicas —, a boa ciência sabe que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia e o coração tem razões que a razão desconhece. Mas ela ainda é a mais formidável máquina de verificar fatos, revelar as leis que os regem, e alavancar inovações tecnológicas. É razoável e demonstravelmente racional confiar o progresso humano à vigilância dos cientistas. Mas quem vigia os vigilantes? E como vigia?.. .. Convidados .. Marcus Vinícius Baldo: professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Maria Elice de Brzezinski Prestes: professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Olavo Amaral: professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. .. Apresentação: Marcelo Consentino. Produção técnica: Compasso Coolab. O post Reprodutibilidade científica apareceu primeiro em Estado da Arte.
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As provas da existência de Deus
Entrevista com Agnaldo Portugal, Fabio Bertato e Roberto Covolan. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Na mesma época em que o louco da parábola de Nietzsche proclamava que “Deus está morto”, o filósofo russo Vladimir Soloviov era indagado após uma conferência: “— Mas o senhor acredita realmente em Deus?” “— Senhor, eu só acredito em Deus”, respondeu, sugerindo que só um ser supremo absolutamente bom é digno da nossa absoluta confiança. Hoje, pelo menos 90% da população mundial se diz religiosa ou espiritualizada, 70% acredita na existência de Deus. Mas podem prová-la? Entre os profissionais da argumentação racional, os filósofos acadêmicos, estima-se que 7 em 10 sejam descrentes. Com boas razões: as ciências parecem explicar a mecânica do universo sem necessidade de Deus; um ateu pode ser tão razoável e decente quanto o melhor dos crentes, e mesmo profundamente religioso e até santo, como alguns budistas. De resto, como Deus pode tolerar o mal, o sofrimento de crianças inocentes, para não falar da crueldade eterna do inferno? Na pior das hipóteses, as religiões parecem ser tiranias obscurantistas adoradoras de um ditador cósmico; na melhor, o conforto de um placebo superlativo — em todo caso, uma ilusão sem futuro. Por outro lado, se nada no universo vem do nada, como o próprio universo pode vir do nada? Que da matéria bruta surjam seres vivos, capazes de amar e se reproduzir; ou que da brutalidade e inocência do mundo animal surjam mentes racionais, capazes de compreender o universo e agir com suprema magnanimidade — mas também com perversidade destrutiva —, mesmo para com todas as criaturas, parecem eventos tão improváveis que só podem ser definidos como um mistério, quando não um milagre. E de onde viria o nosso apetite pela beleza infinita, senão de um ser infinitamente belo? Ainda que as leis morais pareçam infinitamente variáveis, de onde viria a intuição universal de uma lei moral, senão de um supremo legislador? E que dizer da experiência pessoal da maioria da humanidade hoje e em todos os tempos? O testemunho de filósofos como Confúcio, Platão, Aristóteles, Descartes ou Kant; de cientistas como Galileu, Newton ou Einstein; de artistas como Michelangelo, Bach, Dostoievski; ou de profetas, como Moisés e Maomé, para não falar do chamado Filho de Deus e sua mãe, não será, senão uma “prova” racional da existência de Deus, um indício de que a crença nele é perfeitamente razoável? E não será possível, como disse Pascal, que Deus queira aparecer abertamente àqueles que o buscam com todo o coração, e se esconder daqueles que o evitam com todo o coração? Entre tantas incertezas, uma coisa é certa: a questão sobre a existência de Deus é aquela sobre a qual não se pode conceber nenhuma maior. Afinal, a resposta é a única que muda, bastante literalmente, tudo. .. Kharps (iStockphotos) .. Convidados Agnaldo Portugal: professor de filosofia da religião e filosofia da ciência da Universidade de Brasília. Fabio Bertato: pesquisador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp. Roberto Covolan: vice-presidente da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. Apresentação: Marcelo Consentino Produção técnica: Compasso Coolab. .. .. O post As provas da existência de Deus apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Romances de formação
Entrevista com Daniel Bonomo, Marcus Mazzari e Rogério Puga. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Embora seja apenas um subgênero literário, o romance de formação é uma das expressões artísticas mais universais e familiares. Quase nenhum leitor viveu nas paisagens bucólicas da poesia pastoril, ou sobreviveu às aventuras das epopeias ou aos dramas letais das tragédias — e qualquer um evita ser protagonista das farsas cômicas —, mas todo mundo já foi, ou é, jovem. Todos provaram as primeiras emoções do amor e do sexo; tiveram dúvidas sobre seu destino pessoal, sua vocação profissional, seu papel no teatro social e político; se deslumbraram com visões metafísicas, éticas e estéticas, e se frustraram com suas incongruências. Todo adulto se formou quando jovem e forma os jovens de hoje. Para o filósofo Wilhelm Dilthey, um dos criadores do termo Bildungsroman, suas narrativas “apresentam o jovem de seu tempo à medida em que adentra a vida em alegre ignorância, buscando almas afins, provando a amizade e o amor, enquanto luta com as duras realidades do mundo, e assim, em multifacetados encontros com a vida, amadurece, encontra-se a si mesmo, e reconhece sua missão no universo”. Em sentido amplo essa jornada arquetípica já fora vivida por jovens antigos como o babilônico Gilgamesh, passando pelos bíblicos José, Moisés ou Davi, até a odisseia do grego Telêmaco ou a do bárbaro cristão Percival. Em senso estrito, o romance de formação nasce em meio às concepções de cultura e educação iluministas, especificamente na Alemanha com os prototípicos Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe. Se, como disse Marx, a modernidade é uma “revolução permanente”, a juventude, nas palavras de Franco Moretti, é a “essência da modernidade, o sinal de um mundo que busca o seu sentido no futuro antes que no passado”. E o romance de formação, como narrativa da insatisfação e mobilidade interior da juventude, é a sua forma simbólica. Desde o seu despertar, no romantismo, passando pelo seu amadurecimento, no realismo, até suas sucessivas reformas, deformações e transformações pelos movimentos modernistas, a cultura moderna sempre se viu refletida nos romances de formação. Não à toa quase todo grande romancista — de Dickens, Stendhal e Balzac, passando por Flaubert, Jane Austen, Dostoiévski, Mark Twain até Thomas Mann, J.D. Sallinger ou Philip Roth — experimentou de algum modo o gênero. O que esses romances têm a dizer na era pós-moderna? Como eles refletem os jovens de hoje e formam os de amanhã?.. Convidados Daniel Bonomo: doutor em literatura alemã e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e organizador do livro Romances de Formação: caminhos e descaminhos do herói. Rogério Puga: professor de literatura da Universidade Nova de Lisboa e autor de O Bildungsroman. .. .. O post Romances de formação apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Rota da Seda
Entrevista com André Bueno, Daniel Veras e Evandro Menezes de Carvalho. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts O nome “Rota da Seda” é uma convenção historiográfica do século XIX para designar o fluxo comercial ancestral da Eurásia. Na verdade, a seda era uma mercadoria de várias, e não houve uma rota, mas inúmeras, ao norte e ao sul, através das estepes, desertos, montanhas e mares, conectando desde a costa chinesa do Pacífico às costas atlânticas da Europa e da África; da Escandinávia ao Oceano Índico. Desde os tempos neolíticos até se consolidarem há 2000 anos — muito antes das navegações transatlânticas descobrirem um novo Mundo e a aviação conectar todas as regiões do globo — as rotas formaram a principal artéria intercontinental do planeta, por onde trafegavam mercadores, viajantes, missionários e peregrinos permutando mercadorias e ideias, mas também doenças e violência. Através de suas veias e vasos capilares o Oriente e o Ocidente trocaram entre si o melhor de sua comida, indústria e arte, nutrindo os fluxos de ascensão e queda de grandes impérios gregos, iranianos, árabes ou turcos. Nelas os povos bárbaros e exóticos da Europa conheceram as civilizações mais veneráveis da Ásia, e receberam delas tecnologias revolucionárias, como a pólvora ou o papel. Elas canalizaram as conquistas de Alexandre o Grande ou Gengis Khan e as aventuras de Marco Polo e outros comerciantes. Através delas floresceram cidades legendárias, como Persépolis, Samarkand ou Xanadu; os mongóis, e, em nosso tempo, os russos, ergueram os mais vastos impérios do mundo; os califas muçulmanos e os imperadores chineses se bateram; as antigas religiões do Oriente Médio, como o judaísmo, o zoroastrismo, o maniqueísmo e as primeiras seitas cristãs confluíram para a Ásia profunda, e o budismo e o Islã disseminaram-se ao norte, sul, leste e oeste tornando-se religiões mundiais. Nelas, uma das duas civilizações mais antigas do mundo e uma das duas mais poderosas de nosso tempo, a China, se encontrou com aquela que foi comparativamente a mais poderosa de todos os tempos, Roma. Após as navegações transatlânticas, as rotas perderam muito de seu apelo, mas ainda catalisaram maravilhas modernas como o Canal de Suez ou a Ferrovia Trans-Eurasiana. E em nosso tempo a China planeja investimentos trilionários na “Nova Rota da Seda” que impactarão diretamente as economias da Ásia, Europa e África, e plasmarão a nova ordem geopolítica global. Ao fim, por mais convencional que seja, o nome Rota da Seda não é ruim: a “rota” é uma metáfora para o eterno percurso do sol crescente ao sol poente e vice-versa. E para o comércio internacional e seus bens — o ouro, o luxo, a aventura, o poder — nada simboliza melhor que a “seda” a cor, a luz, a leveza e a fugacidade que tecem estes sonhos. .. Caravana de Marco Polo, do Atlas Catalão de Carlos V, 1375 .. Convidados André Bueno: professor de história e filosofia chinesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Daniel Veras: pesquisador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Evandro Menezes de Carvalho: pesquisador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas. .. .. O post Rota da Seda apareceu primeiro em Estado da Arte.
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O Infinito
Entrevista com Alexandre Leone, Fábio Bertato e João Cortese. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts “Há um conceito que corrompe e altera todos os outros. Não falo do Mal, cujo limitado império é a Ética; falo do Infinito”, assim Jorge Luis Borges iniciava sua biografia do Infinito em Otras Inquisiciones. Oscilando entre os dois extremos do caos e da indefinição, por um lado, e da plenitude e da perfeição, por outro, a visão do infinito desperta o terror e o fascínio do coração humano desde as origens. Segundo o matemático David Hilbert, “nenhuma outra questão jamais moveu tão profundamente o espírito do homem; nenhuma ideia estimulou tão frutuosamente seu intelecto; ainda assim, nenhum conceito permanece tão necessitado de esclarecimento”. Por isso mesmo, o próprio Hilbert, referindo-se às especulações de seu colega Georg Cantor sobre o infinito, diria que “ninguém nos expulsará do paraíso que ele criou para nós”. Immanuel Kant, por sua vez, acreditava ter demonstrado por a + b que pela estrutura mesma da razão humana estamos condenados a sempre indagar e a jamais saber se o mundo é finito ou infinito. Já o poeta Giacomo Leopardi era taxativo: o infinito “é um parto da nossa imaginação, ao mesmo tempo da nossa pequeneza e da nossa soberba… um sonho, não uma realidade”, porque “não temos nenhuma prova da sua existência, sequer por analogia”. Para Descartes, contudo, era um fato insofismável que a ideia da perfeição infinita está inserida no mais íntimo do nosso ser, e por isso, deduziria Fichte, “o infinito aproximar-se do ‘sumo bem’ constitui o verdadeiro destino do homem”, “o sinal da nossa vocação à eternidade”. Não obstante, o senso comum continua a afirmar dia e noite que “tudo que é bom dura pouco”, e as ciências parecem comprovar que todas as coisas nesse mundo e nessa vida têm um fim — a começar por essa vida e por esse mundo… ou será que não?.. Convidados Alexandre Leone, rabino e professor do programa de pós-graduação de estudos judaicos e árabes da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Fábio Bertato, pesquisador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Universidade Estadual de Campinas e membro da Sociedade Brasileira de História da Matemática e da Sociedade Brasileira de Lógica. João Cortese, mestre em História e Filosofia da Ciência pela Universidade Paris 7 e pesquisador de filosofia da matemática na Universidade de São Paulo. O post O Infinito apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Bhagavad Gita
Entrevista com Dilip Loundo, Lúcio Valera e Rubens Turci. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Há quem diga que o Mahabharata é o maior poema do mundo. Em certo sentido isso é indisputável: é o mais longo. O conflito épico entre os clãs irmãos Pandava e Kurava é sete vezes maior que a Ilíada e a Odisseia juntas. E no clímax de décadas de confronto, no campo da batalha decisiva, surge aquela que muitos consideram a mais preciosa joia da Índia para o mundo: a Canção de Deus, Bhagavad Gita. Em certo sentido isso também é indisputável. É a obra mais traduzida, comentada e amada da literatura religiosa indiana. Para Wilhelm von Humboldt “é o mais belo, talvez o único verdadeiro canto filosófico em qualquer língua, possivelmente a coisa mais profunda e elevada que o mundo tem a mostrar”. À frente do exército de seus irmãos, em frente ao exército de seus primos, o príncipe Arjuna lança por terra seu arco e flechas e colapsa sob o peso de um dilema: conquistar um reino sacrificando seus familiares, ou sacrificar seu dever cívico renunciando ao mundo. “Você tem de lutar!”, diz seu companheiro Krishna. Como um guru, ele instrui Arjuna sobre a natureza da alma, as dimensões da realidade e os caminhos da libertação, culminando na epifania mística em que se revela como o Deus supremo. A Bhagavad Gita é um esforço extraordinário para harmonizar tradições diversas e por vezes discordantes: os valores bramânicos e o código dos guerreiros; o panteísmo antigo e a religiosidade teísta; a ascese e a ação. Não à toa a Gita já foi chamada o “Novo Testamento hindu” e Krishna, o “Cristo indiano”. O Deus da Bhagavad Gita é certamente próximo a Yahweh, criador do Mundo e senhor da História. O poema é rico em paradoxos éticos e metafísicos que refletem as ambivalências da vida, mas, como no Evangelho, a mensagem final é cristalina: “Refugie-se em mim, eu o libertarei de todos os males, não tema”, diz Deus. “Aquele que medita em mim e me imita, eu elevo sobre o oceano da morte”. Mas como imitar um Deus que está em todas as coisas e além delas; que é criativo e destrutivo; uma pessoa e o Ser absoluto? Em busca de respostas, os gurus e filósofos moldaram indelevelmente a espiritualidade hindu. No século XX, o poema foi invocado por nacionalistas indianos para conclamar ao combate armado pela independência. Mas foi talvez Ghandi, o grande artífice da independência pela não-violência, quem compreendeu o seu verdadeiro chamado: a batalha interior pelo triunfo sobre o egoísmo.. . Convidados Dilip Loundo: Professor de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Uma introdução ao hinduísmo. Lúcio Valera: doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Introdução ao Sânscrito. Rubens Turci: Doutor em Estudos Religiosos pela McMaster University e autor de Shraddhà in the Bhagavad-Gità: A Magnetic Needle Pointing Toward Brahmanirvana. .. . O post A Bhagavad Gita apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Música no Século das Luzes
Entrevista com Mário Videira, Leandro Oliveira e Monica Lucas. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts O século XVIII se notabilizou como um período de intensa agitação intelectual e social, fruto da confiança ilimitada no poder da razão humana celebrada pelo chamado Iluminismo. Da física newtoniana à máquina a vapor, a cada dia uma nova descoberta científica prometia ampliar virtualmente ao infinito nosso conhecimento e domínio sobre a natureza. E enquanto a vida aristocrática atingia um zênite de requinte e sofisticação nas cortes absolutistas, nos burgos filósofos e reformadores sociais disseminavam as ideias igualitárias que iriam implodir o Antigo Regime durante a Revolução Francesa e a Independência Norte-americana. Mas do fundo de toda essa fúria a cultura da época extrairia uma sonoridade singularmente harmônica, e, sendo ou não adequado o título habitual de a Era da Razão, é também plausível denominar esse período, talvez como nenhum outro antes ou depois, o Século da Música. Bach, Handel, Vivaldi, Mozart, Beethoven são só alguns dos nomes arqui-conhecidos cuja presença massiva nas salas de concerto e estúdios fonográficos do mundo inteiro só faz aumentar ano a ano, e que, compondo na época da invenção do piano, da consolidação da sinfonia e da popularização da ópera, definiriam aquela que hoje reconhecemos como a música “clássica” por excelência. Mas quem foram esses homens? O que pensavam sobre a música? E quais as suas motivações ao compor? Acaso, como declararia posteriormente o escritor Ernst Hoffmann, estariam dominados por um “anseio ardente e insaciável” de “ultrapassar os aspectos comuns da vida” e “atingir na terra a promessa celestial que repousa em nossos corações, o desejo de infinito que nos liga ao mundo superior” ou, ao contrário, como dizia à época Joseph Haydn referindo-se às sua próprias composições, desejavam somente que “os cansados, os fatigados e os preocupados com negócios pudessem gozar de alguns momentos de consolo e repouso”?. .. Convidados Mário Videira, coordenador do curso de pós-graduação em música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e autor de O Romantismo e o Belo Musical. Leandro Oliveira, mestre em musicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, idealizador e professor do projeto “Falando de Música” da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Monica Lucas, chefe do departamento de música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, musicista e professora de história da música. O post Música no Século das Luzes apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Taoísmo
Entrevista com Chiu Yi Chih, Mônica Simas e Bony Schachter. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts ]Elemento comum à toda espiritualidade chinesa, o Tao significa “caminho”, mas para o taoísmo é também a Verdade e a Vida. A mais elusiva das tradições espirituais mundiais, o taoísmo compreende muitas subtradições, seitas religiosas e escolas filosóficas unidas por uma cosmologia similar e um objetivo comum de união com o Tao, que toma a forma de uma busca ou por imortalidade física ou por transcendência mística ou ambas. Sobre o seu mítico fundador, Lao Tzu, abundam anedotas hagiográficas, mas além disso não se sabe nada, nem sequer se existiu ou se escreveu o Tao Te Ching, o livro chinês mais lido, publicado e comentado — de fato, o segundo livro mais traduzido do mundo, depois da Bíblia. Apesar da popularidade, essa compilação de aforismos paradoxais é tão lacônica quanto críptica. Em contraste, tanto quanto o Tao Te Ching é conciso, o livro de Chuang Tzu — coalhado de lendas, parábolas e sátiras que desafiam as certezas sobre a religião, a linguagem, a lógica e a própria realidade — é prolixo. Estes mestres pregam o caráter cíclico do tempo; a eterna reversão do ser ao não-ser e vice-versa; e a solidariedade entre a natureza e o homem. Uma vida cultivada na compaixão, frugalidade e humildade terá tanta naturalidade que suas ações serão quase não-ações, ou ações não intrusivas, não voluntariosas, sem esforço. Mas apesar do aparente quietismo, o daoísmo se capilarizou em inúmeras sociedades secretas, seitas milenaristas e facções messiânicas. Apesar desse panteísmo volátil, seus fiéis convivem com uma multidão exorbitante de deuses, espíritos e demônios. E apesar dessa moralidade austera, seus ritos se proliferam em uma pletora de feitiços; exorcismos; elixires; talismãs; conjurações; adivinhações; transes; oráculos; fórmulas alquímicas; e técnicas meditativas, clínicas, marciais, ginásticas, dietéticas e sexuais, que reverberam hoje em práticas seculares como exercícios de meditação, o Tai Chi ou o Feng Shui. Tanto quanto o taoísmo enfatiza a natureza e o que é natural e espontâneo no ser humano, a sua tradição irmã, o confucionismo, se ocupa da sociedade humana e das responsabilidades sociais. A história de seus atritos e simbioses é a mais perfeita expressão dessa mistura singular de superstição e ceticismo, de piedade e racionalismo, que é o ideário chinês. Afinal, o que será o taoísmo: uma corrente profunda da cultura chinesa ou uma joia rara? Fruto do povo ou de uma elite minoritária? Será uma força contracultural, revolucionária, ou de consolidação do status quo político, ou será ainda inerentemente apolítica? .. (Ilustração: Piotr Siedlecki) .. Convidados Chiu Yi Chih: professor de filosofia chinesa clássica do Centro Cultural Taipei e tradutor do Dao De Jing. Mônica Simas: livre-docente de Letras da Universidade de São Paulo onde coordena o Laboratório de Interlocução com a Ásia. Bony Schachter: doutorando em História da China na Universidade de Fudan, em Xangai. .. .. O post Taoísmo apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Samurais
Entrevista com Célia Sakurai, João Marcelo Monzani e Márcia Namekata. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts ……….. Se a história é contada pelos vencedores, a do Japão é quase um conto de samurais sobre samurais para samurais. Do início do segundo milênio, quando os shoguns assumiram o poder da corte imperial, até a sua dissolução no século XIX, a elite marcial repeliu os mongóis, invadiu a Coreia e a China e dilacerou o país em guerras civis. Absorvendo Buda e Confúcio dos chineses, eles forjaram uma filosofia de vida, o Caminho do Guerreiro (Bushidô). Com coragem, honra e lealdade, o samurai devia viver pela espada e morrer pela espada — não raro pela sua. Idealmente todo nobre era guerreiro e todo guerreiro era nobre. Na prática, nem todo samurai era virtuoso, nem todo guerreiro era samurai e nem todo samurai era guerreiro. Pelo Bushidô, os samurais deveriam dominar a espada e o pincel. Mas após o clã Tokugawa unificar, pacificar e isolar o Japão, a maioria jamais viu uma espada encharcada de sangue – muito menos a sua. Seus arsenais e artes marciais tornaram-se ornamentais. Alguns viveram da pena. Muitos foram mecenas. Os samurais influenciaram tradições como as pinturas monocrômicas, os jardins de pedra ou a cerimônia do chá, e são os heróis das epopeias, dramas e foclóre do Japão. Dentre a mais mítica das armas, a espada, eles forjaram a mais mítica, a katana, e só os cowboys americanos rivalizam com seus ronins e ninjas como os fora-da-lei mais glamorizados — não como os mais glamorosos — da história. No cinema, TV, mangás e videogames esses vingadores estoicos vivem como máquinas de matar. Influenciando mestres do western, como Sergio Leone, e clássicos da ficção científica, como Guerra nas Estrelas, os samurais estão indelevelmente gravados na mitologia contemporânea. …………. Duelo entre Miyamoto Musashi e Sasaki Kojiro na ilha de Ganryu-jima. Ukiyo-e de Yoshifusa Utagawa, c. 1843-47 …………… Convidados Célia Sakurai: doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e autora de Os Japoneses. João Marcelo Monzani: professor de letras japonesas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Márcia Namekata: professora de Língua e Literatura japonesa da Universidade Federal do Paraná. O post Samurais apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Aleijadinho
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Entrevista com André Tavares, Angela Brandão e Mozart Bonazzi. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte.…….. “O novo Praxíteles … que honra igualmente a arquitetura e a escultura. … Superior a tudo e singular nas esculturas de pedra … é Antônio Francisco … Tanta preciosidade se acha depositada em um corpo enfermo que precisa ser conduzido a qualquer parte e atarem-se-lhe os ferros para poder obrar”. Afora uns parcos registros cartoriais, este trecho de um memorando de 1790 sobre a capitania das Minas Gerais é praticamente a única notícia conhecida sobre o Aleijadinho enquanto vivo. Entre os extremos de uma obra gloriosa e uma vida miserável, a obscuridade é tamanha que a partir dela já se inferiu e se questionou de tudo: a autoria de suas obras, seu valor, as motivações do artista, sua doença e até sua existência. Já sua primeira biografia, escrita 44 anos após sua morte, é para muitos suspeita de magnificar em chave romântica o herói artista; de dramatizar o gênio marginalizado pela sua cor, sua classe, sua doença; o monstro sublime que triunfa sobre o sofrimento com um esforço criativo sobre-humano. Ironicamente, o biógrafo, Rodrigo Bretas, já alertava para as “exagerações que se vão sucedendo e acumulando” sobre os indivíduos admiráveis até se compor “uma entidade ideal”. Os modernistas o reconfiguraram como um ícone do sincretismo nacional que deglutiu os cânones europeus e o imaginário africano e indígena para dar à luz uma obra original. O entusiasmo encomiástico de Mario de Andrade chega a proporções épicas: “O artista vagou pelo mundo. Reinventou o mundo. O Aleijadinho lembra tudo! Evoca os primitivos italianos, esboça o Renascimento, toca o Gótico, às vezes é quase francês, quase sempre muito germânico, é espanhol em seu realismo místico”. Mas é um caso exemplar das oscilações interpretativas sobre sua obra que enquanto Mario enxergava nas desproporções de suas estátuas a antecipação visionária do expressionismo, Oswald de Andrade só via “ignorância crassa” sobre anatomia, a mesma que acusaram tantos estrangeiros desinteressados dos cultos nacionais. Por outro lado, para um escritor com a sensibilidade e erudição do mexicano Carlos Fuentes, o mulato foi o maior “poeta” da América colonial; Lezama Lima o considerava a “culminação do barroco” na América; e para o crítico, historiador da arte e diretor de desenho e pintura do Louvre, Germain Bazin, este “Michelangelo brasileiro” foi “o último grande criador de imagens cristãs”. A controvérsia entre os construtores do mito e seus demolidores promete não ter fim. Mas embora estes últimos estejam escorados em sólidas inconsistências sobre a vida e a obra do Aleijadinho, não seriam as próprias torrentes de tinta e saliva consumidas nesta batalha em torno a elas o maior testemunho da sua potência plástica e indelével? ………… ……… Convidados André Tavares: professor de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo Angela Brandão: professora de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo Mozart Bonazzi: professor da Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.…. …… O post Aleijadinho apareceu primeiro em Estado da Arte.
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Buda
Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Entrevista com Ana Paula Gouveia, Frank Usarski e Rafael Shoji. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. ………. Estátuas de Buda no templo de Hase-Dera em Kamakura, Japão (Foto: Andrea Schaffer/Flickr) ………….. Quarta maior religião do mundo, o budismo é dominante nos países da Indochina e tem grandes populações no Japão e China. É também uma das religiões que mais crescem em nações como França, Estados Unidos, Canadá, Austrália e outras do Ocidente, em cujo imaginário Buda figura soberano como o arquétipo do sábio oriental. Com efeito, a Índia de Sidarta Gautama, há 2.500 anos, se parecia em mais de um aspecto com o mundo moderno: de um lado, imperava uma religião antiga e elevada, mas em parte ossificada por escrúpulos ritualísticos e rigorismos doutrinários, e em parte intoxicada por mitologias extravagantes; de outro, uma inquietação espiritual legítima era pervertida por um ceticismo radical e um materialismo desenfreado, quando não pelo cinismo mais niilista. O budismo é a única religião cujo fundador não se declara um profeta ou emissário de um deus e que rejeita a ideia de um Deus-Ser Supremo. Muitos afirmam que é apenas uma filosofia. Mas para Buda, dedicar-se a especulações caras aos filósofos, como se o universo é finito ou infinito ou se a alma é igual ao corpo ou diferente, é como um homem flechado de morte que se recusasse a extrair a flecha antes de saber quem a disparou; porquê; do que ela é feita; ou como o foi. Como Sócrates ou Kant ele relativizou as certezas metafísicas para consagrar o primado absoluto da ética. E como Jesus ou Maomé ele anunciou um caminho de salvação. Intérpretes modernos já o classificaram com um reformador liberal ético de um bramanismo degenerado; um grande humanista secular; um empirista radical; um psicólogo existencial; o proponente de um agnosticismo extremo ou o precursor de quaisquer outras ideologias afins aos seus vieses e pressuposições. O epíteto “Buda” significa “O Iluminado” ou “O Desperto”. Mas ele mesmo se classificava em termos crípticos como Tatagatha — “Aquele que veio”. Para Buda, toda existência é impermanente, insubstancial e sobretudo eivada de sofrimento — intensificado, no caso do ser humano, pela cobiça, ódio e ignorância que o aprisionam em inesgotáveis ciclos cósmicos de decadência, morte, renascimento e mais sofrimento. O único caminho para a libertação é a extinção do desejo através de uma vida dedicada à virtude, sabedoria e meditação. Ao fim, como ele não se cansava de reiterar, “tanto no passado como no presente eu prego só isso: o sofrimento e o fim do sofrimento”. … Convidados Ana Paula Gouveia: autora de Introdução à Filosofia Budista, com pós-doutorado em Estudos Budistas pela Universidade da Califórnia e pela École Pratique des Hautes Études da Sorbonne. Frank Usarski: professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor de O Budismo e as outras – Encontros e desencontros entre as Grandes Religiões Mundiais. Rafael Shoji: doutor em Ciências da Religião pela Universidade de Hannover e autor de Transnational Faiths. Apresentação: Marcelo Consentino Produção técnica: Compasso Coolab ….. ……. O post Buda apareceu primeiro em Estado da Arte.
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‘Os Lusíadas’ de Camões
(Monumento aos Descobrimentos, Lisboa; Foto de Gilbert Sopakuwa, Flickr) Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Em 1578, seis anos após a publicação dos Lusíadas, o jovem rei Dom Sebastião, exortado por Camões, conduziu as forças portuguesas ao massacre numa cruzada no Marrocos. Dois anos depois, pouco antes de morrer, o poeta viu a coroa ser passada às mãos do rei espanhol, onde permaneceu até 1640. “Fui tão afeiçoado à minha pátria”, disse, “que não me contentei de morrer nela, mas com ela.” Quatro séculos antes, nascia Portugal, com o triunfo do primeiro rei, Afonso Henriques, contra os mouros na batalha de Ourique. Após definir suas fronteiras em 1297, ele se tornou o primeiro estado nacional da Europa, consagrando-se com a expulsão dos mouros e dos espanhóis nas batalhas do Salado e Aljubarrota. À época de Camões — do racha entre católicos e protestantes; da ameaça turco-otomana; da redescoberta do mundo antigo; da descoberta do novo; do encontro com o mais velho dos mundos, as civilizações da China e da Índia — Portugal era uma das nações mais ricas e inovadoras. As aventuras oceânicas iniciadas com Henrique o Navegador, expandidas com Vasco da Gama, culminadas com Colombo e consumadas por Magalhães conectaram pela primeira vez todos os povos do planeta e detonaram a maior revolução comercial da história. Em muitos sentidos, Portugal liderava a travessia ao mundo moderno, e não surpreende que o destino reservasse a um luso transfigurá-la em canto, nem que seu herói fosse não um, mas uma legião. Os Lusíadas é o maior dos épicos nacionais; a saga do Humanismo; a primeira grande epopeia cristã da modernidade, como a Divina Comédia foi do medievo. Mas a de Dante, por fantástica que seja, é fantasia, a de Camões, realidade. Não lendas imemoriais, como em Homero e Virgílio: tão perto esteve o poeta do herói Vasco da Gama, que nasceu no ano em que o navegador morreu. Camões viveu a epopeia que compôs: marinheiro humanista, poeta soldado, com a espada numa mão e a pena na outra cruzou do Atlântico ao Índico; enfrentou muçulmanos na África; fez negócios na Ásia; amargou a ingratidão dos portugueses; e voltou pobre. O poeta anteviu a morte do primeiro Império global da História — na tragédia de Inês de Castro, nas premonições do velho do Restelo ante a voragem por ouro, glória e poder. Mas, através dos Lusíadas, os reis que foram “dilatando a Fé”; os “barões assinalados” que por mares nunca navegados passaram além “do que prometia a força humana”; “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da Morte libertando”, eles vivem; a mensagem mais preciosa de Portugal vive, renascida de seu naufrágio, como o próprio Camões renasceu entre destroços num rio da Indochina, com seu manuscrito entre os dentes.. ………….. Convidados ………………. Teresa Cerdeira, Professora de Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Hélder Macedo, Professor Emérito de português do King’s College de Londres. Rita Marnoto, Professora de artes e humanidades da Universidade de Coimbra. ………….. ………….. ………….. O post ‘Os Lusíadas’ de Camões apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A Independência do Brasil
……………………… Independência ou Morte, de Pedro Américo, 1888 Na virada do século XVIII para o XIX uma onda varreu o Novo Mundo transfigurando quase todas as velhas colônias em novos estados nacionais. Vendo de longe, é como se as estrelas tivessem se alinhado e as engrenagens da história se movessem numa cadência inexorável. Mas o teatro da emancipação brasileira teve traços insólitos. Num golpe, a colônia que era proibida não só de manter um exército, indústria ou livre comércio, como de criar universidades ou imprimir livros e jornais, se tornou um império. Diferentemente das outras colônias, como a norte-americana, o confronto armado com a metrópole foi mínimo, e diferentemente da América espanhola, a portuguesa manteve sua unidade. Visto de fora, tudo se passou quase como um episódio sucessório da dinastia Bragança — ou talvez uma instância preeminente do “jeitinho” brasileiro —, expondo as tendências incongruentes, mas também conciliatórias, da civilização luso-brasileira: a insurreição foi uma reação aos revolucionários liberais de Portugal que queriam restringir as liberdades do Brasil e exigiam a volta do rei; a independência foi proclamada contra ele pelo príncipe herdeiro, que depois impôs uma Constituição às elites brasileiras, as quais o forçaram a legar a coroa ao seu filho e retornar a Portugal, onde precipitou uma guerra civil contra seu irmão. Esta trama rocambolesca é em parte explicada pela transferência da corte para o Rio de Janeiro, que se transformou na capital de um império ultramarino — com todas as instituições públicas, civis e culturais condizentes com essa condição —, e em parte explica os contornos movediços das convulsões provinciais que pipocaram de norte a sul após a renúncia do imperador. Com nomes obscuros como Farroupilha, Sabinada ou Balaiada, algumas foram mero frisson das elites, outras explosões populares; algumas progressistas, outras reacionárias — ou uma mistura de tudo isso. A rebelião de caboclos do Pará conhecida como Cabanagem, por exemplo, terminou com a devastação da economia local, o extermínio de 20% da população e quase destruiu a capital, Belém. Mas sintomaticamente os cabanos nunca apresentaram demandas sistemáticas nem organizaram um programa de governo, limitando-se a gritar palavras de ordem contra estrangeiros, portugueses e maçons, e em favor da Igreja católica, Pedro II, o Pará e a liberdade. Quais os mitos e verdades sobre o nascimento da nação com o maior território, população e economia da América Latina? Como eles determinaram os destinos e desatinos da segunda maior democracia do Ocidente?… Convidados ………………. Lucia Bastos,Professora de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Corcundas e constitucionais: a cultura política da Independência. Marcello Basile, Professor de história da Universidade Rural do Rio de Janeiro e coeditor de Guerra literária: panfletos da Independência. Miriam Dolhnikoff, Professora de História da Universidade de São Paulo e autora de O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil.………….. ………….. O post A Independência do Brasil apareceu primeiro em Estado da Arte.
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A corte de Luís XIV
Entrevista com Laura Ferrazza, Robert Ponge e Rodrigo de Lemos. Por Marcelo Consentino. Rádio Estado da Arte. Todos os dias a mídia proclama um novo rei — o “Rei do Rock!”, o “Rei do Futebol!” — ; um mercador não tem pudores em se propagandear o “Rei da Banha”; toda turma tem o seu “Rei da Cocada Preta”. Mas houve um tempo — quase toda a história humana — em que em cada nação imperava um único rei, e nos tempos modernos – talvez em todos os tempos –, nenhum foi tão paradigmático quanto o Rei Sol. Em Luís XIV, disse Goethe, “a natureza fabricou o espécime do tipo monárquico, e, assim o fazendo, se exauriu e quebrou o molde”. Ele concentrou a autoridade da Igreja, o poder da aristocracia e o dinheiro da burguesia com mão de ferro, mas aberta. “Nunca na história um governante foi tão generoso para a ciência, as letras e as artes. Luís XIV perseguiu jansenistas e huguenotes, mas foi sob ele que Pascal escreveu, Bossuet pregou e Fénelon ensinou”, disse o historiador Will Durant. “Nunca a França escreveu melhores dramas, melhores cartas, ou melhor prosa. As boas maneiras do rei, seu autocontrole, sua paciência, seu respeito pelas mulheres, ajudaram a difundir uma cortesia encantadora na corte, em Paris e na Europa. Ele abusou de algumas mulheres, mas sob seu domínio as mulheres atingiram um status, na literatura e na vida, que deu à França uma cultura bissexual mais adorável do que qualquer outra no mundo. Tudo somado, e lamentando que tanta beleza tenha sido maculada com tanta crueldade, podemos nos unir à França em aclamar a era de Luís XIV como comparável à Grécia de Péricles, à Roma de Augusto, à Itália renascentista, e à Inglaterra elisabetana entre os picos da vacilante trajetória humana”. Visto à distância, é verdade, o que parecia o zênite da monarquia foi apenas a luz crepuscular de um antigo regime decadente, contraproducente e opressivo. A revolução democrática defenestrou os reis, guilhotinou suas cabeças, tolheu seu direito divino, e a voz do povo se tornou a voz de Deus. Mas se esse novo monarca anônimo e mais absoluto que os antigos por vezes os superou em magnanimidade, em tantas outras foi muito mais despótico. Talvez ele se engrandecesse se desse ouvidos à última palavra sobre o Rei Sol. Ao fechar as cortinas do Grand Siècle na oração fúnebre a Louis le Grand, o bispo de Massillon concluiu: “Só Deus é grande”. .. Louis XIV, patrono das artes e ciências | Jean Garnier, 1672 .. Convidados Laura Ferrazza: Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Robert Ponge: Pesquisador e orientador da Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rodrigo de Lemos: Professor do programa de Línguas Estrangeiras da Universidade Federal de Ciências da Saúde Pública de Porto Alegre. O post A corte de Luís XIV apareceu primeiro em Estado da Arte.
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