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PODCAST · religion

Uma palavra no seu caminho

Um podcast que marca o ritmo da vida, através da liturgia dominical.

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  1. 1000

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Homilia

    No Antigo Testamento encontramos a chamada lei de talião: «olho por olho, dente por dente». À primeira vista, pode parecer uma lei violenta; na verdade, pretendia limitar a violência. Se alguém me causasse um dano, eu não poderia responder com um mal maior. Era já uma forma de travar a espiral da vingança.Jesus, porém, vai mais longe. Não nos pede apenas que não retribuamos o mal com um mal maior: pede-nos que perdoemos. Pedro pergunta-Lhe: «Se o meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Sete já parece muito. Mas Jesus responde: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete». Isto é: sempre.Dizê-lo é fácil; vivê-lo é muito mais difícil. Há pequenas contrariedades que rapidamente ultrapassamos. Mas há ofensas que nos ferem por dentro: uma traição, uma calúnia, uma injustiça profunda. Perante essas feridas, perdoar pode parecer humanamente impossível. E talvez seja. Há perdões que só são possíveis com Deus.É por isso que Jesus conta a parábola dos dois devedores. Um servo devia ao rei dez mil talentos: uma quantia absolutamente incomportável, uma dívida que jamais conseguiria pagar. Pede apenas tempo, mas o rei faz muito mais: perdoa-lhe toda a dívida. Pouco depois, esse mesmo servo encontra um companheiro que lhe devia cem denários. Também este lhe pede tempo. Mas ele recusa, manda-o prender e exige que pague tudo.A desproporção é o coração da parábola. Jesus não está a dizer que as ofensas que recebemos são insignificantes. Algumas doem profundamente. Está a dizer-nos que o perdão começa quando tomamos consciência do perdão que nós próprios recebemos de Deus. O rei diz ao servo: «Não devias também tu compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?»Talvez aqui esteja o segredo. Se eu me concentrar apenas na obrigação de perdoar, posso sentir-me ainda mais frustrado: sei que devo perdoar, mas não consigo. O caminho começa noutro lugar: reconhecer quanto Deus me perdoa, quanto me ama, quanta compaixão tem de mim. É dessa experiência que pode nascer, pouco a pouco, a capacidade de perdoar os outros.E perdoar não é esquecer. A memória é um dom; não precisamos de fingir que nada aconteceu. Perdoar é impedir que uma ferida do passado continue a governar o nosso futuro. É deixar de permitir que aquela ofensa determine as nossas escolhas, alimente a vingança, o medo, a angústia ou o ressentimento.Atribui-se a Nelson Mandela uma frase muito expressiva: se, depois de sair da prisão, continuasse dominado pelo ódio aos que o tinham prendido, teria saído da prisão, mas a prisão não teria saído dele. A imagem é verdadeira para nós. Também podemos viver em pequenas prisões interiores: «não vou ali porque está aquela pessoa»; «não falo desse assunto para não me lembrar»; «não faço isto porque tenho medo de voltar a sofrer». A ofensa continua, assim, a produzir efeitos muito depois de ter acontecido.O perdão rompe essa cadeia. Não torna bom aquilo que foi mau, não chama justo ao que foi injusto, nem dispensa a verdade ou a justiça. Mas impede que o mal recebido continue a ter poder sobre nós.Por isso, quando nos for difícil perdoar, talvez devamos começar não por olhar para quem nos feriu, mas para Deus. Recordar quanto Ele nos perdoou, quanto nos ama e como tem compaixão de nós. E pedir-Lhe a graça de fazer em nós aquilo que, sozinhos, não conseguimos fazer. Porque perdoar é uma obra profundamente humana, mas há momentos em que só se torna possível quando deixamos Deus agir em nós.

  2. 999

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  3. 998

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  4. 997

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XXIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  5. 996

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Homilia

    O Evangelho de hoje convida-nos a olhar com atenção para uma das dimensões mais belas e, ao mesmo tempo, mais exigentes da nossa vida: as relações interpessoais.Nós fomos feitos para a relação. Só nos realizamos verdadeiramente quando estamos com os outros, quando partilhamos a vida e nos deixamos tocar pela presença de alguém. Mas precisamente porque precisamos uns dos outros, as relações geram também tensões. Quanto mais próximos estamos, mais facilmente «damos com os cotovelos» uns nos outros. Onde há proximidade, há diferenças, incompreensões, erros e, por vezes, ofensas.Talvez, por isso, tenhamos de abandonar a ideia de uma Igreja ideal, formada por pessoas perfeitas, onde todos se entendem e nunca há conflitos. Essa Igreja não existe. O Evangelho de hoje não nos apresenta uma comunidade sem problemas; apresenta-nos uma comunidade que sabe o que fazer quando os problemas aparecem.E deixa-nos um princípio decisivo: a Igreja não é uma comunidade onde todos são perfeitos; é uma comunidade onde ninguém é deixado sozinho.Jesus diz: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós». Se te escutar, ganhaste o teu irmão. Se não escutar, leva contigo mais uma ou duas pessoas. E, se ainda assim não for possível, leva a questão à comunidade. Há aqui uma insistência extraordinária: aquele que errou não é imediatamente posto de lado. Há um esforço para o procurar, para dialogar com ele, para o ajudar a reencontrar o seu lugar.Mas isto exige coragem. A coragem de falar.São Paulo, na segunda leitura, oferece-nos a chave: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor uns para com os outros». Parece simples, mas é muito exigente. Se a nossa única dívida é o amor, então essa dívida nunca fica inteiramente paga. Estamos sempre a dever amor ao outro.E amar não significa apenas ser simpático, evitar conflitos ou permanecer calado. Há momentos em que amar implica falar. Dizer ao outro aquilo que talvez ele não queira ouvir. Corrigir, advertir, chamar a atenção — não para mostrar que temos razão, mas porque nos preocupamos verdadeiramente com a sua vida.É aqui que a primeira leitura, do profeta Ezequiel, se torna particularmente exigente: «Se ouvires uma palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte». Deus responsabiliza o profeta pelo irmão. Não lhe permite dizer: «A vida é dele, ele é que sabe». De certo modo, somos responsáveis uns pelos outros.Mas há uma pergunta essencial: quando falamos, porque falamos? Falamos para vencer uma discussão? Para mostrar ao outro que está errado? Ou falamos porque desejamos verdadeiramente o seu bem?A correção cristã só é cristã quando nasce do amor. Caso contrário, transforma-se facilmente em julgamento, superioridade ou violência disfarçada de verdade.E há ainda o outro lado. Se é difícil falar, também é difícil ouvir. Ninguém gosta de ser chamado à atenção. Por isso, o salmo oferece-nos outra atitude fundamental: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações».Talvez, por vezes, a voz do Senhor nos chegue precisamente através de alguém que nos diz aquilo que não gostaríamos de ouvir. Em vez de fecharmos imediatamente o coração, talvez devamos perguntar: haverá aqui alguma verdade que preciso de escutar?Não existem comunidades perfeitas. Mas as nossas comunidades seriam certamente mais humanas, mais eclesiais e mais santas se aprendêssemos duas coisas simples e difíceis: falar por amor e escutar com humildade.Usar as palavras não para ferir, mas para construir pontes; não para excluir, mas para recuperar; não para vencer o outro, mas para o ganhar como irmão.Porque uma comunidade cristã não é aquela onde ninguém erra. É aquela onde, apesar dos erros, ninguém fica para trás.

  6. 995

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  7. 994

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  8. 993

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XXIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  9. 992

    XXII Tempo Comum - Homilia

    O Evangelho que acabámos de escutar é, no mínimo, embaraçoso para São Pedro. Jesus dá-lhe uma repreensão duríssima: «Vai para trás de mim, Satanás! Tu és para mim ocasião de escândalo». E tudo porque Pedro, aparentemente por carinho, não queria aceitar que Jesus tivesse de sofrer. Jesus começava a preparar os discípulos para a sua paixão, morte e ressurreição; Pedro reage segundo os critérios humanos. E Jesus explica-lhe onde está o erro: «Tu não tens em vista as coisas de Deus, mas as dos homens».Aqui aparece uma tensão que conhecemos bem: a diferença entre os critérios de Deus e os critérios do mundo. Em consciência, percebemos muitas vezes o que seria justo, honesto, evangélico; mas o ambiente em que vivemos empurra-nos noutra direção. E, por vezes, cansamo-nos. Jeremias exprime esse cansaço na primeira leitura: «Não falarei mais no seu nome». Talvez também nós já tenhamos pensado: para quê esforçar-me por ser justo, por ser fiel, por viver segundo o Evangelho, se parece que nada muda?Mas Jeremias acrescenta: «Havia no meu coração um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos; procurei contê-lo, mas não pude». Também em nós existe este fogo: é a graça de Deus derramada sobre cada um de nós, que nos chama, nos inquieta e nos transforma.É por isso que regressamos à Eucaristia, domingo após domingo. Não porque seja apenas um rito de uma hora, mas porque ela ilumina e fortalece a nossa vida. São Paulo diz-nos: «Oferecei-vos a vós mesmos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus». E talvez esta frase nos ajude a compreender melhor o que dizemos na Missa: «Orai, irmãos, para que o meu e vosso sacrifício seja aceite por Deus Pai todo-poderoso».Aqui, sacrifício não significa simplesmente algo que custa ou faz sofrer. Significa oferta, entrega. Na Eucaristia, Deus oferece-se por nós; em Cristo, dá-se inteiramente, morre e ressuscita por nós. E nós aprendemos essa mesma gramática da dádiva: Deus entrega-se a nós, e nós entregamo-nos a Deus.É então que compreendemos São Paulo: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para saberdes discernir a vontade de Deus». A Eucaristia não é apenas um rito celebrado; é uma vida oferecida.Às vezes ouvimos: «A Missa não me diz nada». E eu perguntaria: mas tu, o que dizes à Missa? O que levas? O que entregas? Estás apenas a assistir, como quem está num teatro, ou estás verdadeiramente a participar? Em cada Eucaristia estamos, de certo modo, a treinar para nos oferecermos a Deus e aos outros.Por isso Jesus pode dizer: «Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me». Parece que perder a vida é ficar com menos. Mas no Evangelho acontece o contrário: quanto mais me entrego a Deus, mais plenamente sou eu próprio; quanto mais me esvazio do egoísmo, mais humano me torno.É aqui que se mede também a verdade das nossas Missas. A Eucaristia tem valor na medida em que se prolonga na vida: na forma como me dou aos outros, na capacidade de não deixar ninguém tornar-se indiferente para mim, mesmo quando pensa de maneira diferente, mesmo quando o outro falhou. Eu aprendo isto com Jesus, porque estou com Ele, porque O escuto, porque O recebo.No salmo rezávamos: «A minha alma tem sede de vós, meu Deus». Todos trazemos esta sede de plenitude, de verdade, de beleza, de sentido. E como se sacia esta sede? Aprendendo com Jesus a dar de beber, isto é, a dar-nos. É quando nos oferecemos aos outros que aquele vazio começa a encher-se.Por isso compreendo quem diz que a Eucaristia é «uma seca». Mas tenho pena, porque talvez ainda não tenha descoberto tudo o que nela acontece. A Eucaristia é o lugar onde, através de gestos e palavras, nos reunimos com os irmãos e com Deus, para nos encontrarmos com o Senhor. A vida, muitas vezes, continua igual. Mas nós saímos diferentes. E, por isso, a vida pode ganhar outra leveza, outro sentido e outra verdade.

  10. 991

    XXII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XXII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  11. 990

    XXII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XXII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  12. 989

    XXII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XXII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  13. 988

    XXI Domingo do Tempo Comum - Homilia

    No Evangelho de hoje, Jesus confia a Pedro o «poder das chaves»: «Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu». Esta expressão fundamentou, justamente, a compreensão da autoridade e do serviço de governo na Igreja. Mas gostaria de a ler hoje de modo mais existencial: que portas abre a fé na nossa vida? E que portas nos ajuda a fechar?Tudo começa com a pergunta de Jesus: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Surgem várias respostas: João Batista, Elias, Jeremias, algum dos profetas. São opiniões. E nós também temos opiniões sobre quase tudo. Podemos preferir o azul ou o verde, o mar ou a montanha. A opinião é legítima, mas não compromete profundamente a vida.Há depois as crenças. «Este ano o meu clube vai ser campeão»; «um dia hei de ganhar a lotaria». A crença já nos move um pouco mais, mas nem sempre dispõe de razões suficientemente sólidas.E há aquilo que sabemos com tal convicção que orienta as nossas decisões. Se sabemos qual é o caminho mais curto, seguimos por ele. A certeza gera ação.Onde fica, então, a fé? A fé cristã não é uma simples opinião sobre Deus. Também não é apenas uma crença herdada da família, da catequese ou do grupo a que pertencemos. Mas também não é uma certeza matemática, como saber que dois e dois são quatro. A fé é uma certeza de outra ordem: uma convicção que nasce da relação, do encontro, da experiência de Deus.Por isso, quando Pedro responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», Jesus diz-lhe: «Não foi a carne nem o sangue que to revelaram, mas o meu Pai que está nos Céus». Pedro não chegou ali apenas porque pensou muito. Reconheceu Jesus porque se deixou tocar por Deus.Também nós somos chamados a passar de uma fé recebida para uma fé assumida. Podemos ter sido educados cristãmente, ter ido à catequese, gostar da Missa; tudo isso é valioso. Mas, se não houver algum encontro pessoal com o Senhor, corremos o risco de chegar à idade adulta com uma fé que permaneceu infantil. Somos adultos na fé quando aquilo em que acreditamos se transforma em convicção e gera uma maneira cristã de viver.E é aqui que regressam as chaves. O Evangelho é uma chave. Abre-nos para aquilo que é vida, verdade, reconciliação, serviço, perdão, esperança. E ajuda-nos a fechar a porta ao que nos diminui, ao que fere a dignidade, ao egoísmo, ao ressentimento, àquilo que não conduz à vida plena.A fé, porém, precisa de ser cultivada. Como? Estando em relação com Jesus, ouvindo a sua Palavra e procurando-O nos lugares onde Ele prometeu estar: na Eucaristia, na liturgia, no serviço aos outros, na caridade, no perdão. A fé aprende-se também vivendo.Os mais velhos compreendem bem isto quando dizem: «Agora percebo aquilo que o meu pai me dizia e que, naquele tempo, eu não entendia». Há coisas que só se compreendem depois de atravessadas. Também compreendemos melhor Jesus quando passamos por experiências semelhantes às suas: amar, servir, perdoar, sofrer, permanecer fiéis, recomeçar.Por isso, hoje não gostaria de aumentar a nossa lista de obrigações. Gostaria antes que cada um reconhecesse as experiências que já alimentaram a sua fé: uma oração, uma Eucaristia, uma reconciliação difícil, a visita a alguém que estava sozinho, o nascimento de um filho, uma doença atravessada com esperança, um compromisso mantido quando seria mais fácil desistir.Talvez seja aí que Deus nos tenha dito, como a Pedro: «Feliz de ti». Não porque tenhamos entendido tudo, mas porque nos deixámos encontrar.A pergunta de Jesus continua dirigida a cada um de nós: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Que possamos responder não apenas pelo que ouvimos dizer, mas pelo que vivemos: «Tu és o Filho de Deus vivo». Então compreenderemos que a Palavra de Deus é verdadeiramente luz e chave: chave para abrir a vida àquilo que a torna boa, fecunda e plena.

  14. 987

    XXI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XXI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  15. 986

    XXI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XXI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  16. 985

    XXI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XXI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  17. 984

    XIX Domingo do Tempo Comum - Homilia

    O tempo litúrgico que estamos a viver, o Tempo Comum, ajuda-nos precisamente a tomar consciência do que é comum na nossa vida: um dia depois do outro, as tarefas, o trabalho, os encontros, as preocupações. Mesmo quando há alguma pausa por causa das férias, a maior parte da nossa existência não tem nada de extraordinário. E é justamente aí que Deus nos quer encontrar.No final do Evangelho, os discípulos dizem a Jesus: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus». É porque também nós acreditamos nisto que estamos aqui a celebrar a Eucaristia. Mas isso não significa que a nossa fé nos poupe às tempestades. Há momentos de tribulação, situações inesperadas, acontecimentos que nos assustam. E, com o medo, surge muitas vezes a dúvida: onde está Deus? Onde está Jesus?O Evangelho diz-nos que Jesus está no meio da tempestade. Não necessariamente para fazer desaparecer todos os problemas, nem para colocar a vida de acordo com os nossos desejos, mas para nos dizer: «Estou aqui. Dá-me a mão. Vamos atravessar juntos esta dificuldade». Também Pedro reconhece Jesus, começa a caminhar para Ele e, depois, tem medo e duvida. Isso pode acontecer connosco. E, quando acontece, Jesus continua ali para nos estender a mão.Talvez a nossa maior dificuldade seja reconhecer a presença de Deus. E a primeira leitura, com o profeta Elias, oferece-nos uma imagem belíssima. Elias espera o Senhor. Vem um vento forte, capaz de quebrar os rochedos, mas Deus não está no vento. Vem um terramoto, mas Deus não está no terramoto. Vem o fogo, mas Deus também não está no fogo. Finalmente, ouve-se o murmúrio de uma ligeira brisa. E Elias percebe: Deus está ali.Nós gostaríamos, por vezes, de encontrar Deus no extraordinário, no espectacular, no que se impõe. Mas Deus manifesta-Se frequentemente de modo discreto, quase silencioso, na ligeira brisa do quotidiano. Por isso, para reconhecermos Jesus quando chega a tempestade, precisamos de aprender a reconhecê-Lo antes, na normalidade dos nossos dias.E como se faz isso? O salmo dá-nos uma pista: «Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor e dai-nos a vossa salvação». Depois fala-nos de misericórdia e fidelidade, de justiça e paz. É aí que Deus se deixa encontrar. Quando, no nosso quotidiano, procuramos ser misericordiosos e fiéis, construir a paz e praticar a justiça, o nosso coração aprende a reconhecer a presença de Deus.Mas há ainda uma tentação a evitar. Podemos pensar que, porque reconhecemos Jesus, somos melhores do que os outros. Podemos olhar de cima para quem não acredita ou não vive a fé como nós. São Paulo mostra-nos exactamente o contrário. Ele sente «uma grande tristeza e uma dor contínua» pelos seus irmãos que ainda não reconheceram Cristo. Não os despreza; sofre por eles. Desejaria dar tudo para que também eles descobrissem aquilo que ele próprio encontrou.E aqui temos um critério muito simples para sabermos se encontrámos verdadeiramente Cristo: depois de O encontrar, sentimo-nos superiores aos outros ou tornamo-nos mais compassivos, mais misericordiosos, mais desejosos de partilhar?Quem encontra verdadeiramente Jesus não se coloca acima de ninguém. Reconhece que recebeu um dom e deseja que outros possam experimentar a mesma alegria, a mesma esperança e a mesma paz.Peçamos, por isso, ao Senhor que nos ensine a reconhecê-Lo na brisa discreta do nosso quotidiano; que, nas tempestades, saibamos agarrar a sua mão; e que a nossa fé nunca se transforme em superioridade, mas sempre em misericórdia, proximidade e desejo de partilhar com os outros a alegria de O ter encontrado.

  18. 983

    XIX Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XIX Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  19. 982

    XIX Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XIX Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  20. 981

    XIX Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XIX Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  21. 980

    XVIII Dom. Tempo Comum - Homilia

    A homilia foi revista, estruturada e reduzida para cerca de 3868 caracteres, incluindo espaços.À primeira vista, as leituras de hoje parecem apresentar-nos um Deus pouco prudente. Na primeira leitura, o povo encontra-se no deserto, cansado, com fome e sede. E o Senhor diz: «Vinde à nascente das águas; vós que não tendes dinheiro, vinde comprar e comer. Vinde comprar, sem dinheiro e sem despesa, vinho e leite». Poderíamos quase pensar que Deus está a brincar com a necessidade daquele povo: manda-o comprar sem dinheiro, precisamente quando, no deserto, nada há para comprar.No Evangelho, a situação parece ainda mais desconcertante. Ao cair da tarde, os discípulos apercebem-se de que a multidão está num lugar deserto e não tem que comer. Propõem então uma solução sensata: «Manda embora as pessoas, para que vão às aldeias comprar alimento». É a prudência humana a funcionar: cada um procure resolver o seu problema.Mas Jesus responde: «Não precisam de se ir embora. Dai-lhes vós de comer». Os discípulos olham para o que têm e fazem as contas: apenas cinco pães e dois peixes. É manifestamente insuficiente. Contudo, Jesus manda sentar a multidão, toma aqueles poucos alimentos, recita a bênção, parte-os e entrega-os. E todos comem até ficarem saciados.Esta passagem ensina-nos que a matemática do Reino de Deus não coincide com a nossa. Nós contamos o que temos, o que fizemos, o que alcançámos. Deus convida-nos a perguntar de outro modo: que fez Ele através de nós? Que realizou com a nossa pobreza, as nossas limitações e os nossos escassos recursos?Quando olhamos apenas para nós, nunca chega. Nunca fizemos o suficiente, nunca temos tudo o que seria necessário, permanecemos longe do ideal que traçámos. Mas, quando contemplamos o que Deus realiza através da nossa pequenez, ficamos maravilhados. Os cinco pães e os dois peixes representam as nossas capacidades limitadas, os carismas recebidos, as pequenas virtudes que possuímos. Quando são colocados ao serviço dos outros e confiados à graça de Deus, adquirem uma fecundidade que não poderíamos prever.Aqui se toca o essencial do discipulado: acreditamos mais na graça de Deus ou nas nossas capacidades? Na hora da verdade, gostamos de ter o celeiro cheio, as contas certas e tudo sob controlo. Preferimos aquilo que podemos medir, pesar e garantir. Mas Jesus diz-nos: mais importante do que aquilo que fazes é aquilo que Eu faço através de ti.Muitas vezes duvidamos. Parece-nos pouco razoável, demasiado belo para ser verdade. No entanto, basta olhar com humildade para a própria vida. Quantas vezes, através das nossas limitações, Deus realizou maravilhas? Quantas vezes, porque tivemos a coragem de Lhe entregar o pouco que éramos e tínhamos, Ele fez muito?A grande fonte da nossa esperança não se encontra apenas nas grandes narrativas da Bíblia. Encontra-se também na nossa própria vida, quando a aprendemos a ler como história de salvação: uma vida amada, procurada e transformada por Deus. Somos frágeis, possuímos poucas qualidades e conhecemos bem as nossas insuficiências. Mas somos também filhos amados de Deus, em quem e através de quem Ele continua a realizar a sua obra.Por isso compreendemos as palavras de São Paulo: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada?» Nada disso nos separará. Não porque sejamos fortes, robustos ou poderosos, mas porque Deus nos ama e nos concede a sua graça.Há momentos em que tudo parece correr mal e desabar. Contudo, permanece dentro de nós uma paz que afirma: Deus continua a amar-te. E, se sabes que és amado por Ele, nenhuma dificuldade terá a última palavra.Façamos, então, um instante de silêncio. Recordemos todas as vezes em que entregámos a Deus o nosso pouco e Ele realizou o muito. Todas as vezes em que, através da nossa pobreza, humildade e disponibilidade, criou à nossa volta um verdadeiro banquete de vida, de esperança e de verdade.

  22. 979

    XVIII Domingo do Tempo Comum -Evangelho

    XVIII Domingo do Tempo Comum -Evangelho

  23. 978

    XVIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XVIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  24. 977

    XVIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XVIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  25. 976

    XVII Domingo do tempo Comum A - Homilia

    No terceiro domingo consecutivo, a liturgia coloca no centro da nossa reflexão o Reino de Deus. À primeira vista, poderíamos perguntar: haverá assim tanto para dizer sobre o Reino? Na verdade, há, porque ele constitui o coração da pregação de Jesus. As suas primeiras palavras são claras: «Arrependei-vos e acreditai, porque o Reino de Deus está próximo.» O Reino revela-nos a meta da nossa peregrinação: aquilo que Deus sonha para cada um de nós.São Paulo exprime-o de forma admirável: fomos chamados a ser «conformes à imagem do seu Filho». Isto significa deixarmo-nos moldar por Cristo, até nos tornarmos outros Cristos. É este o exercício quotidiano da vida cristã: abandonar tudo o que nos afasta do Reino e abraçar tudo o que nos torna mais semelhantes ao rosto de Jesus.O Evangelho apresenta o Reino como um tesouro escondido e como uma pérola de grande valor. Quem os encontra vende tudo o que possui, não porque despreze o resto, mas porque descobriu algo infinitamente melhor. Este é o dinamismo da fé: Deus não nos conquista pelo medo, pelo cálculo ou pela obrigação, mas pela beleza do seu amor. O Senhor não se impõe; propõe-se. Cabe-nos deixar-nos enamorar pela sua verdade e pela sua bondade.Talvez por isso o salmista proclame: «Quanto amo, Senhor, a vossa lei!» Não diz: quanto a temo, quanto a cumpro ou quanto a suporto. Diz: quanto a amo. Só quem experimenta a beleza de Deus consegue escolher verdadeiramente o seu caminho.Mas isso exige tempo. Precisamos de reservar momentos «sem tempo»: instantes de silêncio, de oração, de escuta e de contemplação. É verdade que encontramos Deus nas tarefas do dia a dia, mas reconhecemo-lo com muito maior facilidade quando aprendemos primeiro a permanecer na sua presença. A liturgia retira-nos do ritmo frenético da vida e devolve profundidade aos nossos dias; a oração reorganiza o coração e clarifica o olhar.Depois chega o momento mais exigente: o das escolhas. Aqui, na igreja, é relativamente fácil desejar ser cristão. A dificuldade começa quando regressamos à família, ao trabalho, à escola ou às redes sociais, onde tantas vozes nos dizem como devemos viver. Sem um coração formado por Deus, acabamos facilmente confundidos.É por isso que a primeira leitura é tão atual. Quando Deus pergunta a Salomão o que deseja receber, ele não pede riqueza nem poder. Pede «um coração inteligente para distinguir o bem do mal». Talvez esta devesse ser também a nossa oração quotidiana: «Senhor, dai-me um coração sábio, capaz de reconhecer o bem e de o escolher.»Contudo, a vida de Salomão recorda-nos também que esse dom não dispensa a vigilância. Apesar da sabedoria recebida, nem sempre permaneceu fiel. Também nós precisamos de renovar continuamente este pedido, porque discernir o bem e escolhê-lo não é uma conquista definitiva, mas um caminho de conversão permanente.Que o Senhor nos conceda, hoje e sempre, um coração convertido, capaz de reconhecer o verdadeiro tesouro e de escolher, em cada circunstância, aquilo que mais nos aproxima do seu Reino.

  26. 975

    XVII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XVII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  27. 974

    XVII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XVII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  28. 973

    XVII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XVII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  29. 972

    XVI Domingo do Tempo Comum - Homilia

    Na semana passada, refletimos sobre o valor e o significado que a palavra «Deus» tem na nossa vida. Hoje, essa mesma palavra convida-nos a pensar no Reino de Deus e a compreender que a conversão a Jesus consiste, precisamente, em acolher em nós a dinâmica do seu reinado.Converter-se não é apenas mudar alguns comportamentos exteriores. É aprender a viver segundo a lógica de Deus, deixando que a sua graça transforme os nossos critérios, os nossos afetos e as nossas escolhas. Mas, para que isso aconteça, é necessário desejar a conversão, querê-la verdadeiramente e deixar que esse desejo se inscreva no coração.Podem impressionar-nos os grandes monumentos, as manifestações religiosas, os templos, os rituais ou as obras grandiosas realizadas ao longo da história por homens e mulheres de fé. Tudo isso pode despertar em nós o desejo de Deus. Contudo, se ficarmos apenas pela aparência, permaneceremos muito longe do essencial.A fé bíblica ensina-nos que Deus está presente no mundo e se dá a conhecer através da sua Palavra. Sem olhos e coração educados pela escuta, pela meditação e pela graça, podemos não reconhecer os sinais de Deus e até interpretar de modo errado as próprias manifestações religiosas.O povo de Israel conheceu, no Egito, uma religião imponente: templos grandiosos, rituais organizados e sinais visíveis de poder. Ainda hoje permanecem monumentos dessa civilização, como as pirâmides. Mas uma religião que se limita ao esplendor exterior corre o risco de permanecer epidérmica: impressiona os sentidos, mas não converte o coração.Para entrar verdadeiramente em nós, Deus dá-nos a sua Palavra. A semente lançada no coração é a Palavra que desperta o desejo de uma vida nova, segundo a beleza, a verdade e a bondade que Deus nos revela. O Senhor, porém, não pode mostrar-nos essa beleza se não nos demorarmos a escutá-lo.Escutar a Palavra exige que convoquemos tudo aquilo que somos: a inteligência, a memória, a experiência e a vontade. O conhecimento começa muitas vezes por uma pergunta: o que significa isto? Porque acontece assim? Onde está Deus nesta situação? Depois procuramos compreender, reunimos informação, escutamos, refletimos e formamos uma convicção.Mas o conhecimento autêntico não pode ficar reduzido a uma mera opinião. Aquilo que reconhecemos como verdadeiro deve gerar uma decisão, uma prática e uma mudança de vida. No campo da fé, essa aprendizagem chama-se conversão. Não basta saber; é preciso escolher e agir em conformidade.Por isso, o cristão não deve ter medo das perguntas. A fé não elimina a inquietação; orienta-a. Podemos interrogar Deus diante da morte, da doença, da injustiça ou da catástrofe. Podemos até reclamar com Ele, como fazemos com os amigos. A Sagrada Escritura está cheia dessas perguntas. O importante é não fechar o coração, mas continuar a escutar, a discernir e a procurar o que o Senhor nos ensina.Quando acolhemos a dinâmica do Reino, tornamo-nos mais comprometidos, mais compassivos e mais pacientes. Compreendemos que a realidade não é simplesmente branca ou preta. O trigo e o joio crescem juntos no mundo e também dentro de nós. Nem tudo o que é imperfeito deve ser arrancado imediatamente, porque, na ânsia de eliminar o joio, podemos destruir também o trigo.Esta consciência torna-nos misericordiosos connosco próprios e com os outros. Aprendemos a respeitar os tempos de crescimento, a confiar na ação de Deus e a colaborar com a sua graça. O Reino de Deus já está entre nós, não porque tudo seja perfeito, mas porque a verdade, a beleza e a bondade já começam a acontecer.Alimentados pela Palavra e fortalecidos pela graça, recebemos a coragem para nos comprometermos, com esperança, na construção de um mundo mais humano, mais justo e mais fraterno.

  30. 971

    XVI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XVI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  31. 970

    XVI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XVI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  32. 969

    XVI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XVI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  33. 968

    XV Domingo do Tempo comum - Homilia

    A Palavra de Deus ocupa hoje o centro da liturgia. Quando falamos da Palavra de Deus, pensamos muitas vezes apenas na Bíblia. Mas a Palavra de Deus é mais do que um livro: a Sagrada Escritura, lida na Tradição viva da Igreja, conduz-nos até Jesus Cristo, que é a Palavra de Deus feita carne.Podemos cair em dois extremos. O primeiro é pensar que a Palavra de Deus é apenas mais uma palavra entre tantas vozes que ouvimos todos os dias. O segundo é imaginá-la tão distante e misteriosa que nunca a poderemos compreender. A verdade é outra: a Palavra de Deus é uma palavra humana na qual Deus Se diz. Deus fala-nos através de palavras humanas para entrar em diálogo connosco e transformar a nossa vida.Vale a pena perguntar: tenho verdadeiramente fé na Palavra de Deus? Ou procuro nela apenas um consolo para os momentos difíceis? A Palavra não nos é dada apenas para confortar, mas para nos converter, para nos tornar aquilo que Deus sonha para cada um de nós.Isaías oferece-nos uma imagem belíssima: «Assim como a chuva e a neve descem do céu e não voltam para lá sem terem regado a terra, assim acontece com a palavra que sai da minha boca: não voltará para Mim sem ter produzido o seu efeito.» A questão é esta: a Palavra produz efeito em nós?Todos sabemos como determinadas palavras permanecem na nossa memória. Uma palavra de carinho enche-nos de alegria; uma palavra dura pode ferir-nos durante muito tempo. As palavras significativas acompanham-nos, ocupam o coração e transformam a nossa maneira de olhar a realidade. Assim acontece também com a Palavra de Deus: ela só produz fruto quando a guardamos, a meditamos e a deixamos habitar em nós.O Evangelho compara a Palavra à semente. A semente é pequena, quase insignificante, mas está cheia de vida. Quando encontra terra boa, torna-se planta, árvore, fruto abundante. Também a Palavra de Deus pode parecer discreta perante tantas mensagens que diariamente nos rodeiam, mas possui uma força de vida incomparável.Precisamente porque comunica vida, a Palavra desafia-nos. Desinstala-nos, tira-nos da mediocridade e convida-nos a dar passos que talvez não estivéssemos dispostos a dar. Por vezes dizemos: «Não entendo a Palavra de Deus.» Mas será sempre falta de compreensão? Ou será, por vezes, resistência ao caminho novo que ela nos propõe?Quando deixamos que a Palavra atue, ela não nos anestesia. Pelo contrário, torna-nos mais atentos, mais sensíveis, mais humanos. Faz-nos perceber melhor aquilo que desumaniza, aquilo que precisa de ser mudado, e desperta em nós o desejo de uma vida mais plena.É neste sentido que São Paulo afirma que os sofrimentos do tempo presente não se podem comparar com a glória que há de manifestar-se em nós. A conversão pode implicar algum desconforto, porque abandonar hábitos, corrigir atitudes e recomeçar nunca é fácil. Mas trata-se de uma dor fecunda, que prepara uma vida nova.Deus não nos olha para nos condenar. Olha-nos como filhos muito amados, chamados à plenitude da vida. É por isso que nos dirige a Sua Palavra: para que cresçamos, amadureçamos e demos fruto.Perante este Evangelho, fica uma pergunta para cada um de nós: que espécie de terra sou eu? Um coração endurecido e fechado, ou uma terra fértil, disponível para acolher a semente da Palavra de Deus e deixar que ela produza fruto abundante?

  34. 967

    XIV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  35. 966

    XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  36. 965

    XV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  37. 964

    XIV Domingo do Tempo Comum - Homilia

    O Evangelho deste domingo parece particularmente oportuno para o tempo que estamos a viver. O calor intenso, as noites mal dormidas, o cansaço acumulado e até a preocupação causada pelos incêndios fazem-nos compreender melhor o convite de Jesus: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.» Contudo, logo a seguir, Jesus acrescenta algo que, à primeira vista, parece contraditório: «Tomai sobre vós o meu jugo.» O jugo é, precisamente, o instrumento colocado sobre os animais para transportarem cargas. Como pode o Senhor prometer descanso e, ao mesmo tempo, pedir que tomemos um jugo? A imagem é profundamente esclarecedora. O jugo não serve apenas para suportar um peso; serve para o transportar da forma mais adequada, permitindo alcançar o maior resultado com o menor esforço. O jugo de Cristo não elimina as exigências da vida, mas ensina-nos a vivê-las de modo diferente: com a leveza de quem sabe que é amado incondicionalmente por Deus. Descansar, no sentido cristão, não significa simplesmente interromper a atividade. Descansar é reencontrar a nossa verdadeira humanidade. O descanso diário, semanal ou anual existe para nos retemperar, para recuperarmos a qualidade de vida a que somos chamados como filhos de Deus. É um tempo de harmonização interior, em que procuramos reconciliar aquilo que desejamos, aquilo que sentimos, aquilo que sabemos e aquilo que somos chamados a fazer. Por isso compreendemos melhor a primeira parte do Evangelho, quando Jesus louva o Pai por revelar estas verdades aos pequeninos. A vida de fé nasce da consciência de que precisamos de Deus. Conhecemo-Lo não porque acumulamos teorias ou leituras, mas porque nos deixamos amar por Ele. O verdadeiro conhecimento de Deus nasce da experiência do seu amor. Também a segunda leitura, da Carta aos Romanos, ilumina esta realidade. São Paulo distingue entre as obras da carne e as obras do Espírito. Muitas vezes reduzimos as «obras da carne» apenas aos pecados ligados à sexualidade. Mas Paulo fala de algo muito mais profundo: viver segundo a carne é viver dominado pela autossuficiência, pela arrogância, pela inveja e pelo fechamento sobre si mesmo. Quando estamos demasiado cheios de nós próprios, já não há espaço para Deus nem para os outros. Acabamos por nos destruir a nós mesmos. Viver segundo o Espírito significa deixar que a nossa vida seja animada pelo amor de Deus. As tarefas podem ser exatamente as mesmas, mas a forma de as realizar muda completamente. Já não nos colocamos no centro; deixamos que seja Deus o centro da nossa existência. É esta a paz anunciada pela profecia de Zacarias. O Messias entra humildemente, montado num jumentinho, e destrói os carros de combate e os arcos da guerra. A paz que Deus oferece não elimina todas as dificuldades da vida, mas transforma a maneira como as enfrentamos. Sabemos que Deus está verdadeiramente presente quando a paz habita as nossas comunidades, quando nos respeitamos, quando reconhecemos em cada pessoa não apenas um indivíduo ou um crente, mas um filho amado de Deus. Se vivermos com esta consciência, procurando agir segundo o Espírito, construiremos comunidades mais humanas, mais fraternas e mais pacíficas. Então compreenderemos o verdadeiro sentido do descanso de que Jesus fala. As ondas de calor poderão continuar, as dificuldades não desaparecerão, mas haverá dentro de nós e entre nós uma paz que nos permitirá viver tudo isso de maneira diferente, sustentados pelo amor de Deus.  

  38. 963

    XIV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XIV Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  39. 962

    XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XIV Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  40. 961

    XIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XIV Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  41. 960

    XIII Tempo Comum - Homilia

    A liturgia da Palavra deste domingo convida-nos a olhar para a nossa vida e a meditar na nossa condição de filhos de Deus. Rezámos na oração coleta que, por adoção divina, Deus nos tornou filhos da luz. Isto significa que somos chamados a ver o mundo com a luz de Cristo. A realidade nem sempre muda; o que muda é a nossa forma de a compreender, de a habitar e de interagir com ela.É neste horizonte que escutamos a primeira leitura, do Segundo Livro dos Reis. Eliseu é acolhido por uma mulher de Sunam, que o convida a entrar, lhe oferece uma refeição e reconhece nele a passagem de Deus pela sua vida. Por isso, decide preparar-lhe um pequeno quarto, um lugar onde o profeta pudesse repousar quando por ali passasse. Este gesto simples mostra-nos algo essencial: acolher Deus é acolher aquele que passa pela nossa vida, aquele que está ao nosso lado, aquele de quem o Senhor se serve para se tornar presente entre nós.Quando acolhemos Deus, tornamo-nos homens e mulheres novos. Renasce em nós uma vida diferente, uma vida mais plena, orientada pelos valores do Evangelho. Na primeira leitura, esse acolhimento gera vida: «Daqui a um ano, terás um filho nos braços». No caso daquela mulher, trata-se de vida biológica; em nós, trata-se de uma vida nova, uma vida que se reorganiza segundo Deus.É também assim que devemos compreender as palavras fortes de Jesus no Evangelho: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim». À primeira vista, estas palavras podem parecer duras, quase uma oposição entre Deus e a família. Mas não é isso que o Senhor nos diz. Ele recorda-nos que o primeiro amor deve ser Deus; e que todos os outros amores encontram nele a sua justa medida. Quando outro amor ocupa o lugar de Deus, esse amor pode transformar-se em ídolo e desordenar a vida. Quando Deus é o amor primeiro, o amor à família, aos amigos e ao próximo não diminui; pelo contrário, purifica-se, aprofunda-se e torna-se mais verdadeiro.Amar a partir de nós é muitas vezes procurar no outro aquilo que nos falta. Amar a partir de Deus é desejar para o outro a plenitude da vida. Isto é mais exigente, não menos. Exige entrega, liberdade interior e conversão. Por isso, Jesus acrescenta: «Quem encontrar a sua vida há de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa há de encontrá-la». Quem procura salvar a vida apenas segundo os seus cálculos acaba por desperdiçá-la; quem a entrega a Cristo descobre nela uma fecundidade nova.Mas esta radicalidade não se manifesta apenas em gestos heroicos. O Evangelho termina com uma imagem muito simples: «Quem der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, não perderá a sua recompensa». As grandes exigências de Deus concretizam-se nas pequenas coisas de cada dia: dar um copo de água, abrir uma porta, deixar passar alguém à frente, não responder à violência com violência, ser delicado à mesa, escutar com atenção, ajudar quem precisa de uma informação, tratar com bondade até quem não conhecemos.Também a cruz de que Jesus fala não é um convite ao sofrimento pelo sofrimento. Tomar a cruz é assumir a vida concreta, com as suas alegrias e dificuldades, com as suas feridas e possibilidades, e fazer dela o lugar do encontro com Deus. É nas pequenas fidelidades do quotidiano que somos moldados como discípulos.Assim compreendemos melhor que a Igreja é sacramento universal de salvação: sinal eficaz da graça de Deus no mundo. Também a nossa vida, quando iluminada por Cristo, pode tornar-se sinal de salvação. Peçamos, pois, a graça de acolher Deus nas pessoas e nos acontecimentos, de o amar sobre todas as coisas e de organizar a nossa vida segundo esse amor que gera vida, e vida em plenitude.

  42. 959

    XIII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XIII Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  43. 958

    XIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XIII Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  44. 957

    XIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XIII Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  45. 956

    XII Domingo do Tempo Comum - Homilia

    Um dos temas centrais da Liturgia da Palavra de hoje é o testemunho. O testemunho é natural na vida de qualquer pessoa e, por maioria de razão, na vida de um cristão. Contudo, a nossa linguagem e prática eclesial acabam, por vezes, por o deturpar. Dizemos, por exemplo: «Vou dar testemunho». Mas o testemunho, em rigor, não se dá; o testemunho é-se.Ser testemunha não consiste em preparar um discurso para convencer alguém, como se a fé fosse uma técnica de marketing ou de publicidade. O testemunho é a própria forma de existir. Na maneira como vivemos, falamos, escolhemos e nos relacionamos, manifestamos aquilo que ocupa o centro da nossa vida, quais são as nossas prioridades e qual é a razão pela qual consideramos que vale a pena existir. Ser cristão é, por isso, ser testemunha. Não temos de nos preocupar, em primeiro lugar, em dar testemunho; temos de procurar ser discípulos de Jesus Cristo.A primeira leitura apresenta-nos Jeremias, um homem perseguido, incompreendido e ameaçado por permanecer fiel à missão que Deus lhe confiara. No meio da perseguição, porém, ele reconhece: «O Senhor está comigo como herói poderoso». Esta é também uma das grandes dificuldades da vida cristã: muitas vezes sentimo-nos sozinhos. E sentimo-nos sozinhos porque talvez já não prestemos atenção suficiente à presença de Deus ou porque nos isolamos, pensamos apenas a partir de nós próprios e esquecemos que pertencemos a uma comunidade.Deus fala-nos também através dos irmãos e das irmãs que connosco vivem a fé. Por isso, é tão importante estar inserido numa comunidade: nela encontramos mediações de Deus que nos recordam, alentam, confortam e, quando necessário, também nos despertam e corrigem.Perante o sofrimento, podemos pensar que o mal vence. São Paulo, na segunda leitura, não ilude a realidade: o mal e o pecado existem, e todos sentimos as suas consequências. Mas o mal não tem a última palavra. Mais forte do que o pecado é a graça; mais forte do que a nossa fragilidade é a fidelidade de Deus.No Evangelho, Jesus reafirma esta certeza: Deus está presente, sustenta-nos e conhece-nos profundamente. «Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.» Esta imagem diz-nos que nenhum aspeto da nossa vida é insignificante para Deus. Podemos não nos conhecer plenamente nem reconhecer as feridas e os medos que nos habitam. Deus, porém, conhece-nos e não nos abandona. Por isso, podemos confiar n’Ele e deixar que a nossa vida, com o desejo sincero de seguir Jesus Cristo, se torne testemunho do seu amor.É importante, contudo, não confundir testemunho com exemplo. O exemplo apresenta frequentemente alguém irrepreensível, acabado, quase inacessível. O testemunho cristão não consiste em afirmar: «Eu faço tudo bem». Consiste antes em reconhecer: «Eu apoio-me na força de Deus; confio na sua graça». Muitas vezes falhamos, somos infiéis e não correspondemos ao discípulo que Jesus espera. Mas o essencial é desejarmos segui-Lo e confiarmos mais na sua misericórdia do que nas nossas capacidades.Por isso, às vezes, é precisamente quando as coisas correm mal que o testemunho se torna mais verdadeiro. Quando tudo parece contrário e, apesar disso, conseguimos dizer: «Deus está aqui; Deus sustenta-me; Deus ampara-me», então a nossa vida aponta para além de nós.Bento XVI definiu de modo admirável o testemunho cristão: somos testemunhas quando, através das nossas ações, das nossas palavras e do nosso modo de ser, é Outro que se manifesta. Não somos testemunhas quando atraímos a atenção para nós, mas quando apontamos para Jesus Cristo, para Deus e para a sua graça.Não precisamos, portanto, de nos apresentar como pessoas impecáveis. Se o fizéssemos, não seríamos testemunhas, mas mentirosos. Somos testemunhas quando podemos dizer, com verdade e humildade: «Sou frágil, falho muitas vezes, mas Deus trabalha em mim». Esta certeza liberta-nos do peso de parecermos perfeitos e permite-nos viver a fé com mais confiança, mais verdade e mais alegria.

  46. 955

    XI Domingo do Tempo Comum - Homilia

     © Mark Wallinger. Courtesy the artist and Hauser & Wirth. Se calhar, ainda estou muito marcado pela solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que celebrámos na passada sexta-feira. Mas, ao escutar as leituras de hoje, não consigo deixar de ver nelas a mesma verdade fundamental: a paixão de Deus por cada um de nós, o amor gratuito, excessivo e misericordioso com que Ele nos ama.Muitas vezes, porém, crescemos com uma imagem deturpada de Deus: “porta-te bem para Jesus gostar de ti”, “faz isto para Deus gostar de ti”, “não faças aquilo, senão Deus deixa de gostar de ti”. São frases que parecem piedosas, mas estragam a nossa relação com Deus, porque nos fazem pensar que o seu amor tem de ser comprado, merecido ou conquistado.A primeira leitura mostra exatamente o contrário. Deus diz a Israel: “Vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim.” Primeiro, Deus liberta. Primeiro, Deus chama. Primeiro, Deus faz o bem. Só depois propõe a aliança e convida o povo a viver de acordo com essa experiência de libertação. A obediência não é o preço do amor de Deus; é a resposta agradecida de quem já foi amado.São Paulo diz o mesmo de forma ainda mais forte: “Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios.” Cristo não morreu por nós quando já éramos santos, perfeitos ou merecedores. Morreu por nós quando éramos fracos, pecadores, incapazes de nos salvar a nós mesmos. É esta a loucura de Deus: Ele ama-nos antes de qualquer mérito nosso. Podemos ser frágeis, incoerentes, uns pequenos diabinhos; mesmo assim, Deus não deixa de nos amar.O Evangelho concretiza esta verdade. Jesus vê as multidões e enche-se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus não começa por julgar, criticar ou condenar. Começa por se comover. Começa por sofrer com o sofrimento dos outros. E depois envia os discípulos. Isto é decisivo: ser cristão não é, antes de tudo, saber muitas coisas ou fazer muitas atividades. Ser cristão é participar na compaixão de Deus.A pastoral, a oração, a Eucaristia, a vida cristã inteira deveriam nascer desta certeza: Deus ama-nos. Se rezamos, celebramos e servimos, não é para comprar Deus, nem para o convencer a olhar para nós. É porque já fomos olhados, amados e alcançados pela sua misericórdia. A conversão começa aqui: deixar os nossos esquemas humanos, marcados pelo cálculo, pelo medo e pela recompensa, e aprender a mentalidade de Jesus Cristo.Por isso, Jesus diz: “Não sigais o caminho dos gentios.” Isto quer dizer: não entreis na lógica do mundo, na lógica do interesse, da troca, do prestígio ou da recompensa. Ide aos que estão perdidos, anunciai que o Reino dos Céus está próximo, curai, levantai, libertai. O amor recebido de Deus torna-se amor oferecido aos outros.Podemos chamar a isto um estilo samaritano, uma espiritualidade hospitaleira. Ser hospitaleiro é acolher o outro na sua diferença, sem o julgar nem o reduzir ao que eu penso dele. É dar-lhe não apenas aquilo que eu acho que ele precisa, mas aquilo de que ele efetivamente precisa. E isto vale também para Deus. Acolher Deus é acolher o diferente, Aquele que não cabe nos nossos esquemas. Não há ninguém mais diferente de nós do que Deus.Por isso, deixar-se amar por Deus é fácil e difícil. É fácil, porque a nossa vida está cheia de sinais do seu amor. Mas é difícil, porque temos orgulho, feridas, medos e histórias que nos tornam desconfiados diante de uma bondade tão grande.O Evangelho termina com uma frase luminosa: “Recebestes de graça; dai de graça.” Recebeste como dom; oferece como dom. Dar de graça é dar sem esperar aplauso, resultado ou reconhecimento. É cumprir a vontade de Deus sem esperar recompensa que não seja fazer a sua vontade.Humanamente, isto é difícil. Precisamos de reconhecimento e cuidado, também connosco próprios. Mas a raiz da vida cristã permanece esta: antes de tudo, fomos amados gratuitamente por Deus. E é dessa gratuidade recebida que nasce a gratuidade oferecida.

  47. 954

    XI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    XI Domingo do Tempo Comum - Evangelho

  48. 953

    XI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

    XI Domingo do Tempo Comum - Segunda Leitura

  49. 952

    XI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

    XI Domingo do Tempo Comum - Primeira Leitura

  50. 951

    X Domingo do Tempo Comum - Evangelho

    X Domingo do Tempo Comum - Evangelho

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