Exposição em Paris tenta traduzir o que é o “chez-soi” num mundo de migrações episode artwork

EPISODE · Sep 9, 2026

Exposição em Paris tenta traduzir o que é o “chez-soi” num mundo de migrações

from Artes · host RFI Português

A Casa de Portugal André de Gouveia, em Paris, inaugurou, esta terça-feira, 8 de Setembro, uma exposição de arte contemporânea intitulada “Enfin, Chez-Soi?” [“Finalmente em casa?”] e que aborda os temas da identidade, do sentimento de pertença e das experiências diaspóricas. A mostra tem curadoria de Aïcha Lopes e Liliana Tavares Ribeiro e junta obras de Ana Isabel Freitas, Carlota Matos, Carlota Sandoval Lizarralde e de alunos do Atelier des Noctambules coordenado pela artista plástica Nathalie Afonso. Num mundo com um ADN de migrações e em que a identidade se vai construindo na itinerância, a exposição “Enfin, Chez-Soi?”, [em português “Finalmente em casa?”], aborda “uma construção íntima, social e política” que ultrapassa a mera dimensão espácio-temporal. Logo à entrada da mostra instalada na Casa de Portugal, na Cidade Universitária de Paris, podemos ler que “estar em casa já não se resume apenas a um sentimento interior, mas a um reconhecimento exterior – o do lugar, do olhar dos outros, dos quadros normativos que autorizam ou recusam a pertença”. As curadoras da exposição, Aïcha Lopes e Liliana Tavares Ribeiro, quiseram questionar o que é o “chez-soi”, uma expressão que admitem ser de difícil tradução, mas que aproximam do sentimento de pertença e do “sentir-se em casa” quando se vive entre duas ou mais culturas, países e línguas. Ambas criaram, no ano passado, a sua dupla de curadoria a que chamaram Alquimia e avançaram com esta mostra no âmbito de um projecto académico para concluir o Mestrado Internacional de Arte Contemporânea.  “A Liliana e eu decidimos fazer esta exposição simplesmente porque nos sentíamos entre duas culturas. No meu caso, não é apenas entre duas, mas entre várias culturas, entre várias línguas. É este o tema desta exposição: há o tal 'entre culturas' e o ponto de interrogação no título permite questionar isso e também interrogar o país de onde vimos, a origem dos nossos pais, metendo tudo na mesma sala e tentando encontrar um sentido para isto tudo”, explica Aïcha Lopes. “A exposição fala do facto de se sentir entre duas culturas, duas línguas, se calhar dois lugares, e de saber ou não saber onde se encontra a sua própria casa. Eu não gosto muito de traduzir o título da exposição, ‘Enfin, Chez-Soi?’. O ‘chez-soi’ é uma expressão francesa muito importante para nós que moramos em França. O meu pai, quando chegou a França, ficou muito impressionado com a importância dessa expressão, do ‘chez-soi’, que é quase intraduzível para português. O título é uma questão porque não queremos dar uma resposta certa e queremos questionar a individualidade de cada um sem dar uma resposta. Queremos falar destes assuntos, do sentimento de pertença e das migrações”, acrescenta Liliana Tavares Ribeiro. E foi simbolicamente na Maison du Portugal André de Gouveia, dentro da vasta Cité Universitaire de Paris que acolhe milhares de estudantes das mais diversas nacionalidades, que as curadoras decidiram instalar este “Enfin, Chez-Soi?”. Até 20 de Setembro, esta Casa convida o visitante a “sentir-se em casa”, “chez-soi”, com uma exposição composta por instalações, pinturas e videoarte. À entrada, um conjunto de obras da colombiana Carlota Sandoval Lizarralde, uma pintura monumental, uns pequenos cantis de “água benta” a representarem a Virgem Maria e uma ventoinha de onde esvoaçam terços religiosos. É que além da visão, a mostra reivindica um lado sensorial que implica também a audição, o cheiro e até o paladar, já que, noutras ocasiões, Carlota Sandoval Lizarralde convidou o público a beber “água benta”. Ainda no hall da Maison du Portugal, um filme sem som - porque o seu som foi deslocado para outra sala - sobre a dança e as nossas origens, intitulado “Dans le Rythme, Mes Racines”, da portuguesa Ana Isabel Freitas. A exposição continua na Sala Pessoa, onde, nas paredes, há pinturas desta artista, paisagens de memória, ecos de saudade e impressões de movimentos, continuadas por panos delicados a apontarem para o chão, para a terra, para as raízes. A artista contou-nos a história destas obras. “As obras que tenho atrás de mim fazem parte de uma série que se chama ‘Pour ma terre natale’, ‘Para a minha terra-natal” e que foram feitas aqui na Casa de Portugal há mais de dez anos. Quando cheguei a Paris, pela primeira vez, tinha um atelier aqui, uma residência, e entrevistei onze pessoas que, como eu, estavam num momento de transição, que estavam a tentar encontrar uma nova fase. Cada um escreveu-me uma mensagem sobre a sua casa, para o seu ‘chez-soi’, que eu depois representei segundo a língua materna da pessoa e a mensagem em onze obras com paisagens da minha terra-natal, do meu 'chez-moi'. Tenho também uma outra obra de 2012 que fez parte do meu projecto final das Belas-Artes do Porto, portanto, é um momento de transição para uma vida adulta, um início de vida adulta e do meu posicionamento em relação à pintura para uma passagem para obras mais conceptuais e de performance. E, por último, uma obra de 2020, um filme de oito minutos que foi uma encomenda da cidade de Plaisir, quando já estava mais instalada em França, sobre a forma como a dança e o ritmo estão ligados às raízes e a um sentido de pertença num lugar e no próprio corpo”, descreve. Uma cabine fechada por cortinados é outro convite para viver uma experiência de alteridade a partir de um vídeo da artista portuguesa Carlota Matos, no qual uma adolescente imita minuciosamente os gestos e as palavras da sua mãe, uma mulher migrante que conta a sua história. Carlota Matos explicou-nos o conceito. “Faço parte aqui da exposição com uma peça que se chama 'Pour une vie meilleure’, ‘Por uma vida melhor’. É uma instalação de vídeo, temos aqui a cabine, e isto faz parte de um projecto maior em que eu trabalhei com mais de 80 jovens, dei alguns ateliers em liceus e cada jovem entrevistou um membro da sua família, seja um pai, uma mãe, um avô, uma avó. E depois disso trabalhei com uma jovem em específica, a Helena, que tem 16 anos e é franco-brasileira. Ela entrevistou a mãe e depois explorámos um bocadinho a técnica do verbatim. O que é o verbatim? A Helena estava a ouvir a entrevista original e a repetir exactamente as palavras da mãe, os seus silêncios, as suas respirações. E, portanto, era a história da mãe através da voz dela. Isto faz-nos pensar um bocadinho na forma como nós próprios carregamos estas histórias e como estas histórias também se transmitem de uma geração para a outra”, conta. Há, também, uma experiência imersiva em que o visitante coloca uns óculos de Realidade Virtual para entrar noutro “chez-soi”, uma obra desenvolvida pelo Atelier des Noctambules, um colectivo guiado pela artista plástica Nathalie Afonso. O grupo também apresenta um biombo de azulejos em que cada aluno definiu o que é o seu “chez-soi”, o “sentir-se em casa”, como nos explica Nathalie Afonso. “São telas pequeninas, do tamanho de um azulejo pintado em azul e branco, e cada um deles é uma maneira de dar a ver qual é a coisa que dá a sensação de se estar em casa. Então, tem pessoas que vêm da Bretanha, tem pessoas que vêm da Síria, tem alunos que vêm de Marrocos, de Portugal também. Cada um deles pintou um objecto que têm sempre em casa. Tem uma senhora da Síria que fez a pulseira que a irmã deixou, na guerra… Ela faleceu e a irmã está sempre com a pulseira. Para ela, é uma parte dela que está lá na Síria. Tem outra pessoa que meteu a igreja onde nasceu e que nunca mais viu porque teve que deixar a Itália. É uma pessoa de idade, que tem 90 anos e teve que fugir ao fascismo”, explica a artista. À porta da exposição, uma árvore discreta em que as duas curadoras penduraram terços e rosários de diferentes religiões, oriundos das suas próprias casas, num gesto que reivindicam como de união num mundo cada vez mais polarizado. Oiça a reportagem na exposição neste programa.

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