EPISODE · Jun 26, 2019 · 55 MIN
Fausto
from Estado da Arte
O diabo ofereceu-se três vezes para pactuar com Jesus (além de propor, pela boca de Pedro, que fugisse de Cruz), mas (desconsiderada a barganha entre Eva e uma serpente) a primeira pessoa a fazer um pacto com Satanás foi o próprio Deus, ao permitir que infernizasse a vida de Jó. Porém o mais famoso pactário de todos os tempos foi Fausto – e o mais bem-sucedido demônio foi Mefistófeles. Nem o diabo dantesco, eternamente imobilizado no gelo do fundo do inferno, mastigando três cabeças com suas três cabeças, nem o príncipe rebelde do Paraíso Perdido de John Milton, Mefistófeles é mundano, prestativo, jocoso, quase um amigo, ou melhor, um perfeito serviçal, pronto a servir ora como um estudante, ora como um bufão, um mágico, um cavalheiro, um general e até mesmo um… poodle. Generoso, seu pacto com Fausto previa gozo, saber e poder ilimitados por 24 anos, mas já dura a quase 500. Enquanto como bom servo ele se apagava, a ponto de, como dizia Baudelaire, convencer o homem moderno de que não existe, a estrela de Fausto brilhava: ele penetrou os segredos da natureza, enriqueceu ao lado de imperadores, se casou com Helena de Troia e hoje é, junto a outros como Don Juan, Don Quixote, Hamlet ou Robinson Crusoe, um dos grandes mitos do individualismo moderno. Mas este arquétipo do intelectual desesperançado, orgulhoso e insaciável é o único cuja lenda tem uma origem documentada: um certo Georg Faust, mago que segundo Lutero chamava o diabo de “cunhado” e para Melanchthon era uma “besta vil e um poço de muitos demônios”. Logo após a sua morte, entrou para o folclore em brochuras moralizantes como pactário exemplar e delas foi absorvido pelos teatros de marionetes de onde entretém crianças até hoje. Foi elevado à grande literatura com a tragédia de Christopher Marlowe, e ali introduzido à Academia e ao inferno. Com a de Goethe chegou aos céus, ganhando contornos épicos (ainda que cômicos), e no romance de Thomas Mann o mito foi transfigurado (ainda que desconstruído). A barganha fáustica também inspirou diretamente autores como Lessing, Heine, Lenau, Púchkin, Turgueniev, Paul Valéry, Klaus Mann, Boulgakov e Fernando Pessoa, e, indiretamente Byron, E.T.A. Hoffmann, Dostoiévski, Oscar Wilde e Guimarães Rosa. Protagonista de óperas de Berlioz, Busoni, Gounot e Arrigo Boito, e peças orquestrais de Schumann, Liszt, Wagner, Mahler e, claro, do grande Adrian Leverkühn – isso sem falar no cinema, de Murnau a Sokurov –, Fausto avança incansável rumo ao Terceiro Milênio. De fato, pergunta Erich Heller: “Qual é o pecado de Fausto? Sua inquietude de espírito. Qual é a salvação de Fausto? Sua inquietude de espírito.” Convidados Juliana Perez: Professora de literatura alemã da Universidade de São Paulo e membro do grupo de pesquisa “Literatura e Sagrado”. Marcus Mazzari: Professor de teoria literária da Universidade de São Paulo e autor da tese de livre-docência Romance de formação, pacto fáustico e outros temas de literatura comparada. Patricia Maas: Professora de literatura alemã na Universidade Estadual Paulista e autora de O cânone mínimo: o Bildungsromanna história da literatura. O post Fausto apareceu primeiro em Estado da Arte.
NOW PLAYING
Fausto
No transcript for this episode yet
Similar Episodes
Sep 3, 2024 ·62m
Jun 11, 2024 ·64m
Jun 8, 2024 ·1m
Dec 20, 2023 ·40m
Dec 13, 2023 ·32m
Dec 6, 2023 ·27m