EPISODE · Dec 25, 2025 · 7 MIN
Dia de Natal - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
No Evangelho que acabámos de escutar, o prólogo do Evangelho segundo São João, encontramos uma afirmação verdadeiramente bombástica: *“O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.”* Este é o centro, o essencial daquilo que hoje celebramos no dia de Natal. Não se trata de uma frase acessória, mas do coração da nossa fé cristã.Esta verdade é tão importante que, cada vez que recitamos o Credo na Eucaristia, quando dizemos *“e encarnou”*, somos convidados a fazer um gesto especial de reverência. No dia de Natal, aqueles que puderem ajoelham-se nesse momento, para mostrar com o próprio corpo o quanto esta verdade é fundamental para nós: Deus fez-Se homem.Aqui começa a revelar-se uma tensão que muitas vezes marca a celebração do Natal. Por um lado, celebramos uma realidade profunda, central e decisiva para a vida de todos nós: Deus fez-Se carne e habitou entre nós. Por outro lado, a forma como o Natal é vivido nas famílias, nas cidades e nas vilas pode facilmente parecer uma festa infantil, ou até infantilizante. Esta tensão mostra-nos como a religião pode, por vezes, ser mal vivida ou mal compreendida, levando a uma experiência que não assume plenamente aquilo que somos enquanto homens e mulheres adultos, capazes de profundidade, de pensamento e de responsabilidade.Contudo, quando afirmamos que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, estamos a dizer algo imensamente profundo e exigente. Deus podia ter vindo ao mundo apenas como Deus: apresentando-Se, falando, realizando milagres. Mas não foi assim que escolheu vir. Deus veio ao mundo assumindo a nossa condição humana. Não está apenas diante de nós; está em nós. Assumiu aquilo que somos, a nossa fragilidade, os nossos limites, a nossa história.Ao assumir a condição humana, Deus passa a falar connosco a partir da nossa própria experiência. O Verbo eterno diz Deus através das nossas emoções, dos nossos sentimentos, da nossa forma humana de pensar e de compreender o mundo. Por isso, o dia de Natal é, de certa forma, o dia da sabedoria: o dia em que, a partir da nossa própria vida concreta, temos legitimidade para fazer experiência de Deus, para pensar quem Ele é e reconhecer a Sua presença no nosso quotidiano.Esta experiência não tem nada de infantil. Pelo contrário, humaniza-nos profundamente. Quando vivemos atentos à nossa vida, às nossas ações, aos nossos sentimentos e emoções, começamos a pressentir a presença de Deus. E, sem nos darmos conta, percebemos que aquilo que desejamos no mais fundo de nós — aquilo que queremos, pensamos e procuramos — é sempre uma vida plena, uma plenitude que nos transcende. Todos nós desejamos “ser como deuses”, isto é, desejamos plenitude. Podemos procurar esse desejo pela transgressão ou pela obediência.Em Jesus Cristo, Deus fala-nos em linguagem humana e mostra-nos que fomos criados à Sua imagem e semelhança. No Natal, celebramos precisamente isto: um Deus que se faz próximo, que entra na nossa história, para que, na nossa humanidade, possamos descobrir o caminho da verdadeira plenitude.
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