EPISODE · Jan 11, 2026 · 12 MIN
Festa do Batismo do Senhor - Homilia
from Uma palavra no seu caminho · host Luís M. Figueiredo Rodrigues
Ao passarmos do tempo do Natal para o tempo comum, a liturgia faz-nos celebrar a festa do Batismo do Senhor. No Evangelho, João Batista batiza no Jordão com um batismo de penitência e de conversão, para lavar e purificar os pecados. É neste contexto que Jesus se aproxima para ser batizado. João estranha e resiste: “Eu é que preciso de ser batizado por Ti, e Tu vens ter comigo?” Mas Jesus responde: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça.” Aqui vê-se o projeto de vida de Jesus: Ele assume por inteiro a nossa condição humana. Por vezes imaginamos Jesus como um “super-homem”. É verdade que Jesus Cristo é verdadeiro Deus, mas é igualmente verdadeiro homem; e, para viver até ao fim a missão recebida, entra na nossa história com a densidade real da vida humana: com as suas dúvidas, escolhas e lutas interiores, com dificuldades, tentações e contradições, permanecendo fiel ao Pai até às últimas consequências.Depois do batismo, os céus abrem-se, o Espírito de Deus desce como pomba e uma voz proclama: “Este é o meu Filho muito amado, em Quem pus toda a minha complacência.” Quem é este Filho, e que Messias esperava o povo? A primeira leitura de Isaías dá-nos o retrato do Servo eleito: sustentado por Deus, cheio do Espírito, enviado para levar justiça às nações. Não se impõe pela força, nem pelo grito, nem pela violência; impõe-se pelo serviço e pela dedicação. “Não quebrará a cana já fendida” e “não apagará a torcida que ainda fumega.” A imagem é belíssima: quando a cana já está rachada e frágil, Ele não a parte; como numa candeia a azeite, quando o pavio já só fumega e já só resta um fio de brasa, Ele não apaga; guarda esperança.“Complacência” é uma palavra pouco usada, mas diz isto: o olhar de Deus com alegria, ternura e prazer, como o olhar de um pai e de uma mãe sobre o seu filho. Deus olha para Jesus e põe n’Ele toda a sua alegria e todo o seu cuidado.Ao celebrarmos o batismo de Jesus, recordamos também o nosso batismo. Muitos não se lembram, porque foram batizados em bebés, mas, mais tarde, cada um foi confirmando o seu “sim” a Cristo. Por isso, aquilo que hoje ouvimos acerca de Jesus toca a nossa identidade: também sobre nós Deus diz, no batismo, “tu és meu filho muito amado”. Aqui está o motor da vida cristã. Não somos cristãos por obrigação, por medo, nem para “fazer pontos”. Somos cristãos porque, antes de tudo, nos sabemos amados; e desse amor nasce um estilo: não levantar a voz para nos impormos, não quebrar a cana fendida, não apagar a torcida que ainda fumega.Isto é relativamente fácil com desconhecidos e com os fortes; custa mais com quem está “na mão de baixo” e, sobretudo, com os de casa, onde conhecemos as feridas e os erros repetidos. Aí, ser cristão é aprender a esperar contra toda a esperança: voltar a olhar, recomeçar, oferecer uma palavra e um gesto que não fecham a porta ao futuro. E de onde vem a força para isto? Não vem apenas das nossas energias. Vem do amor de Deus: um amor total, alegre, fiel e eterno, um amor em que Deus sente prazer só em amar-nos.Por isso, quando a liturgia nos envia, as fórmulas do Missal podem resumir tudo como programa de vida: “Glorificai a Deus com a vossa vida” e “A alegria do Senhor seja a vossa força.” Se aceitarmos, de verdade, que somos batizados a partir da experiência de sermos amados por Deus, então esse amor transforma-nos, redime-nos e liberta-nos.
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